Tempos de Mudança - Capítulo 10
Recados:
- Olá a todos. Chegamos ao capítulo 10.
- Chegou com um dia de atraso, mas chegou XD.
- Eu particularmente gosto quando algo chega a um número redondo assim.
- Teremos mais algumas pistas sobre o passado de alguns Cavaleiros nesse capítulo.
Boa leitura!
Ruas de Kavos
Vestidos em roupas casuais, dois grupos caminhavam pelas poucas ruas da cidade de forma descompromissada. De um lado Mu, Saga, Kanon, Shaka, Kamus e Dohko. No outro, Atena, Seiya, Seika, Shiriyu e Shunrei. A jovem Kido queria aproveitar rara chance que tinha para ser apenas mais alguém no meio da multidão. Começaram o passeio juntos, mas logo o segundo grupo ficou para trás, com as mulheres distraídas com as várias lojas na rua principal. Os cavaleiros de ouro caminhavam sem tantas paradas, mas também prestando atenção nas atrações que a cidade poderia oferecer. Passaram pela rua à beira-mar, vendo aqueles que estavam na praia. Por ser alta temporada, a cidade estava cheia de turistas. Eles passeavam completamente anônimos. Sem ninguém para reverenciá-los por serem cavaleiros, sem ninguém os cumprimentando por serem seus superiores... Nada. Apenas seis homens aproveitando um passeio turístico. Mu e Shaka se sentiam um pouco incomodados com a grande movimentação de pessoas, pois preferiam uma vida reclusa. Já os outros quatro pareciam aproveitar o momento de anonimato. Quando deram conta, já era meio da tarde. Quando passaram em frente a um bar, Saga falou para todos.
- Vamos parar e beber algo, está muito quente para continuarmos agora.
- Concordo. Vamos matar algum tempo aqui até esse sol baixar...
Kamus reclamou. Como sempre, era o que mais reclamava do calor, e dessa vez não poderia simplesmente usar seu cosmo para se resfriar. Após algumas gargalhadas entraram e ocuparam uma mesa externa onde tinham uma visão da praia e da movimentação à sua frente. Um garçom veio atendê-los e entregar alguns cardápios.
- Vocês têm alguma idéia do que vão pedir? Será que não tem nada que não seja com álcool?
Shaka comentava com algum nervosismo.
- Tem sim, Shaka. É só você procurar direito.
Kanon falava lendo o seu cardápio.
- Eu vou pedir retsina. Alguém me acompanha?
O francês perguntou, tendo a resposta de Mu e Dohko.
- Vocês vão beber a essa hora?
O virginiano falou surpreso.
- Shaka, você mora há quantos anos na Grécia? Será que você não sabe como funciona? Você pede uma bebida, e alguns mezédes vem para acompanhar.
Saga disse com leve nervosismo.
- Eu quero ouzo. Vou pedir água gelada para poder diluir.
- Eu também vou querer.
O outro gêmeo respondeu. Shaka, vendo que era inútil discutir mais, decidiu o que queria também.
- Eu quero um chá gelado. E pra comer?
- Eu aconselho feta, kalamata, e um pouco de pão para começarmos.
A proposta de Saga pareceu ter agradado a todos. Em poucos minutos os pedidos estavam na mesa.
- Eu proponho um brinde. Aos novos tempos...
Dohko ergueu seu copo, sendo acompanhado pelos outros.
- Aos novos tempos.
Após brindarem, o cavaleiro de libra continuou.
- Não, sinceramente. Quem de vocês poderia imaginar essa cena há 4, 5 anos? Os homens mais poderosos do planeta jogando conversa fora no meio da tarde enquanto comem e bebem?
Ele falava olhando para o mar.
- Os tempos mudam... Pensei que não aprenderia a viver fora do clima "militarizado" em que vivemos desde quando começamos os treinamentos. Mas eu estava errado.
Kamus comentava bebericando seu copo.
- Agora que não precisamos mais nos importar apenas com poder, podemos deixar outros "dotes" nossos virem à tona...
Kanon falava, enquanto cruzava olhares com algumas jovens que pareciam admirar os cavaleiros sentados à mesa enquanto caminhavam, mandando um aceno para elas, que responderam com acenos e beijos.
- Modéstia nunca foi seu forte. Não é, Kanon?
Shaka comentava com certa ironia.
- Se tem tanta confiança, por que não vai lá conversar com elas?
Continuou, parecendo querer instigar o outro, o que não era normal, vindo de Shaka.
- Não posso. Não mais... Karin me mataria se soubesse disso.
Todos na mesa pararam o que faziam, olhando para Kanon com clara surpresa no olhar.
- Karin? Quem é Karin?
Kamus perguntou, parecendo o primeiro a sair do choque.
- Opa. Acho que falei mais do que devia. Era pra manter segredo, pelo menos até amanhã.
- Kanon... Você está namorando, e não contou ao seu irmão?
Saga parecia não acreditar no que ouvia, e que seu gêmeo havia lhe escondido aquela informação.
- Como eu disse. Era pra ser segredo até amanhã.
- Amanhã?... Ela vai estar na festa?
Kanon respondeu com um aceno positivo.
- Amanhã você irá conhecer sua cunhada, Saga. Prepare-se.
- E o que Atena disse sobre isso?
Dohko perguntou com certa preocupação.
- Ela também não sabe. E mesmo se soubesse que diferença faria? Com Saga de volta, ele é o cavaleiro de gêmeos. Eu voltei ao meu posto de general de dragão marinho, e Poseidon não vê problema.
Os outros se olharam, fazendo expressões de acordo e conformismo.
- Aliás, desde quando Atena não permite que os cavaleiros se relacionem? Já perguntaram a ela?
Foram pegos de surpresa por aquela pergunta. Com as batalhas, não era permitido aos cavaleiros terem relações afetivas. Mas e agora? Ela permitiria?
- Eu não tenho motivos para perguntar. Ainda...
Comentou Kamus.
- E eu acho que esse assunto deveria ficar para outra hora.
Saga disse fazendo os outros concordarem e darem continuidade a uma conversa descompromissada.
- Eu acho que vou pedir keftedes.
Kanon falou, e Dohko logo emendou.
- Peça dolmakadias também. Porque vamos ficar mais um bom tempo aqui.
Um leve coro de risadas foi ouvido na mesa, e assim a tarde passou para eles, que saíram do local quando o sol já estava relativamente baixo.
Hotel San Marina
Afrodite era um dos poucos que haviam ficado no hotel. Dormiu um pouco, assistiu televisão, e depois foi para a varanda do quatro para acompanhar o movimento. Sentia-se como se não deveria estar ali. Deveria ter ficado em Atenas, e evitado qualquer tipo de chance de contato com ele. Uma batida na porta o tirou de seus pensamentos. Foi até ela, resolvendo perguntar quem era antes de abrir.
- Quem é?
- Sou eu, Afrodite.
Ao reconhecer a voz, abriu a porta imediatamente.
- Atena? Desculpe-me.
Falou colocando-se de lado para que ela pudesse entrar no quarto.
- Não precisa se preocupar com isso. Mas eu estou ficando cada vez mais preocupada com você. Eu acabei de voltar de um passeio pela cidade. Vi vários dos cavaleiros na praia, outros conversando enquanto bebiam algo... Mas e você? Você ficou aqui dentro o dia todo. Por que, Afrodite?
O cavaleiro não respondeu, apenas abaixou a cabeça.
- Eu não deveria estar aqui...
- Do que está fugindo?
- Me perdoe por falar assim, mas nós já conversamos sobre isso. É um assunto em que a Senhora não teria como intervir.
- Por que?
- Porque você não pode obrigar alguém a amar ou deixar de amar uma pessoa!
Somente depois de seu leve acesso de raiva, que percebeu que mais uma vez havia falado demais, e em um tom muito acima do normal. No momento em que ameaçou se ajoelhar e pedir perdão, ela interrompeu o gesto.
- Finalmente eu consegui fazer você falar algo. Agora eu consigo entender. Essa... Pessoa está aqui?
Não conseguiu falar nada, apenas virou o rosto para o lado, sem coragem de encará-la.
- Você não quer falar. OK, eu compreendo. Mas você não pode continuar com essa situação. Você precisa se abrir, colocar isso pra fora. Preferencialmente com a pessoa por quem você sente isso.
- Mas...
- Se você não mudou sua opção sexual, devo supor que é um cavaleiro. Afinal nenhum homem fora da Ordem veio conosco. Do que você tem medo? De ser recusado? De que os outros não aceitem? De que eu não aceite?
Ela falou apontando para si usando as duas mãos. As palavras dela pareciam acuar o Sueco ainda mais.
- Tudo que quero é vocês sejam felizes. Saber que vocês, todos vocês, depois que tudo pelo que passaram, possam estar juntos de quem gostam... Nada me deixaria mais feliz.
As palavras da Deusa eram um alívio parcial. Saber que, mesmo que ocorra um milagre, ele terá o apoio dela, já era de alguma ajuda.
- Eu espero que você consiga resolver isso sozinho, mas se eu ver que isso está te afetando mais do que deveria, eu vou intervir. Saia desse quarto. Vá curtir o pôr-do-sol que está começando. Aproveite essa oportunidade que está recebendo de sair. Até mais, Afrodite.
Atena saiu, deixando o cavaleiro pensativo. Depois de alguns minutos, resolveu seguir o conselho de sua deusa, saindo de seu quarto. Logo caminhava com os pés na areia, mas mais próximo da calçada que da água. Pensava em muitas coisas. Agora que ele sabia, não precisava mais fingir, mas não tinha idéia do que ele faria. Sabia que ele queria conversar, mas pra falar o que? Que não queria mais vê-lo? Que ele deveria acabar com esse sentimento? Foi com esses pensamentos que se sentou na areia. O sol começava a se pôr, por trás da cidade. Na direção que Afrodite olhava um grupo de volta para o Hotel. Eram os cavaleiros que estavam no bar conversavam de forma descontraída, e quando viram o cavaleiro de peixes sentado, o cumprimentaram, resolvendo fazer-lhe companhia, sentando todos ao seu lado.
- Finalmente resolveu sair da toca?
Kanon foi o primeiro a falar. Afrodite respondeu com um sorriso sem graça.
- O que vocês fizeram a tarde toda?
- Conhecemos a cidade, depois ficamos em um bar bebendo e comendo até agora a pouco.
Mu respondeu. Depois de alguns minutos, Shura apareceu também.
- Oi. O pessoal que estava na praia foi embora, e acabou que eu fiquei sozinho. Posso me sentar com vocês?
Disse sentando e olhando o céu, que ficava cada vez mais alaranjado, até que enfim o sol se pôs por trás da cidade, mas a noite não havia caído completamente. Kanon se levantou.
- Eu já estou indo. Você vem, Saga?
- Não. Eu vou ficar um pouco mais.
Kanon estendeu a pergunta aos outros, e alguns aceitaram. Após as despedida, sobraram Saga, Shura, Kamus e Afrodite na praia. Foi o sueco que recomeçou a conversa.
- Vocês imaginaram estar nessa situação? Fora do Santuário, admirando o pôr-do-sol tem ter que se preocupar com uma guerra?
- Comentamos a mesma coisa mais cedo. É mesmo difícil acreditar que tudo mudou tanto em três anos.
Kamus comentou.
- Concordo. Eu, por exemplo, ainda estou chocado de quando Kanon falou que está namorando.
Shura e Afrodite viraram a cabeça na direção dele, e então o Grego teve que contar o que o seu irmão havia dito.
- Puxa, e ele escondeu até de você?
Shura comentou, ainda digerindo a informação.
- Qual o problema? Todos nós temos nossos segredos...
Afrodite replicou.
- Sim... Segredos que não gostamos de mexer, por comodismo ou medo...
Saga chamou a atenção de todos com aquelas palavras. O que ele não sabia, é que aquelas palavras haviam atingido a todos os presentes.
- Você também?
Afrodite foi o primeiro a falar. Todos se olharam desconfiados.
- Pelo jeito todos nós temos algo que não queremos que os outros saibam...
Kamus disse. Mais alguns instantes de silêncio, e então o cavaleiro de peixes voltou a falar.
- Alguém me disse que... Às vezes é bom conversar sobre o que se está sentido...
Saga demorou, mas respondeu
- Eu sinto como se precisasse contar isso pra alguém, mas não tenho coragem de me abrir. Mesmo com o Kanon...
- Por que não aproveita a oportunidade? Por que todos nós não aproveitamos e botamos para fora isso que está nos correndo?
O Sueco continuou, e dessa vez foi Kamus quem respondeu.
- Desde que isso fique entre nós...
- Nada mais justo. Não queremos nos expor, apenas aliviar esse peso. Alguém quer começar?
Saga falou, e não demorou para que Kamus tomasse a palavra.
- Eu tenho uma família. Pai, mãe, e irmão... Mas não falo com eles faz 8 anos. Meu pai me expulsou de casa. Ele fez algo com o qual eu não concordei. Um crime... E eu por vingança, cometi um também...
Os outros três não escondiam a surpresa. Não podiam imaginar que alguém como o Francês, que era tão correto e centrado, poderia ter cometido um crime. Queriam saber o que exatamente ele tinha feito, mas não tinham coragem de perguntar.
- Eu não sou uma pessoa perfeita...
- Ninguém está te julgando, Kamus. Eu também tenho um problema parecido. Minha família não me aceita, por causa do que eu sou... Mas esse não é o meu segredo. Nossa, e eu pensei que meu problema era grande. Comparado ao seu não é nada. Eu estou... Apaixonado, por um de nós.
Afrodite falou, mas antes que os outros expressassem surpresa, Shura falou.
- É o Máscara?
Afrodite teve que se controlar para não demonstrar nenhum tipo de surpresa.
- Por que acha que é ele?
- É o chute óbvio. Ele é o mais próximo de você entre nós. Mas se não quiser falar, tudo bem.
O Espanhol respirou profundamente, para depois continuar.
- Eu auxiliei no combate a alguns ataques terroristas do ETA, e por causa disso tive que mandar pessoas de quem eu gostava muito para a cadeia. Eles se envolveram com as pessoas erradas...
- Nossa, que situação complicada.
Disse Saga
- Falta você, Gêmeos. O que você esconde de tão terrível?
Antes de falar, ele ergueu seu braço, parecendo apontar para algo ao longe na areia, mas logo se explicou.
- Estão vendo aquela massa de terra ao longe?
Já estava relativamente escuro, mas podia se ver, no mar, algo que parecia ser outra ilha.
- Aquela é a Ilha Paxos.
- A ilha onde você nasceu?
Perguntou Shura, fazendo os outros dois, que não tinham ouvido a explicação de mais cedo, ficarem claramente surpresos.
- Sim. Mais precisamente na vila de Lakka, que fica ao norte da ilha... Exatamente aquela massa de terra que vocês estão vendo.
O Espanhol de juntou ao grupo de surpresos com aquela revelação.
- 17 quilômetros. Essa é a distância que eu estou da minha origem. E eu não tenho coragem de ir lá.
- Por que?
- Porque eu deixei alguém lá, me esperando... Eu estava disposto a manter um relacionamento escondido, mesmo contra as leis do Santuário. Mas alguns dias antes de eu trazê-la... Eu sucumbi a Ares. Depois que eu voltei, sabia que precisava ir lá, me explicar... Mas não tenho coragem. Eu traí a confiança dela...
- Por isso que havia aquela diferença entre os tempos. Kanon nunca mais voltou, mas a sua última vez lá foi há 16 anos.
Saga balançou a cabeça de forma positiva. Mais uma vez o silêncio pairou sobre eles, até que Afrodite falou.
- Ela tinha razão. Abrir um pouco me fez aliviar o peso que eu sentia.
- Eu também me sinto mais aliviado.
Saga completou, enquanto os outros dois apenas balançaram as cabeças.
- E o que faremos agora?
Shura perguntou, para que Kamus respondesse.
- O que prometemos. Manteremos esses segredos conosco. O fardo, quando dividido, é mais leve.
Todos concordaram. Quando a escuridão chegou de vez, e as luzes artificiais começaram a surgir, levantaram-se para voltarem ao hotel, em uma conversa franca e aberta. Os quatro nunca haviam sido muito próximos, mas agora que sabiam mais sobre os outros, poderiam estreitar esses laços de amizade.
Continua...
- Glossário sobre a culinária Grega
Retsina - Vinho branco Grego, ao qual é adicionado a resina de uma árvore chamada Pinheiro-de-alepo, que dá a ele um sabor característico
Ouzo - Destilado com sabor característico de anis, muito consumido na Grécia, Chipre e Turquia. Da forma como o Saga o consome, misturado a água gelada, ele deixa de ser transparente, e ganha uma tonalidade branca leitosa.
Mezédes - Porções de comida ou petiscos que são consumidas com as bebidas, ou seja, nossa famosa comida de bar XD.
Feta - Queijo Grego feito com leite de cabra ou ovelha.
Kalamata - Azeitonas pretas.
Keftedes - Almôndegas de carne. Podem ser de vários tipos, como carne bovina, de cordeiro, ou de polvo.
Dolmakadias - Charutinhos feitos com as folhas da parreira que produz uvas, recheados com carne e arroz.
- Espero que tenham gostado. Até semana que vem!
