Tempos de Mudança - Capítulo 19
- Shaka!
- O que foi?
- Me ajuda. Vai ter um monte de fãs querendo me matar por eu ter demorado tanto para atualizar aqui
- E porque eu faria isso?
- Porque eu sou virginiano, como você
- Se vira
-... Ok, obrigado. Bom, antes que me peguem, quero avisar que "Tempos de Mudança" está de volta. Desculpem-me pela demora. Agora que a Festa acabou, hora de ver como se resolvem as histórias que ficaram pendentes, e claro, teremos novas histórias. Vou começar com aquela que eu acredito ser a que vocês têm mais curiosidade: Saga e seu passado. Muito obrigado à Mari e à Krika Haruno por betarem e pelos pitacos. Bom, agora eu vou, antes que me peguem. Fui!
Boa leitura a todos.
Depois da volta para Atenas, as coisas pareceram entrar em sua normalidade novamente. Ver Miro e Shina, Marin e Aioria, e Giancarlo e Afrodite juntos deixou de ser uma novidade. Kamus retomou contato com sua mãe, e parecia mais "feliz com a vida", mesmo tendo que passar os próximos seis meses em trabalho voluntário como punição pelos fatos acontecidos e confessados durante a festa. Kanon já começava a pensar no seu casamento. Apenas uma pessoa estava pior do que havia voltado. As noites insones estavam tornando-se comuns para o Cavaleiro de Gêmeos. O desespero por notícias, a vontade de vê-la, a curiosidade para saber se ela o perdoaria ou não estavam o corroendo. Depois de duas semanas percebeu que se aquilo continuasse, sua sanidade poderia ser perdida novamente. Numa manhã, num rompante, colocou o necessário em uma mochila e foi até o Décimo Terceiro Templo.
Sabia que Atena ficaria curiosa com seu pedido de licença urgente, mas contou apenas o necessário. Que precisava resolver um assunto que deixara em aberto no passado. Generosa, ela aceitou. Partiu imediatamente. De Atenas em um trem para uma viagem de 4 horas até Igoumenitsa. De lá uma viagem de barco de 2 horas até Gaios, a "capital" da ilha de Paxos. Lá alugou um carro. Seguia pela estrada deserta, observando a paisagem. Dirigia sem pressa. Seu peito estava cheio de dúvidas. Não imaginava o que encontrar depois de tanto tempo. Foi fraco em deixar seu alter ego dominá-lo, e fazer 13 anos de trevas se abaterem sobre o Santuário. Mais ainda em não ter coragem em procurá-la assim que sua vida e sanidade lhe foram oferecidos novamente. Mas uma fina esperança surgia em seu peito, de que ela o perdoasse por tê-la deixado esperando. Era uma viagem de menos de 10 km agora. Lembranças de sua infância enchiam sua mente, fazendo-o se distrair da estrada, por sorte em uma região não perigosa. O sol já estava baixo, logo começaria a se por. A primeira coisa que faria era procurar uma pousada para dormir, e no dia seguinte iria saber do paradeiro de Elena.
Foi com esse pensamento que Lakka surgiu, encravada em uma pequena baía, e rodeada por oliveiras e ciprestes. Os tons alaranjados do entardecer de Agosto pintavam a paisagem. As ruas ficaram ainda mais diminutas quando entraram na cidade. Saga prestava atenção em tudo. Era engraçado para ele, a cidade parecia ao mesmo tempo a mesma, e totalmente diferente. Havia algumas novas construções, mas no mesmo estilo típico das ilhas Gregas. Não demorou a chegar à rua a beira mar. Ao fundo, viu o ancoradouro onde os barcos dos pescadores ficavam, e lembranças de seu pai vieram fortes. Fechou os olhos e desviou o olhar rapidamente. Não iria passar lá agora, Virou em uma esquina, entrando em uma rua, seguindo em direção oposta ao mar, encontrando uma pousada que lhe era familiar, pois já existia quando era criança. Resolveu que ficaria ali. Parou o carro em uma das duas vagas do estacionamento que havia no local, adjacentes ao prédio. Saiu do carro carregando apenas uma mochila, com o básico para passar dois, no máximo três dias. Enquanto caminhava para recepção, falava consigo mesmo que como estava lá, iria fazer outras coisas. Iria saber por onde andava Nikos, e visitar o cemitério.
- Boa tarde. Seja bem vindo à Pousada Amfitriti Quantas pessoas?
Uma voz masculina o tirou se seus pensamentos.
- Boa tarde. Apenas uma.
O recepcionista pegou uma ficha e entregou para Saga junto com uma caneta para que ele a preenchesse. Em pouco mais de um minuto os dados estavam preenchidos. Ele a entregou e recebeu uma chave.
- Espero que aproveite a estadia Senhor... Venetis.
O recepcionista respondeu após ler a ficha.
- Obrigado.
Saga virou seu corpo à esquerda. Precisaria subir um lance de escadas até chegar ao seu quarto. Foi no automático, pois sua mente voltava a fazer uma lista do que precisava fazer. Pensava que tinha que incluir uma visita ao cais dos pescadores, e lá certamente iria demorar bastante tempo. Quando percebeu que alguém descia as escadas, foi tarde demais. Os corpos de encontraram de leve.
- Perdão. Eu estava distraído.
Saga disse.
- Eu que peço desculpas. Eu não devia...
Quando o cavaleiro dirigiu seu olhar para o rosto do desconhecido, ele parou de falar e os dois se encararam como se estivessem vendo fantasmas.
- Saga?
O outro perguntou, esperando uma resposta para sanar sua dúvida. Já o geminiano pensava em quão travesso destino estava com ele.
- Nikos?
A expressão do homem foi da incredulidade à felicidade, passando pela surpresa, em poucos instantes. Saga se viu abraçado efusivamente, devolvendo o ato, de forma mais discreta
- Eu não acredito... Saga, é você mesmo?
Nikos desfez o abraço, apoiando as mãos nos ombros do cavaleiro e o examinando de cima a baixo.
- Eu pensei que nunca mais o veria.
- Pois é, eu estou de volta. Por alguns dias, mas estou.
Saga estava meio sem jeito com a forma expansiva que o outro agia, mesmo depois de tanto tempo, mas não escondia estar feliz.
- Você parece ótimo. Mas o que faz aqui?
Perguntou o geminiano, curioso.
- Eu sou o dono dessa Pousada agora. Os filhos do velho Dyonissis preferiram ir embora, então a comprei deles. Eu sempre disse que nada me faria ir embora de Lakka. Vamos sair das escadas para conversarmos melhor. Vai ficar hospedado aqui?
Falou enquanto virava o corpo e começava a seguir pra cima, com Saga atrás de si.
- Sim. Meu quarto é o... Três.
- Eu te mostro onde é. Espero que não tenha algo programado para essa noite. Vamos sair para beber e festejar sua visita. Sei de algumas pessoas que vão adorar te ver.
Saga riu baixo. Nikos não havia mudado, continuava impulsivo, expansivo, conversando em um tom como se o outro estivesse do outro lado da casa. Ele era exatamente como o mundo via os Gregos. Chegaram até a porta do quarto, que Saga abriu e entrou. Nikos ficou na porta.
- Me diga uma coisa. Não passou pela sua cabeça que eu poderia ser o Kanon?
Saga perguntou.
- Claro, mas daí eu me dei conta que se fosse o Kanon, quando nos encontramos na escada, a primeira coisa que ele faria seria algo do tipo "Olha por onde anda", e não "Desculpe".
Os dois riram por algum tempo, então um silêncio incômodo se abateu. Nenhum dos dois parecia saber bem o que falar.
- Senti falta de vocês dois. Lakka ficou um tédio sem vocês. Aconteceu tudo muito rápido naqueles dias... Num dia estava tudo bem. No outro estavam levando vocês para Atenas, para poderem ser criados em um lar especial enquanto esperavam adoção... Fico feliz em ver que você conseguiu "sobreviver" a tudo isso.
O cavaleiro deu um sorriso triste.
- Não foi fácil. Kanon e eu brigamos, ficamos anos sem nos falarmos, mas nós nos acertamos.
- E como ele está? Ele não quis vir junto?
- Ele nem sabe que eu estou aqui. E mesmo se eu convidasse, ele provavelmente não viria.
- Por que?
- Ele diz que nada mais o liga à Lakka.
- Bom, lembre aquele "kolotripida" pra pelo menos ligar pra mim depois que você voltar. Eu vou te dar meu número.
- Pode deixar.
- Você deve estar cansado. Tome um banho e descanse. Mais tarde vamos sair pra beber e comer algo, e não aceito um "não" como resposta. Até mais.
Ele fechou a porta do quarto, deixando Saga sozinho. Ele jogou a mochila sobre uma cadeira e abriu uma porta dupla que dava para uma pequena varanda. Agora toda a paisagem estava coberta de tons laranja, e o sol podia ser visto quase alcançando o horizonte. Ele ficou admirando a paisagem por alguns minutos antes de tomar um banho rápido, vestir uma roupa leve e deitar-se na cama. Não iria dormir, apenas relaxar um pouco. Olhava para o teto. O encontro com Nikos foi de surpresa, nem teve tempo de imaginar como seria. Mas havia muitos em Lakka que provavelmente se lembravam dele, e havia ela... Perguntava-se o que ela estaria fazendo, como estaria, e se ela seria capaz de perdoá-lo... Fechou os olhos tentando tirar isso da cabeça por algum tempo.
Kanon estava na Casa de Gêmeos, que seria seu lar até quando casasse com Karin. Surpreendia-se com a velocidade com que os dias passavam. Por ele, casaria com ela no dia no aniversário de 18 anos da Dinamarquesa, mas decidiram marcar a data para o início da Primavera, em Abril do ano seguinte. Havia acabado de anoitecer, e só então começou a se preocupar com seu irmão. Ligou para o celular dele, e recebeu o sinal de que o aparelho estava desligado ou fora de área. Depois de algum tempo, tentou de novo, e nada. Já estava pensando em sair pra perguntar aos outros Cavaleiros quando finalmente teve sinal. Saga se assustou quando o aparelho tocou no bolso da calça pendurada na mesma cadeira em que estava a mochila. Levantou-se, e atendeu.
- Alô?
- Alô, Saga?
- Sim, Kanon. Tudo bem?
- Eu é que pergunto. Onde você está?
- Eu estou em casa.
- Então você está invisível, porque eu estou aqui e não estou te vendo.
- Não... Eu estou de volta à nossa casa.
Só depois de alguns instantes a ficha caiu.
- Poderia ter avisado que ia, pra não me deixar preocupado.
- Desculpe, foi num impulso. Senão eu não viria.
Mais um curto silêncio. Kanon não sabia bem o que falar.
- Você a encontrou?
- Encontrei o Nikos. Ele é dono da Pousada agora, e está bravo com você de não querer vir mais pra cá.
- Sério? Taí algo que eu nunca imaginaria. Vai ficar quanto tempo?
- Dois. No máximo três dias.
- Está bem. Cuide-se, Saga. E boa sorte.
- Obrigado.
Desligou o aparelho, voltando a deitar-se por mais algum tempo. Mesmo que quisesse descansar mais, Nikos não deixaria. Vestiu-se casualmente. Camiseta, calça jeans e um tênis. Depois terminou de se arrumar no banheiro. Saiu pela porta, trancando e guardando a chave no bolso. Desceu as escadas e perguntou por Nikos para o recepcionista, que informou que ele estava no escritório, mostrando a direção. Saga agradeceu e foi até lá, batendo na porta. Ao ouvir a voz autorizando a entrada, abriu. Nikos, ao vê-lo, sorriu.
- Bem na hora. Eu já estava indo chamá-lo. Vamos até a Taverna?
- Sim, vamos.
Nikos fechou o escritório e despediu-se do recepcionista. Saga passou o olhar rapidamente pelo relógio, eram sete e meia da noite. Os dois seguiam juntos pelas ruas estreitas.
- Acha que Lakka mudou muito em 20 anos?
Nikos perguntou.
- Não muito, pra ser sincero...
Saga comentou olhando em volta.
-... Mas isso é algo que está longe de ser ruim.
Terminou antes que fosse mal compreendido.
- Tem razão. Por isso ainda recebemos um bom número de turistas apesar da crise.
Viraram em direção a uma rua onde só podia se passar à pé.
- Lembra quando falávamos que não víamos a hora de crescer para poder ir à Taverna beber com os adultos?
Nikos fez os dois rirem com o comentário.
- Parece que está na hora de cumprimos aquela promessa.
Completou o cavaleiro, já a poucos passos da porta de madeira que marcava a entrada no local. Assim que os dois entraram, dezenas de olhares curiosos se viraram para eles. Nikos passou um braço por trás de Saga, apoiando a mão em seu ombro.
- Pessoal, eu trouxe um amigo. Alguém que voltou depois de muito tempo.
A maioria dos que estavam lá se olhava sem entender o que Nikos estava falando, até que um senhor se levantou e foi até os dois, observando bem Saga antes de falar.
- Sim... Você é um dos gêmeos do Michalis...
Aquilo causou um burburinho entre aqueles que aparentavam ter mais de 40 anos. Outros se levantaram e foram até eles. Não demorou até Saga estar cercado por pessoas que queriam saber dele, de Kanon, sobre o que ele estava fazendo da vida...
- Calma pessoal. Vamos dar espaço ao Saga e ele vai atender a todos.
Nikos tirou o Cavaleiro do meio da bagunça. Os dois se sentaram em uma mesa, sendo cercados novamente. Em meio a copos de bebida e pratos de comida, Saga teve que contar o que aconteceu com ele desde que saiu de Lakka, claro que contando a história não oficial. Ele também ouviu histórias que amigos de seu pai contaram sobre ele. O geminiano se deu a chance de realmente relaxar pela primeira vez desde que chegou. Logo apareceram alguns instrumentos. Um violão, um bouzouki e um pandeiro. Saga não participou da roda, apenas observou sentado ao lado de Nikos. O tempo passou sem que o Geminiano percebesse. Algumas horas depois, após uma série de despedidas calorosas, Saga e Nikos tomaram o caminho de volta para a Pousada. Os passos já não eram tão firmes devido ao vinho, mas ambos ainda tinham total ciência dos seus atos.
- Sinceramente, não pensei que alguém me reconheceria.
Saga comentou com um sorriso sincero no rosto.
- Eu tinha certeza.
Nikos respondeu
- Por que?
- Porque são raros os homens daqui que tem cabelos compridos assim. Da nossa época, só Kanon e você. Lembro que você deixou seu cabelo crescer porque a Elena disse que gostava dele.
O cavaleiro parou o passo ao ouvir o comentário. Nikos, quando percebeu, parou também, olhando para trás e vendo a feição de Saga mudando para uma expressão fechada, enquanto ele olhava para o chão.
- Me desculpe, acho que disse algo que não devia.
Saga voltou a caminhar, em silêncio. O passo era levemente mais apressado que antes. Nikos o acompanhou. Mentalmente se recriminava por ter dito aquilo. Deveria ter imaginado que o amigo não tinha a esquecido.
- Como ela está?
- Hã?
Estava tão distraído que não entendeu o que Saga havia dito.
- Como ela está?
A resposta foi um silêncio mais demorado que o esperado, o que deixou o cavaleiro angustiado, mas Nikos estava apenas procurando as palavras certas.
- Ela está bem, na medida do possível.
Isso não soou bem ao ouvido do geminiano. Pareceu que o amigo queria esconder algo.
- Pode me contar mais?
- Ela passou muito tempo triste depois que vocês foram embora. Com o tempo ela melhorou, começou a namorar o Theo.
- Theo?... Theodoros?
- Ele mesmo.
Saga fingiu estar forçando a memória a lembrar-se. Elena já o namorava quando ele voltou secretamente. Inclusive uma manifestação de Ares aconteceu enquanto ele observava os dois, escondido. Theo morava do outro lado da ilha. Também era filho de pescadores, mas não era próximo deles. Da primeira vez que viu ela junto com o rapaz loiro de olhos verdes, teve a clara sensação de que algo queria tomar conta de si, e essa "coisa" só tinha um objetivo, matar o rapaz que estava ao lado da mulher que amava. Teve que afastar para um lugar isolado para conseguir controlá-lo. Tinha medo de ouvir o resto da história.
- Os dois acabaram casando bem rápido. Ela teve um filho, e parecia ter uma vida tranquila... Até o Theo ficar doente de repente, e morrer cerca de um ano atrás.
Saga tentou permanecer o mais impassível possível enquanto ouvia.
- Eles passaram por momentos difíceis, todos ajudaram. Agora a situação melhorou. É deles que eu compro os vegetais que usamos no restaurante da Pousada. Eles fornecem para mais duas também.
Nikos deu um suspiro.
- Mas é um serviço muito pesado para os dois. Pobre Ioannis, ele é um garoto inteligente, mas de repente se viu como homem da casa aos 14 anos de idade... Gostaria de poder fazer mais, mas eles dizem que não é necessário.
Saga assimilava tudo o que ouvia. Ele tinha certeza que ela acabaria ficando com ele, até porque existe o lado da história que Nikos não conhece. O retorno, os encontros secretos, a promessa nunca cumprida... Ele a fez jurar que nunca diria a ninguém que ele esteve lá. Tinha receio que de alguma forma a informação chegasse ao Santuário. Sabia agora que ela havia cumprido a parte dela, mas ele precisaria carregar o fardo de ter falhado.
- Você vai procurá-la?
Nikos perguntou, apesar de saber a resposta.
- Esse foi o principal motivo de eu ter vindo...
- Você nunca a esqueceu, não é mesmo?
- Não.
- O destino pode não ter sido generoso, mas espero que vocês dois tenham sua nova chance.
- Não depende apenas de mim...
- Não seja tão negativo. Elena vai adorar te reencontrar.
A animação do amigo ao falar aquilo fez Saga sentir um embrulho no estômago. Tinha certeza que ela não pensava daquela forma. Os dois chegaram de volta na Pousada e se despediram. Nikos foi para sua casa que ficava ao lado, e Saga foi para seu quarto. Tirou as roupas que usava e vestiu apenas uma calça de tecido leve antes de desabar na cama. O álcool fez com que pegasse no sono mais cedo que pensava.
Continua...
- Espero que tenham gostado.
- Obrigado a todos que acompanham a fic. De novo, me desculpem por demorar
- O passado de Saga está cada vez mais claro. Prevejo algumas Saguetes infartando. Por que? Só esperando pra ver.
Até mais a todos.
