Tempos de Mudança - Capítulo 25

- Olá a todos. Eu sei que dei mancada a deixar vocês esperando tanto tempo, mas para compensar, já aviso que além desse, tem mais dois capítulos prontos. Logo irei postá-los.

- Talvez a estrutura do capítulo esteja um pouco estranha, mas os eventos estão se passando no mesmo dia, em locais diferentes.

Espero que gostem. Boa leitura a todos.


Já era noite quando o avião pousou em Atenas. Havia uma expressão de cansaço em todos os rostos, especialmente no de Kamus. Toda a situação com o pai havia esgotado suas energias. Assim que chegou em casa, mandou uma mensagem para Lydia avisando que havia chegado, mas não obteve resposta. Não estranhou devido ao horário. No dia seguinte iria encontrá-la.

Depois da escala em Madri, onde passou a noite em uma pousada, Shura estava em um avião pronto para pousar em Pamplona. Uma mistura de sentimentos tomava seu peito. Sentia falta de estar ali, mas tinha medo do que encontraria depois do que fez. Com sua mala em mãos, cruzou a porta do Aeroporto e respirou profundamente. Para o mundo, era Pamplona, mas para ele sempre seria Iruña, o nome em Basco da cidade. Pegou um táxi e pediu para ser levado até a Igreja de São Saturnino. Não era exatamente perto da casa de sua família, mas queria passar pelo local, e seguiria o resto do caminho a pé sem problemas. Depois de fazer uma prece rápida, seguiu seu caminho, sempre com olhar distraído, passeando pelas cenas da cidade. Era quase hora do almoço. Enquanto aproximava-se de seu destino ficava com um semblante mais concentrado. Era a parte antiga da cidade, cheio de ruas estreitas, famosas pela famigerada e mundialmente conhecida Corrida de Touros que acontecia anualmente no local. Parou em frente ao sobrado onde sua mãe morava. Respirou pesado uma última vez antes de bater na porta e chamar.

- Ama! (Mãe!)

Esperou um pouco, mas não teve resposta. Resolveu bater de novo.

- Ama!

Dessa vez ouviu passos apressados dentro da casa, e em seguida a porta abriu. Era uma mulher aparentando cinquenta anos. Yordana tinha 1,65, cabelos curtos e grisalhos e o corpo rechonchudo. Seus olhos marejaram ao reconhecer o rosto do filho. O abraçou com força, gesto repetido pelo Cavaleiro.

- Nire semea... (Meu filho...)

A mulher desfez o abraço e segurou o rosto de Shura com as duas mãos antes de falar.

- Você é um desnaturado por me deixar esperando. 5 anos. Tem ideia de quanto tempo é para uma mãe que não vê o filho?

- Desculpe. Eu tentei vir antes, mas não pude.

- Tudo bem. Quando você aceitou aquela bolsa de estudos eu já imaginei que seria assim.

Shura havia nascido em uma família simples. O pai havia morrido quando ele tinha 3 anos. Tinha uma vida tranquila até os 8 anos, quando um acidente mudou sua vida. Distraído, não viu um carro ao atravessar a rua e foi atropelado. Para os médicos havia sido um milagre ele ter sofrido tão poucos ferimentos, mas na verdade seu cosmo havia despertado e o protegido. Ainda no hospital, olheiros do Santuário fizeram contato, explicando o que havia lhe acontecido e dizendo que ele deveria cumprir seu destino. Para a mãe, eles haviam dito que eram de uma organização que oferecia bolsas para crianças que não poderiam pagar por estudos de alta qualidade. Assim, ainda criança, partiu para seu treinamento nos Pireneus, uma cadeia de montanhas na fronteira entre Espanha e França, não muito distante do lar. No início, as visitas eram constantes, mas foram rareando até a última ser 5 anos antes, junto de uma missão. Depois disso, partiu definitivamente para a Grécia.

Entrou na casa junto da mãe, sentando no sofá para poderem conversar. Contou com mais detalhes o que já dizia para a mãe em conversas esporádicas. Depois da última visita, recebeu o convite de uma Universidade em Atenas para fazer um curso de Letras e imediatamente assumir o cargo de professor. A mãe não escondeu o orgulho.

- Eu estou tão feliz por você não ter esquecido sua origem. E mais, está a ensinando, espalhando sua língua materna pelo mundo.

- Sim. Eu me sinto bem fazendo isso. Mãe... Como está a família do tio Beñat?

A mulher mudou a expressão um pouco.

- Está sendo difícil pra eles. Eu ajudo sua tia Naiara e ao Mikel como eu posso. Eu fico triste ao pensar como seu tio estragou a vida dessa forma.

A mãe se referia à prisão do tio. O ETA já estava em seu fim. As práticas terroristas do grupo já não eram vistas com popularidade entre os que desejavam a independência do País Basco, mas mesmo assim havia um grupo que resistia às mudanças. Shura havia recebido a missão de se infiltrar nessa última célula, e a forma usada foi convencendo seu tio de que apoiava a causa. Foi difícil para ele, primeiro por ver que o homem que havia sido sua figura paterna havia se envolvido com terrorismo, e segundo por ter que mentir para ele, sabendo que ele seria preso ao fim de sua missão. Aproveitou para ver sua mãe também. Foi a última vez antes da atual visita.

A missão foi um sucesso, e o homem foi condenado a 10 anos de detenção, mas nesse momento ele já estava na Grécia. Sua mãe lhe contou tudo por telefone, e teve que fingir que estava surpreso. Isso ainda o assombra, mas não tem arrependimentos. Sabia que o tio estava errado. Shura e a mãe resolveram ir para a cozinha enquanto a conversa continuava. O cheiro da comida da mãe fazia o cavaleiro sorrir. Teria que partir em dois dias, então iria aproveitar o quanto podia. Ouviu batidas na porta, para em seguida ela se abrir.

- Deve ser o Mikel.

A mãe comentou, e uma voz masculina confirmou.

- Tia. Eu trouxe o secador que a senhora pediu pra eu conser... Tar.

O rapaz perdeu a voz ao ver o primo na cozinha.

- Mikel. Olha quem veio nos visitar.

A mãe não escondeu a empolgação ao falar. Já Mikel aparentava estar desconfortável, mas mesmo assim abriu um sorriso e cumprimentar Shura com um abraço.

- Aramis. Faz muito tempo que não nos vemos.

- É verdade.

O primo era três anos mais novo que o Cavaleiro. Cresceram juntos, eram como irmãos. Mas Shura sentia que uma barreira havia se erguido entre eles.

- Fique para o almoço. Vocês vão poder conversar bastante.

A mulher disse, ameaçando puxar uma cadeira, mas foi interrompida pelo sobrinho.

- Me desculpe tia. Mas eu realmente não posso. A mãe não está em casa, e eu tenho outros aparelhos para consertar. Venho para o jantar, prometo.

- Está bem, querido. Cuide-se.

Ela segurou o rosto do rapaz e beijou a testa de forma carinhosa, deixando-o parir. Após um curto silêncio, ela voltou a falar.

- A Naiara deve estar fazendo turno no Hospital, só que o salário de enfermeira não é o bastante. O Mikel faz pequenos consertos de eletrodomésticos e agora está tentando fazer um Curso Técnico. Como eu falei, está sendo difícil para os dois.

Shura não escondeu a feição de tristeza, afinal tinha um pouco de responsabilidade. A mãe aproximou-se e o abraçou, gesto que foi retribuído. O Cavaleiro quebrou o silêncio.

- Mas tudo há de melhorar.

- Sim, irá. Devia ter falado que viria. Eu teria feito o marmitako que você tanto gosta.

- Você não quer que eu saia daqui, não é mesmo? Vamos fazer para o jantar.

Yordana concordou. A tarde foi de descanso e mais conversa, com exceção da ida do cavaleiro ao mercado para a mãe. Fez questão, afinal queria andar pela vizinhança, e rever rostos conhecidos. Voltou com as coisas que ela precisaria para fazer o jantar para ele e o primo.


Saori havia dado o dia de folga para todos que havia chegado de Paris no dia anterior, e Kamus aproveitou a manhã para fazer uma faxina em sua casa. Depois do almoço, uma leve angústia começou a tomar conta de si. Lydia ainda não havia respondido às suas mensagens desde que ele havia voltado, e começava a ficar preocupado. No meio da tarde, não resistiu. Deixou o Santuário e foi em direção ao bairro onde ela morava. Foi direto até a Escola.

- Com licença.

Disse após bater na porta da sala do Diretor.

- Kamus, que surpresa. Pensei que viria só amanhã.

O homem, que está em pé com uma pasta na mão, respondeu, o convidando para entrar com um aceno de mão.

- Sim, mas eu resolvi vir porque... Estou com um mau pressentimento.

O Diretor olhou para ele surpreso.

- Você é sensitivo, ou algo do tipo?

- Não, por que?

O Francês foi convidado para sentar e o Diretor iniciou.

- Ontem à tarde o pai da Lydia esteve aqui, falando que ela está sumida desde domingo à noite. Ele já comunicou a Polícia, mas eles ainda não têm notícias.

Kamus sentiu o corpo gelar com a notícia. Não conseguiu esconder a expressão de angústia no rosto. No fundo tinha a sensação de que não deveria ter se afastado por tantos dias.

- E a Polícia já disse algo?

- Eles acham que deve ser por causa de dívidas com traficantes.

Balançou a cabeça. Sabia do problema dela com as drogas, mas não imaginava que ela estivesse devendo dinheiro a pessoas tão perigosas.

- Eu preciso fazer alguma coisa. Tem o endereço dela?

- Sim, eu vou lhe passar. Mas eu já lhe digo, tome cuidado. Não seja irresponsável.

- Não se preocupe. Eu sei me cuidar.

Meio receoso do que Kamus faria, o Diretor entregou o endereço. Partiu imediatamente. Com ajuda dos moradores, achou o local. Bateu na porta, e um senhor atendeu.

- Pois não?

- Boa tarde, o senhor é o pai da Lydia?

- Sim.

- Prazer em conhecê-lo. Meu nome é Kamus, e...

- Você é o Professor Kamus?

Foi cortado pelo homem antes de terminar a frase.

- Sim, sou eu.

- A Lydia me falou de você. Entre, por favor.

Ele disse com uma leve ansiedade na voz. Entrou na casa, sentando no sofá depois de ser convidado. O pai estava com uma expressão muito preocupada. Foi Kamus quem quebrou o silêncio.

- Eu soube agora pelo Diretor da Escola. Poderia me explicar melhor?

O homem respirou profundamente antes de continuar.

- Pedi à Lydia para comprar pão no Sábado à noite. Ela saiu, e não voltou mais. Fui à Polícia no dia seguinte, mas eles não parecem tão empenhados assim em procurar uma garota que já teve problemas com drogas.

- Você sabe se ela estava mesmo devendo para eles?

- Não sei te dizer. Só sei que quando ela foi detida ela estava na parte mais afastada do Bairro, ao Sul. Eu cheguei a ir lá, mas ninguém quis falar comigo.

- Tudo bem. Eu vou começar a procurar por lá.

- É um lugar muito perigoso. Não deveria ir sozinho.

- Talvez, mas eu sei me defender mais do que as pessoas imaginam. Eu vou ficar bem.

- Está bem. Eu não sei como agradecer o que está fazendo Pela Lydia. Primeiro conseguiu fazê-la querer sair dessa vida, e agora está se arriscando por ela. Eu percebo como ela fica diferente ao falar de você. Ela gosta muito de você.

O Aquariano não escondeu um leve sorriso.

- Obrigado. Eu também gosto dela. Ela se tornou uma pessoa muito importante pra mim.

- Ela precisa de alguém que a faça sentir assim. Ela já sofreu demais.

- O fato de ela cobrir o rosto com o cabelo tem alguma coisa a ver?

O pai não escondeu a surpresa com a pergunta.

- Sim, infelizmente. E não posso negar que tenho parte de responsabilidade também.

- Posso saber o que aconteceu?

- Morávamos em Pireu na época. A mãe da Lydia morreu quando ela tinha 9 anos. Casei-me de novo quando ela tinha 12, mas ela e a madrasta nunca se deram bem. Discutiam demais. Eu imaginava que com o tempo as duas acabariam convivendo melhor, mas eu estava enganado. Um dia, já no serviço, recebi uma ligação avisando que a Lydia estava no Hospital. Durante uma briga, minha ex-esposa a empurrou com força. Ela bateu contra o fogão e uma panela com água fervendo caiu no rosto dela. Além da cicatriz, ela perdeu a visão do olho direito. Ela não deixa ninguém ver a marca que ficou.

O Francês ficou em silêncio. Estava chocado com aquela história.

- Foi terrível para a Lydia. Ela sempre foi uma menina vaidosa, e de repente ela estava marcada para a sempre. Ela fez de tudo para fugir. Primeiro o cabelo, depois as drogas. Se pelo menos eu tivesse prestado mais atenção ao relacionamento das duas na época...

Agora Kamus compreendia. Ela tinha medo de mostrar como ela era, e ele acabar se afastando.

- Não adianta o senhor ficar arrependendo-se agora. O importante é encontrá-la.

- Sim. Eu vou com você.

- Não. Vou sozinho. Não vou por o senhor em risco. Confie em mim, eu vou achá-la.

- Mas...

- Por favor. Deixe-me cuidar disso. Alguém precisa ficar caso ela ou algum possível sequestrador queira se comunicar.

- Está bem... Está bem, eu fico.

Os dois despediram-se, e Kamus pariu a passos apressados na direção que lhe foi indicada. Conforme avançava para o sul, as casas iam ficando cada vez mais humilde. Algumas chegavam a ser apenas barracos, e percebia cada vez mais olhares atravessados em sua direção. Estava atento, como se estivesse em terreno inimigo, esperando um possível ataque. Próximo a uma casa, ele observa três homens o observando. Um deles, aquele que encarou os dois alguns dias antes, estava armado. Ele se aproxima, e para em frente a eles. Todos se encararam em silêncio por um tempo, até um dos homens falar.

- Fala logo o que você quer, ou cai fora.

- Quero informações.

Os homens deram uma leve risada antes do mesmo continuar.

- Seria mais fácil se você quisesse cocaína ou maconha. Isso eu não vou ter.

- Quero saber onde está a Lydia.

- Lydia?... Não conheço ninguém com esse nome.

- Talvez, mas o seu amigo aqui conhece.

Falou virando-se para o rosto conhecido.

- Você é aquele novo professor que ficou amiguinho dela. Resolveu bancar o herói agora?

- Depende. Você sabe onde ela está?

- Não. E se a achar diga que eu estou a procurando.

- Não sei por que, mas não acredito em você.

- Problema seu. E acho melhor você sair daqui agora.

Falou levando a mão à cintura, ameaçando sacar a arma.

- Está bem. Mas saiba que eu vou encontrá-la, não importa como.

Teve silêncio como resposta. Devagar se afastou até sair do campo de visão deles, mas não foi embora. Manteve-se escondido, de tocaia. Tinha certeza que aquele homem tinha informações sobre Lydia. Estava em missão, em território hostil. Precisava tomar todo o cuidado.


Da sala, Shura podia sentir o cheiro bom que vinha da cozinha. Sua mãe terminava de preparar o jantar. Era uma sensação boa de nostalgia. Ouviu batidas na porta, e desceu as escadas para atender.

- Olá Mikel.

Disse ao convidado.

- Oi Aramis. Você tem um tempo? Vamos dar uma volta...

O rapaz respondeu. Parecia nervoso.

-... Sim, claro. Mãe, eu e o Mikel vamos dar uma caminhada rápida. Já voltamos.

Disse em tom alto para a mãe ouvir.

- Está bem. Só não demorem. Logo vai estar pronto.

Ela respondeu no mesmo tom. Os dois saíram, caminhando lado a lado pelas ruas relativamente vazias. Mikel quebrou o silêncio.

- A tia falou que você está morando na Grécia.

- Sim. Agora sou Professor lá.

- Entendo. Faz tempo que você não vinha. Desde que meu pai...

Não conseguiu terminar a frase, e teve que respirar fundo para continuar.

- Eu sinto falta dele

- Imagino que sim. Mas ele cometeu um erro.

- Sim. Mas tem uma coisa que não se encaixa nessa história...

- O que?

- Em uma das primeiras visitas que fiz a ele, 5 anos atrás, ele me disse que estava arrependido do que fez, mas mais arrependido ainda ele estava de ter feito você participar.

Shura parou o passo. Mikel também, antes de continuar falando.

- Ele falou que agradecia a sorte de você não estar lá quando a Polícia chegou. Mas a tia me falou que você estava na Grécia quando ele foi preso. Por que você estaria lá, se deveria estar participando das atividades do ETA aqui?...

O primo olhava o cavaleiro, que continuava em silêncio, olhando em um ponto fixo no chão. Continuou pressionando. Ver a passividade dele estava o deixando cada vez mais irritado

- Não tem nada pra falar, Aramis? Vamos, defenda-se. Fale alguma coisa!

Shura de repente se via obrigado a encarar seu passado, e não estava pronto para isso. Sem perceber, Mikel o agarrou e o empurrou para um beco próximo. Mesmo podendo, não conseguia reagir. Deixou seu corpo ir de encontro à parede, sendo obrigado pelo primo a encará-lo.

- Fale alguma coisa. Fale que o que eu imaginei todos esses anos seja mentira!

- E o que você imaginou?

- Que você o traiu. Que o deixou ser preso!

Shura não escondeu a expressão de espanto com a conclusão do primo. Já a expressão de Mikel era de angústia, misturada com raiva. O silêncio do Cavaleiro era como uma confissão para ele.

- É verdade, não é?!

Afastou-se de Shura. Estava transtornado. Levou a mão ao bolso e retirou um canivete, segurando-o apontado para o primo.

- Vai pagar por tê-lo tirado de mim...

- Mikel, me escute. Você não tem que fazer isso. Você quer ser preso também?...

O Cavaleiro tentava ponderar com o primo. Podia defender-se quando quisesse, mas queria de todas as formas evitar que o primo agisse.

- Quer que sua mãe passe por tudo novamente?

- Por que?... Por que Aramis? Ele era como um pai para você. Como pode?

- Você acha que foi fácil pra mim? Ver meu tio se envolvendo com terroristas. Saber que ele desejava o mal para as pessoas. Não, claro que não. Sim, me pediram para me infiltrar entre eles, justamente por causa dele. Ele nunca desconfiaria de mim. Mas eu estava acabado por dentro, Mikel. Por ver o que ele fazia, e por ter que mentir para ele.

As lágrimas começavam a rolar pelo rosto do Cavaleiro.

- Não tive coragem de estar aqui quando ele foi preso. Não podia encarar minha mãe, tia Naiara ou você. Sei que precisava ser feito, mas isso marcou minha família para sempre. Acha que me orgulho disso?

Praticamente gritou a última frase.

- Não. De forma alguma Mikel. Isso vai me assombrar para o resto da vida. E se você acha mesmo que eu devo morrer por isso...

Aproximou-se do primo, fazendo que o canivete que ele segurava tocasse seu tronco.

-... Se você quer mesmo dar esse desgosto para a sua mãe... Vá em frente. Eu não vou impedi-lo.

O rosto de Mikel também estava cheio de lágrimas. Tinha ódio do primo pelo que ele havia feito, mesmo sabendo que ele estava certo. Veio com a intenção de matá-lo, mas agora estava relutante. Não imaginava que ele também sofresse tanto, mas precisava libertar-se daquele ódio que o consumia. Largou o canivete, e com todas as forças socou o primo no rosto. Shura viu o golpe, mas deixou-se ser acertado. Caiu no chão, com o lábio ferido. Levantou-se em seguida, preparado para levar uma surra, mas em vez disso Mikel o abraçou, chorando em seu ombro.

- Eu sinto falta dele... Desculpe-me...

O abraçou de volta, deixando desabafar. Quando o primo se acalmou, Shura ergueu a cabeça dele antes de falar.

- Eu também peço desculpas.

- Não... Meu pai estava errado... Eu também estava errado o tempo todo.

- Mesmo assim minhas desculpas continuam.

Mikel fez um leve aceno positivo com a cabeça.

- Vamos para casa. Minha mãe deve estar desesperada.

- Sim.

Enquanto os dois caminhavam de volta e se recompunham, Mikel observou o primo preocupado.

- E o que vamos fazer a respeito disso?

Falou apontando para o lábio ferido do Cavaleiro.

- Eu já sei o que fazer, apenas siga a minha deixa...

Mikel não entendeu direito, mas confiou naquelas palavras. Chegaram à casa de Shura e imediatamente foram em direção à cozinha, onde a mãe estava pondo a mesa.

- Até que enfim. Estava me perguntando onde vocês dois... Aramis, o que aconteceu com seu rosto?

A mulher interrompeu o sermão, assustada com o ferimento no rosto do filho.

- Ah, isso? Não foi nada, e eu mereci.

- Como assim você mereceu?

- Eu acabei provocando o Mikel demais. Sabia que agora ele estava adulto o bastante para reagir.

A mãe e o primo não estavam entendendo onde ele queria chegar.

- Mas ainda acho que ele é um traidor por torcer pelo Athletic.

Falou levando a mão à boca, para sentir o lábio inchado no lugar do corte. Imediatamente o primo entendeu, e continuou a encenação.

- Pelo menos eu torço por um time grande. E você, que vive sofrendo pelo Osasuña. Está amargando a segunda divisão, bem feito.

- Pelo menos eu torço por um clube da minha cidade.

- Chega! Acabou o assunto. Que vergonha, dois homens feitos brigando por causa de futebol. Vocês não mudam mesmo. Devia deixar vocês sem jantar.

A mulher estava realmente brava. Foi Shura quem tentou acalmá-la.

- Nossa, a senhora seria capaz de deixar o filho que não vê há tanto tempo sem o marmitako que fez com tanto carinho?

Disse a abraçando. Yordana tentou, mas não conseguiu resistir ao carinho.

- Está bem, está bem. Vão lavar as mãos, eu vou servir o jantar.

Shura riu. Ela não conseguia deixar de tratá-los como crianças. Os dois obedeceram, e logo voltaram para a refeição. Ao contrário de mais cedo, não havia aquela tensão entre eles, e puderam aproveitar ao máximo aquele raro momento familiar.

Continua...


- Marmitako é um ensopado de peixe criado pelos pescadores da região.

- Pireu - Cidade vizinha a Atenas, onde fica o maior porto da Grécia.

- Athletic Club é um time de futebol que se localiza em Bilbao. É conhecido por permitir que apenas jogadores nascidos no País Basco ou que tenham origens Bascas joguem pela equipe.

- Club Atlético Osasuña é um time de futebol que se localiza em Pamplona.

- Assim que o próximo capítulo estiver corrigido eu irei postá-lo. Até mais.