Tempos de Mudança - Capítulo 28

- Olá a todos. Está um pouco corrido por aqui. Gostaria de ter postado ontem, mas não deu. Por sorte de hoje não passou.

- Muito obrigado a você, pessoa anônima, que disse estar adorando a fic.

Espero que gostem. Boa leitura.


Após a travessia de Gaios para o continente, um carro estava os esperando. Igoumenitsa era o mais longe que Elena e Ioannis haviam se afastado de casa até aquele momento, e agora estavam indo para Atenas. Apesar da situação, o rapaz não escondia a ansiedade por conhecer a Capital. Ele estava no banco de trás, observando a paisagem pela janela. Saga estava no meio, e Elena do outro lado. Também olhava pela janela, mais pelo receio de ter que encarar Saga. Estava perdida em seus pensamentos. Um lado dela não conseguia perdoá-lo de forma alguma, outro sentia muita falta de tê-lo por perto. Uma coisa não podia negar, ainda sentia a mesma paixão da adolescência por ele, mas não podia esquecer o que havia passado. Era esse tipo de dúvida remoendo em sua mente que tentou evitar desde que havia o encontrado meses antes. Precisava dar um basta em tudo isso. Usaria essa viagem para saber qual sentimento iria prevalecer, o amor ou a decepção.

Ao chegarem a Atenas, Ioannis ficou ainda mais atento ao que via. Após pegarem um pouco de trânsito, chegaram ao Hotel. Saga ofereceu-se para levar a bagagem dos dois. Fizeram o check-in e foram para os quartos, que ficavam no 1º andar. Eram quartos com camas do solteiro, bem equipados, mas sem luxos desnecessários. Ioannis imediatamente foi até a varanda ver a paisagem.

- Pronto. Aqui estão. Gostaram?

Saga comentou depois de deixas as malas no local.

- Eu adorei, mas não vejo a hora de poder sair, dar uma volta pela cidade... Além disso, estou com fome.

- Ioannis, por favor. Acabamos de chegar, acalme-se.

Elena falou tentando acalmá-lo.

- Mas já passou da hora do almoço...

- Então vamos almoçar. Ouvi falar que tem um ótimo restaurante aqui perto.

Kanon disse, e ninguém quis discordar, afinal estavam mesmo famintos. Deixaram as coisas nos quartos e partiram em direção ao local indicado pelo General Marina. A refeição foi agradável, com uma conversa animada entre os quatro. Elena aos poucos parecia se soltar na frente de Saga. Ao saírem do restaurante, Kanon disse aos outros.

- Me desculpem, mas eu preciso resolver alguns assuntos. Saga, por que não os leva para dar uma volta?

-... Sim, claro. Será um prazer.

Respondeu depois de entender as intenções do irmão. Ioannis pareceu animar-se, mas Elena ficou receosa.

- Só se não for muito demorada. Eu quero descansar um pouco.

O grupo se dividiu. Aquela região da cidade não era muito turística, mas puderam ver alguns locais interessantes mesmo assim. Em um dado momento, viram ao longe as ruínas do Parthenon. Saga prometeu levá-los lá quando tivesse oportunidade. O passeio terminou em um Shopping. Elena e Ioannis não esconderam a surpresa com o tamanho e a quantidade de lojas que havia no local. Saga não pode deixar de pensar que poderia ter sido assim sua vida caso Elena estivesse sempre ao seu lado. Não estava programado, mas acabaram indo ao cinema. Depois do filme, passaram em frente a um quiosque que vendia sorvetes. Saga parou e perguntou.

- Vocês querem?

- Eu quero sim, por favor.

Ioannis respondeu, e Elena apenas moveu a cabeça indicando que sim.

- Certo. Morango ainda é seu favorito, Elena?

- Ah?... Sim, é...

Não escondeu a surpresa por ele ainda lembrar-se. Ficou um pouco envergonhada depois de responder. Ioannis escolheu um de limão e Saga um de chocolate. Depois dos sorvetes entregues, continuaram caminhando até Ioannis ver uma loja que lhe interessou.

- Nossa, tem uma loja de jogos aqui. Mãe, posso ir lá dar uma olhada?

- Sim, mas não demore.

O rapaz seguiu na frente. Saga e Elena resolveram sentar-se em um banco enquanto terminavam o sorvete. O silêncio se manteve por algum tempo e incomodou os dois. Foi ele quem quebrou o silêncio.

- Faz tempo que não tenho um dia tão divertido.

- Não vai ter problema você ficar nos acompanhando?

- Não se preocupe. A Senhorita Kido me permitiu dar prioridade para vocês enquanto estiverem aqui.

- Entendo. Ela parece gostar e confiar muito em você.

- Se tem alguém de quem eu não mereceria confiança era dela. Mas mesmo assim... Depois de 13 anos brigando com minha própria mente...

Ele respirou de forma pesada.

-... Às vezes penso que não mereço o que tenho hoje.

- Mas pelo jeito outras pessoas acham que sim. Deveria acreditar nelas.

O Cavaleiro sorriu com o comentário.

- Eu acredito, mas de vez em quando não consigo evitar pensar assim. Confiança é algo tão difícil de conquistar, e tão fácil de perder...

Elena sabia que ele falava dos dois. Ela acabou o sorvete e levantou-se, caminhando em direção à vitrine de uma joalheria. Estava admirada com a beleza das peças expostas. Saga a acompanhou, ficando ao lado dela. Ela voltou a falar.

- Talvez a melhor comparação seja a da confiança ser um vaso. Um dia quebrado, pode ser remontado e colado, mas nunca mais será o mesmo...

Saga concordou, mas não demorou em responder.

- No Japão existe uma arte que eles chamam Kintsugi, onde se usa ouro para se juntar as peças quebradas de uma porcelana, deixando-a mais bonita do que era antes. Acho que posso usar essa comparação nesse caso também. Uma confiança refeita pode reluzir mais que antes, pois agora será prezada como algo muito valioso.

Elena virou seu rosto na direção dele, claramente surpresa com aquele comentário. Saga abriu um leve sorriso, e a mulher não resistiu em sorrir de volta. Pela primeira vez em tempos sentia-se realmente bem na presença dele. Ioannis, que caminhava de volta na direção dos dois, parou no meio do caminho ao ver a cena. Não sabia direito o que sentir. Os dois pareciam muito bem juntos, mas ao mesmo tempo incomodava ver a mãe com outro homem que não fosse seu pai. Aproximou-se devagar.

- Oi. Voltei.

- Viu o que queria?

Elena perguntou.

- Sim. Foi divertido.

- Certo. Vamos voltar então. Esse passeio já demorou mais do que eu imaginava.

Os dois concordaram. A conversa entre os três foi normal no caminho de volta. Em frente os quartos, Saga despediu-se de Elena, que entrou. Na hora de despedir-se de Ioannis, o rapaz fez um pedido.

- Senhor Saga, poderia entrar um minuto para conversarmos?

- Claro.

O geminiano entrou no quarto do rapaz.

- O que quer falar?

- Primeiro eu quero agradecer pelo que está fazendo pela minha mãe. Tudo que eu quero é que haja uma chance dela se curar.

- Eu também espero por isso.

- Mas isso me faz perguntar, por que está se dispondo dessa forma para ajudá-la?

Foi pego de surpresa pela pergunta. A demora em responder fez o rapaz perguntar.

- Senhor Saga... Você gosta da minha mãe?

Saga não via o porque de esconder mais seus sentimentos do rapaz.

- Desde que eu era adolescente. Mas ao mesmo tempo em que gosto muito dela, eu tenho uma dívida com ela. Uma dívida que não sei se mesmo tudo o que estou fazendo será capaz de pagar...

Ioannis não escondeu a surpresa com aquele comentário. Saga continuou.

- O que mais me importa agora é o bem da sua mãe, nada mais. Não quero que se preocupe com isso. Boa noite, Ioannis.

Saga saiu do quarto, deixando o rapaz intrigado. Perguntava-se o que teria acontecido entre ele e a mãe, mas conhecendo-a, não conseguiria informação facilmente. Resolveu esquecer por enquanto. Foi um dia cheio, queria descansar. Assim como Elena, pegou no sono assim que deitou na cama.

No dia seguinte, Elena e Ioannis tinham uma consulta no Hospital. Ela para checar a saúde, e ele para fazer o exame de compatibilidade para ser o doador. Saíram de lá na hora do almoço, e Saga estava os esperando. Como na tarde anterior, passaram o resto do dia passeando pela cidade, e voltaram para o Hotel ao anoitecer. Ioannis havia acabado de se vestir depois do banho quando ouviu batidas fracas em sua porta. Ao abrir, tomou um susto. Elena estava apoiada no batente da porta, com uma expressão de dor enquanto apertava o lado esquerdo do tronco, abaixo das costelas.

- Ioannis...

A voz saiu fraca.

- Mãe... Mãe!

Ele evitou que ela fosse ao chão, a ajudando a deitar na cama. A mulher contorcia-se e gritava de dor, o que chamou a atenção de outros hóspedes. Um deles ligou para uma ambulância enquanto o rapaz ligava para Saga. O Cavaleiro também ficou desesperado ao ouvir os gritos de dor pela linha. Aconselhou Ioannis a pedir para ela ser levada para o Hospital onde estivera mais cedo. Ele estava indo para lá imediatamente. A ambulância chegou em minutos. Enquanto começava o tratamento, um dos atendentes pegava informações com o filho. Quando ele falou para qual Hospital ela deveria ser levada e a doença que ela tinha, ele imediatamente deduziu o que era.

- Ela está tendo um sequestro esplênico. Temos que removê-la imediatamente.

Disse aos colegas, que pareceram apressar o passo para carregá-la até a ambulância. Ioannis foi junto. Ao chegarem ao pronto-socorro, não foi lhe permitido acompanhar. Teve que esperar notícias. Saga e Kanon chegaram, acompanhando-o nos angustiantes minutos seguintes. Quando Ioannis reconheceu o médico especialista que fez a consulta mais cedo, correu na direção dele.

- Doutor, o que a minha mãe tem? De manhã senhor disse que ela estava bem.

Perguntou em tom de desespero.

- A sua mãe teve um quadro chamado de sequestro esplênico. É quando começa a ocorrer um súbito acúmulo de células vermelhas do sangue dentro do baço, causando inchaço e dor. Também diminui a concentração de hemoglobina no sangue. É a hemoglobina quem transporta o oxigênio pelo corpo. É um quadro muito perigoso, sorte que sua mãe foi trazida logo para cá. Não tem como prever quando vai acontecer.

- E como ela está agora?

- Sedada por causa da dor. Nós estamos aplicando soro e fazendo uma transfusão de sangue para que o quadro regrida. Se o inchaço do baço persistir, nós iremos removê-lo cirurgicamente.

- Eu posso vê-la?

- Ela já está no quarto, mas está dormindo. Você como familiar, vai receber autorização para entrar. Os senhores terão que esperar até amanhã.

Os gêmeos concordaram com o médico. O filho adentrou o prédio, e Saga soltou um suspiro pesado antes de anunciar.

- Eu preciso ir ao banheiro.

Enquanto o irmão afastava-se, Kanon resolveu por a ideia que teve em prática. Virou-se para o médico que atendeu Elena e perguntou.

- Doutor... Irmãos gêmeos idênticos como Saga e eu tem o DNA igual?

- Sim

- Então eu quero fazer-lhe um pedido, mas eu preciso de total discrição do senhor...

No banheiro, Saga fechou a torneira depois de lavar o rosto. Não acreditava que isso estava acontecendo. Já era a segunda internação em poucos dias. Depois de olhar-se no espelho, voltou à sala de espera, onde Kanon e o médico se despediam. O general convenceu Saga de que não tinha razão para ele ficar ali. Os dois foram embora. Reportaram a Atena o que havia ocorrido ao voltarem. A noite foi difícil para Saga, quase não dormiu.

No dia seguinte, o alívio tomou conta do Cavaleiro ao ver Elena acordada. E não foi a única boa notícia. Ioannis era compatível para o transplante. O médico recomendou que ambos ficassem internados pelos próximos dias. Ela para ser acompanhada de perto, e ele para evitar qualquer problema de saúde que pudesse adiar o processo. Foram dias levemente agitados. Saga estava sempre presente, e aos poucos alguns cavaleiros de ouro apareceram para visitar os dois, declarando serem amigos de Saga. Elena estava se acostumando cada vez mais com a presença do geminiano. Conversava normalmente e se permitia sorrir na presença dele.

Os procedimentos relativos ao transplante ocorreram como o planejado. Depois do isolamento, radiação e o transplante em si, a mulher recuperava-se bem. Poderia ter alta em poucos dias. Ioannis já estava totalmente recuperado, e alternava seu tempo entre o hospital e o hotel. Era fim de tarde. Saga e Elena conversavam sozinhos no quarto quando bateram na porta.

- Entre.

Elena autorizou a entrada. Era Kanon, que trazia uma pasta na mão. Assim que entrou, ele perguntou.

- Vocês estão sozinhos?

- Sim.

Saga respondeu.

- Ótimo. Eu tenho algo aqui que vai interessar vocês.

- O que é isso?

O cavaleiro perguntou curioso.

- Bom, pra começar eu vou pedir desculpas para vocês. Não queria ter agido pelas costas, mas eu vi que nada mudaria se não o fizesse.

- Kanon... O que você fez?

- Eu tenho em minhas mãos um teste de DNA, pra saber se o Saga é mesmo pai do Ioannis.

- O que?

A voz do casal saiu em uníssono.

- Não tem graça, Kanon. Como você conseguiu fazer esse exame?

Elena perguntou com desespero na voz.

- Peguei um copo de plástico que o Ioannis usou no refeitório do hospital e usei uma amostra minha para comparar. Afinal Saga e eu temos o mesmo DNA. O médico me indicou um laboratório que faz o exame. O resultado saiu hoje.

- Eu não posso acreditar. Kanon, você não tinha esse direito.

Saga estava possesso com o irmão.

- Não tinha o direito de querer sanar essa dúvida de vocês? Poupe-me. Você queria saber desde o começo.

- Sim, mas... Não dessa forma, não sem o consentimento da Elena.

- Perdoe-me, Elena. Mas isso sempre me pareceu uma desculpa para ter um motivo para se afastar do Saga. Você sabe que se ele for mesmo o pai do Ioannis, vai querer ser presente na vida dele.

A mulher respondeu

- Mesmo se fosse só uma desculpa, é como o Saga disse, você não tinha o direito. Esse é um assunto meu e dele. Você não tinha nada que se meter.

- Agora está feito. Vocês vão querer saber ou não?

O general falou balançando a pasta no ar. Saga respondeu imediatamente.

- Já disse, não dessa forma.

Elena apenas balançou a cabeça negativamente. Kanon deu um suspiro.

- Vocês se merecem. Dois teimosos. Vou deixar a pasta aqui, vai que mudem de ideia.

Ele colocou a pasta no criado mudo ao lado da cama e seguiu em direção à porta. Quando a abriu, teve uma surpresa.

- Ioannis...

O rapaz resolvera ver a mãe antes de jantar, mas estancou ao começar a ouvir uma conversa estranha sobre exame de DNA. Colou seu ouvido à porta e ouviu mais atentamente. De repente as coisas começaram a fazer sentido para ele. O receio da mãe à presença de Saga... A história da dívida... Quando Kanon abriu a porta, a expressão dele era de ódio e desapontamento.

- Filho...

Elena ainda tentou falar algo, mas ele saiu correndo. A mulher virou-se para Kanon com os olhos marejados.

- Está vendo o que fez?!

Enquanto o choro dela se tornava mais alto, Saga resolveu agir.

- Não. Não vou deixar isso acabar assim. Só tem uma pessoa que ele precisa odiar.

Praticamente correu até a porta, parando e virando na direção dela antes de sumir.

- Eu vou trazê-lo de volta. Eu prometo.

Antes que ela pudesse focar seu olhar nele, ele já havia desaparecido. Saga corria pelos corredores do Hospital sem se preocupar com possíveis reclamações. Iria encontrá-lo, mesmo que tivesse que percorrer Atenas na velocidade da luz para isso. Ao chegar à entrada, pensou que ele não poderia ter ido tão longe. Após alguns minutos correndo, o encontrou sentado no banco de uma praça. Aproximou-se devagar, sentando ao lado dele, olhando apenas para frente, sem encará-lo. O rapaz viu quem era e pensou em ir embora também, mas resolveu ficar. Precisava de respostas.

- O que significa aquela conversa toda...

- Ioannis, antes de eu começar, tem uma coisa que quero que tenha em mente. Só tem um culpado nessa história, e só uma pessoa que merece seu ódio. Eu.

Ioannis virou a cabeça na direção do cavaleiro, que mantinha seu olhar para frente, sem alvo definido.

- Desde crianças eu e sua mãe éramos próximos. Acho que dá para falar que foi nessa época que nos apaixonamos. Mas nem sempre as coisas são como queremos. Kanon e eu tivemos que ir embora depois que nosso pai morreu. Anos se passaram, mas eu não conseguia ver outra mulher na minha vida senão a Elena. Quando consegui, eu voltei. Sua mãe já namorava seu pai, mas assim como eu, ela nunca tinha me esquecido.

- Então... Você e minha mãe...

O rapaz estava envergonhado de pensar em sua mãe e Saga juntos.

- Na nossa última noite juntos. Foi impensado, impulsivo... Apaixonado. Foi a última vez que vi ela até meses atrás. Prometi a ela que a buscaria, que nós iríamos morar em Atenas, juntos, para sempre, mas... Algo aconteceu.

Ele ficou em silêncio, o que deixou Ioannis ainda mais angustiado.

- O que aconteceu?

Teve que falar para Saga continuar.

- Fiz algo terrível, então descobriram que sou uma pessoa doente. Tenho outra personalidade, que tem uma natureza maléfica. Por 13 anos eu briguei dentro da minha mente para tomar o controle novamente. Quando consegui, e vi quanto tempo perdi, fiquei desesperado. Havia quebrado a promessa com sua mãe. Demorou 3 anos para eu criar coragem para vê-la...

Saga cobriu o rosto com a palma da mão. O rapaz olhou para Saga com certa desconfiança.

- Dupla personalidade? É uma história difícil de acreditar. Não foi... Por minha causa?

Saga teve que pensar em um instante antes de falar. Ioannis deu a entender que ele havia fugido da responsabilidade de ser pai.

- Não. Eu juro. Não sabia de você até ir a Lakka em Agosto. E se Nikos não tivesse falado que você era prematuro, eu nem saberia que existia a possibilidade.

Saga limpou uma lágrima insistente no canto do olho antes de continuar falando.

- Ela também não acreditou, mas eu vou provar para vocês depois que ela tiver alta. Mas isso não é importante agora. Ioannis, a sua mãe foi apenas uma vítima dos problemas que eu causei. Sendo eu seu pai ou não, não tenha raiva dela, eu imploro.

- Eu não estou com raiva dela. Eu estou... Chateado.

- Vá conversar com ela então. Uma conversa franca talvez seja a melhor opção agora. Ela vai expor o lado dela, e você também. Essa história ficou anos demais enterrada.

- Acho que o senhor tem razão...

Os dois voltaram em silêncio para o Hospital. Ao ver o filho no quarto, Elena chorou de alívio. Ioannis foi até ela e a abraçou enquanto ela se desculpava. Depois, virou-se para Saga, que estava ao lado de um Kanon aliviado por tudo ter se resolvido.

- Obrigada.

- Não se preocupe. Eu apenas disse a verdade. Vocês dois precisam de um tempo para conversar. Nós estamos indo.

- Espere...

Ele foi cortado pela voz de Ioannis.

- Vocês podem estar receosos em saber a verdade, mas eu quero saber quem é meu pai.

Todos olharam surpresos para ele. Elena foi a primeira a falar.

- Você tem certeza?

- Sim.

-... Está bem. Saga...

O geminiano balançou a cabeça e pegou a pasta no mesmo lugar que Kanon havia deixado. A tensão tomou conta do local enquanto ele pegava a pasta e abria, lendo o documento que estava ali. Ao chegar à parte que importava, ele começou a ler em voz alta.

- Após a realização dos exames... Está descartado qualquer nível de parentesco entre os doadores...

Saga abriu um suave sorriso e dirigiu o rosto à mãe e filho.

- Você estava certa, Elena. O Theo é o pai do Ioannis.

A mulher cobriu o rosto com as mãos. Anos de dúvidas finalmente haviam acabado, e ela podia relaxar. Colocou tudo para fora em um choro compulsivo. Ioannis também estava feliz, e Saga, aliviado. No fundo, talvez não quisesse que o rapaz fosse seu filho. Seu sentimento de culpa seria ainda maior. Agora estavam livres, sem aquela história para assombrá-los. Depois que Elena acalmou-se, Saga repetiu o que havia falado antes.

- Acho que agora é o momento certo para irmos.

Disse virando seu rosto na direção do irmão, mas a voz de Elena chamou sua atenção.

- Saga, espere. Acho que você deveria participar dessa conversa também...

O cavaleiro não escondeu a surpresa, mas concordou em ficar. Kanon despediu-se, e enquanto caminhava pelos corredores, um sorriso maroto surgiu em seus lábios.

- "Apesar de tudo, acho que vou ganhar a aposta com a Elena".

Disse mentalmente. No quarto, Saga, Elena e Ioannis começavam uma conversa franca sobre seus sentimentos e opiniões, misturada com momentos nostálgicos. Mas ainda algo incomodava a mulher.

- Saga... Eu preciso falar uma coisa...

Após ter atenção dos dois, ela continuou.

- Eu fiquei observando você todo esse tempo desde que vim para Atenas. Esses dias serviram para eu decidir o que eu realmente ainda sinto por você...

A ansiedade tomou conta do cavaleiro enquanto esperava a resposta.

-... A verdade, é que eu ainda te amo, mas... Eu ainda não sei se posso te perdoar. Eu preciso que você seja sincera comigo, Saga. O que aconteceu nesses 16 anos?

O geminiano sentiu seu coração aquecer com a declaração, mas sabia que o pior teste estava por vir. Esticou braço e fez um afago nos longos fios castanhos da mulher antes de falar.

- Eu não menti sobre o que aconteceu, mas... Eu omiti algumas coisas... Coisas importantes, que eu achei que você não estava pronta para ouvir... Mas você precisa saber, para decidir se poderá me perdoar ou não. Depois que você tiver alta, você e Ioannis saberão de tudo, eu prometo...

Elena sentiu um aperto no peito. Da forma como ele falava, parecia ser algo terrível. Sentia que precisaria ser forte. Naquela mesma noite, depois de despedir-se de mãe e filho no Hospital, Saga foi ao encontro de Atena e Mestre Shion no Décimo Terceiro Templo, contando o que pretendia fazer e requisitando o auxílio deles. Shion receou um pouco no princípio, mas foi convencido por Atena, mesmo ela achando que aquilo seria um pouco radical. Já Saga estava convencido de que só mereceria o perdão de Elena se ela soubesse o que ele realmente foi por todos esses anos.

Elena teve alta no dia 15/12. Assim que saiu pela porta, abriu um largo sorriso. Estava cansada de ficar dentro de um quarto, e estava feliz por sentir a luz do sol em seu rosto. Um carro esperava por ela e Ioannis. Saga estava lá, como sempre, os esperando. Kanon seria o motorista. O carro partiu, e Elena imediatamente perguntou.

- Estamos indo para o Hotel?

Foi Saga quem respondeu.

- Não. Estamos indo para... Minha casa.

O resto do caminho foi em silêncio. Afastaram-se um pouco do centro da cidade, tomando um caminho entre as montanhas até chegarem a uma vila. Pararam o carro em um local oportuno, e seguiram a pé. Enquanto os quatro caminhavam, Elena percebeu que Saga era cumprimentado por várias pessoas. Algumas delas até mesmo pareciam prestar reverência a ele. Aquilo estava ficando cada vez mais estranho, e começava a preocupá-la. Saga quebrou o silêncio.

- Elena... O que você sabe sobre a mitologia da Grécia?

- Não sou uma conhecedora profunda, mas sei o bastante.

- Você alguma vez quis que as histórias que você leu fossem verdadeiras?

Demorou um pouco para responder àquela pergunta diferente.

- Algumas... Mas como o próprio nome diz, elas não passam de mitos.

- E se eu te disser que esses mitos estão prestes a se tornarem reais diante de seus olhos?...

Elena a Ioannis viraram os rostos na direção de Saga, intrigados com a afirmação.

- Saga, se isso for alguma brincadeira de mau gosto...

- Não é, Elena. Veja.

Ele apontou para frente, ao longe. A mulher seguiu com o olhar, e percebeu algo que parecia ser uma pequena cidade surgir. Várias construções ao pé de uma montanha, aonde também podiam se ver várias edificações, e o que parecia ser um Templo no topo.

- Q... Que lugar é esse?

- É o Santuário de Atena.


Continua...

- Deixem recados dizendo o que acharam.

- Infelizmente o próximo capítulo está meio lento, mas espero que saia em duas semanas.

Até a próxima.