You Mystify Me
A janela do quarto estava entreaberta e a persiana mal fechada. Do lado de fora, a manhã ainda estava escura quando o despertador resolveu acordar Anna. A televisão chiava em um canal que só teria programação depois das 7AM. Anna respirou o ar gélido quando colocou a cabeça pra fora do cobertor abafado. Desligou o aparelho na cabeceira da cama e, só pra variar, choramingou de triste. Não queria abrir os olhos.
"Eu posso levantar e pular da janela. Se eu pular direitinho, três andares serão o suficiente pra morrer", cogitou.
A contragosto e contra a vontade de todos seus músculos, Anna se levantou, sentindo o chão mais do que gostaria. Caminhou até a cozinha, passando pelo espelho do corredor e dando-se conta do estado desastroso de seu cabelo. Ligou a cafeteira na tomada, questionando-se porque não tinha feito café noite passada.
Certamente era estranho, mas não queria pensar nisso. Tinha acordado com uma baixa enxaqueca e seus comprimidos haviam acabado havia quase uma semana. Talvez devesse tomar um chá de camomila.
"Mas não tenho camomila, droga".
A garota se virou rapidamente para cama, com as sobrancelhas apertadas, quando ouviu um gemido baixo. Na ponta dos pés, pôde ver uma mulher loira se remexer entre as cobertas, do lado oposto ao que Anna havia dormindo. A única reação da garota foi apagar a luz automaticamente. No breu, ela coçava a nuca, ouvindo o som e o cheiro do café quente se espatifando contra o vidro gelado da cafeteira. Confusa.
"Elsa" lembrou "e oh, meu deus, ela está nua.".
O aparelho eletrônico em cima da cabeceira da cama piscava, alertando ser quase seis horas. Sua aula começava as oito e o professor de Historia da Arte Antiga e Medieval detestava pessoas que se atrasavam e entravam pela porta dos fundos de cabeça baixa. Ou seja, ele detestava a Anna. Novamente a ruiva estava em um dilema. Precisava se arrumar e ir estudar – por mais que não quisesse. Mas e Elsa? Ela possivelmente também deveria ir trabalhar, em um pequeno escritório que com toda certeza parecia mais com um quarto de manicômio. Deveria acordá-la?
Com um suspiro que mais pareceu um relincho de cavalo Suspirando, Anna resolveu por tomar uma ducha rápida. Vestiu o jeans mais confortável que se pode localizar na enorme pilha de roupas amontoadas na cadeira giratória e um moletom velho e desbotado. Penteou os fios grossos e rebeldes, prendendo em duas tranças individuais.
Calçou uma meia furada e caminhou até a cama, onde a loira estava exageradamente embrulhada no edredom. Agora sóbria, pôde observar melhor a loira. Era uma das pessoas mais bonitas que vira na vida, se não a mais bonita. Passou a mão nos fios loiros, fazendo Elsa abrir lentamente os olhos. Novamente Anna estava despencando na imensidão azul do céu.
"Estou literalmente caindo pra cima", concluiu, balançando a cabeça positivamente.
- Elsa... São quase sete horas. Você tem algum compromisso?
- Onde estamos? – perguntou a mulher, passando a mão nos fios loiros.
Anna balbuciou um pouco, sentindo seu coração apertar. Poxa, ela sequer sabia onde estava?
- Quer dizer – Elsa se alertou – da cidade. Sei quem é você e que estamos na sua casa – riu a mulher, dando um rápido beijo na bochecha da garota, que sentiu o rosto arder.
- No Brooklyn. Eu acho que viemos de metrô...
- Certo – Elsa ordenou os próprios pensamentos. Levantou completamente nua e caminhou para o banheiro. Deixando uma Anna sem reação pra trás.
- Vou chamar um táxi para me deixar na Wall Street – disse pela porta aberta do banheiro – eu pago a corrida até sua faculdade.
- Hã... – Anna sorriu meio torto. Wall Street? Ela ia pagar uma corrida àquela hora em Nova York? Santo dinheiro – está ótimo então. Estudo na Fordham, mas pode pagar a corrida só até Beltmont. É perto.
- Fica a seu critério.
Enquanto Elsa tomava um banho e provavelmente examinava seu corpo marcado de unhas, Anna tomava seu café amargo – estava sem açúcar – e comia um sanduiche de queijo de três dias. A loira então saiu do banheiro só de sutiã e uma pequena toalha em volta da cintura. Realmente tinha marcas de unhas em sua pele pra lá de branca.
- Anna. Minhas roupas?
- Então... – a ruiva coçou a nuca – estas? – segurou um amontoado de pano úmido.
- É...
- Eu posso te emprestar algo! Claro que não é nada tão chique como as suas, mas acho que pode usar até seu apartamento e...
- Eu aceito – sorriu, enquanto deslizava os dedos no cabelo.
"Claro que as roupas convencionais dela são saias de brim e social. Mas eu só tenho jeans e xadrez. Meu deus, como essa mulher foi pra cama comigo?", perguntou-se a ruiva "Talvez ela quisesse conhecer algo novo ou reviver os tempos de faculdade, ou..."
- Anna?
- Ah, Ah! – a garota acordou de seu pequeno pensamento.
- Tenho um jeans que fica comprido pra mim, sempre tenho que dobrar a barra. E uma camisa social um tanto mais larga que uso pra dormir. Que tal?
- Deixe-me ver.
Na humilde opinião de Anna, Elsa tinha ficado 170% mais sexy com aquela roupa séria, mas descontraída. Apesar de amassado, a camisa social branca ficara bem na loira e o jeans azul numa altura aceitável em seus calcanhares. O salto alto de Elsa era preto e dava um "mais" no visual. Por fim, a mulher trançou os fios loiros e sorriu pra Anna.
- Posso tomar um pouco de café?
- Claro, mas... Está um pouco amargo. E talvez um pouco aguado.
"Alguém me mataaa".
Quando Elsa estava com sua pasta de couro e Anna com sua mochila velha, ambas prontas pra sair, Elsa a segurou contra a parede. Mãos firmes na cintura e novamente Anna tinha que olhar pra cima se quisesse encarar os olhos azuis. Elas se beijaram lentamente, enquanto Elsa acariciava o rosto da garota.
- Sabe Anna. Você tem cara de vinte e dois, de universitária. De uma pessoa feliz. Essas suas sardas, esse cabelo laranja. Você é linda, sabe disso?
Claro que a ruiva queria responder. Diversas palavras pularam em mente, diversas situações, que iam desde um singelo "obrigada", à um beijo mais quente, um murmurar no ouvido e até um empurrão pra cama e uma manhã de sexo.
Mas.
- Ah... – ela sacudiu a cabeça, tossindo. Abraçou a mulher à sua frente e engoliu algo preso à garganta.
Desceram então as escadarias quando o táxi buzinou. O trânsito estava infernal como sempre. Elsa tirou de dentro da pasta de couro mais pastas, lotadas de papéis. Passou os olhos rápido e Anna questionando se poderia interromper sem parecer idiota. Queria saber mais da outra, já que esta já sabia onde Anna trabalhava, estudava, morava, seu corpo etc. etc. etc.
"Socorro."
- Então... – iniciou o assunto, tamborilando os dedos na coxa – trabalha com o que?
- Sou presidente de uma multinacional de eletrônicos – respondeu, levantando as sobrancelhas, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Anna tombou a cabeça um pouco demais para o lado.
- Quantos anos têm? – custou perguntar.
- Quase trinta – Elsa sorriu – Mas a empresa é herdada, Anna. Meu pai se aposentou e passou o serviço pra mim. Não era bem o que eu queria, mas é o que o destino me reserva.
- Entendo... – respondeu a ruiva.
- Você estuda o que mesmo? – perguntou Elsa enquanto lidava com seu Pager preto com detalhes metálicos.
- Uma espécie de mistura de Artes Cênicas e Visuais... Gosto muito de Cinema e música também. Meus pais sempre me encheram um pouco o saco por não cursar algo mais sério, sabe? Aquela clássica tríade de Engenharia, Direito e Medicina. Nada contra, mas realmente nunca foi pra mim esse lance – Anna divagou, vagamente.
- Sou formada em direito – Elsa sorriu – É um bocado chato se você realmente não quiser praticar a profissão.
O taxista foi obrigado a parar por conta do trânsito tumultuado na Brooklyn Bridge, uma das principais pontes que conectava o Brooklyn com Nova York. O tempo voltou a escurecer e uma chuva fina atingiu a janela escura do carro, borrando a paisagem de automóveis amarelos e cinzas. Ele ainda tirou um do bolso um pequeno livreto de Palavras Cruzadas para passar o tempo e ligou a rádio.
"A cidade mais populosa dos Estados Unidos amanheceu sob uma densa nuvem de chuva! Recomendamos que usem seus carros e saiam de guarda-chuva, para não molhar a maleta e o seu Giorgio Armani! Fiquem agora com Cranberries, esses irlandeses que não param de fazer sucesso no país do tio Sam!".
Anna se ajeitou no banco do carro. Tinha um carinho especial por The Cranberries e o tom de suas músicas. A música que logo tomou conta do carro era Sunday, do álbum de estreia da banda irlandesa, em 1993.
- Querem que eu troque de rádio? – o motorista perguntou – muita gente não gosta desses irlandeses metidos que querem dominar os EUA. Estrangeiros safados.
- Pode deixar – Anna rebateu com um olhar incrédulo. Estrangeiros safados? Quem poderia ter um pensamento tão xenofóbico com uma música?
Elsa se mexeu ao lado, guardando seu Pager no bolso do jeans desbotado.
- "When you walked into the room, It happened oh so soon".
Quando você andou dentro do quarto, aconteceu oh tão logo.
- "I didn't want to know".
Eu não queria saber.
- "Does he really have to go?"
Ele realmente tem de ir?
(You mystify me, you mystify me, you mystify me).
Anna cantarolava baixinho, observando o grande borrão do lado de fora. A loira encostou a cabeça junto ao ombro da loira. Parecia cansada.
- É realmente muito bom a sua presença, Anna. Se soubesse o quanto é pesado o ambiente que convivo...
A ruiva se virou para olhar enquanto a outra sussurrava. Queria que Elsa soubesse que estaria ali para qualquer situação. Anna acreditava que, se de fato Elsa tivesse algum amigo ou namorado/a para falar das dificuldades de seu cotidiano, jamais estaria se abrindo para uma garçonete estranha que conhecera em um restaurante.
De fato o mundo nunca pareceu se importar com o problema de ninguém.
- Minha mãe gostava de falar sobre a aura das pessoas – comentou a ruiva – que mesmo sendo invisível, deixa uma espécie de "expressão" no ar. A sua é maravilhosa, Elsa – a garota afastou as mechas loiras e beijou a testa da outra.
O céu de Nova York nunca pareceu se importar com ninguém.
O carro voltou a andar, enquanto o motorista observava ambas as mulheres no banco traseiro. A ruiva tinha acolhido a loira debaixo de seu braço e o silencio predominava. A Wall Street parecia cada vez mais próxima e Anna batucava em sua mente uma maneira discreta de pedir o telefone da loira, ou mesmo se elas iriam se ver uma vez mais.
Quando de fato chegaram à Manhattan, Anna sabia que o coração histórico do Distrito Financeiro nunca faria parte de sua vida. O táxi parou bruscamente subindo o meio fio. Elsa o instruiu a deixar a garota onde ela quisesse e o pagou com algumas notas cuidadosamente dobradas.
- Anna, você é maravilhosa – Elsa disse no ouvido da garota – não mude por nada – concluiu, dando um selinho demorado na ruiva e logo fechando a porta do carro e atravessando a rua em meio a chuva. Passos largos.
- Pra onde? – o homem careca resmungou no banco da frente.
Mas Anna estava fatalmente chateada. Passou quase quarenta minutos pensando em várias estratégias para pedir o telefone da loira, e no fim, nem mesmo um "nos vemos de novo?" ela conseguiu balbuciar.
No restante do percurso Anna não pensou que deveria comprar açúcar na volta do serviço. Também não pensou no professor de Historia da Arte Antiga e Medieval, que a odiava. E sequer lembrou que esquecera seu MetroCard em cima da divisória de mármore.
Talvez fosse drama dela. E se Elsa lhe desse um 'não' como resposta? Não era como se a ruiva tivesse encontrado o amor da sua vida. Elsa provavelmente tinha diversos pretendentes ricos, presidentes de multimilionárias, que ofereceriam o melhor cappuccino de Nova York para a loira, que gentilmente recusaria e diria que preferia um expresso. Talvez tivesse sido melhor assim. Um sonho em sua mente agitada.
Às 15PM, o céu cessara um pouco e mais uma vez Anna estava em seu posto no Eight Legend da 11th avenida. Era um tanto quanto tarde e mesmo assim as pessoas chegavam aos montes para comer purê de batatas e filé mignon.
- Parece um tanto abatida, Anna – Amber comentou – tá resfriada?
- Acho que não – a ruiva sorriu, despreocupada – não se preocupe. Tenho muitos trabalhos da faculdade para fazer, só isso.
A noite mais uma vez caía de alturas clandestinas e era possível admirar o raio laranja do pôr-do-sol entre os prédios. Um ar de melancolia tomou o ambiente de repente. Tocava no fundo algo que Anna não conhecia.
Sentou-se para ver Elsa entrar novamente pela porta.
Enxuta e com um tímido sorrido de canto.
Talvez não fosse preciso colocar cartazes nos postes de Nova York, com um retrato falado da loira e letras garrafais de 'PROCURA-SE'.
"And now I tell you openly,
you have my heart, so don't hurt me".
