Capítulo 2

Na semana seguinte eu fui todos os dias, sem falta, na casa de chá. Finn sempre estava comigo e, por algum motivo, começou a me incomodar. Eu não progredia na relação que eu queria ter com Lee. Tudo bem que eu não sei se Finn estivesse ausente eu faria alguma coisa diferente, mas eu tinha que testar um dia.

Na sexta-feira, quando Finn trabalhava na feira, eu fui sozinha. Ian foi com ele para se divertir um pouco como sempre fazíamos e estranhou por eu não ir junto com eles. A essa altura ele já sabia sobre meu interesse com Lee e eu confessei que era por causa dele que não iria à feira. Ele concordou e fomos cada um para um lado.

Estava nervosa e ansiosa ao mesmo tempo. Não sei o que faria pela primeira vez sozinha na casa de chá depois que Lee e Mushi começaram a trabalhar lá. Talvez nada. Talvez minha ansiedade fosse à toa, mas eu não conseguia me controlar.

Cheguei à casa de chá e entrei. Ao avistar Lee, senti uma felicidade enorme me invadir, como sempre acontecia quando eu o via. Sorri para mim mesma.

- Boa noite, moça. – Mushi me cumprimentou, saindo do nada, com um enorme sorriso e eu assustei. – Estava prestando atenção em algo que lhe interessa?

Eu ri como se ele tivesse contado uma piada sem graça.

- Não, não, só estou um pouco distraída.

- E cadê o seu amigo marrento? – Mushi perguntou olhando para a rua.

- Ele não veio, está trabalhando.

- Ele não veio? Puxa, que chato. – Mushi nem conseguiu disfarçar que estava satisfeito com isso. – Quer dizer que você está sozinha?

- Sim. – eu respondi olhando meio receosa pelo modo como ele falava.

- Tomar chá sozinho é tão desagradável. – ele lamentou por mim. Eu franzi o cenho e me senti triste por tomar chá sozinha, não pensei que seria desagradável, mas agora... – Sente-se. Pedirei ao meu sobrinho para vir pegar o seu pedido. – e saiu.

Eu sentei com o semblante triste. Seria tão desagradável assim tomar chá sozinha? Não pensei por esse lado e fiquei triste por não ter chamado Ian para vir comigo.

- Vai querer o quê?

Eu olhei para cima e vi Lee me encarando esperando a resposta. Me animei de novo e meu nervosismo voltou com tudo. Todos os dias era a mesma coisa quando eu o via: sentia um frio na barriga e ficava nervosa.

- Quero chá de jasmim, por favor. – eu pedi. Mushi quase me obrigou a experimentar chá de jasmim mais cedo na semana. Ele disse que seria o melhor chá que eu tomaria na minha vida. E realmente era.

Alguns minutos se passaram e Lee voltou com dois chás. Colocou o primeiro na mesa em frente a mim e quando foi colocar o segundo e o avisei:

- Eu não pedi dois chás.

- Não? – ele recolheu o chá e colocou-o de volta na bandeja. – Meu tio disse que... – Lee foi interrompido por Mushi que apareceu do nada ao lado dele.

- Fui eu que pedi o segundo chá. Para você, Lee. – ele olhava para o sobrinho sorrindo.

- Ahn?! – Lee não estava entendendo. E eu não tinha certeza se estava.

- Você não vai dar deixar essa adorável mocinha tomar chá sozinha, vai?

- Vou sim! Ela veio sozinha porque ela quis! Por que eu tenho que fazer companhia? – Lee falou bravo com o tio. Minhas sobrancelhas caíram.

- Porque você é um cara legal. Senta aí. – Mushi pegou a bandeja, colocou-a na mesa e empurrou Lee na cadeira. – Assim está melhor. – disse ele, sem perder o bom humor.

- Eu tenho que trabalhar, não posso ficar aqui! – Lee tentou se levantar, mas Mushi o empurrou de volta.

- Tem poucos clientes hoje e o nosso patrão não está aqui. A maioria foi para aquela feira enorme. Eu cuido de tudo enquanto você se diverte. – e piscou para Lee que bufou e se sentou direito. – Divirtam-se, crianças! – Mushi colocou a outra xícara na mesa, pegou a bandeja e saiu.

Fiquei em uma situação estranha. Queria muito que isso acontecesse, poder tomar chá sozinha com Lee, mas não queria que ele fosse forçado a isso. Me senti na obrigação de me desculpar.

- Me desculpe. - Lee estava olhando para dentro da sua xícara e sem olhar para cima me perguntou pelo quê. – Sinto que a culpa é minha por você estar sentado aqui, infeliz.

- Pode até ser, mas meu tio que é o verdadeiro culpado. Ele quer que eu arrume uma namorada aqui. – ele respondeu. Foi sincero.

- Ah, tá. – poderia ser eu, pensei feliz. Eu beberiquei meu chá. Estava muito bom. – Mas você não quer?

- Tenho coisas mais importantes para me preocupar do que namorar. – Lee respondeu com desprezo e tomou um gole do chá.

- E você pode resolver esses seus problemas enquanto estiver em Ba Sing Se?

- Não.

- Então por que você não se preocupa com outras coisas? – eu perguntei e Lee olhou para mim pela primeira vez depois que se sentou. – Você só vai ficar perdendo tempo pensando no que poderia fazer ou ter feito, enquanto poderia viver a vida direito.

Lee fez uma careta para mim. Será que fui grossa com ele? Não quero estragar nosso primeiro "encontro" sendo estúpida com ele. Mesmo assim, eu mantive minha postura sem parecer arrependida.

- Você combinou isso com meu tio? – Lee me perguntou me acusando. Assustei com a pergunta.

- Não! Claro que não! – eu imediatamente me defendi.

- Hum. Ele diz que eu preciso começar uma vida nova. Mas eu não quero começar uma vida nova aqui. – ele parecia odiar a ideia.

- Ba Sing Se não é ruim. Eu levei um tempo para me acostumar a viver "como gente normal", mas não é difícil.

- Essa cidade é horrível, eu odeio aqui. – Lee revoltou-se e deu um soco na mesa.

Eu olhei para o meu chá por um momento pensando no que dizer.

- Você precisa se acostumar. E aprender a deixar o passado para trás.

- Você diz como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Com certeza não passou pela metade do que eu passei.

- Isso não importa. Todos nós temos problemas e para nós eles são os piores e os mais importantes. – eu tentei explicar. – Minha vida também não foi fácil e estou aprendendo a deixar para trás o que passou. – E isso era verdade. Mas é bem mais difícil do que parece.

- Eu qual é a sua história? – Lee perguntou, ainda olhando para mim.

- Olha, eu não estou interessada em contar minha vida para um estranho. – eu respondi olhando para ele.

Ele sorriu com um canto da boca e riu pelo nariz.

- Justo.

Eu sorri. Será que ele tinha ficado um pouquinho mais interessado? Só um pouquinho que seja? Espero que sim.

- Se você quiser, eu posso te mostrar a cidade. – eu arrisquei e ofereci como quem não quer nada. – Tenho certeza que não foi além da sua casa para o trabalho e vice-versa.

- Bom, nisso você está certa. – ele admitiu. – Ba Sing Se é enorme, você não conseguirá me mostrar tudo.

- Você tem razão. Mostrarei as redondezas então. Poderíamos ir à feira amanhã ou depois, é muito legal lá.

- Estarei trabalhando. – Lee disse, terminando o seu chá.

- Ah.

Eu olhei para o meu chá e ele estava praticamente cheio e ficando frio. Estive tão concentrada em conversar com ele e em pensar sobre o que dizer que me esqueci de tomar o chá. Lee já tinha acabado o dele e logo se levantaria e iria embora. Eu precisava fazer alguma coisa para que o nosso relacionamento não terminasse aí.

- Você e o seu tio poderiam ir ao restaurante onde trabalho amanhã na hora do almoço. – eu sugeri, torcendo para que ele aceitasse. – É uma alternativa, caso não queiram cozinhar e você já conhece um pouco mais esse lado da cidade. – torci muito para que ele aceitasse.

Lee pareceu considerar, mas então disse:

- Não sei se poderei pagar.

Relaxei os ombros.

- Bom, fala com o seu tio, quem sabe ele aceita.

- Se eu falar para ele, ele com certeza irá.

- Então, ótimo. – eu disse sorrindo.

Lee olhava sério para mim. Eu não soube dizer se ele estava bravo comigo ou se esse era o seu jeito vinte e quatro horas por dia. Parecia mais a segunda opção, mas ainda estava em dúvida.

- Tenho que voltar a trabalhar. Quer que eu leve a sua xícara? – ele perguntou esticando o braço para eu entrega-la a ele.

- Pode sim. – eu coloquei em sua mão e senti um arrepio quando as pontas de nossos dedos médios se encostaram. Valeu a pena esse encontro, afinal de contas.

- Você nem bebeu o chá. – Lee observou. – Está ruim?

- Não, está ótimo. Eu só me distraí com outra coisa. – admiti, sem nem pensar o que ele pensaria dessa resposta. – Eu já vou te pagar. – lhe entreguei as moedas e saí.

Só quando cheguei em casa me lembrei que não me despedi de Mushi. Que falta de educação a minha. Ele que foi o cupido da noite, que fez com que eu tivesse, de certa forma, um encontro com Lee e nem 'tchau' eu disse a ele.

Estava tão preocupada pensando o que Lee tinha achado de mim, se eu tinha sido chata, se ele estava bravo comigo, se nós poderíamos avançar na nossa relação que me esqueci do resto.

Acho que estou exagerando. Faz pouco mais de uma semana que eu o conheço, eu deveria diminuir minhas expectativas. Ou não? Eu nunca tive essa experiência antes, de gostar de alguém desse jeito, não sei como agir. Será que eu estou exagerando? Será que eu estou forçando a barra? Será que eu estou me jogando para cima dele e parecendo vulgar?

Coloquei as mãos na cabeça e a chacoalhei tentando espantar esses pensamentos.

Abri a porta do apartamento e estava tudo escuro e vazio. Finn e Ian ainda estavam na feira se divertindo. Tinha pensado em ir para lá também, mas no momento só queria dormir. E foi o que fiz.

No dia seguinte, na hora do almoço, para a minha surpresa, Lee e Mushi apareceram para almoçar no restaurante. Tive que me esforçar para não largar tudo o que estava fazendo e ir atendê-los.

Eles se sentaram em uma mesa. Mushi fazia comentários sobre o lugar a Lee e este respondia com palavras curtas, olhando, de braços cruzados, para onde o tio apontava.

Eu comecei a ir em direção a eles e quando eu vi Mila, uma das garotas que trabalhava no restaurante fazer o mesmo; eu apertei o passo para chegar primeiro. Tenho certeza que fiquei ridícula, pois andei o mais rápido que podia sem correr. Mas valeu a pena: cheguei primeiro.

- Que bom que vocês vieram. – eu disse sem conter minha alegria.

- Não poderíamos recusar o seu convite. – Mushi disse gentilmente.

- Então você contou para o seu tio. – eu afirmei olhando para Lee sorrindo com o canto da boca.

Ele olhou rapidamente para mim, sério como sempre, e então desviou o olhar para a parede.

- É claro que contou. Lee praticamente me implorou para virmos aqui hoje.

- Isso é mentira! – Lee gritou com o tio.

- Ah, sobrinho, não negue seus desejos. Deixo-os tomarem conta de você. – Mushi perturbou-o, sempre muito divertido, o que só deixava Lee mais irritado. Percebi que suas bochechas ficaram um pouco rosadas. Eu sorri.

- Vocês já sabem o que querem comer? – eu perguntei educadamente.

- Sim, tem torta? – Mushi perguntou.

- Sim, de frutas, vegetais e carnes.

- Que maravilha. Vou querer uma de cada. E você, Lee?

- Perdi o apetite. – Lee respondeu carrancudo.

- Uma de carne para ele. – Mushi falou para mim. Eu assenti e fui passar os pedidos a Xis.

Enquanto as tortas ficavam prontas, eu atendia o restante dos clientes, mas sempre observando a mesa em que Lee se encontrava. Eu o vi discutindo com o tio, mas este nunca perdia a pose e estava sempre sorrindo e tirando sarro dele.

Quando as tortas ficaram prontas, eu fui buscá-las e entreguei aos dois. Lee estava emburrado e Mushi deu logo uma grande mordida.

- Eu adoro torta. – ele comentou de boca cheia. – Você não vai comer a sua, Lee?

- Já disse que perdi o apetite. – Lee resmungou, ainda de braços cruzados.

Mushi rolou os olhos. Eu pedi licença e saí. Infelizmente tinha que trabalhar.

Pouco tempo depois, Finn e Ian apareceram para almoçar também. Eles ficavam por lá um tempo depois que terminavam de comer, enrolando e me incomodando. Já disse a eles milhões de vezes que eles não podiam ficar ali me atrapalhando durante o expediente, Xis ficaria bravo, mas eles sempre ignoravam.

Quando Lee e Mushi acabaram, eles vieram até mim, pagar.

- Obrigado pelo almoço. – agradeceu Mushi. Eu agradeci de volta e olhei para Lee. Este olhou para mim por um segundo e já desviou. Eu considerei como um agradecimento. Depois, os dois foram embora.

Eu apertei os lábios observando-os sair. Meu coração disparava só de vê-lo. Fiquei triste. Lee não mostrava nenhum interesse. Talvez eu devesse desistir. Se continuasse indo à casa de chá todos os dias, eu só o incomodaria mais e mais. E isso é o oposto do que eu queria.

- Esse cara é difícil. – uma voz disse ao pé do meu ouvido e eu assustei colocando minha mão no peito, sentindo meu coração disparar duas vezes mais. Finn estava ao meu lado direito observando Lee e Mushi virarem a rua e sumirem.

- Que susto! Não faça mais isso. – eu falei brava com Finn e dei um tapa em seu braço. – E o que você ainda está fazendo aqui?

- Estávamos te observando. – Ian disse ao meu lado direito e levei outro susto. Não o tinha visto ali. – Esse cara é difícil mesmo.

- Eu sei. – eu concordei tristonha. – Eu não sei o que eu faço, acho que estou sendo muito insistente. Eu deveria desistir.

- Desistir da única coisa que você resolveu ser persistente? – Finn perguntou, reprovando.

- Mas ele... Espera aí, esse não é o melhor lugar para conversarmos. Estou trabalhando! Xô daqui, vocês! – eu disse e os expulsei do restaurante ante que Xis o fizesse.

Mais tarde eu saí e fui direto ao nosso local de treinamento. Ian estava me esperando. Hoje era dia de treinar com ele, aproveitando seu tempo livre.

- Fala, Kiara! – ele saudou quando eu apareci. – Vamos começar?

Eu suspirei.

- Vamos. – eu larguei minha bolsa encostada em um tronco de árvore, prendi firmes as minhas marias-chiquinhas para que não se soltassem e fiquei de frente para Ian.

- Ei, não é para se preocupar com namorado. Foco aqui. – Ian alertou, apontando seus dedos médio e indicador para dentro de seus olhos.

Objetivo não alcançado. Quando ouvi a palavra 'namorado', fiquei imaginando como seria ter um namorado, principalmente se ele fosse Lee. Seria muito bom, que acho. Nunca tinha namorado então não sabia realmente como era, mas só de pensar em ter alguém que gosta de mim mais do que uma amiga, que queira ficar comigo sempre, ainda mais se esse alguém fosse o Lee, eu só podia esperar boas coisas.

Não sei quanto tempo fiquei nesse devaneio.

- Heim? Heim? HEIM?

Eu chacoalhei a cabeça para voltar à Terra.

- Oi! Estou aqui! Quem está atacando? – Ergui os braços em posição de defesa, olhando para os lados.

Ian entortou a boca e cruzou os braços.

- Eu acabei de falar para você não pensar em namorado e é isso o que você faz?

- Desculpa.

Ele bufou.

- Assim não vai dar. Se comprometa em prestar atenção em mim pelo menos nos nossos treinos.

Eu assenti. Não poderia me dar ao luxo de me distrair durante a luta. Fiquei em posição: pés separados, mãos fechadas e em frente ao corpo, cabeça levantada.

- Ótimo. Eu vou te atacar e o que você vai fazer?

- Atacar a garganta. É mais eficiente que dar socos no corpo ou no rosto. – eu respondi lembrando-me das dicas das aulas anteriores. – Enfiar o dedo no olho também é eficaz.

- Certo, mas não faça essa última parte, por favor. – Ian pediu e veio para cima de mim, tentando me agarrar.

Eu abaixei e desviei na hora, ficando atrás dele. Fui correndo pular nas costas de Ian. Eu o agarrei pelo pescoço, mas facilmente ele pegou meus braços e me jogou para frente, me fazendo cair de costas para o chão. Doeu e eu gritei.

- Errado. Não adianta me agarrar e não fazer nada. – Ian reprovou meu movimento. – Vamos de novo.

Posicionamo-nos novamente e ele veio para cima de mim. Abaixei, mas ele me pegou antes que desviasse. Ele me empurrou e eu caí deitada no chão mais uma vez.

- Você não pode se prender a um único movimento. Seu oponente vai perceber logo e se aproveitar disso. – Ian me ofereceu a mão para eu levantar.

- Está bem, está bem. – eu disse, batendo as palmas das mãos.

- Vamos treinar, então, movimentos de escape. – Ian sugeriu.

- Beleza. – eu me empolguei. Já que ele criticou negativamente o meu método de desvio, eu precisava aprimorar. Além disso, nada melhor do que fugir quando não há mais chances de vencer a luta.

Eu e Ian treinamos por mais algumas horas. Finn apareceu no final trazendo algumas frutas e fazendo companhia. Voltamos para o nosso apartamento quando já havia anoitecido e Finn foi trabalhar.

Na segunda-feira, depois do trabalho, me encontrei com Finn como de costume.

- E ai, vamos tomar chá de quê hoje? – ele me perguntou.

- Nós não vamos mais tomar chá. – eu respondi.

Finn me olhou de boca aberta, inconformado. Balbuciou algumas palavras ininteligíveis antes de dizer:

- Como assim? Eu adoro chá, quero tomar chá hoje! E amanhã! E depois! E para sempre!

- Mas eu não quero voltar lá, o Lee vai acabar me xingando. – eu expliquei, fazendo bico.

- Você é cliente, ele tinha que agradecer por você ir lá todos os dias.

Eu não disse nada, fiquei quieta enquanto andávamos. Finn suspirou.

- Kiara, eu não sei o que fazer. Isso nunca aconteceu antes, eu não sei como agir. – ele falou em tom de desculpas.

- Eu entendo, eu também estou confusa. Isso é muito estranho.

- Deixe-me ver se entendi: você está triste e não quer mais ir à casa de chá porque você acha, só acha, que o Lee te odeia, é isso?

Eu olhei para Finn. Odiar é uma palavra muito forte, mas podia ser isso, então concordei.

- Ele te disse isso? – eu neguei. - Então para com essas suposições sem sentido e vamos logo. Eu quero chá!

Parecia que não tinha escapatória, então eu o acompanhei.

Mas será que eram suposições sem sentido mesmo? Finn tinha razão, Lee nunca disse nada sobre nada, eu estava imaginando o que ele pensava de acordo com suas atitudes. Achei ótimo nosso "encontro" no outro dia, mas ele foi forçado a se sentar comigo e conversar. Acho que o certo seria perguntar de uma vez a ele, mas de repente eu não consegui encontrar a minha coragem. Ela fugiu sem deixar rastros.

Nós entramos na casa de chá e Mushi veio até nós antes de nos sentarmos.

- Você veio hoje! Nós estávamos sentindo sua falta. – ele disse. Já fazia dois dias que eu não ia lá.

Meu coração disparou. "Nós"?

- E você trouxe o seu amigo. Que ótimo. – senti um tom de ironia na voz de Mushi. Finn fechou a cara e o encarou. Mushi fechou os olhos e sorriu inocentemente.

- Podemos nos sentar, por favor? – Finn pediu, me puxando pelo braço até uma mesa. A nossa habitual estava ocupada. Nos sentamos e logo depois Lee veio para anotar nossos pedidos. Ah, ele estava tão bonito como sempre.

- Eu vou querer chá verde hoje. – Finn pediu.

- Eu quero chá de amora.

Lee se virou e foi avisar o seu tio enquanto eu o olhava.

- Acho que na verdade você quer chá de Lee. – Finn riu, tentando ser engraçado.

- Não é só o chá que eu quero. – eu disse, ainda observando Lee de costas.

Finn mostrou a língua, fingindo estar com nojo. Talvez ele não estivesse fingindo.

- Quer saber, eu falo com ele para você.

Imediatamente eu me virei para Finn.

- Nem pensar! Quando for a hora certa eu falarei com ele. – garanti a Finn, temendo que ele pudesse estragar tudo... Ou o pouco que havia acontecido.

- Vou te desafiar então. – ele disse e eu ergui as sobrancelhas, incapaz de erguer uma só. – Você tem uma semana para falar com ele.

Eu ri de deboche.

- E o que eu ganho com isso?

- Não, não, Kiara, não é uma aposta é um desafio. Você não ganha nada se falar com ele. A não ser que ele diga que gosta de você, mas aí é outra coisa. – Finn me explicou. Não gostei dessa resposta.

- Mas se eu não falar?

- Você será uma fracote. – ele cruzou os dedos das mãos abaixo do queixo. – E eu odeio fracotes. – ele disse em tom de ameaça.

- Você está me ameaçando? É isso? – estava indignada. Como ele poderia me ameaçar? Não foi bem uma ameaça, eu li nas entrelinhas.

- Você sabe o que eu faço com os fracotes que eu encontro? – Finn estreitou os olhos. – Agora eu estou ameaçando.

- O que você faz? – eu estava achando graça do jeito dele, mas alguma coisa me dizia que ele poderia estar falando sério.

- Por que você não perde o desafio para descobrir?

Hum, outro desafio? Esse garoto está ficando abusado.

- E como você vai descobrir se eu fiz ou não o desafio?

- Eu saberei, fique tranquila. – ele respondeu seguro.

- Você está misterioso, está me deixando inquieta e desconfortável. – eu comentei me mexendo na cadeira.

- Ótimo. – ele disse e sorriu maldosamente.

Eu fiz uma careta para ele. Finn estava muito estranho agindo dessa forma.

- Aqui estão os chás. – Lee chegou, colocando os chás na nossa mesa. Ah, a visão do paraíso. Até me esqueci do que Finn disse.

- Obrigada. – eu agradeci sorrindo. Só porque achava que ele não me queria por perto não quer dizer que deixaria minha simpatia de lado.

- Você está dando muito mole para ele. – Finn comentou depois que Lee saiu.

- Não é isso, só estou sendo simpática. – me defendi. – Além disso, eu não consigo evitar ficar nervosa perto dele.

- Acho que está dando certo, ele deu uma olhadinha para cá. – Finn disse e tomou um gole de seu chá.

- Verdade? – eu olhei para Lee e senti meu coração disparar. Ele estava de costas para nós no momento.

- Sim. Bem, ele olhou para essa direção, não sei se foi diretamente para você. – Finn se explicou.

Eu estreitei os olhos para ele.

- Fica na sua, Finn. Bebe o seu chá e fica quietinho. – eu mandei e ele achou ruim. – Se for para me dar esse tipo de esperança falsa, então guarde seus comentários para você.

- Hum, alguém ficou irritadinha. – Finn caçoou.

Eu ignorei e me concentrei em beber meu chá. Estava maravilhoso. Mais uma vez agradeci por Mushi ter vindo trabalhar aqui, não só porque trouxe seu lindo sobrinho com ele, mas porque ele deve ser o melhor preparador de chás do mundo.

Nós terminamos os chás logo. Eu fui dar um 'tchau' para Mushi antes de irmos embora e fomos para casa.

Agora que eu tinha aceitado o desafio de Finn, contra minha vontade, eu tinha que dar um jeito de falar com Lee, chamá-lo para sair ou sei lá o que eu deveria fazer. Só de pensar eu já ficava com vergonha. E eu tinha que cumprir, não importasse o resultado. Se eu não conseguisse, Finn me faria treinar tanto, mas tanto que eu ficava cansada só de imaginar. Tenho certeza que é isso o que ele quis dizer com "Você sabe o que eu faço com os fracotes que encontro?". Ai, ai.

Mas eu não sabia por onde começar. Como eu nunca passei por isso, não fazia ideia do que deveria fazer. Mas eu queria fazer, queria que desse certo. Lee foi o primeiro rapaz de quem eu gostei... Desse jeito. E era bom, muito bom. Não queria perder, eu queria mais. Eu queria ser correspondida.

Durante a semana, eu não tive coragem de falar nada. Primeiro porque Finn ia todos os dias comigo na casa de chá, ficava me encarando e fazendo "tic tac" pra mim.

No sábado à noite, quando Finn estava trabalhando na feira e Ian estava em casa, eu fui para a casa de chá sozinha, ver o que eu conseguiria fazer.

Ao pisar dentro do estabelecimento, eu congelei. O que eu estava fazendo? Não conseguiria nem pedir o meu chá desse jeito. Sozinha. Exposta. Mas já tinha entrado e Mushi já tinha me visto e acenado alegremente. Eu dei um sorrisinho meio sem graça e me sentei a uma mesa.

Entrelacei minhas mãos sobre a mesa e fiquei esperando. Quando eu falaria qualquer coisa? Quando Lee me perguntasse qual chá eu queria? Quando ele trouxesse o chá? Quando ele viesse buscar a xícara vazia? E o que eu falaria? Senti que comecei a suar. Eu precisava me acalmar urgentemente. Suar não era legal, especialmente quando eu estava prestes a falar com o rapaz que eu estava interessada.

- Oi.

Eu me arrepiei da cabeça aos pés ao ouvir essa voz. Eu olhei para cima e dei um sorriso forçado. Lee estava ali parado, olhando para mim.

- Oi.

- Vai pedir que chá hoje, Kiara?

Arregalei levemente os olhos. Ele se lembrava do meu nome? Achei que meu coração ia atravessar meu peito nesse momento.

- Ahn... Vou querer de... – o que era chá, mesmo? – chá de... Canela. – pedi o primeiro que me passou pela cabeça.

- Já vou trazer. – ele me disse e saiu.

Assim que ele saiu eu expirei. Não sabia que tinha ficado sem respirar todo esse tempo. Como este ser humano que eu conhecia há umas duas semanas podia me fazer me sentir assim? De repente me desesperei. Eu queria muito, muito, mas muito que ele gostasse de mim. Era o meu maior desejo no momento. E se ele não correspondesse... Não sei como me sentiria, mas não seria bom.

- Aqui está. – Lee voltou e eu me arrepiei novamente. Não o tinha visto se aproximar. Ele colocou a xícara de chá fumegante na mesa.

Eu fiquei encarando a xícara, decidindo se eu falaria qualquer coisa agora e tomando coragem.

- Eh... Eu estava pensando... – Lee começou a dizer e eu o olhei, espantada. Ele estava mesmo puxando papo? Fiquei olhando-o na expectativa, esperando o resto da frase. Lee parecia inseguro. Passou a mão pelos cabelos. – eu estava pensando em... Em aceitar seu convite... Para conhecer o Anel Inferior.

Eu abri ligeiramente a boca. Ele estava aceitando meu convite da semana passada? Eu deveria estar sonhando. Fiquei me perguntando se o tio dele o obrigou/convenceu/persuadiu a fazer isso, porém o momento estava maravilhoso e eu não queria estragá-lo.

- Ah, claro. Vai ser ótimo. – eu disse sem esconder meu sorriso radiante.

- Ótimo. Eh... Podemos ir amanhã, antes do meu expediente?

- Sim, eu não trabalho amanhã mesmo, é o dia de folga do pessoal do restaurante.

- Te encontro aqui na frente da casa de chá?

- Está perfeito. – eu concordei. Lee assentiu e eu tive a impressão de ter visto uma sombra de sorriso nele, mas logo se foi. Ele virou as costas e foi atender outro cliente.

Eu tive que me controlar fortemente para não parecer uma louca batendo os pés, sacudindo as mãos e sorrindo abobada. Tomei meu chá rapidinho e fui ao caixa pagar.

- Oi, Kiara! Meu sobrinho te chamou para sair? – ele perguntou, piscando um olho apara mim.

Eu ri e fiquei vermelha por deixar tão aparente minha mudança de humor.

- Na verdade ele aceitou o convite que eu fiz na semana passada.

- Ah, o de conhecer a região.

- É. O senhor... Quer dizer, você o convenceu a fazer isso? – eu perguntei. Depois me arrependi, lembrei que ia deixar para tirar essa dúvida outro dia.

- Eu só conversei com ele. Não consigo convencer o Z... Lee a fazer nada. Se ele foi falar com você foi porque ele quis, não porque eu o obriguei ou convenci, eu lhe garanto. – ele explicou e me pareceu bem sincero. Eu esperei que fosse.

Eu sorri timidamente.

- Eu adoraria que vocês dois namorassem! – ele revelou sem escrúpulos. – E você já tem a minha bênção, querida.

Eu corei fervorosamente.

- Mas você me conhece há tão pouco tempo, como sabe que sou digna?

- De gente indigna eu entendo, jovem. Você é melhor do que muitos e muitas que já conheci. – ele disse e vi seu semblante entristecer.

Fiquei indagando pelo que Mushi passou pela vida. Ele parecia ser um senhor tão bonzinho, feliz e bem humorado, era difícil imaginar que ele pudesse ter conhecido tantas pessoas ruins. E como Lee, difícil imaginar que tivesse passado por coisas ruins também.

- Bom, - eu comecei, mudando de assunto, ou melhor, terminando ele. – eu tenho que ir. – paguei pelo meu chá, dei uma última olhada em Lee, que não percebeu minha saída e fui embora.

Apesar da conversa com Mushi ter me deixado intrigada eu estava feliz. Radiante. Soltando faíscas.

Antes de ir para casa, resolvi passar na feira de Finn para esfregar na cara dele que tinha ganhado o desafio. Mais ou menos. Não fui eu que falei com Lee, foi o contrário, mas Finn não precisava saber os detalhes.

Finn estaria na barraquinha de tiro ao alvo, se me lembro bem. Cada dia ele estava em uma e às vezes eu me esquecia de qual era a do dia. Passei pelas barraquinhas de brincadeiras até encontrá-lo; havia quatro estilingues presos em uma bancada e várias pedrinhas ao lado de cada um. Mais a frente havia três pirâmides de copos de papel esperando para serem derrubadas. Uma delas estava sendo empilhada novamente por Finn. Não era bem tiro ao alvo, mas foi quase.

Eu parei na frente da barraca e bati a mão pesadamente na bancada, fazendo Finn se assustar e derrubar os copos que tinha acabado de empilhar. Eu comecei a rir alto e ele olhou furioso para mim.

- Achou engraçadinho? Estou trabalhando, não me atrapalha!

- Só estou dando o troquinho, fofo. – eu ainda sorria.

- Por que você... Ah, já saquei. – ele disse com um sorriso travesso. - Você falou com o Lee, não falou?

Eu apertei os olhos e sorri mostrando todos os dentes.

- Sim!

- Muito bem, você não é uma fracote. E o que aconteceu?

- Nós vamos sair amanhã. Vou mostrar as maravilhas do Anel Inferior para ele.

- Ô, tio! Eu quero jogar. – uma voz de criança veio do meu lado esquerdo. Um menininho moreno muito lindo de uns oito anos esticava o braço com uma moeda de bronze na mão entregando a Finn.

- Agora não, moleque, estou ocupado! – Finn disse, mal olhando para o garoto que fez um bico enorme, prestes a chorar.

- Coitadinho dele, Finn. – eu censurei e falei com o menininho. – Não liga para ele, ele é chato assim mesmo. – o menininho balançou a cabeça, concordando. – Pode me entregar a moeda e jogar. E se quiser acertar uma pedra no homem chato, eu deixo. – pisquei o olho direito. O menininho riu e foi jogar.

Eu entreguei a moeda a Finn e perguntei:

- Você ganha alguma coisa com essa barraca? É muito fácil ganhar os prêmios.

- Na verdade, não. Mas o homem que montou essa barraquinha tem uma de comida que vende muito. Ele deixa essa para divertir as criancinhas. – Finn explicou e olhou para o menininho que atirou a primeira pedra, sem acertar os copos.

- Hum. Tudo bem. Eu vou embora. Preciso estar bem descansada para amanhã. – eu disse alegre.

- É claro, você precisa de muito repouso para andar e conversar. – Finn debochou.

- Você não tem copos para empilhar, não?

- Já está na hora de você ir mesmo, né? Só toma cuidado para não saltitar de olhos fechados e dar de cara numa parede.

Eu ignorei e fui embora, mais feliz do que jamais estive. Realmente tive que tomar cuidado, pois comecei a saltitar sem perceber, quase rodopiando de vez em quando.

Cheguei ao apartamento e Ian ainda estava acordado. Contei a ele o motivo de minha alegria e ele riu, não entendendo porque eu estava tão feliz. Não posso culpá-lo, eu fui a primeira a ter tal experiência. O importante é que eu finalmente teria o meu primeiro encontro oficial com Lee no dia seguinte e estava ansiosa por isso.