Capítulo 3

Na manhã seguinte, eu acordei e fui me arrumar. Não mudei muita coisa, afinal não era um encontro como namorados, eu apenas ia mostrar a cidade a Lee. Mas já estava valendo.

- Kiara, eu estou preocupado com o seu envolvimento com esse cara. – Ian me disse enquanto eu prendia meu cabelo em frente ao espelho na sala.

- Por quê? – eu perguntei, olhando-o pelo espelho. Seria ciúme? Ian era como um irmão mais velho, eu não queria nada além de uma bela amizade com ele. Eu não sei o que eu faria se esse fosse o problema.

- Hoje nós temos treino, você não pode se atrasar! – ele me alertou. O alívio tomou conta de mim. – E se você começar a namorar? Você não vai poder ficar deixando os treinos de lado por causa dele!

- Calma, ele vai trabalhar à tarde e eu me encontro com você aqui para irmos para o nosso 'esconderijo'. – eu o tranquilizei.

- Acho bom. Se você se atrasar sempre eu não vou pegar leve. – Ian me informou sem indícios de que fosse ceder.

- Eu não vou me atrasar. – eu garanti. – E Finn, precisamos diminuir um pouco os treinos de arco e flecha.

Finn cuspiu a água que tinha acabado de por na boca.

- Você está louca?! Nem começou a namorar esse Zezinho e já quer arrumar tempo pra ele? Vamos com calma! Eu não abrirei mão... – Finn falava exaltado e inconformado quando eu interrompi.

- Para! Fica quieto e me deixa explicar! – eu mandei quase gritando e ele fechou a boca me olhando feio. – Eu percebi que nas últimas semanas eu não treinei nada de dobra d'água. Me concentrei demais nas armas e deixei a dobra de lado. Mas eu preciso voltar a treinar, senão não estarei em forma quando precisar usá-la. Você entendeu Senhor Nervosinho?

- Bom, já que é por um motivo importante, eu acho que tudo bem. – Finn concordou parecendo desconfortável pela precipitação.

- Então tá bom. Gente, eu vou indo. Até mais tarde! – eu me despedi, peguei minha bolsa e saí.

- Espere! – Finn começou. – Eu te desafio a beij... – fechei a porta antes que ele terminasse a frase. Esse tipo de desafio eu perderia, por enquanto.

Andei alegremente até a casa de chá. Lee ainda não estava lá, então encostei-me na parede e fiquei esperando. Passaram-se poucos minutos quando ele apareceu. Estava sério como de costume, mas seu cabelo estava diferente. Estava liso e com um topete meio estranho, em vez do cabelo arrepiadinho que ele usava.

- Oi. – ele cumprimentou.

- Oi. O que houve com o seu cabelo? – eu perguntei sem conseguir me segurar, rindo de leve.

- Meu tio que arrumou. – Lee estava claramente insatisfeito. – Está muito ridículo?

- Hum, só esse topete que está estranho. – eu disse e reuni muita coragem para perguntar: - Posso arrumar?

Vi o as bochechas de Lee ficarem coradas e senti as minhas ficarem também.

- Ahn... Não sei... Acho... Acho que sim. – ele disse inseguro. Eu não esperei minha coragem ir embora para colocar as mãos no cabelo dele. Logo que o fiz, senti que o cabelo estava com alguma gosma.

- O que o seu tio colocou no seu cabelo? – eu perguntei franzindo o cenho e arrumando o topete estranho.

- Eu preferi não saber.

- É bem nojento. Já estou acabando. – eu dei uma última ajeitadinha e me afastei. – Pronto! – eu observei meu trabalho com muito orgulho. O topete tinha desaparecido, deixando o cabelo todo liso. Ver Lee com o penteado que eu fiz era uma visão e tanto.

- Eh... Obrigado. – Ele agradeceu. – E o que você vai fazer com suas mãos? – ele apontou para elas. Minhas mãos estavam grudentas por causa da gosma do cabelo dele.

- Não se preocupe. Pode me fazer um favor? – eu perguntei e ele assentiu. – Abre minha bolsa e pega um recipiente com água, por favor? – eu pedi e virei para que minha bolsa com alça transversal ficasse de frente para ele. Ele pegou e me perguntou:

- Quer que eu derrame para que você possa lavar?

- Não precisa, só abra-a.

Ele obedeceu. Eu fiz um movimento com uma das mãos e a água do recipiente saiu. Eu a trouxe até as minhas mãos, a mantive parada e esfreguei minhas mãos. Logo a gosma saiu.

- Você é uma dobradora de água. – ele afirmou me observando.

- Sim, mas não costumo compartilhar essa informação com as pessoas. – eu disse, tampando o recipiente e colocando de volta na minha bolsa. – Você é dobrador de terra?

- Eh, não! Não sou não. Não dobro terra, água e muito menos fogo, no máximo papel. – ele respondeu rápido. Eu ri com a resposta. Ri muito na verdade. Lee tentando ser sarcástico era muito engraçado, não levava o menor jeito.

- Tudo bem, vamos começar o nosso passeio. – eu disse ainda rindo.

A casa de chá em que Lee trabalhava era em uma das ruas mais movimentadas do Anel Inferior e enquanto caminhávamos por ela, eu fui apresentando as lojas. Havia muitas por ali e que vendiam de tudo: verduras, carnes, frutas, móveis, flores, ferramentas, roupas, bugigangas... Uma infinidade de coisas.

Entramos em uma rua onde a maioria dos estabelecimentos era de serviços. Passamos pela oficina onde Ian trabalhava que estava fechada, pelo restaurante onde eu trabalhava, enfermarias e hospedarias.

Entre lojas, havia becos onde os 'caras maus' ficavam, então era preciso tomar cuidado em dobro.

- E este é o muro interno, que separa o Anel Inferior do resto da cidade. – eu disse ao chegarmos ao alto muro.

- Por quê? O que tem de errado com o Anel Inferior? – Lee perguntou inocentemente.

Eu olhei bem para a cara dele.

- Você não tem nenhuma ideia?

- Só porque quem mora aqui são os refugiados e gente simples precisa de um muro para separá-los? – ele perguntou.

- É. Ba Sing Se é bem dividida pelas classes sociais. – eu respondi.

- Mas isso é ridículo! – Lee quase esbravejou.

- Bem vindo a Ba Sing Se. Mas relaxa, você acostuma. – eu garanti a ele enquanto voltávamos.

- Como você pode se conformar com isso? É por isso que não quero ganhar a vida aqui! É uma cidade horrível! – Lee falou revoltado com a situação.

- Eu vou te explicar por que: Pela primeira vez em anos eu estou podendo dormir em paz, sem me preocupar em ser atacada no meio da noite ou ficar de vigia enquanto meus amigos dormem ou acordar desesperadamente porque os soldados da Nação do Fogo estão atacando de novo! – eu me exaltei nessa última parte e Lee arregalou os olhos.

Eu respirei fundo. Só de pensar em qualquer dobrador de fogo eu sentia meu sangue ferver de raiva.

- Eu estou extremamente agradecida por morar aqui. Mas eu acho que você deve ter vindo de um lugar muito melhor para estar tão insatisfeito. – eu disse em tom de acusação. Acho que eu o assustei com a minha mudança de humor repentina. – Por que você veio para cá?

Lee não respondeu de imediato. Parecia medir as palavras antes de dizer qualquer coisa.

- Eu e meu tio saímos para passear e quando voltamos nossa aldeia tinha sido tomada pelos soldados da Nação do Fogo. Decidimos que o melhor seria vir para cá.

- Entendi. – minha voz já havia voltado ao tom normal. – Então você sabe o que a nossa querida Nação do Fogo está fazendo por aí. – eu sussurrei.

- Por que você está sussurrando?

- Não podemos falar sobre isso aqui. – eu respondi. – Melhor mudarmos de assunto.

Lee não protestou e continuamos caminhando.

- Desculpa eu ter gritado com você. – eu pedi de cabeça baixa.

- Eu entendo sua revolta.

- Esses infelizes já fizeram tanta maldade na minha vida e no mundo que eu... Eu simplesmente os odeio do fundo de minha alma. – eu disse rangendo os dentes.

-Mas... Nem todos da Nação do Fogo devem ser cruéis. – Lee disse com as sobrancelhas levantadas e olhou de canto de olho para mim.

- Verdade. Os bebês salvam.

Lee riu pelo nariz.

Chegamos à casa de chá.

- Acho que nosso tour acabou. – eu disse.

- Acho que sim.

- Chegamos bem a tempo do meu treino com Ian. – eu comentei, percebendo pelo tempo que já estava prestes a começar.

- Por que você treina? Ba Sing Se não é segura? – Lee perguntou.

- O Anel Inferior tem bandidos e pessoas perigosas. Não posso me dar ao luxo de andar sem saber me defender. E você também não deveria.

- Eu sei me defender muito bem. – Lee disse, sentindo-se ofendido.

- Tudo bem, foi só um conselho. – eu me defendi.

Ficamos nos olhando por alguns instantes. Nosso encontro acabou... Por hoje. Queria que houvesse outros, mas eu não sabia o que dizer. Eu deveria chamá-lo para um novo encontro amanhã? Será que ele me chamaria? Duvidava muito.

Procurei minha coragem, mas não a encontrei em lugar algum em mim. Eu conversei tão bem com Lee hoje e agora eu sentia meu nervosismo e ansiedade voltarem com força total. Não, não podem voltar! Eu não deixaria terminar aqui de jeito nenhum, então me enrolei quando falei:

- Ahn... A gente podia... Sabe... Sair de novo... Amanhã... Ou depois... Ou outro dia que você queira. – meu coração queria sair pela boca e achei que ia mesmo enquanto esperava a resposta de Lee.

- Eh... Tudo bem. – ele respondeu e comemorei internamente. Nosso primeiro encontro não tinha sido um desastre apesar de eu ter gritado com ele.

- Ótimo. Te encontro aqui amanhã à noite?

- Sim. Até amanhã. – ele se despediu e foi em direção a casa dele.

- Até! – e fui para o meu local de treinamento.

Ao chegar lá, Ian achou graça do meu jeito avoado, mas depois ficou bravo. Eu não podia me distrair e ficar pensando em Lee enquanto treinava. "As emoções só atrapalham", Ian me dizia. E era verdade, elas estavam me atrapalhando. Porém, me concentrei o máximo que pude e consegui desviar quase todas as vezes das investidas de Ian e derrubá-lo algumas vezes. Foi uma tarde produtiva.

No dia seguinte, me encontrei com Lee novamente. Foi bom, avançamos um pouco mais no nosso relacionamento amigável (por enquanto) e continuamos assim pelo resto da semana.

No domingo, eu o convidei para ir à feira onde Finn trabalha depois do expediente para ele conhecer. Lee aceitou e assim que ele saiu do trabalho, nós fomos.

Caminhamos pelo corredor cheio de gente com um pouco de dificuldade. Inocentemente pedi para que ele segurasse minha mão enquanto andávamos para não nos separarmos. Lee não fez objeções e a segurou firme. Senti vários arrepios na barriga. Nosso segundo contato físico! Acho que se não tivesse tanta gente à minha volta me "prendendo" eu estaria flutuando.

Paramos em uma barraquinha de brincadeiras onde Finn estava trabalhando. Havia algumas crianças e jovens esperando sua vez de jogar. Acenei quando Finn me viu, mas não parei para falar com ele já que estava muito ocupado.

- Aquele é o Finn, lembra-se dele? – eu perguntei a Lee.

- Lembro. Vocês moram juntos? – ele me perguntou.

- Sim, eu, ele e Ian.

- Ah, tá. – Lee disse e olhou mais uns segundos para Finn.

Eu sorri sem ele ver. Queria dizer 'Não se preocupe, eu não namoro nenhum deles, estou livre como um pássaro para você', mas achei inapropriado.

Chegamos à parte da comida da feira. Conforme passávamos pelas barracas eu ia falando o que tinha em cada uma, quais eram boas e quais eram suspeitas, até que paramos em uma.

- Essa é boa. Tem espetinhos de vários tipos de carne. Quer experimentar?

- Eu vou confiar em você. – Lee disse e senti um pouco de bom humor. Eu sorri.

- Pode confiar. – e pisquei o olho direito. Logo em seguida senti minhas bochechas ferverem. Eu pisquei para ele? Que vergonha.

Pegamos nossa comida e saímos do amontoado de gente. Levei Lee até uma grande fonte que tinha ali perto. Lá podíamos sentar à beira da fonte ou em um dos bancos. A fonte era iluminada por pilares com trochas que refletiam o fogo na água, dando um visual lindo.

Sentamos à beira da fonte para comermos.

- Gostou? – eu perguntei quando Lee deu uma mordida.

Ele mastigou e pensou um pouco.

- É muito bom. – ele respondeu e deu outra mordida.

- Eu disse que podia confiar em mim.

Ele sorriu sem dentes, de boca cheia. Eu corei. Eram raras as vezes que eu conseguia fazê-lo sorri. Perguntei-me o que aconteceu com ele para ele ter ficado tão amargo e sério.

- Então, Lee... Fale-me sobre você. – eu comecei.

- Não tenho nada para falar. – ele disse e deu outra mordida no seu espetinho de carne.

Magoei.

- Eu já disse: minha aldeia foi tomada e eu e meu tio viemos para Ba Sing Se.

- E os seus pais? – eu perguntei com cautela.

Lee demorou um pouco para responder.

- Minha mãe morreu há anos. E eu não me dou bem com meu pai.

- Sinto muito.

- Eu também. E agora você vai me contar sua história? – Lee estava tentando mudar o foco da conversa.

- Bom, a Tribo da Água do Sul foi atacada quando eu tinha seis anos pela Nação do Fogo. Eles estavam em busca dos últimos dobradores de água de lá. Eu era uma delas. – Lee levantou as sobrancelhas. – Fiquei anos fugindo com meus pais no Reino da Terra até que um dia a Nação do Fogo nos encontrou e matou meus pais. – Lee deixou suas sobrancelhas caírem. – Desde os doze anos tenho me virado sozinha. Foi difícil, mas tive que aguentar. – comi meu último pedaço de carne.

Lee virou o rosto e encarou o chão por um tempo.

- Agora entendo porque você ficou revoltada no nosso tour.

Eu suspirei.

- Eu tenho um ódio deles e uma vontade de me vingar pelo que fizeram. – eu quebrei o palito ao dizer isso.

- Você tem todo o direito de odiá-los.

- Foram eles que mataram sua mãe? – eu perguntei do jeito mais doce que pude.

Lee demorou uns instantes para responder.

- Foram. – ele finalmente disse e fechou os olhos.

- E que lhe deram essa cicatriz? – perguntei me referindo à sua queimadura no olho direito.

Lee colocou a mão sobre ela, ainda de olhos fechados.

- Sim.

Fiquei triste por ele. Eu queria abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem. Porém, não sabia se era verdade. Ainda assim, queria abraçá-lo forte e fazer sua dor ir embora.

- Eu também tenho uma queimadura.

Lee abriu os olhos e me encarou.

- Nas costas. – eu passei meu braço direito pelo ombro esquerdo e encostei na minha cicatriz sob minha blusa. Consegui sentir um pouco as ondulações e a contornei com as pontas dos dedos. Era pouco maior que a palma da minha mão. – Normalmente eu consigo curar as queimaduras com o poder de cura da água, mas essa foi impossível. – eu lamentei e apoiei meu braço na minha perna. Lee voltou a encarar o chão.

- Eu sinto muito. – ele disse e tinha alguma coisa diferente em sua voz.

Eu apertei os lábios sorrindo.

- Eu sinto muito mesmo. – Lee repetiu e cobriu o rosto com uma das mãos.

Eu o olhei, preocupada. Será que eu o fiz se sentir culpado? Mas como? Não sei o que eu disse para deixá-lo assim. Encostei minha mão esquerda no seu braço direito.

- Desculpa, não queria deixá-lo assim.

- A culpa não é sua. – ele abaixou a mão e me encarou. – A culpa é do Senhor do Fogo.

Eu não entendi. A culpa era do Senhor do Fogo de deixá-lo triste? De se sentir culpado? De ter matado sua mãe? De ter matado meus pais? Fiquei confusa.

Eu me arrisquei e segurei sua mão. Aquele agradável frio na barriga voltou e senti meu coração bater mais forte.

- Você irá superar. Todos nós vamos. Por isso estamos aqui, para começarmos uma vida nova.

Lee abaixou os olhos, pensativo.

- Acho que... Você está... Certa. – e voltou os olhos para mim novamente.

Eu sorri. Levantei minha mão direita e a coloquei no seu rosto, passando de leve meu polegar pela sua queimadura. Não sei como fiquei tão ousada.

Ah, se eu pudesse ter evitado isso. Se eu pudesse ter estado com ele quando foi queimado, eu poderia ter diminuído os danos. Senti uma imensa vontade de abraçá-lo e nunca mais soltar.

Num impulso eu me estiquei e o beijei. Segurei seu rosto com as duas mãos e apertei os olhos.

Fiquei feliz por ele não ter resistido e sim correspondido. Pude beijá-lo como havia desejado há semanas pela primeira vez. Lee apoiou suas mãos nos meus braços e um pouco depois se afastou de mim. Fiquei encarando e pelo olhar questionando o porquê dele ter se afastado.

- Não posso fazer isso.

- Por quê? – eu perguntei e havia um tom leve de desespero na minha voz.

- É complicado. – ele disse e olhou para a água da fonte. – Eu não sou uma pessoa boa. – ele lamentou.

- Eu não acho isso. – eu o defendi. – E não importa o que aconteceu fora de Ba Sing Se. Aqui nós começamos do zero. Tudo o que aconteceu antes ficou para trás.

- Não é tão simples assim.

- É sim. Você precisa abrir sua mente e aceitar o que você tem aqui, esquecer o que tinha lá fora. – eu abaixei os olhos, pensando na minha vida. – Deixar de pensar no passado e seguir em frente.

- Mas você mesma não disse que quer vingança?

- Sim, mas eu não posso conseguir isso. Não posso ir até a Nação do Fogo e sair matando todo mundo ou no mínimo os soldados. Eu vou morrer bem antes. – eu expliquei. – Eu estou tentando seguir em frente. Sei que não é fácil, mas é o que eu posso fazer.

Lee olhava para mim enquanto eu falava. Assim que terminei ele olhou para a água de novo e colocou as mãos na cabeça. Ele estava dividido entre aceitar a vida em Ba Sing Se ou tentar voltar para a vida antiga.

Eu coloquei minha mão sobre seu ombro e o puxei de leve para saber se ele aceitaria que eu o puxasse ou não. Surpreendentemente ele aceitou e conforme eu o puxava ele levantava o corpo e ao ficar de frente para mim eu o abracei. E o melhor momento foi quando ele me abraçou, muito mais forte do que eu esperava. Eu aproveitei o momento e apertei o meu abraço.

- Aceite ficar aqui. Eu ficarei com você. E não se esqueça de que você tem seu tio também, um membro da sua família que te ama e que vai te ajudar com certeza. – eu sussurrei em seu ouvido.

Lee afrouxou um pouco o abraço e me beijou. Foi tão inesperado que levou um segundo para eu entender o que estava acontecendo. Fechei os olhos e pude ver a felicidade. Eu desejava do fundo do coração que Lee ficasse aqui e começasse a viver de verdade, afinal.

Depois de maravilhosos minutos juntos, nós nos separamos. Eu sorri gentilmente para Lee e ele fez o mesmo.

Decidimos que era hora de ir embora e nos levantamos. Assim que começamos a andar, senti-o segurar minha mão e ao mesmo tempo muitas borboletas no estômago. Eu nem acreditava que aquilo estava acontecendo, não poderia estar mais feliz.

No caminho de volta não dissemos nada. Eu simplesmente estava aproveitando o momento. Como de costume, nos despedimos na frente da casa de chá que Lee trabalhava e cada um foi para sua casa.

Cheguei ao apartamento e notei que não havia ninguém. Finn e Ian com certeza estavam na feira ainda. Eu caminhei pela sala/quarto dançando. Uma cena ridícula, na verdade, mas eu estava tão feliz que nem me importei. Era assim, então, que se sentia quando se gostava muito de alguém? Era a melhor sensação do mundo!

No outro dia fui para o restaurante no meu melhor humor. Xis percebeu e fez algumas piadas, mas eu nem liguei. Na hora do almoço, Lee e Mushi foram lá almoçar. Mushi estava com um sorriso de orelha a orelha e Lee estava com uma expressão menos zangada.

- Eu estou tão feliz por vocês dois! – Mushi comentou quando se sentou à mesa. – Nem acredito que finalmente o Lee conseguiu uma namorada. – seus olhos brilhavam.

- Não é difícil eu conseguir uma namorada, tio. – Lee se ofendeu. – Eu só não queria.

- Mas agora quis! – seu tio falou cutucando-o com o cotovelo e Lee corou levemente. Percebi que eu também corei. – Ei, Kiara, você não quer nos visitar na nossa humilde residência hoje à noite?

Fiquei sem reação no momento. Será que Lee ia querer? Olhei para ele e ele não disse nada, só ficou esperando a resposta.

- Eh... Claro. – eu finalmente respondi. Vi pelo canto do olho que Lee curvou um pouco os lábios para cima.

- Esplêndido! Farei o melhor chá da sua vida. – Mushi me garantiu. – Ah, e agora nós teremos nossa própria casa de chá! – ele me informou animado.

- Sério? Que maravilha!

- É um sonho se tornando realidade. Me ofereceram uma casa de chá no Anel Superior porque há um comentário rodando a cidade de que eu sou o melhor preparador de chá daqui. – ele disse orgulhoso.

- Disso eu não tenho dúvidas.

- Se chamará O Dragão Jasmim. Nos mudaremos em breve e eu espero que você vá nos visitar sempre.

Em breve? Tão cedo. Apesar de estar feliz por eles, fiquei triste ao saber que Lee moraria bem mais longe agora.

- Talvez não com tanta frequência, infelizmente. – eu disse e já mudei de assunto, perguntando o que eles queriam para almoçar.

Lee e Mushi fizeram o pedido, comeram e foram embora. Mais tarde eu saí do restaurante e como de costume fui com Finn para o nosso esconderijo. Dessa vez eu treinei apenas a dobra de água como disse a Finn que faria. Enquanto isso ele treinava sua pontaria com o arco e flecha.

Eu estava tentando inovar na dobra de água. Os pergaminhos que Yue me dera já não me ajudavam mais; eu já havia aprendido e dominado bem os movimentos e como eu não tinha mestre algum, eu tentei inventar alguns movimentos. Pelo menos eu achei que estava inventando.

Comecei a erguer uma pequena quantidade de água e moldá-la no formato de um disco. Minha intenção depois disso era fazer esse disco girar bem rápido podendo cortar o inimigo. E depois dobrar vários discos de água. Não era simples como eu tinha pensado.

À noite eu passei em casa antes de ir para a casa de Lee. Ian chegou pouco depois trazendo notícias.

- Gente! Vocês não sabem quem está na cidade.

- O Senhor do Fogo? Estamos ferrados... – Finn chutou com olhar de pânico.

- Se fosse ele essa cidade já estaria em chamas. Mas não, é o Avatar! – Ian disse empolgado.

- O Avatar?! – eu e Finn perguntamos em uníssono. – Que demais, vamos conhecê-lo! – Finn disse.

- E como você sabe que é ele mesmo? – eu perguntei.

- Meu patrão conhece alguém que tem um amigo no Anel Superior que disse que o Avatar está lá.

Eu o olhei séria.

- E essa informação é de extrema confiança porque...?

- Por causa disso! – Ian mostrou um cartaz com o desenho de um bisão voador com uma flecha azul tatuada na cabeça. Eu e Finn encostamos as cabeças para olharmos. – É o bisão dele e ele está perdido. O Avatar está aqui procurando por ele.

- Ah, que legal! – eu disse, agora acreditando na informação.

- Nós devíamos ir conhecê-lo! – Finn repetiu animado.

- Ele está procurando o bisão dele, não tem tempo para plebeus como nós. – eu disse.

- Ele é o Avatar, tem que ser legal com todo mundo.

- Acho que não é bem assim...

Ficamos mais um tempo discutindo sobre o Avatar antes de eu sair. Eu me arrumei e fui para a casa de Lee. Segui as instruções que Mushi me passara e cheguei a um conjunto de apartamentos. Subi as escadas e encontrei o apartamento deles.

Antes que eu batesse na porta, Mushi a abriu, mas só um pouquinho.

- Oi. Cheguei cedo? – eu perguntei insegura.

- Não, não... Mas infelizmente terei que cancelar o chá. Lee não está passando bem.

Ai, meu Deus. O que será que ele tem? Senti um aperto no coração.

- O que houve com ele? – minha voz transbordava preocupação.

- Ele está com um pouco de febre, mas tenho certeza que amanhã ele estará melhor. Farei meu chá especial. – Mushi sorriu para acalmar minha preocupação.

- Eu não posso fazer nada para ajudá-lo?

- Não se preocupe, ele está dormindo agora, ele só precisa de muito repouso. – Mushi não parecia muito preocupado, parecia mais... Ansioso.

Eu tentei ver o aposento pelo vão na porta, mas Mushi ficou nas pontas dos pés, tentando me impedir de ver.

- Amanhã ele estará bem, se quiser passar aqui para vê-lo. – Mushi sugeriu.

- Tudo bem, eu passo depois do trabalho.

- Maravilha, tchau! – ele despediu e fechou a porta rapidamente.

Era impressão minha ou ele queria se livrar de mim? Será que Lee não queria mais falar comigo e pediu para Mushi inventar uma desculpa? Eu passei dos limites na noite anterior e não devia ter dito nada nem feito nada? Fui para casa matutando sobre essas ideias.

Do momento que cheguei em casa até a hora de dormir, Finn e Ian me importunaram dizendo que Lee não queria mais saber de mim, que ele saiu comigo porque o tio dele o obrigou e porque eu fui chata demais. Fiquei me sentindo muito mal por isso e demorei a dormir.

Depois de sair do trabalho no dia seguinte, eu fui até a casa de Lee. Cancelei meu treino com Finn, que ficou furioso.

Bati na porta, esperei alguns segundos até que Mushi a abriu, dessa vez a porta inteira, e me deixou entrar.

O apartamento não era muito grande e, como o meu, praticamente todos os ambientes eram no mesmo aposento. Era muito bonitinho, arrumado e decorado.

Logo que cheguei avistei Lee deitado, dormindo. Não sabia se deveria chegar perto dele, então fiquei parada só observando-o.

- Venha, sente-se aqui. – Mushi convidou e eu o acompanhei.

Ele sentou a um lado de Lee e eu do outro. Mushi o olhava com carinho e preocupação.

- A febre piorou? – eu perguntei também olhando para Lee. Ele suava muito.

- Sim. Ele dormiu mal, teve muitos pesadelos. Mas vai passar logo. – Mushi disse confiante.

- Eu espero que sim.

- Vou fazer um chá, aceita? – ele perguntou e eu assenti. Ele se levantou e começou a preparar.

Eu fiquei olhando para Lee com a expressão triste. Ele deveria estar sofrendo nesse estado, suando e com pesadelos. Ele começou a tremer e eu segurei sua mão, que estava para fora do cobertor. Ele tremeu por mais um tempo e então parou. Era doloroso vê-lo desse jeito.

- O chá está pronto. – Mushi avisou. – Pode se sentar aqui. – ele apontou para a pequena mesa e colocou a chaleira e duas xícaras em cima dela.

Eu soltei a mão de Lee com muito esforço e fui até Mushi.

- Espero não ter dado impressões erradas na noite passada. – ele disse quando me sentei.

- Pensei que Lee não quisesse mais falar comigo. – eu admiti.

- Claro que não, ele gosta de você. – Mushi colocou chá e me entregou a xícara cheia. – Eu sei que sim.

Eu peguei a xícara e a encarei pensando.

- Ele é... Fechado. Eu nunca sei se eu digo as coisas certas ou não. E ele não me fala nada sobre ele. – lamentei.

- O Lee teve uma vida difícil, não o julgue precipitadamente. – Mushi me pediu e bebeu seu chá.

- Não, não estou julgando. Só queria entender melhor.

Mushi olhou para mim entendendo aonde eu queria chegar. Eu bebi meu chá.

- Ele me disse que a mãe dele morreu e que não se dá bem com o pai.

- Sim, o pai o expulsou de casa.

Fiz bico.

- E então ele foi viver com você? – eu deduzi.

- Exato, já faz três anos. E para piorar ele também não se dá bem com a irmã, ela é meio doida.

Eu sorri de canto de boca pelo modo como ele descreveu a irmã de Lee.

- Lee está passando por um período de transformação. Ele vai escolher entre aceitar o que ele tem aqui e o que ele quer recuperar lá fora. – Mushi me explicou.

- Recuperar o amor do pai? – eu imaginei, já que o pai o havia expulsado.

- Isso mesmo. Não é uma decisão fácil.

- Agora estou entendendo melhor. – eu disse.

Deve ser realmente difícil ser expulso de casa pelo o pai. Ele não o perdeu por culpa de outros, como no meu caso, mas por opção do próprio pai. Nem imagino como ele deve ter se sentido. Desprezado, provavelmente. Ah, pobre Lee.

- Mas não fique com pena dele; ele se sente fraco. – Mushi pediu. Provavelmente meus sentimentos transpareceram.

- Não é pena, é compaixão. Eu não gosto que sintam pena de mim também, por isso não compartilho minha história com ninguém. No entanto, contá-la para Lee foi bom; me senti mais leve. – eu me lembrei da noite anterior. Realmente foi bom e aceitei sua reação de pena, mesmo não gostando. – Acho que é bom deixar a pose de durão cair às vezes.

Mushi riu.

- Eu concordo. Consolo é sempre bem-vindo e não é sinal de fraqueza, como eu tento convencê-lo há tempos.

Eu sorri e dei mais um gole no meu chá. Excelente como sempre.

- E por que o pai de Lee o expulsou? – eu perguntei. Minha curiosidade não conseguiu se manter quieta.

Mushi parou a sua xícara no ar a caminho da boca. Ele ficou me encarando sem dizer nada. Eu esperei sem entender por que ele estava demorando a responder.

Nossa atenção se voltou a Lee quando ele começou a tremer e a resmungar. Eu e Mushi largamos nossas xícaras na mesa e fomos para perto dele. Ele estava ensopado de suor e muito quente.

- A febre subiu. Vou pegar uma toalha úmida. – Mushi disse e levantou-se.

- Não, espere, eu faço isso. – Me virei para o balde com água próximo e usei minha dobra de água para fazê-la subir e a deixei parada sobre a testa de Lee.

- Oh! Você é dobradora de água. – Mushi se sentou novamente.

- Quem sabe assim a febre diminua mais rápido. – eu disse e usei o poder de cura da água. A água se iluminou e Lee logo parou de tremer.

- Incrível o poder dos dominadores de água. – Mushi olhou impressionado.

Eu sorri e coloquei a água de volta no balde.

Fiquei na casa de Lee por mais um tempo. Conversei muito com Mushi sobre a vida deles antes de Ba Sing Se. Contei a ele resumidamente a minha trajetória. Ele me contou que seu filho morreu em uma guerra e que desde então considera Lee como seu próprio filho. Mushi ficou emocionado ao falar isso.

- Tenho certeza que Lee agradece muito por você ter ficado com ele nos momentos difíceis.

- Eu espero que sim. – ele disse, secando uma lágrima presa ao olho esquerdo. – Sinto não poder ajudá-lo agora, mas ele precisa passar por isso sozinho. – Mushi o olhou carinhosamente.

Eu observei a cena e invejei Lee por ter um tio tão atencioso. Eu daria tudo para ter qualquer membro da minha família comigo novamente.

- O que foi, querida? – Mushi perguntou, olhando para mim.

- Ele tem muita sorte de ter você. – eu respondi, mas não prolonguei com meus pensamentos. Não queria que a atenção voltasse para mim.

- Obrigado. – Mushi sorriu gentilmente.

- Acho melhor eu ir, já ficou noite. – eu disse e me levantei.

Mushi me acompanhou até a porta.

- Amanhã estaremos no Anel Superior. Vá nos visitar n'O Dragão Jasmim. – ele pediu.

Eu ia responder 'com certeza' quando me lembrei de Finn.

- Eu não sei se vou poder. Finn vai ficar uma fera se eu não for ao treino amanhã de novo. – eu disse insegura.

- Aquele seu amigo de cabelo espetado? – Mushi perguntou mal humorado. – Fala para ele que ele é um chato e que você vai sim. Se não eu venho te buscar!

Eu ri.

- Eu vou tentar. – eu disse e fui embora.

Eu estava com tanto dó de Lee, tanto pela febre quanto pelo seu passado. Sabia que ele não gostava desse sentimento de dó e pena, mas não consegui evitar. Torci para que ele ficasse melhor no dia seguinte e para que se ele tivesse a chance ele pudesse se acertar com o pai.


N/A: Oi geeente!

Peço desculpas pelos prováveis erros de português deste capítulo pq eu revisei ontem enquanto via Rock in Rio... Eu sei, não era o melhor momento, mas ultimamente tenho que me desdobrar pra fazer td que quero, então tenho que aproveitar o tempo hehehe!

Beijos para vocês :)

A.S.