Capítulo 6
- Para onde vamos? – Katara perguntou.
- Precisamos levar Aang a um lugar seguro. O único que me vem à cabeça é a Baía Camaleão. O papai deve estar lá ainda. – Sokka respondeu, guiando o bisão voador.
Todos ficaram em silêncio durante nossa viagem. Aang descansava a cabeça nas pernas de Katara, Toph encarava o vazio pensativa ao lado dos dois e eu fiquei encolhida o tempo todo.
Saímos de Ba Sing Se a noite e quando chegamos à Baía Camaleão já estava de dia. Ancorados lá estavam alguns navios da Tribo da Água, dos quais o pai de Katara e Sokka era o líder, como Sokka havia dito.
Appa ficou planando acima do navio e todos descemos. Sokka pegou Aang no colo e o levou para dentro do navio com Katara seguindo-o.
- O que está acontecendo? – perguntou um dos guerreiros da Tribo da Água ao ver a pressa dos dois.
- Preciso levar o Aang para algum lugar em que podemos cuidar dele! – Sokka falava exasperado. O guerreiro os guiou e eu não ouvi mais a conversa.
Eu, Toph e o Rei da Terra ficamos na proa do navio com o bisão voador.
- O que faremos agora? – o Rei da Terra perguntou.
- Temos que começa a planejar como atacaremos a Nação do Fogo. – Toph respondeu de braços cruzados, encostada à grade do navio.
- Você está louca? Nunca seremos capazes de derrota-los!
- Claro que seremos! Teremos o eclipse ao nosso favor.
- Vocês ficam falando desse eclipse... Ele vai mesmo acontecer? Como vocês têm certeza de que será suficiente?
- Nós não temos. Mas é nossa melhor chance de vencer a guerra.
Nossa. A situação estava pior do que eu me lembrava. Eu só ficara alguns meses em Ba Sing Se e já foi o bastante para eu ficar alienada. Durante esse período eu me esqueci de como era a vida aqui fora. No começo resisti um pouco, mas logo me rendi à tranquilidade da cidade. E me rendi 100%, vendo um futuro maravilhoso a minha frente, quando Lee...
Lee. Zuko, na verdade. Doía lembrar-me dele. Eu senti um aperto enorme no coração, fechei os olhos e senti novas lágrimas se formarem. Eu não queria mais chorar por ele. Ele não merecia que eu sofresse por causa dele.
Quando Iroh contou a verdade sobre Zuko, eu resisti um pouco em acreditar, mas como eu de fato havia visto a mudança, eu acabei cedendo.
Então quando ele ficou do lado da irmã do mal, foi como um facão entrando sem dó no meu coração. E senti um nariz de palhaço sendo colocado no meu. Sokka me avisou sobre Zuko e não abaixou a guarda. Eu devia tê-lo escutado.
- Quanto tempo mais eles ficarão lá? – Toph perguntou impaciente, tirando-me de meus pensamentos. – Será que o Aang ficará bem?
Eu não tinha vontade de responder. Nem de conversar. Nem de estar ali. Queria estar no meu humilde apartamento em Ba Sing Se, na minha cama e com Finn e Ian do meu lado me consolando ou mesmo fazendo piadas desnecessárias.
Finn e Ian eram outros dois que faziam meu coração doer ao pensar neles. Estava preocupada com eles. Como será que eles estão com Ba Sing Se tomada pelos dominadores de fogo?
- Aí vem o Sokka! – anunciou o Rei da Terra.
- Como Aang está? – Toph perguntou.
- Nada bem. Ele não acorda. – Sokka respondeu cabisbaixo. – A Katara acredita que ela o trouxe de volta do outro mundo quando curou a ferida dele. – eu coloquei a mão da minha boca e Toph soltou uma exclamação. – Eu não sei quando ele acordará e quando ele ficará bem novamente.
Um minuto de silêncio.
- E o que faremos agora? – Toph perguntou baixinho.
- Acho que o que nos resta é nos preparamos para o ataque durante o eclipse.
- Bom, vocês se preparem. Eu conversei com o Bosco e nós não participaremos desce ataque. Iremos viajar o mundo! – o Rei da Terra informou. – Passei tanto tempo trancafiado naquele palácio que quero passar o resto da vida ao ar livre.
Sokka ergueu uma sobrancelha.
- E como você pretende fazer isso? Você está todo engomadinho para sair por aí.
O Rei da Terra olhou para suas próprias vestimentas. Ele ainda vestia as vestes reais.
- Tem razão. Arrumarei uns trapos por aqui. Com licença. – ele saiu e foi vasculhar o navio em busca de roupas apropriadas para a viagem.
Sokka veio até mim.
- Você está bem? – ele perguntou e colocou a mão sobre o meu ombro esquerdo.
Eu, que estava de braços cruzados encarando o chão, levantei a cabeça e a mexi negativamente.
- Ah, anime-se. Eu sei que o momento não é o melhor de todos com tudo o que aconteceu, mas pensa no lado bom: você nos reencontrou e aos guerreiros da Tribo da Água!
Eu sorri de canto de boca. Eu abracei Sokka e ele retribuiu me abraçando forte.
- Ah, Kiki. As coisas vão melhorar, você vai ver. Sabe como é: o bem sempre vence.
- Em tese. – foram minhas primeiras palavras desde que deixamos Ba Sing Se.
Mais tarde naquele mesmo dia, o Rei da Terra apareceu vestindo uma roupa marrom toda remendada, pronto para partir. E foi o que fez. Despediu-se de todos e foi para o mundo afora montado em Bosco.
- Ok, o Ex-Rei da Terra foi embora, Aang está desacordado e Katara está cuidando dele. O que nós faremos aqui? – Toph perguntou impaciente.
- Eu vou ajudar os guerreiros. – Sokka respondeu imediatamente levantando o braço direito como se houvesse uma competição de "quem fala primeiro".
- Eu pretendo passar o resto dos meus dias me afogando em lágrimas. – eu respondi. Eu sei que fui dramática.
- Ahh, mas não vai mesmo! – Toph disse, veio na minha direção e me deu um tapa estralado no rosto.
Sokka fez cara de espanto e se afastou. Eu arregalei os olhos, coloquei minha mão sobre a bochecha atingida e encarei Toph.
- Você vai se deixar abater por causa de um homem?! Acorda, mulher! Temos uma guerra para batalhar e você vai ficar aí chorando?! O mundo é mil vezes mais importante que seus problemas amorosos!
Eu fiquei em estado de choque. Este foi o maior banho de realidade que alguém já me deu. E eu parei para pensar.
Toph estava certa. Eu não podia largar tudo só porque estava triste, decepcionada, magoada, acabada e me sentindo culpada. Isso era só problema meu, coisa que ninguém mais se importava, que só eu poderia resolver. E havia coisas mais importantes com que se preocupar, no caso a guerra contra a Nação do Fogo, como Toph disse.
Foi aí que eu mudei meu pensamento. Tristeza não me levou e nem me levaria a lugar algum. Mas o meu instinto de vingança sempre me fez andar para frente. Mesmo não sendo o melhor sentimento para motivar alguém, foi o que me manteve viva todos esses anos.
- Você está absolutamente certa. – Eu respondi finalmente. – Vamos mostrar para a Nação do Fogo quem é que manda nessa bagaça!
- É assim que se fala. – Toph apoiou e me deu outro tapa, mas dessa vez no braço e mais leve.
- Ufa, achei que vocês iam começar uma luta aqui. – Sokka se aproximou de nós visivelmente aliviado. – Agora está melhor? – ele perguntou a mim.
- Bem melhor. – assustei com a mudança repentina de sentimentos, mas agradeci por ter acontecido. Meu objetivo de vida que havia mudado de "Acabar com todos da nação do fogo" para "Começar uma vida nova em Ba Sing Se", agora era "Mostrar à Nação do Fogo quem tem o poder". Isso incluía esfregar na cara do Zuko que eu estou muito melhor sem ele. – E que venha o eclipse.
Durante os próximos dois dias, eu continuei a treinar minha dobra d'água. E com a minha determinação renovada, eu mal parava para comer ou dormir. Toph fazia o possível para treinar sua dobra de terra e metal – que só depois eu reparei que a porta da prisão que ela havia estraçalhado era de metal.
No quarto dia, nós avistamos navios da Nação do Fogo se aproximarem da Baía Camaleão. Sokka, ao se dar conta do ataque iminente, logo começou a falar de seu plano mirabolante para derrota-lo usando seu super boomerang.
- Nós não vamos confrontá-los. – Hakoda disse. – Nós não teremos chance alguma.
- Então simplesmente deixaremos que eles façam o que quiserem conosco? – outro guerreiro perguntou.
- É claro que não. Temos que sair daqui imediatamente. – Bato, outro guerreiro, sugeriu.
- E até quando iremos fugir? – Sokka perguntou. – Estou cansado de fugir, uma hora eles vão nos pegar, não temos muitos lugares para nos escondermos.
- Sokka tem razão, fugir não vai adiantar. – Hakoda concordou.
Eu só ouvia. Toph nem estava prestando atenção. Aliás, ela estava mais afastada, só esperando o resultado.
- Nós podemos tentar tomar um navio deles.
Houve um murmurinho pelos guerreiros, uns concordando e outros discordando.
- Genial, pai! Mas como faremos isso? – Sokka perguntou.
- Espera, - outro guerreiro disse – eu acho muito arriscado.
- Apenas me deixe explicar. – Hakoda pediu.
Ele então contou o seu plano de tomar o navio durante a noite. Nós teríamos que sair da Baía Camaleão logo para que a Nação do Fogo não nos visse. Assim que ancorarem ali, esperaríamos o cair da noite e atacaríamos em silêncio.
- Eu quero ataca-los também! – Sokka anunciou.
- É claro que você não vai, é perigoso demais. – Hakoda disse sem dar espaço para discussão.
- Mas pai...
- Sem "mas, pai", você ficará aqui. – ele se virou para mim. – Kiara, você acha que poderia usar a dobra de água para nos ajudar a subir no navio?
- Claro, claro que sim. – eu me prontifiquei animada para cooperar.
- Que ótimo. Falarei com a Katara também.
- Quer dizer que as meninas vão ajudar, mas eu não?! – Sokka estava inconformado.
- Será rápido, eu prometo. Além do mais, você terá muito tempo para ajudar no dia do eclipse.
Sokka não se convenceu, mas não discutiu mais e saiu pisando forte e resmungando.
Hakoda guiou os navios para trás de uma rocha, onde a Nação do Fogo não conseguiria perceber nossa presença.
Ao anoitecer, um dos navios da Tribo da Água aproximou-se do enorme navio da Nação do Fogo. Eu e Katara nos adiantamos e começamos a dobrar a água de forma que os guerreiros pudessem se manter firmes, sem afundar, formando um redemoinho em baixo deles. O máximo que nós duas juntas conseguíamos mandar eram dois de cada vez.
Mandamos algumas "levas" de guerreiros para cima no navio e então esperamos, junto com Sokka, Toph e outros guerreiros que não tinham participado da invasão.
Ficamos olhando para cima, torcendo para que tudo ocorresse bem. De vez em quando víamos uma luz laranja surgir, indicando dobras de fogo. Katara apertava forte a minha mão e a de Sokka todas as vezes. Ouvíamos gritos, barulhos de pancadas, coisas batendo no metal do navio... E não podíamos fazer nada.
A tensão no rosto de todos que esperavam era clara. Os guerreiros da Tribo da Água discutiam entre si, cochichando, sobre mandar reforços para os que tinham embarcado. Sokka estava quase escalando o navio para ajudar o pai e os outros, mas eu o puxava sempre que ele se aproximava demais da grade do nosso navio.
Perdi a noção do tempo que ficamos esperando. Eu, que tentei me manter calma o tempo todo, já estava desistindo e me unindo ao grupo que se aprontava para subir no navio da Nação do Fogo quando a sombra de um homem surge de cima. Eu congelei, com medo de olhar na direção que vinha a sombra e descobrir que era um dobrador de fogo. Senti Katara, que ainda segurava a minha mão, ficar tensa, mas logo relaxada. Olhei para a fonte da sombra e era Hakoda, acenando para todos subirem, com um enorme sorriso no rosto.
O alívio tomou conta de mim nesse momento. Eu e Katara nos abraçamos e sentimos Sokka pulando em cima de nós, juntando-se ao abraço. Os guerreiros comemoravam também e já estavam prontos para mudar de embarcação.
Katara e eu dobramos a água para levarmos todos ao nosso novo meio de transporte, sendo as últimas a embarcar.
Quanto aos navios da Tribo da Água, Hakoda ordenara que antes de abandonarem todos, os tripulantes os deixassem no pior estado possível, fazendo parecer que houvera uma batalha e que nós fomos os perdedores.
O navio da Nação do Fogo era infinitas vezes maior que os da Tribo da Água. Dessa forma, todos os tripulantes puderam ter seus próprios aposentos. Eu, Katara e Toph preferimos ficar no mesmo quarto. Tudo ali pertencia à Nação do Fogo e era medonho ficar sozinha em qualquer lugar, cercada por vermelho e símbolos do fogo. Sokka ficou no mesmo quarto de Aang para ficar de olho nele enquanto estava desacordado.
Katara ainda passou uma boa parte do tempo com Aang, cuidando dele, tentando fazê-lo acordar, mas nada adiantava. Ele estava vivo, porém em sono profundo. Eu, Sokka e Toph a convencemos, depois de muitas tentativas, de que ela deveria fazer outras atividades para se distrair.
Ela se juntou a mim nos treinos de dobra de água e foi uma excelente ajuda. Katara havia treinado de fato com o mestre da Tribo da Água do Norte, portanto sabia movimentos e técnicas ótimas que eu não aprendera. Assim, ela me ensinou tudo o que conseguiu no período em que ficamos navegando pelo mar, em busca de reforços para o ataque no dia do eclipse solar.
Além da dominação da água, eu não deixava de treinar arco e flecha. Sei que Finn não me deixaria descansar e pensando nele me enchendo as paciências todos os dias eu me obriguei a continuar o treinamento. Os guerreiros da tribo da água tinham arco e flecha e a sala de armas do Navio também, além de equipamentos próprios para treino, então foi possível eu continuar a treinar.
Era muito bom treinar com estes equipamentos. Alvos descentes, que não quebravam a cada cinco flechadas; arcos feitos com madeira de qualidade; e flechas afiadíssimas, mais do que eu jamais vira. O pessoal da Nação do Fogo realmente não brincava durante a guerra.
Para continuar a treinar ataque e defesa corpo a corpo foi um pouco mais complicado. Nenhum dos guerreiros queria me enfrentar. Diziam eles que era para não me machucar, que eles eram mais fortes, que seria desvantajoso para mim, aquela conversinha de "não luto com mulher". Sendo assim, os únicos que lutavam comigo eram Sokka, Katara e Toph. Porém, só com Sokka era uma luta justa. Katara e Toph sempre usavam suas dobras quando eu estava a ponto de vencer. Eu sei que na batalha real não será nada justo, mas eu precisava melhorar meus ataques e defesas e elas não estavam me ajudando.
- Katara, não vale usar a dobra d'água! – eu censurei, me levantando e torcendo minhas maria-chiquinhas.
- Mas você ia me atacar com tudo, eu tive que me defender. – Katara se defendeu, levantando as mãos na altura da cabeça. – Se você não quer dobra alguma, chama o Sokka.
- O Sokka têm evitado lutar comigo desde que eu o derrubei. Foi só uma vez e ele já se acovardou.
- Eu ouvi meu nome aí? – Sokka surgiu vestindo a armadura da Nação do Fogo.
- Que roupa é essa? – Katara perguntou.
- Isso, minha irmã ingênua, é a armadura da Nação do Fogo. Apenas os guerreiros do navio a usam. – ele respondeu, fazendo poses.
- Então por que você está usando?
- Ora, porque eu sou um guerreiro, é claro! Sou corajoso, destemido, inteligente e charmoso. Tenho tudo o que precisa para ser um guerreiro.
- Sokka! – Hakoda o chamou. – Fique preparado que provavelmente iremos batalhar.
Sokka soltou um urro de alegria.
- Finalmente!
- Estamos em perigo, pai? Sendo atacados? Qual é o problema? – Katara perguntou preocupada.
- Ainda não. Logo atravessaremos a passagem da serpente e eu não sei ao certo o que enfrentaremos lá.
Eu arregalei os olhos ao ouvir 'passagem da serpente'. Já tinha ouvido falar e sabia que era extremamente perigosa.
Sokka soltou um grito e fez cara de pânico.
- A passagem da serpente?! Estamos perdidos!
- Acalme-se, Sokka. – Toph interferiu no ataque de pânico do amigo. – Nós já passamos por lá e saímos vivos, então para de bancar a dama em perigo.
- Além disso, nem sabemos se tem mais a serpente. Eu e Aang a derrotamos naquela vez.
- Mas ela pode ter só desmaiado. Quem garante que ela não estará lá só esperando para nos atacar?
- Vocês já passaram por lá? A pé? Vocês são loucos. – Eu comentei.
- Não, só desesperados. – Toph corrigiu.
- Eu não sei se teremos problemas. O navio é resistente, rápido e a passagem pela qual atravessaremos é curta. – Hakoda explicou. – Pode ser que ela nem apareça a tempo de nos atingir. Mas fiquem todos atentos, tudo bem?
Todos concordaram.
Minutos depois estávamos muito próximos à passagem. Sokka estava agora com o capacete da sua armadura e com seu boomerang em posição de ataque. Toph estava com cara de tédio e Katara e eu apenas esperando o momento em que seríamos necessárias.
O navio começou travessia. Eu fiquei nervosa para ver o que iria acontecer caso a serpente aparecesse. Sokka, que estava perto de mim, estava segurando seu boomerang com firmeza e em posição de ataque. Os outros guerreiros da tribo da água estavam à postos também.
O navio passou rapidamente pela passagem devido à velocidade acima da média com qual os navios da Nação do Fogo navegavam. Assim que estava completamente fora, vimos a água se agitar e a formar grandes ondas, o que só ajudou a levar o navio para mais longe.
Quando já estávamos razoavelmente longe da passagem, pude ver a serpente colocar a cabeça para fora da água e ficar nos observando desaparecer de vista. Fiquei aliviada por ela não ter nos atacado durante a travessia, pois parecia que ela nos encarava com ódio, se é que uma serpente podia sentir alguma coisa, mas enfim.
- Que bom que deu tudo certo. – eu falei depois da travessia.
- Foi muito mais fácil dessa vez do que da anterior. – Katara disse. – Nós tivemos que lutar contra aquela serpente e só vencemos porque Aang estava conosco.
- E por falar nele, como ele está, Katara? – Toph perguntou.
- Ainda desacordado. Não tenho ideia de quando ele levantará. – ela respondeu tristonha.
Já havia se passado vários dias desde que Aang desmaiou e estava desacordado. Katara continuava cuidando dele e ao que parecia, ele estava bem, apenas dormindo. A única coisa que podíamos fazer, portanto, era esperar.
Alguns dias depois que atravessamos a passagem da serpente, Hakoda reuniu todo para discutir o plano de invasão à Nação do Fogo. A ideia inicial de reunir os exércitos do Reino da Terra já não era a melhor opção, já que o Rei da Terra foi embora e a Ba Sing Se estava sob o poder dos dobradores de fogo.
Pensando nisso, Sokka sugeriu que não fizéssemos uma grande invasão, mas uma mais modera com a ajuda de poucos amigos e aliados confiáveis. Hakoda aprovou a ideia, assim como eu, Katara, Toph e a maioria dos guerreiros da tribo da água.
Nosso objetivo agora era buscar esses amigos e aliados. Sokka e Katara conheceram os mesmos dobradores de água do pântano que eu há muitos anos e estes eram algumas das pessoas que iriamos recrutar. Eu pensei em visitar o esconderijo dos lutadores da liberdade e chamar quem quisesse participar. A princípio, meus amigos não gostaram da ideia devido aos problemas que tiveram com eles, disseram que poderia ser arriscado. Mesmo assim, eu insisti para que os visitássemos, já que estávamos próximos da floresta onde vivam.
O nosso navio ancorou e Hakoda permitiu que eu, Sokka, Katara e Toph desembarcássemos para falar com os lutadores da liberdade sem a necessidade de reforços.
- Pessoal, me sigam, ok? – eu disse ao chegar à costa. – Eu conheço essa floresta como a palma da minha mão, então confiem em mim.
- Acha que não conseguimos nos virar sozinhos? – Toph perguntou, me acusando.
Demorei um pouco para processar a pergunta.
- Quando eu falei isso, Toph? – eu respondi com outra pergunta sem entender muito bem o que a deixou ofendida. - Só estou falando que se me seguirem, evitaremos passar por lugares perigosos e topar com dominadores do fogo.
- Olha, eu posso ver muito melhor do que vocês três juntos, então não acho que precisamos...
- Toph, para. – Katara interrompeu. – Apesar disso, a Kiara conhece a floresta muito melhor que nós três juntos.
- Já sei como resolveremos isso. – Sokka falou e todas olharam para ele. – Eu serei o líder.
Katara bufou.
- Lá vem você com essa história de líder. Se tiver algum líder aqui é a Kiara. Fim de papo.
- Não gosto nada disso. – Toph reclamou.
- Ninguém pediu para gostar. É só segui-la por enquanto. – Katara disse. – Pode ir, Kiara, estamos logo atrás.
Eu não entendi direito o que aconteceu. Achei que como eu conhecia, como eu morei nesta floresta durante anos, eu deveria guia-los para o melhor caminho. Mas o que eu consegui foi uma discussão desconfortável com Toph. Eu previa uma viagem muito desagradável depois disso.
Mesmo insegura quanto a minha liderança, eu fui à frente. Não demorou muito até encontrarmos a Vila Gaipan, a qual Jato tentou me convencer a inundar.
- Estamos perto. Eu me lembro desta vila. – Eu disse e de repente me senti animada e ansiosa em encontrar meu antigo lar.
- Ah, eu me lembro dessa vila. – Katara disse um tanto desanimada.
- É. Ela foi o motivo de brigarmos com Jato. – Sokka completou.
Eu parei de andar e me virei.
- O meu também foi. O que ele pediu que fizessem?
Katara e Sokka se olharam.
- Que eu e Aang usássemos a dobra de água para inundar a cidade. – Katara respondeu. – Ele não disse que era com esse objetivo quando ele pediu.
- E o que vocês fizeram? – eu perguntei já imaginando a resposta.
Katara olhou para o chão.
- Nós inundamos a cidade.
Eu arregalei os olhos e pus a mão na cabeça.
- A culpa não foi dela, Kiara. Jato mentiu para nós.
- Eu não a culpo, Sokka. Só estou abismada de como o Jato não sossegou depois que eu recusei. – eu expliquei. – Ele me pediu para fazer isso também, mas eu não aceitei. Foi aí que abandonei os lutadores da liberdade. Achei que depois de perder três companheiros ele mudaria, mas me enganei. – eu respirei fundo. - E qual foi o dano?
- Eu consegui avisar os moradores da vila a tempo e todos foram salvos, mas a cidade infelizmente foi destruída.
Eu abaixei a cabeça. Jato definitivamente passou dos limites. Que outras barbaridades ele fez depois que eu deixei os lutadores da liberdade?
- Bom, o importante é que ninguém se feriu. Vamos continuar. Estamos chegando. – eu disse e continuei a andar. Não queria me concentrar nos problemas que Jato causou e os quais ele poderia ter causado. Já havia problemas demais para se preocupar.
Logo estávamos abaixo das casas da árvore. E parei e olhei para cima. Não conseguia ver nada além de folhas e alguns raios de sol que conseguiam atravessá-las. De fato, os esconderijos são ótimos.
Com o intuito de avisar que eu estava ali, eu coloquei as duas mãos em minha boca e fiz o som de pássaro, que era o nosso código. Não passou um minuto para que cinco dos lutadores descessem, apontando armas para nós.
O que estava mais próximo de mim, sem usar qualquer tipo de arma, apenas seus punhos imensos, era o Tampinha – que de tampinha não tinha nada. Olhei para ele sorri esperando que me reconhecesse.
- Kiara? – ele perguntou.
- Sim! – eu confirmei e sorri ainda mais.
Ele retribuiu e abriu os braços para que eu o abraçasse.
- Ei, é a Kiara? – eu ouvi uma vozinha ao meu lado. Olhei e era o Duke.
- Oi, Duke! – eu cumprimentei e abaixei para abraça-lo.
- Nós descemos desconfiados. Ninguém além de um lutador da liberdade conhece nossos códigos. – Duke disse. – Achei que era alguém querendo invadir nosso esconderijo.
- Achei que se eu o fizesse vocês reconheceriam e não ficariam desconfiados. – eu ri. – Acho que me enganei.
- Ahn, Kiara! Uma ajuda. – Sokka chamou.
Eu sem querer esqueci completamente dos meus amigos. Virei e eles ainda estavam na mira das armas.
- Gente, podem abaixar as armas, eles estão comigo. – eu pedi para os outros.
- Eles já vieram aqui, mas causaram alguns danos para os lutadores. – um deles informou. Ele tinha cabelos pretos, estatura mediana e cara de poucos amigos. Sem dúvida era Sammy.
- Tipo o que? – eu perguntei.
- Nosso grupo ficou desfalcado depois da visita deles. – outro lutador disse. Este era bem magro, mais alto que a maioria dos garotos e tinha olhos bem puxados. Era Ren. – Muitos foram embora, inclusive Jato.
- Mas Jato estava fora de controle. – Duke se intrometeu.
- Jato era o líder e ele conseguia manter a ordem. – Sammy o defendeu. – Até agora não conseguimos eleger um líder que conseguisse controlar todos como Jato fazia.
- Abaixa essa arma, por favor. Eles estão comigo dessa vez.
Sammy resistiu um pouco, mas abaixou, assim como Ren e o outro lutador, que eu não conhecia.
- O que a traz de volta, Kiara? Quer recuperar seu lugar nos lutadores da liberdade? – Ren me perguntou, provocando.
Eu dei um sorriso amarelo.
- Não. Eu vim para conversar com vocês. Queremos fazer uma proposta.
Percebi que Sammy ficou ligeiramente interessado.
- Melhor subirmos antes que chegue alguém indesejado. – este falou. Ele assobiou e várias cordas caíram das árvores com uma argola formada com um nó. Cada um de nós colocou o braço pela argola e a corda nos puxou árvore acima.
Ao chegar ao topo, eu fiquei abismada com o que vi: o nosso esconderijo como eu conhecia estava extremamente mudado, as cabanas estavam quase caindo, as pontes estavam por um fio de arrebentar, até as árvores ao redor pareciam sem vida. Olhei para Sammy com o queixo no pé.
- Passou um furacão por aqui?
- Não. É só a falta do líder. – Sammy respondeu com amargura.
- Mas gente, como vocês deixaram chegar a este ponto? – eu perguntei, indicando o lugar todo com a palma da mão virada para cima.
- Não é fácil colocar ordem sem um líder. – Ren respondeu. – Virou uma briga aqui para decidir quem lideraria e no fim ninguém lidera nada, cada um faz o que quer e ficou essa bagunça.
- E vocês vão deixar por isso mesmo? – eu provoquei.
- O quer que façamos? – Ren perguntou grosseiramente.
- Vocês não são capazes de dar um jeito nisso sem o Jato? Ficaram tão dependentes dele que não conseguem fazer mais nada sozinhos?
- Ei, ei – Ren começou, irritaddo. – Acha que pode voltar para cá depois de ter abandonado os lutadores da liberdade por pura e espontânea vontade e ficar nos alfinetando desse jeito?
- Não fala assim comigo. – eu o censurei e dei um passo à frente, ficando a poucos passos deste. Para olhá-lo eu precisava inclinar bem meu pescoço devido a sua altura e Ren me encarava fazendo uso total de sua altura para ser mais intimidador.
- Ahn... gente? – eu ouvi uma voz conhecida dizer e olhei para trás. Katara estava mais perto de mim e prestes a continuar a frase. Atrás dela, Sokka e Toph assistiam. Tinha me esquecido completamente que eles estavam ali, de novo. Que feio da minha parte. – Porque vocês não se organizam sem ter um líder?
- Nós já tentamos e não deu certo. – Sammy disse sem emoção. – O líder é necessário porque ele que divide as tarefas entre nós.
- Tudo bem, - continuou Katara da maneira mais sutil que conseguiu. – mas vocês poderiam se dividir e cada um cuida de certa situação. Assim, tudo será mantido organizado e sem brigas entre vocês para ver quem vai comandar.
Eu pensei um pouco sobre essa proposta. Era boa, mas não sei até quando haveria paz entre os grupos de tarefas até um querer se intrometer no trabalho do outro. De qualquer forma, era a melhor opção até agora.
- Acho que vocês poderiam tentar. – eu concordei com Katara.
- E como faremos essa tal divisão? – Ren perguntou, um pouco a contragosto.
- Deixa que eu faço. Daqui a pouco eu vou embora mesmo e vocês não poderão brigar comigo.
- Eu não vou fazer nada que você falar. – Ren esclareceu.
- Mas, Ren, eu só quero ajudar. Depois vocês não me verão nunca mais.
- Mas espera, Kiara, - Sammy interrompeu. – o que você queria conversar conosco?
- Ah, tinha até me esquecido. Eu vim aqui perguntar a vocês se queriam se juntar a nós para derrotar a Nação do Fogo no dia do eclipse solar, que é quando teremos a maior vantagem.
Ren se animou.
- É claro que sim! Que oportunidade de ouro.
Sammy parecia em dúvida.
- É uma grande oportunidade. – este concordou.
- Mas eu pensei em reconsiderar quando eu vi o estado disso aqui. – eu me referia ao esconderijo. – Se todos os lutadores saírem, quem vai cuidar das crianças e manter a ordem?
- Nós não podemos ir. – o outro garoto disse. – Não vamos largar tudo por uma chance de derrotar a Nação do Fogo, não podemos abandonar os outros.
- Então você fica e nós vamos. – Ren retrucou.
- E eu vou ficar sozinho? Não dá! – o outro reclamou.
- Não, – o Tampinha falou pela primeira vez de depois de subirmos. – vocês precisam ficar. Eu e o Duke iremos.
- E quem disse que é você que decide? – Ren desafiou-o.
Sammy colocou a mão no ombro deste. Ren estava bem mais "esquentadinho" do que antes.
- Ele está certo, nós precisamos ficar.
Ren bufou, mas acabou cedendo.
- Vocês estarão bem representados comigo, Duke e o Tampinha. – eu disse sorrindo. – Então, posso começar a organização? – Sammy assentiu. – Katara, me ajuda? – ela afirmou e se juntou a mim.
Ficamos ali meia hora para dividir todas as pessoas disponíveis em quatro grupos: responsáveis pela comida, pela segurança, pelos cuidados dos mais jovens e pela restauração e manutenção do esconderijo.
Ren ficou no grupo de segurança, porque era o mais durão e sabia defender o esconderijo como nenhum outro. Com ele ficaram mais cinco lutadores; para a comida, Sammy se prontificou junto com outros quatro lutadores; no grupo de cuidados, ficaram cinco lutadores, a maioria eram garotas; e no grupo de restauração ficou o restante dos lutadores, cerca de seis pessoas.
- Se algum grupo precisar de reforços, - Katara disse – os lutadores de outros podem ajudar, tá? Não é uma divisão rígida, é para organização apenas.
- Eu acho que ficou ótimo, Katara. – eu aprovei.
- Ficou bom bom mesmo. – Sammy aprovou também.
- Não sei o que teria acontecido sem você aqui.
- Provavelmente você teria brigado com todos nós e estaríamos destruindo o esconderijo enquanto lutávamos. – Sammy disse rindo. Estranho, ninguém riu desde que eu cheguei, mas eu aproveitei a brecha e dei um riso falso.
- Chato.
- Agora que está tudo resolvido, nós podemos ir? – Sokka perguntou quase chorando.
- Podemos. Tampinha, Duke, vocês vêm com a gente, certo?
Os dois responderam que sim. Eu me despedi de todos os lutadores, assim como o restante de meu grupo, e nós descemos as árvores.
Voltamos ao navio de guerra no crepúsculo do dia. Hakoda estava preocupado com a demora e já estava preparando homens para ir à nossa busca.
Mais alguns dias se passaram e finalmente Aang acordou. Estava todo confuso achando que fora capturado pela Nação do Fogo, mas logo todos explicaram a ele o que havia acontecido desde que ele desmaiara saindo de Ba Sing Se.
Mesmo com a insistência dos amigos para Aang ficar calmo e participar do plano de Sokka junto com todos os outros, ele não conseguiu. No dia seguinte de seu despertar, ele fugiu em seu planador.
Katara ficou desesperada quando descobriu. Sokka propôs um plano: eles iriam atrás de Aang montados no Appa, e quando chegasse o dia do eclipse solar eles se uniriam novamente à Hakoda.
- Nós estamos indo, não podemos perder tempo. – Sokka avisou. Katara e Toph já estavam montadas em Appa. – Kiara, precisa de ajuda para subir? – ele me ofereceu.
- Não, eu não vou com vocês. – eu os informei.
- Como assim? – Katara espantou-se.
- Por que não? Somos tão chatos e insuportáveis assim? – Sokka se ofendeu.
Eu comecei a agitar as mãos abertas de forma negativa.
- Não! Claro que não. Eu só acho melhor eu ficar por aqui. O dever do pessoal do navio é encontrar as pessoas que você sugeriu para nos ajudar. Eu conheço alguns deles e posso ser útil aqui mais do que seria com vocês. – eu expliquei.
Sokka fez bico e ficou bravo.
- Mas você pode vir com a gente, nós queremos que venha. – Katara disse. – Não é, Toph?
- Para mim tanto faz. – Toph respondeu.
- Fico feliz em saber, mas eu ficarei aqui mesmo. Vocês se viraram muito bem sozinhos nos últimos tempos, tenho certeza que não precisam de mais uma pessoa para deixar o Appa mais lento.
Sokka respirou fundo.
- Tudo bem, então, se você insiste. – ele se conformou e me deu um abraço. – A gente se vê no dia do eclipse. – depois, montou no Appa e ele, Katara, Toph e Momo foram embora.
Eu fiquei olhando para o horizonte até não conseguir mais distinguir Appa dos pássaros. Em seguida, fui procurar Hakoda para planejarmos o recrutamento dos nossos futuros aliados.
N/A: Oii, xente! :)
Demorei bem mais do que eu esperava para postar esse capítulo... quem estava lendo já deve ter esquecido dessa fic T_T
Ai, ai, tudo bem... até o próximo! ^^
A.S.
