Capítulo 7

Acordei assustado e respirando apressado. Olhei em volta de minha cama para me certificar de que era apenas um sonho. Um pesadelo, na verdade. Não havia ninguém no quarto, além de mim. Coloquei a mão direita na testa e percebi que estava suando. Sequei-a com o lençol da cama, respirei fundo e tentei me acalmar.

Desde que voltei para o meu lar, o palácio da Nação do Fogo, venho sendo atormentado por pesadelos todas as noites. Na primeira, sonhei com meu pai e minha irmã, Azula, planejando a minha morte que não seria nada agradável; na segunda, sonhei com meu tio Iroh chorando e me acusando de tê-lo traído; depois, Kiara estava vivendo feliz na floresta junto com seu novo namorado, o amigo loiro de cabelo espetado que não me lembro do nome, e rindo de mim pela minha infelicidade ao viver sob as ordens de meu pai; nas noites seguintes, os pesadelos foram piorando e se misturando. Preferi ignorá-los ao acordar para não ficar me remoendo durante todo o dia.

Nesta noite, porém, o pesadelo foi uma lembrança. A lembrança da época em que minha mãe sumiu. Lembro-me de Azula me falando que o meu pai iria me matar, não me recordo ao certo o motivo. Depois, minha mãe se despedindo de mim em minha cama e me dizendo para eu não me esquecer de quem eu era. Mais tarde naquela madrugada, acordei e vi um vulto parecendo com o de meu pai. Ele vinha para cima de mim segurando um objeto reluzente, uma faca eu imaginei. Eu pedi desesperadamente para ele parar, mas ele não me deu ouvido e no momento em que a lâmina atravessou meu peito, eu acordei.

Nunca imaginei que me arrependeria tanto de uma escolha como agora. E eu sei que a culpa é toda minha. Eu não deveria ter me deixado levar pela conversa da Azula, ainda mais sabendo que ela sempre mente. Fui fraco. E continuo sendo por tomar nenhuma providência quanto a isto.

Levantei-me da cama e fui até a janela. Abri uma fresta da cortina e espiei para fora. Já estava claro e provavelmente muito cedo, muito mais do que eu costumava acordar enquanto estava "de férias" em casa. No entanto, naquele dia, eu não conseguiria pregar meus olhos por mais um minuto. Resolvi sair do meu quarto.

Vesti-me apropriadamente e coloquei a coroa de príncipe em meu cabelo preso no topo da cabeça. Por algum motivo, coloca-la me deixava infeliz.

Abri a porta do meu quarto e saí. Fiquei parado um instante pensando para onde iria. Para a cozinha, talvez, tomar café da manhã. Mas não sentia fome alguma. Olhei para o céu através da janela do corredor e decidi que era a hora perfeita para ir ao meu lugar favorito do palácio. Ninguém me incomodaria lá a essa hora.

Desci as escadas e andei alguns corredores até chegar ao jardim, onde havia uma grande árvore e um pequeno lago. Fechei os olhos e respirei fundo o ar puro daquele lugar, o único que eu me sentia bem em toda a Nação do Fogo, talvez, no mundo.

Andei até a grande árvore e me sentei em uma de suas grandes raízes. Apoiei meus braços nas pernas e observei o lago. Estava parado. Os pequenos patinhos que lá nadavam deveriam estar dormindo ainda, pois não havia sinal algum deles. Fiquei encarando a água refletir a luz do sol e formar vários pontos de luzes por todo o lago. Lembrei-me mais uma vez da minha mãe, mas dessa vez foi uma memória boa. Ela sempre me trazia aqui para alimentar os patinhos e nós passávamos muito tempo juntos. Eu sempre fui muito mais apegado a ela, infinitas vezes mais do que com meu pai, que só me menosprezava e fazia questão de mostrar que Azula era melhor que eu.

Suspirei. Sentia muita falta de minha mãe. Mais do qualquer coisa. E o que mais me matava era saber absolutamente nada sobre o desaparecimento dela. Não havia uma pista sobre isso e todos evitavam comentar. E por incrível que pareça, apesar de eu ter passado três anos viajando com o tio Iroh, sequer perguntei a ele sobre isso. Estava tão obcecado pela busca do Avatar que não me lembrava nem de comer às vezes. Quantas oportunidades eu perdi de conversar com ele, saber mais sobre tudo por causa de minha obsessão. Pensei em ir até a prisão, onde meu tio estava "morando" agora, e perguntar a ele, mas não queria encará-lo novamente. Ele provavelmente não falaria comigo e eu acabaria gritando com ele, como fiz na última vez que fui visita-lo. Além disso, Azula provavelmente saberia de minha visita e viria me questionar.

Abracei minhas pernas e enterrei meu rosto nos braços. Não sei quanto tempo fiquei nesta posição até que eu ouvi:

- Achei você, Zuzu.

Uma imensa vontade de ir embora se apoderou de mim, mas não me movi.

- Na verdade nem tive que te procurar. Sabia que estaria aqui.

Por que ela não parava de falar?

- O que você quer, Azula? – eu perguntei com a voz abafada sem levantar o rosto, esperando que quanto mais rápido eu respondesse, mais rápido ela iria embora. Ela era a última pessoa que eu queria perto de mim.

- Eu? Nada que venha de você. – ela respondeu com desdém. Sua voz estava se aproximando. – Quem quer algo de você, que eu ainda não entendi como nem por que, é a Mai.

Estremeci.

- Você sabe como a Mai é: durona e mau humorada. Mas depois que você voltou para cá ela não para de falar e reclamar de você. É irritante. – Azula terminou impaciente.

Não é para menos que ela esteja agindo desta forma. Desde que voltei tenho evitado estar sozinho com ela. Ainda não tive coragem de quebrar o nosso... Relacionamento? Nem me lembro de como chegamos a este ponto.

Antes de eu ser expulso da Nação do Fogo, eu e Mai tivemos um "namorinho". Mas foi tão superficial para mim que eu esqueci completamente. Quando eu a encontrei depois de três anos, ela falou comigo como se tivesse passado três dias. Me abraçou, beijou e eu fiquei paralisado tentando entender o que estava acontecendo. Com algum esforço, eu me lembrei de que nós tínhamos trocado uns beijos antes de eu ir embora, mas ainda não entendia o porquê de ela estar me agarrando naquele momento.

Desde então, eu tenho tentado passar o menor tempo possível com ela. Achei que ela não estava percebendo e iria enrolar o máximo que eu pudesse, mas pelo jeito ela não era ingênua como pensei. Nem sei como pude pensar que a enrolaria, quero dizer, é a Mai.

- E o que você quer que eu faça? – perguntei a Azula com a menor animação possível e levantei meu rosto para olhar o dela. Ela estava em pé ao meu lado, me olhando com aquele ar de superioridade que ela sempre teve.

- E eu que vou saber? – ela perguntou impaciente e cruzando os braços. – Faça o que vocês namorados fazem... Abraça, beija... E coisas além, se forem necessárias. – Fiz uma careta. – Só quero que ela pare de reclamar. Acha que pode fazer essa coisinha simples?

Não era tão simples assim. Falar com a Mai nunca era simples.

- Eu conversarei com ela, mas não porque você pediu. – fiz questão de deixar claro isso, antes que ela pensasse que mandava em mim. Se bem que ela já pensava isso... E, é claro, eu sempre dei motivos para ela pensar assim.

- Tá, que seja. Só resolva isso antes que eu perca minha paciência. – Azula concluiu e deu um passo para ir embora antes de se virar e dizer: - A Mai está no palácio. Quer que eu a chame para vocês conversarem?

Arregalei os olhos. Eu pretendia enrolar um pouco mais antes de conversar com ela. Fui pego de surpresa. Azula estava com um sorriso torto nos lábios. Parece que ela desde sempre tentou jogar Mai para cima de mim e não era agora que ia parar com este péssimo hábito.

- Pode ser então. – eu respondi.

Azula sorriu daquele jeito "Azula" que eu odiava e saiu.

Enquanto esperava Mai aparecer e começar a brigar comigo, me lembrei de um dia em que fui correndo para o quarto de meus pais, onde minha mãe se encontrava sentada em frente a uma escrivaninha, escrevendo uma carta. Eu estava muito bravo porque Azula tinha literalmente empurrado Mai para cima de mim... Mais uma vez. Nós caímos na grama do jardim, ela em cima de mim, e eu quase a beijei na boca. Mai ficou com o rosto muito vermelho e eu a empurrei sem o mínimo de delicadeza e saí pisando forte, Azula e a outra amiga dela gargalhando. Nessa época, eu tinha nove ou dez anos, não queria saber de garotas.

- Eu não aguento mais a Azula, mamãe! – eu gritava andando agitado pelo quarto. – Ela fica me chamando para brincar como se quisesse mesmo que eu brincasse com ela e com as amigas dela e a única coisa que ela faz é empurrar Mai em cima de mim. Eu não gosto da Mai, não quero ela perto de mim!

- Zuko, acalme-se. – minha mãe largou a pena em cima da escrivaninha e me encarou. – Ela só está brincando com você, não precisa ficar bravo.

- Eu não gosto dessa brincadeira! Fala para ela parar! – meu estado estava passando do bravo para o triste e eu estava prestes a chorar.

- Tudo bem, Zuko. – minha mãe fez um gesto com as mãos para eu me aproximar dela. Eu o fiz e ela me abraçou e eu finalmente chorei. – Eu vou falar com ela. Mas se ela fizer de novo, não fique bravo. Tente levar na brincadeira.

- Eu nunca mais vou brincar com elas. Nunca mais.

Queria tanto ter mantido minha promessa.

- Oi, Zuko. – eu ouvi uma voz conhecida perto de mim.

Olhei em direção a ela e vi Mai ao meu lado. Ela estava parada bem em frente ao Sol, e tudo o que eu via era a sombra de sua cabeça, marcando claramente seus dois coques laterais e a sombra de seu longo vestido.

- Hum, oi, Mai. Pode sentar-se aqui. – e indiquei o tronco ao lado do que eu me sentava.

Ela abaixou-se e se sentou. Dobrou suas pernas de lado, como uma dama.

O silêncio reinou no jardim durante uns minutos. Olhei para Mai esperando que ela começasse a falar, já que foi ela quem pediu por isso, mas ela estava encarando... Alguma coisa no jardim de cara fechada. Não parecia como se fosse começar uma conversa. Respirei fundo e tentei não demonstrar a minha falta de vontade ao falar com cautela:

- Azula me disse que você tem... Ahn... Reclamado sobre... Mim.

Mai manteve-se olhando o jardim sem dizer uma palavra. Quase cutuquei seu braço para ter certeza de que ela estava viva, pois nem piscava. Finalmente, deu sinal de vida:

- Você está estranho.

Eu comprimi os lábios. E o que falaria? Que não, que ela estava imaginando coisas? Por que o meu primeiro pensamento é sempre deixar para depois? Já estamos aqui, vamos acabar logo com isso, de uma vez por todas.

- Eu sei.

Ela virou o rosto para mim com a testa franzida.

- Você sabe?

Eu assenti.

- E qual é o motivo? Será que eu tenho o mínimo direito de saber por que o meu namorado está agindo estranhamente desde que voltou?

Comprimi os lábios novamente. Ela era intimidadora, mas eu não era medroso. Hora de encarar a fera.

- Mai, como eu sei que não tem rodeios com você, vou ser curto, claro e grosso: – do mesmo jeito que você é com as pessoas – eu não gosto de você como você pensa.

- O que quer dizer?

Eu abri a boca para falar, mas nenhuma palavra saiu. Achei que tivesse ficado claro.

- Que... Eu não gosto de você... Como você pensa.

- E como eu penso?

O que estava acontecendo?

- Que eu te amo e quero passar o resto de meus dias com você.

- E não é isso que você quer? – ela perguntou como se estivesse me acusando.

Será eu precisava desenhar para ela?

- Não. – eu respondi bem devagar. – Não é isso que eu quero.

- O que aconteceu durante estes três anos?! – ela perguntou irritada. - Achei que tudo voltaria ao normal e agora você está... Diferente, estranho... Foram três anos, não trinta!

- Forem três anos e não três dias. – eu a corrigi. - Eu mudei muito durante estes três anos fora.

Mai colocou o dedo indicador e o polegar no topo do nariz e respirou fundo.

- O que raios aconteceu? – ela perguntou furiosa antes mesmo de saber a resposta.

- Primeiro, tenho que te explicar uma coisa. Vou por partes para você me acompanhar. – eu disse e ela se ofendeu. – Mai, como nós chegamos a... Sei lá... Ficarmos juntos? – namorar não era a palavra correta, nunca concordei com isso.

Ela estranhou a pergunta.

- A Azula que nos uniu.

- Exato. Foi por causa da Azula. E eu devo te dizer que eu nunca concordei com isso. Eu nunca quis ficar com você, Mai. Mas a Azula não parava de me perturbar por causa disso, então um dia eu aceitei para ela me deixar em paz.

Mai fez uma cara de interrogação, juntou as sobrancelhas, depois as deixou cair. Ela olhou para o chão e sussurrou:

- Então você nunca gostou de mim?

Eu prendi a respiração. Nunca havia visto Mai daquele jeito. Ela sempre foi tão segura de si que eu achei que ela ia me xingar quando eu dissesse essas coisas e não... Chorar? Ela estava chorando, tinha certeza, pois ouvi um soluço bem baixinho.

- Eh... Eu sinto muito, Mai. Eu não queria te magoar.

Ela secou os olhos com a mão esquerda e olhou para mim com os olhos mais furiosos que eu já havia visto em alguém. Uau, isso me intimidou tanto que me fez querer correr para o meu quarto como uma criancinha de cinco anos depois de ouvir uma história de terror. Mai era uma bomba neste momento e estava prestes a explodir.

- Eu não estou magoada. – ela disse em um tom de voz mais baixo do que eu esperava. – Eu estou furiosa. Você é um cretino e fingiu que gostava de mim este tempo todo só para a Azula te deixar em paz? Você é mesmo um cretino! – ela se levantou e virou-se para ir embora.

Eu não disse nada e fiquei aliviado. A bomba não explodiu, afinal. Foi melhor do que eu esperava, na verdade. No início, quando ela chorou, que eu aposto que ela negaria até o fim de sua vida, eu me senti muito mal e culpado. Eu sei que fui um cretino. Mas aí ela já se revoltou e voltou a ser a Mai que eu conheço e a minha culpa diminuiu.

Eu voltei a encarar o lago e esperaria Mai se distanciar para voltar ao meu quarto e dormir novamente para esquecer esta manhã infeliz, quando eu vejo pelo canto do meu olho esquerdo ela voltando apressada. Eu virei o rosto para olha-la, mas ela já estava perto demais e ainda com aquele olhar furioso.

Só deu tempo de eu colocar o braço esquerdo em frente ao meu rosto antes de ela começar a me dar socos e me xingar.

- Seu idiota, como pôde fazer isso comigo?! – ela gritava e me socava. – Seu %* #$, por que você não $%#*!&? e aproveita e §%*#$ &!/ seu imbecil! Ah, que ódio! – "Cabum". Por Deus, aonde foi parar a dama que eu havia mencionado? Foi engolida por um monstro raivoso, só faltava começar a babar. Fiquei assustado.

- Para, Mai! Meu braço vai cair! – já estava doendo e com certeza ficaria roxo.

- Que caia! Junto com a sua cabeça e vá rolando colina abaixo até um ninho de urubus para eles comerem ela inteira, só deixando seu crânio!

Arregalei os olhos e torci os cantos da boca para baixo. Quanto ódio no coração. Espera, urubus não ficam, normalmente, no topo de colinas e afins? Achei melhor não comentar.

Ela não parava de me bater. Segurei os pulsos dela com força.

- Para! Pelo amor de Deus, para! – eu me levantei para ficar na altura dos olhos dela. Ela chorava, mas agora de raiva. – Eu não fiz com a intenção de te machucar! Foi para a Azula parar de me encher as paciências! Eu não pensei nas consequências, no que poderia fazer para você, eu só tinha treze anos! – a próxima frase eu falei com um pouco de pesar. - Eu não sabia que você gostava tanto de mim.

Mai parou de lutar e eu soltei seus pulsos lentamente. Ela abaixou a cabeça, balançou-a como se negasse alguma coisa, se virou e foi embora.

Respirei fundo algumas vezes para me acalmar. Essa conversa me deixara agitado.

Fiquei mal pela Mai. Ela não tinha culpa de nada e foi a única prejudicada. A culpa era da Azula, que não parava de me atazanar para ficar com Mai. E minha, claro, que fui trouxa o suficiente para ceder. Eu sempre cedia. Até hoje, eu sempre cedo. E a prova disso era o confronto em Ba Sing Se de semanas atrás.

A lembrança veio à tona. Coloquei a mão em frente ao meu rosto. Eu precisava acertar tudo isso, sabia que precisava. Mas eu não fazia ideia de por onde começar. Todos que já confiaram em mim ou se deram uma chance para tentar estavam presos, longe ou não queriam me ver nem pintado de ouro.

Um consolo agora seria bom. No entanto, eu perdi todos que poderiam fazer isso: Minha mãe, meu tio e Kiara. Estava completamente sozinho e sentia a falta de todos de maneiras diferentes. E neste momento, Kiara era de quem eu mais sentia falta.

Conversar com Mai me fez pensar nela o tempo todo e não pude deixar de comparar o que eu sinto por Mai com o que eu sinto por Kiara. A diferença era gritante. Se algum dia eu tive dúvidas se gostava ou não de Kiara, agora eu tinha certeza que sim. Mas gostar não parecia apropriado, parecia insuficiente.

Eu coloquei as duas mãos na cabeça. Como isso foi acontecer? Como eu adquiri tal sentimento em tão pouco tempo por uma garota totalmente diferente de mim? Pensar nela agora me deixava vazio e me fazia lembrar todos os nossos momentos juntos e desejar não ter escolhido ficar do lado da Azula. Se eu mantivesse a minha decisão inicial, eu poderia estar feliz e com Kiara agora e não infeliz e sozinho.

Como eu sentia falta de Kiara, de simplesmente estar perto dela. Só o fato de eu não saber onde ela estava naquele momento me matava por dentro. E a culpa era inteiramente minha. Nem o caso de ela ser da Tribo da Água e eu da Nação do Fogo foi o nosso problema.

Eu havia pensado nisso em Ba Sing Se quando estava me apaixonando por ela: o que faríamos se eu voltasse para a Nação do Fogo? Meu pai jamais permitiria que uma dobradora de água adentrasse o palácio e muito menos fizesse parte da família real. De repente, eu não precisei mais me preocupar com isso. Era simples: viveríamos para sempre em Ba Sing Se. A ideia me pareceu extremamente atraente da época e foi o período em que eu estava mais feliz em toda a minha vida. Na verdade, esta ideia ainda me parecia atraente. Se um dia eu saísse deste lugar, conseguisse reencontrar Kiara e ela me perdoasse, nós viveríamos sozinhos em uma floresta do Reino da Terra, da maneira mais humilde possível para que ninguém nos incomodasse. Não me importaria nem um pouco de abandonar tudo o que tenho aqui para ficar com ela para o resto da vida.

Pensar essas coisas me deixavam feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz porque eram meus maiores sonhos. E triste porque a probabilidade de acontecer era mínima.

Enquanto isso, quem deve estar com ela, cuidando, protegendo e fazendo companhia a ela era aquele amigo dela de cabelo espetado ridículo. Eu abaixei as mãos e as fechei com foça. Como pude deixa-lo ocupar o meu lugar? Eu que deveria estar lá, ao lado da minha namorada.

Fico pensando o que Mai teria feito se eu dissesse que amava outra garota. No futuro eu poderia dar uma de "Azula" e jogar o cabelo espetado em cima de Mai. Os dois são mal-humorados e são obstáculos no meu caminho para a felicidade com Kiara, com certeza foram feitos um para o outro.

Olhei para o caminho que Mai fizera e não a vi. Estava na hora de ir para o meu quarto como tinha planejado e me afogar em arrependimento.


Já havíamos passado por todos os lugares que Sokka indicara a Hakoda.

Fomos primeiro ao Templo do Ar do Norte procurar por um inventor que estava trabalhando em um projeto que Sokka dera a ele. Ele veio conosco junto com seu filho Teo.

Em seguida, fomos até a Vila Minning onde encontramos Haru e outros dobradores de terra. Desde que Katara ajudara-os a escapar da prisão onde estavam na Nação do Fogo eles desejavam lutar contra esta. Portanto, conseguimos recrutar muitos deles.

Mais tarde, chegamos ao Pântano, onde encontramos os dobradores de água com os quais eu convivi durante um tempo e eles aceitaram nos ajudar.

Por último, visitamos a cidade de Toph, Gaoling, para descansar. Dois homens, Hippo e o Pedregulho, nos abordaram e pediram para vir conosco, pois seu objetivo de vida agora era proteger o Reino da Terra. Qualquer ajuda era bem vinda, portando, os acolhemos.

Desde então, temos navegado em direção ao lugar marcado para encontramos com o Time Avatar. Felizmente, apesar da longa viagem, embarcaram alguns jovens e eu tive companhia durante ela toda.

Agora estávamos chegando ao porto da cidade de onde Katara, Sokka e Toph saíram em busca de Aang. Espero que a esta altura eles já tenham o encontrado. Pensei em desembarcar e fazer uma visita aos Lutadores da Liberdade antes de partir para saber como ficaram depois de eu tê-los deixado.

- Hakoda. – eu chamei. – Vou visitar os Lutadores da Liberdade antes de partirmos, tudo bem? – eu perguntei.

Ele me olhou com uma expressão preocupada.

- Tudo bem, mas chame alguém para lhe fazer companhia.

- Não se preocupe, morei muito tempo nesta floresta e sei me virar sozinha.

- Mesmo assim, vá acompanhada. Partiremos amanhã de manhã. – ele disse e pôs um ponto final na conversa.

Fechei a cara e saí. Eu não chamaria ninguém para ir comigo, eu sabia o que estava fazendo. Se fosse uma floresta desconhecida tudo bem, mas era a minha floresta. Subi as escadas para ir ao convés e de lá desci em terra firme. Caminhei para a floresta com passos rápidos, queria voltar logo para não correr o risco de ficar para trás.

Foi uma caminhada tranquila, como eu havia pensado. Porém, quando eu estava chegando ao esconderijo, ouvi barulho de passos abafados pela terra e galhos sendo movidos. Escondi-me atrás de um largo tronco e esperei. Coloquei a mão nas costas por cima do ombro a procura de meu arco e minhas flechas, mas só encontrei o tecido de minha blusa. Tinha esquecido meus equipamentos no navio. Fechei os olhos e me puni mentalmente. Fiquei com muito medo, pois eu ainda não estava pronta para encarar um mano-a-mano com o inimigo. Coloquei a mão na minha cintura e encontrei meu cantil de água. Conferi e ele estava cheio. Alívio. Abri a tampa para me preparar.

Fiquei atenta aos sons e espiei por detrás do tronco. Não via nada, mas continuava a ouvir barulhos próximos. Caramba, porque eu não trouxera companhia?

Olhando por entre as árvores opostas a que eu estava, eu vi algo brilhando. Parecia com a ponta de uma flecha. A pessoa que a aportava atirou e num ato de reflexo que eu nunca havia presenciado em mim mesma, dobrei a água e a congelei em minha frente. A flecha acertou o gelo na altura em que estaria a minha testa. Admirei a apontaria do atirador, mas não era hora para elogios.

Derreti a água e a flecha caiu. Em seguida, formei várias pontas de flechas com a água e as atirei em direção ao atirador na altura da perna, com a intenção de machuca-lo e não mata-lo. Com certeza não era um dobrador de fogo, se fosse já teria incendiado a floresta. Poderia ser alguém de bem e se protegendo de possíveis ameaças, ou seja, eu.

Depois de jogar três pontinhas de gelo eu ouvi um grito. Bingo! Acertei. Corri em direção ao lugar de onde veio o grito, mas como eu não sou tonta nem nada fiz um escudo de gelo e o coloquei a minha frente.

Passei pelas árvores e vi duas pernas estendidas no chão. Mantive meu escudo e cheguei mais perto, andando agora. Quando eu pude ver o rosto da pessoa que me atacou, meu coração foi parar em minha garganta. Aqueles cabelos loiros e espetados eram inconfundíveis. Deixei meu escudo cair e pulei em cima do garoto.

- Finn! – eu gritei abraçando-o bem forte.

- Kiara? – ele perguntou incerto.

- Sim! Sou eu.

Finn retribuiu meu abraço. Passado alguns segundos, eu relaxei o abraço e fiquei sentada ao lado dele.

- O que você está fazendo aqui? Cadê o Ian? – eu perguntei exasperada.

- Deve estar vindo depois de ouvir meu grito. – ele respondeu se sentando também. – Você me acertou em cheio na perna. – ele disse colocando a mão próxima ao local onde estava o meu espeto de gelo na sua perna direita. Metade do espeto tinha entrado na perna de Finn, mas considerando que era bem pequeno, não deve ter feito muito estrago.

- Você quase acertou minha cabeça com a sua flecha. – eu retruquei e dobrei o gelo para que ele derrete-se e me preparei para curar sua perna com a mesma água. – Como vocês escaparam de Ba Sing Se?

- Resumidamente, nós conhecemos um dobrador de terra desesperado para sair da cidade e combinamos de fugir. Durante a noite, nós chegamos o mais extremo que pudemos de Ba Sing Se e ele dobrou o chão de terra, formando um túnel. Quando saímos do muro externo da cidade, fugimos durante algumas horas até que os soldados nos alcançaram. Nosso amigo dobrador foi capturado, mas nós conseguimos fugir. Decidimos vir para esta floresta e ver se poderíamos passar um tempo novamente com os Lutadores da Liberdade, pois não temos para onde ir.

Eu nada disse imediatamente. Me concentrava na ferida de Finn que estava quase curada.

- Sinto muito ter ido embora de repente. – eu abaixei a cabeça.

- Eu sei que você teve seus motivos. – Finn comentou depois de alguns instantes de silêncio.

- Eu tentei voltar para buscar vocês, juro que tentei. Mas nossa situação era crítica e se não saíssemos logo, Aang poderia morrer. – eu expliquei com um leve tom de desespero na voz no mesmo momento em que terminei o processo de cura. Olhei para Finn ainda com expressão de culpa.

Ele concordou levemente com a cabeça, depois fez uma careta.

- Quem é Aang?

- O Avatar, ué.

O rosto de Finn se iluminou.

- Você lutou junto com o Avatar?!

- Não foi bem assim...

- Me conte tudo!

- Contar o que? O que está havendo? – uma voz próxima a nós perguntou. Ian saiu detrás de uma árvore, ofegante e suado. – Kiara! – exclamou.

Eu me levantei e fui abraça-lo.

- Que bom saber que você está bem. – ele me disse e me levantou alguns centímetros do chão.

- É muito bom ver você também!

- Mas o que aconteceu com você? – ele perguntou me colocando no chão.

- Sente-se que eu contarei tudo a vocês.

Então comecei a contar sobre meu último dia em Ba Sing Se, desde a hora em que fui à casa de Katara com a inocente intenção de bater papo até o presente dia. Pulei a parte em que descobri a verdade sobre Zuko e a parte em que ele foi para o lado negro da força.

- Uau. – Finn exclamou. – Queria ter estado lá para ajudar. – ele lamentou.

- A situação estava muito ruim. Quase não conseguimos escapar.

- Mas agora poderemos! – Ian concluiu. – A invasão está próxima e nós estamos aqui. Vamos ajudar com certeza.

- Claro que sim! Estou pronto para enfrentar a Nação do Fogo inteira. – Finn falava com convicção.

Eu ri.

- Será ótimo lutar ao lado de vocês novamente. – eu sorri carinhosamente.

- É bom tê-la de volta. – Ian confessou.

- Vamos parar com este sentimentalismo antes que eu vomite? – Finn pediu.

Eu fiz uma careta de desgosto.

- Está dando uma de durão agora, Sr. "Não quero que você nos deixe nunca, Kiara"?

- Baixou um espírito sentimental em mim naquele dia, nada de mais.

- Está com vergonha de admitir! – Ian zoou Finn rindo e o cutucou nas costelas.

- Para com isso. Enfim, e você, Kiara, o que está fazendo aqui?

- Eu vim visitar os Lutadores. Eu passei por aqui semanas atrás e tudo estava uma bagunça. Queria ver como eles estão agora.

- Então vamos. – Ian disse se levantando.

Nós três chegamos ao pé das árvores onde era o esconderijo e Ian assobiou. Logo cinco lutadores desceram apontando suas armas para nós. Sammy estava à frente e logo nos reconheceu e baixou sua lança.

- Mas quem é vivo sempre aparece. – Sammy disse rindo.

- Oi, Sammy. – eu cumprimentei sorrindo. – Como vão as coisas?

- Uma maravilha desde que você foi embora. – essa frase não soou legal. – Quer ver como está?

- O que você causou aqui, Kiara? – Finn perguntou, preocupado.

- Só coisas boas, eu garanto.

- E aí, Finn, Ian. Há quanto tempo. – Sammy cumprimentou os dois.

- Muito tempo. Podemos subir também? – Finn pediu.

- Claro, vamos lá.

Logo, várias cordas caíram das árvores e nós subimos. Chegando lá, fiquei pasma com o que vi: a maioria das cabanas estava em perfeitas condições, quase todas as pontes estavam firmes e havia vários lugares com montes de frutas. Até as árvores pareciam mais verdes.

- Nossa, está ótimo isso aqui! – eu disse maravilhada.

- Eu falei. – Sammy concordou radiante.

- O que aconteceu? – Finn não estava entendendo nada.

- Da última vez que Kiara esteve aqui, ela e sua amiga nos ajudaram a nos organizar para manter o esconderijo digno de moradia.

Finn murchou.

- Não fica assim, Finn. – eu consolei-o.

- Vocês ficaram na pior quando o Jato foi embora, não é?

- Sim. Nós não tínhamos um líder e tudo ficou desorganizado.

- Eu não deveria ter abandonado os Lutadores, nada disso haveria acontecido. – Finn lastimou. – Eu era o segundo no comando, deveria socorrer caso o líder sumisse.

- O Jato não deveria ter largado todos sozinhos e ido embora. – Ian disse. – A culpa não é sua.

- Claro que é. Eu comecei os Lutadores da Liberdade com o Jato, o ajudei a construir e conquistar tudo, não deveria ter abandonado tudo e fugido.

- Você não fugiu Finn! – eu disse.

- Jato estava fora de controle, estava obcecado pela vingança e ódio da Nação do Fogo, não estava pensando direito. – Ian tentou explicar.

- Eles têm razão, Finn, não se culpe. Nós não te culpamos. – Sammy concordou. – Você fez o que achou melhor para a sua vida. Nós estamos bem agora, não se preocupe. – ele tentou acalmar Finn.

Finn ainda não parecia convencido, mas não retrucou.

- Eu virei ajuda-los assim que derrotarmos a Nação do Fogo.

Sammy sorriu. Reparei que ele estava de extremo bom humor.

- Nós estaremos esperando. Enquanto isso, deem o melhor de vocês na batalha. Sei que estaremos bem representados.

- Garanto que nós não envergonharemos os Lutadores da Liberdade. – Ian afirmou.

Eu sorri. Tudo parecia estar bem.

- E cadê o Ren? Nem veio falar oi. – eu reparei.

- Ele foi perseguir uns soldados da Nação do Fogo hoje mais cedo. Daqui a pouco ele deve estar aí. – Sammy respondeu.

- Bom, creio que não poderemos esperar a sua volta. O nosso navio sai amanhã e nós precisamos ir logo.

- Então está bem. Boa sorte para todos vocês. – Sammy desejou e deu um abraço em cada um de nós três.

Descemos as árvores e caminhamos até o porto onde o nosso navio se encontrava. Assim que embarquei, procurei Hakoda para lhe dizer que teríamos mais dois tripulantes. Ele aceitou alegremente.

- Ah! Ian, tem alguém que eu quero te apresentar. – eu disse e peguei a mão dele. Andei pelo convés até achar Haru conversando com outros dois dobradores de terra.

- Licença. – eu pedi. – Oi, Haru.

- Oi, Kiara!

- Haru, este é o meu amigo Ian. – eu o apresentei. – Ian, este é o Haru. Ele é dobrador de terra e há meses foi capturado pela Nação do Fogo e colocado em uma prisão só para dobradores de terra.

Ian ergueu as sobrancelhas.

- Você acha que ele os conhece? – ele me perguntou ansioso.

- Talvez. – eu disse. – Conversem!

- A minha mãe e meu irmão foram capturados também. – Ian falou para Haru sem rodeios. - Tem alguma chance de você os conhecer?

- É possível. Nós passamos algum tempo juntos depois que escapamos. – Haru explicou. – Qual é o nome deles?

- Ana e Dino.

- Ah, eu sei quem são! – Haru exclamou. – Sua mãe é uma mulher alta, quase tão alta como você, de cabelos pretos e que usa um coque na cabeça meio de lado?

- Sim! – Ian não se aguentava de excitação.

- Eu os conheci sim.

Ian começou a perguntar tudo sobre eles a Haru e eu aproveitei para sair. A conversa poderia levar horas. Olhei para os lados procurando Finn, mas não o encontrei. Deveria estar conhecendo seus novos aposentos.

Andei até a popa no navio onde não havia ninguém. Encostei-me a grade apoiando meus braços nela e observei o horizonte, na direção que ficava a Nação do Fogo. O céu estava apropriado: vermelho e laranja por causa do pôr-do-sol.

Durante todo o tempo que fiquei navegando para reunir aliados para o ataque, eu não pensei nenhuma vez em Zuko. Evitei ao máximo lembrar-me dele e sempre que ele ameaçava aparecer em minha mente, eu logo mudava o rumo dos meus pensamentos.

Isto durante o dia, enquanto eu estava consciente. Durante a noite, ele era uma presença constante em meus sonhos. E o pior de tudo, é que eram sonhos maravilhosos. Ele sempre estava comigo, segurando minha mão carinhosamente, rindo e contando sobre alguma coisa e algumas vezes falava que me amava; e eu olhava apaixonadamente e cheia de esperança para um futuro lindo que construiríamos juntos. E todas as manhãs, eu acordava com os olhos lacrimejando, pois sabia que era apenas um sonho, um sonho impossível e era o que mais me magoava. Era horrível acordar de manhã e saber que não era nada real e que este sonho jamais se realizaria.

Fechei os olhos e comecei a repassar todas as lembranças que eu tinha de Zuko. Eu não aguentava mais ignorar esta vontade e abaixei todas as minhas defesas. Lembrei o dia em que nos conhecemos; o nosso primeiro encontro; o nosso primeiro beijo; percebi que eu sorria involuntariamente. Tinha tanta saudade desse período em Ba Sing Se...

Quando me dei conta, estava chorando. Meu rosto já estava lavado por lágrimas. Eu não sentia falta do tempo que passei em Ba Sing Se com Zuko. Era de Zuko apenas que eu sentia falta. Tanta falta que me doía.

Coloquei minha mão esquerda na testa. Eu não tinha prometido que o esqueceria?

Que ingenuidade a minha. Eu jamais conseguiria esquece-lo. Mesmo ele sendo da Nação do Fogo, herdeiro do trono, fraco e traíra, eu não conseguia. E eu não sabia o que poderia fazer para me sentir melhor.

Toda a tristeza que eu ignorei por semanas e se acumulou estava sendo liberada agora e eu não conseguia faze-la parar. Tudo o que eu fazia era chorar; chorar como não chorava há anos.

Comecei a pensar naquela noite nas catacumbas quando nossos olhares se encontraram. Se me lembro bem, ele parecia pedir desculpas, mas não tenho certeza. Não sei se eu estava forçando esta impressão para me sentir melhor. De qualquer forma, ao pensar nisso um fio de esperança nasceu em mim e eu me agarrei a esta possibilidade com todas as minhas forças. Seria possível ele voltar a ser do bem? Assim poderíamos ficar juntos de novo um dia. Fechei os olhos e sorri ao pensar nisso.

- Kiara? – a voz de Finn me chamou e eu acordei de meu devaneio.

Ah, não. Não queria que me vissem chorando, especialmente Finn. Sempre pareci tão segura perto dele, não queria que me visse fraquejando agora. Entretanto, disfarçar seria impossível. Meus olhos pareciam duas torneiras abertas e meu nariz estava tão entupido que minha voz estaria embargada.

- O que foi? Você está bem? – ele foi se aproximando de mim, até colocar a mão em meu ombro direito. – Você... Está chorando? – ele perguntou espantado.

Eu funguei o nariz e virei um pouquinho o rosto para olha-lo. Ele exibia uma cara de extrema preocupação.

- O que aconteceu?! Eu nunca te vi chorar! Alguma coisa terrível deve ter acontecido para fazer você chorar deste jeito.

Eu apertei os olhos e mais lágrimas caíram. Eu não sabia se era uma boa ideia contar a Finn. Mas sem dúvida um pouco de consolo agora seria ótimo.

- Vem aqui. – ele me puxou pelo braço.

Eu coloquei meu rosto em seu ombro e continuei chorando e molhando sua roupa. Abracei Finn bem forte e este retribuiu. Ele passava a mão em minha cabeça carinhosamente, tentando me acalmar e eu só soluçava em seu ombro.

- Calma, vai ficar tudo bem. – ele disse baixinho. – Não quer me contar o que houve? – eu balancei a cabeça negando.

Ouvi passos perto de nós.

- É só o Ian. – Finn me informou.

- O que houve? – Ian perguntou e eu senti outra mão passando em meus cabelos.

Finn não disse nada, mas imagino que fez alguma careta expressando que não sabia. Senti o braço de Ian em torno de minha cintura e um beijo na cabeça.

- Conta para a gente, nós queremos te ajudar. – ele pediu.

Tudo bem, ele me convenceu. Como eu dissera, consolo não me faria mal. Talvez eles até me animassem. Não foi isso que eu tinha pedido depois de ter fugido de Ba Sing Se?

Eu me soltei de Finn e tentei me acalmar. Sequei as lágrimas, mas elas ainda não paravam de cair. Finn e Ian esbanjavam preocupação. Eu comecei baixinho:

- É o Lee.

- Ahh, mas o que aquele mal-humorado servidor de chá de uma figa fez? – Finn perguntou já revoltado. Ian não fez objeção quanto à atitude de Finn, mas não concordou.

- Não vai falar nada? – eu perguntei a Ian.

Ele estranhou.

- Eu não vou impedir que Finn o ofenda se ele te fez algo ruim. No entanto, esperarei a sua história para tomar uma posição.

Eu respirei fundo e contei aos dois da minha descoberta sobre Lee: que se chama Zuko, é o príncipe da Nação do Fogo, tinha optado por ficar ao "lado do bem", mas na hora decisiva virou a casaca e ferrou todo mundo.

- Eu não acredito! Aquele desgraçado! – Finn chutou uma das barras de ferro do navio.

- Eu nem sei o que dizer. Eu realmente achei que ele fosse um cara legal... Ele nos enganou muito bem. – Ian falou inconformado.

- Ele tinha mudado de verdade, eu sei que tinha. Mas ele é muito cabeça fraca e aquela irmã dele o convenceu a desistir e...

- Para de tentar defende-lo! – Finn me interrompeu. – Ele é um #$%*?& e nem ele pode negar. E mesmo depois de tudo isso você ainda tenta arrumar uma desculpa para as atitudes dele?

- Não são desculpas! São explicações. O tio dele também acreditou que ele tinha mudado.

- É claro que ele estava te enganando também! É o tio dele!

Movi meus olhos para a esquerda olhando o chão. Será que era mentira mesmo? Senti meu fiozinho de esperança ficar mais fino, mas ainda tentei encontrar explicações.

- Pelo que Iroh me contou, Zuko não parece ser do mal, só imaturo para tomar suas próprias decisões e muito pressionado e influenciado pela família.

Finn balançou a cabeça, inconformado.

- Você é inacreditável. Como pode tentar defende-lo? Ele não fez mal só para você, foi para muito mais gente, como o Avatar que é mil vezes mais importante!

Meus olhos encheram de lágrimas e eu abaixei a cabeça. Eu estava sendo muito egoísta tentando encontrar explicações para a atitude de Zuko? Será que o meu desejo de que ele fosse do bem estava passando dos limites e eu só estava preocupada em me fazer me sentir melhor?

- Nossa, Finn, você é gentil como um homem das cavernas. – Ian comentou e me abraçou. – Não é hora de brigar ou dar sermão.

- Eu só estou dizendo a verdade! – Finn se defendeu.

- Não é hora para falar verdades, seu sem noção. – Ian censurou-o. – Kiara, - ele começou a dizer baixinho e com sutileza. – por que você não tenta esquece-lo?

- Eu já tentei... – eu comecei a chorar novamente. – Durante as últimas semanas, eu não pensei nele nenhuma vez... Mas eu não consigo... Eu sinto muita falta dele. – eu desabei no choro de novo.

Ian me abraçou mais forte.

- Acalme-se. E perdoe o Finn. Ele não conviveu com muitas garotas e não sabe o que é amor.

- Ah, e você sabe? – Finn perguntou a Ian.

- Isso não vem ao caso. O caso é que é isso que a Kiara sente, até um cego veria.

Finn ia dizer alguma coisa, mas desistiu. Não sei se por conta própria ou porque Ian o mandou ficar calado, mas o importante é que ele não disse nada. Senti-o me abraçando também.

- Desculpa ter gritado. – ele pediu.

- E o que mais? – Ian perguntou.

- E mais nada...

- Eu não convivi... – Ian começou.

Finn demorou para dizer de má vontade:

- Eu não convivi com muitas garotas e não sei o que é amor.

Ian sorriu em aprovação e eu ri.

- Não se preocupe, nós te ajudaremos. – Ian me disse e eu agradeci mentalmente.

– Além disso, se o problema é amor, eu já tenho a solução. – Finn disse. - Se daqui vinte anos você ainda estiver solteira, eu ou o Ian nos casaremos com você. Assim, você esquecerá rapidinho o Lee, ou Zuko, ou Ronaldo, ou o quer que seja o nome dele.

Começaram as piadinhas.

- Mas eu não conseguirei escolher entre você e Ian.

- Claro que você vai me escolher. – Ian disse. – Eu sou o mais alto.

- E isso é argumento? – Finn perguntou. – Eu sou o mais bonito.

Nós já havíamos saído do abraço e eu já parara de chorar. Agora estava assistindo aos dois discutindo.

- Eu sou mais forte.

- Eu sei usar arco e flecha.

- Mas você é loiro.

- E o que que tem?

- Eu não gosto, acho feio.

- Sua opinião não me interessa. – Finn desprezou-o.

- E você tem cabelo espetado.

- Ah, já sei, você também não gosta.

- Muito menos que ser loiro. Você juntou duas coisas feias e se tornou uma horrorosa. Tenho certeza que a Kiara gosta mais de morenos de cabelos curtos. – Ian disse e virou o rosto e levantou o queixo, fazendo pose.

Finn continuou discutindo com ele. Eu abandonei a briga sorrindo e me virei para olhar o horizonte novamente. Minha tristeza passou um pouquinho, mas por mais que eu tentasse, eu não esqueceria Zuko e ficaria triste frequentemente.

Finn poderia estar certo em tudo o que disse. Porém, eu ainda guardaria o meu fio de esperança e o usaria quando tivesse a oportunidade.