Capítulo 8
O dia do eclipse solar estava chegando e todos estavam se preparando incansavelmente. Partimos para o lugar onde encontraríamos Sokka e companhia em novos navios. Trocamos a grande embarcação da Nação do Fogo por cinco embarcações menores da Tribo da Água, as quais o inventor que encontramos no Templo do Ar do Norte havia aprimorado, graças aos desenhos de Sokka, com um submarino dentro do casco do navio.
Chegamos ao ponto de encontro dentro de um nevoeiro que os dominadores de água do pântano fizeram com a intenção de nos esconder. Desembarcamos. Hakoda foi à frente e abraçou seus filhos. Eu fui logo atrás com Finn e Ian para reencontra-los.
- Sokka! – eu disse e o abracei. Depois abracei Katara e cumprimentei Aang e Toph, ainda não me sentia confortável nem íntima para abraça-los. – Como passaram essas semanas?
- Ah, sabe como é – Sokka começou – com a gente nada é simples ou calmo. Mas conseguimos sobreviver. E foi tudo bem em encontrar todos que nós sugerimos?
- Sim e ainda encontrei mais do que eu esperava. – eu disse e virei para Finn e Ian que estavam ao meu lado. – Estes são Finn e Ian que moravam comigo em Ba Sing Se. – eu os apresentei.
- E aí, gente! – Sokka acenou e os dois retribuíram.
Katara os cumprimentou também e logo Aang se adiantou.
- Olá! É um prazer conhecer nossos reforços.
- O prazer é meu em conhecê-lo, Avatar! – Finn o cumprimentou empolgado. Aang riu meio sem graça.
- Já chega, Finn. – Ian o afastou de Aang.
- E está tudo pronto agora para a invasão? – eu perguntei a Sokka.
- Quase. Só falta explicar a todos o que faremos na hora. – ele respondeu ansioso. – E eu que explicarei.
- É o seu plano, não é? Ninguém sabe melhor que você. – eu o encorajei.
- Mas é muita responsabilidade. Estou nervoso.
- Você vai se sair bem, Sokka. – Aang disse com um sinal de joia.
- Não se preocupa, vai ficar tudo bem. – Katara tentou acalma-lo também.
Depois disso, todo o "exército" se sentou junto de frente para onde Sokka falaria. De frente para nós estava Hakoda e o Time Avatar.
Sokka se levantou levando consigo muitos mapas. Contudo, na hora de começar a explicação, ele se enrolou todo e não conseguiu dizer nada direito. Era óbvio o nervosismo dele. Me senti mal por ele, já que ele se esforçou tanto para isso. Hakoda então assumiu a posição e esclareceu tudo de maneira breve.
Haveria uma pequena parte que invadiria o palácio da Nação do Fogo e o restante ficaria do lado de fora combatendo o exército inimigo. Imediatamente eu pensei em usar minha amizade de longa data com Sokka e Katara para poder ficar no time que entraria no palácio. Com sorte, eu avistaria Zuko.
- Você não vai entrar. – Ian sussurrou ao meu ouvido e eu me assustei.
- O que?!
- Eu sei o que você está pensando e é bobagem. O que você fará se encontra-lo? Acha que ele vai querer falar com você? Ele é da Nação do Fogo e provou ser mau como todos os seus habitantes. É perda de tempo. – ele disse e virou o rosto para frente encarando Hakoda que ainda falava, colocando um ponto final na conversa.
Eu virei a cabeça para frente e a abaixei. Eu era muito idiota mesmo de achar que poderia encontra-lo e que alguma coisa poderia acontecer. Zuko nem deve lembrar que eu existo e já deve ter arrumado outra namorada.
Senti meus olhos enchendo de lágrimas, mas logo as sequei. Não era hora de me preocupar com meus problemas amorosos. A invasão aconteceria logo e eu tinha que estar concentrada e preparada.
Depois das instruções de Hakoda, todos começaram a finalizar sua preparação. Eu e Katara enchemos nossos cantis de água no rio próximo enquanto Finn arrumava sua aljava de flechas e Ian se alongava, confiando plenamente em sua força bruta.
Chegou a hora de partir e nós embarcamos em um dos navios. Navegamos até avistarmos os Grandes Portões de Azulon e então eu, Katara e outros dominadores de água fizemos um nevoeiro em volta de todos os navios.
Assim que nos aproximamos dos portões, os tais portões, que até então não existiam, surgiram do fundo do mar e se incendiaram, bloqueando nossa passagem.
Todos os tripulantes desceram e entraram no submarino. Os dobradores de água usaram sua dominação para mover o submarino por baixo da água. Passamos pelos portões e nenhum dominador de fogo nos atrapalhou.
Nós tivemos que subir à superfície antes de chegarmos à terra da Nação do Fogo para reabastecer os submarinos de oxigênio.
- Essa demora em chegar está me deixando cada vez mais ansioso. – Finn confessou agitado, enquanto esperávamos o submarino estar pronto para submergir.
- Eu sei, mal posso esperar para dar uns bons socos naqueles estúpidos dobradores de fogo! – Ian disse com os punhos fechados a frente do corpo.
- Eu estou preocupada com você, Ian. – eu comecei. – Eu sei que você é bom de luta e que está de armadura, mas não acha que é melhor levar alguma arma? Nem que seja um garfo?
- Não se preocupa, Kiara, eu ficarei bem. Nada melhor que um bom soco na fuça do inimigo para extravasar toda a minha raiva! – os olhos de Ian pegavam fogo.
Quando Ian disse isso, toda aquela raiva que eu sentia pela Nação do Fogo, por tudo o que ela havia causado na minha vida e na de meus amigos, e que estava hibernando em meu ser nos últimos meses, voltou à tona com toda a potência. De repente, aquela tristeza que eu sentia por causa de Zuko desapareceu, foi engolida pelo sentimento de vingança e tudo em que eu pensava era a mesma coisa em que Ian pensava: dar uns bons socos no inimigo.
- Finalmente este dia chegou. – Finn comentou. – Poder atirar em uma renca de dobradores de fogo e ainda ter reforços. O único jeito de eu me sentir melhor é acertar um dobrador de fogo.
- Kiara, - Ian começou cauteloso – eu sei que não é o melhor momento para falar nisso, especialmente depois de ontem, mas... – ele não encontrava as palavras certas para dizer, então eu o ajudei.
- Eu não vou fazer nenhuma estupidez. Evitarei entrar no palácio. O que eu quero agora é acabar com o máximo de dobradores de fogo, assim como vocês. – eu disse com firmeza e Ian sorriu para mim.
- É assim que eu gosto!
- Mas você precisa levar alguma arma! Você não conseguirá chegar perto deles para dar um soco antes de virar cinzas. – eu falei ainda preocupada.
- Eu vou de escudo, fica tranquila.
- Mas Ian...
- Nem todos são dobradores de fogo. – Ian disse. – Eu acho. – ele completou.
- Independente disso, terão bolas de fogo voando para todos os lados!
- Kiara, eu sei me cuidar. Já está na hora de você ir mover o submarino, vai lá. – e apontou para algo atrás de mim e eu vi um dos dobradores de água do pântano fazendo sinal que já estava na hora de eu ir. Eu fui em direção a ele e quando passei por Finn eu cochichei: - Convença-o.
Eu fui até o local apropriado e fiquei em posição para dobrar a água, porém a minha preocupação com Ian não ia embora. Ele estava se precipitando demais naquela hora. Eu sabia que ele já havia enfrentado dominadores de fogo antes e tinha se saído bem, contudo eram apenas brigas, com poucos dobradores. A próxima será uma batalha de guerra, muito mais perigosa.
Algum tempo depois de muita dobra d'água, ouvi Hakoda falar para os dobradores de terra ficarem em posição, o que significava que estávamos chegando à capital da Nação do Fogo. Senti meu coração acelerar. Logo estaríamos guerreando de verdade, não era mais uma suposição ou um desejo distante. Era a realidade.
Os dobradores de água se adiantaram para mandar mísseis cobertos em gelo para quebrar as grades abaixo da entrada da capital para podermos passar. Assim que passamos emergimos e sentimos o submarino balançar violentamente devido aos ataques da Nação do Fogo.
Os submarinos pararam na terra e de dentro deles saíram outras invenções parecendo minhocas e movidas "à dobradores de terra".
Assim que deixei meu posto para sair do submarino e guerrear, fui ao local em que deixei Finn e Ian. Ingenuidade a minha se achei que os encontraria ali, pois eles não estavam lá. Com certeza já estavam no meio do campo de batalha.
Saí do submarino e me juntei aos outros guerreiros. Havia várias explosões pelo campo, consequência de bolas de fogo sendo jogadas de torres ao redor. Eu me juntei aos dobradores do pântano e com a ajuda de alguns carros que traziam jarros de água, nós conseguimos acabar com vários tanques de guerra da Nação do Fogo.
De vez em quando eu olhava para os lados para procurar por Finn e Ian. Eu vi Ian lutando com os guerreiros da Tribo da Água, mas eu não encontrei Finn em lugar algum. Às vezes eu tinha a impressão de ver vultos de flechas voando perto de mim, mas não conseguia identificar de onde elas saíam. Devia ser Finn atirando escondido de algum lugar.
A guerra estava no auge e parecia longe de terminar. Estava ficando preocupada com o estoque de água que tínhamos, pois não duraria muito mais. Se bem que o mar ficava ali perto, então não ficaríamos desamparados.
De repente, Appa pousou logo a minha frente e Sokka, que veio montado nele, começou a berrar e nos dar instruções. Pelo que eu consegui entender em meio toda aquela confusão, o objetivo era invadir logo o palácio.
Todos dos dobradores se juntaram, com Sokka e Appa à frente para a invasão.
Estávamos chegando à porta de entrada do palácio quando vimos Katara e Hakoda vindo em nossa direção, este se apoiando em Katara. Aang apareceu logo depois, dizendo que o palácio da Nação do Fogo estava vazio e que não encontrara o Senhor do Fogo.
Depois de um pouco de discussão, Sokka chegou à conclusão de que o Senhor do Fogo ainda estava por perto, mas escondido.
- Eu sou a pessoa certa para encontra-lo! – Toph disse disposta a usar a sua dobra de terra para achar qualquer suspeita sob a terra.
- Então ainda podemos salvar o dia. – Aang disse com determinação.
- Temos dez minutos para encontra-lo antes do eclipse solar. – Sokka informou olhando para o aparelho de tempo que o mecânico dera a ele. – Kiara, você nos acompanha?
Eu hesitei. Ian tinha me proibido de entrar no Palácio para eu não ceder à vontade de ver Zuko. Mas não havia tempo para me preocupar com isso. A prioridade era salvar o dia e eu não podia deixar que um sentimento individual e egoísta me impedisse de ajudar. Afinal, além disso, eu não tinha nenhum outro motivo para ficar de fora.
- Claro, vamos lá.
Nós quatro subimos o Appa e voamos até o vulcão onde, no topo, ficava o palácio vazio que Aang encontrou. Toph sentiu que havia túneis cruzando todo o interior do vulcão. Com a dobra de terra, abriu um túnel nele.
Nós entramos por ele e atravessamos alguns túneis na direção que Toph nos indicava e chegamos à fortaleza subterrânea do Senhor do Fogo. Passamos pela porta de metal graças à dobra de Toph e seguimos pelos corredores.
O tempo que tínhamos para chegar ao Senhor do Fogo antes do eclipse começar estava acabando quando finalmente chegamos à sua porta. Aang a abriu e nós entramos. Era uma sala comprida com pilares nas laterais e no fundo, num patamar mais alto, um trono. No entanto, quem nós encontramos não foi o Senhor do Fogo. Foi a irmã louca de Zuko, Azula.
Azula confessou saber da invasão há meses. Como, eu realmente não sabia, mas no momento isto não importava. Nós precisávamos saber onde o Senhor do Fogo Ozai estava antes que fosse tarde demais e o eclipse acabasse.
Aang e Sokka tentaram argumentar com ela, mas foi inútil. Toph prendeu-a entre pedras, mas Azula foi solta graças aos agentes Daili que estavam escondidos na sala. E então, começou uma batalha na sala. O eclipse já tinha começado e azula estava sem sua dobra, mas os agentes lutavam por ela contra nós.
Eu estava ajudando Sokka com um deles quando vi pelo canto do olho Azula passar correndo com Aang atirando ataques de ar atrás dela, porém estava desviando de todos. Eu avisei Sokka e nós largamos os agentes Daili e fomos atrás deles. Toph percebeu assim que os agentes abandonaram a luta contra ela e seguiram Azula a fim de protegê-la. No meio da corrida, Toph conseguiu detê-los prendendo-os com sua dobra de metal.
Estávamos muito próximos de pegar Azula quando Sokka interrompeu-nos.
- Esperem! Parem de atacar! Não veem o que ela está fazendo? Ela está só brincando com a gente, nem está tentando ganhar a luta.
- Não é verdade, eu estou dando duro. – Azula rebateu com uma voz monótona.
- Está nos segurando aqui para perdermos tempo! – Toph disse em tom de acusação.
- Tá, então fazemos o que? – Aang perguntou. – Ignoramos ela?
- Não temos outra escolha. Temos que sair daqui e procurar o Senhor do Fogo sozinhos. – Sokka respondeu e se virou, andando para o lugar de onde viemos. Eu, Aang e Toph o seguimos.
- É uma cilada, não digam que eu não avisei. – Azula alertou, me deixando com uma pulga atrás da orelha, mas Sokka disse sem olhar para trás: - Ignorem-a!
- Então seu nome é Sokka, não é? A minha prisioneira preferida falava em você o tempo todo. Ela tinha certeza de que você viria salvá-la. – Azula dizia com um sorriso malicioso. – Claro, você não veio. Aí ela desistiu de você.
Eu vi lágrimas se formando nos olhos de Sokka e senti muito por ele. Era óbvio que ela estava provocando-o. Ele começou a correr e eu o segurei pelo ombro, impedindo-o.
- Aonde está a Suki? Aonde você a mantém? – Sokka gritou de onde estava, mas Azula permaneceu em silêncio. Ela não tentou fugir nem atacar, apenas ficou ali parada.
- Sokka, não adianta, ela não vai falar. – eu disse. - É melhor irmos embora.
- Você deve ser a dobradora de água com quem meu irmão andou namorando em Ba Sing Se. – Azula disse e eu senti meu coração acelerar. Me arrependi de ter falado. Devo ter chamado a atenção dela. Mas como ela sabe que sou eu?
- Quem? – perguntei me fingindo de idiota.
- Não banque a sonsa, você sabe de quem eu estou falando. – ela retrucou, mas eu mantive minha postura firme e expressão neutra para ela. Não estávamos muito distantes uma da outra e eu precisava me manter calma. – Ele falou como você foi a garota mais boba que ele já conheceu, que acreditou facilmente nas mentiras dele. - Eu só pensava em controlar minhas emoções para não sair correndo e dar-lhe um murro no meio da fuça.
- Sabe onde ele está agora? Com a minha amiga Mai. – Azula continuou e eu rangi meus dentes tão forte que minha mordida escorregou. Minhas mãos estavam fechadas e eu sentia minhas unhas compridas machucarem a palma das minhas mãos. – Eles deves estar felizes por estarem juntos novamente e rindo da pobre garota tola que o Zuzu enganou. Achou mesmo que uma dobradora de água seria bem vinda aqui? – Azula riu de deboche. – Você me faz rir.
Eu ouvi a sua risada e no segundo seguinte estava a meio metro de distância dela. Eu ouvi Sokka, Aang e Toph gritarem para mim, mas não prestei a mínima atenção. De repente, Azula foi jogada para trás e seu pulso esquerdo estava preso na rocha. No chão, havia uma estrela ninja que ela provavelmente estava prestes a atirar, mas não antes de Toph perceber o movimento.
Eu cheguei perto dela sentido os raios de fúria saírem de mim. Azula sorria para mim, mas seu olhar era maldoso. Eu não faria perguntas a ela, não a acusaria e não a mataria. Eu ainda não sabia o que pensar sobre o que ela me dissera. Só sabia que queria mostrar que ela não poderia dizer tais coisas e sair impune.
O corredor estava silencioso. Sokka, Aang e Toph assistiam apreensivos, eu podia sentir. Dei mais um passo em direção à Azula, ergui minha mão direita na altura de seu rosto. Ela continuava a sorrir sem demonstrar qualquer sinal de medo ou de que alguma forma recuaria, o que só me deu mais vontade de cumprir o meu objetivo. Eu posicionei minha mão e em um movimento rápido, passei as quatro unhas em fileira pela bochecha esquerda da garota.
Ela deu um grito de dor que preencheu a caverna. Em seguida olhou para mim mostrando os dentes, mas não com um sorriso. Ela gritou novamente, desta vez de raiva e começou a espernear tentando me chutar. Eu me afastei dela e corri para onde Sokka estava. Este e os outros dois estavam brancos e de olhos arregalados.
- O que foi...? – Sokka começou a dizer, mas eu o interrompi.
- Quanto tempo falta para o eclipse acabar? – eu perguntei e Sokka olhou para o aparelho de tempo. Cinco segundos. – Precisamos sair daqui rápido.
- Não, não posso ir! Preciso encontrar o Senhor do Fogo! – Aang exclamou.
- Eu não acho que seja uma boa ideia. – Sokka disse.
- Mas todos estão contando comigo para isso.
Nós ouvimos um barulho e nos viramos. Azula tinha se soltado e disse:
- O pai está no fim do corredor, descendo uma escada secreta à esquerda. Eu sei que ele ficará mais do que feliz ao vê-los agora – e fugiu.
- Vamos então! – Aang se preparou para correr, mas Toph o interrompeu.
- Não podemos ir, não é o nosso dia. Devemos voltar para ajudar os nossos amigos, Aang.
- A Toph tem razão. É muito arriscado para você encontrar o Senhor do Fogo sozinho agora.
Aang abaixou a cabeça.
- Acho que vocês têm razão.
Sokka pôs a mão em seu ombro e disse: - Você terá outra chance. – E então corremos para fora do palácio subterrâneo.
Do lado de fora, subimos no Appa e partimos para encontrarmos o restante dos nossos amigos.
Ao nos aproximarmos do local da batalha, eu me aproximei da beirada para observar lá embaixo e tentar, de alguma forma, encontrar Finn ou Ian, mas estava uma confusão. Os dobradores de fogo já estavam com sua dobra novamente e a guerra estava mais ativa do que nunca.
Havia agora umas coisas estranhas no céu com o símbolo da Nação do Fogo. Pareciam submarinos voadores. Eu não havia visto nada igual antes. Neles estavam dobradores de fogo e eles atiravam em nossa direção. Eu fiquei em pé e formei com a água em meus cantis escudos para nos defender dos ataques.
- Precisamos pousar! – Sokka disse a Aang.
- Estou tentando, mas está muito difícil. – Este respondeu manobrando Appa e me desequilibrando.
Em uma dessas desequilibradas, eu deixei a água cair e um ataque de fogo me acertou o braço direito e me fez cair do Appa. Eu ouvi Sokka gritar, mas não consegui vê-lo. Apertei os olhos enquanto sentia novamente aquela dor agonizante queimando meu braço, assim como queimara as minhas costas anos atrás. Eu não sabia o que me aconteceria agora, não sabia aonde cairia e se sobreviveria depois da queda. A única coisa que eu queria naquele momento era fazer a dor parar.
Depois do que pareceram horas, eu caí no meio de árvores. Senti minhas costas batendo nos galhos e quebrando-os, meus cabelos ficando presos entre eles e meus braços arranhados, enquanto eu trazia comigo diversas folhas até chegar ao chão.
Com um baque eu caí de costas e bati a cabeça na terra, segurando meu braço queimado durante todo o trajeto para não piorar a situação dele.
Fiquei deitada no chão durante algum tempo até tomar coragem de abrir um de meus cantis com água para colocar em cima da minha queimadura. Com o poder da cura, eu amenizei a dor e pela primeira vez desde a minha queda eu consegui abrir completamente os meus olhos. Eu só via as folhas das árvores e os raios de sol que passavam por entre elas. Tentei me levantar, mas foi inútil. Minha cabeça, minhas costas, minhas pernas, tudo em mim doía demais para eu conseguir me erguer. Sentia minha cabeça dolorida devido ao baque da queda. Apoiei novamente a cabeça ao chão e fiquei ali, esperando.
Fiquei pensando onde exatamente eu estava. Em todas as direções que eu olhava eu só via árvores. Elas nasciam muito unidas umas das outras e por isso não conseguia avistar o céu, apenas alguns raios de sol que conseguiam passar por entre as folhas. Fora isso, eu conseguia ouvir a guerra acontecendo. Barulhos parecidos com bombas, de dobra de terra e de fogo eram os que se sobressaíam.
Não sei quanto tempo fiquei deitada no chão. De repente, abri os olhos e não ouvi mais som algum. Os raios de sol haviam se apagado e estava tudo no breu completo. Senti uma onda de medo tomar conta de mim. Eu não sabia onde estava e não sabia quem ou o que poderia aparecer por ali. Percebi que estava com fome e sede, mas o medo era maior e me impedia de levantar para suprir minhas necessidades fisiológicas.
Fiquei acordada a noite toda, rezando a todos os deuses para que a manhã chegasse logo e eu pudesse enxergar. Mesmo me acostumando com a escuridão, quaisquer barulhos, por menor que fossem, asas de morcego batendo, pios de coruja, faziam a minha espinha gelar.
Durante a madrugada, ouvi um barulho mais alto do que o habitual. Fiquei mais imóvel do que já estava. Prestei atenção e percebi que o barulho era de passos, que por sinal se aproximavam.
Eu não sabia o que fazer. Apesar da cura, meu braço ainda doía e a minha água de dobra já havia acabado. Não tinha forças para levantar e lutar ou sair correndo. Minha única possibilidade no momento era continuar parada e esperar que eu passasse despercebida pela pessoa ou o que quer que fosse que se aproximava.
Os passos se aproximavam e notei que eram de um ser bípede, provavelmente um ser humano. Era um bom sinal, humanos não enxergam bem no escuro. Mesmo assim, senti meu coração acelerar de tal maneira que temi que a pessoa pudesse ouvi-lo. Não me atrevi a mexer meu braço bom e colocar minha mão no peito para conter meu coração com medo de fazer barulho com as folhas no chão.
Assim que ouvi os últimos passos próximos à minha cabeça e senti a presença da pessoa perto de mim, pensei que fosse desmaiar. Pensei, na verdade, que seria o meu fim e imaginava se ele seria rápido e fácil ou cruel e lento.
Senti que a pessoa agachou-se e aproximou-se sua cabeça da minha. Eu estava de olhos fechados e fiz um esforço tremendo para não abri-los, desejando que a pessoa pensasse que eu já estava morta e fosse embora.
Pareceu que eu estivera naquela situação por alguns dias até que eu senti um dedo cutucar a minha testa. Eu estava esperando muito: uma lança na minha barriga, uma faca no meu pescoço ou até uma rajada de fogo, mas não um simples cutucão na testa. Assustei e abri os olhos arregalados.
- Kiara, você está viva! – Finn gritou e me abraçou de um jeito que eu fiquei com o nariz na altura do umbigo dele.
- Finn? – eu perguntei ainda em dúvida. Como ele me achou ali? Milhões de perguntas se formaram em minha cabeça.
- Sim! – Ele confirmou quase gritando.
- Shhh, seu louco. Alguém pode nos ouvir. – eu alertei empurrando-o de cima de mim.
- Duvido que tenha alguém aqui. A nação do fogo já foi embora.
- O que houve? Como você me encontrou? Você está sozinho? Onde estão os outros? Nós ganhamos a guerra? O que...
- Calma, calma, mulher. Você não quer se sentar? Está estranho conversar com você nessa posição.
Eu ainda estava deitada no chão e Finn estava sentado acima da minha cabeça, de modo que eu tinha que curvar a coluna para olhá-lo de ponta cabeça.
- Eu preciso de ajuda.
- Você está machucada? – Finn perguntou preocupado e engatinhou até o meu lado direito.
- Meu braço direito. Acertaram-me uma bola de fogo. – eu disse usando meu braço esquerdo para levantar.
Finn me apoiou pelas costas e me ajudou a sentar. No momento que me equilibrei sentada, senti todas as dores voltarem: nas costas, nas pernas, na cabeça e principalmente no braço direito. Fechei os olhos e franzi a testa.
- Você está um horror, Kiara. Parece até que caiu do céu em um monte de árvores.
Entreabri os olhos e o olhei séria. Que engraçadinho.
- Eu bati a cabeça quando caí e estou um pouco zonza. – eu disse e coloquei a mãe esquerda na minha têmpora.
- Quer um pouco de água? – Finn ofereceu e pegou o seu cantil. Abriu a tampa e colocou o bico na minha boca sem esperar resposta. Bebi tudo em questão de segundos. Não tinha ideia de que estava com tanta sede.
- Obrigada.
- Tudo bem. Mas temos que procurar uma fonte de água logo porque esse era o último do estoque. – Finn avisou.
Eu respirei fundo e abri os olhos. Estava tudo muito escuro ainda e não conseguia ver Finn direito.
- O que aconteceu com você, Kiara? – ele me perguntou. – Sokka disse que você caiu do Appa, foi isso mesmo?
Eu confirmei mexendo de leve a cabeça.
- Eu estava defendo os ataques de fogo, mas me desequilibrei, fui atingida e caí. – meus olhos se acostumaram com a claridade e aí eu pude ver Finn. O cabelo dele estava todo bagunçado, suas vestes estavam rasgadas em várias partes, tinha cortes pelo rosto e pelos braços, quase cicatrizados, e estava muito sujo. Parecia que tinha mergulhado numa piscina de carvão.
- Nossa, Finn do céu. Você não devia falar dos outros antes de olhar para si mesmo. Você está um horror também.
Ele riu.
- Eu sei. A guerra foi dura.
- O que aconteceu?
Finn me contou que as nossas forças da água e da terra não conseguiram vencer a Nação do Fogo. Como Aang não derrotara o Senhor do Fogo durante o eclipse solar, os adultos decidiram que seria melhor recuar. Os jovens fugiram no Appa e os adultos foram presos.
- E por que você está aqui?
- Eu tinha que vir te procurar. Ian me confiou esta tarefa. Mesmo que você estivesse... Sabe... Eu tinha que saber o que aconteceu. E se você estivesse bem como de fato está? Você tem que voltar comigo.
- Voltar para onde? Eu mal consigo me levantar...
- Eu não sei para onde eles foram, mas nós não podemos ficar aqui chamando a morte para fazer companhia, podemos? Não. Vamos dar um jeito de ir a algum lugar melhor.
- Estamos na Nação do Fogo, querido. Não tem lugar melhor.
- Você é uma inútil hoje, deixa que o Finn cuida do resto. – Ele me disse mexendo a mão como se o que eu dissera não fosse importante.
- E como você me encontrou? O Ian deixou você vir sozinho numa boa? – essa parte ainda não fazia sentido para mim. Se tivesse que vir me procurar, Ian viria junto, não largaria Finn sozinho e fugiria.
- Sokka me mostrou a região em que você caiu. E Ian não faz mais parte dos jovens, eu receio. – Finn respondeu triste.
Agora tudo fazia sentido.
- Entendo. Bom, vamos esperar amanhecer para procurar outro lugar. – eu sugeri já me ajeitando para deitar novamente.
- Tudo bem. – Finn concordou e deitou ao meu lado. – Preciso tirar um cochilo. – foi a última coisa que disse antes de começar a roncar.
Eu estava muito feliz por Finn ter me encontrado e por eu não estar sozinha. Queria esticar meu braço e agarrar o pulso dele para garantir que não iria embora, mas meu braço ainda doía muito. A pouca água que eu tinha e que usei não foi suficiente para curar a ferida totalmente.
Ajeitei meu braço direito em cima do meu peito e o abracei com o braço esquerdo. Fiquei olhando para as árvores na escuridão até o sono me levar dali.
