Capítulo 9

Acordamos no dia seguinte por volta do meio-dia. O Sol estava muito forte e quente, o que me fez acordar suando.

Finn procurou por comida e água, visto que eu não era mais útil que um peso de papel no momento. Com a água que Finn encontrou eu reforcei a cura da minha queimadura. A dor aliviou muito, mas a cicatriz ficaria ali para sempre.

Comemos e passamos o resto da tarde pensando para onde iríamos. Não podíamos ficar ali muito mais tempo, não tínhamos ideia em que lugar exatamente estávamos nem o que ou quem poderia aparecer sem aviso. Decidimos que qualquer ação seria mais segura à noite e voltamos a dormir.

Na segunda vez em que acordamos naquele dia, o céu já estava estrelado e não havia lua, o que era vantajoso para nós passarmos despercebidos pela floresta.

Caminhamos durante a noite toda. Passamos por alguns vilarejos, mas não houve problemas. Continuamos caminhando em direção a qualquer lugar durante uma semana até que chegamos a uma praia. Finn recusava-se a aceitar o fim da linha e me pediu para dobrar a água do mar para que pudéssemos atravessar. Primeiro eu ri na cara dele. Dobrar a água do mar? Tudo bem que eu já havia dobrado, mas em pouca quantidade e quando foi em muita, foi com a ajuda de outros dobradores de água. Eu estava muito insegura. Por quanto tempo eu conseguiria dobrar a água antes de me sentir exausta e deixar que a água do mar nos engolisse?

Finn argumentou, insistiu, chorou, fez manha e biquinho e eu finalmente aceitei tentar. Mas não poderia deixar o mar aberto para todos os cidadãos da Nação do Fogo descobrirem que havia intrusos na terra deles. Então, pedi para que esperássemos anoitecer para agirmos. E foi o que fizemos.

Ao cair da noite, eu e Finn nos encostamos a um rochedo na praia e devagar eu dobrei a água da costa e fiz com que ela ficasse ao nosso redor, como se estivéssemos dentro de uma bolha. Pedi que Finn acompanhasse meus passos para que ele não saísse da bolha. Aos poucos entramos no mar.

A praia não era muito íngreme o que me fez ter mais segurança para não deixar a água cair em nós e nem escorregar.

Começamos nossa caminhada em direção a qualquer lugar novamente. De tempos em tempos eu abria um "tubo" através da água à superfície para que pudesse entrar oxigênio na nossa bolha.

Caminhamos, caminhamos e caminhamos um pouco mais. Vimos o nascer do Sol e ele se pôr novamente. Neste meio tempo, eu tive de parar, pois meus braços estavam horrivelmente cansados. Eu dobrei a água de forma que nos ajudasse a subir até a superfície, Colocamos nossas cabeças para fora para observar se havia algum inimigo à vista. Aparentemente, nada. Pedi a Finn que ficasse de olho enquanto eu boiava um pouquinho para descansar.

Achei estranho não ter navios da Nação do Fogo ou coisa do tipo. Provavelmente estávamos em seu território ainda e por isso não havia a necessidade de constante vigia.

Depois de meia hora, eu avisei Finn que estava pronta para voltar e nós descemos ao mar novamente.

Caminhamos mais e eu já estava começando a sentir meus braços fraquejarem, mas não podia por nada desistir. Finn ficava me incentivando, mas de nada adiantaria se eu realmente me cansasse e precisasse parar. Até que a luz no fim do túnel – ou a rocha no fim do mar – me fez me sentir aliviada e renovar minhas forças por mais alguns minutos. Estávamos chegando ao fim da linha e ali na nossa frente estava uma ilha. Que ilha era aquela, eu e Finn não sabíamos, mas pouco importava no momento. O que importava era que logo estaríamos sentados e eu poderia descansar meus braços.

Chegamos logo à praia da ilha e eu nem me importei de verificar se haviam quaisquer seres vivos por ali. Quando a água bateu em minha cintura, eu soltei os braços e corri para a areia e me joguei de barriga para baixo. Ela estava quente e macia. Tão aconchegante...

Quando voltei a abrir os olhos, eu estava em outro lugar. Foi fácil acostumar com a claridade, pois eu não estava ao ar livre, estava em um lugar coberto. Pisquei várias vezes para mandar o sono embora porque sentia vontade de virar para o lado e dormir novamente. Entretanto, tinha de saber onde estava.

Olhei para os lados. Eu estava em uma caverna ou gruta. Na direção de meus pés estava a saída, de onde vinham os raios de sol. Apoiei-me em meus braços para sentar, mas eles estavam extremamente doloridos e fui obrigada a recuar. Testei a força de meus braços. Eu os conseguir erguer, mas doíam muito.

Senti minha boca seca. Meu estômago roncou alto. Eu queria água, comida e respostas. Procurei por qualquer um dos três e encontrei meio coco com água e um punhado de amoras. Por reflexo estiquei meu braço de uma vez e me contorci ao lembrar que ele estava em recuperação. Com cuidado, estiquei o braço para pegar o coco e as amores e tomei toda a água e comi todas as amoras.

De repente me lembrei: onde estaria Finn? Com certeza foi ele quem deixara as amoras e o coco ali. Não tinha muito o que fazer a não ser esperar ele regressar de onde quer que estivesse.

Eu estava sentada esperando Finn regressar pelo que me pareceram dias quando a silhueta de alguém tampou a luz que entrava na caverna. Fiquei feliz.

- Finn! Ainda bem que você voltou!

A pessoa se aproximou e não era Finn, era Zuko. Ele entrou sorrindo torto para mim com um olhar maldoso. Algo não estava certo. Ele estava muito bem vestido com as vestes de príncipe e o cabelo estava preso em um coque alto.

- Olá, Kiara. – ele me cumprimentou e sentou-se ao meu lado.

Eu o encarei, ele se agachou e colocou uma mexa de meu cabelo atrás da minha orelha com a mão. Meu coração amoleceu imediatamente. Zuko estava ali! Comigo!

- Você está aqui! – eu exclamei e o abracei fortemente.

- Claro que sim. Eu jamais te abandonaria. – ele disse sem me abraçar de volta.

Eu levantei o rosto sorrindo radiante. Zuko enfim gostava de mim de verdade! Era a melhor coisa do mundo.

- Eu trouxe alguém que quer te ver. – ele sorriu e olhou para a entrada da gruta. Só neste momento que eu notei que a luz estava bloqueada novamente. Desta vez, a silhueta era de uma mulher. Ela se aproximou.

- Ora, Zuzu, não podemos deixar um inimigo ficar ileso. – Azula disse a gargalhou. Zuko a acompanhou e eu o olhei assustada.

Azula conjurou aquele estranho fogo azul enquanto Zuko formava uma bola de fogo na mão. Eu os encarava de olhos arregalados e sem reação. A última coisa que vi foi uma luz mesclada de vermelho e azul ficando cada vez mais forte.

Levantei rápido, suando, respirando fundo e com um banho de água. Quase me afoguei.

- Eitaaa, que susto, Kiara! – Finn exclamou perto de mim.

Eu olhei em volta e ainda estava na caverna, mas não havia Zuko ou Azula, apenas Finn e um coco vazio em sua mão. Levei um tempo para entender o que estava acontecendo até notar que além do meu suor, eu tinha tomado um banho.

- Finn! Por que jogou água em mim?

Finn me olhou inconformado.

- Você bateu no meu braço! A culpa foi sua! Levei um susto do caramba quando você acordou gritando e batendo os braços!

Eu respirei fundo.

- Eu tive um pesadelo. – expliquei a ele.

- Já sei, sonhou que estava na floresta a apareceu um coelhinho fofinho e lindo, mas que quando você disse "olha que coelhinho fofinho e lindo" com voz de bebê ele se transformou em um bicho enorme, horroroso, carnívoro com dentes enormes, com uma pata verde e a outra laranja e... – ele foi se empolgando enquanto falava, mas eu não estava interessada em ouvir o restante.

- Chega, Finn! – Eu pedi. – O que tinha na sua água? Era a mesma que você queria me fazer beber?

- Não tinha nada, é claro. Que eu saiba. – ele completou. – É que eu tive esse pesadelo noite passada e não tinha nenhuma amiga para me consolar. – ele falou como uma criança mimada.

- Ah, você queria dormir na minha cama? – eu disse com voz de bebê.

- Não faça voz de bebê. Eu posso me transformar em um bicho do mau. – ele me alertou e posicionou suas mãos como garras. Eu ri.

- Por quanto tempo eu dormi? – eu perguntei, pegando algumas frutinhas para comer.

- Uns dois dias.

- Vish. E onde nós estamos?

- Pelo que pude ver, em uma ilha turística ou coisa do tipo chamada Amber. Tem várias casas de praia e vi alguns cartazes de musicais e peças de teatro pela cidade.

- Você foi até a cidade? Está louco?! – eu perguntei em pânico. Mal chegamos e já teríamos que ir? Era só o que me faltava.

- Relaxa, o povo daqui parece alienado. Devem ter achado que eu era um mendigo. – e riu.

Eu entortei a boca.

- Você viu se alguma dessas casas está vazia?

- Ah, devem ter várias. Aqui é legal para ficar um tempo, não morar. A maioria deve estar vaga. – Finn me encarou com olhar travesso. – O que está pensando? Invasão?!

- Mas é claro! Não pretendo ficar nessa caverna desconfortável. – eu estalei as costas. – Vou ficar com dor nas costas.

- Ok, só vamos passar mais um dia aqui para você se recuperar bem e amanhã nós partimos, pode ser? – Finn sugeriu. Eu concordei.

Acordamos no dia seguinte bem cedo. Arrumamos nossas trouxas e partimos da caverna.

Caminhamos durante um bom tempo até encontrarmos uma das casas de veraneio que o Finn havia mencionado. Era uma casa muito bonita, de dois andares e de cor vermelha.

Ficamos escondidos por entre os arbustos por alguns minutos só observando, pois ainda não sabíamos se ela estava vaga. Finn tomou a dianteira e saiu primeiro do arbusto, andando meio abaixado ainda comigo em sua cola.

Chegamos na janela e observamos com cuidado para dentro da casa. Estava completamente escura e aparentemente vazia. Os quadros e os móveis estavam cobertos com um pano branco para não juntarem poeira. Rodeamos a casa à procura de sinais de vida dentro da casa, mas não encontramos nada. Finn escalou a árvore mais próxima para checar o andar de cima, mas a resposta também foi negativa.

- Parece que não há ninguém nesta casa. – Finn respondeu descendo da árvore.

- Ótimo! Mas como nós entraremos?

- Pela porta, né. – Finn respondeu e foi até a porta de entrada e tentou abri-la. Estava trancada. - Vamos quebrar uma janela, é claro. – corrigiu ele, indo em direção a uma das janelas perto da porta.

- Isso vai deixar com que a casa fique sem a segurança que eu tanto quero. – eu contestei.

- E o que você sugere? – Finn cruzou os braços, me encarando.

Eu pensei, pensei, mas não consegui achar uma alternativa melhor. Estava cansada de pensar.

- Tudo bem, mas quebre uma janela do andar de cima pelo menos, para dificultar um tiquinho a entrada de estranhos.

Finn escalou novamente a árvores e quebrou uma das janelas. Eu subi atrás dele e entrei pela mesma abertura.

Estávamos em um quarto atolado de coisas. Devia ser o depósito da casa e estava com tanta poeira que comecei a coçar o nariz loucamente.

- Abre logo a porta, Finn, se não logo ficarei sem nariz. – eu disse, esfregando o dedo indicador contra o meu nariz.

Do quarto, saímos em um corredor que dava a volta no segundo andar da casa com grades em volta que permitia a visão do andar de baixo. Entramos em todos os quartos para ver o que tinha e se realmente não tinha ninguém. Descemos as escadas e observamos o grande hall, a cozinha e área externa.

- É. – Finn disse quando terminamos. – Acho que esta casa vai servir.

- Concordo. É maravilhosa! – eu exclamei. Fiquei encantada com a casa. Nunca tive a oportunidade de entrar em um lugar assim e nunca achei que teria a oportunidade de desfrutar de uma delas como sendo a minha casa. – Podíamos dar uma xeretada nos armários e ver se achamos algumas roupas limpas.

- Tem razão. Você está parecendo uma mendiga de tão arregaçada e fedida que você está. – Finn caçoou de meu estado lamentável.

- Vê se te enxerga, cabelo espetado. Ou deve dizer "ex-espetado"? Você não está em condições melhores que eu, tá? Deve ter 3 quilos de terra embaixo dessas suas unhas.

Finn olhou para suas unhas e as escondeu atrás do corpo.

- Eu sou homem. Meu limite de sujeira é maior que o seu.

- Além de não se enxergar, você não se ouve. Para de falar bobagem e vai achar uma fonte de água para tomarmos banho, pode fazer essa gentileza? – e fui escadas acima em direção ao quarto no qual eu estava de olho.

Entrei no quarto e sorri ao ver a cama. Estava com uma bela colcha vermelha, um travesseiro que parecia extremamente confortável e três almofadas brancas com detalhes vermelhos encostadas a este. A cama ficava encostada na parede à direta da porta. Ao lado, havia uma poltrona de cor vinho e no outro extremo do quarto uma cômoda marrom escuro com quatro gavetas.

Abri a primeira gaveta da cômoda e já encontrei o que procurava: roupas limpas. Peguei uma calça e uma blusa, ambas vermelhas, mas em tons diferentes. Comecei a refletir sobre o conhecimento que a Nação do Fogo tinha sobre as cores. Era tudo vermelho. Quando eu estava com o povo da Terra nem tudo era verde. Que exagero.

Finn encontrou um poço no quintal do qual ele tirou a água para nos lavarmos, bebermos e fazermos alguma comida. Por sorte havia alguns ingredientes na cozinha e eu pude fazer um cozido de carne (não sei que carne era, mas ficou bom) com algumas batatas.

Assim que terminamos, fomos direto para nossos quartos dormir. O céu ainda não estava escuro, porém queríamos muito descansar.

No quarto, eu tirei as almofadas da cama, puxei a colcha e deixei só os lençóis e os travesseiros. Procurei por alguma roupa mais confortável e me deitei. Não deu tempo de eu começar a devanear e eu já estava dormindo como uma pedra.

Acordei na manhã seguinte com batidas na minha porta. O sol estava entrando pela fresta da cortina do quarto e indo direto na minha testa. Estava muito forte, provavelmente já passara do meio dia.

Espreguicei-me sorrindo pela maravilhosa noite de sono depois de tanto tempo dormindo preocupada, triste e desconfortável. As batidas na porta continuavam até que eu permiti que Finn entrasse.

- Bom dia, Kiara. – Finn disse entrando no quarto sem fechar a porta. Não havia necessidade mesmo. Seu cabelo já estava espetado novamente e ele estava com uma expressão... Estranha.

- Bom dia! – Eu disse feliz me sentando e me encostando na cabeceira da cama – Está tudo bem?

Finn respirou fundo olhando à direita pelo canto de olho.

- Ontem quando subimos para dormir, eu fui procurar em outro quarto por roupas porque as do quarto que eu estou eu não gostei. A camisa tinha um corte que incomodava o meu ombro e eu não conseguia mexer meus braços direito, além de ter um detalhe horroroso na...

- Finn – eu interrompi. – Aonde você quer chegar? – Que conversa inútil sobre a roupa dele...

- No quarto, eu achei um porta-retratos. – a mão direita dele estava atrás de seu corpo o tempo todo e eu só havia reparado agora que ele a tirara com um porta-retratos. – E eu fiquei incomodado com o que eu vi e penso que talvez você queira mudar de casa.

Eu franzi o cenho. O que raios tinha naquele porta-retratos?!

Finn me passou o objeto, eu peguei em um segundo, tamanha era minha ansiedade para ver.

Olhei para a foto que continha no porta-retratos e arregalei os olhos. De tantas casa nesta ilha, nós fomos escolher justo esta? A foto era de uma família: pai, mãe, um filho e uma filha. Era mais do que óbvio para mim que aquele filho era o Zuko. Aproximei a foto dos meus olhos para olhá-lo melhor. Zuko não tinha mais que 6 anos naquela foto. Era estranho vê-lo sem a queimadura no olho direito.

Ao lado dele estava Azula. Tinha cara de má desde pequena. Menina do mal mesmo. Tinha o mesmo olhar cruel do pai, o Senhor do Fogo Ozai. Fiquei nervosa de encará-los por muito tempo. Parecia que ele ia jogar uma bola de fogo em cima de mim. Por último, a mãe de Zuko, a qual eu não sei o nome, estava com uma expressão suave, como a do filho. Estava na cara, literalmente, qual dos filhos puxou para a mãe e qual puxou para o pai.

Fiquei encarando a fotografia por alguns minutos até que lembrei que Finn estava no aposento. Ele estava me olhando com os olhos bem abertos e com cara de tonto.

- Para de fazer essa cara! – eu exclamei. Ele balançou a cabeça.

- Me desculpe se eu estou curioso para saber a sua reação – e voltou fazer a cara de tonto.

Eu entortei a boca.

- Não tenho o que dizer. E não precisamos sair. Aparentemente eles não frequentam mais esta casa. E já nos instalamos, então ficaremos aqui mesmo. – e estendi o porta-retratos para Finn com a intenção de devolvê-lo.

- Não quer ficar com ele?- Ele sugeriu inseguro.

- Por que eu ficaria com a fotografia da falsa família feliz do Zuko?

Finn deu de ombros.

- Pode te ajudar a refletir sobre o passado dele e entender suas atitudes.

Oi? O que foi isso? Uma defesa para o príncipe da Nação do Fogo?

- Você o está defendendo?

- Talvez. Mas pode ser que isso te ajude a... Superar.

Minhas sobrancelhas caíram e eu recolhi meu braço e encarei novamente a foto. Apesar de o pai e a irmã serem loucos, eles eram uma família. Será que chegaram a serem realmente felizes?

Finn levantou-se da cama e antes de sair do quarto, parou na porta e virou-se para mim.

- Você sabe de quem são estas roupas que você está usando, certo? – ele perguntou com uma sobrancelha levantada.

Parei para pensar. Roupa de mulher, quarto de solteiro...

- Da Azula! – eu exclamei arrepiada e empurrando os lençóis da cama com os pés.

- Cuidado! – Finn me alertou. – Deve estar impregnado de maldade! – deu uma risada maléfica e saiu.


Passamos vários dias na casa de praia de Zuko. Eu achei um pergaminho e tinta e comecei a anotar os dias que passamos lá. Haviam se passado 18 até então.

Pelas redondezas da casa havia árvores frutíferas e pequenos animais que podíamos caçar. Procuramos pela casa por qualquer tipo de dinheiro e encontramos muito pouco, portanto tínhamos que nos virar como sempre fizemos.

Aproveitávamos as "férias" para jogar, ir à praia, conversar e observar o mar do telhado. A visão era maravilhosa, era nossa atividade favorita, especialmente no pôr-do-sol.

Neste 18º dia enquanto observamos o mar esperando pelo pôr-do-sol, eu indaguei a Finn:

- O que nós vamos fazer?

- O que você quer dizer?

- Até quando ficaremos aqui sem fazer nada? Quero dizer, nós perdemos a batalha na invasão contra a Nação do Fogo. A guerra ainda não acabou.

- Eu sei. – Finn concordou encarando o mar.

- E nós vamos continuar nestas férias? – eu olhei para ele.

- Não cabe a nós salvar o mundo, Kiara. Pelo menos, não nós sozinhos. O que nós podemos fazer? – Finn me encarou de volta. – Não sabemos o que aconteceu com o Avatar no fim das contas e com os outros. Estamos livres, porém sozinhos. Somos inúteis.

Eu voltei a olhar o mar preocupada e insatisfeita com a resposta de Finn.

- Não me parece nada certo. Devíamos tentar ajudar, procurar por eles...

- Kiara, eu nem sei direito onde nós estamos. Não encontramos nenhum mapa e o povo está cada vez mais alienado na minha opinião.

Eu não retruquei. Ainda não me parecia certo. Finn suspirou.

- Eu estou andando pela cidade diariamente e não ouço nada sobre nada!

Entortei a boca.

- Acho que não podemos fazer muito mais mesmo,

- Eu sei que é difícil, mas não cabe a nós salvar o mundo.

Finn tinha razão. Apesar de eu querer, o que eu poderia fazer? Se eu estivesse com o Avatar, Katara, Sokka e Toph eu poderia ajudar, mas na Ilha Amber... Não sei como poderia ser útil.

- Você tem razão. Acho que devemos aproveitar mais nosso tempo de descanso então. Não vale a pena ficar me torturando. – eu disse e sacudi a cabeça como se me livrasse de um pensamento.

- Está vendo? Eu sempre tenho razão. – Finn bateu a palma de sua mão em minhas costas.

Eu ergui uma sobrancelha.

- Lá vem você transbordando humildade.

Ficamos mais um tempo olhando o mar em silêncio, pensamentos voando longe e depois voltando até que Finn começou:

- E quanto ao Zuko?

Assustei-me um pouco com a pergunta e olhei para ele.

- O que tem ele?

- Como você está quanto a ele? Já o superou? – Finn me encarou.

Eu desviei o olhar abracei as minhas pernas.

- Não. Mas tenho certeza que superarei logo ficando aqui, longe dele.

- Longe dele entre aspas, né. Estamos na casa dele, rodeados por coisas dele e de sua família. Tem certeza de que não quer mudar de lugar?

Finn me fazia esta pergunta quase todos os dias e minha resposta era sempre a mesma: não queria me mudar. Seria melhor para eu esquecer o Zuko se nós mudássemos, mas no fundo eu não queria. Eu gostava de entrar naquela casa e pensar que ele já esteve ali, já foi feliz em algum momento. Ai, desse jeito eu nunca o esqueceria.

- Tenho.

Finn balançou negativamente a cabeça.

- Você precisa esquecê-lo.

- Eu sei. – suspirei. – Só não consigo.

- Não se preocupe, eu te ajudarei! – ele disse, colocou as mãos na cintura e estufou o peito. – Farei você esquecê-lo em um segundo.

Eu sorri.

- Obrigada, Finn.

- Lembra-se do que eu e Ian te prometemos? Daqui vinte anos um de nós se casará com você. – ele riu.

- Ainda não me acostumei com essa ideia. – eu admiti.

- Mas você vai. – Finn segurou meus braçoz e me virou para ficar de frente para ele. Assustei com este movimento.

Finn ficou me encarando por alguns segundo e eu não sabia o que fazer a não ser encarar de volta, até que ele foi se aproximando de mim devagarzinho. O que raios ele estava planejando? Comecei a ficar cada vez mais nervosa, mas não me soltei e deixei-me levar. Ele foi chegando, chegando... Fechou os olhos e encostou seus lábios nos meus e eu fiz o mesmo.

Um segundo depois, dei um empurrão em Finn ao mesmo tempo em que quase cai do telhado pelo empurrão dele.

- Que nojo! – eu exclamei enquanto me ajeitava novamente esfregando meus lábios na minha blusa.

- Kiara do céu, nunca mais faça isso! – Finn exclamou e limpou os lábios e língua, só faltando enfiar a roupa na garganta.

- Foi culpa sua! E para de ser exagerado!

- Foi como beijar... Sei lá... Um inseto... – e estremeceu.

Achei ofensivo.

- Pode parar! Tenho certeza que fui a primeira menina que você beijou, pode admitir. – eu o provoquei.

- Claro que não!

- Ah, pode admitir! Fico feliz de ter sido a primeira, pelo menos foi com uma pessoa maravilhosa como eu! Mas você nunca mais faça isso.

Finn comprimiu os lábios, mas não respondeu, só disse:

- Eu sinto muito, mas não poderei casar com você. – e colocou a mão esquerda em meu ombro direito.

Fiz cara de triste.

- É uma pena... Seria sua única chance de casar com alguém.

Finn não pareceu se afetar tanto quanto antes.

- Tá engraçadinha, né? Mas eu aposto que você gostou.

- Com certeza, especialmente quando acabou, essa parte foi ótima. – Finn se limitou a mostrar a língua para mim.

- Eu fiquei feliz com o resultado desta experiência. Ainda bem que nós dois nos rejeitamos. – eu ri.

- É verdade. Acho que sempre te considerarei como uma irmã para mim. – Finn admitiu e me abraçou de lado.

Quanto amor, eu pensei, e retribuí o abraço. Eu estava de coração partido, mas estava feliz por ter alguém com quem eu podia contar para qualquer coisa.


Mais uma semana se passou e pouca coisa mudou na nossa nova rotina. Íamos menos ao centro procurar por notícias, já que não encontrávamos nada nunca e nem iríamos pelo jeito. Na Ilha Amber, pouco se falava sobre guerras, conflitos e Avatar.

Saímos algumas vezes para procurar por frutas e pequenos animais nos bosques ao redor, pois não tínhamos dinheiro para comprar nada. Fora o nosso novo teto, o restante estava na mesma. Treinávamos periodicamente para não perder o hábito, mas aproveitávamos muito mais a praia. Era realmente divertido.

Um dia, voltamos da praia acabados. Encontramos uma família de férias com dois adolescentes e conseguimos formar dois times para jogar bola. Normalmente era eu e Finn apenas, então foi muito bom encontrar mais gente, mas também cansamos cinco vezes mais.

Entramos na casa deixando pegadas de areia com água pela sala, cada um indo ao seu aposento para se preparar para um belo banho.

Entrei no quarto de Azula, temporariamente meu, e joguei a toalha que trazia comigo no chão. Torci meu cabelo em cima dela e depois o joguei para traz, molhando novamente minhas costas. Fui pouco esperta. Estava prendendo de qualquer jeito meu cabelo quanto a porta do meu quarto abriu e Finn entrou parecendo preocupado. Seu cabelo espetado parecia que foi lambido e várias gotículas de água caiam pelo seu rosto.

- Kiara! Fica em silêncio que eu ouvi vozes por perto.

Gelei. Nunca ninguém chegou perto desta casa desde que estávamos aqui.

- Você conseguiu ver? – pensei por um segundo e relaxei. – Ás vezes estão só de passagem, relaxa. – voltei a prender meu cabelo.

Neste momento ouvi um barulho que pareceu vir do andar de baixo. Um barulho de alguém abrindo a porta seguido por uma voz:

- Parece que a casa já está ocupada, olha as pegadas... – a voz foi abafada por um "shhh".

- Finn – eu comecei. – eu conheço essa voz. – saí correndo pela porta, na mesma hora que Finn sussurrou um "espere!". Dei a volta seguindo a sacada do segundo andar e me alegrei ao ver quem estava no andar de baixo. Cheguei ao topo da escada e gritei:

- Sokka! – e desci correndo – Katara! – cheguei até eles e os abracei forte. – Aang! Toph! Estou tão feliz em ver vocês! O que aconteceu? Onde estavam? Está tudo bem?

- Kiara, acalme-se! – Katara disse segurando minhas mãos. – Contaremos tudo a você. – ela e Sokka trocaram olhares nervosos. Reparei em uma garota que não conhecia. Era magra, tinha cabelos na altura dos ombros e parecia simpática.

- Desculpa, mas quem é você? – perguntei tomando o cuidado de não parecer grossa. Antes que pudesse responder, Sokka interveio:

- Esta é a Suki, minha namorada. – ele disse agarrando ela todo feliz. – Ela é uma guerreira Kyoshi! – Sokka estava tão orgulhoso de sua namorada.

- É um prazer conhece-la, Suki. – eu disse rindo de Sokka.

- Ah, que alívio que são vocês! – Finn surgiu do meu lado. – Ouvi barulhos e achei que eram invasores.

- Acho que os invasores aqui são vocês, queridinho. – Toph observou.

Eu sorri em graça.

- Acho que sim. - concordei.

- E vocês não são também? Como vieram parar aqui? – Finn perguntou deixando de rodeios.

Toph nada disse. Aang se afastou da roda e foi explorar a casa. Katara respondeu por fim:

- É que... Alguém se juntou ao nosso grupo. – ela explicou meio sem jeito.

- É... – Sokka concordou. – Mas ele é do bem! – ele sorriu e fez sinal de joia com a mão. Estranhei.

- Eu imagino que sim. – franzi o cenho.

- Não estou gostando nada disso. – Finn fechou a cara e cruzou os braços.

- Tá, e onde está o novo membro? Não podemos conhecê-lo? – perguntei.

Katara hesitou.

- Vocês já o conhecem.

- Mas ele é do bem! – Sokka reforçou, fazendo joia agora com as duas mãos.

- Eu não estou gostando mesmo disso. – Finn reforçou.

Acho que eu perdi uma parte da conversa e comecei a ficar intrigada.

- Ele deve estar lá fora... – Kara informou.

- Beleza, posso ir? Ou ele é tímido?

- Não! – Finn exclamou. - Me deixa ver primeiro. – e foi andando a passos pesados até a porta de entrada.

- Não! – Katara entrou na frente dele. – Melhor você ficar aqui.

Achei que Finn ia bater em Katara pela cara que fez e seu rosto estava ficando vermelho.

- Eu sabia! Me deixa passar. – ele exigiu, mas Sokka se juntou a Katara para bloquear a passagem.

- Kiara! Vai logo! – Sokka mandou.

Eu não estava entendendo o que estava acontecendo, mas obedeci e saí da casa para ver o misterioso novo membro do Time Avatar. Assim que cheguei à porta já o avistei. Um rapaz mais alto do que eu, de cabelos curtos e escuros e mesmo de costas eu o reconheci. Meu coração disparou e eu pensei que deveria ter arrumado melhor o meu cabelo. Toda a cena entre Finn, Sokka e Katara fizeram total sentido.

O rapaz virou-se apenas para confirmar o que eu já sabia e eu pude ver a queimadura no olho direito de Zuko. Ele me encarou sem dizer nada e senti meu coração que antes estava tão acelerado, parar.