Olha aqui, pra você que duvidou.

Capítulo Trinte e Um: Você tem um instinto bastante mercenário.

"Eu devo confessar que meu coração está em pedaços, e a minha cabeça uma bagunça. (...) E é você quem me faz enlouquecer com as coisas que faz. Mas se você for louco, eu não me importo, você me fascina." – Whistle for the Choir, da banda The Fratellis

BPOV

- Volta aqui! – gritei, sacudindo os braços no ar. – Quem você pensa que é para sair andando desse jeito, me deixando aqui, falando sozinha?

- Melhor do que você! – Edward gritou, num tom de voz alto, quase estridente.

- BABACA!

- Eu devo ser mesmo! Para pensar em te trazer flores, enquanto você fica se agarrando com esse infeliz NA ESQUINA, COMO SE FOSSE UMA QUALQUER!

Edward jogou as flores que segurava no chão, e me deu as costas novamente. Corri até ele.

- NÓS ESTÁVAMOS APENAS CONVERSANDO!

- Eu estou cansado!

Ele desabou no chão, os braços envolvendo os joelhos, o rosto se contorcendo, moldando uma feição triste, e lágrimas caíram de seus olhos. Me abaixei e sentei do seu lado, olhando para o chão, esperando que ele falasse.

- Você pode achar que as coisas são fáceis para mim, mas não são. – ele disse, depois de um longo período de silêncio.

- Eu entendo.

- Não, você não entende! Você tem braços, e pernas, e um corpo de verdade! Você pode sair daqui quando quiser, e ficar lá fora, e sentir o sol, e falar com pessoas reais! Você pode encontrar alguém real, você pode gostar dele, ficar com ele...

- Eu nunca deixaria você!

Ele levantou os olhos e olhos para mim com o olhar mais triste que conseguiu simular.

- Você não entende. Eu vivo com esse medo constante. Sempre terá alguém melhor. Alguém que pode te beijar, te tocar...

- Você também pode.

- Eu não posso! – ele gritou, de repente se levantando e atravessando o cenário numa velocidade inumana. – Eu sou a porcaria de um fantasma! Eu posso te trazer flores, mas e daí? Que futuro isso tem?

Amanda entrou em cena, abrindo a porta e me olhando como se eu fosse louca.

- Achei ter ouvido a sua voz... – ela disse, olhando para as flores no chão.

Olhei para Edward, que me olhou de volta com enormes olhos tristes. Ele virou de costas, e se enfiou dentro da porta que ilustrava meu closet, sumindo de cena.

- Eu esbarrei nesse vaso sem querer... – eu disse, apanhando as flores do chão, e colocando-as dentro do vaso agora vazio.

- E você ganhou elas do seu namorado misterioso? – Amanda perguntou, demonstrando empolgação.

Assenti, abrindo um sorriso triste.

- Mas ele está chateado comigo.

- O que aconteceu?

- Ele me viu conversando com o Carlos e interpretou de maneira errada.

- Uau, que ciumento!

- Ah, ele tem seus momentos...

- CORTA! – Eric gritou, de seu lugar na arquibancada. – Tem alguma coisa faltando nessa cena. Mário, conserte-a. Ou tire-a. Não faz sentido. Sinto falta de algo.

Mário ficou visivelmente desconfortável, enquanto virava páginas do roteiro, parecendo pensar no que fazer. Eric se levantou e se aproximou do palco, então começou a bater palmas, nos chamando.

- Venham todos, vamos finalizar.

Fizemos um círculo. Edward ficou ao meu lado, segurando a minha mão, nossos joelhos se encostando. Eu tive que me concentrar muito para não sorrir o tempo todo. Ele não se importou – estava sorrindo.

- Faltam dois meses para a estreia, pessoal. Vocês acham que estão fazendo um bom trabalho? – Eric perguntou.

Ninguém quis responder a essa pergunta – ninguém sabia qual era a resposta que Eric esperava. Ele era instável e imprevisível. Se num dia dizia que estávamos ótimos, no outro éramos péssimos. Bem que dizem que as pessoas do teatro são loucas.

- Vocês estão fazendo um trabalho maravilhoso! – ele elogiou. – Especialmente Edward. Admito que estou surpreso! Suas expressões faciais são dignas de prêmios.

Edward agradeceu, sorrindo, e todos nós batemos palmas para ele.

- E vocês dois – ele continuou, apontando para mim e para Edward, rindo, notando nossos dedos entrelaçados. – Estou satisfeito com a química entre vocês. E nada surpreso por ela não existir apenas no palco.

Ele piscou, e eu corei. Algumas pessoas riram, e aquele corinho de "uuuuuuh!" logo foi entoado.

- Mário, minha única preocupação é a última cena que fizemos. Amanda, você também estava fantástica. Todos estavam. Cristina e Cláudio, espero que a trilha sonora fique pronta logo, confio nos dois. Quanto ao cenário, estamos tendo alguns problemas porque temos poucas pessoas. Qualquer ajuda é bem-vinda, todos os dias depois da aula. Certo?

- Certo! – todos dissemos em uníssono.

- Ótimo. Então fechem os olhos. Quero que se imaginem no dia da estreia, com tudo lotado. Seus pais, amigos, primos, tios, professores... Todos estão assistindo. Vocês acreditam que podem dar o melhor de si?

Eu assenti. Acredito que todos assentimos.

- Ainda de olhos fechados, levante a mão quem se sente pouco preparado. Não quero que ninguém espie.

Silêncio. Mantive minha mão abaixada. Eu me sentia completamente pronta e segura naquele papel – tenho trabalhado muito nisso. Esperei muito tempo por isso. Não havia nem mesmo o sinal de insegurança. Também senti Edward imóvel ao meu lado, e isso me fez abrir um pequeno sorriso.

- Podem abaixar. Podem abrir os olhos.

Todos abrimos os olhos, focados em Eric.

- Não vamos ter tempo para meditar hoje, já passamos vinte minutos do horário, preciso liberar vocês. Sinto muito. Lembrem-se dos recados. Os ensaios desta semana estão encerrados hoje, então pensei em passar lição de casa.

- Ah, sério, Eric? – alguém choramingou.

- Sério. Quero que vocês se deem de presente algo que nunca fizeram antes. Algo novo, divertido, que talvez vocês sempre quiseram fazer, mas nunca tiveram coragem, ou algo que apenas surgir na sua mente. Por exemplo, eu sempre quis ir a um restaurante caro, e jantar descalço, mas eu nunca fiz isso, porque eu tenho medo de ser expulso. Vamos ver se consigo desta vez.

A visão de Eric descalço, jantando em um restaurante caro era cômica. Todos rimos.

- Riam enquanto podem. Quero fotos, vídeos, e o que mais vocês puderem me trazer. O teatro é sobre experimentar coisas novas. Espero que se divirtam. Estão dispensados.

Todos nos levantamos e fomos pegar nossas mochilas na coxia e arquibancadas. Edward não soltou a minha mão em nenhum momento, e colocou a minha mochila no ombro. Devo admitir que eu estava orgulhosa dele – e que eu me sentia feliz por tê-lo ali. Faz algum tempo que ele começou a frequentar as aulas – pelo menos as que tinha comigo. Estava sempre me esperando do lado de fora da sala de aula, no meu armário, sempre carregava meus livros, nunca soltava a minha mão e tinha sempre um sorriso satisfeito no rosto. Tudo aquilo fazia o meu coração bater mais forte. Muito mais forte. Era tão maravilhoso estar com alguém que demonstrava tanto orgulho e satisfação em estar com você. Era ótimo segurar a mão dele e andar por aí tipo "É, esse é o meu namorado".

- E aí, o que você pensa em fazer para essa tarefa do Eric? – Edward perguntou.

- Muitas coisas. – eu disse, enigmática, sorrindo.

- Garota misteriosa, gosto disso.

- Sei manter meu homem interessado. – brinquei.

- Você com certeza sabe. – ele disse, beijando meus lábios.

Abri meu armário, colocando os livros de História e Matemática dentro; hoje eu só iria precisar dos livros de Química e Física. Que divertido! Sinta meu tom sarcástico.

- Mas e você? – perguntei.

- Poucas coisas. – ele respondeu, piscando para mim.

Acabei rindo.

- É, acho que você deve ter uma lista bem extensa de coisas já feitas.

- Talvez. – ele deu de ombros.

- Garoto radical. – comentei.

- Você gosta disso?

Fiquei em silêncio. Eu gostava disso? Às vezes era legal que Edward fosse radical, rebelde, e não se importasse com quase nada. Era legal a naturalidade com a qual ele lidava com a maioria das coisas, e o quão extremo e intenso ele conseguia ser; mas às vezes... Eu não conseguia tirar o dia em que fomos para aquele lugar, com aquelas pessoas, aquele tipo de corrida, da cabeça. As coisas que ele me disse ainda ficavam girando pela minha cabeça e eu me perguntava o que era isso que às vezes voltava, porque não dava para fugir de tudo. O que era tão sério que transformou ele do meu bad boy irritantemente confiante, seguro de si e brincalhão, em um garoto assustado, traumatizado e com tanta necessidade de me ouvir dizer que o amava. E às vezes, quando estávamos sozinhos no quarto ou no carro dele, eu gostava muito de como ele fazia eu me sentir, meu corpo todo aceso; mas às vezes... Quando as mãos dele me tocavam com tanta naturalidade onde eu nunca tinha sido tocada antes, quando ele fazia alguma piada sobre sexo, quando estava perto o suficiente para me beijar, e só sorria, me provocando... Eu ficava pensando em quantas vezes ele já tinha feito aquilo com outra garota, se ela tinha se sentido tão bem quanto eu me sentia, se ele sentia o mesmo com nós duas, se era errado me sentir daquela forma, se ele era mesmo virgem, se tinham sido mesmo apenas duas garotas, e até onde ele já tinha ido com elas. Porque o meu coração se apertava sempre que ele agia como se tudo fosse normal demais, natural demais – porque, para mim, não era. Era a surpresa da primeira vez que ele me beijou, a primeira corrente elétrica que se espalhou pelo meu corpo quando ele me abraçou pela cintura, o primeiro choque de quando ele disse que me amava, a primeira vez que meu estômago se agitou porque ele segurou a minha mão, a primeira festa, a primeira confusão...

Ele apertou mais forte a minha mão e pigarreou, me desviando dos meus pensamentos.

- Às vezes eu queria que você se abrisse mais comigo. – ele disse.

Olhei para ele, que deu de ombros.

- Quando você fica pensando demais assim com pequenas coisas que eu digo ou faço, é como se fosse um gatilho para um turbilhão dentro de você, e eu não sei no que você pensa. Mas, pelo jeito que você reage, não deve ser bom.

- São coisas minhas. Dentro de mim. Minhas inseguranças. Não faz sentido falar. – expliquei.

- Eu gostaria muito de saber.

- Acho que agora não é nem a hora e nem o lugar certo para falar sobre isso.

- Tem razão. – ele sorriu. – Você quer estudar na biblioteca, ou lá em casa?

Abri um sorriso.

- Acho você uma gracinha, todo empolgado para estudar. – comentei.

- Na verdade eu fico todo empolgado para ficar com você, estudar é uma consequência. Que acontece de você tornar interessante.

- É, eu ouvi dizer que eu torno tudo interessante. Talvez eu comece a cobrar por isso.

Edward gargalhou, fechando meu armário e pegando minha mão novamente. Começamos a caminhar para o estacionamento.

- Você tem um instinto bastante mercenário.

- Se chama visão de mercado. E eu pensei que a gente poderia estudar lá em casa hoje.

- Na sua casa? Tem certeza?

Assenti.

- Meu pai não chega até às 20h, e a minha mãe foi visitar uma amiga que mora super longe.

- Isabella Marie Swan! Você está me chamando para a sua casa, quando os seus pais não estão? Olha, se eu não soubesse, acharia que você está me chamando para...

- Estudar, meu bem. – o cortei. – Pense com a cabeça de cima.

Edward riu, depois fingiu desaprovação e chacoalhou a cabeça, estalando a língua.

- Convidando o namorado para uma casa sem pais, e depois fazendo menção de seu órgão sexual. Isabella Swan, onde é que você vai parar?

Vish. Senti um clima meio pesado, mas depois ficou tudo bem, né? O que será que vai acontecer no próximo capítulo?