Areia, areia e mais areia.

Seu pai não a teria mandado para um lugar mais remoto se a tivesse enviado para a lua num foguete. E, se isso fosse possível, sem dúvida ele teria assinado o cheque, Bella pensou com amargura ao enfiar os pés descalços na areia do deserto e olhar a paisagem árida. Pensando bem, aquilo ali podia muito bem ser a lua. Ou marte, o planeta vermelho.

Por que um retiro em pleno deserto?

Por que não um agradável spa na Fifth Avenue?

— Bella?

Ao ouvir seu nome, Bella deu um gemido de desespero. Já? Mal amanhecera.

Virou-se relutante. Nada disso era culpa dele, lembrou a si mesma. Não seria justo descontar sua raiva e frustração nele.

— Madrugou, Bily ?

Ele estava vestido de modo simples, numa túnica branca que reluzia sob os primeiros raios-do-sol árabe.

— Eu medito antes de o sol raiar.

Bella conteve um bocejo.

— Prefiro começar o dia com um café forte.

— Pode começá-lo melhor apreciando o que está em torno de você — o velho senhor murmurou. — Nada mais tranquilizador do que um nascer do sol no deserto. Não acha a paz relaxante?

— Honestamente? Está começando a me deixar maluca.

Bella procurou seu telefone e então lembrou que fora confiscado, assim como todo o resto necessário para se comunicar com o mundo exterior. Bateu na própria coxa num gesto de impaciência e olhou insatisfeita para suas unhas. Entre um café e uma manicure, escolheria a segunda opção.

— É o dono desse lugar?

— Só estou de passagem. Quando estiver pronto, continuo meu caminho.

— Eu teria ido embora depois de dois minutos, se pudesse! Estou aqui há duas semanas e parece uma prisão perpétua.

Como seu pai pudera lhe fazer isso? Graças a ele, ficara isolada de todos. Justo quando precisava desesperadamente de apoio.

A descoberta chocante que tivera há apenas duas semanas a deixara arrasada. A pessoa que era antes daquela noite desaparecera para sempre. Assim como as certezas ingênuas que nutrira durante sua vida.

Ficou cheia de arrependimento.

Não devia ter olhado, Bella.

Como Pandora, ela abrira a caixa e agora pagava o preço.

— Você deixa que a emoção se apodere de você como um falcão se apodera de sua presa. — Bily a olhava com a mesma expressão tranquila que adotava quando tinham suas sessões. — Está com raiva, mas seu pai a mandou para cá para o seu bem.

— Ele me mandou para cá como castigo por eu tê-lo envergonhado. — Bella abraçou o próprio corpo e se perguntou como podia sentir frio em um lugar tão quente. — Envergonhei a família inteira. Desonrei o sobrenome Balfour. Novamente. — Mas ninguém pensou no que tudo isso causara a ela. E o fato de ninguém ter considerado seus sentimentos aumentou sua sensação de abandono.

Ao lembrar de tudo o que acontecera no baile Swan, Bella sentiu um nó na garganta. Queria saber como sua irmã Angela estava se sentindo. Queria consertar as coisas.

Se comportara mal, sabia disso. Mas fora provocada. E Angela também havia dito umas coisas...

— Pode me devolver meu telefone só para eu enviar uma mensagem? — Subitamente, ficara desesperada para contatar sua irmã gêmea. — Ou usar seu computador? Não vejo meus e-mails duas semanas.

— Não dá, Bella.

— Vou enlouquecer, Bily! Areia e silêncio são uma combinação terrível. — Olhou ao redor desesperada e fixou a atenção em umas construções baixas tratadas com cal na qual reparara no começo da semana. — E aqueles estábulos lá? Posso pelo menos sair para cavalgar? Só por uma hora.

— Eles não pertencem ao retiro. São propriedade particular.

— Lugar estranho para se ter cavalos. — Bella observou os guardas de pé na entrada. Por que um estábulo precisaria de guardas?

— Se não posso pegar um cavalo, pode me dar meu iPod? Acho mais fácil relaxar com música.

— Silêncio é ouro.

— Por aqui, tudo é ouro. — Frustrada, Bella olhou para as areias ondulantes e teve uma ideia. Uma ideia maluca. — Fale-me sobre a cidade pela qual passamos na vinda para cá.

— Al-Rafid é governada por um sheik, e famosa por sua riqueza cultural.

— Tem petróleo? — Ela queria fazer a conversa parecer casual, mas o que realmente queria perguntar era qual a distância até lá e se tinham banda larga de alta velocidade.

— Uma imensa reserva de petróleo, mas o sheik é um negociante astuto; transformou o que era uma antiga cidade do deserto em um centro internacional de comércio. Os prédios à beira-mar são tão modernos quanto os de Manhattan ou Canary Wharf, mas a apenas algumas ruas depois fica a cidade antiga com vários exemplos maravilhosos da arquitetura persa. O palácio Al-Rafid é o mais deslumbrante deles, mas raramente é aberto ao público por ser a residência do sheik Edward e sua família.

— Sorte a dele de morar na cidade. Com certeza ele também odeia areia.

— Pelo contrário, o sheik Edward adora o deserto, mas é um homem instruído e brilhante que incorporou com sucesso uma mentalidade progressista nos negócios à administração de um país muito tradicional. Mas nunca esqueceu suas raízes. Todo ano, ele se permite passar uma semana sozinho no deserto. Para refletir. É um homem poderoso, alguns diriam impiedoso, mas também profundamente consciente de suas responsabilidades.

Responsabilidade...

Não fora essa palavra que seu pai lhe dissera antes de exilá-la? Bella se remexeu incomodada, tentando aliviar o peso em sua consciência.

— Esse sheik... Tem oito esposas e uma centena de filhos ?

— Vossa Alteza ainda não escolheu uma esposa. Sua história familiar é complicada.

— Comparada a minha deve ser bem simples.

— A mãe dele era uma princesa muito amada por todos. Infelizmente, morreu quando ele era bebê.

— Morreu? — Bella sentiu como se tivesse sido atingida no peito. Ele perdera a mãe quando criança, como ela. Quis saber mais sobre o sheik impiedoso, esquecendo que seu objetivo inicial era descobrir a distância até a civilização. — O pai dele se casou de novo?

— Sim. Mas, tragicamente, seu pai e sua madrasta morreram num acidente quando Vossa alteza era adolescente.

Então ele perdera duas mães.

Bella observava o sol nascente atear fogo nas dunas, mudando as cores de vermelho desbotado para dourado brilhante. Sentiu uma misteriosa afinidade com o sheik, que estava em algum lugar para além daquelas montanhas desoladoras de areia. Será que pensava na mãe que nunca conhecera? Ele teria descoberto coisas sobre ela que era melhor que tivessem sido deixadas em segredo?

Teria a cabeça tão cheia de dúvidas quanto a dela?

Bella enfiou as mãos nos bolsos de sua calça de algodão e pensou que era inútil se lamentar. O passado não podia ser mudado. Em todas as horas de meditação forçada, havia um tópico que evitava.

Sua mãe.

Um dia teria que pensar sobre isso, mas agora ainda era muito doloroso.

— Então, esse sheik... — Tirou os cabelos da frente dos olhos e fez uma careta por sua textura, sonhando com uma hidratação e um secador. — Devia ser bem jovem quando assumiu o poder.

— Dezoito anos. Mas foi educado para governar.

— Pobre homem. Deve ter tido uma infância dura. Mas todo esse petróleo significa que é rico. Então, por que não se casou? Deve ser velho e feio, não pode nem comprar uma esposa.

— Vossa Alteza tem 30 e poucos anos e é considerado extremamente bonito.

— Então, o que há de errado com ele? — Bella observava um lagarto passar correndo pela areia.

— Algum dia ele vai se casar com uma pessoa adequada, mas acho que não tem pressa.

— E quem pode culpá-lo? Casamento pode ser um pesadelo. Meu pai se casou três vezes. É um adepto do "tente sempre". Sua perseverança é digna de admiração. É fascinante ficar como espectadora.

— Seu pai teve três casamentos?

— Dá para pensar que ele ficou bom nisso, não dá? — Bella tirou a areia de seus braços, imaginando se podia considerar aquilo uma exfoliação. — Ele já tem bastante experiência.

— Não deve se prender à raiva, Bella. Você é muito passional.

— Essa sou eu — disse, num tom displicente. — Passional demais. Tudo demais. Tente ter irmãs, meio-irmãs, três mães e um pai como o meu e vai entender por que não tenho sua calma. Nada dá mais nos nervos que família. Exceto, talvez, ficar sem telefone e iPod ao mesmo tempo.

— É quando a vida é mais difícil que devemos buscar a paz interior. A capacidade de refletir tranquilamente pode ser um oásis na tempestade da vida.

— Eu não recusaria uns dias no oásis — Bella disse, desconcertada pelas palavras dele. A verdade era que invejava sua calma, mas não tinha ideia de como alcançá-la. — Palmeiras, água para se banhar. Não tenho nenhum problema com areia, contanto que a olhe de cima de minha espreguiçadeira com uma marguerita na mão.

Ele balançou a cabeça.

— Vou deixá-la refletir, Bella. Te vejo às nove para a ioga.

— Ioga. Uau! Essa excitação pode me matar. — Bella estava sem expressão, mas, enquanto o observava voltar para as tendas, fervia por dentro.

Chega de meditação.

Chega de deserto.

Iria achar as chaves de um jipe e sair dali, mesmo que precisasse amarrar alguém em uma tenda.

Estava para voltar para o retiro e procurar transporte, quando viu que os guardas desapareceram da entrada dos estábulos. A cabeça de Bella disparou enquanto reformulava seus planos. Ninguém a conhecia nos estábulos, conhecia? Se agisse com confiança, eles podiam até pensar que trabalhava ali.

Fantasiando sobre atravessar o deserto num caminhão transportador de cavalos, ela passou por uma placa que dizia "Entrada proibida" e andou por um caminho de areia que levava ao estábulo. Uma fonte jorrava água no meio do pátio deserto e só então Bella percebeu como o estábulo era luxuoso e enorme.

O dono desse lugar deve ser podre de rico. Olhou por cima do ombro para ver se alguém a notara, mas o estábulo parecia deserto. Nem guardas, nem ninguém.

Estranho. Onde estaria todo mundo?

Sabia que estábulos eram lugares movimentados.

Um cavalo colocou a cabeça para fora do estábulo e relinchou para ela.

Bella foi até ele.

— Pelo menos, tem alguém aqui. Oi, belezura — ela disse, passando a mão em seu pescoço sedoso. — Como foi sua manhã? Meditou? Ficou em posição de lótus? Tomou chá de ervas?

O cavalo arfou suavemente em seu pescoço e Bella sentiu-se bem como não se sentia há semanas.

— Quer vir dormir na minha tenda? — Ela beijou seu focinho e acariciou a égua. O cheiro familiar de feno e cavalos a acalmou de um modo que a meditação não conseguira. Olhando através da porta, conferiu a qualidade do animal.

— Você é mesmo uma beleza. Um puro-sangue árabe. Por que alguém deixaria um cavalo tão especial quanto você escondido aqui?

A égua lhe deu uma focinhada e Bella quase perdeu o equilíbrio.

— Está farta de ficar presa aqui, não é? Sei como é. Onde estão todos? Por que está sozinha aqui?

O lugar estava assustadoramente deserto, e Bella olhou ao redor incomodada, tentando afastar a sensação de que algo estava muito errado, que algo ruim estava para acontecer.

— Oh, pelo amor de Deus... — Irritada consigo mesma, virou-se para a égua. — Estou há tanto tempo nesse lugar entediante que começo a imaginar coisas. Se há algo que aprendi nessas duas semanas é que nunca acontece nada aqui.

O cavalo se agitou em seu box e Bella lhe deu um murmúrio de solidariedade, compartilhando sua inquietação. Teve vontade de montar nela e cavalgar até que seus pensamentos ficassem bem para trás.

E, por que não? Por que pegar um jipe quando podia cavalgar até a cidade?

Não podia ser muito longe dali. Lembrava-se vagamente do caminho. Uma vez lá, poderia mandar que devolvessem o cavalo, com seus agradecimentos.

Com sorte, Bily ficaria com tanta raiva que se recusaria a aceitá-la de volta.

Vou ser banida, Bella pensou alegremente, abrindo a porta do box e entrando. Bella malvada.

—As pessoas sempre pensam o pior de mim, e detesto desapontá-las. Pobre Bily, vai ter que cavar bem fundo para reencontrar sua paz interior — disse à égua enquanto a desamarrava. — Estou prestes a criar uma turbulência no carma dele. É melhor que ele aperte seu cinto de segurança.

— Se quer passar uma semana sozinho no deserto, deixe pelo menos que os guardas o acompanhem, Edward.

— Se os guardas me acompanharem, não estarei sozinho — Edward observou secamente. — É a semana de minha vida em que posso ser um homem, não um governante. Deixo você em meu lugar, Emmet.

Seu irmão mais novo empalideceu, claramente assustado com a responsabilidade.

— Não pode adiar sua viagem? As negociações de petróleo estão num ponto crucial. Estão à espera de uma oferta mais baixa.

— Vão se desapontar.

— Vai mesmo partir no auge das negociações? É a pior hora.

Edward deu um sorriso frio.

— Pelo contrário, é a melhor hora, Emmet.

— E se eles desistirem?

— Não vão.

— Como pode ter certeza? Como sempre sabe o que fazer? — Enquanto iam em direção ao estábulo, seu irmão lhe deu um olhar de inveja. — Queria ser impenetrável como você. Nunca revela suas emoções.

Ouvindo o relincho irritado de um garanhão, Edward foi determinado em sua direção.

— Não se pode dizer o mesmo sobre meu cavalo, que parece estar demonstrando livremente suas emoções.

— Todos no estábulo têm medo dele.

Edward observava seu mestre de cavalos conduzir o garanhão meio selvagem até o pátio.

— Parece que Batal precisa de um descanso tanto quanto eu. — Sem hesitar, caminhou até o cavalo, e seu irmão o seguiu a uma distância segura.

— Nunca se preocupa? — Emmet soltou aquelas palavras como se estivessem presas há dias. —Algum dia já se sentiu como eu?

Edward refletiu sobre a pergunta, com um leve sorriso triste no rosto. Podia ter dito a seu irmão que sua infância não passara de um rigoroso treinamento para imbuí-lo do senso de dever.

— Autoconfiança vem com a experiência. Tive muita experiência. — Com essa resposta econômica, observou Batal escavar o chão com as narinas infladas. — Solte-o. — Quando os empregados suados do estábulo saíram do caminho, ele colocou a mão no pescoço do animal, e ele se acalmou.

— Cavalos e mulheres. — Emmet fez uma careta de admiração. — Como faz isso?

Edward ignorou a pergunta, montando no cavalo com uma facilidade atlética.

— Volto em cinco dias. — Puxou as rédeas com força para imobilizar o garanhão indócil. — É sua oportunidade de ganhar experiência. Não a desperdice. E tente não começar uma guerra.

Sem dar tempo a seu irmão de responder, Edward deixou o cavalo impaciente dar um salto para frente, sem se incomodar em controlá-lo quando ele se lançou através do portão aberto do palácio em direção ao deserto. O animal deu dois pinotes, mas Edward não se mexeu na sela e o garanhão sossegou, como se tivesse encontrado seu companheiro ideal de viagem.

— Está tão impaciente quanto eu para deixar a cidade — Edward murmurou, deleitando-se com a adrenalina proveniente do súbito aumento de velocidade.

O deserto se abria diante dele, um refúgio para as opressivas tarefas do governo e das pressões de cuidar de seus irmãos e irmãs, cujas necessidades pareciam ficar mais complicadas à medida que cresciam. Como seu guardião, o peso que sentia pela responsabilidade por eles era equivalente ao de governar o país.

Após longos 11 meses de dever, estava pronto para deixar tudo para trás e entregar-se à solidão anual que tanto merecia. Sem problemas. Sem pressões. Só o deserto e sua própria companhia.

Perdida.

Sede, calor, areia, sede, calor, areia...

Já não devia ter chegado lá? Cavalgava há horas e a paisagem era a mesma.

O que a fizera pensar que conseguiria encontrar o caminho?

Sua boca estava mais seca que o deserto. Sua cabeça latejava e os olhos ardiam. Bella olhou para a propagação de calor que parecia fazer a paisagem se mover. Tudo o que queria era um oásis com água fresca e palmeiras, um generoso casulo de sombra. Mas não havia nada além de areia, calor e a sede desesperadora que aumentava a cada minuto.

Sua boca estava tão seca que aceitaria de bom grado até uma infusão de ervas.

Parou de guiar o cavalo e mal tinha consciência de que ele continuava seu caminho com determinação.

— Desculpe — ela gemeu, enterrando seu rosto na crina da égua.

—Não ligo para mim, mas sinto muito por ter feito isso com você. Por que não é equipada com GPS? Pare. É inútil. Melhor desistirmos.

O cavalo deu uma fungada desaprovadora e continuou a andar. Bella estava exausta demais para reagir.

Ela iria morrer...

Seu corpo ficaria enterrado sob a areia e seria descoberto séculos depois por arqueólogos.

Apesar de seu estado de desidratação e tontura, um título lhe veio àcabeça: A perversa Bella Swan desaparece de retiro no deserto.

Talvez pensassem que se afogara em chá de ervas.

Talvez nem ligassem.

Deu um débil gemido e tentou dizer algo ao cavalo, mas sua boca estava tão seca que era difícil falar. Sua cabeça doía tanto que parecia que alguém a golpeara com um machado, e sua visão ficou turva. - A última coisa que viu antes de escorregar do cavalo foi uma sombra ameaçadora surgir na névoa dourada.

A morte, ela pensou, antes de tombar inconsciente na areia.