Capitulo novo...Aproveitem.

Vocês repararam que no capitulo anterior a Bella mentiu sobre o nome dela?! Ela é danadinha.

Talvez saia mais um hoje, só depende de vocês!


Edward tirou a mão de seus lábios, lutando contra a tentação de substituí-la por sua boca.

— Essas são as opções. Escolha uma.

Ele sentiu raiva, mas de sua própria fraqueza.

Apesar de seu estado, ela era mais atraente do que qualquer mulher que já conhecera. Sabia seduzir, e ele se irritava por ser suscetível ao seu flerte experiente.

O rígido autocontrole e a disciplina de que se orgulhava de repente pareciam frágeis. Era como entrar numa batalha e descobrir que seu exército era feito de papel.

Talvez, pensou contrariado, nunca tivesse sido realmente testado.

Era sobre isso que essa semana de reflexão seria? Sua própria fraqueza?

Iria descobrir que, no final das contas, era igual ao seu pai?

Suas suspeitas iniciais de que ela fazia parte da conspiração para roubar seu cavalo foram eliminadas pela explicação dela. Incomodava-o ter que admitir que devia ser grato a ela por ter evitado inadvertidamente um crime sério. Ao pegar Amira "emprestada", ela impedira o sequestro por uma questão de minutos. Deu um sorriso amargo ao pensar na reação dos criminosos. Deviam ter ficado desorientados ao perceber que alguém já fizera o trabalho por eles.

Estava determinado a manter sua preciosa égua a salvo até voltar para a cidade.

O que significava manter a garota também.

Edward observava as várias emoções que passavam por seu belo rosto.

Mesmo com areia em seu cabelo castanho avermelhado, ela estava magnífica. Fazia-o lembrar-se da princesa de um dos contos de fadas que lia para seus irmãos. Só era menos dócil. Uma princesa voluntariosa. Agora que ele frustrara seus planos de fugir do deserto, podia vê-la lutando para controlar sua raiva. Ela era passional, e ele se perguntava no que estaria pensando.

Ela o olhou.

— Não vai me amolar, vai?

Acostumado a ser respeitado, Edward estava surpreendido com sua falta de deferência.

— Geralmente, as pessoas é que se incomodam por mim — respondeu com suavidade. — É assim que funciona.

— Você diz "pule" e elas perguntam "de que altura"?

— Algo assim.

Ela inclinou a cabeça e o estudou com perfeitos olhos castanhos que, sem dúvida, haviam sido feitos para deixar os homens a seus pés.

— Se é como espera que as pessoas se comportem, não vai querer que eu fique. Honestamente, não sou boa em obedecer. Foi por isso que fui banida para o meio do deserto. Vou enlouquecê-lo se me fizer ficar.

Edward quase gargalhou.

Ela já o estava deixando doido, mas ele não tinha intenção de demonstrar.

— Parece ansiosa para conhecer uma cela de prisão.

Ela ficou vermelha.

— Olha, sei que foi errado pegar o cavalo, tá? Mas...

— Não por pegar o cavalo. — Relutante em lhe revelar que estava grato por isso, Edward foi cauteloso. — Por falar comigo de forma tão desrespeitosa.

— Pelo menos, na prisão tem café, o que já é melhor que no retiro — ela retrucou, recuperando seu humor. — Álcool é proibido. Só dá para ficar alto com chá herbal. — Ela estudou a reação dele e então revirou os olhos. — Prefiro você quando ri. Deveria rir mais. — Tensa, ela andou até o outro lado da tenda. — Como devo chamá-lo, então?

— Vossa alteza.

— Uau! E devo fazer tudo o que diz, Vossa Alteza? — Seu sorriso debochado desafiou o já abalado autocontrole dele. — Então sou sua escrava, certo? Desculpe, devia ter dito, certo, Vossa Alteza?

Edward teve uma visão perturbadora daquela morena petulante usando véus e com os pulsos e tornozelos amarrados, esperando para receber prazer dele.

— Não havia cogitado essa opção, mas vou tê-la em mente.

Sua resposta pareceu perturbá-la. O brilho perigoso em seus olhos quase fez Edward repensar seu ultimato.

Era a mulher mais tentadora que já conhecera.

—Vamos ficar muito bem juntos — ele disse num tom calmo. — Contanto que obedeça algumas regras.

— Quais? — Ela tirou o cabelo da frente dos olhos num inconsciente gesto gracioso. — Só preciso fazer tudo o que disser, Vossa Alteza?

—Sim. — Ele a viu se balançar levemente e se lembrou de que estivera exposta ao sol por muito tempo. Devia estar péssima, mas, mesmo assim, não demonstrava. Era impossível não admirar isso. — Ainda está desidratada. Beba algo.

—Pode ser um sheik, mas poderia parar de dar ordens? Isso desperta meu pior lado. — Mas ela se recostou e pegou o copo. Sua mão tremia ao beber. — Sinto-me suja. Meu cabelo está cheio de areia. Há algum banheiro aqui?

Por algum motivo, ele considerava seu senso de humor tão perturbador quanto seu charme. As pessoas geralmente eram formais e afetadas perto dele. Não faziam piadas.

—Tem. Fora da tenda. É um oásis. Com um lago.

—Espero que tenha um bar servindo drinques gelados e um vestiário, ou vou ter que me despir em público?

—Sou a única pessoa aqui.

—Bem... Nesse caso, nada de espiar. E os animais que mencionou antes? Vou ser devorada no banho?

Ele se conteve para não admitir que provavelmente era a criatura mais perigosa por ali.

—Duvido que vá ser devorada.

—Ótimo, não estou com vontade de ser o jantar de um camelo faminto.

—Camelos são herbívoros.

Ela levantou as mãos para ele com um brilho travesso nos olhos.

Não fale em ervas. Depois de uma semana no retiro, nunca mais quero ouvir falar em ervas. Não quero comê-las nem bebê-las. — Formaram-se covinhas em seu rosto ao abrir um sorriso que parecia o sol saindo de trás de uma nuvem. — Se tiver erva na palavra, não conte comigo. Imagino que seja inútil perguntar se tem roupas sobressalentes. Espelho? Secador de cabelo?

— Lave suas roupas no oásis. — Estava irritado pelo modo como aquele sorriso o afetara. — Vão secar rápido se as puser sobre uma rocha.

— E, nesse meio tempo, devo andar nua por aí?

— Use uma túnica. — Faria bem para sua sanidade cobri-la dos pés à cabeça, Edward pensou. A mera menção à palavra nua o fazia pensar em se jogar na água do oásis para esfriar sua libido. — E fique longe do sol.

Bella afundou na superfície parada da água. Sua pele ardia pela exposição ao sol. Sentia-se quente, imunda e feia, mas agora sentia-se melhor, e era um alívio lavar a areia que parecia estar grudada em toda sua pele. Não havia espelho na tenda, mas a indiferença do sheik lhe dissera tudo de que precisava saber.

Claramente, estava horrorosa. Como um monstro alienígena de areia. Se estivesse pensando direito, teria se banhado no lago antes de tentar convencê-lo a levá-la para a cidade.

Ainda sem conseguir acreditar que ficaria ali com ele, olhou para a enorme tenda branca.

Onde ele estaria? Meditando?

Bella franziu a testa ao olhar seu reflexo na água. Não, um homem com aqueles músculos tinha que fazer algo mais físico do que meditar.

Estaria a observando?

Tal pensamento lhe causou um arrepio. Ela afundou novamente e fez de tudo para remover a areia dos cabelos, trabalhando minuciosamente nele.

— Nunca mais deixo de levar xampu.

Apesar de seu desapontamento por não estar de volta à cidade, tinha que admitir que o lago era bonito. À sombra das palmeiras, a superfície tranquila da água refletia o céu azul, e atrás das palmeiras erguiam-se abruptamente as dunas, que ganhavam um tom rosa-alaranjado com sol do final do dia.

Não era a cidade, mas era melhor do que estar presa no retiro. Melhor do que meditar, contemplar, ou seja lá o que fosse, Bella pensou enquanto acabava de limpar os cabelos. E então deitou-se de costas. Ao boiar olhando para o céu, sentiu-se excepcionalmente tranquila.

Na verdade, toda aquela situação era surpreendentemente relaxante.

O sheik não fazia ideia de quem ela era. Não sabia nada sobre o escândalo Swan. Era provável que nunca tivesse ouvido falar dos Swan.

O que lhe convinha.

Embora tivesse odiado o retiro, Bella sabia que não podia ir para casa.

Ir para casa para quê?

Não a queriam lá.

Transformara suas vidas numa confusão.

Com lágrimas nos olhos, Bella afundou a cabeça na água, sentindo-se sozinha como nunca.

Sentiu um movimento na água e voltou à superfície, percebendo que não estava sozinha como pensava.

O garanhão do sheik estava à beira do oásis bebendo água.

— Olá. — Bella admirava os músculos poderosos de seu pescoço e pernas. — É mesmo tão perigoso quanto ele diz? Não parece.

Ao ouvir sua voz, o cavalo recuou, mostrando a parte branca dos olhos enquanto dava patadas no ar.

—Tudo bem, entendi a mensagem — Bella disse com ironia. — Você éperigoso. E mal-humorado como seu dono. Acalme-se. Sou Inofensiva. — Nadou até mais perto e tirou o cabelo molhado dos olhos. — O que mais sabe fazer? Algum outro truque?

O cavalo esticou as orelhas para frente e a olhou desconfiado.

Bella ia esticar a mão para tocá-lo, quando uma voz masculina a impediu.

—Não toque nele, é muito imprevisível. Pode machucá-la.

Bella congelou, mas o súbito tremor de suas pernas não foi por modo do cavalo.

—Estava me olhando?

—Estava olhando o lago. Como parece ter uma propensão espantosa para atrair problema, achei que seria o melhor meio de mantê-la viva.

— Não sou responsabilidade sua.

— Eu sei. Mas, se morrer aqui no deserto, vou ter que levar seu corpo para a cidade. E isso não faz parte dos meus planos.

— Oh, obrigada! — Com um tom sarcástico, Bella foi até o raso, esquecendo que estava nua da cintura para cima.

Ela o ouviu respirar fundo e olhar para seu corpo com um inegável interesse.

Bella resistiu ao inexplicável impulso de cobrir-se.

— Pare de olhar.

— Se não quisesse que eu olhasse, não teria tirado a roupa.

— Só tenho essa — disse com sarcasmo. — Ou fico nua na água, ou nua a noite inteira. Escolha.

— Não tem nenhum pudor.

— Se não gosta, não olhe, Vossa Alteza.

Mas ela viu o brilho de admiração em seus olhos ao conferir, relutante, suas curvas. A relutância significava que a emoção que sentia era mais poderosa do que ele gostaria. E não havia nada que desse mais autoconfiança que um homem lhe desejar a contragosto. Faminta por afeto, profundamente abalada pela rejeição de sua família, Bella adorou aquela admiração.

Saiu da água e torceu os cabelos, sem se importar em se cobrir. Embora não olhasse para o sheik, estava muito consciente dele ao estender a mão para o garanhão.

Podia sentir que a olhava.

— Precisa se acalmar. Não tem por que ser todo macho e dominador. Sei que é mais forte do que eu — falou com o animal em voz baixa, e ele soprou pelas narinas, observando-a.

Ele se empinou num movimento rápido e, num instante, o sheik estava entre ela e o cavalo. Controlou o garanhão com um comando brusco e puxou Bella de volta para a tenda pelo pulso.

— É a mulher mais provocadora, voluntariosa, teimosa...

— Irresponsável, inconsequente, egoísta — Bella acrescentou. Ele deu um grunhido e a puxou de encontro ao seu corpo rígido.

Sem hesitar nem avisar, ele a calou com sua boca, e ela sentiu aquelas mãos fortes deslizarem em suas costas nuas, mantendo-a presa. Sua pele molhada queimava sob os dedos dele, e o desejo consumiu-lhe o corpo como um animal voraz.

Enquanto ele a beijava apaixonadamente, tudo o que ela sentia era calor. O calor da língua dele, o da tenda, e o calor abrasador que percorria seu corpo.

Nunca sentira nada assim.

Nem imaginara...

E então ele a soltou, afastando-a dele como se estivesse infectada.

Sem apoio, Bella se balançou, tonta e desorientada por seu beijo e se perguntando por que ele parara algo tão bom.

Até então, se alguém tivesse perguntado se já fora beijada, diria que sim. Só agora percebia que era mentira.

Nunca fora beijada.

Não assim.

Tudo o que acontecera antes fora uma pálida imitação da realidade.

Onde ele aprendera a beijar assim?

—Cubra-se! — Ele ficou de costas para ela e Bella olhava para seus ombros largos imaginando por que estaria tão furioso. Ela estava sentindo milhares de emoções, menos raiva.

Mas ela não discutiu; pegou a túnica branca que ele deixara sobre a cama e a enfiou pela cabeça. Ia até o chão, e ela fez uma careta.

—Ótimo. Bem fashion. Tem uma tesoura? Como vou conseguir andar assim? — Ficou surpresa por sua voz soar normal, pois, por dentro, não se sentia nada normal. Aquele beijo a fez sentir-se como se tivesse sido sacudida numa coqueteleira.

Ele se virou depressa, com ar de briga, e lhe deu uma olhada. Sem dizer nada, pegou o punhal e andou em sua direção.

Assustada, Bella deu um passo involuntário para trás.

—Não é necessário. Oh... — Ficou surpresa ao vê-lo abaixá-lo e cortar o tecido excedente com dois golpes abruptos. Agora a túnica ia até acima dos tornozelos, e Bella olhou para seu cabelo acobreado com o coração batendo forte.

—Então a lâmina não é ornamental — ela balbuciou.

Ele se levantou num movimento flexível, com olhos ameaçadores.

—Não. — Ele a guardou de volta na túnica.

— Por que carrega uma faca?

Sem responder, ele saiu da tenda. Ela ficou olhando sem entender o que fizera de errado.

Ele a beijara, não foi? Não podia culpá-la por isso.

Irritada com essa injustiça, Bella sentou-se na cama, tocando os próprios lábios. Estavam tão ressecados que deveria ter sido como beijar uma lixa.

Sentindo-se mais vulnerável do que gostaria de admitir, passou os dedos pelos cabelos já quase secos, desejando poder melhorar sua aparência.

Devia haver algo que pudesse usar para se olhar.

Típico, ela pensou. Conhecera o homem dos seus sonhos e não tinha espelho nem sapatos decentes.

Não admirava que ele tivesse saído correndo da tenda. Provavelmente preferia olhar para seu cavalo.

O orgulho ferido de Bella a fez relutar em sair da tenda, mas sua natureza inquieta tornava impossível que ficasse quieta por muito tempo. E não conseguia acreditar que ele lhe virara as costas.

Estava acostumada a evitar os homens, não correr atrás deles.

Dizendo a si mesma que, se ele não a olhasse, poderia andar em outra direção, Bella saiu da tenda.

Sua cabeça latejava cada vez mais, mas era orgulhosa demais para perguntar se ele tinha algum comprimido.

— Preparei chá para você. — A voz dele estava a poucos metros de distância. Ela virou-se para olhá-lo e viu que ele havia feito uma fogueira.

— Se for herbal, vou matar você.

Bella esfregou os próprios braços, se perguntando como era possível sentir frio no deserto.

— Não tem nada mais interessante para beber? Champanhe? Ele não riu.

— É chá beduíno.

— O que é chá beduíno?

Ainda zangada com ele, ela ajoelhou-se no tapete que ele colocara sobre a areia, decidida a não demonstrar o quanto se sentia mal.

— É feito de folhas de chá, açúcar e ervas do deserto. — Ele verteu o líquido escuro em uma caneca e lhe entregou. — Tem um sabor muito característico. Prove.

— Bebi mais chá nas últimas duas semanas do que em toda a minha vida. — Bella cheirou o chá cautelosamente, deu um gole e torceu o nariz. — Tem um gosto... diferente. Não imaginei que bebesse chá.

— É costume beber chá com o convidado e compartilhar histórias e notícias. Os beduínos são muito hospitaleiros. E excelentes contadores de histórias.

— Então, me conte uma. Mas com final feliz. Nada de tristeza. Uma de princesa não seria ruim. — Sua vida atual já tinha muito drama. — Fale sobre os beduínos. São nômades, não são? Está redescobrindo suas raízes?

— O sheik é o líder da tribo.

— Todo poderoso. As pessoas tremem ao ver você? — Ela fez uma careta ao observar seu rosto austero. — Não ri muito, não é?

— Rio quando me divirto.

Sem se deixar intimidar, Bella soprou seu chá.

— Precisa levar a vida menos a sério.

—Talvez você precise levá-la mais a sério, para não morrer de insolação nem acabar sozinha com um estranho no deserto.

— O que o diverte? Eu me pergunto o que faz você rir. Obviamente, não minhas piadas. Qual foi a última vez que caiu na gargalhada? Que riu de mal conseguir falar?

A fogueira crepitou e um suave fio de fumaça subiu pelo ar.

— Não me lembro de já ter caído na gargalhada, e rir nunca afetou minha capacidade de conversar.

— Ninguém conta piadas perto de você?

— Nunca.

— Acho que é por ser tão intimidador. — Seriamente preocupada com sua saúde, Bella dobrou as pernas para o lado. — O que faz para relaxar, então? Festas? Dança rock!

— Não consegue se controlar, não é?

— Não. Desculpe. Estou tentando fazer você rir, mas sei quando sou derrotada, Vossa Alteza — Bella disse, desconcertada por ele não rir de nenhuma de suas piadas. Acostumada a ser o centro das atenções, não sabia como reagir a ele.

Ele acrescentou algo à comida que borbulhava na panela.

— Cai sempre na gargalhada?

— Bastante. Quase sempre na hora errada. Há algo nas ocasiões formais que me dá vontade de rir. Geralmente no mesmo instante em que uma câmera está apontada para mim. O olhar dele estava penetrante.

— Comparece a muitas ocasiões formais com a presença de fotógrafos?

Bella congelou.

— Não muito. Igreja. Fotografias de família. - O baile Swan anual cheio de paparazzi.

Pensar naquele evento a fez perder qualquer vontade de rir. Ele ainda a olhava.

— Tudo é piada para você?

— Não — Bella respondeu, olhando para a caneca vazia e tentando não pensar no último escândalo que ela descobrira. — Mas prefiro ver o lado engraçado das coisas.

— É extremamente frívola.

— É, essa sou eu. — Com a voz rouca, Bella manteve os olhos fixos na caneca até ter certeza de que se controlara. — Devia conhecer meu pai. Vocês se dariam muito bem. Poderiam comparar anotações sobre meus defeitos. Então é de uma família nobre, certo? Como fala um inglês tão perfeito?

— Fui para um internato em Londres. Meu pai entendeu a importância de preservar nossa cultura, mas incorporando os avanços do mundo moderno.

Bella olhou ao redor, surpresa ao ver que escurecera enquanto conversavam. Acima deles brilhavam milhões de estrelas em um céu sem nuvens, e ela as olhava fascinada.

— Parece que dá para tocá-las. Não me lembro de ver tantas estrelas na Inglaterra.

— Porque tem muita poluição luminosa.

Ou talvez porque ela nunca parara para olhar o céu.

— É lindo. Faz lembrar um vestido que tive, de seda azul com minúsculas contas prateadas.

— Só pensa em sua aparência?

— Ter boa aparência faz parte do meu trabalho — Bella disse defensivamente, e corou quando ele estreitou os olhos.

— Com o que trabalha?

— Oh, com várias coisas... — Ficou tentada a dizer "medicina" ou "direito", ou algo que tirasse aquele ar arrogante do rosto dele. Achou que ele não ficaria impressionado se soubesse que passava a maior parte do dia dormindo e as noites em festas, vestindo roupas de designers desesperados para a terem como modelo de suas criações. — Estou meio que mudando de trabalho.

— É bom tirar um tempo para refletir sobre como está levando sua vida. Todo mundo precisa de tempo para pensar se está fazendo diferença.

— Claro. — Bella sentiu-se embaraçada, certa de que não fazia diferença para ninguém. Pelo menos, não uma diferença positiva. — É por isso que está aqui?

— Passo uma semana no deserto para fugir das pressões constantes do século XXI.

— Não sente falta da civilização? Como sobrevive sem internet?

— Internet é uma ferramenta útil, não um vício.

— Para mim, é vício. Sou uma garota Google. Como consegue parar? — Bella fez um gesto com a mão, mas lembrou que estava sem manicure há duas semanas e a tirou de vista. — Eu entro para olhar uma coisa, um novo spa por exemplo, e quando vejo já se passou uma hora e não fiz o que planejava. Sou terrivelmente indisciplinada.

— Acredito nisso.

Ela olhou para o bule no fogo.

— Se voltou à natureza, como acendeu o fogo? Esfregou duas varelas? Usou lente de aumento para concentrar os raios solares?

— Usei fósforo — ele disse secamente.

Bella deu uma risadinha e sacudiu o dedo para ele.

— Que vergonha. Estou desapontada com você. Devia usar estrume de camelo, no mínimo. — Estava dolorosamente consciente de sua força e competência. — Mas gosta mesmo de estar longe de tudo?

— A vida no deserto é dura, mas simples. Só há os problemas básicos que o homem enfrentou durante séculos. Onde encontrar comida e água. Cuidar da família. Gosto do silêncio e da companhia dos cavalos.

— Como o garanhão fica tão tranquilo com a égua?

— Eles se conhecem muito bem.

— Então conhece a égua que peguei?

— Amira. É minha.

Bella lembrou-se dos guardas.

Você é o dono daqueles estábulos?

— Faz perguntas demais. — Ele lhe serviu mais chá e colocou comida em uma tigela. — Coma. Não comeu o dia inteiro.

— Prepara sua própria comida?

— Isso é tão surpreendente?

Bella pôs a caneca no chão e pegou a tigela, percebendo que ia ter que comer com as mãos.

— Bem, você não parece um "homem moderno". Esperava que tivesse cozinheiros e pessoas lhe servindo. — Tentou imaginar seu pai ou algum dos homens que conhecia cozinhando, sobretudo no deserto. — Estou impressionada. — Ela cheirou, desconfiada. — O que é isso? Carne de camelo? Guisado de lagarto?

— Arroz e vegetais.

Incomodada com seu tom, Bella segurou com mais força a tigela.

— Acha que sou uma inútil, não acha?

— Estou tentando não pensar em você. — Ele olhava fixo para a fogueira enquanto comia. O fogo iluminava seu rosto bonito. — Meus dias no deserto são um tempo para contemplação. Para relaxar. Você claramente não sabe nada sobre essas duas coisas.

— Isso não é justo. Não estou impedindo que relaxe.

— Acha que não, habibiti?

Bella provou a comida cautelosamente.

— O gosto é bom. Prometo não ficar no seu caminho. Faça tudo o que faria se eu não estivesse aqui.

— Já estou fazendo. — Ele se serviu de mais comida. — Infelizmente, está fazendo junto comigo.

— Tente me ignorar.

— Não é uma mulher fácil de se ignorar. - Suas palavras a deixaram animada.

— Não?

— Uma mulher bonita como você sabe exatamente o que causa nos homens.

— Não parece ter dificuldade em resistir a mim.

— Tenho aversão a ser manipulado. Cada palavra sua, cada olhar, é planejado para alcançar seus objetivos.

Bella começava a sentir-se pior. Os arrepios aumentavam a cada instante e sua cabeça latejava muito para conseguir dar uma resposta inteligente. Queria não ter comido.

— Certo. Vou parar de falar.

— Essa possibilidade existe? Parece ser uma mulher que nunca aprendeu o significado da palavra silêncio.

Seu julgamento duro era ainda mais doloroso porque ela se sentia mal. De repente, sentiu-se extremamente vulnerável, sozinha no deserto com aquele estranho insensível.

Devia tentar convencê-lo a levá-la para a cidade, mas estava sem energia para isso.

Só quando ele tirou a tigela de suas mãos, reparou que a estava observando.

— Estou bem.

Ele suspirou.

— Vá dormir. Amanhã vai se sentir melhor.

Iria? Apesar do fogo, seus dentes batiam.

— Está frio... Tem um casaco? Ele se levantou.

— Está com insolação, é por isso que está tremendo.

— Insolação? Isso parece sério!

Bella olhou para ele assustada, ainda tiritando de frio.

— Po... Pode chamar um ambulância?

— Não há serviços de emergência no deserto.

— Não quero mo... Morrer no deserto.

— Isso é improvável.

— E a... Aposto que fica desapontado com isso.

— Consegue andar até a tenda ou quer que eu carregue você?

— Não quero que me toque!

— Ótimo. — Ele apagou o fogo. — Pelo menos concordamos em alguma coisa. Precisa descansar. Continue a beber. Vou lhe dar um cobertor e um creme para a pele.

Sentindo-se péssima, Bella arrastou-se até a tenda e desabou na cama.

— Pelo menos, essa roupa fashion que me deu serve como camisola.

Com uma expressão irritada, ele a cobriu, Mas, apesar de seu tom rude, seus dedos estavam suaves ao checar a temperatura de sua testa.

— Durma. Vai estar melhor amanhã.

Ainda tremendo, Bella fechou os olhos.

— E depois?

— Vamos aprender a conviver um com o outro, habibiti. — Ele deuum riso sério. — A menos que adquira um súbito dom do silêncio,suspeito que vá ser um desafio.


Bjss, até o próximo!