Gente falta só mais três capítulos para terminar!
Comentários me animam! Fica a dica ;)
Os cavalos andaram por ruas empoeiradas, passaram por um mercado que vendia sedas coloridas, especiarias e joias, e depois por um arco que os levou para dentro dos muros do palácio.
Desde o momento em que entraram na magnífica cidade de Al-Rafid foram acompanhados por guardas montados, e Bella sentiu saudade da vida simples que levavam no oásis. Em cima de seu garanhão preto, Edward era o poder e a autoridade em pessoa, e Bella nunca havia se sentido mais distante dele do que agora.
O fato de ele não ter olhado para ela sequer uma vez desde que entraram na cidade também não ajudava.
Consolando-se ao pensar que pelo menos ainda estava ao lado dele, Bella afagou Amira, buscando conforto no calor do pelo brilhoso da égua.
Edward cavalgou até um lindo pátio com uma fonte no meio e desceu do cavalo. Relutante em deixar Amira, Bella continuou montada, mas ele virou-se e a olhou com uma expressão indecifrável.
— O retiro mandou suas coisas. Seu passaporte e documentos de viagem estão intactos. Seu desejo foi atendido, está de volta à civilização. Não vai ser acusada pelo roubo do cavalo. Está livre para ir.
Ir? Bella sentiu um nó peito. Ele estava mandando-a embora?
Por um instante, ela achou que tivesse entendido mal.
Ele não podia estar dizendo que era o fim, podia?
Nos últimos quatro dias, eles tinham ficado tão próximos quanto era possível que um homem e uma mulher ficassem. Compartilharam tudo.
Bem, quase tudo, pensou constrangida, ao lembrar-se das coisas que não contara sobre si mesma.
Mas isso não tinha nada a ver. Ele não poderia ter descoberto, poderia?
E Bella teve que admitir que temia esse momento. Pela primeira vez, conseguira viver sem o personagem que a mídia criara para ela.
E nunca fora tão feliz.
Talvez ele não tivesse percebido que ela não queria ir. Afinal de contas, ela insistira muito no quanto odiava o deserto e queria voltar para a civilização. Talvez ele não tivesse percebido que ela se apaixonara pelo deserto. E por ele.
Bella ficou chocada.
Não. Não podia ser amor. Ela não se apaixonava. Os homens se apaixonavam por ela. O contrário não acontecia.
Em pânico, ela botou a mão no pescoço da égua e sentiu que ela estremeceu.
— Senhorita Swan?
Ao ouvir seu nome, Bella virou-se automaticamente, e viu um senhor que a observava. Ele sabia quem ela era. Olhou nervosa para Edward, mas ele estava rodeado por pessoas, e ela percebeu que até agora não tivera a noção exata do quanto ele era importante. No deserto, ela vira um homem forte e poderoso. Ali, ele era um governante.
Por um instante, vislumbrou o homem sério e frio que a salvara, e depois se lembrou de como riam juntos e se abraçavam apaixonadamente.
De repente, ficou desesperada para que ele lhe sorrisse de novo...
— Sou Jasper, conselheiro de Vossa Alteza. Queira me acompanhar para tomarmos as providências necessárias.
Ainda olhando para Edward, Bella esticou o pescoço para vê-lo melhor entre a multidão, mal prestando atenção no conselheiro.
— Que providências?
— Para sua viagem para casa.
Providências para tirá-la da vida do sheik como se fosse um pedaço de carne contaminada.
Não era uma mulher adequada para ser vista em público com o sheik.
Sabendo que não teria outra alternativa, Bella desmontou do cavalo.
— Obrigada.
Determinada a manter sua dignidade, ela seguiu Jasper pelo pátio, lutando para não olhar para trás. Era como se alguém estivesse puxando sua cabeça, e foi quase um alívio quando Jasper a fez passar por uma porta pesada que dava para um corredor ornamentado.
— Suas coisas foram trazidas do retiro, srta. Swan. Estou com elas. — Entraram em um grande salão arejado, decorado com uma escrivaninha antiga e grandes tapeçarias coloridas com cenas do deserto.
Bella olhou para sua mala de marca, que parecia vir de um outro mundo. Há poucos dias atrás estava desesperada para pôr as mãos nela, mas agora...
Sem dizer nada, ela atravessou a sala e abriu o zíper. Dentro, havia tudo o que ela esteve querendo. Seu laptop, seu telefone, o iPod, um espelho, maquiagem, tudo o que aprendera a viver sem.
Olhou para tudo aquilo e percebeu que a única coisa que queria era Edward.
Aquela sensação de querer e ser querida. De estar ligada a alguém.
Confrontando o fato de que, para ele, aquilo tudo fora apenas sexual, Bella deu um sorriso torto. Quando os homens quiseram outra coisa dela?
Jasper pigarreou.
— O dono do retiro pediu-me que lhe entregasse uma mensagem. Olhando para os lembretes de sua vida real, Bella mal o escutou.
— Que mensagem?
— Disse que espera que encontre a paz.
— Pode esquecer — Bella falou, fechando a mala com tal violência que o zíper emperrou.
Bella Swan?
A mão de Edward ficou branca sobre o jornal. Jogou-o sobre sua mesa e pegou uma revista de fofocas com a foto de uma morena estonteante chegando ao baile anual da mansão Swan. O título era Bella do Baile, e a garota usava um vestido escandalosamente curto. Seus cabelos castanhos avermelhados brilhavam e seus olhos castanhos flertavam com a câmera.
Estava tão glamorosa que mal a reconhecia como a garota que fizera uma trança e a prendera com uma folha de tamareira. Que galopava pela areia com uma expressão de felicidade no rosto.
— Como pode ver, Majestade, ela atrai bastante publicidade. Edward deu um sorriso vazio ao folhear as revistas.
Ícone fashion.
Rainha da festa.
Bastou olhar superficialmente para tudo aquilo para saber que a mulher pela qual ficara obcecado era muito parecida com sua madrasta.
Sem nenhum escrúpulo ou moral, Bella Swan flertara e dormira com ele. Nem podia considerar como um mal-entendido, porque ela lhe dera um nome falso.
Nenhuma das emoções que demonstrara tinham sido verdadeiras.
Ficou rígido pelo choque. A tensão de seu corpo era a única manifestação exterior da dor que sentia.
Pela primeira vez, ficara próximo de uma mulher. E justo daquela mulher.
— Os editores dos jornais devem ter se sentido no deserto sem Bella Swan para lhes fornecer notícias nas últimas semanas. — De algum modo, ele conseguiu controlar seu tom de voz. — Deve ter havido pânico quando ela desapareceu. Ainda bem que contatei o retiro. Fico surpreso que sua família não tenha enviado uma equipe de busca para procurá-la.
— Parece que a srta. Swan é conhecida por se envolver em loucuras — Jasper disse num tom neutro. — Ninguém deve ter estranhado muito seu desaparecimento.
Edward olhava para fora enquanto digeria essa informação. Loucuras. Era como ouvir as reclamações sobre sua madrasta.
— Onde a srta. Swan está agora?
— Levei-a para uma suíte, Vossa Alteza. Visto que não há voos para a Inglaterra até amanhã à tarde, essa pareceu ser a melhor opção. A srta. Swan parecia bastante abatida.
— Abatida? — Edward indicou os jornais. — Estamos falando da mesma mulher?
Jasper hesitou.
— Ela parecia pálida depois da viagem pelo deserto. Tomei a precaução de pedir que o médico do palácio a examinasse.
Ela devia estar com medo que suas mentiras fossem descobertas.
E o fato de ela ainda estar no palácio o perturbava mais do que ele gostaria de admitir.
Naquele exato momento, ela devia estar nua debaixo do chuveiro, deixando a água fria escorrer por seu lindo corpo, como fizera tantas vezes nos últimos dias.
Edward pegou outro jornal e leu a manchete.
Família Swan arruinada.
— Essa mulher está nas primeiras páginas com uma regularidade monótona. Quer claramente chamar atenção. Obrigado, Jasper — disse suavemente. — Não quero atrasá-lo. Sei que tem coisas a fazer.
— Sim, Sua Alteza.
Quando seu conselheiro saiu, Edward ficou com os olhos fixos na garota linda e glamorosa nos jornais.
Havia alguma dúvida deque ele se comportara como um adolescente faminto por sexo? Ele era um macho com sangue nas veias e, Bella Swan, uma mulher perturbadoramente bonita.
Mas não fora só sua beleza que o atraíra, fora sua espiritualidade, sua vitalidade, sua falta de deferência.
Havia momentos em que ele queria estrangulá-la, e outros em que percebia o desafio que ela representava.
Ela o excitava como nenhuma outra o excitara, e não tivera medo de enfrentá-lo. Nem de mentir para ele.
Nem com toda a intimidade que compartilharam ela disse quem realmente era.
E isso, ele pensou enquanto jogava todos os jornais no livro, dizia tudo sobre ela. Bella Swan era uma garota rebelde sem nenhum senso de responsabilidade.
Com esse pensamento na cabeça, Edward rapidamente tomou banho, se barbeou e vestiu terno e gravata, pronto para a reunião. Saber que ela estava no palácio era um peso intolerável para seu autocontrole.
Não iria vê-la, disse a si mesmo com rigor, andando pelo palácio, indiferente aos olhares ansiosos em sua direção. No dia seguinte, ela voltaria a sua vida e a tentação acabaria.
Algo de que não precisava em sua vida era de uma garota rebelde.
Bella sentou-se diante da janela, olhando para o nada. Seu rosto estava molhado de lágrimas, e, quando ouviu abrirem a porta, virou rapidamente o rosto para a janela. Não queria que a vissem chorando.
— Não preciso de um médico, mas obrigada pela preocupação.
— Se disserem que precisa de um médico, vai ter que vê-lo — Edward disse num tom frio.
Bella ficou furiosa.
— Vá embora! Não tenho nada para falar com você. É um filho da mãe, Edward. — Ouviu a porta bater e se perguntou se ele saíra do quarto, mas então ouviu seus passos firmes vindo em direção a ela.
— Podia mandar prendê-la por falar assim.
— É assim que se livra das mulheres que não quer mais? Jogando-as na masmorra!
— Não tenho masmorras, assim como não tenho harém.
— Cuidado, Edward, está a ponto de perder seu precioso controle.
— Ela abraçou as pernas, sem olhar para ele, arrasada por sua rejeição. — Aliás, o que está fazendo aqui?
— Quero saber por que mentiu para mim.
— Não menti. Só não contei a verdade.
— Pare de agir como uma criança mimada e responda a minha pergunta! — ele gritou.
— Deixe-me em paz.
— Por que está amuada?
— Não estou amuada. Estou pensando.
— Imagino que seja uma experiência totalmente nova para você. — Seu tom ácido a atingiu, e ela riu contrariada.
—Ahh... vejo que andou lendo sobre mim. A história da minha vida em manchetes.
— Por que me disse que se chamava Kate?
— Porque, por cinco minutos da minha vida, eu não queria ser Bella Swan, tá? — Ela levantou a voz. — Experimente ter um sobrenome como o meu e talvez entenda.
Dominada pela emoção, Bella finalmente olhou para ele e se arrependeu. Estava maravilhoso, com os ombros realçados pelo corte de seu terno caro e uma ostentosa gravata.
— Linda gravata — ela disse, virando-se rapidamente, mas nem tanto. Ele viu as lágrimas em seu rosto, praguejou e foi até ela.
— Faça-me entender. Quero saber por que estava no retiro e entender por que fugiu de lá e por que mentiu para mim.
— Isso não tem importância — Bella respondeu desanimada. — Por que não vai fazer suas coisas? Acabou. Entendi o recado. Não precisa insistir.
Ela o viu prender a respiração.
— Está nas primeiras páginas de todos os jornais ingleses. É a Bella Malvada. A Gêmea Terrível.
Bella se encolheu. Cada título horrível daqueles era como se ele lhe atirasse um tijolo.
— Então, por que pergunta? Devia ser óbvio para um homem inteligente como você porque eu não disse quem era.
— Por que estava no retiro?
Ela riu sarcasticamente.
— Vejo que não leu direito os jornais.
— Eram muitos.
— Meu pai me mandou para lá para pensar sobre minha vida.
— Tarefa em que você é um fracasso espetacular.
— Completamente. Transformo em desastre tudo o que toco. É o que todos esperam de mim e eu odiaria desapontá-los. — Seu tom atrevido disfarçava um mar de agonia, e de repente ela teve medo de não conseguir se controlar diante dele. Tinha que expulsá-lo. — Olha, o que houve entre nós... foi só diversão. Ambos sabíamos que era só isso. Você não é meu tipo.
— E você com certeza não é o meu.
Ela deu um meio-sorriso.
— Finalmente concordamos em algo. Então vamos continuar nossas vidas, Vossa Alteza.
Houve um longo silêncio.
— Esperava encontrá-la com seu laptop. Estava desesperada para voltar à civilização. Usou todos os seus truques para me persuadir a trazê-la para Al-Rafid.
No começo. Bella precisou morder os lábios para não lembrá-lo que, no fim, queria convencê-lo a não levá-la de volta.
Como poderia dizer a ele que se sentia profundamente decepcionada? De que nada em sua vida fora tão doloroso quanto o fato de ele estar mandando-a embora.
— Olha para mim, Kate! — ele resmungou entre os dentes e passou os dedos nos cabelos. — Quero dizer, Bella.
Algo em seu tom de voz a fez virar a cabeça, e, naquele único olhar doloroso, dividiram algo tão sincero que a sensação a deixou sem ar. Um minuto depois, a tensão ainda pulsava entre eles, e Bella perdeu o controle.
— Edward...
— Não — ele rosnou a palavra como um animal ferido e afastou-se dela como se fosse uma doença contagiosa. — Isso não é possível.
O coração de Bella parecia ter sido esmagado por uma pedra.
— Certo. Claro que não. Sou uma idiota. — O nó em sua garganta era quase intolerável, e ela engoliu seco tentando desfazê-lo, enquanto ele se encaminhava para a porta.
— Há um voo para a Inglaterra amanhã à tarde. Você tem uma reserva nele.
Bella entrou em pânico. De repente, caiu em si de que ele a estava mesmo mandando para casa.
— Não! — Naquele momento, ela parou de fingir que não ligava para o que estava acontecendo. Só conseguia pensar no fato de ele estar mandando-a de volta para a Inglaterra. E de repente percebeu o quanto se sentira calma e relaxada no deserto com Edward. Descobrira um lado seu que não conhecia. E agora ele a mandava de volta a sua antiga vida. Onde haveria espelhos, condicionador, maquiagem e todas as suas roupas. Mesmo sem sua mesada, ela sabia que poderia ganhar dinheiro. Uma única sessão de fotos para uma revista lhe dava dinheiro suficiente para sobreviver durante meses.
Voltaria a ser a mimada Bella Swan.
E os paparazzi a perseguiriam. Não importava o que fizesse, todos pensariam o pior dela, pois era o que sempre faziam. E pensar nisso a deixou enojada. Não queria usar seu sobrenome para ganhar dinheiro. Não queria usá-lo para nada.
— Seja lá o que for que vivemos, acabou. — Edward foi de uma franqueza brutal, mas Bella não estava ligando para orgulho e dignidade.
— Não me mande de volta! — Ela se levantou de um pulo e segurou-o pelos braços.
Ele se soltou e a olhou com frieza.
— Fizemos sexo, Bella. Mais nada. E não finja que não está habituada a esse tipo de relação.
Não se deu ao trabalho de corrigi-lo.
— Você não entende... — A voz dela falhou, mas ela limpou a garganta e prosseguiu. — Eu... Eu estou implorando, Edward. Não me mande de volta.
O olhar dele foi duro.
— O quê? Sem flerte? Decidiu apelas direto para as lágrimas sem recorrer a seus truques de sedução?
— Não o culpo por pensar assim — Bella sussurrou. — Mas isso é diferente. Não estou atuando. Não posso voltar. A imprensa vai me destruir, e minha família já tem muita publicidade ruim por minha causa. Só quero ficar fora do caminho.
— Então, vá viajar pela Europa.
— Não tenho dinheiro para isso... — Seu rosto ficou vermelho, e Edward fez um ruído desdenhoso.
— Então não se importa com sua família e está me pedindo dinheiro.
— Não! — Seus dedos tremiam ao enxugar as lágrimas. — Não é isso que estou pedindo. Eu... Quero que me dê um emprego.
Sua explosão foi recebida com um silêncio de assombro, e ela não o culpava. Estava tão chocada quanto ele.
— Um emprego! — Edward a olhou com incredulidade e depois gargalhou. — Que tipo de emprego? Encrenqueira-chefe?
Sua falta de confiança nela a atingiu, e ela ergueu o queixo. Agora que sabia que era Bella Swan, estava tirando as mesmas conclusões de todo mundo.
— Eu não criaria problema...
— Bella, basta entrar num lugar e o problema vem cumprimentá-la com um beijo na bochecha — ele disse cansado. — E não há trabalho no meu palácio que possa abarcar seu conjunto de habilidades.
Ela estava determinada a mostrá-lo. A mostrar a todos.
— Precisa de alguém nos estábulos — Bella falou apressadamente, segurando seu braço quando ele ia sair. Sentiu os músculos dele e tirou a mão de imediato, abalada com a súbita conexão física que ameaçava incendiá-la.
— Por favor, me escute só um segundo. Sou boa com cavalos, você mesmo disse. Deixa eu cuidar da Amira. Vou ser sua tratadora, vou treiná-la. Dormirei em seu box. Qualquer coisa, mas me deixe ficar.
— O trabalho nos meus estábulos requer trabalho duro e disciplina. Não vi nenhuma dessas qualidades em você.
— Posso trabalhar duro!
— Qual foi a última vez em que acordou às 5h da manhã e limpou um estábulo?
— Nunca. — Bella foi honesta. — Mas...
— Bella, não aguentaria um dia em meu estábulo.
— Me dê o trabalho que vou provar que está errado.
Edward a olhou em silêncio e Bella engoliu seco. Seu coração batia tão forte que jurava que ele conseguia ver. Esse era um homem diferente do que aquele com que flertara e rira no deserto. Esse homem nunca se desviava do dever, e ela não tinha dúvidas de que sua autoridade era absoluta.
— Por favor, Edward, não me mande para casa.
Ela viu indecisão no belo rosto dele e olhou para sua boca, mas desviou os olhos instantaneamente, como se aquele olhar pudesse ter consequências fatais.
— Meu mestre de cavalos chama-se Quil. Ele tem autoridade total na administração do estábulo. Se ele fizer um único comentário desfavorável sobre você, coloco-a no primeiro voo que parta do aeroporto Al-Rafid.
— Obrigada — Bella murmurou, com as pernas bambas de alívio quando ele concordou. Disse a si mesma que não importava se não o visse mais, pelo menos não a sós. A única coisa importante era ela não voltar a sua antiga vida. — Obrigada.
— É sua única oportunidade, Bella.
Era um trabalho exaustivo.
Bella levantava às 5h toda manhã e se arrastava até o estábulo, tão cansada que parecia que alguém prendera pesos de chumbo em suas pernas.
E o fato de os outros tratadores e treinadores a olharem com desconfiança também não ajudava muito.
Quil, o mestre de cavalos, era civilizado com ela, mas ela sabia que ele esperava por um deslize seu.
Estavam todos à espera de qualquer deslize seu.
E se concentrar tanto em não errar a deixava nervosa. Mas prometera a Edward que provaria que ele estava errado, e estava determinada a isso, não importava quantas unhas quebrasse nesse meio tempo.
Foram-lhe atribuídos quatro cavalos, incluindo Amira e Batal, e estava consciente da grande responsabilidade que era cuidar dos cavalos mais valiosos do sheik.
Mas, para sua surpresa, ela adorava otrabalho. Fazia lembrar-se de sua infância, quando a vida era muito menos complicada.
Limpava os estábulos, cuidava dos cavalos, mas sua verdadeira responsabilidade era Amira, e ela enchia a égua de amor e atenção.
— Você é a única que não está esperando que eu erre — ela disse enquanto a escovava, duas semanas depois de ter implorado pelo emprego.
Perguntou-se se alguém comentara com Edward que estava fazendo um bom trabalho.
Será que ele perguntara sobre seu desempenho?
— Está cuidando de Amira?
Ao ouvir uma voz desconhecida, Bella virou-se, preparada para se defender.
Cometera algum erro? Deixara passar algo?
Um rapaz a olhava, surpreso.
Bella reconheceu o irmão mais novo do sheik, e limpou as mãos na calça, sentindo-se suja.
— Sua Alteza.
— Sabia que Amira é mãe de três campeões de Derby? — Ele entrou no estábulo e afagou o pescoço da égua. — É melhor Edward ganhar a Copa Al-Rafid esse ano ou vamos perdê-la, e Edward ficaria arrasado.
Bella sentiu a boca ficar seca. Perguntou-se se fora a menção do nome do sheik ou a ideia de perder Amira que lhe causara um mal-estar.
— Batal vai vencer. É o cavalo mais rápido que já vi.
— Rápido e difícil. Ele arremessou Sam, seu jóquei.
— Não! — Horrorizada, Bella parou de escovar Amira, que levantou a cabeça, sentindo a súbita tensão. — Ele caiu? Por quê?
— Batal se assustou e o jogou. Sam foi para o hospital. Não vai montar na Copa Al-Rafid.
— Está muito machucado?
— Quebrou uns ossos. Não corre risco de vida, mas não vai poder montar Batal tão cedo.
Bella pensou no que aquilo podia significar para Amira.
O garanhão negro era o único cavalo do sheik que certamente ganharia a corrida.
— Outra pessoa vai ter que montar Batal!
— Batal é uma máquina mortífera. É improvável que algum dos outros jóqueis se candidate. Sobretudo com Sam no hospital. Ele é o melhor jóquei do sheik. Se ele não consegue ficar no cavalo, ninguém consegue.
— O sheik não encontra problemas em cavalgá-lo.
— Edward é um cavaleiro excepcional, mas não tem a permissão de montar Batal na corrida.
Bella deu um beijo em Amira, incapaz de suportar a ideia de perdê-la.
O que Edward estaria pensando, sabendo que iria perder sua égua favorita? Sabia o quanto ele gostava de Amira.
Devia estar arrasado.
Tentou não pensar que duas semanas se passaram e ele não fora aos estábulos ver como ela estava se saindo. Ele fazia visitas esporádicas, mas sempre quando ela estava fora, treinando algum dos cavalos. E só lhe restava escutar trechos de conversas sobre o sheik. E só ouvira elogios. Em duas semanas ouvindo fofocas, ficara óbvio que Edward era adorado por todos.
Também era óbvio que não queria se deparar com ela.
Era como se sua relação nunca tivesse existido.
Uma miragem, Bella pensou com tristeza. Uma fantasia criada pelas areias escaldantes e o calor do deserto.
Perguntou-se se o irmão de Edward se dava conta de que provavelmente não devia falar com ela.
Ao ouvir uma agitação no estábulo do garanhão, Bella parou de pensar em Edward e correu para a porta junto com o príncipe.
— Batal está de mau humor. Quase matou um cavaleiro hoje e já quer outra vítima. Parece meu irmão. Está com um humor estranho desde que voltou do deserto.
— Talvez não devesse estar me contando isso — Bella falou, franzindo a testa ao ver Batal dar coices e relinchar furioso. — É melhor eu tentar acalmá-lo. Qual o problema com ele?
— Precisa de alguém que saiba montá-lo — Quil disse com cansaço, correndo até o garanhão, que o recebeu mostrando o branco dos olhos. — Mas Vossa Alteza está ocupado com negócios de Estado, Sam está no hospital, e esse cavalo não vai permitir que mais ninguém o monte.
— Vou montá-lo. — Largou a escova que estava usando em Amira e levantou a camisa para secar a testa. Corou ao ver Emmet arregalar os olhos.
— Desculpe. Vocês têm dançarinas do ventre aqui, não têm? Qual a diferença? — Esperando que sua ação impensada não causasse sua demissão, Bella correu até Quil. Depois de ver a reação horrorizada quando aparecera com um short minúsculo em seu primeiro dia, tomou o cuidado de usar camisetas discretas e calças, decidindo que era melhor morrer assada no deserto a ser mandada de volta à Inglaterra.
— Quero levar Batal para a pista de corrida.
— De jeito nenhum. É muito arriscado.
— Para mim ou para o cavalo?
— Uma garota com pouca força como você não conseguiria controlar esse animal. E seria inapropriado uma mulher cavalgar sozinha. Vá até o estábulo e diga a um dos jóqueis que venha montá-lo.
Bella ficou tentada a encostar o rosto no balde de água de Batal para se refrescar.
— Eles não querem. Não com Sam no hospital servindo de exemplo.
— Vá chamar Seth. Se ele dá valor ao seu emprego, vai treinar o cavalo.
Bella ia dizer que Seth provavelmente valorizava mais sua própria pele do que seu emprego, mas desistiu. Não podia discutir com ninguém. Sabia que seu próprio emprego estava sempre por um fio.
Concordando com um Quil de cara amarrada, foi até o celeiro e encontrou vários jóqueis discutindo quem montaria Batal na competição que se aproximava.
— Seth — Bella chamou o jóquei que se tornara seu amigo. — Dê-me suas roupas.
Ele pôs as mãos nos quadris e fez uma careta sugestiva.
— Quer me seduzir? Acha minha masculinidade irresistível?
Bella suspirou. Será que todos leram as notícias sobre ela?
— Não — respondeu desanimada, contendo-se para não dizer que, após quatro dias com o sheik, tinha uma visão inteiramente nova de masculinidade.
— Estou salvando sua vida e seu emprego. Mas preciso de suas roupas. Anda logo, Seth. Estou de pé desde às 5h, cansada e com calor, e minha perna está doendo porque Amira me mordeu.
— Amira sortuda. — Um dos jóqueis lhe estendeu uma vasilha de tâmaras e ela se serviu e agradeceu com um sorriso. Não conseguia recusar aquela delícia.
— Ainda bem que estou fazendo todo esse exercício, senão ficaria do tamanho do palácio. Seth, fique escondido por algumas horas. E vocês, digam que o viram montando Batal.
— Eu não montaria naquele monstro nem pelo meu emprego. — Seth lhe entregou as roupas com uma expressão de curiosidade.
— O que vai fazer com isso?
— Montar "naquele monstro" para você não ficar sem emprego.
— Bella foi até os fundos do celeiro. — Fiquem de costas. Despiu-se rapidamente e colocou as roupas de montaria de Seth.
Depois, prendeu os cabelos no alto da cabeça, prometendo a si mesma que à noite encontraria tempo para lavá-los. Só quando teve certeza de que não tinha nenhum fio de cabelo aparecendo, colocou o capacete.
— Vai montar no garanhão? Está doida? — Preocupado, um dos jóqueis correu atrás dela. — Bella, é uma mulher, não pode fazer isso.
— Oh, por favor... — Bella lhe deu um olhar de impaciência e calçou as botas. — Ser mulher não me impediu de acordar de madrugada e trabalhar como escrava nesses estábulos. Aprendi a cavalgar antes de andar. A propósito, quer montar em Batal?
O jóquei fez uma careta.
— Não. Tenho mulher e filhos para criar. — Olhou para os outros encabulado, e eles olharam para outro lado.
— Exatamente. — Bella ajustou o capacete. — Mas um de nós tem que fazer isso, ou Seth perde o emprego. Batal deixa que eu o alimente e o limpe sem me morder. Com sorte, vai me deixar montá-lo.
Talvez se lembrasse dela do deserto.
Talvez lembrasse que, por um breve período, ela tivera a aprovação de seu dono.
Bella atravessou o estábulo de volta, e tirou o lenço que Seth usava em volta do pescoço.
— Ninguém está esperando que eu monte, então não vão nem notar. Só preciso que os distraia enquanto pego Batal.
Seth segurou sua mão.
— Por que está fazendo isso por mim?
— Porque me encobriu quando me enrolei no começo — Bella murmurou, tentando prender o lenço na posição certa. — Foi por sua causa que Quil não procurou o sheik Edward achando que não sirvo. Pode me ajudar a amarrar esse negócio?
Os jóqueis pareciam constrangidos.
— Uma mulher não devia cavalgar sozinha...
— Não estou montado como mulher. Estou montando como Seth. E só estou levando Batal para treinar. Não estou cavalgando pelas ruas. — Bella amarrou o lenço sozinha. — Como estou?
Olharam uns para os outros.
— Você tem seios — Seth murmurou com o rosto vermelho. Bella franziu a testa.
— Oh, me esqueci disso. Isso é inconveniente.
— Use isso. — Um dos jóqueis lhe entregou uma jaqueta de seda.
— São as cores do sheik. Quem a vir vai achar que está cavalgando para ele, e esconderá seus... — Ele pigarreou, constrangido. — Isso não vai chamar atenção e vai manter as pessoas longe. Tem certeza de que quer fazer isso?
Bella pensou em Amira. E pensou em como Edward se sentiria se perdesse a égua que criava desde que nascera.
— Absoluta. — Ela pegou mais uma tâmara para ganhar coragem.
— Vá distrair Quil e deixe o resto comigo.
