Aioros
Ele vinha todos os dias, depois de auxiliar no treino dos soldados. Em vez de parar na casa de Sagitário, vinha direto para o templo do Grande Mestre, não para conversar com Shion, mas para ver a pequena deusa. Expulsava todas as servas por perto, arregaçava as mangas e cuidava, ele mesmo, da fralda, da mamadeira, do banho. No começo, Shion tentou impedi-lo, dizendo que aquela não era a conduta correta de um cavaleiro. Agora, havia sido derrotado pelo entusiasmo do jovem Aioros.
"Ah, não! Assim ela vai ficar com frio! No que as servas estão pensando? O vento aqui é gelado. Um casaquinho…"
Ninguém precisava dizer qual era a gaveta com as roupas da deusa. Aioros sabia tudo de cor. Escolheu o casaquinho e vestiu o bebê de forma eficiente, apesar dos bracinhos, que não paravam de mexer. Shion observava-o do canto do quarto.
"Você é mais rápido do que as servas que cuidam dela."
"Essas servas não sabem cuidar de um bebê! Quando minha mãe morreu no parto do Aioria, eu que tive de cuidar dele. E, comparada a ele, esta pequena é boazinha demais. Ah, veja que gracinha! Por que a deusa Athena tinha que ser uma menininha linda assim? O mundo não é justo mesmo! Oh, você quer brincar? Eu brinco!"
Quando a deusa Athena reencarnou no Santuário, há pouco mais de um mês, houve uma grande comoção no Santuário. Muitos pediram para ver a deusa, que foi revelada durante um discurso proferido por Shion. Desde esse evento, os ânimos se acalmaram e todos voltaram ao trabalho rotineiro. Apenas Aioros continuou invadindo o templo de Athena, louco de vontade de cuidar da deusa.
Shion estava preocupado com como as coisas andavam bem. Segundo Avenir, o Santuário de Athena perderia a Guerra Santa caso tudo continuasse daquele jeito. Eles precisavam do cavaleiro de Pégaso para ganhar aquela guerra, e um Santuário em paz não teria essa figura. Depois de pensar muito a respeito e de discutir o assunto com Dohko, Shion criou um plano digno de um louco. Acontecia que, para vencer aquela guerra, teria de ser um pouco louco mesmo. Conhecer o futuro causava uma insegurança maior do que se não conhecesse, pois, na ânsia de evitar um desastre, teria de gerar outros, sem saber se não acabaria piorando tudo em vez de consertar.
Athena-sama estava rindo de um bichinho de pelúcia com o qual Aioros brincava. No futuro de Avenir, Aioros era uma espécie de irmão mais velho da deusa, mais do que um cavaleiro. Brincava com ela, enxugava suas lágrimas, contava-lhe histórias… O Aioros do futuro de Avenir passou a vida toda cuidando da deusa, com todo o amor, até acabar morto na Guerra Santa. Toda a sua bravura e dedicação não foram suficientes para protegê-la. No final, humilhada pelos inimigos, sua adorada Athena foi decapitada na frente de Hades. Shion precisava criar um futuro diferente, e seu plano de louco envolvia, também, Aioros.
Sentia-se péssimo. O momento em que a deusa sorria mais era quando Aioros aparecia no templo. Ele levava jeito com crianças, e Athena-sama era como uma irmãzinha. Às vezes, Shion permitia que Aioros passasse a noite ali, e este acabava dormindo no sofá, com a bebê em seu peito, bem aquecida e protegida. E, quando ela acordava chorando à noite, ele ficava horas de pé, carregando-a e acalmando-a, com toda a paciência, mesmo depois de um dia cansativo de trabalho. Como mexer com uma relação tão bonita quanto aquela? Shion não tinha sequer coragem de dizer a Aioros para deixar os cuidados da deusa com as servas.
Depois de Athena-sama brincar, ganhou o jantar de Aioros e logo sujou a fralda, exigindo, num choro forte, a sua substituição. Ele não tinha nojo, nem preguiça para cuidar da fralda.
"Nada como ter o corpo funcionando bem, não é, minha deusa? Aguenta um pouco, eu já te troco!"
Shion aproximou-se do rapaz, tentando imaginar como seria se, no lugar daquele alegre jovem, estivesse Sísifo. Este com certeza não estaria ali naquele momento, por ser comedido demais.
"Apesar de eu ter vivido tanto, nunca troquei a fralda de um bebê."
"Hein? Tá precisando de mais experiência de vida, hein, Grande Mestre! Com todo o respeito…"
"Talvez tenha razão."
"Mas a primeira vez não vai ser com a Athena-sama, não! Esta fralda é minha!"
"Fique à vontade."
"Obrigado! Veja como um profissional faz! Fazemos assim e… hum."
Aioros pareceu indeciso, olhando para o cocô na fralda. Enfim, limpou a bundinha da deusa com cuidado e decidiu:
"Sabe, já faz mais de uma hora desde que ela comeu. Seria uma boa dar um banho nela. Não é?"
"É?"
"É sim! Assim, evito que a bundinha dela asse! Vou fazer isso!"
Tal era a habilidade do cavaleiro com bebês que nem precisou de ajuda para pôr água no fogão, com apenas uma das mãos. Separou tudo que precisaria e manteve a deusa quente enquanto esperava. Sabia perfeitamente o que estava fazendo, de tão acostumado que ficara.
"Aioros", chamou Shion, criando coragem.
"Grande Mestre?"
"Ela gosta mesmo muito de você."
"É claro que sim! Eu faria qualquer coisa por ela! Sabe, sinto como se ela fosse minha irmãzinha."
"O cavaleiro de Sagitário da última Guerra Santa também gostava muito de ficar perto da deusa."
"Claro! Cavaleiros de Sagitário sabem o que é bom!"
"Ele não era extrovertido como você… Talvez essa não seja a palavra correta… Atrevido? É isso. Diferente de você, ele não era atrevido. Nunca invadiria o templo de Athena pra ficar brincando com o bebê."
"Ah, mas assim não tem graça. Sabe, proteger tem muitos significados, Grande Mestre. Brincar com um bebê é também uma forma de proteção."
"Eu te entendo, e acho que ele também entenderia. Mas mesmo ele não sendo como você, também se dedicava muito a ela. Sempre pensava nela e sempre se esforçava para que ela crescesse bem. E ele lutou ao lado dela na Guerra Santa até o fim."
"Ele morreu pra protegê-la?"
"Ele morreu para que ela pudesse fazer o que devia fazer, protegendo-a até o fim. Foram apenas cinco anos de convivência com ela, mas acredito que os aproveitou bem."
"Cinco anos é pouco! Quero cuidar dela até ela ficar velhinha!"
"Se sobreviver à Guerra Santa."
"Ah, deixa de ser pessimista, Grande Mestre! É claro que ela vai sobreviver à Guerra Santa! Vai ganhar a guerra, porque eu vou estar lá para isso. Vou nocautear todo mundo, para que ela não tenha que ter trabalho!"
Era o momento de tocar no assunto de que Shion desejava, de verdade, tratar:
"Então, que tal se existisse um cenário diferente, Aioros? E se você tivesse de morrer cedo demais, sem tempo para passar com a deusa Athena, como o meu amigo passou? E se a única forma de Athena-sama ganhar a Guerra Santa fosse com você morto sem poder vê-la crescer? Claro que você poderia escolher um futuro em que pudesse passar anos cuidando de Athena-sama, como está fazendo agora - só que, nesse futuro, a Guerra Santa estaria perdida, e Athena-sama acabaria humilhada e executada pelos nossos inimigos."
"Hum… que pergunta esquisita, Grande Mestre. Então eu teria de escolher entre morrer com ela ainda bebê e ela ganhar a guerra… e passar a vida com ela, mas ela perder a guerra?"
"Sim. O que você escolheria?"
"Hum… Nessa de eu morrer cedo, será que daria tempo para eu ver este sorrisinho dela?"
Aioros fez uma graça, enquanto segurava Athena na banheira. A pequena riu, adoravelmente. Shion sorriu com a doçura do bebê.
"Sim, daria tempo sim."
"Então nem tem espaço para arrependimentos! Um sorrisinho assim já é o suficiente para eu protegê-la pela eternidade, Grande Mestre! Eu não posso ser egoísta, sabe? Amor não é sobre egoísmo, é sobre doar seu coração a alguém. Eu só preciso de um sorriso assim, e o resto do tempo, mesmo sendo valioso para mim, não é mais importante do que ela se manter segura. Ser humilhada e morta pelos inimigos? A minha irmãzinha?! Nem pensar! O senhor também não deixaria uma coisa dessas acontecer como ela, não é, Grande Mestre! Não é?"
Foi um alívio ouvir a resposta. Shion sorriu, agora com menos medo de tomar a terrível decisão.
"Com certeza! Como eu poderia deixar que machucassem essa graça?"
"É isso aí! Ah, aí está… limpinha! Agora é por fralda e agasalhar bem. É pijama, daqui a pouco ela vai dormir. Ah, eu quero ficar com ela para sempre, Grande Mestre!"
"Bem, pode dormir aqui esta noite."
"Mesmo?! Obrigado! Ah, ela vai se divertir!"
Que mais Shion podia fazer por Aioros? Como compensá-lo por roubar-lhe um futuro tão adorável? Se tudo acabasse mal, Aioros não veria a deusa dar seus primeiros passinhos, nem falar suas primeiras palavras. Não a ensinaria a ler e a escrever, nem a ser uma boa Athena. Como compensar tudo aquilo que lhe roubaria, se não sabia se esse novo futuro garantiria a segurança dela?
Caminhou até a deusa, depois de ser vestida com o macacão rosa. Estendeu os braços.
"Athena-sama, quer vir comigo?"
Mas a pequena inclinou-se para o peito de Aioros e abraçou-o.
"Ora, ela prefere a mim do que ao Grande Mestre! Que gracinha!"
Talvez pudesse compensá-lo com aqueles pequenos momentos…
