Dohko


Era uma noite tranquila, e seria lua cheia em Rozan. Tempo perfeito para uma garrafa de vinho. Aioros ficaria no templo de Athena, junto com o bebê. Tudo estaria bem durante sua ausência… por ora. Shion precisava daquele tempo, antes de colocar seu louco plano em prática. Pegou a garrafa, dois copos e teleportou-se.

Os olhos de Dohko cresceram ao vê-lo. Sorrindo, Shion aproximou-se e sentou-se na pedra da cachoeira de Rozan. Posicionou a garrafa entre eles e encheu os copos. Ofereceu um ao amigo de longa data e pegou o outro. Dohko observou seu copo por algum momento e acabou aceitando, em silêncio. Tomou-o inteiro, e Shion reencheu-o, prontamente. Só depois disso iniciou a conversa.

"Então, está carregando um fardo tão grande a ponto de vir me ver… Shion."

"Já estou acostumado. Desta vez, não é diferente."

"Não é perigoso abandonar o Santuário para vir aqui?"

"Aioros está no templo de Athena, cuidando da atual reencarnação. Ela gosta mais dele do que de mim."

"Como ela é?"

"Uma graça. Aioros está completamente apaixonado por ela."

"O Sagitário…"

"Eu me sinto mal… por mexer com o destino dessas crianças… por trazer-lhes desgraças…"

"É por isso que o Grande Mestre precisa ser uma pessoa gentil. Você sempre foi o mais qualificado, Shion."

"O que estou para fazer não é nada gentil."

"Também não é gentil com você mesmo. E é por isso que veio com esse vinho."

"Não poderia fazer isso sem antes beber um vinho com você."

"Ainda bem que veio. E o tempo está perfeito."

"Sua terra natal é linda, Dohko."

"Precisava conhecer o cenário durante o dia também. Você iria gostar."

"Com certeza. Você também iria adorar Jamiel."

"Falando em Jamiel, seu discípulo Mu passou por aqui, não faz muito tempo."

"E eu disse para ele ficar na torre. Acho que não consigo mais mantê-lo preso lá."

"É um menino tão manso… Lembra o Atla."

"É trineto dele."

"Isso explica…"

"Escrevi um livro, com tudo o que ele precisará saber. Mas… isso é tudo."

"Está sacrificando muitas coisas, pelo que estou vendo."

"Todos têm sua vez, Dohko. Eu me sinto grato por ter vivido por tanto tempo, dez vezes, quinze vezes mais do que nossos companheiros… Tive oportunidade de fazer quase tudo que desejei. Até estou aqui, dividindo um vinho com você, uma última vez…"

"Shion… Lembra de quando não éramos tão importantes no Santuário e podíamos ir e vir nas Doze Casas?"

"E tem como esquecer? Você passava todos os dias pela minha casa, a caminho dos campos de treino. Tentávamos nos matar todos os dias antes do trabalho."

"Diziam pelo Santuário: se procura por Dohko, busque Shion e vice-versa. Onde um está, o outro sempre estará."

"E se não estiver, pergunte. Um sempre sabe onde o outro está. Nós passávamos tanto tempo juntos assim?"

"Era até estranho quando você não estava por perto. Manigold me perguntava: você não se cansa de ficar tanto tempo ao lado daquele idiota? Mas acho que idiotas tendem a reunir-se muito fácil."

"Tinha vezes que eu não queria ver a sua cara, Dohko. Quando brigávamos… Mas logo passava, porque era difícil não estar perto de uma pessoa que te conhece tão bem e que entende como se sente."

"Diziam até que era como um casamento."

"Se fosse um casamento, quantas bodas seriam até agora?"

"Melhor não tentar contar, Shion."

Shion riu, com medo de perder aquelas lembranças. Tivera uma vida tão boa. Tivera amigos tão bons. E Dohko era o mais especial deles. Fora muita sorte ter passado aqueles dois séculos, podendo conversar, ainda que raramente, com seu parceiro mais querido. Pena que eram encontros tão breves. As responsabilidades como Grande Mestre sempre tomavam todo o seu tempo. Quando pensava em conversar com Dohko, via-se tão cansado que só lhe restava ir para a cama e dormir.

"Naquela época, nós passavamos o dia inteiro juntos, muitas vezes sem qualquer assunto. Queria muito poder ter isso de volta… Queria muito poder passar umas férias aqui, sentar ao seu lado o dia todo, olhando para a cachoeira."

"Você não pode, infelizmente."

"É… nunca mais pude, depois da Guerra Santa… É uma pena. É uma pena, mas não podemos reclamar. É tão mais do que os nossos companheiros viveram…"

"É por isso que não podemos falhar em nossas missões. A minha é simples, mas a sua… Eu quero ajudá-lo de alguma forma…"

"Eu vou precisar de sua ajuda… Mu, Aioros, a deusa… Não são os únicos que vou prejudicar. Eu vou, e deixarei para você uma grande encrenca…"

"Agora me conte uma novidade", riu Dohko.

"Obrigado, Dohko. Por me perdoar."

"Não se preocupe, Shion. Tenho certeza de que o novo futuro que você criará irá nos levar à vitória. Afinal, temos olhado para ela durante esses dois séculos."

"É verdade…"

"Agora que estamos tratando disso, quero saber… Como pretende alterar o futuro?"

"A armadura de Áries já começou com isso, escolhendo Mu como meu sucessor, no lugar de Avenir. Mas isso não basta. Se o Santuário continuar em paz, se pavimentarmos um caminho plano até a Guerra Santa, acabaremos perdendo. Portanto, para ganharmos, precisaremos de um caminho íngreme e perigoso. Isso significa que terei de por em risco tudo o que lutamos para reconstruir e proteger… o Santuário, a deusa, o mundo… Entre dois males, o menor… Se é que é menor…"

"É como se você apostasse tudo numa rodada de pôquer…"

"Sim. Eu temo estragar tudo, Dohko…"

"Não se preocupe. Você é o que mais trabalhou para reconstruir o Santuário, e fez isso a partir de ruínas."

"Ora eu saía pra cumprir algum trabalho como cavaleiro de ouro… Ora eu tratava de toda a correspondência, ora eu descia para ajudar a erguer um pilar. E quando conseguia tempo, restaurava as armaduras e estudava toda aquela imensa biblioteca. Mas eu não estava sozinho… As pessoas de Rodorio e Teneo estavam ali para me ajudar. Teneo cresceu e se tornou um grande cavaleiro. Treinou muitos discípulos, que também se tornaram cavaleiros exemplares… Com eles, nem parecia que eu estava rendendo alguma coisa."

"Foi algo construído com muito esforço, não só seu, mas de muitas pessoas."

"Tudo isso em minhas mãos. Tenho muito medo, Dohko. Tenho medo de por a perder tudo o que eles construíram, dedicando suas vidas inteiras… Sei que confiam em mim, mas… Temos muito a perder."

"Mas se não colocarmos tudo a perder, perderemos, com certeza. É uma aposta arriscada, mas é a única coisa que temos no momento. Tenhamos fé, Shion. Eu ainda estarei aqui, ao menos por algum tempo. Teremos o jovem Mu e outros cavaleiros. De qualquer forma, uma hora tudo terá de ir às mãos deles."

"É… É um fardo tão pesado… Mas tenho fé neles."

"Então, só resta por tudo na mesa e fazer nossa melhor jogada."

"Nunca fui bom em pôquer."

"Ainda bem que isso não é um jogo de pôquer. É uma guerra, e você é bom em lidar com elas."

"Veremos em breve…"

Shion tentou reencher o copo de Dohko, mas só caíram algumas gotas. Seu amigo fitou o resto do vinho, com tristeza.

"Hum… acabou tão rápido… Que pena."

"Eu devia ter trazido mais uma garrafa, não?"

"Se pudéssemos repor tudo, como as garrafas de vinho… Mas esta é valiosa, porque é uma só. Acho que a aproveitamos bem."

"É verdade. Bem, é hora de voltar. As tarefas no Santuário não esperam."

Recolheu os copos, a garrafa, e levantou-se.

"Adeus, Dohko."

Dohko tornara-se mais sutil para demonstrar sentimentos com o passar dos anos, mas Shion sabia o quanto ele estava triste.

"Shion."

"Sim?"

"Obrigado… por tudo."

O último agradecimento de uma pessoa querida era sempre o mais doloroso, pois era a vida inteira reunida em uma só palavra. Obrigado por terem vivido na mesma época, por terem se conhecido, pelos treinos, pelas risadas, pelas brigas, pelas missões em parceria, pelas garrafas de vinho, pela compreensão, pelos momentos em silêncio, pela lealdade. Sorriu de volta para o melhor amigo.

"Eu também digo o mesmo, Dohko. Obrigado, por tudo..."

Agradecer por dois séculos de amizade era uma carga pesada demais. Quando teleportou-se de volta ao Santuário, notou que estava chorando.