Shion
Era a grande noite. Shion vestiu-se com o maior zelo, escolhendo o melhor manto, como se fosse a véspera de uma comemoração do Santuário. Acontecia que ele queria estar bem para abraçar seu destino. Aioros erguia a sorridente deusa no alto, brincando sem nenhuma preocupação. Mal sabia ele do que estava planejado para a noite. Usara todo o seu cosmos para criar uma ilusão de Aioros descendo as escadas, e agora todos achavam que só havia mestre e deusa no topo da montanha.
"Ela gosta mesmo de você… Quando você vem aqui, Aioros, ela sorri e ri o tempo todo."
"Eu quero que ela seja feliz, Grande Mestre… Pelo menos, enquanto puder…"
"Passe a noite aqui. Vou preparar um chá para nós."
"Posso? Que bom! Pode deixar, eu faço o chá!"
"Não, brinque mais com ela. Eu também gosto de me ocupar com coisas simples. Já volto."
Afinal, talvez fosse a última vez que ele brincaria com ela… Shion aqueceu a água e tirou de um bolso o sedativo. Precisava do cavaleiro de Sagitário por perto para proteger a deusa Athena. Quem melhor que Aioros para defender aquele bebê? Precisava depositar toda a sua fé naquele jovem alegre, e algo lhe dizia que ele faria um ótimo trabalho.
Aioros tomou o chá sem erguer quaisquer suspeitas. Em meio à brincadeira com a deusa, quase dormindo, levou a pequena para o sofá e deitou-se ali. Mesmo inconsciente, os braços a mantinham segura no peito. Quando Shion tentou tirar a deusa dela, esta chorou, e ele temeu que Aioros acordasse.
"Não chore…", murmurou Aioros.
Felizmente, nada mais aconteceu. Shion conseguiu acalmar o bebê e deixá-lo no berço. O espaço do sofá onde Aioros estava deitado era como um buraco na parede, que podia ser coberto por uma cortina. Shion fechou-a, tirando Aioros de vista. O primeiro palco estava pronto.
Para vencer a guerra contra Hades, precisava alterar um futuro pacífico. Era preciso criar um tumulto que jogasse o Santuário a uma época de instabilidade. Precisava ser vilão por um dia. Para a sua sorte, havia alguém com potencial para ajudá-lo naquela tarefa. O cavaleiro que, na Guerra Santa anterior, traiu o Santuário: Gêmeos.
O segundo palco devia ser propício para um assassinato. O salão do mestre estava cercado de servos e não era bom. Devia ser um lugar exclusivo, longe dos olhos de testemunhas: Star Hill. Desceu pelo salão do mestre, atravessou as Doze Casas, até o templo de Gêmeos. Havia emprestado para seu cavaleiro alguns livros necessários ao Grande Mestre. Usaria aquilo como desculpa.
Ele estava na frente da casa, guardando a entrada. Shion não precisou anunciar sua chegada, pois os olhos assassinos voltaram-se, assim que se aproximou.
"Grande Mestre."
"Olá, Saga. Perdão por hoje. Sei que você tem estudado muito para ser meu sucessor…"
"O senhor fez sua decisão."
"Sim. Acredito que é o melhor para nós. Enfim, não vim aqui para conversar sobre isso. Acontece que estou a caminho de Star Hill, e preciso de alguns livros."
"Ah… Leve todos. Não vou mais precisar deles mesmo… Ao menos, por enquanto."
Por enquanto. Era uma ótima resposta. Shion sorriu.
"Obrigado, meu jovem."
A isca estava lançada. Shion pegou alguns livros e dirigiu-se a Star Hill. Passara tantas noites ali, olhando as estrelas, estudando e fazendo previsões. No começo, perdia-se com cálculos bizarros e rezava para que Degel, de algum lugar, lhe desse uma luz para entender aquelas equações. Fora tão difícil…
Tivera uma vida longa, e estava grato por ter conseguido tantas coisas. Tivera Dohko, o melhor dos amigos. Tivera um mestre que o acolhera com amor e colegas extremamente fiéis. Acompanhara o crescimento de cavaleiros, desde a fase de aprendizes até a morte. Vira a nova reencarnação de Athena rir com as caretas do mais jovem Sagitário. Fora uma vida muito boa.
"Grande Mestre."
Era a voz que queria ouvir. Felizmente, chegara o grande momento. Shion fingiu-se de desentendido:
"Saga? Este lugar é proibido para os cavaleiros. Você devia saber disso."
"Eu sei. E eu tenho o direito de estar aqui."
"Você? Entendo… Se não pode conseguir de forma honesta, prefere dar um golpe de Estado."
"Você não parece surpreso."
"É verdade, não estou muito surpreso. Mas e agora? Chegamos naquele momento em que lutamos?"
"Velho como está, não terá a menor chance…"
Que ofensa! Shion ainda podia fazer uma boa briga! Mas engoliu a provocação e prosseguiu com sua farsa, queimando o cosmos."
"Veremos, então… Venha, Saga!"
Assumiu a postura de luta, mas permaneceu imóvel. O punho de Saga afundou em seu estômago, e o cosmos atravessou o corpo, saindo pelas costas. Shion vomitou sangue e engasgou-se, sem conseguir respirar. Logo acabaria inconsciente. Saga ao menos tivera piedade suficiente para dar-lhe uma morte rápida. Só tinha alguns segundos para transmitir sua última mensagem:
"Conto com você, Grande Mestre… Saga."
O semblante de Saga alterou-se para um de revolta:
"O que quer dizer com isso, Grande Mestre?! O que significa isso?!"
Mas não havia mais ar para responder. Shion vira Saga crescer, desde um simples aprendiz. Ainda era jovem, ainda podia encontrar o caminho da justiça. Estava colocando tudo nas mãos de um cavaleiro perturbado. Sorriu-lhe.
Saga tentaria matar Athena para completar o plano, e Aioros estaria lá para defendê-la. Apesar de Aioros ser tão forte quanto Saga, enquanto tivesse o bebê para proteger, não entraria em combate. Sua única saída seria fugir. Precisaria de sorte, seria uma situação limite… Mas, se desse certo, Athena escaparia do Santuário, Saga se tornaria o Grande Mestre, e todo o futuro vivido por Avenir se alteraria. Daquele jeito, talvez… talvez o Santuário visse um futuro vitorioso na Guerra Santa. Talvez o cavaleiro de Pégaso fosse encontrado nesse novo futuro. Para isso, Shion precisava morrer.
Era a sua hora. Em breve estaria ao lado dos companheiros da última Guerra Santa e dos anos de restauração do Santuário. Teneo certamente estaria lá, esperando para ouvir mais histórias. Ainda teria de usar uma bengala para caminhar? Ainda teria setenta anos? Ou apareceria com a aparência de seus anos mais produtivos, como o jovem cavaleiro de Touro? E os demais colegas? E Yuzuriha? E seu mestre? Adoraria contar sobre o pequeno Mu para Atla. Se pudesse reencontrá-los, a morte, mesmo em Cocytos, seria muito boa.
Fizera tudo o que podia. Fora o elo entre os cavaleiros do passado e os do futuro. Depois de ter sido o centro do Santuário por tanto tempo, era estranho entregar aquele lugar para os mais jovens. Mas, como dizia Aioros, amor era sobre doar-se aos outros. Shion doara-se inteiro. Ainda queria viver mais, apesar de ter mais de dois séculos. Mas Dohko tinha razão: a única garrafa de vinho era preciosa porque era única. Era hora de recolher a garrafa vazia e ir embora.
FIM
Notas: Sei que demorou um pouco pra postar os capítulos, mas espero que tenham gostado! Obrigada por ter lido até aqui! ^o^
