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Canto 14: Cometa Encke
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Que toda história começa pelo meio, isso todo mundo já sabe, mas é engraçado porque todo começo, por mais que seja meio, começa com alguma coisa. O ponto de partida de uma história pode até mesmo ser o final, mas não é o caso desta aqui. Eu, sem dúvida nenhuma, comecei pelo meio, e o meio é o agora.
Talvez eu devesse contar um pouco sobre minha rotinha com Sarada, mas não quero. Ainda não tô pronta pra falar sobre ela tão abertamente.
Neste momento, a estou deixando na creche do hospital.
É a primeira vez que ela fica sozinha com estranhos, mas vejo que há outras crianças na sala cheia de cor, brinquedos, cobertores, berços... É um micro paraíso infantil. Tem duas pessoas que ficam o tempo todo naquela sala, um homem chamado Zaku e uma mulher chamada Kim. Acho que eles são parentes, mas não pergunto.
É o homem quem pega Sarada das minhas mãos e a aconchega em seus braços. Minha filha parece estranhá-lo por um momento, a carinha de choro surgindo naquela careta. Meu coração se parte e já a quero de volta, mas Zaku começa a balançá-la de um lado para o outro, fazendo uma voz bem suave enquanto conversa com ela.
Observo o rosto de Sarada suavizar. Acho que ela gostou do acalento mais agitado do homem, porque acaba rindo um pouco. Ele me olha com um sorriso confiável, dizendo que vai dar tudo certo. Sei que vai, porque eles têm muita experiência com crianças, e sei disso pelos rostinhos comportados que brincam por ali.
Reluto antes de me virar, dando uma última olhada por cima do ombro antes de voltar para onde a estagiária me espera. O nome dela é Samui, e ela é bem bonita — apesar da expressão seria com que me conduz pelos corredores do prédio, me dizendo o que é cada lugar.
— Aqui é a cafeteria geral, então você certamente vai encontrar pacientes, mas nenhum funcionário vem nesse lugar.
— É proibido? – pergunto, olhando para as mesas de plástico de cor azul celeste e para as mesas de alumínio. Não sei por que colocam esse tipo de mesa em locais tão gelados quanto um hospital. O metal fica tão frio que é quase impossível tocar ele por tanto tempo.
Essa pergunta, no entanto, eu não faço.
— Não – ela me responde sem parar de andar. — Mas é que você vai encontrar os acompanhantes dos pacientes também, e é sempre uma chatice. Fora que é tudo muito caro. Um cafezinho por 10 conto? Esse velho é um mercenário.
O tom indignado é tanto que acabo deixando escapar uma risada.
Nós continuamos o breve tour pelo centro cirúrgico com ela me explicando algumas coisas mais gerais. Tento não perguntar muito, porque já acho que tô incomodando demais. Não quero ser a novata que todo mundo já odeia no primeiro dia.
Um homem com jaleco vem na nossa direção. A roupa que ele veste por baixo é praticamente igual à nossa, exceto pela cor: a nossa é um médio roxo, quase acinzentado; a dele é um roxo mais escuro.
— Samui, gatinha, viu a cobra? – ele pergunta, sem nem mesmo nos cumprimentar. Samui suspira.
— O Doutor Orochimaru ainda não chegou. – A resposta dela é mais polida, e me pergunto se é porque estou logo atrás dela. — E para de chamar ele assim nos corredores. Você sabe que o interno dele vai te dedurar, não é?
— O Kabuto que chupe minhas bolas. – É a resposta dele, acompanhada de um sorriso cínico.
Ele finalmente me nota. O sorriso muda para algo mais educado, mas percebo que ele não parece tentar manter nenhuma distância, como se quisesse me incluir logo no rol das amigas dele, ou algo assim.
— É a enfermeira novata? – A pergunta é para Samui, mas ele continua olhando para mim, parecendo animado. Me sinto um pouco intimidada por não saber lidar com as expectativas alheias de socialização.
— É. O nome dela é Sakura.
— E aí, Sakura – ele diz com um sorriso. — Meu nome é Kiba. Interno do Doutor Jiraya.
Ah, um médico.
— É um prazer – digo o mais gentil possível. Eu sei que ele é só um interno, mas seria bom que ele gostasse de mim, assim como parece gostar da Samui.
— Não dá moral pra esse aí não, viu? – O tom dela é provocativo no aviso que me dá. Ela então coloca a mão próxima ao rosto como se me contasse um segredo, mas fala alto o suficiente para que ele ouça: — Ele não te liga no dia seguinte.
— Ainda nesse choro, Samui? – ele resmunga, bem-humorado.
Acho que eles tiveram um caso qualquer, talvez ela tenha se apaixonado por ele, apesar da pose de durona, mas eles conversam como se fossem amigos de longa data.
Nos despedimos pouco depois para continuar nosso caminho até a outra ala, a Oncologia.
Ela me leva até uma recepção sem me dar muitos detalhes sobre o que acontece naquela parte do hospital, porque ela é estagiária da Traumatologia e tá só dando uma força por ali enquanto não contratam uma enfermeira nova.
Na recepção, vejo uma bancada longa de pedra, talvez mármore. Um homem e uma mulher estão ali conversando com uniformes que são idênticos aos que usamos. Samui se anuncia com cumprimentos calorosos antes de dizer:
— Vim trazer uma encomenda.
Eu sou a encomenda.
Apesar de parecerem íntimos, eles não conversam muito. Samui apenas me apresenta à Guren e Kotetsu, ela enfermeira e ele técnico. Nos cumprimentamos polidamente e logo me sinto mais à vontade com Kotetsu que com Guren, já que ela me olha como se não tivesse nenhum motivo para tentar ser legal além do trabalho.
E, bem... Ela não tem mesmo.
Pouco depois, uma mulher empurrando um carrinho com vários aparatos médicos aparece. Essa eu já conheço. É por conta dela que eu soube do emprego e pude me candidatar.
Hyuuga Hinata, a enfermeira chefe da Oncologia.
— Sakura-chan! – Ela me cumprimenta e sinto Guren me olhando de soslaio. Acho que ela não gostou de saber que eu e Hinata nos conhecemos de outros carnavais, mas ignoro a sensação dos olhos dela e sorrio para a pessoa mais próxima de amiga que tenho.
Ela me abraça rapidinho, cochichando estar feliz por eu ter conseguido e perguntando se tinha dado tudo certo na entrevista. Alguns podem pensar que é uma pergunta idiota, já que fui contratada, mas é que ela me orientou a contar uma mentirinha no currículo.
Eles nunca iam me contratar sem experiência hospitalar, então ela me disse para colocar que fiz estágio no hospital onde a irmã dela é RH.
Esse emprego eu devo à Hinata.
Mais uma coisa que as pessoas fazem por mim e eu jamais serei capaz de pagar.
Depois de conversamos rapidinho sob os olhos afiados de Guren, Hinata me chama para acompanhar ela nas visitas aos quartos; assim eu posso ir conhecendo os pacientes internados já que vou trabalhar nessa ala.
Me sinto feliz de ter um rosto conhecido no meu novo – e primeiro, se não contarmos o estágio – emprego, principalmente quando é alguém tão gentil quanto a Hinata. Nós nos conhecemos na faculdade, mas nunca fomos muito íntimas. Ela vem de uma família bastante rigorosa, e se casou muito cedo com um cara bacana pelo que dizem.
Olho para as mãos dela no carrinho, procurando uma aliança, mas encontro somente a marca de sol nos dedos, denunciando que ela provavelmente a deixou guardada nos armários pessoais do hospital.
Enquanto andamos pelo corredor, ela me informa o que encontrar em cada sala, mas eu acabo pensando sobre o matrimônio, e como eu nunca tive vontade de me casar ou ter uma família.
Sarada é um acidente, mas acho que isso já ficou um tanto claro.
Todas essas coisas parecem requerer uma maturidade que eu nunca tive. Na verdade, ainda me sinto perdida, como se tivesse quinze anos eternamente, mas a Hinata, que é apenas dois anos mais velha que eu, já tem um ar bastante maduro.
Entramos num quarto em que o paciente está dormindo. Ele é careca e tem uma carranca enquanto dorme, parecendo sentir dor mesmo estando inconsciente.
Hinata me diz que eu posso ter acesso à lista de pacientes e seus medicamentos no computador; também há prontuários físicos, ela continua, mas que a estagiária sempre esquece de preenchê-los.
Pergunto o que ele tem, e Hinata me lança um sorriso triste. Câncer, é claro. Linfoma de não-Hodgkin. Ela me diz que ele não deve ter muito mais tempo.
— Quando a família vem, nós fazemos vista grossa para as comidinhas. A gente também não se apega tanto ao prontuário para a aplicação da morfina, porque ele sente muita dor – ela me diz enquanto verifica alguns aparelhos, anotando tudo. — Ele é bem bacana. Sempre tá sorrindo, tem uma voz gentil... Você vai gostar dele quando o encontrar acordado.
Concordo em silêncio enquanto observo Hinata, mas meu olhar logo se perde na expressão do paciente deitado em seu leito, alheio a nossa conversa enquanto morre lentamente.
Penso que a vida é injusta.
Ele tem uma família que o ama, e provavelmente está lutando para conseguir mais dias com eles, enquanto eu...
Tento afastar o sentimento de inveja, porque sim, é o que eu sinto quando vejo alguém morrendo em uma dolorosa paz. Nada importa quando se tem data certa – ou quase isso – para morrer.
Eu queria ter morrido há muito tempo, mas a vida é injusta e eu tô aqui, e o tal Nagato tá ali.
Vejo Hinata terminar os procedimentos no quarto enquanto tento prestar atenção em todas as explicações, então seguimos para o próximo. Tento decorar os nomes dos pacientes internados, mas acabo só lembrando de alguns: Nagato, Kimimaro e Moegi.
O que os três têm em comum para que eu lembre o nome deles? Todos estão perto da morte. Moegi, inclusive, é só uma criança.
A vida é mesmo muito injusta. Ou talvez seja a morte injusta.
Eu não sei.
Terminamos a ronda nos quartos e Hinata me passa mais algumas instruções sobre o funcionamento do hospital, rotina dos enfermeiros, sobre os técnicos, e como proceder em caso de alguma emergência no setor.
Sim, vou trabalhar na ala da Oncologia todos os dias.
— Pode parecer um pouco desanimador no começo, mas aqui não é só tristeza e morte – ela me diz, quando nota meu olhar um tanto distante. — Também temos felicidade e vida. Se prestar atenção nos detalhes, você vai perceber.
Não sei o que ela quer dizer com isso, mas concordo com a cabeça. Não sei se vou conseguir enxergar essa tal felicidade e vida dentro de um lugar em que as pessoas parecem perder as esperanças a cada segundo que passa.
Talvez tenha sido uma péssima ideia assumir esse emprego.
Eu deveria estar em casa, com a Sarada, onde a única tristeza que eu tenho que lidar é a minha.
Continuamos pelo corredor até uma sala maior, com divisórias móveis e poltronas mais confortáveis. Parece com uma sala de emergência com poltronas para os pacientes que precisam apenas tomar um soro e ir embora, mas ali ninguém tem uma emergência.
É só a sala da quimioterapia.
Kotetsu já está aqui. Ele se ocupa em fazer a triagem antes de encaminhar cada paciente para sua poltrona. Alguns já estavam sentados com a punção venosa para administração do medicamento, que era feita por outro enfermeiro.
— Aquele ali é o Chouji – Hinata me diz. — Ele é muito gente boa, então você pode contar com ele se precisar de algo.
Ele nota Hinata na sala e acena. Eu também aceno, numa tentativa de ser simpática, e percebo que ele tem olhos gentis. Agradeço por a equipe parecer tranquila — com exceção de Guren, que parece me ver como o lixo que eu sou. Espero que ela não me cause problemas.
Começamos a passar por cada leito ocupado. Hinata cumprimenta todos sem nem mesmo precisar olhar o prontuário para saber seus nomes, provando que os pacientes daquele horário provavelmente são os com maior frequência.
— É a novata? – Um homem que parece ser muito velho pela carranca que faz pergunta a Hinata, quase me ignorando. — Por que diabos contrataram uma punk?
Hinata ri.
— Não seja maldoso, seu Kakuzu – ela diz meneando a mão. — A Sakura-chan não é má pessoa.
— Ela tem cabelo rosa – o homem responde como se não fosse óbvio.
— E daí?
— E daí que é coisa de punk! Ela ao menos é formada?
— É claro que ela é formada – Hinata suspira. — O senhor acha que esse hospital é o quê? Uma balburdia?
— Não sei. Me diga você...
Fico assistindo enquanto Hinata o repreende. Eles parecem se conhecer há bastante tempo, porque apesar da formalidade no jeito que ela fala o nome dele, eles se provocam em tudo. Por fim, Hinata manda ele se comportar e me tratar bem, e o carrancudo abre um sorrisinho, como quem garante que só estava enchendo o saco.
— Seja bem-vinda, senhorita Sakura – ele me diz por fim, e sinto que a bandeira branca foi fincada para nós dois.
— Não liga pra ele – Hinata me cochicha com uma risadinha. — Ele só implica com quem gosta, mas se ele fizer alguma brincadeira que você não gostar, pode mandá-lo procurar o lugar dele.
Fico pensando que tipo de brincadeira ele pode ter feito com Hinata, mas não pergunto. Não é da minha conta. Só espero não ter que lidar com nenhuma situação desagradável. Não consigo não me perguntar o porquê de estar naquele lugar se nem preciso, e até poderia voltar atrás e ir embora, mas...
Lembro de Sarada, da minha vida, das coisas que sempre se repetem, e volto a lembrar do porquê não posso ir embora.
Agradeço o conselho de Hinata enquanto seguimos para o próximo leito.
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