. Canto 17: Nebulosa Maia

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Hoje é minha folga.

Eu moro num apartamento de um prédio baixo num dos condôminos perto do centro. O lugar é legal, seguro, e bastante arborizado, mas o apartamento em si é bem pequeno. Só tem dois quartos — o meu e o da Sarada — uma varanda minúscula, uma cozinha/área de serviço emendada na sala e o banheiro.

Não estou reclamando, afinal, eu não preciso de mais espaço do que isso para sobreviver. Mas me sinto claustrofóbica quando tem visita aqui em casa — o que não é exatamente frequente, já que eu não tenho ninguém para chamar de amigos e minha família é basicamente a Sarada. Hoje, no entanto, Sasuke está aqui, e tive que abrir todas as janelas da casa, que também não são muitas, para aliviar ao menos um pouco essa sensação de aperto.

Olhando por cima do ombro, o vejo sentado no chão, as costas escoradas no sofá velho, enquanto segura Sarada nos braços. Faz algum tempo que ele tem o olhar fixo na televisão, completamente entretido pelo noticiário que relata algum escândalo político.

Me pergunto se ele assiste televisão sentado no chão quando está na própria casa, ou se deixa os botões da camisa branca abertos até o meio do peito. Não sei bem como ele age na própria casa porque nunca fui lá, mas sei que é uma casa bem diferente da minha.

Completamente.

Penso um pouco sobre o Sasuke enquanto preparo o almoço, me perguntando sobre Ino no processo. Faz muito tempo que não a vejo por aqui. Nem ela, nem o Inojin, filho deles.

Eu nunca pergunto muito sobre a vida deles, não quero parecer bisbilhoteira, mas percebi que já faz algum tempo que ele sempre vem sozinho e não fala mais dela. Sei que eles ainda estão juntos porque ele usa a aliança, mas talvez estejam brigados.

Deve ter sido algo bem sério.

Me pergunto se Sarada tem a ver com isso, mas acho que não. Ino nunca pareceu se importar muito com toda a minha situação, nem sobre como o Sasuke lida com isso; pelo contrário, assim como ele, ela me ajuda muito. Todo o enxoval da Sarada foi ela quem me deu, apesar de eu achar que foi pago com o dinheiro do Sasuke, já que ela não parece trabalhar.

É quando escuto Sarada chorar. Olho para trás por reflexo, vendo Sasuke balançá-la com carinho e acabo sorrindo. Eles se dão muito bem desde sempre. Gosto do jeito como ele olha para ela, e como ela se acalma com os sussurros dele. Não percebo que estou encarando até ele me olhar sorrindo.

Droga.

Sei que corei. Sempre coro.

Tento parecer natural, mas é claro que Sasuke sabe que estou desconsertada. Desvio o olhar, voltando minha atenção para os ingredientes sobre o balcão estreito da cozinha. Hoje o almoço vai ser lasanha; com a agitação no hospital, eu não tive muito tempo para fazer compras, então acabei usando o que tinha.

Depois de montada, a coloco no forno e me viro para ele, que está novamente mergulhado no mundo da televisão. O olho por alguns segundos apenas para chegar à conclusão, mais uma vez, de que ele é realmente o homem mais bonito que eu já vi. Parece até um desses caras que aparecem nas revistas chiques que a Ino me traz eventualmente.

Sasuke me olha.

— Vou tomar um banho. Você fica com ela, né?

— Claro – ele me responde daquele jeito muito gentil, muito tranquilo.

Tranco a porta quando entro no banheiro e aproveito que sei que Sasuke estará com Sarada o tempo todo para lavar o cabelo com calma.

Quando eu tô sozinha, acabo sempre tomando banhos muito rápidos, com medo que ela precise de mim e eu tenha que sair com xampu no cabelo. Mas com Sasuke em casa consigo relaxar o suficiente para apreciar o cheiro dos produtos de higiene agindo na minha pele e no meu cabelo.

Olho para o produto de marca importada que está quase no final. Nem sei como se pronuncia aquilo, mas acho que é francês, ou italiano... Penso em Ino novamente, porque foi ela quem me deu esse xampu algum tempo atrás, quando voltou de uma viagem à Europa.

Eu deveria perguntar a Sasuke sobre ela, mas sinto que é algo que não vou gostar de saber. Se eles estiverem se separando, eu vou me sentir culpada, apesar de ela sempre ter garantido que minha situação jamais afetaria o relacionamento deles. Isso até faz um pouco de sentido, mas a longo prazo talvez não seja exatamente fácil ver seu esposo bancar uma outra família.

Sasuke e Ino formam um dos casais mais bonitos que eu já vi, e ela é tão legal pra mim que eu odiaria ser um motivo para que eles estivessem brigando, apesar de achar que sou insignificante demais para isso.

Enquanto tiro o xampu, me ocorre que talvez ela tenha descoberto que Sasuke registrou Sarada, e fico mais preocupada.

Tento afastar meus pensamentos, mas fico imaginando quão transtornada ela ficaria caso soubesse que a pequena fortuna de Sasuke seria dividida com a minha filha em caso de morte.

De repente, penso que não devia ter deixado ele fazer isso naquela época. Que deveria ter registrado minha filha apenas no meu nome.

Coloco as mãos no rosto.

Tô sempre fazendo merda.

Termino meu banho mais rápido do que pretendia, me enxugo e saio enrolada numa toalha, me sentindo inquieta. Quando abro a porta, Sasuke e eu trombamos um no outro.

Eu já disse que minha casa é pequena, não é? Ela é bem pequena, então não é algo incomum acabar trombando em alguém que está saindo do banheiro enquanto você tá tentando passar para a cozinha. Esse apartamento não foi feito para mais de uma pessoa.

Sasuke me segura antes que cambaleie para trás, e ainda bem que ele faz isso, senão poderia ter caído de bunda com um passo em falso. Ele tem uma das mãos nas minhas costas, a outra está apoiada na parede. Quando eu recuo um pouco a cabeça, vejo que ele está olhando para mim.

Ficamos assim por um segundo mais longo e me vejo corar. Sasuke é muito bonito, e assim tão perto, olhando diretamente pra mim, me sinto exposta. No segundo seguinte, desvio meu olhar e dou um passo para trás, e a mão dele deixa minhas costas.

— Desculpe.

Digo sem muito jeito, puxando a toalha para que ela não vacile e caia. O olho novamente, ele sorri de uma maneira diferente, mais afável. Sasuke passa a mão nos cabelos e vejo que molhei boa parte da camisa dele com as gotas de água que escorrem do meu cabelo molhado, mas ele não parece se importar quando me diz:

— Foi só um acidente.

Ele não espera que eu responda e começa a fazer o caminho dele na direção da cozinha. Fico parada enquanto ele passa, sem saber muito bem o que fazer a seguir. A sensação dele ainda é forte em mim. Olho na direção da sala e vejo Sarada agitar seus bracinhos dentro de seu pequeno moisés.

Nesse momento, quando Sasuke já havia passado por mim, escuto sua voz como se estivesse contando um segredo para o vento que entrava pela janela:

— ...um feliz acidente.

...

Olho para trás por reflexo, apenas para ver as costas dele começarem a procurar alguma coisa na gaveta de talheres. Se eu já estava sem saber o que fazer, naquele instante pareço ainda mais confusa, mais errada. Eu provavelmente não escutei direito e, mesmo que tivesse escutado, eu não saberia dizer o que isso significava.

Antes que ele dê uma olhadela para trás, me apresso na direção do quarto no intuito de vestir uma roupa antes de voltar à sala para olhar minha filha, querendo que ela me diga que eu estou ouvindo coisas. Sasuke não estava flertando comigo, não é? Ele jamais faria isso.

Olho discretamente para a cozinha e depois para Sarada de novo. Ainda não sei bem como agir ou que fazer, mas sei que não quero confusão. Sasuke é casado com Ino, e ela é incrível. Eles são incríveis. Ninguém que tem Yamanaka Ino como esposa olharia para alguém como eu, eu tenho certeza.

É coisa da minha cabeça.

Ele volta para sala e é como se nada tivesse acontecido. Sentando-se no sofá, me diz que a comida tá quase pronta, e que eu deveria ir secar o cabelo para não pegar um resfriado. Confirmo com um agitar de minha cabeça, ainda me sentindo atordoada com a possibilidade de Sasuke estar tentando flertar comigo, mas quando ele age tão normal assim, fico pensando que realmente é impossível.

Vou para o quarto sem olhar para ele e acabo repetindo em minha mente um sonho estranho em que sou casada com Sasuke. Eu sei que é errado, mas às vezes eu penso como teria sido se eu o tivesse conhecido antes. Talvez ele tivesse se apaixonado por mim.

Mas são só pensamentos distantes, de sonhos impossíveis. Eu não quero causar mais confusão entre ele e a esposa dele. Não estou tentando roubar ele da Ino. Jamais faria isso, seria tolice. Se eu pudesse, nem falar com ele eu falaria. Se eu pudesse, eu pegaria Sarada e iria morar em qualquer outro lugar. Mas eu ainda não posso. Ainda dependo da boa vontade do Sasuke e da caridade da Ino.

E mais que isso, ainda tem o irmão dele que jamais me deixaria ir.

...

No final das contas, tem pessoas que nasceram para sofrer, eu acho. Eu sou uma delas, por isso aceito meu destino, torcendo para que Sasuke não queira nada comigo, porque eu não tenho nada para dar a ele. Mas ainda assim, se ele quiser...

Termino de secar o cabelo e saio do quarto; Sasuke me olha.

— Vamos comer?

— Vamos.

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