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Canto 7: Aldebaran
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Hoje meu turno começa às seis da matina, por isso desço no ponto às cinco e meia. Sarada está comigo em roupinhas lilases, um charme. Ela brinca com um chacoalho que não faz tanto barulho assim, e acho que talvez ela goste do jeito que os anéis de plástico se mexem. Eu não sei de verdade.
De todo modo, vejo Kiba passar numa moto assim que chego na entrada do hospital. O turno dele deve ter acabado, finalmente. Passando pelo estacionamento, vejo Hinata entrando no prédio. Penso na nossa escala e sei que ainda falta umas boas horas para ela poder sair; talvez ela tenha ido pegar um pouco de ar fresco, apesar de geralmente fazermos isso do outro lado do hospital.
Aperto o passo para alcançá-la. Hoje me sinto de bom humor. Hinata pega Sarada nos braços e começa a conversar com ela, que parece entender alguma coisa, já que a responde com vários balbucios. Falamos apenas trivialidades em nossa conversa, e ela comenta que Sarada está crescendo muito rápido. Já trabalho há dois meses aqui, então acho que ela tem alguma propriedade para falar algo assim.
Entramos no elevador juntas, seguidas pelo doutor Jiraya, que nos cumprimenta de maneira polida. Ele é um dos médicos que mais perambula por todos os setores, e talvez seja por isso que Kiba viva só perambulando também. Ele desce no primeiro andar junto com a Hinata; eu continuo para o segundo, onde fica todo o setor pediátrico e também a creche para os funcionários.
Quando Zaku estica os braços na direção de Sarada, ela começa a se agitar, querendo ir. É bom que eles se deem bem porque ela passa muito tempo na creche. Ela também adora a Kim. Desconfio que eles devam fazer todas as vontades dela. Acabo apenas me despedindo do meu bebê com um afago em seu rostinho, e ela me sorri como se desejasse que eu tivesse um bom dia.
Já estou tendo, meu bem.
Depois de colocar o uniforme, apareço na recepção do setor de internações da Oncologia. Chouji já está lá junto com Hinata, eles estão fofocando sobre os pais da Moegi, uma paciente de apenas dez anos com um câncer agressivo. As chances de sobrevivência são baixas. Os pais dela estavam considerando ter um segundo filho para doar os órgãos que começaram a falhar na Moegi, mas eles andam discutindo bastante nos corredores e, juntando o que ouvimos aqui e ali, descobrimos que o pai dela está tendo um caso. Todo mundo acha que eles vão se separar.
— O pior de tudo é que a mãe vai viver com a culpa para sempre – Hinata diz enquanto come uns petiscos que pegou na máquina da recepção 1. — Ela vai achar que é culpa dela por não ter engravidado pela segunda vez, por não ter lutado pelo casamento, por não ter tentado... enfim, tentado tudo. Enquanto isso, o cara vai casar com a outra, ter filhos e fingir que não tem passado.
— Você acha que ele não vale um centavo, não é? – Chouji responde enquanto digita algo no sistema do hospital. — Sakura-chan, diz pra ela que nem todo homem é escroto.
Hinata me olha com uma expressão cúmplice e eu acabo dando um sorriso mais revelador do que gostaria.
— Não quero entrar nessa discussão – digo, na tentativa de ser neutra, mas minhas experiências com o sexo oposto atestam todo o criticismo de Hinata. — Mas assim, ele já tá traindo a esposa, né...
— Tá vendo? Ele é um escroto. – Hinata joga como se encerrasse a discussão, mas Chouji só balança a cabeça e continua digitando. Obviamente isso não foi motivo para que ele mudasse de opinião, e fico pensando nas várias outras coisas que levaram aquele homem a trair.
Eu não sei se posso julgá-lo por querer uma fuga de toda essa realidade. A esposa só vive para a filha, que muito provavelmente não irá sobreviver à LPA, um tipo de câncer bem incomum na idade dela. Não faço ideia de como eles estão enfrentando isso, mas a Moegi parece ter notado que seus pais já não se dão mais tão bem assim.
No painel, vemos que o Nagato solicitou que alguém fosse ao quarto dele e eu me prontifico a ir. Quando entro no quarto, ele me olha com um sorriso tranquilo, mas já aprendi a identificar quando ele sente dor. Ele me pede um sedativo.
— Você tem certeza? Tá quase no horário de visita... – Lembro ele, porque é um dos poucos pacientes que sempre recebem visitas.
— Sobre isso... Eu não quero ver ninguém hoje – ele me diz com um olhar envergonhado e eu o entendo.
Concordo com a cabeça sem fazer muito mais perguntas e peço para que ele espere um pouco. Vou até a Hinata para explicar a situação. Ela parece pensativa enquanto chupa os dedos sujos pelo tempero dos petiscos e finalmente me olha com um suspiro.
— É melhor procurarmos a Tsunade-sama.
A médica responsável pelo setor de Oncologia, que é conhecida por ser uma carrasca pelos internos, mas que para nós, a equipe de enfermagem, é só uma das médicas mais humanas que existe.
Nós ainda não interagimos muito além do padrão, mas sei que todos os outros têm boas histórias para contar sobre ela.
Vejo Hinata discar o número dela e esperar. Nesse momento, Chouji se levanta e me chama, dizendo para eu deixar a Hinata resolver tudo e ir ajudá-lo com a preparação das sessões de quimioterapia da manhã. Alguns pacientes chegam bem cedo e ele gosta de já ter tudo à mão.
Olho para Hinata buscando uma confirmação de que ela ia cuidar de tudo e recebo um aceno de cabeça. Torço para que o Nagato consiga um pouco de privacidade hoje. Os amigos dele são bem frequentes, mas eu entendo que tem dias que você só quer remoer a própria miséria, ou até mesmo não lidar com isso e apenas dormir.
Eu entendo o Nagato.
...
Os pacientes da quimio começam a chegar e Kotetsu, que chegou um pouco atrasado, já os acomoda em seus respectivos leitos. Chouji e eu dividimos os pacientes e começamos a aplicação intravenosa. Geralmente recebemos os mesmos rostos, as mesmas pessoas... Dessa vez, no entanto, vejo um novo nome na lista.
No leito designado, vejo a expressão nervosa da mulher que me espera. Não é incomum que os pacientes, depois das primeiras sessões, venham desacompanhados, mas ela parece estar sozinha. Dou um sorriso simpático para ela antes de me apresentar, ela concorda com a cabeça e começa a me fazer um monte de perguntas.
Nohara Rin tem câncer de mama.
— A Doutora Tsunade optou por quimioterapia neoadjuvante, e quando o tumor diminuir, ela vai fazer a remoção.
Ela começa a me falar sobre o câncer, sobre como descobriu. Eu aceno com a cabeça em silêncio apenas para que ela saiba que estou ouvido, mas confesso que minha atenção está mais na administração intravenosa do que nas palavras dela.
A voz dela é bonita, mas dá pra perceber que ela está aflita com tudo o que está acontecendo. Posso sentir os receios dela só de ouvir sua voz. Quando olho para ela, percebo o cabelo curto sedoso e os olhos amendoados. Se eu tivesse que apostar, diria que ela é uma dessas mulheres gentis, cheias de sonhos, e que merecem viver.
— Tsunade-sama é a melhor no que faz – digo para ela, na tentativa de trazer alguma segurança. — Você está em boas mãos.
A mulher me sorri, um pouco mais à vontade, mas ainda nervosa. Não é uma frase genérica de uma desconhecida que vai fazê-la se sentir melhor sobre o câncer dela, mas fico feliz que ela esteja aparentando ter um pouco mais de esperança.
— Sabe, eu vou dizer algo agora, mas não me leve a mal... – Ela sorri e encolhe os ombros. — Desde que descobri o câncer, é só nisso que venho pensando, mas quando penso em dizer em voz alta, me sinto tão mesquinha...
Continuo olhando para ela, tentando não aparentar nenhum tipo de reação adversa. A verdade é que eu só estou curiosa de maneira bem repentina. Todo paciente com câncer tem algum receio pessoal que parece bobagem, mas que não é. Nada é trivial no câncer.
Rin espera um momento antes de inclinar o corpo na minha direção, e eu faço o mesmo, quase como um espelho. Parece que vamos trocar um segredo.
— Não tenho medo da morte. Só fico pensando se o formato da minha cabeça é estranho – ela me diz num sussurro e me olha com cautela antes de continuar. — Meu cabelo vai cair, não é? Não quero ter uma careca esquisita.
Não sei o que me deu, mas naquele momento cubro a boca com uma mão antes que meu riso escape. Rin parece se divertir quando endireita seu corpo novamente e me olha parecendo à vontade o suficiente para saber que eu não estou zombando dela, mas sim rindo... da situação.
Confesso que achei que poderia ser algo mais profundo, entretanto tenho que admitir que também me preocuparia com isso se tivesse que fazer quimioterapia. Me desculpo com ela antes de responder, e ela abana a mão na frente do rosto como se eu não tivesse que pedir desculpas.
— Se for, você sempre pode arrumar uma peruca – digo, tentando não parecer leviana. — Lenços também são uma boa opção.
— Oh, não. Lenços não... Meu esposo vai rir de mim – ela me diz fazendo uma falsa careta. — O safado é totalmente insensível. Além disso, segundo ele, eu vou adorar sentir a água caindo direto no couro cabeludo. Disse para eu comprar um bom protetor solar para a careca e aproveitar a água do chuveiro.
Acho que estou sorrindo enquanto ela me conta essas coisas. Parecem ser o tipo de casal que vivem alfinetando um ao outro, mas que se gostam de verdade. Talvez seja esse mesmo sorriso que a incentive a continuar:
— Aí depois, como se não bastasse, ele acendeu um cigarro e disse que eu poderia tentar matar o câncer sufocando-o com nicotina. – Ela revirou os olhos antes de suspirar. — Eu amo esse desgraçado. Você é casada?
— Não – Respondo, ainda contagiada pelas histórias dela. O clima é divertido. — Mas tenho uma filha.
— Mãe solteira por opção? – ela me pergunta com aquele jeito tão natural e gentil.
— Mais ou menos. – É a única resposta que eu tenho para ela, que dá de ombros com uma careta.
— Homem é tudo babaca mesmo – diz enquanto se recosta na poltrona. — Meu esposo não quer ter filhos. Eu não quero ter câncer, mas tenho. A vida não é só sobre sua própria vontade.
Acho a comparação um pouco injusta, mas não digo nada. Uma risada me escapa pelos lábios e continuamos conversando um pouco mais. Eu não me apresso para sair porque é a primeira quimio dela e ela está sozinha. Quero me certificar que ela não vai passar mal logo de cara.
Algum tempo depois, Rin vai parecendo ficar um pouco cansada. Ela fecha os olhos e fala menos, e é nessa hora que percebo que é a minha deixa. A quimioterapia tende a deixar as pessoas um tanto fatigadas, algumas mais, outras menos. De toda forma, digo que vou deixá-la descansar e que, se precisar, ela pode me chamar.
Depois de vê-la concordar com um murmúrio, saio do local e dou de cara com um homem alto que parece um tanto perdido no corredor amplo. Ele me olha como se eu fosse sua salvação e vem direto na minha direção com passos mais largos.
— Oi, eu tô meio perdido aqui... Você sabe onde eu encontro Nohara Rin? Ela tá fazendo quimioterapia pela primeira vez e me disseram que eu poderia achar ela por aqui, mas...
— Ela tá nesse leito aqui – informo polidamente e ele ri, um pouco sem graça.
— Que bom! Eu tô super atrasado... Fiquei preso no trabalho e o trânsito... – As justificativas dele são plausíveis, mas ele não precisa dizer tudo isso para mim. É engraçado porque ele parece um pouco nervoso também, exatamente como a Rin momentos antes. — Enfim, eu vou...
— Tudo bem – digo com um sorriso. — Ela já começou com o medicamento, então tá um pouco cansada. Qualquer coisa você pode me chamar. Eu sou a Sakura, enfermeira do setor.
— Certo. Sakura. Ok. – As palavras saem da boca dele como lembretes mentais, o que me faz pensar que ele pode estar um tanto agitado. Tudo bem, ter a esposa com câncer não deve ser fácil. — Eu vou até ela então. Obrigado.
— Disponha.
Me dando um sorriso em agradecimento, ele se apressa pelo corredor e entra o leito. Não posso deixar de achá-lo bem bonito. Ele é alto e tem um jeito afável, parece ser um bom marido, bem preocupado, mas sua aparência e jeito é quase incompatível com as coisas que Rin me contou sobre ele.
Bem, talvez dentro da relação eles sejam de outra forma, e quem sou eu para dizer algo assim com base na meia dúzia de palavras que trocamos?
Dou uma olhadinha para dentro de onde ela está novamente apenas para me certificar de que tá tudo bem e o vejo beijar a mão dela com delicadeza. Eles sorriem um para o outro e logo o homem começa a se desculpar pelo atraso, mas aí a Rin o interrompe:
— Tá tudo bem. Não espero menos que um atraso de uma hora vindo de você, Kakashi.
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