. Canto 9: Alpha Tauri

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— Céus, isso estava muito bom, Hina! – eu digo ao me recostar na cadeira, enquanto Hinata sorri para mim com um olhar orgulhoso.

Hoje ela fez uma surpresa para nossa equipe e nos trouxe um bolo caseiro. A comida da Hinata é uma lenda entre os funcionários, e nem mesmo a rabugenta Guren resiste. Depois de comer, ela voltou apressada para os corredores e deixou a mim e a Hinata aqui na sala de descanso dos enfermeiros comendo bolo de laranja.

Nós já estamos prontas para irmos para casa, por isso terminamos de comer e ficamos apenas esperando Guren sinalizar que já podemos sair. É assim que a gente faz aqui na ala da Oncologia, só vamos embora quando os enfermeiros do próximo turno sinalizam que está tudo certo.

— Bolo caseiro é muito mais gostoso que essas porcarias confeitadas – ela me diz enquanto andamos pelo corredor, ambas com nossas roupas causais. — Meu esposo, entretanto, prefere ficar comendo essas besteiras de pasta americana. Adora um glacê real e troca qualquer refeição por cup noodles. – Ela suspira. — Esses dias mesmo fomos para o aniversário de um sobrinho nosso e ele se entupiu de tudo o que tinha lá e ficou com dor de barriga por dois dias.

Eu dou uma risada respeitosa. Sempre que ela fala do esposo, sinto que ele é uma dessas pessoas avoadas e um tanto atrapalhada, mas eles parecem se dar bem de alguma maneira e fico imaginando como é dividir o dia a dia com alguém dessa forma. Ser casado.

Não parece fácil, mas quando vejo Hinata falar, parece um pouco divertido.

Nós seguimos pelo corredor até a saída mais próxima da ala da Oncologia. Ali perto, vejo Kiba vindo na nossa direção. Ele veste uma camiseta com capuz e sem mangas. Quem vê não diria que é um futuro cirurgião, mas devo dizer que ele tem seu charme.

— E aí – ele nos cumprimenta daquele jeito meio largado. Hinata responde com um aceno de mão e eu afirmo com um murmúrio. Nas costas, Kiba carrega uma mochila; nos braços, dois capacetes. — Acabou seu turno também, Sakura?

— Finalmente. Vou pegar a Sarada e correr pra casa.

— Eu te daria uma carona, mas mesmo que você não estivesse com a tomatinha, eu só tenho vaga para uma... – ele diz e faz aquela expressão de quem pede desculpas. Eu dou de ombros.

— Quem sabe um dia você não compra um carro – digo divertida. Kiba é desses caras com quem você pode falar de qualquer besteira.

— Aí vai ser carona garantida pra você! – ele me diz com um sorriso antes de se virar para Hinata, que estava bocejando. — Pronta, Hina?

— Vamos lá – Hinata responde antes de esticar o corpo, e então se vira para mim. — Até amanhã, Sakura.

— Até amanhã, Hina. Dirija com cuidado, Kiba.

— Deixa com o pai.

Eles se vão um ao lado do outro. Kiba passa um dos capacetes para ela e vejo eles iniciarem uma conversa. Os observo por um momento enquanto deixo meu pensamento juntar alguns cenários.

Kiba é o único interno que realmente conversa com os enfermeiros, não que os outros sejam esnobes e não falem conosco, mas são sempre coisas de rotina e conversas polidas. O Kiba não. O Kiba realmente conversa conosco, traz fofoca lá de cima e tenho certeza de que leva fofoca daqui de baixo também.

Mas confesso que ele passa bastante tempo na Oncologia, mesmo que não tenha nada para ele fazer, e na maior parte do tempo está de papo com a Hinata. Guren não gosta dele, mas desconfio que ela não gosta de ninguém. Mesmo assim, sempre que vê Kiba e Hinata conversando, ela faz uma careta.

E não é sempre, mas com certa frequência Kiba dá carona para a Hinata, e algumas vezes os vejo no estacionamento juntos quando o turno dela termina ou o dele.

Eu acho que ela trai o marido.

Tudo bem que pegar carona e acompanhar um colega até a saída não significa muita coisa, talvez eles só se deem muito bem, mas... Todas as vezes que ela pega carona com ele, Hinata esquece de pôr a aliança.

Não é da minha conta, eu sei; mas é meio difícil não enxergar isso depois de notar alguns óbvios sinais.

Um tanto distraída, continuo a caminho da creche e, quando estou prestes a alcançar a escadaria, um par de olhos giram em minha direção como se eu fosse algum tipo de salvadora. É Kakashi, o esposo da minha paciente favorita.

— Sakura – ele me chama enquanto dá passos largos para encurtar a distância. — Ainda bem que eu te encontrei.

— Aconteceu alguma coisa? – Pergunto confusa, pois ele está um pouco longe da Oncologia.

Ele leva uma mão para a nuca e parece um tanto sem jeito, mas continua mesmo assim:

— Você sabe me dizer onde tem uma máquina de cafezinho nesse hospital? Procurei em todo canto, mas não acho e todo mundo me diz pra ir naquela cafeteria em que o cafezinho custa dez paus. – Ele faz uma careta. — Sério, uma xicarazinha de nada, dez pila. Eu me recuso.

Kakashi estava se tornando uma figura frequente no dia a dia do hospital. Nos dias em que há agendamento para a quimioterapia da Rin, ele sempre aparece, nem que seja só para levá-la para casa. Nós não conversamos muito, eu e Kakashi, mas todas as vezes que Rin me fala do esposo, eu tenho a impressão de que ela está falando de uma pessoa completamente diferente.

Encolho os ombros para Kakashi e dou um sorriso de desculpas.

— Meio que não existe mais máquinas de café à disposição dos pacientes e acompanhantes. Não sei o porquê de terem acabado com elas, quando eu comecei a trabalhar aqui já era assim, mas agora só comprando mesmo.

O vejo fechar os olhos e tirar um segundo para dar um longo suspiro. A expressão de decepção é única, e noto como os olhos dele são mais expressivos do que o resto do rosto. Dou uma risadinha complacente quando ele murmura sobre o serviço médico ser caro demais para que não disponibilizem ao menos um cafezinho.

— Ainda me recuso a pagar tanto por um café de... o quê? ... 50ml? Dá próxima vez, vou me certificar de trazer uma garrafa lá de casa.

— É uma opção, ou você pode comprar por apenas um conto lá na barraquinha da frente do hospital. Tem dia que tá um pouco fraco, mas geralmente escuto os acompanhantes elogiarem, e vendem num copinho de 150ml.

— Você não toma café? – Ele me pergunta confuso. — Digo, o jeito que você falou faz parecer que nunca comprou nada lá.

— Eu tomo café, mas... O hospital oferece para nós, funcionários.

... E o vejo quase revirar os olhos.

Não consigo evitar uma risada. Não porque acho engraçado, mas porque ele tem uma expressividade peculiar. Quando ele me olha novamente, parece estar tendo uma ideia, e eu quase consigo ler a mente dele. Dou outra risada.

— Não me peça isso.

— Vamos lá, Sakura... Você é minha enfermeira preferida e eu estou desesperado por café.

— Mas não o suficiente para ir até a barraquinha na frente do hospital.

— Exatamente.

Balanço a cabeça negativamente me sentindo animada. Todo paciente na Oncologia tem seu enfermeiro preferido e eu sou a de Nohara Rin. Ela sempre chega sozinha, então eu sempre faço a administração da intravenosa nela por último, na esperança de que o esposo dela se atrase um pouco menos — o que nunca acontece. Por isso, eu acabo passando um pouco mais de tempo com ela apenas conversando.

Gosto dela também e das histórias que ela me conta sobre o trabalho dela, e quando Kakashi chega, eu os deixo a sós porque sei que vai ter com quem conversar. Gosto como eles parecem ser um casal tranquilo, apesar de que todas as histórias que ela me conta sobre o esposo o fazem parecer bem grosso.

Talvez esse seja o Kakashi que ela conhece, e se eles se dão bem assim, então... tudo bem? Eu não sei. Mas o Kakashi que eu conheço é gentil, e talvez por isso eu olhe para os lados e considere, de verdade, pegar um pouco de café pra ele.

E da mesma forma que eu li a mente dele, ele lê a minha.

Daí me dá um sorriso.

Então eu cedo.

— Fique aqui, tá?

Kakashi concorda com a cabeça e eu saio; quando retorno, o café está bem quente e Sarada está em meus braços. Aproveitei para já buscá-la e peço desculpas a Kakashi pela demora. Ele dá de ombros de maneira tranquila e diz que está tudo bem, mas fica olhando para a bebê em meus braços com curiosidade.

Sarada o encara com sua chupeta vermelha. Eu sei que existem um monte de estudos sobre o porquê não se deve dar uma chupeta para um bebê, mas é como a Ino costuma dizer: às vezes, tudo o que uma mãe precisa é de uma chupeta na boca da criança.

— Então essa deve ser a... Sarada, não é? – Kakashi pergunta, tirando o café da minha mão, ainda olhando para a bebê. Eu concordo e ele continua, dessa vez usando aquele tom besta que se costuma usar com criaturas fofas: — Oi, Sarada.

Esse tom de voz dele é uma preciosidade, mas seguro a risada.

— Dá oi pra ele, Sarada – peço, mas ela não faz nada além de olhar para mim, depois para ele e depois para mim novamente. Dou uma risada. — Ela não está muito sociável hoje.

Kakashi maneia a cabeça em tom de conformismo e, quando me olha de novo, deixa o pensamento escapar.

— Sempre quis ser pai, mas acho que vou morrer sem ver uma criança minha.

— A Rin quer filhos, não é? – Pergunto, enquanto Sarada agarra uma mecha do meu cabelo. Talvez seja a cor, mas ela sempre acaba brincando com ele.

— A Rin...? – Ele questiona confuso. — Eu... Acho que sim? Faz tempo que não falamos sobre isso, acho que desistiu. O Tobi sempre deixou claro que não quer filhos, então...

Pisco aturdida.

— Tobi?

Ele me olha ainda confuso.

— O esposo da Rin.

Assim que as palavras saem da boca dele, eu me sinto uma idiota. Kakashi não é o esposo da Rin, e estranhamente tudo fez um pouco mais de sentido mas eu ainda me sinto uma idiota e gostaria de encontrar um lugar onde eu pudesse me esconder.

Encolho os ombros.

— Eu pensei que você fosse o esposo da Rin – admito com um olhar sem graça.

— Eu? – Ele pergunta surpreso e depois ri. — Não! Eu nunca nem cheguei a noivar com alguém, quanto mais casar, mas entendo você ter pensado isso. Sou eu quem estou aqui como acompanhante dela, não é mesmo?

— É, desculpe – peço, ainda me sentido sem graça. — Eu só supus isso sem nem considerar que pudesse não ser você, apesar de que toda vez que ela me fala do esposo, eu tinha a sensação que ela estava falando de alguém totalmente diferente.

Kakashi toma um golinho do café e parece divertido enquanto me ouve. Agradeço aos céus ele ser tão tranquilo, porque me faz sentir melhor pelo erro ridículo que cometi.

— Eu não sou tão escroto quanto o Tobi, eu espero – diz com uma risada tranquila. — Ele é um idiota, mas gosta muito da Rin. Acho que é a única pessoa que ele ama no mundo. Ele não deixa transparecer, mas tá bem preocupado com o câncer dela.

— Ele deve ser bem ocupado para não estar acompanhando ela na quimio – digo, e Sarada vê alguma coisa que lhe chama atenção num cartaz na parede. Ela aponta e balbucia algo. É uma foto publicitária de um plano de saúde.

— Não tanto. É que o Tobi sofreu um acidente faz uns anos e quase morreu. Ele ficou internado por um tempão, o tratamento era doloroso e ele sofreu muito até se recuperar. Desde então ele odeia hospitais. Fica cinco vezes mais rabugento. – Kakashi olha para o cartaz do plano de saúde com Sarada por um momento antes de voltar a olhar para mim. — Então sou eu quem venho. Não é nenhum sacrifício pra mim, já que ela é minha amiga, mas sei que seria bem mais significativo para ela se ele pudesse acompanhá-la.

— Nossa, eu... Eu não fazia ideia – disse. — Ela nunca me falou sobre isso. Deve ter sido bem traumático para os dois.

— Ah, não. Eles não estavam juntos quando ele sofreu o acidente. Isso foi bem antes de eles se conhecerem – Kakashi me conta, o café pela metade. — Você tá com pressa de ir pra casa? A história é um pouco longa, mas eu posso encurtar.

— Por favor. Ela é um pouco pesada – digo, me referindo à Sarada.

— Eu posso segurar ela se você quiser. Adoro bebês e tô querendo pedir isso desde que você chegou com ela.

Dou uma risada.

— Se ela quiser ser segurada por você, eu deixo.

Kakashi maneia a cabeça como se estivesse considerando o desafio, toma o resto do café num só gole e então estica suas mãos grandes na direção de Sarada, que o olha confusa a princípio. Ele a chama com aquele tom de voz bobo e Sarada acaba hesitando. Eu espero um pouco mais enquanto Kakashi tenta persuadi-la, e por fim, o seu objetivo é alcançado.

Pego o copo vazio da mão dele ele segura Sarada nos braços parecendo um pouco desajeitado no começo, mas genuinamente orgulhoso de ter conseguido que a minha filha resolvesse querer ser carregada por ele. Ela olha ao redor e começa a tateá-lo como se quisesse descobrir esse novo território.

— Bebês me adoram também – ele diz com orgulho.

— Tô vendo.

— Certo, então deixa eu te contar a maravilhosa história de como conheci Nohara Rin e sobre como Tobi roubou ela de mim.

— Como assim roubou?

— Você vai entender... – ele diz nesse suspense barato e Sarada lhe fala alguma coisa incompreensível. — Tudo bem, tudo bem. Eu já vou contar – ele diz para ela antes de olhar para mim. — Mulheres são sempre tão apressadas.

Eu dou uma risada quando Sarada soltar um dada mais alto, como se estivesse irritada com o comentário, e ele apenas se desculpa antes de me contar a tal história.

— Há uns 7 anos eu perdi meu pai. Ele tinha um osteosarcoma muito agressivo e morreu em questão de semanas depois do diagnóstico. Eu fiquei bem mal e um amigo, o Gai, me empurrou para esse grupo de apoio a pessoas que perderam pessoas para o câncer – ele ri. — Existem grupos de apoio para tudo, não é? Mas enfim... Eu fui numa reunião e conheci a Rin. Era ela quem mediava as reuniões, e aí no meio de todo esse furacão, a gente começou a flertar e uma coisa leva a outra... Nós começamos a nos conhecer melhor, saímos juntos, fazer coisas de casal... Até que um dia, quando eu a levei na minha casa pela primeira vez, o Tobi apareceu que nem um doido dizendo que tinha nos inscrito numa aula de windsurf. Sério, depois do acidente, ele virou esse cara que quer viver a vida ao máximo e sobrou pra mim acompanhá-lo em todo tipo de atividade esquisita.

"Mas aí ele chegou lá na minha casa, botou os olhos na Rin e cagou para o meu encontro. Ele começou a tagarelar sobre windsurf e a Rin foi na dele até o ponto em que eu estava apenas mexendo no celular enquanto eles conversavam. Três dias depois ela terminou comigo, duas semanas depois disso, ela e o Tobi me contaram que estavam saindo."

— Não acredito – digo pasma, rindo de nervosa só em imaginar a torta de climão que deve ter sido. O amigo dele namorando a garota com quem ele estava saindo. — E vocês ainda são amigos?

Kakashi riu. Ele tinha esse jeito despreocupado que emanava uma energia boa. Nós nunca tínhamos conversado tanto, mas mesmo com as poucas palavras, eu já sentia como se fosse gostar de bater-papo com ele.

— Bem, eu tinha a opção de ser o empata-foda, ficar puto e perder dois amigos, ou a opção de aceitar e continuar com a vida – ele me diz, como se a escolha fosse obvia, mas pra mim não era e talvez ele tenha percebido, porque logo continua: — Depois do acidente, o Tobi ficou com pressa. Tenho certeza de que isso foi o grande motivo para ele ter mergulhado de cabeça, e mesmo que não houvesse essas questões dele, eu e a Rin nunca tivemos muito clima romântico, sabe? Nem sexual. – Compreendo a última frase porque leio os lábios dele, aparentemente ele não quer falar a palavra sexual enquanto segura um bebê.

Não sei o que pensar além de que Kakashi é um cara estranhamente compreensivo. Não é todo homem que conseguiria passar por cima disso de uma forma tão indiferente, apesar de eu não saber de verdade como ocorreu tudo isso pra ele. Ainda assim, admiro a maneira com que ele leva as coisas.

— Parece o início de um bom livro de drama – digo com uma risada e ele dá de ombros, deixando que Sarada segure na orelha dele. — Desses que terminam em trisal.

— Melhor do que terminar em morte – ele retruca com humor.

— Você é do tipo que gosta de finais felizes? – pergunto em seguida, me sentindo um pouco leve por conta da conversa.

— São os melhores – ele me responde e sinto seu olhar bondoso me encher de uma coisa que não sei o que é.

Nesse instante, nós ouvimos o nome dele sendo chamado na recepção mais próxima. Viramos as cabeças na direção da atendente e ele se percebe urgente ao devolver Sarada para os meus braços enquanto comenta que finalmente foi chamado para a consulta — o que explica ele estar na área de atendimento clínico do hospital.

Nos despedimos rapidinho e o acompanho com os olhos até que ele some para dentro da sala do médico.

Espero que seja apenas uma consulta de rotina.

Sem muito mais o que fazer ali, com a minha fiel companheira nos braços, vou em direção à saída pensando que, realmente, finais felizes são mesmo os melhores.

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