Canto 13: Lambda Tauri

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É a primeira vez que fico num turno em que a Hinata não está. Ela trocou com a Guren porque um primo dela chegou na cidade sem avisar e ela está tendo que fazer sala. Como ela não está, sou eu quem acaba cuidando do Seu Kakuzu, que está especialmente falante hoje.

Ele começa reclamando das filhas, dizendo que elas não lhe dão valor. Fala que a mais velha é uma tirana, assim como a falecida mãe, e a mais nova é um anjinho, mas só liga pro dinheiro dele. Com raiva, fala que vai torrar a herança delas em apostas clandestinas.

Dou uma risadinha.

— Que tal jogo do bicho? – sugiro com humor. Ele sempre diz que vai torrar a herança delas, mas é muito mão-de-vaca para fazer isso.

Ele arqueia uma sobrancelha na minha direção e, de repente, o pego me avaliando. Nada de bom vem depois que ele faz isso; mesmo assim, tenho esperança de que ele vá se controlar, o que não acontece:

— Se você me der um beijinho, posso deixar tudo para você – ele diz com um olhar pidão. — Imagine, da noite pro dia, depois que eu morrer, você vai estar rica. Só precisa me dar um beijinho.

Coloco uma mão na cintura e o encaro.

— Rica? Suas filhas vão é me processar, vou ser demitida e nunca mais vou conseguir um emprego na vida – respondo em tom dramático, e ele ri. — Além disso, o senhor não faz meu tipo.

Era disso que Hinata falava sobre ele ser inconveniente. O moribundo Kakuzu tem essa coisa de ficar oferecendo dinheiro para todas as enfermeiras em troca de serviços extras. Ele diz que é apenas uma brincadeira, mas todo mundo sabe que ele tá é jogando verde para colher maduro.

Assédio sexual, é claro.

Mas ninguém podia fazer uma denúncia formal porque ele é um grande beneficente do Hospital Senda, tendo feito doações milionárias ao longo dos anos. Por isso que todo mundo tolera o assédio disfarçado de piada. Quer dizer, quase todo mundo, porque Guren não chega perto dele.

Sim, ela totalmente se recusa a prestar atendimento depois que ele sugeriu que ela chupasse o pau dele e, depois disso, ele começou a pegar leve.

Tipo pedir beijinhos.

— O tipo rico é o tipo de todas – ele me diz todo espertalhão e quero responder bem desaforada "nem todas são como sua filha mais nova, seu Kakuzu", mas seguro a língua.

— Tem coisas mais importantes – digo por fim e completo na minha cabeça que dinheiro também é importante.

Nesse momento, ouvimos um pedido de licença pouco antes de uma cabeça invadir o local. Olhamos para Kakashi, que pede desculpas pela intromissão e me pergunta onde que a Rin está recebendo a quimio hoje, mas antes que eu responda, Kakuzu o chama.

— Ei rapaz, você não acha que ela está perdendo uma grande oportunidade na vida dela? – ele pergunta com um ar engraçadão. — Ela está recusando toda a minha herança porque não quer me dar um beijinho.

... Céus...

Quero que um buraco se abra embaixo dos meus pés e me leve para qualquer outro lugar, porque me vejo morta de vergonha de repente. Como as pessoas podem não ter um só pingo de noção? Olho para Kakashi e sei que pareço apreensiva. O que ele vai pensar, só ele sabe.

— Importunação sexual agora é crime, não é? – ele questiona tão inocentemente que eu até fiquei tentada a acreditar, enquanto Kakuzo se controla para não se engasgar. — Se eu fosse ela, eu te processaria, porque aí, além de você ser preso, teria que pagar os danos morais, os custos do processo... Dava até pra conseguir uma boa grana se eventualmente outras moças que se sentiram importunadas resolvessem aparecer, mas não que elas existam, né?

Seu Kakuzu parece não saber o que fazer, mas entre esbravejar raivoso e se fingir de idiota, ele prefere se fingir de idiota.

— Pra que esse exagero, rapaz? Foi só uma brincadeirinha! – ele diz mais rápido do que Kakashi pode continuar, que apenas plissa os olhos na direção dele com a mesma falsa inocência de antes. — Você sabe disso, não é, Sakura?

Ele olha para mim quase desesperado. Homens como Kakuzu são cheios de uma falsa moral que não se sustentam por muito tempo.

Mas não vou negar que a oferta dele – tanto dinheiro às custas de um só beijo – é bastante tentadora, principalmente para alguém na minha situação. Só que eu sei que não vai ficar só no beijo, e logo eu seria refém de outra situação. No final, seria como trocar seis por meia dúzia.

E mais que isso, eu não quero confusão.

— É claro que eu sei, seu Kakuzu – eu digo por fim, querendo encerrar toda aquela comoção.

O homem me olha com um sorriso amarelo no rosto, não apenas pelos seus dentes malcuidados, mas também pelo constrangimento. Não sei como ele vai interpretar minha falsa afirmação, mas meu palpite é que Kakuzu vai tentar manter distância... pelo menos por algum tempo.

Viro para Kakashi, que ainda tem aquela expressão inocente.

— Já terminou aí? – Ele me pergunta, obviamente querendo me tirar daquele lugar.

— Já, sim. Vem, vou te mostrar onde achar a Rin – digo, pegando a bandeja de alumínio que trouxe com algumas coisas. Olho para Kakuzu antes de sair. — Qualquer coisa, é só chamar.

— Certo. Bom trabalho, Sakura – ele me diz com uma polidez excessiva e eu me despeço com uma reverência simples.

Kakashi, no entanto, antes de se retirar aproveita:

— Se eu fosse você, eu a chamaria de Senhorita Haruno, só por precaução...

Tenho que me controlar para não soltar uma risada de repente, porque com aquele tom de voz tão tranquilo e divertido... Quase dá pra acreditar que ele está sendo amigável quando ele plissa os olhos.

Quando finalmente estamos no corredor, Kakashi não diz nada. Não precisa dizer.

Alguém diferente talvez dissesse que eu deveria denunciar o assédio ao RH, ou mesmo que eu deveria dar parte na polícia. Se fosse o tipo de pessoa mais antiga, talvez as palavras que me chegassem neste corredor fosse "homens são assim", tirando por menos.

Kakashi, no entanto, é o tipo de pessoa que não me diz nada, talvez porque saiba que uma sugestão vazia não muda nada nessa situação, ou talvez porque não queira se envolver, ou até mesmo me constranger ainda mais.

Ele não diz nada, mas algo no silêncio dele faz com que eu me sinta confortável.

Apesar de ser eu a guiar o caminho, é ele quem caminha na frente e logo alcançamos o lugar onde está Rin, sentada naquela poltrona reclinável, com o rosto inchado e um chapéu bucket amarelo-gema.

O sorriso alcança os olhos cansados dela ao ver Kakashi entrar e eu me permito ser mera expectadora quando ele a alcança, beijando as costas da mão dela que não está com o acesso intravenoso. Rin continua sorrindo para ele, e sei que ela está tentando apenas ser forte, mas quando ele sussurra algo que só ela poderia ouvir, uma lágrima escorre dos olhos dela.

É engraçado como tristeza e felicidade se misturam.

Como um sorriso dado num momento tão triste pode ser tão bonito? Como uma lágrima pode revelar muito mais do que apenas tristeza?

Delicadamente, Kakashi enxuga o rastro molhado na bochecha dela e ela resmunga algo como estar sentimental antes de olhar para mim, brevemente envergonhada. Eu sorrio para ela e nem sei por que faço isso, ou se me é permitido, mas eu ainda assim faço.

Quando estou prestes a deixá-los, Rin me chama.

Os olhos dela ainda estão avermelhados, assim como a ponta do nariz, e apesar da voz rouca pelo choro, sei que ela está apenas tentando ser forte e ignorar a mudança óbvia que é raspar o cabelo.

— Sakura, ainda bem que você está aqui. – Ela diz se aprumando na cadeira antes de continuar — Precisamos da sua opinião.

Sessão passada, Rin ainda tinha seus cabelos castanhos adornando seu rosto, apesar de estarem bem fracos. Agora, ela exibe um chapéu chamativo, que eu desconfio ter sido ideia do esposo dela.

Também acho que é a primeira vez que Kakashi a vê sem o cabelo, mas eu não saberia dizer.

— Deixa a Sakura trabalhar, Rin... – Kakashi resmunga já em tom de desistência ao perceber que a outra já está procurando algo no próprio celular.

Digo, só por dizer, que se for rápido não tem problema. É quando o olhar dele se desvia da tela do smartphone diretamente para os meus olhos, e então ele abaixa a cabeça parecendo... envergonhado.

Confesso, agora estou curiosa.

— Achei! – Rin diz em vitória. — Pega meu celular e vai passando as fotos, me diz qual óculos você gostou mais.

Franzo o cenho ao pegar o telefone que ela me oferece, e quando finalmente ponho meus olhos na tela, não consigo evitar o sorriso.

É o Kakashi provando óculos numa ótica qualquer.

Levanto os olhos para a dupla, e Rin parece estar apreciando cada segundo daquele momento enquanto que Kakashi me olha com as bochechas vermelhas.

— Vou ter que usar óculos – ele me diz como se não fosse óbvio. — Não consigo me decidir por uma armação.

— Eu gostei mais daquele estilo aviador, mas ele tá dando ouvidos ao idiota do meu marido e vai comprar aquele cinza horroroso, daí eu pensei que você era a pessoa perfeita para nos ajudar.

— Rin... – ele resmunga.

— O quê?

Quando eles começam a discutir entre eles, eu volto a olhar as fotos. Acabo sorrindo sem perceber, porque ele não se esforçou nem um pouco para parecer apresentável enquanto provava todas aquelas armações; mesmo assim, não tem uma só foto que ele não tenha saído bem.

Mesmo as tremidas estão boas.

Só quando termino o carrossel de fotos que me dou conta do silêncio. Olho para Rin que, ainda com aquele nariz avermelhado, me encara como se estivesse adorando me assistir e torturar o amigo de quebra.

Já Kakashi, ao lado dela, parece brevemente sem jeito e, por tabela, acabo me sentindo assim também.

Acho que demorei demais com o celular.

Encolho os ombros ao devolver o telefone de Rin, aproveitando pra dizer:

— Gostei mais do preto.

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