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Canto 8: Binária Eclipsante
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Assim que tive um tempinho durante o expediente, corri na creche para dar uma olhadinha na Sarada. Ela tá um pouco adoentada, tossindo bastante, e eu tô tão preocupada que nem consigo trabalhar direito.
O Zaku foi todo paciente comigo, respondendo o tempo todo que sim, ela tinha tomado o remédio na hora certa, e só por isso consegui sair da creche com a certeza que minha pequena arremessadora de objetos está no caminho para se livrar dessa tosse chata que a assolou nos últimos dias.
Agora eu tô voltando pra minha ala, a Oncologia.
Da creche pra Oncologia, eu preciso pegar o elevador, passar pela cafeteria mais cara da cidade e passar pela recepção do Centro Cirúrgico — sim, uma bela caminhada.
No elevador, eu esbarro no Doutor Jiraya, que tá respondendo um monte de mensagens no celular. Na cafeteria, eu vejo o Doutor Orochimaru, que só toma café de capsula e sempre come um sanduiche natural que custa um rim; um acompanhante de paciente tenta falar com ele, mas o poço de educação faz cara feia e vai embora.
É na recepção do Centro Cirúrgico, no entanto, que uma voz me faz parar.
Antes, eu preciso explicar que o caminho dos funcionários às vezes é o mesmo dos pacientes, mas algumas vezes temos um caminho alternativo, no qual só esbarramos com a staff e nada mais. A cafeteria é um desses espaços que não dá pra passar sem ser visto, mas a recepção do Centro Cirúrgico dá.
Eu tô passando por trás da parede de gesso que separa o corredor que me levará para a Oncologia da recepção do Centro Cirúrgico, prestes a desembocar na saída que faz com que as pessoas de lá consigam ver as pessoas de cá, e só por isso eu sou capaz de ouvir a voz que me faz parar.
É a Rin, e ela tá marcando a cirurgia dela.
Não posso evitar o sorriso que me invade quando escuto Hinata dizer que Tsunade-sama está muito otimista com a operação, e que os resultados dos exames saíram melhor do que o esperado.
Finalmente chegou a hora da Rin se livrar disso de uma vez por todas, e fico mais feliz pela Hinata estar lá para dar as orientações necessárias que ela precisará fazer antes de voltar para a cirurgia. São coisas básicas, mas é sempre bom reforçar.
Estou prestes a sair para falar com elas, quando escuto uma terceira voz.
— Dessa vez, eu prometo que vou chegar cedo.
É o Kakashi fazendo mais uma das promessas que não pode cumprir, e eu dou uma breve risada quando a Rin o responde, dizendo que ele não pode se atrasar porque vai ser a carona dela. Se ele atrasar, ela se atrasa também.
A Rin sempre tem jeitos criativos de conseguir o que quer, e eu acho ótimo.
— Aliás, Hinata — diz ela, num tom de voz que eu já conheço. Ela quer alguma coisa. — Você não teria o número da Sakura, não é mesmo?
— Rin... — chama Kakashi em um aviso, mas a mulher apenas ignora e continua:
— O quê?! Eu posso ter alguma dúvida em casa e precisar tirar com alguém competente e-
— Você pode pedir o número da Hinata, ou telefonar pra sua médica, que já te passou o número dela.
— Mas eu quero a Sakura — choraminga Rin, e já consigo imaginar o rosto dela quando completa: — Sem ofensas, Hinata, mas é que, sabe... A Sakura tá comigo desde o primeiro dia, e eu.. bem... tem um amigo meu...
— Rin...
— O quê?!
— Já conversamos sobre isso.
— Não, não. Conversamos sobre você pedir o número dela, mas nada sobre eu pedir.
— ... pelo amor de Deus. — Kakashi resmunga.
— Hinata, você não acha que eles formariam um belo casal?
...
Kakashi não diz nada, e eu sei que a expressão de constrangimento dele deve ser bem parecida com a minha, principalmente quando Hinata dá uma breve risadinha, que parece ser o tipo de quem quer concordar com algo, mas não pode por conta de um certo nível de profissionalismo e, principalmente, noção.
Meu rosto tá vermelho a ponto de sentir minhas bochechas quentes demais.
— Infelizmente — começa Hinata —, eu não vou poder passar o número dela sem que ela autorize.
— Satisfeita?! — Kakashi pergunta para a amiga em um tom exasperado, como se estivesse com pressa para sair de lá o mais rápido possível, e eu sei que a Hinata deve estar olhando para ele com aquele sorrisinho divertido que só ela consegue dar.
— Nem um pouco! — Rin responde, o tom alto. — Kakashi, eu tenho câncer! Posso morrer na mesa de cirurgia, e odiaria pensar que não consegui completar a missão da minha vida, que é arrumar alguém pra você.
— Para de dizer que pode morrer — ele a repreende, ainda com aquele tom urgente e envergonhado. — E para de usar a carta do câncer pra tudo. A Hinata acabou de dizer que você tá ótima.
— Oh, céus... Acho que tô tonta de repente... o que é aquela luz...? Kakashi...
— Para com isso, Rin. Você tá num hospital.
— A única coisa que me traria arrependimento na morte é pensar que você vai ficar sozinho pra sempre com uma dúzia de cães por não ter coragem de pedir o número da primeira mulher pela qual você mostrou interesse desde mim.
— Que tal você pensar no seu marido, que vai ficar na merda?
— Ué, mas isso é a obrigação dele. Se ele me ama, tem que ficar triste mesmo. Quero ele devastado se eu morrer. Já disse isso pra ele quando ele me disse que iria para a Europa assim que eu batesse as botas. Sim, ele disse exatamente isso. Bater as botas.
— Hinata, eu nem sei o que te dizer. Acho que a quimio prejudicou a cabeça dela.
A essa altura, minha mente já derreteu do tanto que meu rosto tá quente. Sei que Kakashi tá até mais constrangido que eu, mas só consigo pensar na sugestão nada sutil de que ele tá interessado em mim, porque, céus...
Isso é impossível, não é?
O que alguém como ele — bonito, inteligente, gentil — veria em alguém como eu? Digo, eu sou mãe solteira, pra começo de conversa. Não tenho nada a oferecer pra ele além de um monte de problemas que definitivamente ninguém iria querer.
E tudo bem, ele é bonito, tenho que admitir. Eu disse isso pra Hinata uma vez, quando estávamos conversando sobre nossos pacientes e acabei contando a história de como o confundi com o esposo da Rin. Mas, céus, imaginar que ele me acha atraente de alguma forma...? Isso com certeza é coisa da cabeça da Rin. Sem dúvida alguma. Tem que ser.
Enquanto me convenço, nem percebo que estou há tempo demais escondida atrás de uma parede ouvindo a conversa alheia, por isso tomo um susto quando Senju Tsunade chama meu nome.
— Tá fazendo o quê, Haruno?
Porra.
Hinata é minha chefe, mas Senju Tsunade é chefe de todo o setor. Antes fosse a Hina quem me pegasse ouvindo conversa alheia, porque o olhar de Tsunade-sama me deixa confusa, ela sempre tem um olhar irritado, mas ao mesmo tempo parece desconfiada. Me sinto tremer sem saber o que dizer.
Mas que merda de situação...
— E-eu.. tô só esperando a Hinata – minto. — Ela tá conversando com um paciente e eu não quero interromper.
Através do olhar dela, sinto ela avaliando se acredita na minha mentira ou insiste em saber o porquê de eu estar escutando a conversa alheia. Sustento meu olhar o máximo que dá e parece ser suficiente, porque logo ela diz:
— Vem comigo.
E antes ela me desse um longo sermão, pois agora estamos a caminho da recepção onde Kakashi, Rin e Hinata estão, e... nem preciso dizer o que acontece, né?
Honestamente, eu não consigo nem pensar direito.
A Rin dá um sorrisão quando me vê, cheio de segundas e terceiras intenções para a minha aparição nada repentina; Hinata cumprimenta Tsunade, e só depois olha pra mim como se estivesse ansiosa pra me contar uma fofoca daquelas — mal sabe ela que eu já sei. É só depois de vários cumprimentos que eu e Kakashi olhamos um pro outro e... ele tá vermelho.
O que me faz ficar ainda mais vermelha.
— Ainda bem que você conseguiu pra próxima semana, Rin — diz Tsunade daquele jeito profissional, se referindo à cirurgia. — A doutora Mei vai me acompanhar durante o procedimento. Ela é a melhor mastologista do país.
Enquanto Tsunade e Rin conversam, eu tento prestar atenção no que tá sendo dito e não olhar para nada além do rosto da doutora. Apesar de não ter passado muito tempo, aqueles minutos parecem uma eternidade. Sinto o frio percorrer minha barriga enquanto tento me concentrar.
A Rin vai pedir meu número?
— Obrigado, doutora. — É Kakashi quem rapidamente toma a conversa para si, um tanto afoito e sem tato. — Estaremos aqui no horário marcado, então até lá. Vamos, Rin.
— Ei, esp-
— O Tobi já me ligou duas vezes! — Ele mostra a tela do celular para a mulher, que revira os olhos, desistindo. — Até próxima semana, gente. Tchau, Hinata, Doutora e...
Nossos olhos se encontram.
— ... Sakura.
Ele completa, fazendo Rin dar uma risadinha antes de se despedir de todos, seguindo ele pela recepção quase aos berros. Ei, me espera, eu tenho câncer.
Num segundo, eles somem pela porta de vidro, deixando para trás uma médica perplexa, que coloca as mãos na cintura e olha para suas enfermeiras com uma óbvia questão:
— O que foi isso?
Hinata me olha como se tivesse um segredinho, sabendo que a doutora Tsunade adora saber das fofocas que rolam no setor da enfermagem.
Pelo amor de Deus, Hinata, não conta!
— Não faço ideia, Tsunade-sama.
É tudo o que ela diz, e eu finalmente respiro com um pouco de alívio.
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