.
.
.
Entro no Uber um pouco atrapalhada, esquecendo até mesmo de ser educada e dar bom dia ao motorista. Só quando já estamos em movimento, me lembro da boa educação e já me desculpo por todo afoitamento. O motorista é simpático ao me dizer que tá tudo bem e confirmar o meu destino.
Eu não saio pra muitos lugares além do hospital e supermercado, que convenientemente tem uma farmácia dentro. Primeiro que eu não tenho tantos amigos assim, e segundo porque a Sarada é muito novinha ainda, sendo complicado transportar ela pros lugares sem ter um planejamento de onde eu posso trocar uma fralda ou pôr ela para tirar um cochilo.
Daí fica fácil supor que estou indo para o hospital Senda, lugar onde eu trabalho.
Hoje eu acordei mais cedo na tentativa de conseguir chegar algumas horas antes no trabalho, mas a Sarada não estava muito no clima colaborativo. Quando eu finalmente consegui fazê-la ficar pronta, o Sasuke me ligou para dizer que não poderia vir essa semana, deixando escapar que estava ocupado com a papelada do divórcio e a aquisição de um novo posto de gasolina.
Mais um pra conta.
A culpa do telefonema ter durado tanto foi minha, já que comecei a tagarelar sem parar com a vã ideia de me certificar que estava tudo bem entre nós dois, afinal, não nos falamos direito desde que eu deixei bem claro que não quero morar no mesmo prédio que ele.
Não sei se ele me achou esquisita, mas quando o ouvi rir ao falarmos da Sarada, tudo me pareceu normal o suficiente, e só por isso consigo relaxar. Eu preciso que as coisas continuem corriqueiras por mais um pouco de tempo, até eu ter dinheiro o suficiente para conseguir me mudar.
Sim, eu planejo sair dessa casa como uma fugitiva. Talvez me mudar prum interior bem distante, sair do emprego e recomeçar. Sei que só assim terei uma chance de ficar longe de tudo o que me fez e faz mal, ainda que eu magoe pessoas que não têm nada a ver com essa história. Eu sei que vou sacrificar coisas, mas é inevitável.
No entanto, hoje eu não tô pensando nisso.
Não.
Enquanto Sarada enfia na boca aquele mordedor bonitinho que a Ino mandou pelo correio — sim, Yamanaka Ino continua mantendo contato dessa forma —, eu verifico a hora e imagino que foi tudo em vão. No final das contas, vou chegar uma horinha antes do meu turno, o que não é suficiente.
Eu queria ter chegado umas quatro horas antes para poder ver a Rin antes da cirurgia dela, mas agora ela já deve tá na mesa de operações sob o competente cuidado da doutora Tsunade e toda equipe.
Agradeço ao motorista pela viagem segura e me mando para dentro do hospital, indo direto pra sala de espera do Centro Cirúrgico, que está surpreendentemente vazio, exceto pela presença única de Hatake Kakashi.
Num primeiro momento, ele sequer me nota. O pé dele tá quicando em velocidade contra o chão, fazendo aquele barulho ritmado e mostrando o quão nervoso ele tá. Ele tá curvado, segurando o telefone com ambas as mãos enquanto digita algo com rapidez, parecendo brevemente irritado.
E tá usando óculos, o de armação preta que eu escolhi.
Chego perto devagar, mas Sarada faz questão de anunciar minha presença quando arremessa o mordedor na direção dele.
— Sarada! — digo com surpresa, porque apesar de tá nessa fase em que quer jogar tudo em todo mundo, ela não é de ter uma mira tão certeira.
Kakashi é acertado na cabeça, mas consegue pegar o brinquedo sem deixá-lo cair no chão. Ele me olha confuso por um momento e depois dá uma risada quando entende o que aconteceu. Céus... Eu encolho os ombros e dou uma risadinha sem graça enquanto Sarada estica os braços na direção dele, querendo seu brinquedo de volta.
— Tá aqui, querida — diz ao se levantar, um sorriso bonito nos lábios. — É bom te ver também, Sarada.
Ela responde com seus balbucios antes de colocar o mordedor na boca novamente, agitando os pezinhos.
— Me desculpa — peço, e sei que minha expressão ainda é sem graça apesar de estar rindo. — Ela tá impossível hoje.
— Tudo bem — diz ele, ainda sustentando aquele sorriso —, já estou ciente de que ela não gosta de ser ignorada.
Nós nos olhamos por um segundo, e o que é esse clima? Me sinto ansiosa de um jeito bom. É por isso que acabo dando uma risadinha nervosa enquanto ajusto Sarada no meu braço, olhando para ele de novo — que continua com aquele sorriso.
— Bonito óculos — comento.
Parece que o peguei de surpresa, porque ele meneia cabeça com um jeito envergonhado antes de me dizer:
— Tive ajuda pra escolher, senão estaria com um cinza horrível — zombou, ajustando os óculos pela ponte.
— Ficou muito bem em você — falo e sei que coro um pouco.
Em resposta, ele me acena com a cabeça, agradecendo com um murmuro; é só então que eu finalmente pergunto:
— E a Rin?
Então ele me conta que chegaram bem cedo, dizendo também que ela estava muito nervosa, apesar de tentar parecer tranquila, e que ele já estava prestes a invadir a sala de cirurgia em busca de alguma notícia, mesmo fazendo apenas duas horas desde que ela foi levada.
Ocupamos duas cadeiras vazias ali na recepção, é quando eu coloco a bolsa cheia de coisas da Sarada no chão e repouso um pouco a coluna. Ele me pergunta se pode segurá-la, e eu digo a mesma coisa que disse a ele da outra vez, quando nos esbarramos na sala de espera das consultas:
— Só se ela quiser.
Dessa vez, Sarada nem faz charme e vai de uma vez assim que ele a convida.
— Aliás — começa quando já tem Sarada fazendo uma análise da orelha dele —, eu queria te pedir desculpas por não ter falado com você direito naquele outro dia, lá com a doutora e a Hinata...
O rosto dele tá brevemente vermelho e eu sei que também me desconcerto um pouco tentando não pensar em tudo o que foi dito, porque... olha só pra ele. É coisa da cabeça da Rin, com certeza.
— Tudo bem — digo apressada. — Vocês tavam ocupados e eu estava com a doutora...
Ficamos um segundo presos num silêncio que me faz querer desviar o olhar do dele, mas é Kakashi quem faz isso primeiro, como se tivesse acabado de se arrepender de ter entrado no assunto, então ele limpa a garganta e continua com uma voz melhor.
— Você acabou de chegar e eu não parei de falar. Você nem deixou a Sarada na creche, ou colocou o uniforme... não me deixe te atrasar pro seu turno.
— Ah, não se preocupa com isso. Eu vim mais cedo pensando que poderia ver a Rin antes de começar o trabalho, mas acabei me atrasando pra isso. — Encolho os ombros antes de continuar. — Pensando agora, talvez tenha sido melhor assim. Digo, ela é a minha paciente e eu tô agindo como-
— Não faz isso, Sakura. — Ele ri. — A Rin te adora. Ela fica falando direto que, quando essa coisa do câncer passar, ela vai dar um jeito de oficializar essa amizade.
É minha vez de rir. Não tento evitar me sentir lisonjeada, mas ao mesmo tempo me sinto constrangida por algo que eu nem sei dizer o que direito. A Rin é tão espontânea e resiliente. Pensar em ser amiga dela me deixa um pouco ansiosa.
— Eu só quero que ela fique bem — digo, porque no momento é a única coisa que importa, e Kakashi sorri em resposta, concordando comigo. — Mas você tem razão. Meu turno vai começar já, já e eu preciso deixar a Sarada na creche ainda, então... é melhor eu ir.
— Oh, claro.
Ele se levanta ainda com a Sarada nos braços, que ficou o tempo todo mexendo na orelha dele enquanto ouvia nossa conversa. Nem parecia a tagarela de sempre. Eu jogo a bolsa com as coisas dela por cima do ombro antes de pegar ela de volta.
— Quando eu tiver um tempinho, passo aqui de novo, tá?
— Certo — diz ele com um sorriso. — Eu tava surtando um pouco antes de você chegar, então obrigado por passar esse tempo aqui comigo.
— Não se preocupa tanto. A Tsunade-sama é a melhor. Ela realmente tá em boas mãos — digo, tentando passar algum conforto, mas sei que nada disso importa. Ele vai continuar ansioso e solitário na sala de espera. — Mas de todo jeito, prometo que volto.
Kakashi sorri.
— E me traz aquele cafezinho, né?
Eu dou uma risada, e Sarada põe a mão na minha bochecha, curiosa.
— Tá vendo, amor? Foi tudo parte do plano dele — falo para minha filha antes de olhar para Kakashi como se estivesse ouvindo uma fofoca sobre ele. — Tudo o que ele quer de mim é café.
— Ei... — ele solta com aquele sorriso torto. — Não é só pelo café. É pela Sarada também. Adoro segurar ela.
O encaro fingindo estar chocada e ele encolhe os ombros, como quem diz que não tem muito o que fazer sobre isso. Nós sorrimos um pro outro.
— Tudo bem, ela gosta de você também — digo por fim. — Quando voltar, trago seu café, mas a Sarada, infelizmente, não vai poder vir.
— Uma lástima. Quem sabe nos esbarramos no final do seu turno, hein?
— Quem sabe.
Falo por cima do ombro, deixando que essa frase seja nossa despedida, apesar de Sarada ter tido a última palavra com seus balbucios de neném. Eu dou três passos na direção do corredor quando Kakashi resolve chamar meu nome apressado.
Eu me viro novamente, e o vejo parecendo desconcertado quando tira o celular do bolso.
— Que tal você... deixar seu número comigo? — pergunta enquanto desbloqueia o celular com o polegar na tela, e nem sei como tá a minha cara agora, mas de repente me sinto tão desprevenida. — P-porque a Rin pode sair antes de você voltar, daí eu posso te avisar se isso acontecer, e você não dá viagem perdida...
Paro por um segundo enquanto meu olhar varia entre o rosto dele e o celular desbloqueado, com uma foto de três cães se divertindo em algum lugar. Isso tá mesmo acontecendo? Aquele frio na barriga surge e eu tomo uma decisão impulsiva.
Pego o telefone dele, e com apenas uma mão, digito o número do meu celular. Confiro duas vezes para ter certeza de que não errei nada, só então devolvo para ele, que com certeza tá tão vermelho quanto eu.
Céus... eu não consigo nem pensar direito.
Ele olha pro celular e vejo ele escrevendo meu nome com velocidade; por fim, ele me mostra a tela do meu contato. Haruno Sakura, H. Senda. Ok... talvez eu esteja contaminada pela sugestão de que ele possa estar interessado em mim, porque não tem motivo para ele salvar meu contato com o nome do hospital junto se não achasse que pudesse se esquecer de mim.
Mas então, por que ele tá tão vermelho?
— Ok, então... você me avisa qualquer coisa.
— Certo, claro.
— Eu já vou indo...
— Tá. T-tenha um bom dia de trabalho.
É assim que nós nos despedimos, ambos meio travados, meio constrangidos. Assim que viro para ir embora, o telefone de Kakashi toca. O escuto suspirar antes de atender. Deve ser uma videochamada, porque a voz toma conta do ambiente quando diz:
— FALA COMIGO, PORRA!
Tenho a impressão de já ter ouvido essa voz, mas quando o Kakashi responde, sei que tô apenas confundindo as coisas...
— Olha essa tua língua, Tobi. Eu tô sem fone num hospital!
... afinal, eu nunca ouvi a voz do esposo da Rin.
.
.
.
