Canto 4: Cor Tauri

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Eu não sei como ou por que deixo isso acontecer, mas acontece. Honestamente, com a minha vida tão incerta, eu não deveria me deixar levar com tanta facilidade. Trazer alguém para esse caos que é a minha vida é tão egoísta, mas eu simplesmente não consegui evitar quando, pela primeira vez em tempos, eu me sinto tão... viva.

Talvez essa palavra soe exagerada, mas essa empolgação que cresceu a cada mensagem trocada, a cada risada diante de uma tela minúscula... eu não pude ignorar isso, e talvez esse seja o meu maior erro. Eu me deixo ser levada por essa sensação de algo novo acontecendo, algo bom como há muito tempo não me surgia, e é só por isso que eu me desculpo por ser tão leviana.

Isso tem prazo de validade. Tem que ter.

Devo dizer que a cirurgia da Rin foi um sucesso. Tudo ocorreu como o esperado e agora ela fará só mais algumas sessões de quimio para finalizar a dolorosa e exaustiva luta contra o câncer. Eu consegui vê-la algumas vezes antes de ela ser liberada para voltar pra casa, e depois disso...

Depois disso, eu e Kakashi não paramos de nos falar.

Eu não sou uma pessoa que fica muito tempo no celular, afinal, eu sou mãe de uma bebê pequena, que trabalha e cuida da casa sozinha. Não tenho tanto tempo assim para ficar no celular, mas o tempo que eu tinha para isso, eu passei trocando mensagens, áudios e até mesmo fotos com o amigo da minha paciente.

Até mesmo Sasuke reparou que algo estava acontecendo, dizendo que eu parecia mais feliz. É uma escolha estranha de palavra para usar nessa situação, mas talvez seja só eu querendo negar o óbvio. Eu não vou saber dizer se estou feliz, mas me sinto bem todas as vezes que trocamos mensagens. É fácil conversar com ele.

No hospital, Hinata parece sempre se divertir com as caras e bocas que faço quando estou no celular nos intervalos do nosso turno. Às vezes ela suspira, dizendo que sente falta da época em que eu conversava com ela, mas logo diz que me perdoa se eu a chamar para ser madrinha do meu casamento.

Eu nem preciso dizer que fico completamente sem jeito diante desse tipo de fala, principalmente quando vem da Rin, que parece até mais empolgada que eu e Kakashi. Durante as quimios, ela fica tão... impossível, nos constrangendo a todo instante com suas insinuações nada sutis de que deveríamos marcar um encontro.

Sim, porque estamos flertando há tempo suficiente.

O problema é que eu não posso sair num encontro pelos mesmos motivos que me fazem querer fugir dessa cidade. É por isso que eu arrumei um emprego, é por isso que eu tô juntando uma grana. Eu não tenho espaço para ter um romance e não posso ser tão egoísta a ponto de colocar Kakashi nessa situação, em que tudo isso será por nada.

É por isso que quando ele me chama pra sair, eu enrolo. Eu digo que estou ocupada, que não tenho com quem deixar a Sarada, que a vida da mãe solteira é complicada, e sim, mesmo que não houvesse a questão do pai da Sarada, ainda assim seria complicado me aventurar em um relacionamento.

A Sarada, no entanto, parece estar muito confortável com tudo o que está acontecendo. Acho até que ela já nos deu sua benção, já que vive rindo pra ele e fazendo charme quando o vê. Mas ele também é um bajulador barato, sempre dando toda a atenção que ela gosta de ter.

Então hoje, depois da última sessão de quimio da Rin, Kakashi me chamou para sair novamente e, antes que eu pudesse enrolá-lo com as mesmas desculpas, ele me diz que tudo bem levar a Sarada, e que pra facilitar as coisas, ele me propõe que seja um jantarzinho rápido, assim posso voltar pra casa a tempo de me preparar pro dia seguinte.

Eu sei que deveria ter dito não e acabado com tudo o que pudesse estar acontecendo naquele momento, mas quando ele me sorriu daquele jeito, eu só consegui dizer sim, porque, no fundo, é tudo o que eu também quero.

Por isso, nesse exato momento, estou no banco do carona do carro de Hatake Kakashi, um Jeep escuro que parece ter sido lavado bem recentemente. Por dentro, ele também parece ter passado por uma limpeza minuciosa, e Kakashi teve o cuidado de arrumar com um amigo uma cadeirinha para a Sarada, que adorou a novidade e cochilou rapidinho com o balanço do carro.

Minha filha é um sonho de criança, sério.

No rádio, alguém fala baixinho das notícias e nós nem prestamos atenção, já que a conversa — que no começo foi um pouco atrapalhada — flui entre nós dois. Eu já disse, é fácil demais conversar com ele, e eu adoro quando as luzes dos postes iluminam o rosto dele para que eu possa ter certeza de que ele tá sorrindo.

— Você achava que eu era mais novo? — Ele me pergunta, se divertindo por eu me surpreender com a idade dele. — Eu imaginava que você já sabia qual era minha idade, já que você tem acesso ao prontuário da Rin lá no hospital e deve ter visto que ela tem quase quarenta.

— Ah, mas não é porque vocês são amigos que têm que ter a mesma idade, e pra ser sincera, eu nem pensei nisso. Só achava que você tinha, sei lá, uns trinta e três?

Ele ri.

— Mesmo com esse tanto de cabelo branco?

— Seu cabelo não é grisalho, Kakashi — digo com meu ar de sabichona. — Apesar de eu ficar curiosa algumas vezes.

— Você acha que eu pinto o cabelo? — Ele me pergunta, e eu respondo com um não sei, ao qual ele ri. — Nasci assim. Meu pai tem o mesmo tom, e não me pergunte o que diabos acontece na minha família que ninguém vai saber responder.

Meneio a cabeça, divertida, porque isso explica o motivo de eu nunca ter visto uma raiz mais escura.

— Deve ser a mesma coisa que acontece na minha, já que sou a única pessoa do mundo com cabelo rosa chiclete natural. — Quando ele me olha surpreso, eu dou uma risada. — O quê? Você achou que era o único ao nascer com um cabelo cientificamente inexplicável?

— Uma coisa é você nascer com o cabelo perto do grisalho, outra é você nascer com o cabelo cor-de-rosa — diz ele, a expressão ainda surpresa. — Sério, é inacreditável.

— Meu pai tem cabelo num tom de rosa bem clarinho, quase como um reflexo. Eu que nasci com esse tom mais... vivo.

— Você vai ter que me apresentar seu pai, porque só vou acreditar quando eu puser os olhos nele. — Kakashi brinca, e eu dou um sorriso torto.

— Temo que não vai ser possível — digo, notando Kakashi parecer confuso por um momento. Talvez esteja achando que ele tá morto, por isso continuo: — Nós não nos falamos mais.

— Ah... — Ele solta, meneando a cabeça antes de apenas suspirar. — Família é complicado.

— É... — concordo ao olhar pela janela, pensando que é bom que Kakashi não pergunte muito mais sobre isso. É o nosso primeiro encontro, afinal, e eu não gostaria de simplesmente sair falando do que aconteceu para que eu e meu pai não nos falemos mais.

Pela janela do carro, vejo os prédios e as luzes da cidade. Passamos por uma pracinha charmosa, bem característica daquele bairro e eu franzo o cenho, com a impressão já passamos aqui pelo menos duas vezes.

— Kakashi? — chamo, o tom confuso. — Pra onde estamos indo? — Olho a hora em seguida, percebendo que já estamos rodando há quase duas horas. — Tenho certeza de que já passamos por essa praça antes.

É aí que noto o sorriso dele abrindo um pouco mais, como se tivesse sido pego fazendo algo que não deveria. Ele dá uma risadinha comedida, me olha rapidinho e depois olha pelo retrovisor, vendo Sarada ainda dormir.

— Então... Meio que não estamos indo a lugar algum. — Ele diz com um sorriso cínico enquanto eu o olho ainda perplexa, tentando entender o que ele tá me dizendo, e por isso ele continua: — A Rin queria que eu te levasse naquele restaurante que fica no topo daquele prédio novo, sabe? A vista é incrível e seria ótimo pra tentar te impressionar num primeiro encontro, mas aí eu pensei... a Sarada vai odiar, porque além de frio, o lugar é aberto e venta muito. Daí eu pensei no que a Sarada ia gostar mais num primeiro encontro e lembrei do meu amigo, o Asuma, que disse que a filha dele adorava andar de carro quando era um bebê, então eu resolvi arriscar. Enchi o tanque e pensei que se ela não gostasse da primeira meia hora, eu levaria vocês num bistrô aqui perto, que tem bem um clima aconchegante. Eu acho que a Sarada ia gostar, mas acho que ela gostou mais do passeio de carro.

Eu tô chocada.

Quando ele me olha rapidinho, ainda com as mãos no volante, eu sinto que só falta minha roupa de palhaça. Dou uma risada e ele encolhe os ombros de maneira divertida.

— Tô muito encrencado? — pergunta com humor, sem realmente achar que eu estou com raiva de alguma forma. — Você não vai fazer um discurso sobre como eu tô acabando com a camada de ozónio, não é?

Preciso dizer que ainda tô olhando pra ele com cara de idiota, porque ele é tão inacreditável... Passo a mão no rosto sem saber o que dizer, olho para trás, checando minha dorminhoca para só então olhar novamente para Kakashi, que ainda tá com aquele sorrisinho divertido, de quem tá adorando tudo.

— Eu... Eu nem notei que estávamos andando em círculos esse tempo todo...

Ele sorri ainda mais, parecendo tão, mas tão satisfeito que chega a ser ainda mais bonito assistir.

— Ótimo. Significa que a conversa tá boa.

— Sim, mas você tá dirigindo todo esse tempo... — Eu digo, ainda achando surreal tudo aquilo, e ele continua sorrindo.

— Não tem problema. Gosto de dirigir à noite assim, sem rumo. A essa hora, o trânsito flui, e em boa companhia, você nem vê o tempo passar mesmo. — Ele dá de ombros. — Mas não se preocupa, vamos passar no drive-thru do Mc pra pegar algo, paramos na orla para degustar nossos sanduiches, checamos a Sarada...

— Você parece ter tudo planejado — comento, sem ter nenhuma objeção.

— A Rin vai ficar puta quando eu disser que te fiz comer Méqui no primeiro encontro, mas se a gente pegar comida em outro lugar, vai demorar uma vida.

— Pra mim, tá perfeito. Adoro batata frita com milkshake.

Ele sorri, e tá mesmo tudo perfeito.

Não demora nada para pegamos nossos sanduiches e chegarmos na orla. Sarada acordou e veio pro meu colo tomar a mamadeira dela enquanto nos assiste comer. Kakashi tá com um dos maiores sanduiches que se vende lá no Méqui, enquanto que eu me satisfaço com um clássico: McChicken com bacon.

Sarada ri quando ele resmunga que eu deveria ter pedido um Big Mac, claramente concordando que o McChicken não é digno, mas honestamente, é o melhor sanduiche de lá e quem não concorda, é clubista.

A conversa continua fácil e eu nem vejo o tempo passar enquanto estamos assistindo o mar. É só quando Sarada aparenta ter se cansado que resolvemos encerrar a noite, e enquanto Kakashi dirige pelo caminho que levará a mim e a Sarada para casa, nós ficamos em silêncio, ouvindo apenas as músicas que tocam na rádio.

Love Me Tender soa suave enquanto Sarada se encolhe nos meus braços, se aninhando diante das luzes que passam, e eu me permito flutuar na voz suave de Elvis Presley e na presença acolhedora de Kakashi que, tranquilo ao meu lado, murmura a canção já conhecida.

Não demora para chegarmos no condomínio de prédios baixos onde eu moro, ele entra com cuidado, deixando que eu o guie até o bloco de apartamentos certo. Quando o carro para, ele diz que vai me ajudar e sai para dar a volta no carro, abrindo a porta para que eu desça com a Sarada e pega a bolsa que guarda todas as coisas que preciso pra um dia no hospital.

A noite é fria, mas estranhamente quente também. Há um silêncio especial quando a lua tá tão brilhante no céu. Nós nos olhamos por um momento e ele me sorri.

— Então, é aqui que você mora... — ele diz, colocando as mãos nos bolos e olhando ao redor por um momento. — Engraçado, porque o sobrinho de um amigo meu morou aqui por um tempo, nesse mesmo bloco.

— Ah, é?

— Sim... — Ele ri, dando de ombros. — Mas só vim aqui duas vezes.

— É um lugar bom pra morar — comento por comentar, olhando em volta também, porque estranhamente não quero dar fim a esse encontro. Sarada, no meu braço, resmunga baixinho.

É, tá na hora de virar abóbora.

— Vai lá — diz ele com aquele sorriso calmo. — Obrigado pela noite, Sakura. Espero que você tenha gostado.

— Obrigada você, Kakashi. — Sorrio. — A Sarada deve ter amado.

Ele revira os olhos com humor, chegando mais perto, deitando a cabeça para verificar se ela tá acordada, é quando eu aproveito pra continuar:

— E eu também gostei muito.

Então ele sorri.

— Perfeito.

Nossos olhos se prendem um no outro e tem esse silêncio, essa luz, esse clima frio que parece inútil diante das minhas bochechas quentes, e nem parece noite quando tantas borboletas voam em minha barriga.

A gente se demora um pouco um no outro, ele olha meu rosto e parece estar decidindo alguma coisa no breve tempo em que custamos para dizer tchau. Honestamente, quero que ele me beije. Quando percebo isso, meu corpo se mexe e eu alcanço os lábios dele com os meus.

Minhas mãos estão segurando Sarada, mas isso não atrapalha. É ele quem, depois de um brevíssimo momento, aprofunda o nosso beijo, me fazendo arrepiar antes mesmo do vento frio soprar.

Eu sei que eu deveria entrar, porque tem o sereno, tem o frio, e tem a Sarada, mas... aguenta só mais um pouco, querida.

Só mais um pouquinho.

Sinto ele sorrir antes mesmo de nos separarmos. Sei que estou vermelha quando ele olha pra mim, mas devolvo o sorriso. Sim, Kakashi, eu gostei da noite, do beijo, que mesmo pequeno, fez meu mundo parar por um segundo. É isso que meus olhos dizem, é isso que ele enxerga.

— Boa noite.

Ele sussurra e eu já não tenho voz. Confirmo com a cabeça antes de dar as costas e entrar, dando uma última olhada para trás, por cima do ombro, para vê-lo piscar um olho pra mim antes de entrar no carro.

Enquanto subo as escadas, me sinto eufórica. Preparo Sarada para sua noite de sono e, quando ela me olha com um bocejo, sei que ela não vai me aguentar falando dele o tempo todo. A deixo bem quentinha no berço e finalmente me sento na minha cama para olhar o nada por um segundo enquanto sinto a sensação dos lábios dele nos meus.

Cubro meu rosto com as mãos, sentindo minhas bochechas esquentarem e deixo minhas costas tombarem na cama. Abro os braços e dou uma risada baixinha. Céus... que sensação é essa? Algum dia eu já senti algo assim?

Ainda eufórica eu me levanto e olho pela janela, vendo a noite plena e seu mar infinito de estrelas...

Boa noite, eu sussurro.

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