Canto 22: Plêiades

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Quando entro na sala da staff, vejo Guren no canto com um terço na mão. Em sussurros, ela faz suas orações para que Deus acolha Moegi em seu reino, que acabou de falecer.

Eu a olho por um momento, fechando meus olhos em respeito e deixando o clima triste de fé me abraçar. Peço a Deus por ela também, no silêncio de meus pensamentos, enquanto a imagem da mãe dela aos prantos me invade.

Não foi repentino, mas isso não significa que tenha sido menos difícil.

Ainda no quarto onde Moegi estava internada, com o corpo sem vida da garota ainda conectado aos aparelhos que mediam as funções vitais, a mãe dela gritou num choro devastador. Eu nunca me esquecerei da expressão dela, de como ela se jogou sobre o corpo da filha em desespero, sendo tirada de cima dela pelo ex-esposo, que a abraçou forte em sua própria tristeza.

Ele estava chorando com a mãe da filha dele em seus braços, os lábios trêmulos enquanto ele lhe dizia alguma coisa que apenas eles podiam escutar, e só aí a mulher passou a se agarrar ao homem em busca de algum conforto que, honestamente, eu acho que não veio; mas talvez saber que aquela dor não era apenas dela tenha ajudado.

Aquele casal vivia brigando nos corredores, apontando erros e culpas um no outro, mas ali, diante da morte da única pessoa que parecia uni-los, eles deixaram tudo de lado e puderam se abraçar em luto, raiva e dor.

E de alguma forma, foi uma bonita cena em meio a tanta tristeza.

Guren termina com um breve amém, ao qual eu repito em tom mais baixo. Ela abre os olhos e nós nos cumprimentamos de maneira solene. O clima na Oncologia, hoje, é esse. Depois de um momento, eu pergunto:

— A Hinata já voltou?

Ao invés de fazer a careta habitual que normalmente faria, Guren apenas responde sem muita energia:

— Ainda não.

Depois de tudo, a Hinata sentiu que precisava de um pouco de ar e saiu acompanhada do doutor Kiba pra área externa.

— Tá na hora dos remédios do Nagato — informo. — Como ela ainda não voltou, eu vou levar pra ele, certo?

Guren concorda com a cabeça, sem ter muito a dizer.

Lembra que todo enfermeiro tem seu paciente favorito? Bem, o da Hinata é o Nagato. Por isso ela sempre faz questão de levar os remédios dele e tomar conta dos procedimentos que ele precisa para ter algum conforto aqui, nos seus últimos dias. Ele é paciente terminal, então todos os cuidados são apenas para que ele não sinta tanta dor.

Ele tá mais pálido que o habitual, mas parece disposto o suficiente para me perguntar quem morreu. Respondo de maneira direta e ele dá uma risada triste ao dizer:

— Sempre achei que morreria primeiro que ela.

... nem sei o que responder. Acho que não tem o que responder, porque ele me olha com um meneio de cabeça, como se dissesse que não havia o que fazer, e em seguida, me pede pra apagar a luz quando eu sair.

É no corredor que Chouji me encontra.

— Sakura, finalmente te achei — diz ele ao se aproximar. — Tem um cara perguntando por você lá na recepção. Me pediu pra te dizer que tá te esperando lá fora, perto do carro, porque tava com frio.

Franzo o cenho ao perguntar:

— Que cara?

— Ele falou o nome dele, só que eu já não me lembro... hã... mas ele disse que é o pai da Sarada.

...

Eu congelo.

— O-o pai dela?

— É. Ele tá lá esperando já faz um tempo. Disse que não vai embora até falar com você.

...

O Chouji me diz isso já seguindo seu caminho, e eu fico no meio do corredor sem saber o que fazer ou pensar. Como assim o pai da Sarada tá aqui? Minha mente começa a trabalhar na tentativa de encontra uma solução para essa questão, porque não faz sentido algum ele estar aqui. Ele nem sabe que eu trabalho.

Enquanto ando apressada, de repente com medo do que possa acontecer, começo a me enganar, dizendo para mim mesma que pode ser o Sasuke. Sim, Uchiha Sasuke pode estar querendo falar comigo e disse que era pai da Sarada porque... porque ele não sabia outro jeito de me tirar do expediente.

Sim.

Só pode ser o Sasuke.

Tem que ser o Sasuke.

As pessoas passam por mim e eu as cumprimento da maneira menos suspeita que consigo, mas sei que a expressão no meu rosto é de urgência. Eu rogo para que seja o Sasuke, porque a alternativa a ele é...

Alcanço o estacionamento com uma lufada de ar vindo de encontro a mim. Olho em volta, quase desesperada, e então vejo, na reta a minha esquerda, lá no final...

Merda.

Corro até ele para que ele não venha até mim. O que quer que aconteça, é melhor acontecer longe da vista de todos.

Ele tá num terno preto, desses que parece bem caro e me olha de cima a baixo com uma expressão que beira a genuína confusão. Como ele me achou? Eu me pergunto, tão confusa quanto ele, porque supostamente, ele não deveria sequer saber que eu trabalho...

— O que você tá fazendo aqui? — Ele me pergunta, a voz dele é tão macia que me faz ter arrepios de medo. — Olha essa sua roupa horrível... Você tá trabalhando aqui?

Meu lábio treme, minha voz se esconde. Faz tanto tempo que não falo com ele. Tudo o que eu faço é fingir que sou parte da mobilha quando ele chega, então ele me usa e vai embora, e aí tudo volta ao normal.

Só que aqui...

— É...

É tudo o que eu consigo dizer, principalmente quando ele me olha fazendo um bico exagerado antes de pôr a mão no meu ombro e perguntar, com aquele tom de voz falsamente preocupado que eu odeio. Ele só me procura quando tá assim, bêbado.

— Por quê? Eu sei que o Sasuke ainda paga suas contas. Ele não ia te deixar desamparada. Então por que você tá trabalhando?

Ele toca meu rosto tentando algo como um carinho, e eu não sei o que ele espera de mim, mas eu apenas fico ali, estática, sem conseguir dizer uma só palavra.

Tudo o que eu quero é que ele vá embora.

Só isso.

— Fui em casa e encontrei tudo vazio. Achei que você tinha me deixado. Tive que revirar tudo até encontrar seus uniformes.

A voz dele é triste, como se a ideia de não me ter fosse dolorosa demais em seu peito, e quem o vê talvez acredite em sua conversa sem saber o que realmente acontece, porque quando ele desce as mãos pelo meu pescoço, afastando meus cabelos para ver minha pele, eu já sei o que vai acontecer.

Eu sei o que ele quer.

— Sakura... Você vai largar esse emprego — ele diz quando beija meu pescoço e tento segurar as lágrimas. — Quero ir em casa e te encontrar lá, me esperando. Pronta pra quando eu precisar de você. Cuidando apenas da nossa filha e de mim.

A boca dele continua na minha pele enquanto ele desafivela o cinto. Eu olho pra cima, pra luz seca que o poste mais próximo emite. Meus olhos ofuscam, quase queimam, é por isso que as lágrimas escorrem enquanto ele puxa minha roupa e eu não digo nada.

— Hoje eu não tô com raiva de você, mas se eu não te encontrar em casa da próxima vez...

Ele não completa, não precisa.

Eu tento engolir o choro enquanto ele me empurra pra perto do carro, prendendo meu corpo contra o dele. Ele se move em mim enquanto me diz todas aquelas coisas de sempre. Eu te amo. Só existe você na minha vida. Só você me entende. Eu não posso perder você.

... e eu deixo ele fazer o que quiser comigo sem saber o que dói mais, meu corpo ou meu espirito; mas que outra alternativa eu tenho? Que outra opção há?

Quero parar de existir imediatamente. Quero que ele suma. Quero desmaiar, morrer. Mas nada disso acontece, e eu fico ali em lágrimas que escapam enquanto aguento mais uma vez aquela situação enquanto digo a mim mesma que ele vai embora, que logo tudo vai ser como se ele não existisse.

Se eu ficar bem parada e fechar os olhos com força, quando eu abrir novamente, ele já vai ter ido e eu vou poder fingir que nada aconteceu.

Eu só preciso aguentar mais um pouco...

— Sakura?

Meus olhos se abrem rapidamente. Ele também para e encara a pessoa que acabou de chegar no local.

Hinata me olha por apenas um segund suficiente para que os olhos cor-pérola entendam tudo. Absolutamente tudo. Porque logo em seguida, a postura dela endurece. Ela parece severa ao olhar para ele, e a voz se projeta mais alta, mais firme:

— Sai de cima dela agora!

Ele ri.

— Quem é você? — pergunta parecendo tão alheio, mas o não lhe interessa que Hinata responde não o satisfaz, por isso ele olha para mim naquele tom nada amoroso, e eu não me faço de desentendida.

— É a minha chefe.

Minha voz sai trêmula e rouca, meu tom é tão baixo que acho que Hinata nem consegue ouvir, e eu só penso que tá tudo dando tão errado. Que ela ver isso é a última coisa que me faltava nessa vida de merda, porque agora, aos olhos dela, essa cena vai se repetir pra sempre e eu jamais vou poder ignorar isso.

— Diz pra ela, Sakura, que tá tudo bem — ele me pede, enquanto Hinata parece cada vez mais nervosa. — Diz pra ela ir embora.

— Hinata, e-eu sei que é errado tá... fazendo isso aqui no hospital, mas... eu... a gente pode conversar depois... tá? — digo, e honestamente, nem sei o que eu to falando. Tudo sai tremido, incerto, mas eu tô tentando genuinamente fazer com que ela vá embora. — ...t-tá tudo bem...

Não tá tudo bem.

Tá tudo péssimo.

Eu não tô enganando ninguém com meu rosto manchado por lágrimas, vermelho em dor e vergonha, humilhada e arrependida. O que eu achava que ia acontecer? Eu fui tão idiota, tão burra, e agora Hinata me olha daquela maneira, e eu só quero... eu só quero morrer.

— Tá vendo? Tá tudo bem — diz ele com aquele sorriso que me faz revirar o estômago.

Não dá pra saber o que se passa na cabeça da Hinata, até porque eu nem consigo olhar mais para ela. Abaixo a cabeça, me encolho, talvez assim eu consiga sumir. Tudo o que eu queria era desaparecer. Eu a escuto ameaçá-lo e é aí que eu o percebo avançar.

Eu me coloco entre eles antes que algo aconteça numa ação automática. Eu nem pensei. Continuo sem olhar para nenhum dos dois, não consigo, mas mesmo com o rosto baixo, eu consigo garantir a ele:

— Eu resolvo isso.

...

Ele me olha por um momento mais longo, nossos olhos se encontram e entendo o recado: É bom que resolva. Estremeço, porque pior que o estado bêbado amoroso é o estado bêbado irritado. A última coisa que eu quero aqui é ele irritado perto da Hinata.

Desviando o olhar de mim para Hinata, ele finalmente desiste. Irritado, ele entra no carro. Eu ainda não consigo levantar meu rosto, mas sei que quando ele vai embora, outro tipo de urgência me acomete.

Meu corpo dói, meus olhos ardem.

Eu começo a arrumar minha roupa numa tentativa vã de me recompor, mas sei que meus gestos só evidenciam o quão errada eu estou. Porque é assim que eu me sinto: errada.

Ainda não olho para Hinata, mas já começo a dizer, em uma urgência de que ela entenda meu recado, e finja que nada aconteceu. Vai ser melhor pra nós duas. E nem vai ser por tanto tempo, já que eu vou... deixar o hospital.

Mas minhas palavras saem confusas, enquanto eu tento justificar aquilo como tesão fora de hora, e não fazem efeito nela. Como fariam? Eu não paro de chorar. Não consigo. Minha voz, por mais que eu tente, não consegue dizer uma só frase sem embargar. Eu fungo, enxugo as lágrimas com as costas das mãos, passo a mão na minha roupa tentando tirar os amassados, tento me recompor.

... e quando olho pra Hinata, sei que tô destruída.

Ela me abraça.

Sinto ela tremendo enquanto ela me abraça com mais força, e não sei se ela tá chorando ou se está apenas sem conseguir segurar a frustração, o medo e a impotência diante de tudo. Eu choro, ainda repetindo que tá tudo bem, mas não tá. É ela quem diz.

E quando nosso abraço cessa, Hinata parece certa do que deve ser feito:

— Sakura, a gente não pode deixar ele solto. A gente precisa-

— Não. Eu não posso.

— Você pode. Eu vou com você e-

— Você não entende! Eu não posso fazer isso! — Nós nos olhamos, e sei que estou desesperada. — Isso não vai dar em nada! Tudo o que vai acontecer é ele tirando a Sarada de mim!

Sim, afinal, ele tem dinheiro e influência. Ele iria dizer que eu procurei, que eu deixei, que eu quis. E quando todos acreditarem nele, como castigo, ele vai me tirar a Sarada e me jogar na rua, ou pior, me manter com ele.

Olho para Hinata, apavorada com a ideia de que ela possa ignorar tudo isso. Para alguém de fora, é fácil sugerir algo assim. Pensar em soluções práticas para problemas que não são nem um pouco práticos. Pra ela, pode parecer simples, mas não é.

Nunca é.

Nunca foi.

Nós nos olhamos por um longo momento. Ela engole seco no ápice do conflito e eu sei lá o que ela tá pensando. Eu só quero que ela desista dessa ideia e me deixe em paz. Eu quero ir embora. Quero fugir dos olhos dela e do que eles enxergam em mim, porque é isso, não é? Agora, eu sou a pessoa permissiva.

Agora, aos olhos dela, eu procuro isso.

— Faça o kit.

...? Meu cenho franze em confusão quando ela sugere daquela forma, sem hesitar, e acho que ela percebe porque logo continua:

— Eu não conheço sua vida, não somos tão íntimas assim, mas, Sakura, eu não posso deixar você sair daqui e fingir que nada aconteceu. — Ela diz e noto a mão dela fechada em punho firme, como se ela estivesse segurando firme para, talvez, não desabar. — Hoje, você tem seus motivos para não denunciá-lo, mas quando o fizer, você vai precisar de provas e eu quero garantir que você as tenha.

...

A última coisa que eu quero nesse momento é fazer o exame de violação, apelidado de kit, que consiste em uma caixa com todos os itens necessários para coletar provas de um caso de estupro.

Quando uma mulher dá entrada no hospital como vítima de agressão sexual, ela pode optar por fazer o kit. Não fazer não impede que ela tenha atendimento, mas o atendimento em si não serve como uma prova consistente.

O kit fica armazenado no hospital até a vítima decidir se quer ou não denunciar o agressor.

E é isso que a Hinata quer que eu faça.

— Hinata... — chamo o nome dela numa súplica, porque, honestamente, isso não vai servir pra nada. Vai ser só mais desgaste. Mais humilhação.

Eu só tô tão cansada que sequer forças para não chorar eu tenho. Eu olho em volta procurando um jeito de sair dessa situação, mas me sinto exausta, fraca.

Deus...

— Eu não quero te forçar a fazer isso — diz, a voz mais baixa, mais incerta. — Mas, Sakura, por favor, não me faz ser passiva nisso.

... mas que merda.

Penso em tudo o que ela já fez por mim, que foi ela que me colocou nesse emprego. Hinata é um doce de pessoa, tá sempre sorrindo, de bom humor. É por isso que quando eu coloco os olhos nos dela e a vejo implorar para que eu não a deixe com a consciência tão pesada, apesar de querer só ir pra casa e fingir que nada existe, eu cedo.

Eu vou passar por mais essa humilhação e fazer o maldito kit.

Tudo o que acontece depois é como se fossem flashes. Eu simplesmente ativo o piloto automático quando ela me guia pra fora do estacionamento, sendo cuidadosa para não esbarramos com ninguém. Não sei como ela consegue, mas chegamos a uma sala muito rapidamente. Eu nem lembro se alguém nos viu ou não nos viu.

O que eu lembro é de Senju Tsunade chegando.

É ela quem vai fazer meu kit.

Eu vejo bem o olhar dela em mim, e não há pena ali. É outra coisa. Algo que eu ainda não entendo. O maxilar dela fica travado até o momento que ela dá um suspiro contido, e a partir daí, a coisa começa.

No Senda, casos como o meu não vão parar na mão da melhor oncologista do país, mas Hinata achou melhor que fosse ela, já que ela passou pelo treinamento necessário para fazer esse tipo de procedimento. Sim, há um treinamento. Além disso, como sou enfermeira do setor, fica mais fácil dar uma desculpa para o meu sumiço de horas.

Quando tudo termina, vou para o banheiro ao lado me trocar. Há um espelho lá e eu me demoro olhando para meu reflexo, vendo a expressão apática que se faz em minha face. Não tem nada ali além de uma casca vazia. Eu tô esgotada de tudo. De absolutamente tudo.

É aí que eu escuto um cochicho.

Hinata entrou na sala e elas falam baixo.

— ... eu não posso deixar ela voltar pra casa assim, sem saber se ela tá segura... eu deveria arrastar ela pruma delegacia e fazer ela contar tudo, ou talvez ir sozinha e deixar claro o que aconteceu.

— E depois? ... Hinata, pra mulheres como nós, que nunca passamos por isso, é fácil dizer denuncie. Mas só a Sakura sabe da situação dela, e a última coisa que ela precisa é ser forçada a denunciar, porque se for assim, em dois dias ela tira a queixa, e aí tudo fica bem pior. ... Além disso, essa menina precisa ter alguma vontade respeitada.

— Mas, Tsunade-sama... como eu vou poder ir pra casa sabendo que-

— Hoje, você não vai dormir. Provavelmente vai se culpar. Se for religiosa, vai fazer uma oração. Talvez fique tentada a mandar mensagens ou aparecer na casa dela de supetão. Você vai reviver esse momento de novo e de novo, vai se sentir horrível por não poder fazer nada, e depois de alguns dias, você finalmente vai entender que não é culpa sua, que não é culpa dela... você vai perceber que a culpa é dele e de todos os outros homens que são coniventes, que duvidam, que nos culpam, e quando esse momento chegar, a única coisa que vai restar é raiva e a certeza de que tudo o que você pode fazer por essa menina é estar ao lado dela, respeitando as condições em que ela se encontra, sabendo que nada disso a define. ...com sorte, muito em breve ela vai te agradecer por ao menos você tê-la feito fazer isso, mas, por enquanto...

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