Canto 21: Parveen

.

.

.

Não vou dizer que tenho uma memória nítida daquele dia, mas lembro do carro lotado com mais pessoas do que deveria. Estávamos voltando de uma festa que rolou no bairro boêmio da cidade. Era tarde, e eu tinha mentido pros meus pais sobre dormir na casa de uma amiga para estudar.

O cara do banco do carona tava passando mal, tinha bebido em excesso e repetia constantemente que estava prestes a vomitar. Todo mundo tava bêbado, mas o dono do carro, a pessoa que estava dirigindo, tava sóbrio o suficiente para não querer ter que lavar o estofado no outro dia, por isso paramos num posto de gasolina.

Eu desci do carro pra esticar as pernas e lembro da lufada de vento frio que me fez sentir falta de um casaco. Se eu soubesse que toda a merda da minha vida ia começar nesse dia, eu não tinha nem saído de casa, mas não dá pra prever quando as coisas vão dar errado; e pra ser sincera, qualquer um que olhasse pra ele diria que não podia dar errado.

Numa calça de alfaiataria ajustada ao corpo e uma camisa branca com alguns botões abertos, ele me olhou curioso assim que me viu sair do banheiro e eu o olhei de volta, imediatamente notando o quão bonito ele era.

A partir desse dia, tudo mudou.

No começo, foi tudo incrível. Sempre é.

Nosso primeiro encontro foi na boate mais cara da cidade. Todo mundo parecia ter uma espécie de adoração por ele, como se ele fosse o centro de tudo naquele lugar. Ele pagou as bebidas mais caras, me ofertou doce com aquele sorriso de que ia ficar tudo bem e não achou ruim quando eu disse que não usava essas coisas.

Ele... respeitou.

Transamos no banco de trás do carro dele naquela noite, que foi estranhamente boa. Todo o dinheiro, o flerte, a opulência... Qualquer um se sentiria um pouco deslocado e um pouco deslumbrado, como eu me senti, e por isso não foi de se estranhar quando tivemos um segundo encontro...

...um terceiro, um quarto...

Passamos a sair com frequência nesse relacionamento indefinido que, lentamente, se tornava algo mais nítido. Sim, porque ele começou a se abrir comigo, contar coisas sobre a própria vida, sobre a família, os negócios... Na época, eu ficava pensando que todos estavam contra ele, até mesmo o irmão que ele tanto amava não parecia ser uma boa pessoa. O tio, ele odiava. O pai, que já havia morrido, ele parecia amar de alguma forma.

Com a intimidade, veio também o conhecimento de novas facetas da personalidade do homem que, para mim, era apenas noites de curtição. Ele nunca me apresentou para ninguém da família dele, mas todos os seus amigos me conheciam, e foi na noite que ele me apresentou como namorada pela primeira vez que eu percebi que não gostava tanto assim dele.

Na verdade, eu nunca gostei.

Sendo bem honesta, eu gostava de tudo ao redor dele. Das experiências que ele me proporcionava, do sexo e da disponibilidade. Fútil, eu sei, mas é a verdade. Por isso, quando entramos no carro para dar a noite como encerrada, eu disse a ele que achava a palavra namoro algo incompatível com nós dois.

Ele nunca se interessou pela minha vida, pelas minhas questões. Às vezes, eu até me perguntava se ele sabia meu sobrenome. Havia algo entre nós que não encaixava direito, algo que eu nunca entendi bem o que era, mas sabia que existia.

Quando eu disse que não queria namorar — com excessiva delicadeza e completamente sem graça —, ele não questionou. Não insistiu. O sorriso dele veio, como sempre, e eu pensei que estava tudo bem.

Mas não estava.

Continuamos saindo, mas as coisas se complicaram. Ele ficou mais... irritado, rude. Não me tratava com a espontaneidade de antes, não conversava mais comigo. Todos os nossos encontros se tornaram puramente sexuais, quase como se nós dois estivéssemos nos obrigando a manter esse único contato.

Então eu terminei com ele. E talvez dizer que terminei seja um exagero, já que não tínhamos nada além desses encontros estranhos no final, mas por falta de algo melhor, fico com o termo terminamos.

Aí sim, a coisa mudou de verdade, porque ele não aceitou isso tão bem e continuou a me procurar, mesmo eu deixando claro que não queria nada com ele. Quando eu bloqueei o número dele, ele usou outro número pra me contatar, sempre fazendo promessas, dizendo que não conseguia viver sem mim.

Eu não faço ideia de onde surgiu todo esse sentimento por parte dele, já que no final das contas, ele estava me tratando como uma prostituta — talvez pior —, mas não foram as declarações inflamadas de amor que me fizeram respondê-lo.

Não.

Foi quando ele, a partir do vigésimo número de telefone, começou a desabafar sobre a família dele. Sobre como achava que o tio queria matá-lo para não ter que dar a herança dele, sobre como o irmão sempre abaixava a cabeça pro tio e sobre como ele se sentia saturado nessas questões.

As palavras dele foram mais intensas que meu breve resumo, de modo que ao ler as mensagens, eu acabei me sentindo na responsabilidade de tentar ao menos dar algum conforto a ele, mesmo que fosse apenas através do ato de ouvir. No meio das mensagens, ele perguntou se podia me ver, e eu, sensibilizada pelo teatro dele, fui tola em aceitar.

Entrei no carro dele, estacionado na esquina da casa dos meus pais, e amparei o choro dele até ele se sentir no clima de me beijar. Eu correspondi a esse beijo, e também ao outro que se seguiu; mas no terceiro, quando as mãos dele começaram a tatear meu corpo, eu disse não.

Com todas as letras, eu disse não.

Eu lembro da mão dele segurando minha boca, se certificando de que eu não gritaria. Lembro das coisas que ele disse, do corpo em cima do meu. Lembro de me esforçar e de ser inútil. Lembro da voz dele, do meu rosto contra o couro do banco, do cheiro do carro dele se misturando com o perfume, e também de todas as outras coisas.

Agora sim, terminamos.

Foi o que ele disse quando me jogou pra fora do carro e saiu, cantando pneu.

É claro que eu nunca disse o que aconteceu pra ninguém. Corri pra casa num pranto silencioso, assustada, sozinha, envergonhada e completamente confusa. Por que eu aceitei aquele encontro? Por que eu entrei no carro dele? Por que eu deixei que ele me beijasse? Por quê?!

Passei dias com dor, sem conseguir me olhar direito no espelho. Fingi, a todo custo, que nada tinha acontecido. Segui minha vida sem que ele sequer me procurasse. Tudo ficou em silêncio, o suficiente para que eu conseguisse até mesmo acreditar que tudo tinha sido apenas um sonho ruim.

Com um pouco mais de tempo, eu tenho certeza de que eu não lembraria mais de nada. É no que eu gosto de acreditar. Mas o único tempo que eu tive, foram os 9 meses da gravidez.

Sim, a Sarada foi concebida no pior momento da minha vida.

Eu tentei abortar assim que descobri, mas nenhum chá ou receita obscura da internet pareceu fazer efeito. Procurei uma clínica que fizesse o procedimento, mas nunca encontrei nenhuma —o que é engraçado porque dizem que é o que mais tem por aí. No final das contas, tudo deu errado e o que eu fiz? Ignorei.

É, eu simplesmente ignorei a gestação e continuei focando no meu último semestre de faculdade, mas meus pais não eram cegos. Minha mãe percebeu os sinais e me confrontou. Quando eu não quis dizer quem era o pai, eles me expulsaram de casa.

Uns amigos me acolheram, mas não por muito tempo. Só o suficiente para eu terminar o curso, porque, sim, eu continuei fingindo que não tinha um bebê dentro de mim, apesar da minha barriga continuar crescendo. E quando meus amigos — que já não são mais meus amigos — me disseram que eu não podia continuar na casa deles, eu me vi sozinha.

Completamente sozinha.

E grávida.

Não tive coragem de aparecer na igreja que frequentava com meus pais por medo e vergonha, por não querer mais ver o olhar de minha mãe. Foi por isso que, depois de duas noites na rua, eu fui aonde tudo começou, naquele mesmo posto de gasolina em que nos vimos pela primeira vez, procurar o homem que tinha tirado tudo de mim na esperança de que ao menos ele pudesse me ajudar.

Dentro do escritório dele, no ar-condicionado gélido, ele franziu o cenho pra mim e disse que não me conhecia. Disse que não fazia ideia de quem eu era. Que eu estava louca. E terminou dizendo que aquela gravidez não era problema dele.

Rápido assim.

Ele nem pareceu surpreso ou arrependido. Ele só... me dispensou. E eu, completamente atônita, sai daquela sala sem entender nada do que estava acontecendo. Cada passo que eu dei, cada movimento do meu corpo depois daquela conversa, foi tudo no automático. Se alguém tivesse perguntado meu nome, eu não saberia dizer. Eu tava tão... tão... ... que quando eu alcancei a área externa, as lágrimas saíram sem que eu sequer percebesse.

Meu choro acumulado escapou todo de uma vez diante da humilhação, da culpa, do medo. Eu não sabia mais o que fazer, não sabia o que poderia ser feito. Nunca na vida eu pensei que um dia estaria naquela situação, com fome, com medo, e pela primeira vez eu pensei que poderia tirar minha própria vida.

Parecia a única solução.

...mas a vida é tragicamente engraçada, porque nesse exato momento, Uchiha Sasuke apareceu.

Lembro do olhar confuso dele para mim, de como seus olhos se desviaram por um momento para a entrada do escritório e novamente se viraram para mim, porém, dessa vez, sem confusão alguma. Sasuke não me fez perguntas. Tudo o que ele fez foi me dizer que tomaria conta de tudo.

Até hoje, Sasuke nunca me fez uma só pergunta e, mesmo assim, tomou conta de tudo.

Eu não sei o que ele supôs naquele momento, mas parece não fazer diferença. Talvez ele tenha perguntado ao próprio irmão, eu não sei. Eu também não faço perguntas. Não quando tenho medo das respostas.

Desde então, ele me cedeu este apartamento, que já estava mobilhado. Foi a Ino, na época, quem me ajudou com o pré-natal e, pelo o que ela me dizia, parece que o Sasuke contou algumas mentiras para ela, sobre o porquê de estar me sustentando quando não tínhamos nenhum vínculo.

De todo modo, as coisas se seguiram e, por muito tempo, eu não tive mais notícias daquele homem, até que... depois que a Sarada nasceu, durante o meu resguardo, ele apareceu sozinho no apartamento, dizendo que queria ver a filha.

Mas ele nem olhou para ela.

Eu tive um sangramento por conta da visita dele e eu já estava com a mentira pronta na ponta da língua quando o Sasuke me encontrou no hospital, mas, de novo, ele não fez nenhuma pergunta.

Foi aí que eu soube que precisava de um plano.

E agora, deitada sobre a cama, eu percebo que meu plano sempre foi ruim desde o começo. Ele nunca me deixaria fugir. Nunca me daria possibilidades de escapar. Eu tô presa nisso até o último fio de cabelo.

Agora eu percebo.

Continuo olhando pro teto, pensando no e-mail que acabei de enviar para a Shizune do RH, pedindo minha demissão. Eu disse, na mensagem pouco elaborada, que dispensaria qualquer direito trabalhista se eles apenas me livrassem de ter que cumprir aviso prévio, e é isto. Eu só quero me livrar logo dessa situação e encarar minha realidade.

Lágrimas escorrem pela minha face, mas eu não consigo reagir. Continuo olhando o teto branco, a lâmpada no centro apagada, os cantos do quarto sob a penumbra da luz difusa que entra pela janela, e eu tô aqui, apagada nas sombras de uma vida que sei que é bem melhor fora dessas quatro paredes.

Meu celular vibra e eu sei quem está falando comigo. Não preciso olhar a tela, não preciso ver a notificação. Eu sei que é Kakashi, posso sentir. Talvez por isso meu abdômen se contraia quando o choro ameaça se intensificar, porque eu lembro de como fui egoísta em corresponder algo que eu não devia, brincando com os sentimentos dele e com os meus, porque estar envolvida com alguém que não os Uchiha não me é permitido.

Tô sem responder ele desde que voltei pra casa após fazer o kit, o que foi há três dias. No primeiro, ele pareceu paciente; no segundo, já à noite, perguntou se estava tudo bem. Nesse momento, quando pego o celular, vejo ele dizer que está começando a ficar preocupado, e eu não o julgo. Eu devia ter respondido. Devia ter dito alguma coisa, mas eu só não consegui.

Venho adiando isso assim como adiei o envio desse email pra Shizune. Venho adiando encarar a realidade da minha vida, fingindo que posso fazer alguma coisa quando a verdade é que tudo o que resta para mim está nessa casa, e eu tô arrastando a Sarada nessa vida comigo.

Eu releio a mensagem dele e tento não me sentir ainda pior, por isso escrevo apressada, querendo acabar logo com esse sentimento de que tô falhando com todo mundo. Digo a ele, em palavras simples demais, que ele não tem que se preocupar comigo. Digo que aconteceram algumas coisas e vou precisar me mudar. Peço desculpas por fazê-lo perder tempo, e antes que ele responda, eu o bloqueio, assim como fiz com a Hinata.

É isso.

Deixo o telefone cair sobre o colchão enquanto volto a olhar para o teto, dessa vez, no entanto, as lágrimas borram minha visão e meu peito treme. Afundada nessa vida, eu não consigo fazer nada direito, e agora eu tô aqui, ouvindo a Sarada chorar no quarto ao lado de novo, e de novo, eu não consigo levantar pra ver o que ela precisa.

Eu sou uma péssima mãe, uma péssima pessoa.

Junto a ela, eu também choro, e assim como com ela, ninguém vem para ver do que eu preciso.

Mas a verdade é que eu já sei o que fazer.

Eu sei exatamente o que eu tenho que fazer.

Sempre soube.

Eu tenho que parar de ser egoísta e dar a Sarada para alguém que possa dar tudo o que ela merece ter, e depois desaparecer da vida de todo mundo. É por isso que eu mal consigo me mover, pensando que vou ficar sem ela, que vou ficar realmente só.

Aí eu penso no hospital, nas pessoas.

... eu penso nos meus pais.

Eles não são perfeitos, mas são as únicas pessoas em quem eu consigo pensar para cuidar da minha filha. Eu vou deixar ela na porta deles, como se fosse uma completa estranha, e torcer para que eles fiquem com ela. Eu sei que eles vão ficar. E se Sarada não for idiota, ela vai ser a filha que eles sempre quiseram ter e que eu nunca pude ser.

E é só depois disso, depois de saber que ela vai ficar bem, que eu posso só...

...desaparecer.

.

.

.