Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Barbara Cartland, que foi publicado na série homônima de romances, da editora Nova Cultural.


Capítulo 5

Usagi já havia arrumado as malas quando constatou que deixara uma caixa de lápis na saleta de Mamoru.

Foi para lá e, encontrando-a vazia, entrou e apanhou o que procurava.

Nesse instante, Mamoru apareceu.

Usagi vestia um elegante traje de viagem, azul, abotoado na frente até à cintura. O chapéu, como o vestido, era um modelo de Paris e tinha um toque todo especial.

- Tudo pronto, Usagi ? - ele interrogou, sorrindo.

- Espero que sim, senhor.

- Há funcionários de meu escritório encarregados de desembaraçar a bagagem pesada. Uma carruagem nos espera no cais para nos levar para a casa. Eu darei as gorjetas aos empregados de bordo.

- Não se incomode com a comissária que me serviu. Ela foi muito amável e eu me desobrigarei disso.

- Vai precisar de seu dinheiro para outras coisas.

- Mesmo assim, prefiro cuidar dessa gorjeta.

- Santo Deus ! - gritou Mamoru, irritado - Será possível que temos de brigar por qualquer pequeno detalhe ? Os empregados de bordo receberão gorjetas de minhas mãos, como sempre !

Ele mostrava-se tão agastado que Usagi gaguejou, desculpando-se:

- O senhor… já me deu… tanto ! Eu tenho meu orgulho !

- Orgulho ! Orgulho ! - exclamou Mamoru - Foi você mesma quem chamou minha atenção para o fato de que o orgulho sempre precede uma queda. E um dia isso ocorrerá com você.

- O que quer… dizer, senhor ?

- Que um dia você ficará humilde; ficará gentil e terna, bondosa e em lágrimas ! E, quando chorar, saberá que está amando !

- Isso nunca acontecerá comigo ! Mas, deixarei a gorjeta a cargo do senhor. Como me ordenou ! - ela saiu da cabine e notou que tremia de emoção. "Por que hei de irritá-lo tanto ?", perguntou a si mesma. "Enfim, tento sempre agir da maneira correta, ele é que encontra defeito em tudo o que faço !"

Vinte minutos mais tarde o navio atracava e as pranchas eram descidas.

Um grande número de amigos dos passageiros subiu a bordo. Nos velhos tempos, Usagi recordou-se, muitas pessoas iam recebê-los, aos pais e a ela, no término de cada viagem.

O sr. Julio Hernández abraçou a esposa e, ao pousar os olhos em Mamoru, franziu a testa. Não obstante, aproximou-se dele e cumprimentou-o:

- Como vai, Chiba ? Soube que estaria a bordo deste navio.

- Prazer em vê-lo - replicou Mamoru. Depois, dirigindo-se à sra. Hernández, disse, de maneira convencional: - Espero que tenha feito boa viagem, senhora. Lamento não termos estado juntos durante a travessia, mas infelizmente o trabalho prendeu-me o tempo todo.

- Trabalho ? - perguntou o sr. Hernández, suspeitando de que Mamoru mentia.

- Muito em breve você ouvirá falarem sobre isso - declarou Mamoru - É uma análise acerca de fatos que interessarão o governo. E você, como Ministro das Finanças, terá interesse no assunto mais do que qualquer outra pessoa.

Um grande número de amigos de Mamoru esperava-o no cais. Após uma troca breve de palavras, ele e Usagi entraram na carruagem.

Voltar a Buenos Aires foi, para Usagi, como voltar ao passado. Cada rua lhe era familiar, uma porção inseparável de sua infância e adolescência. Até os nomes dos diferentes bairros de Buenos Aires voltaram-lhe à memória, com um toque mágico e musical, semelhante aos contos de fadas.

Palermo, com sua infinidade de jardins; La Recoleta, com suas árvores centenárias e frondosas; o Parque Lezama, com seus vales misteriosos; e La Costanera, com seus passeios ladeados de altos álamos.

Tudo fazia parte da magia de Buenos Aires que o sr. Tsukino fomentara na imaginação da filha ao lhe narrar como a Argentina se transformara em nação.

De início, os espanhóis negligenciaram o local por estarem interessados apenas em minérios. A fauna natural da Argentina, excetuando-se o avestruz, não representava nada de valioso no mercado europeu.

Apesar disso, ao lado do grande rio, crescia a aldeia. Surgiram casas de arquitetura toda especial, uma mistura da austeridade britânica com o colorido dos pátios da velha Lima.

Durante o trajeto, Mamoru conservava-se em silêncio. Quando chegaram a uma área mais central da cidade, ela soltou uma exclamação. As ruas e casas ostentavam bandeiras multicoloridas e ela lembrou-se do dia do mês, ao mesmo tempo que Mamoru dizia:

- Amanhã é o aniversário da revolução que culminou com a independência da Argentina. Os portenhos vibram nessa data.

- A decoração está linda - comentou Usagi.

Ela fazia esforço para mostrar surpresa, mas conhecia muito bem essas festividades. Havia desfiles, procissões e fogos de artifício por toda a parte. Cantava-se o Te Deum na catedral. O presidente e os ministros de Estado compareciam à cerimônia religiosa em traje de gala.

O barulho era grande pelas ruas, pois, onde quer que os argentinos se reunissem para celebrar, não faltava o ruído de conversas e risadas. Tanto nas aldeias insignificantes como na capital, os fogos de artifícios iluminavam o céu da madrugada ao anoitecer. Rojões espocavam nas nuvens como trovoadas.

Kenji Tsukino muitas vezes narrara à filha como o Carnaval fora desagradável nos primórdios.

- Se você ousasse sair de casa, se exporia a uma série de riscos. Seria o alvo dos pomitos.

- O que são pomitos, papai ? - ela perguntara.

- São pequenos cartuchos cheios de farinha e água, às vezes cheios de pedregulhos e ovos. Se você recebesse um pomito no rosto, ficaria molhada e coberta de farinha, ou até machucada.

- Que horror, papai !

- A coisa tornou-se tão perigosa que essa brincadeira foi proibida.Os pomitos passaram a ser permitidos só quando cheios de água perfumada.

Mas o Carnaval que Usagi assistira três anos atrás havia sido uma comemoração bem interessante. Ela observara tudo da sacada da Legação Britânica, e se deliciara com os desfiles. Grupos de rapazes, sócios de clubes, fantasiavam-se de personagens históricos.

As corridas de cavalos consistiam no ponto forte das comemorações. Os arreios dos animais eram polidos, a crina aparada, e cada gaúcho esforçava-se por exibir a maior quantidade possível de prata, não apenas em sua montaria, como em sua vestimenta. Orgulhosos como os cavaleiros da Idade Média, desfilavam e eram aplaudidos pela multidão.

- Você pode apreciar os desfiles amanhã, da janela de minha casa - Mamoru foi dizendo - Espero que, quando eu chegar, encontre tudo providenciado.

Ele não entrou em pormenores, e Usagi achou que Mamoru a prevenia de alguma coisa.

Passaram pela Plaza Victoria e ela reviu a catedral que abrigava o túmulo de San Martín, o palácio do arcebispo, e a Casa Rosada, a bela residência presidencial.

Chegaram à Plaza San Martín, onde ficavam os luxuosos palácios de Buenos Aires.

O de Mamoru era enorme. Como de hábito na Argentina, a casa fora construída em volta de vários pátios; mas ela não se recordava de ter visto nada tão lindo nem tão espaçoso. Fontes jorravam suas águas para o céu. Havia profusão de flores, um verdadeiro poema colorido. As laranjeiras estavam carregadas de frutas; hibiscos e primaveras contrastavam com o mármore branco dos muros.

Usagi não conseguia falar, tão encantada estava !

A sra. Tsukino referira-se a Mamoru, dizendo que ele possuía um "exército" de empregados. E acertara. Uma governanta acompanhou-a ao quarto, um complemento digno do palácio.

- Espero que não lhe falte nada, miss Hasegawa - disse ela - Eu encarreguei uma empregada de cuidar da senhorita. O nome dela é Minako Aino.

- Obrigada - respondeu Usagi.

Um segundo mais tarde, Minako entrara no quarto. Era jovem e bonita. Devia ter dezessete anos.

Enquanto Minako colocava tudo nos armários e gavetas, tagarelava sem parar.

- Está ansiosa para ver as festas amanhã ? - indagou Usagi à empregada.

- Tenho uma fantasia nova, senhorita, e vou dançar com meu namorado. Meus pais me acompanharão, claro - acrescentou depressa, para que Usagi não pensasse mal dela.

- Que bom, Minako ! Fico contente por você.

Ela sabia que as moças na Argentina nunca iam a festas sozinhas com o namorado. Afinal, o costume era mais ou menos igual ao da Inglaterra. Ela pensava em como as mulheres da geração de sua mãe ficariam escandalizadas se soubessem que passara dias sozinha com Mamoru. Nunca antes lhe fora permitido nem ao menos ir até a esquina na companhia de um homem. Quando passeava nos parques de Buenos Aires, sua governanta, miss Ishihara, ia junto.

Usagi assistia peças teatrais somente se fossem de Shakespeare ou de algum autor clássico. E sempre durante o dia. Isso porque, naquela época, era uma moça de alta posição.

No presente, pelo fato de seu pai ser considerado um traidor, não havia mais lugar para ela nessa mesma sociedade.

Era uma moça com quem pessoa alguma gostaria de se relacionar, caso viesse a saber sua identidade.

Usagi horrorizava-se em pensar na reação que Mamoru teria se descobrisse tudo. Ele considerava seu pai culpado, e a mandaria de volta à Inglaterra sem ao menos lhe dizer "muito obrigado".

Não, não, impossível ! Ele não faria isso !

Mas ele não ajudara seu pai na hora da necessidade. Como os demais argentinos, destruíra e difamara um homem que havia respeitado por anos.

"Ninguém pode descobrir quem eu sou", pensava Usagi.

Quando chegasse a hora de deixar Buenos Aires, partiria sorrateiramente para a obscuridade. Admitia até trocar de nome de novo. Depois de ter feito isso uma vez, que diferença fazer a mesma coisa dezenas de vezes ?

Se ao menos pudesse ganhar bastante dinheiro ! Ela e a mãe, de quando em quando, mudariam de cidade, incógnitas. Duas sombras… nada mais !

Usagi deu um suspiro e ajeitou os óculos no rosto. Eram sua defesa. "Preciso ter cuidado, muito cuidado, para não deixar escapar que já conhecia Buenos Aires."

Um pouco mais tarde ela foi conduzida para um pequeno escritório próximo à grande sala onde Mamoru Chiba trabalhava.

- O sr. Chiba deseja que a senhorita se ocupe dos negócios referentes à Inglaterra - um dos funcionários de Mamoru informou-a - Os cabogramas e cartas de Londres serão trazidos aqui para a senhorita. Se precisar de alguma coisa, por favor, peça. Meu nome é Seiya Kou.

- Obrigada, sr. Kou - replicou Usagi.

- Não quero preocupá-la mais que o necessário, mas a senhorita poderá ter dificuldade em resolver certos problemas. Estarei ao seu dispor, sempre.

- Obrigada mais uma vez, sr. Kou.

Foi um prazer para Usagi voltar a ter contato com o jeito cortês dos argentinos. Não havia na Argentina aquele modo autoritário de falar, como em Londres. Em Buenos Aires, todos eram respeitosos e amáveis, às vezes até um pouco amáveis demais…

Naquela noite, jantou sozinha. Soube, pelos empregados, que o sr. Chiba jantaria fora. Ela comeu numa saleta com vista para um pátio interno.

Havia muitos pátios na mansão e, nos fundos, um enorme salão de baile.

O jardim era uma preciosidade, cheio de acácias e de outras flores não existentes na Inglaterra. Ela se perguntava se teria tempo de sentar-se ao Sol, como fazia quando muito jovem.

Naquele tempo acreditava que o mundo estava cheio de pessoas nobres, generosas, amigas. Tudo que se estendia ante seus olhos era dourado como os pampas, as "planícies sem árvores" descritas pelos poetas, as imensas planícies cuja vegetação se ondulava ao sabor do vento. E ela achava que sua vida se estendia também até um horizonte sem limites.

Mas um dia aprendeu, com amargura, que seu horizonte fora limitado pela falta de dinheiro, que fora reduzido a um quartinho numa rua modesta de Londres. Algumas vezes, na Londres cinzenta, chuvosa, cheia de neblina, visualizava os rios lodosos dos pampas, quando, evitando os cactos gigantescos, cavalgava com seu pai para o local onde o capim crescia quase até à cintura, salpicado de flores. Tal qual os campos ingleses em junho !

E as aves a fascinavam: patos selvagens, cisnes, íbis, pernaltas, garças. Às vezes, com sorte, via pássaros rosados que, quando abriam as asas, exibiam um colorido vermelho-vivo. Eram os flamingos.

Mas, agora, olhando para o jardim da casa de Mamoru, considerava-se salva. Por algum tempo, pelo menos.

"Quero usufruir o máximo. Quero gravar tudo em minha mente, para viver de recordações", refletia ela. "Para que, de volta à Inglaterra, ao fechar os olhos, possa enxergar o colorido da Argentina, ouvir o canto dos pássaros, a música da qual jamais esquecerei !"

Ela não resistiu à tentação de passear pelo jardim, terminado o jantar.

A fonte de pedra em estilo espanhol fora entalhada por artistas há muito desaparecidos. Usagi conhecia esse tipo de trabalho executado pelos índios que os jesuítas catequizavam.

O barulho da água não permitiu que ela ouvisse passos atrás de si. Deu um pulo ao escutar a voz de Mamoru.

- Está admirando minha fonte, Usagi ?

- É linda ! Esse trabalho dos índios é sempre… - deu-se conta, de repente, de que quase revelara coisas que precisava esconder. Acrescentou depressa: - … é sempre descrito nos livros como uma arte fora do comum.

- É verdade - concordou Mamoru - Já percorreu o resto da casa ?

- Não ainda.

- O que acha do jardim ?

- É lindíssimo.

- Amanhã, Dia da Independência da Argentina, há muitas festas na cidade - explicou ele - Darei uma aqui, e reunirei amigos e políticos. Por ser Carnaval, usaremos máscaras e fantasias, as mais variadas. Espero que aceite meu convite e compareça.

- Como convidada ?

- Sim, como convidada, Usagi. Veja bem, não estou dando uma ordem, mas apenas convidando.

Ela quase disse "sim", mas logo lembrou-se das conseqüências que poderiam advir de sua aceitação. Talvez pessoas que ela conhecera antes comparecessem… O que faria, então ?

Ou talvez ficasse sozinha a noite inteira, sem ter com quem conversar.

Mamoru estaria ocupado demais para cuidar dela.

- É muita bondade sua, senhor, mas recuso o seu convite.

- Por quê ?

- Porque não tenho vontade de tomar parte numa festa.

- Que desculpa absurda ! Você é jovem, e todos os jovens gostam de dançar, especialmente durante o Carnaval.

- Refere-se aos argentinos, senhor, porém sou inglesa.

- E não deixa de ser jovem. Os ingleses também dançam - ele sorriu - Enquanto eu estava em Londres, era convidado para bailes todas as noites.

- Não posso dizer o mesmo sobre mim, senhor !

- As donas de casa inglesas me receberam de braços abertos. Como anfitrião argentino, quero fazer isso com você.

- Obrigada, mas já dei minha resposta.

- Sendo difícil outra vez, Usagi ?

- Difícil, não, prática. Sou sua empregada, e sabe muito bem que os convidados de amanhã não esperam ficar lado a lado com uma simples secretária. Com certeza se ofenderão se forem apresentados a mim.

De fato, a alta sociedade argentina, como a inglesa, era terrivelmente convencional, e de mentalidade estreita, tacanha, em alguns aspectos. Era uma sociedade intolerante, que jamais aceitaria a intromissão de elementos que considerasse de classe inferior.

Usagi não ignorava isso. Nem a sra. Tsukino, bondosa como sempre fora, ousaria convidar uma das secretárias do marido para tomar chá com suas amigas.

E seria simplesmente impossível a qualquer anfitriã argentina receber Usagi, sabendo ser ela secretária de Mamoru Chiba e ter viajado com ele sozinha de Southampton a Buenos Aires.

- Todos usarão máscaras - murmurou Mamoru - Eu gostaria muito que você comparecesse, Usagi.

- Por quê ? Para ver o quê ? Para ouvir o quê ? - indagou ela - Conheço o meu lugar, senhor. Sou uma secretária, e me limitarei a ficar em seu escritório.

- Supus que você fosse mais ousada e menos antiquada que a maioria das inglesas de sua idade - E, após uma pausa, ele acrescentou: - Reconheço, não obstante, que é mais inteligente e mais instruída que todas elas. E isso realmente me surpreende !

- Uma moça inglesa, como as que o senhor convidou para a festa, não estaria trabalhando num escritório. Entende por que insisto em permanecer em meu lugar ?

- Entendo. Mas eu me pergunto, às vezes, qual é o seu lugar… - replicou o sr. Chiba, como se falasse consigo mesmo.

- Informaram-me que devo cuidar de toda a correspondência da Inglaterra. Garanto que haverá muitos cabogramas amanhã de manhã. Cuidarei deles e não incomodarei o senhor até depois da festa.

- É muito amável, Usagi - ele falava com sarcasmo.

- Tento, senhor, obrigada.

Usagi saudou-o e retirou-se. Sabia que Mamoru a observava e procurou caminhar com dignidade e graça. Depois, concluiu que não tinha nem mesmo direito de ser graciosa. Que diferença faria o modo como andava ? Era uma simples empregada, nada mais.

Mas por que ele a teria convidado ?

Quem sabe desejasse que ela o visse rodeado pela elite de Buenos Aires; que ela admirasse o baile; que ela apreciasse a beleza dos jardins iluminados com globos de gás e velas bruxuleantes.

A "luz das fadas", assim Usagi apelidara, quando criança, esse tipo de iluminação. E ela se debruçava na janela de seu quarto, na Argentina, para ver o pai e a mãe dançando no gramado. Lanternas chinesas pendiam das árvores e lançavam uma luz dourada nos pequenos caramanchões onde casais conversavam nos intervalos das danças. Sua mãe parecia uma fada. Usagi enxergava-a com o vestido branco que trouxera por insistência dela, e que ainda estava no fundo da mala.

"Pobre mamãe, não tem idéia de minha posição agora !"

Pelo visto, não haveria vestidos brancos, nem bailes à "luz das fadas", nem Carnaval ou Dia da Independência, quando toda a Argentina explodia de entusiasmo !


Usagi acordou de madrugada, no dia seguinte, ao som dos rojões.

Enquanto se vestia, o barulho aumentava. Logo começou o rufar dos tambores, o toque das cornetas. Os sinos da catedral badalavam. De vez em quando ouvia-se o hino nacional argentino, que Kenji Tsukino descrevera como "musical, patriótico, uma obra-prima de musicalidade".

Os empregados corriam pela casa, ocupadíssimos.

Quando entrou no escritório, constatou que não havia cabogramas nem cartas. O correio, informaram-na, estava fechado. Era o dia mais alegre e mais irresponsável do ano !

Ela seria forçada a ficar na janela da casa com o sr. Kou e os demais empregados. E foi o que fez.

Uma procissão percorreu as ruas de Buenos Aires, com homens carregando uma imagem de santo e inúmeros estandartes religiosos. Penitentes usavam hábitos de monge e, de pés descalços, recitavam o rosário seguindo a imagem sagrada.

Soldados puxavam uma carreta com relíquias, sacolejando nas ruas de paralelepípedos, e Usagi tinha a impressão de que o som de milhares de cometas sacudiam o ar.

Todos gritavam, riam e cantavam. Das janelas, mulheres jogavam flores nos soldados, que marchavam com orgulho, e nos gaúchos.

Durante o Carnaval iniciavam-se muitos romances. Alguns acabavam em casamento; outros, em lágrimas.

Mulheres respeitáveis e idosas não se aventuravam a sair de casa, mas para os homens de qualquer idade havia nas ruas uma profusão de rostos femininos provocantes, de lábios convidativos e de olhos cheios de desejo.

"Talvez à noite eu possa passear em vez de ir ao baile", pensava Usagi.


O dia passou rápido. Toda a elite argentina foi às corridas à tarde. "Que pena eu não ter freqüentado o jóquei quando morei em Buenos Aires. Era jovem demais", lamentava ela.

No presente, seria impossível, pois não pertencia à aristocracia. Pertencer ou não à aristocracia não a perturbava. Queria apenas ver os cavalos, ver as corridas.

Seu pai falara muitas vezes sobre a emoção de vencer as apostas; e sobre o desapontamento e a frustração de perdê-las !

Os cavalos de Mamoru estariam correndo, e eram considerados os melhores da Argentina. Por ser ele figura de destaque, muitas pessoas apostavam em seus cavalos mais pelas qualidades do dono que pela excelência dos animais, aliás incontestável. E, cada vez que Mamoru ganhava, sua popularidade crescia.

"Um dia ele será presidente da República", repetia Usagi mentalmente.

Ela achava estranho que a Argentina celebrasse tão ruidosamente, oitenta e quatro anos mais tarde, a independência conseguida em vinte e cinco de maio de 1810.

Depois dessa data, não houve mais representantes da Espanha exercendo autoridade em Buenos Aires, excetuando-se numa pequena região onde ainda governou, por pouco tempo, um vice-rei espanhol.

Mas, na mesma aurora da independência, esse vice-rei espanhol, o marquês de Sobremonte, fugiu.

Como Kenji Tsukino dissera à filha, havia homens leais à Espanha que lideraram alguns movimentos contra a independência. Mas o governo do país já havia passado para as mãos da comunidade nativa.

Quando o vice-rei fugiu de Buenos Aires, expediu ordens em Montevidéu para que se preparassem tropas de ataque à Argentina. Tudo foi inútil, pois a Espanha perdera o controle da situação. O povo lutou pelas ruas a fim de libertar suas cidades, seus pampas, e o grande rio que banhava suas terras.

Houve muito sofrimento; mas, enfim, a Argentina surgiu como uma nação aos olhos do mundo.

Nessa época nasceram as grandes famílias como a de Mamoru Chiba. Essas famílias absorveram tudo o que havia de melhor no caráter espanhol, e descartaram o pior; e formaram o povo argentino, com sua própria personalidade.

Havia qualquer coisa em Mamoru Chiba, pensava Manuela, que o tornava diferente dos homens dos outros países que ela visitara. Não podia explicar o quê. Talvez fosse o orgulho, a auto-suficiência e a arrogância dele. Aos poucos, porém, percebeu que era a fé que Mamoru tinha em si mesmo, a crença em seu destino !

Ele acreditava poder ajudar a Argentina, sabia possuir uma solução para muitos dos problemas que oprimiam a economia e o povo naquele momento crucial.

Usagi se convencia de que, qualquer pessoa que confiasse em si mesma, como Mamoru, conseguiria vencer. Mas logo lembrou-se do pai que confiara em si, e sucumbira. Nessas horas achava impossível não ter ódio da Argentina e de seu povo. Mas… amava-os ao mesmo tempo em que os odiava !

Ela resolveu dar uma volta pelo jardim da casa, e viu que a "luz das fadas" já havia sido instalada. As portas-janelas do salão foram removidas, ficando um lado do imenso recinto completamente aberto para o jardim.

As paredes do salão, repleto de espelhos e lustres de cristal, eram revestidas de seda chinesa com motivos de flores e pássaros exóticos. O chão fora polido como um espelho.

Usagi teve um súbito desejo de dançar. Ela nunca freqüentara bailes, apenas festinhas de meninas de sua idade. Às vezes dançava com o pai enquanto a mãe tocava piano.

- Você precisa aprender a dançar bem, minha filha - dizia ele - Não admito mulheres que tropeçam e são pesadas como chumbo - o sr.Tsukino sorria e acrescentava: - Sua mãe é uma pluma. Nunca conheci mulher alguma tão leve, nem tão graciosa para dançar !

- É porque adoro dançar com você - a sra. Tsukino retrucava sorrindo.

Cada vez que o pai parava,Usagi insistia:

- Vamos dançar mais um pouco, papai, por favor - e eles giravam pela sala, talvez numa valsa vienense.

Mais tarde,o sr. Tsukino ensinou a filha a dançar o tango, com passos exagerados, tão ousados que fizeram a sra. Tsukino exclamar, horrorizada:

- Se Usagi dançar assim num salão, as senhoras argentinas porão a mão na cabeça, escandalizadas !

- E com razão - replicara o sr. Tsukino - O tango é mesmo uma dança provocante.

- Provoca o quê, mamãe ? - indagara Usagi.

- Quando você crescer, eu lhe explicarei, minha filha.

Andando pelo jardim, ela refletia sobre como Mamoru dançava o tango. Sem dúvida, muito bem ! Não fazia ele tudo bem ?

Grande, ao mesmo tempo que possuía força bruta nas rédeas, teria por certo flexibilidade e elegância num salão de baile.

"Sim, Mamoru Chiba tem de dançar bem", pensava Usagi com um suspiro, enquanto subia para seu quarto.

Imaginava-o conduzindo a sra. Hernández nos braços, num salão de baile. Dançaria ela descontraída, estando o marido presente ? Enfim, além da sra. Hernández haveria muitas outras mulheres…

Alguns minutos mais tarde, Minako entrou no quarto.

- Vai haver um grande baile aqui esta noite, senhorita - declarou ela - É uma pena que nós, os empregados, não possamos espiar. O senhor proibiu. As mulheres mais bonitas de Buenos Aires estarão presentes.

- Mas há outras festas na cidade, não, Minako ?

- Centenas delas, senhorita, mas há apenas um sr. Chiba, e todas as moças solteiras querem caçá-lo. As casadas… como posso dizer… querem um romance mais avançado…

- Todas o acham atraente… - sussurrou Usagi.

- E quem não o acharia ? Todo mundo diz que o sr. Chiba é o homem mais sedutor e mais ardente de Buenos Aires.

- Ardente ? - perguntou Usagi, um pouco preocupada, sem saber por quê.

- Claro, senhorita, e isso é um elogio, é como o homem tem de ser. O patrão é famoso por seus inúmeros… casos de amor !

- Minako ! - censurou-a Usagi. Depois, tentando falar com naturalidade, pediu: - Traga meu jantar aqui em cima, por favor. Prefiro não sair do quarto, hoje.

- Pois não. Mas é uma pena que a senhorita não possa ir ao baile.

- Sou apenas uma secretária, Minako.

- Eu sei, mas é tão bonita… mais bonita que as mulheres que vêm à festa e oferecem os lábios ao patrão, esperando que ele as beije.

- Verdade?! - exclamou Usagi - Isso é horrível !

- Oh, se a senhorita soubesse o que se passa por aqui ! Nós, as empregadas, vemos muita coisa. Há as mulheres casadas que inventam uma desculpa qualquer para procurar o sr. Chiba alegando, por exemplo, que necessitam de conselhos na compra de um cavalo para dar de presente de aniversário ao marido. Há outras que o afastam para cantos escuros com a desculpa de que vão desmaiar e de que precisam sentar-se, ou de que o cordão do sapato desamarrou. Oh, as histórias que ouvimos são de morrer de rir !

- E o sr. Chiba aceita… essas desculpas ? - perguntou Usagi.

- Que homem rejeitaria uma uva madura quando nem tem o trabalho de apanhá-la do pé ?

Usagi riu da comparação, e acreditou haver muita verdade nas histórias que Minako lhe contava.

Mulheres bonitas, como a sra. Hernández, não desejavam somente a companhia de Mamoru, mas também o toque dos lábios dele. Mamoru era atraente, espirituoso e rico ! Tinha uma personalidade marcante, e os outros homens sumiam perto dele. Além disso, tratava-se de um rapaz solteiro e desimpedido !

- Por que o sr. Chiba não se casou ainda ? - ela quis saber.

- Talvez por nunca ter encontrado uma mulher que ele realmente amasse. Os homens são todos iguais, procuram algo perfeito, uma mulher diferente, penso.

- É observadora, Minako. Quem ensinou você a pensar assim ?

- Acho que meu pai, ele me encoraja a analisar as pessoas. Quanto a meu noivo, me considera muito crítica.

- Qual é a profissão de seu pai ?

- Ele tem uma pequena farmácia, senhorita, e uma enorme freguesia. Muitas pessoas o procuram para conversar. Acho que meu pai fala mais do que vende.

- E você prefere trabalhar aqui do que na farmácia dele ?

- Eu ganho mais dinheiro aqui. Preciso economizar para me casar.

- Lembro-me agora de que você hoje vai sair com seu noivo. Comprou uma fantasia para o Carnaval, não é verdade ?

A jovem deu um suspiro e declarou:

- Não vou mais. O chefe de meu noivo ofereceu-lhe um bom dinheiro extra para ele trabalhar esta noite no restaurante. Como eu disse, senhorita, estamos economizando para nos casar.

- Oh, Minako, que pena você não poder ir !

- Fiquei muito desapontada - concordou Minako - Mas, ao mesmo tempo, estou contente, pois talvez possamos nos casar mais cedo. E nosso casamento é mais importante que um baile de Carnaval !

- Você é muito ajuizada - Usagi sorriu.

- Posso usar minha fantasia no próximo ano, senhorita.

- Espero que sim, Minako !

De repente, a empregada deu um passo na direção de Usagi e disse:

- Tenho uma idéia ! Por que não veste minha fantasia e vai ao baile aqui de casa ? Eu arranjo uma máscara para a senhorita, há muitas lá embaixo no hall, para as pessoas que chegam desprevenidas. Ninguém entra sem estar mascarado. Se a senhorita usar minha roupa e cobrir o cabelo, duvido que a reconheçam.

- Não… não ! - protestou Usagi - Você é muito bondosa, Minako, mas é impossível !

- Impossível por quê ? Não deixa de ser uma aventura interessante. A senhorita é inglesa, nunca assistiu a um baile de Carnaval em Buenos Aires. É fantástico ! No ano passado, ajudei a servir no salão, e nunca me diverti tanto ! Há centenas de diversas fantasias, uma mais bonita que a outra. São palhaços, colombinas, pierrôs, guerreiros espanhóis, mulheres com enormes perucas brancas, homens vestidos de diabo e muitas, muitas ladies usando roupas de camponesas espanholas.

Usagi ouvia tudo, fascinada. E começou a refletir que, vestida de camponesa, com a roupa que Minako comprara, de lenço na cabeça, com máscara, nem mesmo sua mãe a reconheceria.

E… se fosse ao baile apenas por meia hora ?

Poderia ver mulheres bonitas tentando atrair a atenção de Mamoru Chiba.

Não... não... mas que idéia ridícula !

- Um minuto, senhorita - falou Minako, saindo do quarto. Usagi olhou-se no espelho. Seus cabelos loiros brilhavam, e seus olhos azuis eram como contas cheias de mistério. Lembrou-se da surpresa de Mamoru quando a vira pela primeira vez sem óculos. Naquele instante, pelo modo como a fitara, Usagi teve a impressão de que ele não se interessava mais pela sra. Hernández. O romance deles chegara ao fim, e Mamoru parecia satisfeito com isso.

Porém havia outras mulheres… as lindas, sedutoras, exóticas mulheres de Buenos Aires que, como aves de plumagem brilhante, exibiam para Mamoru seus cabelos negros e a pele de alabastro. Os lábios vermelhos e carnudos, o movimento do corpo dessas mulheres eram sinais evidentes de uma natureza apaixonada e voluptuosa.

Seria isso que Mamoru esperava de suas mulheres ? As argentinas possuíam, sem dúvida, uma graça e vivacidade que ele não acharia jamais nas mulheres inglesas.

- Elas atraem o olhar dos homens e cativam-lhes os sentidos - um jovem diplomata inglês dissera um dia ao sr. Tsukino, referindo-se às argentinas.

- E têm instinto animal aguçado - acrescentara Kenji. A sra.Tsukino protestara:

- Seu comentário foi rude, Kenji. Elas enfeitiçam, agradam e são lindíssimas.

- A ambição dessas mulheres resume-se em três coisas - acrescentara o sr. Tsukino - Tocar piano, falar francês e ter uma série de amantes !

- Bobagem ! - exclamara a sra.Tsukino, rindo muito.

- Mas um grande senão na mulher argentina - continuara Kenji Tsukino - É a voz. Um pouco aguda demais para o meu gosto.

Usagi constatara, mais tarde, que seu pai tinha razão. As argentinas possuíam, em geral, um tom de voz duro e estridente, nada musical.

"Teria Mamoru notado isso ?", ela se perguntava.

Minako voltou ao quarto trazendo nos braços uma saia vermelha, uma blusa branca bordada, e um colete de veludo preto. Era a vestimenta típica de uma camponesa argentina. Completavam a fantasia várias anáguas brancas engomadas, um avental com barra de renda e um lenço vermelho de seda , que escondia os cabelos sob o enorme chapéu branco.

- É essa a sua fantasia? - indagou Usagi.

- Agora é sua - replicou Minako - Vista-a, senhorita. Vai ficar linda !


P. S.: Eu sei que esse capítulo quase não veio à luz, mas é que eu decidi tirar um descanso. Peço desculpas por isso. Mas eu não sou de deixar uma fic/adaptação/whatever incompleta, então estou de volta.

P.S. 2: Nos vemos no Capítulo 6.