Beta: LadyCygnus - nosso carinho ever and ever!

Sinopse: Muitos dizem que essa coisa do destino não existe! Que nós somos quem fazemos o nosso próprio caminho e criamos as expectativas para nossas vidas. Mas por vezes, o destino, esse mesmo não existente, pode ser um tanto cruel, e pregar pequenas peças, criando desventuras, criando agruras, mas no meio disso tudo, haverá sempre uma pequena luz a nos guiar. Uma chama que aquece, que inebria e nos faz desejar prosseguir a jornada quando finalmente encontramos nossa outra metade, nossa soulmate!

Avisos no final!

oOoOoOo

O céu não poderia estar mais bonito do que naquela manhã, até mesmo os passarinhos pareciam arrulhar mais, recebendo aquele dia maravilhoso de céu límpido e com nuances do que prometia. Mas esse não era bem o que um jovem sentia em seu ser. Um tanto atrapalhado, parecia até mesmo perdido, e em todo o seu ser, sentia que não compactuava com aquele descortinar do raiar de mais novo dia. Mau agouro, quem sabe? Não era supersticioso, mas lá estava ele, quase às vias de fato de largar tudo e deixar o veículo em qualquer lugar.

Viktor tentava se entender com o navegador de bordo do carro enquanto praguejava alto por estar sozinho no seu interior. Era óbvio que conseguiria achar um Starbucks para comprar um chá do seu agrado, era óbvio que conseguiria ligar e dirigir o próprio carro e era mais óbvio ainda que o grande Viktor Nikiforov se perderia nas movimentadas ruas do centro de Tóquio. Amaldiçoou mais uma vez a voz metálica do aparelho e freou bruscamente ao ver o sinal mudar de cor para o vermelho sem um aviso prévio.

Deitou a cabeça no volante, se controlando para não chorar de raiva e frustração, não podia ser pior... Era um homem rico, adulto, inteligente e um alfa lúpus de linhagem pura, mas era a única pessoa na face da terra burra o suficiente para dispensar o motorista por ele ser um ômega e ter o cheiro doce demais para o seu olfato sensível de alfa puro.

- Incrível! Formidável... Vou chegar atrasado à reunião! Na minha própria reunião de apresentação! - Começou a socar o volante até escutar uma buzina do veículo atrás. - Está com pressa? Então voa! - Gritou dentro do veículo impregnado com seu cheiro amadeirado que dominava o lugar restrito.

Virou à esquerda sem olhar ou se preocupar com nada. O mundo era seu e ele estava com pressa, mas o copo tombou no painel e o líquido quente do seu chá atingiu sua perna e, tentando não se queimar ou evitar um estrago maior nas roupas, esqueceu-se da rua e das pessoas.

Gritos, barulhos de buzinas, pessoas correndo ou se jogando na calçada e, quando levantou a cabeça, sentiu o impacto. Parou de chofre. Tudo ficou mudo - até o maldito navegador. Ele então encarou as pessoas do lado de fora, que mantinham os semblantes aterrorizados e teve uma certeza... tudo poderia ficar pior, bem pior. Atropelou alguém.

Se atirou para fora do carro com o celular na mão pronto para discar para alguém que ele nem imaginava quem seria e como faria, mas parou ao ver um homem japonês miúdo no chão segurando a barriga avantajada pela gravidez e gemendo baixinho.

O russo se desesperou, havia atropelado um ômega grávido! E sem saber como ou por quê? Acabou entrando na ambulância de resgate, ficando próximo ao japonês que vez ou outra abria os olhos mirando-o, buscando por alguém. Talvez, quem sabe, por seu parceiro. Ouvira algo dos paramédicos sobre não ter rompido a bolsa, mas que aquela situação requeria muitos cuidados.

No hospital, Viktor tentava se entender e fornecer o mínimo de informações solicitadas pela atendente, mas estava complicado pois o idioma era uma barreira que o platinado tentava vencer e o fato de que atropelara uma pessoa não ajudava muito.

Os poucos dados que deu conseguiu do único documento que o médico socorrista colocou em suas mãos. Um cartão com nome, tipo sanguíneo e gênero. Torceu a boca com desgosto enquanto olhava para a merda do cartão entre seus dedos; aquilo não resolvia nada ou esclarecia alguma coisa e por isso permitiu que o descontrole voltasse a tomar seu corpo e mente. – "Posso ter matado o bebê de outro alfa!" – pensou desesperando-se um tanto mais.

- Senhor Nikiforov? - A voz alta do homem moreno parado em frente à uma porta tirou Viktor de seu estado, fazendo com que este se levantasse. - Sou o doutor Otabek Altin e fiz o primeiro atendimento ao senhor Katsuki. - O platinado percebeu o médico levar a mão ao nariz mais de uma vez e não só ele mas outras pessoas na enorme recepção faziam o mesmo; mais uma constatação de que estava tão descontrolado que seu cheiro se desprendia aos quilos do seu corpo. - O senhor é o pai?

- O quê? Como assim pai? - Viu o moreno apontar para a porta atrás e entendeu. – Não! Sou a pessoa que – fez uma leve pausa e prosseguiu - causou o acidente.

Otabek balançou a cabeça afirmativamente. - Entendo. Então, logo a polícia estará aqui para conversar com o senhor. - parou para fitar o russo com atenção. - Acho melhor levar o senhor para outra sala, uma na qual tenha mais privacidade.

Viktor observava as costas largas do médico enquanto caminhava pelos corredores brancos do hospital. Ele provavelmente era um beta pois não captava cheiro nenhum partindo dele e se perguntava sem parar o porquê do médico achar que poderia ser o pai da criança. Deveria estar com uma cara pior do que imaginava?! Entraram em uma ala restrita.

- O senhor não perguntou, mas os dois estão bem... até o momento, mas vamos ter que repetir alguns exames com o feto. Foi um milagre que a bolsa não se rompeu, ele sente muitas dores pelo corpo, mas está estável. - O russo virou-se atônito para o médico. Se esquecera completamente do ômega, do bebê ou de qualquer outro fato relacionado a pessoa que o levou até ali e por um momento se envergonhou pois só pensará no pai alfa.

- Fico feliz em... - Mas parou sua oratória ao sentir um cheiro começar a preencher o corredor, era forte, ácido e fedido para seu olfato.

- Doutor Altin? - A enfermeira não levantava os olhos do chão. - Esse é o senhor Shimizu Akira, marido do senhor Katsuki.

Viktor e Otabek olhavam para o outro alfa que chegou, esse por sua vez ignorava o médico e encarava curioso o seu semelhante. Eles se mediam, se estudavam e travavam uma batalha silenciosa. Só pararam quando o moreno pigarreou.

- Senhor Shimizu? Seu marido está bem e...

- A criança? - Akira não conseguia tirar os olhos do russo.

- Bem, talvez o senhor queira vê-lo. - O médico abriu a porta dando passagem para o marido. Só que ele não entrou e fez um movimento para que o médico passasse primeiro, no fim deixou a porta aberta para um curioso Viktor observar tudo do limiar do batente.

Yuuri estava deitado na cama de olhos fechados, os aparelhos ligados ao seu corpo monitoravam não só seus indicadores como os do bebê também e ele estava abatido, mas pareceu ao russo que o ômega ficou mais abatido ainda quando sentiu a presença do esposo dentro do quarto. O abrir dos olhos revelou um castanho avermelhado triste.

- Akira, eu... eu...

- Fique quieto! - O alfa marido usou sua voz de comando e fez com que o pequeno ômega se encolhesse mais no leito. - Não quero escutar sua voz! – trovejou com cara de poucos amigos.

O clima ficou tenso no quarto: o médico não esperava por isso, imaginava que o pai e marido fosse um homem de bem, amoroso no mínimo e não um completo boçal. Otabek nunca entenderia porque o mundo tinha que ser dividido por gêneros, classificado por cores e com direitos e deveres diferentes. Para ele, uma pessoa era um ser humano igual a todos. Mas não, prova disso era a situação que vivia naquele exato momento: dois alfas, um ômega e um beta. Todos juntos e ele era o único que parecia se ressentir pela forma como o grávido era tratado.

- Senhor Shimizu, acho que o senhor não deveria... – foi atalhado antes mesmo de conseguir concluir seu pensamento.

- O quê? Falar com meu marido assim? - O homem virou-se de frente para o moreno e o encarou com uma sobrancelha erguida. - Por conta dele perdi meu voo para a Austrália. Sabe a dor de cabeça que terei para conseguir outra passagem para hoje? Tempo é dinheiro, doutor! Muito dinheiro, doutor! – Deu ênfase a cada vez que ele usava o título aferido ao homem parado à sua frente. Voltou-se então para olhar Yuuri mais uma vez. - No meu retorno conversaremos sobre isso. – quem não o conhecia, não conseguia ler nas entrelinhas o que aquela simples frase queria dizer ao jovem pai encolhido naquele leito hospitalar.

Akira girou em seu eixo e mais uma vez encontrou com os olhos levemente avermelhados do russo; seguiu em sua direção saindo do quarto, abandonando o médico mudo e o ômega que chorava de mansinho na cama com os batimentos cardíacos até então controlados tendo uma leve oscilação .

Viktor buscava seu autocontrole perdido há muitas horas e ver o desprezo com que o homem à sua frente tratava o marido estava se tornando perigoso para todos. Piscou várias vezes, respirando fundo e viu a reverência em forma de cumprimento a sua pessoa.

- O senhor é quem exatamente? – as sobrancelhas levemente arqueadas, o olhar arguto dirigido ao outro. Tinha certeza que havia visto um brilho avermelhado nas íris que agora estavam novamente azuis, um azul que se este o conhecesse há mais tempo, reconheceria como tempestuoso; o prelúdio do que poderia ser uma tempestade.

- Sou Viktor Nikiforov – se apresentou tentando ser o mais polido possível -, e sou o responsável pelo que aconteceu com o seu marido.

Akira olhou brevemente para trás, por cima do ombro, e voltou-se para o russo com um ar de pesar.

- Peço desculpas por qualquer inconveniente que meu ômega tenha lhe causado e quero deixar claro que irei ressarcir o senhor de todo e qualquer prejuízo financeiro causado pelo mesmo também. - A boca do platinado abriu, mas nenhum som saiu: estava assombrado demais para falar. - O senhor poderia me passar o seus dados para poder executar a transferência bancária ainda hoje? Resolveremos o mais rápido possível.

- Dinheiro não é um problema. - Sua voz não passava de um sussurro ao responder, e pela segunda vez em menos de uma hora, envergonhou-se por pensar somente nos sentimentos do outro alfa depois do atropelamento. O ser era um mar de egoísmo. - O senhor deveria assistir melhor o seu marido!

- Ele está bem, posso lhe garantir. – a voz fria de quem não se importa nem um pouco. O olhar estratégico, certeiro e que poderia deixar qualquer um intimidado, mas não estava surtindo o efeito desejado sobre aquele alfa em questão.

- Não pode, não! - Otabek não se dava por vencido e resolveu enfrentar o alfa petulante. - Ele vai ficar em observação, no mínimo até amanhã e vou repetir todos os exames para saber se o feto não foi realmente atingido. Ele continua com muitas dores.

- Faça como quiser, doutor! Pois para mim, isso não passa de firula da parte dele. – atalhou exasperado - Minha cunhada já está meio a par da situação e muito em breve já estará chegando e poderá cuidar do meu pertence. De resto, não posso fazer mais nada, pois como já lhe disse, tenho outro compromisso mais importante. - E com isso, o homem simplesmente foi embora deixando atrás de si um aroma podre para os padrões do russo e do médico.

Viktor ainda observava o corredor pelo qual o marido do japonês se foi e o médico também. Estava sozinho naquele lugar que considerava insólito e foi com certo alívio que viu o jovem loiro, seu primo, e o melhor amigo entrarem no seu campo de visão. Amigos... era tudo que precisava para o momento.

Reparou no andar do primo e o comparou ao caminhar de um felino à espreita de sua comida. O loiro estava sempre assim em estado de alerta, procurando algo nos cantos e desconfiado até da própria sombra. Não mudara nada na sua atitude desde o dia que entrou na vida do platinado, e mesmo com o novo padrão de vida, mantinha velhos hábitos.

Viktor sorriu pela primeira vez naquele dia, mas não durou nem um segundo, pois a história de como eles se encontraram e se tornaram família o atingiu como um açoite amargo.

O russo loiro tinha seu sangue, mas não herdara seu gene e era um beta. Sua história de vida fora muito conturbada, e desde antes do seu nascimento, assim também o fora. Quando o avô do menino, o senhor Nikolai, um alfa de sangue puro, se apaixonou por uma ômega - de família menos abastada -, e a engravidou durante um cio, a família Nikiforov não aceitou tal relacionamento e muito menos a criança nascida do envolvimento considerado inapropriado. Usando do poderio a qual o nome da família despertava, o forçaram a um casamento arranjado com uma prima alfa afastada, desejando assim, perpetuar a linhagem e o sangue puro daquela antiga família. E o que começou errado acabou de forma desastrosa: o casal nunca foi feliz e a mulher, após consecutivos abortos espontâneos, morreu de hemorragia, deixando Nikolai desolado com o rumo que sua vida tomou. O alfa foi em busca, então, do seu grande amor da juventude e refez a sua vida ao lado da ômega que amava e da filha, mas para isso rompeu completamente com a sua família, renegando seu nome e seu sangue, bem como qualquer direito a fortuna de seus entes.

Durante muitos anos, Nikolai foi feliz ao lado de sua esposa ômega, se casaram e ele assumiu o nome da companheira, Plisetsky. Sua filha, uma moça de cabelos tão claros como os do neto, nasceu ômega e contra tudo e todos, encontrou ainda na adolescência o amor nos braços de um beta, tendo o total apoio de seus genitores, e quando assumiu que estava grávida, os pais mesmo preocupados comemoraram a boa nova. Mas os tempos de bonança acabaram e os meses de uma gestação de risco foram difíceis e cobraram seu preço. A mulher deu sua vida para trazer ao mundo seu filho, seu único filho, um menino que nasceu gritando por ar e lutando para sobreviver. Yurio desde o útero materno se mostrara um grande guerreiro e lutava muito pelo que queria.

O menino cresceu e de longe a família Nikiforov acompanhava o desenvolvimento: tudo levava a crer que a criança havia carregado no seu corpo o gene forte dos alfas e não só isso, também trazia a beleza rara de uma das famílias mais antigas da Rússia. Mas, ao completar quinze anos, seu segundo gênero apontou para beta e o moleque que já vivia os conflitos da idade, se viu jogado e chutado para fora do clã sem nunca realmente ter feito parte dele. Revoltou-se. Começou a fazer besteira, envolveu-se com as pessoas erradas, arrumou uma turma da pesada para chamar de família e passou a mentir em casa. Tomava remédios e fazia uso de sabonetes para imitar um cheiro, para ter um cheiro seu e assim se sentir alguém de verdade. Confusões, pequenos furtos, brigas constantes com o pai o afastavam cada vez mais, e foi nesse momento que o avô recorreu à sua família e implorou para que o neto fosse aceito no seio familiar mesmo não sendo um alfa, mas o único que estendeu a mão foi o primo mais jovem, herdeiro direto dos alfas lupus dos Nikiforov; Viktor.

O platinado nunca se arrependeu da decisão tomada à revelia da vontade de seus pais, Yakov e Lilia. E por isso deu abrigo, um motivo para ficar e uma razão para o jovem tigre russo lutar. E hoje, aos dezoito anos, Yurio era seu braço direito - e, se bobeasse, o esquerdo também - no mundo dos negócios.

Estava realmente aliviado de vê-lo andando ao seu encontro no corredor branco que o cercava.

Já o outro homem era Christophe Giacometti, um alfa suíço e libertino que gostava e aceitava de tudo um pouco, não ligava a mínima para as convenções sociais impostas pelas sociedades e achava tudo aquilo de alfa, beta e ômega um saco. Na sua cabeça, pessoa era uma pessoa e o que importava era o que essa pessoa tinha a acrescentar na sua vida; por isso "Chris" gostava de conversar com todos, de conhecer gente nova, de descobrir um novo amor todo dia e encarar tudo de um jeito simples. Fácil assim! E era justamente por conta dessas atitudes que Viktor o queria por perto: era sua maneira de tentar entender um mundo que não entendia, que não lhe pertencia e que não se sentia parte.

Tentou sorrir para os dois.

- Qual é velho? - Yurio o encarou sério. - Estava tentando se matar, ou ser preso de verdade?

O sorriso de alívio sumiu do rosto do mais alto enquanto o suíço segurava o riso fácil nos lábios.

- Sua preocupação com a minha pessoa é impressionante. – retrucou ao mais novo antes de se voltar para o loiro mais alto. - E você só sabe rir da desgraça alheia. - Deu um soco no ombro do suíço.

- Vik, você fez merda em dispensar o seu motorista ômega. - Chris escancarou a verdade por eles estarem ali. - Causou um acidente e... - Olhou por volta ao escutar passos apressados vindos na direção deles.

Todos ficaram calados ao verem uma mulher japonesa chegar. Ela estava com o rosto banhado em lágrimas e antes de entrar no quarto onde o japonês estava, parou na porta e encostou a testa.

Para Yurio, a mulher apenas fazia uma reza baixa para algum dos milhares deuses japoneses mas para os dois alfas presentes no recinto, as palavras da mulher tinham um significado de mau agouro.

Quando Mari recebeu a ligação de Akira avisando que Yuuri estava no hospital, na hora, ela o culpou pelo que havia acontecido ao irmão, mas depois de muita gritaria e troca de ofensas entre os dois pelo celular, o marido alfa informou-a que o companheiro na verdade fora atropelado e que não tinha culpa de nada.

Como sempre, a irmã japonesa se arrumou e saiu correndo pela rua até a sua única família, o irmãozinho que ajudou a criar. Yuuri era seu tudo depois do que aconteceu, e não aceitava a sina que ele carregava por amor a família, por isso sempre pedia aos deuses em suas orações que o moreno conseguisse a liberdade para ser feliz, mesmo que tivesse que morrer para alcançar esse sonho. Mari sabia que sofreria, mas preferia isso a ter que ver o desespero nos olhos do irmão.

Chegou ao quarto indicado pela enfermeira e tentou se acalmar um pouco que fosse. Precisava ser forte e se preparar para o que estava por vir; não sabia como o irmão estava. Perdida em seus pensamentos, não percebeu e nem tomou conhecimento de que não estava sozinha quando, mais uma vez, fez seu pedido mais precioso.

- Quero ver você feliz, livre do monstro que ele é! E peço sempre por você, para que volte a sorrir – fez uma pequena pausa, como se tomasse fôlego -, meu amado Yuuri! Nem que para isso, você precise morrer.

Entrou no quarto sem fazer barulho, deixando do lado de fora três pessoas. Mari não sabia o que estava acontecendo.

Trocando olhares espantados, Christophe pareceu um tanto alarmado. Ele havia entendido muito bem o que a morena havia dito antes de adentrar ao quarto em que estava o acidentado. Viktor parecia um tanto perdido e Yurio, este por ser apenas um beta, talvez não tivesse ouvido com tanta clareza o que eles puderam ouvir.

- O que foi? – Yurio parecia se irritar mais ainda. Compreendia que ambos, por serem alfas, tinham o olfato e audição bem mais apurados que ele e até mesmo por esse motivo detestava quando não lhe contavam logo o que se passara.

- Ela disse algo como morto, Chris? – Viktor parecia estar saindo de sua letargia. Aquela manhã estava sendo estressante demais e ele tinha de admitir, que devido a sua segurança e sua atitude de "eu sei, faço e aconteço!", estava naquela situação. Não dominava a língua natal daquele país tão bem quanto o necessário e, por conta disso, estava ali tendo de depender do auxílio do amigo suíço. Estava confuso, pois ele sabia que várias palavras poderiam significar muitas coisas.

- Detesto ter de confirmar, mas sim, Vik! Você ouviu isso mesmo. – Christophe respondeu com certo pesar. – Não sabemos o motivo mas, talvez, seria melhor nos preocuparmos com você também. – fez uma pausa ao reparar no longo corredor e avistar dois homens fardados, indicando com a cabeça a direção em que estes vinham.

- Viktor, seu velho gagá! – Yurio irrompeu, a voz mais alta, sendo advertido por uma enfermeira que passava pelo local. Sentindo as bochechas esquentarem, baixou um tanto o corpo e encarou o primo. – O que foi que você fez, seu maluco? Quem matou?

- Yurio, por favor! – pediu o platinado. Sua fisionomia cansada, deixando em evidência que se arrependimento matasse, o morto ali, seria ele. – Fale mais baixo e tente não chamar tanta atenção assim, da? – pediu ao pinçar o nariz, como se quisesse com isso dissipar a dorzinha chata de cabeça que estava a começar. Volvendo os olhos para os policiais, estes já estavam bem próximos. – Atropelei um ômega grávido!

- Você o que? – Yurio quase gritou mais uma vez. Uivando baixinho de dor pela cotovelada recebida do loiro mais alto, calou-se. Balançando a cabeça, achou por bem que ficar quieto de uma vez seria o mais correto, pois mesmo que o policial que recém chegara estivesse usando uma colônia pós-barba mentolada, o cheiro de suor e vinagre, algo muito cítrico, impregnou suas narinas fazendo com que começasse a respirar pela boca.

Abrindo uma caderneta de couro escuro surrada, o homem alto, fedendo a vinagre se aproximou. Mirando a todos com interesse e intensidade, antes mesmo que seu companheiro de trabalho começasse a falar, perguntou:

- Senhor Nikiforov? – e assim que observou o platinado se adiantar um pouco, com um leve aceno de cabeça, começou a folhear o bloco, lendo algumas anotações. – Nossos homens já recolheram o seu carro ao pátio, todas as averiguações da perícia foram feitas e foi constatado que o limite de velocidade não foi excedido; na realidade o velocímetro travou em menos de vinte por hora - o russo realmente não estava correndo, a marcha era lenta -, e dentro do carro, encontramos um copo com algo que lembrou a chá, correto?

Um tanto perdido, o russo mais velho volveu seus olhos do primo para o suíço. Agora estava sentindo o problema de não ter praticado ou prestado mais atenção aos kanjis, entre outras explicações, do amigo professor que ficara na Rússia.

- Viktor, ele quer saber sobre o chá e a velocidade do veículo! – Chris atalhou ao perceber a pequena confusão em que o amigo estava.

- Chá? Velocidade? – Viktor arqueou uma sobrancelha, mirando com um jeito pensativo ao colocar dois dedos ao queixo. – Sim, eu estava tomando um chá e quando o semáforo abriu, sai lentamente, deixando no console o copo que tombou ao escorregar e bem... não vi mais nada, só ouvindo os gritos, e cá estou!

- Uma imprudência sem tamanho, senhor! – a voz áspera do segundo policial se fez presente. Ele também tinha um cheiro característico, mas era um tanto menos cítrico e intoxicante como do primeiro.

- Pelo o que algumas testemunhas falaram, o senhor estava com a cabeça baixa. Algum motivo aparente? - perguntou o primeiro policial. – Por muito pouco o senhor não causou nenhuma desgraça e, até mesmo por isso, não vejo a necessidade de ficar aí se lamentando. O senhor só precisa tomar mais cuidado ao estar em um veículo, sem se distrair e continuar prestando atenção à rua. Hoje nada demais aconteceu...

- Como nada demais aconteceu? – Yurio arregalou os olhos, a voz levemente alterada interrompendo o policial deliberadamente. Era impossível que aqueles dois boçais queriam dizer, que um ser humano carregando outro no ventre não era nada? Ao olhar para o primo, assustou com a reação que viu estampada em seu semblante. Havia visto Viktor poucas vezes carrancudo e isso não era bom sinal.

Se até aquele momento o platinado se achava a pior das criaturas pelo que tinha feito, agora tudo mudava de figura. Era um ser humano que estava naquele quarto, independente de seu segundo gênero. Sem pestanejar, Nikiforov olhou altivamente para os policiais. Podia ter sido precipitado em seguir para um país o qual dominava muito pouco a conversação; conseguia acompanhar a situação, mas quando esta era carregada e corrida, por vezes acabava perdendo o sentido da frase. Mas ali ele havia entendido perfeitamente bem. Seu alfa rosnou no peito, nenhum outro alfa iria o acuar, mesmo este estando errado, e muito menos desfazer de uma vida.

- Não sei o que pensam vocês aqui - começou com a voz levemente rouca e baixa -, mas eu penso que ali dentro se encontra uma pessoa que agora poderia estar bem pior do que seu real estado.

- Viktor… - chamou Christophe tentando o alertar para que não fizesse nada sem pensar previamente nas consequências, mas calou-se com apenas um olhar do amigo.

- Ora, senhor Nikiforov, ômegas são a escória. - o policial que segurava a prancheta soltou seu veneno gratuíto. - E ademais, não houve uma reclamação formal.

Viktor se alarmou. Parecia que estava assistindo a um filme de quinta categoria e que imitava tão bem a discriminação que também já vira em seu próprio país, e vinda de seus próprios pais.

- E sem vítimas e reclamações, só estamos aqui para averiguar e solicitar maior prudência de sua parte. Haviam alfas naquela calçada e também não queremos manchar a reputação de seu nome, senhor Nikiforov. - o policial fedendo a vinagre sorriu debochado ao carregar no sotaque ao pronunciar o sobrenome russo. Ao vê-lo arquear a sobrancelha e dar alguns passos em sua direção, prosseguiu. - Não somos de todo leigos, seu nome o precede, senhor!

Tomando a frente do platinado ao contê-lo, segurando-lhe o braço e assumindo a situação, Christophe mirou os policiais com seu ar galhofeiro.

- Então senhores, se já fizeram tudo o que era preciso - para não dizer que haviam feito nada -, precisamos prestar auxílio a quem de fato necessita. Se nos dão licença! - e arqueando uma sobrancelha fuzilou os homens à sua frente. Sabia que poderia ser desacato, mas o suíço estava pagando para ver. Ninguém em sã consciência teria coragem de prender ou autuar um tão renomado empresário. A lei era para todos, mas aqueles policiais haviam acabado de deixar bem claro que eles seguiam a risca as arcaicas leis de gênero e dominância.

Sim, ele havia descartado os policiais e Christophe sabia que se eles não fossem embora talvez, quem sabe, Viktor não responderia por si. Por muito pouco, ele já vira o amigo de infância quase mandar vários alfas para o hospital por terem faltado com o respeito devido a sua velha predecessora. E naquela situação, não saberia dizer se conseguiria controlar o outro.

- Ainda não entendo a de alguns alfas! - Yurio começou ao parar ao lado do primo, chamando-lhe a atenção com isso. - Todos uns babacas! Não podem menosprezar ômegas e betas. - o loirinho sabia o que dizia e mantinha as gemas esverdeadas fincadas nas costas dos homens que os deixavam em paz. Poderia ter dezoito anos nas costas, mas o que lhe faltara nos genes lhe fora compensado em inteligência, perspicácia e agilidade de pensamentos.

- Yurio, são anos e anos dessa hipocrisia! - murmurou o platinado antes de lançar um olhar para a porta do quarto, que ainda permanecia fechada. As feições do russo suavizam-se novamente, apenas por lembrar que naquele local o ômega se encontrava o fazendo desejar protegê-lo. Ao volver seus olhos novamente para seus acompanhantes, fechou o cenho, dando lugar para que traços de preocupação e transtorno mais uma vez marcassem o rosto bonito. Queria muito poder entrar e conversar com o ômega moreno, mas sabia que talvez ele não fosse tão bem recebido.

- Chèr (querido)... - Chris mirou o amigo nos olhos, ousava o chamar assim quando queria alguma coisa, ou mesmo apenas para suavizar toda a situação. Prosseguiu quando viu este a lhe sustentar o olhar. - Ele não tem um companheiro? - indagou ao indicar com a cabeça o quarto mais a frente.

- Sim, Chris… - respondeu ao passar uma das mãos pelo cabelo. - O pior possível! - respondeu e deixou a conversa morrer, pois o barulho da porta se abrindo chamou-lhe a atenção.

A jovem morena, de uns minutos atrás, parecia buscar por alguém, ou alguma coisa. E ao avistar os três ali parados no corredor, fincou os olhos no russo mais velho. Em linha reta seguiu até ele e parou a poucos passos; os olhos negros fincados nos azuis feito dardos.

- Gostaria de saber qual de vocês foi o causador desse infortúnio? - perguntou ao erguer um pouco a cabeça, e mesmo sendo uma beta, enfrentou o alfa à sua frente sem o saber do segundo gênero deste.

- Sou eu… - Viktor começou a falar, controlando seu jeito arrogante e evitando uma cena pior. - Como ele está? Está bem? - perguntou, não sabendo ao certo como levar uma conversa tão simples adiante. Era bom em oratória, podia explanar muito bem diversos assuntos, mas nunca, nunca em toda a sua vida se vira em uma situação como a que estava vivenciando.

- Não graças a você! - respondeu acidamente. Assim era Katsuki Mari, uma beta geniosa que, aos olhos de quem não a conhecia, poderia muito bem sair por aí achando que o seu segundo gênero era o de uma alfa tamanha era sua coragem e força de vontade. Mas ninguém poderia imaginar que tudo isso se devia a pensar em apenas uma pessoa e protegê-la: Yuuri! - Se não fosse tão negligente, irresponsável, nada disso teria acontecido. - e cutucando o peito do mais alto deu uns passos decididos. - Se eu pudesse, se eu tivesse a força que vocês seres prepotentes têm, teria feito queixa, feito você pagar por tudo!

- Escuta mocinha, perdeu o juízo? - Yurio se aproximou, e com um movimento rápido, segurou-a pelo pulso afastando a mão do peito do primo.

- Yurio! - rosnou Viktor autoritário. - Pare com isso! Solte a mão da senhorita. - medindo forças com o primo apenas com o olhar, este fez o mais novo murmurar algo que não puderam decifrar, o que talvez tenha sido um palavrão, afastar-se soltando a mão da japonesa. - Nos desculpe por isso! - pediu ao fazer uma breve reverência. - Podemos conversar em particular? - pediu ao mirar o amigo e numa troca rápida de olhos se entender. Com Yurio por perto, a situação talvez ficasse insustentável.

Com um aceno de cabeça, a morena indicou cadeiras próximas à entrada do quarto onde o ômega estava. Esperou ela se acomodar para logo em seguida sentar-se ao lado dela.

- Vitya, vamos buscar café, ok? - Yurio informou antes de quase ser arrastado pelo loiro mais alto, antes mesmo de ver o primo assentir.

- Desculpe o que Yurio fez. - pediu mais uma vez. - Ele ainda não aprendeu direito a ser mais educado e não sabe controlar seu temperamento.

- Tudo bem... - murmurou a jovem ao voltar seus olhos para as mãos, que torciam nervosamente o pequeno lencinho bordado ricamente em tons bem claros em um fundo branco, o que não passou despercebido ao homem ao seu lado. - O que o senhor gostaria de falar comigo? Por favor, seja breve, pois preciso voltar e ficar com meu irmão, ele não está se sentindo muito bem. - mirou-o atentamente, franzindo levemente o nariz ao finalmente sentir o cheiro do outro e pode constatar que perto dos feromônios de Akira, o do russo era até suave.

- Gostaria de saber se posso ajudar em alguma coisa… - começou fazendo uma breve pausa e arregalando um tanto os olhos ao finalmente processar que o moreno não estava bem. - Sei que não tenho esse direito, mas sinto que preciso fazer isso. E… - mirando-a calmamente, disparou - acabei conhecendo seu cunhado e bem, digamos que não gostei da forma como ele tratou seu irmão. - pronto, havia lançado ao léu todo o cuidado. Ele não a conhecia direito, mas apenas com o que havia ouvido desconfiara de toda a situação. - E também gostaria de entender algumas coisas, e creio que somente a senhorita possa me ajudar. - e mirou-a com interesse.

oOoOoOo

Notas Finais

Cantinho Rosa e Azul:

*Música tocando muito baixinho, a mesa ainda posta, com pratos diversos. O Note aberto em uma chamada via Skype.*
Almaro & Theka: Feliz Ano Novo!

Viktor: *bufando ao lado girando uma taça de champanhe vazia* Não sei o que tem de feliz? *parecia chateado*

Yuuri: Vitya, não começa! Você sabia que as duas estava escrevendo tem mais de um mês, e bem, temos de confiar nelas, já lhe disse isso anteriormente.

Theka: Parece que alguém não está gostando do início de nosso universo, Almaro!

Almaro: É Coelha, ele definitivamente, ou devo dizer eles, não gostam de uma sofrência? *risos das duas amigas*

Theka: Se eles soubessem não? Talvez eu deva os ameaçar com o Kit fic, isso sempre resolve com o Kardia e o Bunny!

Almaro: *um tanto pensativa* Creio que possa ser de alguma valia! *sorriso de lado*

Viktor: Eu acho que já nos avisaram sobre isso, não foi?

Yuuri: Sim, eu acho que foi aquele cara de cabelos arroxeados e uma unha escarlate que estava a dizer alguma coisa! *fazendo uma pausa para ajeitar os óculos encarapitados sobre o nariz* Vitya, vamos vai, vamos deixar as duas, algo me diz...

Almaro: Diz nada... vamos parar e sem querer dar spoiler!

Theka: Isso mesmo! Passem fora e nos deixem aqui com nossos avisos de costume!

Bom, amores, deixando esses dois para lá! ^^

Almaro e eu quisemos adiantar um capítulo da fic, visto que graças a São Yaoi estamos um pouco adiantadas, e também como forma de agradecer por estarem nos acompanhando. O próximo capítulo, já está quase pronto, mas enquanto aguardamos ser betado, vamos seguir o que estipulamos anteriormente e postar daqui quinze dias!

Desejamos a todos um bom 2019!
Até o próximo capítulo, não desistam da gente e nem da fic!
Bjs
Almaro & Theka