Beta: Lady Cygnus, carinho, amizade e devoção ever! 3
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Se estava sentindo-se um tanto bem, apesar do que lhe havia acontecido - aquilo havia mudado gradativamente desde o momento que os feromônios de Akira o precederam. O suor frio, a tremedeira sem explicação, tudo aquilo querendo ou não, era relacionado ao fato do alfa ter aparecido e o moreno sabia que isso iria acontecer. Ele apenas pensara que, talvez, quem sabe, o marido já estivesse longe dali. A sorte não estava a lhe sorrir, e o fedor que tivera de sentir, só o remetia à coisas ruins, castigos que sabia o ômega, mesmo estando grávido, não seria poupado. Ele tinha de se controlar ou algo pior poderia acontecer.
Com um suspiro alto, Yuuri fechou os olhos com força enquanto segurava a barriga ao sentir a dor que vinha de tempos em tempos. Estava preocupado e com medo pois sua menina não poderia nascer, não agora, não estava na hora. E ele ainda precisava do tempo para poder agir, para se programar e conseguir fugir do marido ou pelo menos salvar aquele ser que não tinha culpa de nada. Mas era inevitável, o marido conseguia com sua simples presença o deixar inseguro, amedrontado e como naquele momento, nervoso. Sabia que aquilo não iria lhe fazer bem e pedia calma ao pequeno ser em seu ventre, queria com isso conter o que para ele já parecia certo.
Akira não sabia o sexo do bebê. Bom, Yuuri só descobrira no dia anterior quando esteve no médico e fez o exame que revelou e confirmou o que no seu íntimo já sabia. Carregava no ventre uma menina. Nada mais distante do macho alfa que o marido queria, desejava e clamava aos quatro cantos que teria. Alguém para seguir seus passos tortos e perpetuar seu nome.
Por entre a dor, Yuuri sorriu; a pequena seria sua menina e filha, a única coisa nesse mundo que o impedia - e provavelmente impediria - de fazer uma besteira com a própria vida. O pequeno ser era puro e inocente, não merecia pagar pelos pecados certos ou errados dos pais e muito menos sofrer por nascer fora dos padrões do alfa progenitor.
Apertou os olhos mais forte e mordeu a boca para não gritar de dor, sabia que a irmã estava por perto e desconfiada da sua mentira de que estava bem, mas tudo no momento era só uma questão de tempo e ele queria e precisava que este parasse ou voltasse atrás.
Relaxou instantes depois ao sentir o cheiro de pinheiro chegar às suas narinas, era sereno e o acalmava como aconteceu dentro da ambulância, assim como os olhos azuis que o miravam com tanta preocupação. Era um completo desconhecido, mas algo no estrangeiro o confortava e o fazia se recordar da mãe. - Queria a senhora comigo aqui...
Quando foi atropelado estava fugindo, não sabia para onde ou o que faria quando chegasse a esse "novo onde"; apenas deixou que seus pés os levassem para longe de tudo que lhe machucava a alma e corpo. Tinha que ir embora ou senão nunca mais conseguiria - não até pelo menos dar à luz ao filho macho que Akira queria, ou ficar velho demais para isso. Yuuri sempre teve consciência do seu lugar na vida do alfa que chamava de marido e que exigia obediência: era apenas um brinquedo, uma conquista que exibia e desfilava na frente de uma sociedade onde era cada vez mais raro ver um ômega masculino. Conhecia o destino triste que pairava em cima de muitos meninos quando descobriam seu segundo gênero e se esse dizia que eram ômegas, muitos acabavam tornando-se presas de luxo nas mãos dos seus algozes e traficantes. Por isso, sua amada mãe sempre lhe dizia:
- É um dom precioso ser como você, meu filho, por isso temos que te proteger.
Só que a vida se encarregou de tomar uma direção diferente e quando menos esperava, o Katsuki mais novo, que tinha apenas dezoito anos na época, tomou a decisão que mudaria sua vida e aceitou a corte que o alfa bem mais velho lhe fazia.
Uma lágrima escorreu dos olhos fechados com força novamente e Yuuri apertou o lençol branco que cobria seu corpo. A dor estava piorando e isso começava a deixá-lo com raiva, pois por um segundo teve a chance de mudar o seu futuro e o da sua criança também, mas o destino colocou no seu caminho aquele carro e, por estar sem muita agilidade devido ao seu tamanho, não conseguiu se mover rápido o suficiente para se esquivar do veículo e acabou onde estava no hospital em trabalho de parto.
A onda de dor voltou e Yuuri ouviu os monitores biparem cada vez mais rápido, seus batimentos cardíacos subiram demais e um alarme soou.
O cheiro de uma floresta inteira de pinheiros aumentou e a porta do quarto se abriu, com a entrada tempestiva do homem dos olhos azuis, o mesmo da ambulância. E por um milésimo de segundo se conectaram pelo olhar, azuis vitrificados nos castanhos levemente avermelhados, e Yuuri sentiu uma corrente elétrica passar por seu corpo arrepiando seus pelos no processo, chegando a base de sua nuca e... foi quando a bolsa se rompeu.
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Viktor não desviava os olhos da mulher que encarava-o de maneira altiva. Era fato que ela não se intimidava por ele ser um homem e muito menos por ser alfa mas, mesmo por cima de toda aquela postura, o russo conseguia ver e sentir toda tensão que vinha dela.
- Como está o seu irmão? - quebrou o pouco do silêncio que havia se instaurado entre eles com a partida dos amigos do russo. A morena endurecera o maxilar e ajeitou melhor a postura na cadeira.
- Não está bem, graças a você. - Ela mantinha o tom baixo e o dedo indicador da mão direita foi apontado de forma acusadora, sem a menor cerimônia. - Qual o seu problema? Não sabe dirigir? Onde estava com a cabeça? Ou melhor, com os olhos que não viu o que estava fazendo? - Ela não parava de falar e o platinado começava a trincar os dentes, pois sua dor de cabeça aumentou potencialmente nos últimos segundos. - Yuuri não merecia passar por isso, não agora.
O final foi quase sussurrado e Viktor viu a chance de questionar o que queimava em sua mente desde que ela havia chegado.
- Por quê deseja que seu irmão morra? Isso não me parece certo e preciso entender o que está acontecendo aqui. Não gostei da forma como o marido dele o tratou e tão pouco das suas rezas.
A surpresa tomou o rosto japonês da mulher.
- Você conheceu o Akira? - Mari perguntou assombrada. O russo apenas confirmou com um gesto de cabeça e ergueu a sobrancelha, esperando que ela respondesse sua pergunta e não ficasse enrolando. A morena desviou os olhos para as próprias mãos que torcia no colo e suspirou. - Odeio esses sentidos apurados que vocês têm! É insuportável! - E mirou mais uma vez o russo com raiva. - Amo demais meu irmão, e só desejo o bem dele, por isso não se atreva a duvidar ou dizer o contrário - fez uma pausa e o mirou diretamente nos olhos, o maxilar levemente erguido em puro desafio - você não sabe de nada.
- Realmente não sei, e por isso estou lhe dando a chance de se explicar. - O russo arrumou a franja e respirou cansado. - Nada no dia de hoje está fazendo muito sentido e me sinto perdido com tudo que passei desde a hora que cruzei o caminho do seu irmão. - Suavizou a expressão.
Mari levantou a cabeça e olhou para frente, focou em algum ponto imaginário na parede perfeitamente branca do corredor do hospital e Viktor viu mais uma lágrima escapar descendo solitária pela bochecha da japonesa. Foi quando ela recomeçou a falar de forma lenta e baixa.
- Minha mãe era uma ômega pequena, meiga e soulmate do meu pai alfa. Se conheceram e se casaram muito jovens ainda, foram felizes durante a vida inteira. - Ela sorriu sem encará-lo, sabia que o homem ao seu lado precisava de algumas informações para entender seu pedido de alívio para o irmão. - A família do meu pai era dona de um comércio próspero em Hasetsu e não se opuseram à união deles... - Ela soltou um riso nasalado. - Como se eles pudessem, não é mesmo? - Mari virou-se para ele. - Eu nasci beta e Yuuri veio quando minha mãe já havia perdido a juventude, o médico dizia que era uma gravidez de risco e por isso recomendou o aborto, mas ela se negou a fazer o procedimento e levou a gestação até onde conseguiu. - Outra lágrima desceu. - Eu tinha quase dez anos quando ele nasceu. Eu o vi crescer, andar, ganhar confiança e cair. Eu me tornei mais que sua irmã e quando meu irmãozinho completou quinze anos, o maldito exame disse que ele era um ômega.
A japonesa voltou a olhar para a parede e ficou muda - parecia perdida nas suas lembranças e o platinado começava a sentir o cheiro doce da sua infância vir do quarto do moreno; ou seria apenas por estar se deixando envolver? Ele não saberia dizer, mas o olor era agradável e parecia o fazer desejar sentir o verdadeiro cheiro que aquele ômega poderia desprender em seu heat.
- Yuuri era o único ômega masculino da nossa cidade inteira, e meus pais fizeram o que puderam para mantê-lo longe de alfas como o Akira. Ele acabou seus estudos em casa, teve uma educação refinada por conta disso e meu pai espantava todos os alfas que apareciam para cortejá-lo. No fundo, eles só queriam protegê-lo da maldade, mas... - A mulher secou o rosto com força e voltou-se mais uma vez para o estrangeiro. - Minha mãe um dia não se levantou da cama, não reconhecia mais ninguém, nós corremos para o hospital e lá nos informaram que não tinham recursos para tratá-la adequadamente, então viemos para Tóquio. Aqui descobrimos que ela estava com um tumor no cérebro e que o tratamento mais recomendável não tinha a cobertura do plano, pois era experimental ainda.
Viktor ligava um ponto ao outro na sua cabeça e temia pelo final da história. E sentia em seu peito a amargura por tudo o que aquela família passara, crescer e fazer o seu lúpus uivar em protesto e raiva.
- As dívidas se acumularam, meu pai desesperado recorreu a um amigo de longa data - nova pausa e a jovem fungou ao fazer um leve bico -, Akira, e ele emprestou o dinheiro tornando-se sócio do meu pai, mas meses depois, estávamos piores do que antes: minha mãe morria todo dia um pouco mais e as contas do hospital dobravam de valor na velocidade da luz. Foi aí que meu pai tentou vender o nosso ganha pão para o sócio amigo e o cidadão fez sua proposta. - Mari tinha os olhos cheios d'água, mas não permitia que nenhuma lágrima caísse. - Akira não tinha interesse nas termas, nunca teve, mas sim no filho ômega do amigo e disse que custearia todo o tratamento se meu irmão fosse dele. Yuuri aceitou sem pestanejar e casou-se com aquele traste.
Passos no corredor e, de longe, a japonesa via os outros homens que estavam acompanhando o seu interlocutor voltarem. Precisava ser rápida e finalizar o que tinha para falar.
- Meu irmão se casou por amor, mas à família e não ao marido e é por isso que ele usa a coleira. Eles não são unidos pela marca. - A boca dela tremeu. - Três meses depois que meu irmãozinho saiu de casa, minha mãe faleceu, meu pai enlouqueceu com a solidão e está em uma clínica psiquiátrica. E eu? Vejo meu irmão, meu pequeno Yuuri, lutar para se ver livre da tirania do marido e não posso fazer nada, não tenho armas ou forças para ajudá-lo, então, é por isso que sempre peço o que você ouviu. - Mari olhava diretamente para os olhos azuis. - Não me julgue, entendeu? Não ouse me dizer que estou errada ou que Yuuri errou quando aceitou essa situação. - O dedo indicador dela balançava na cara do platinado.
Viktor entendia as implicações nos atos dos dois irmãos: a abnegação estava em cada gesto, em cada atitude, mas mesmo assim não estava correto. - Eu sinto muito por tudo. - Disse com sinceridade. - Não vou te julgar ou qualquer outra coisa, mas deve haver um jeito de...
O som abafado do alarme tocou e Mari deu um pulo da cadeira, o russo acompanhou o movimento mas seus instintos de alfa gritavam no seu ouvido mais que o barulho. Ele farejava medo no ar, e mesmo que fraco, esse cheiro vinha do quarto do japonês.
Os dois avançaram para a porta e a abriram em um único movimento e lá estava o moreno pálido segurando a barriga, seus olhos estavam apertados, mas quando a dor deu uma trégua e eles se abriram, Viktor conseguiu enxergar sua vida refletida nas orbes castanhas que o encaravam. Mesmo através das lágrimas, o russo se viu como em um lago no olhar do japonês, mas o encanto se quebrou em segundos quando a histeria tomou conta do lugar.
Enfermeiras entravam e saíam, o barulho incessante dos monitores não paravam, a irmã tentava acalmar o homem na cama e o médico moreno surgiu novamente.
- Sua bolsa se rompeu, nós vamos fazer o parto agora. - Ele falava enquanto Yuuri balançava a cabeça veementemente negando qualquer coisa dita. - Não tem mais o que esperar, você está com contrações e sofreu um acidente.
- Não, não, não é a hora! Ela não está pronta! - Outra contração e Yuuri mordeu o lábio inferior para não gritar. - Ela não pode nascer, não aqui, não agora! Ele não quer uma menina e eu preciso salvá-la! - O desespero nas palavras do japonês machucavam todos os presentes mas feriam mais ainda o russo, que sentia como se uma faca o perfurasse em golpes certeiros a cada nova palavra proferida. - Eu preciso proteger minha criança! - Mais uma cara de dor.
- Vamos sedá-lo. - Otabek decidiu e informou uma das enfermeiras, que saiu do quarto enquanto outras tentavam segurar o gestante ao leito. Yuuri se debatia para sair correndo.
E foi no meio desse pandemônio todo que o russo se concentrou e tentou relaxar, fez o seu cheiro se espalhar ao seu redor e pelo recinto, até preenchê-lo inteiramente e atingir seu destino, o ômega.
Yuuri parou e mirou o platinado através das cortinas de lágrimas que cobriam seus olhos. Lá estava o cheiro de uma floresta de pinheiros que resistia ao frio intenso do inverno e lhe aplacava os nervos, lhe traziam a paz, e a serenidade que precisava do mesmo jeito que o vento gelado fazia as árvores balançarem.
Em meio ao corre-corre, Viktor andou até perto da cama e com delicadeza capturou uma lágrima com a ponta do dedo - não queria que o moreno chorasse, não mais.
- Não chore, por favor. Tudo vai ficar bem, eu prometo. - tentou, com sua voz calma, tranquilizar um pouco mais ao ômega em trabalho de parto.
Eram dois desconhecidos até algumas horas atrás, mas sem saber o porquê - e igual ao ocorrido mais cedo quando se viu dentro da ambulância - o russo foi preparado e encaminhado para a sala de parto. As recomendações do médico moreno, que descobriu ser do Cazaquistão, eram: - Não atrapalhe a equipe e fique por perto, você parecer acalmá-lo mais que os remédios.
Viktor olhou uma última vez pela porta que se fechava e viu o semblante indefinido do primo, o rosto cheio de confiança que o amigo alfa tentava passar e a cara amarrada da irmã do japonês.
O russo revirou os olhos e resolveu seguir a enfermeira baixinha que guiava seus passos pelos corredores esterilizados do centro cirúrgico. Nunca antes tinha andado por um e, se o branco do corredor onde o japonês estava em observação era impecável, o corredor pelo qual andavam agora era indescritível, tamanha a luminosidade e brancura alva vinda das paredes.
Foi encaminhado até uma porta que se abriu com sua presença pelo sensor e ficou parado, não sabia por qual razão estava lá e não tinha um porquê para entrar, mas sentiu mãos o empurrando para dentro e uma voz firme dizer:
- Pais de primeira viagem são sempre assim. - rosnou ao mirá-lo de soslaio. - Só espero que não desmaie, porque você é grande e vou te deixar no chão! Ouviu bem? - A médica anestesista sorriu, um sorriso jocoso e ao mesmo tempo compassivo. - Venha, sente-se aqui perto dele. - indicou um pequeno banco com um leve encosto. - Converse com ele baixinho e deixe-o sentir seu cheiro, isso vai servir para passar tranquilidade por esse momento. - Viktor estacou no lugar quando viu o japonês de olhos fechados e deitado. - A pressão subiu um pouco e ministrei uma pequena dose de sedativo, mas ele vai te escutar, confie.
Sem alternativas, o platinado se sentou e começou a observar ao seu redor os equipamentos e a equipe médica; nunca imaginou que precisassem de tanta coisa e tantas pessoas para trazer ao mundo um bebê. Mas acabou por voltar sua atenção para o rosto do moreno e passou a analisá-lo.
Yuuri tinha um rosto perfeito, lábios desenhados e olhos lindos emoldurados; mas mesmo dormindo parecia triste, então, se curvou um pouco em direção ao ouvido do nipônico.
- Meu nome é Viktor Nikiforov e sou russo, me desculpe por ter causado tudo isso. - Parou quando escutou algo semelhante a uma pequena risada e levantou a cabeça, encontrando com o sorriso do japonês: o primeiro que via na perfeição que admirou momentos atrás.
Com a voz fraca, o moreno começou. - Katsuki Yuuri... aqui no Japão, o sobrenome vem antes. - a voz levemente grogue devido aos remédios ministrados naqueles poucos minutos que se passaram. Sorriu de novo e o russo o acompanhou.
- Sei, mas me desculpe, e acredite, o meu dia não está sendo dos melhores. E sinto muito por ter te arrastado junto e por não estar fazendo as coisas certas. - o platinado levantou levemente a mão, retirando uma pequena mecha de fios negros que escapavam rebeldemente da toca que este também estava usando.
Yuuri abriu os olhos de forma lenta, os remédios em sua corrente sanguínea davam uma sensação falsa de leveza. - Não fique assim. - pediu a quase fechar novamente os olhos. - Você está onde deveria estar...
- Vou começar a cesárea. - Otabek, o médico responsável pela equipe, anunciou e no instante seguinte um som foi ligado: a sala se encheu com os acordes de uma balada romântica, fazendo com que os dois se calarem por instantes e dando tempo do russo olhar curioso para os vários marcadores e para a médica que monitorava tudo. - Como está a pressão? - Perguntou o Cazaque de algum ponto invisível ao russo. Um tecido azul clarinho no alto o impedia de ver o que era feito naquele exato momento.
- Controlada, Altin. Você já abriu? - O médico apareceu por cima do lençol e confirmou com a cabeça e voltou para seu posto. - Pai? - A médica chamou a atenção do platinado ao estalar os dedos na sua cara.
Viktor não conseguia entender por quê aquele ser minúsculo continuava o chamando de pai?!
- É o momento mais delicado do parto - relatou rapidamente -, quando tiram a criança do ventre, então se veio para ajudar, a hora é agora.
- O quê devo fazer? - perguntou o platinado, meio incerto.
- O que disse para você fazer! - A anestesista não era lá muito paciente e Viktor estava na marcha lenta a manhã inteira, mas entendeu o recado e um pouco sem jeito voltou a falar de mansinho no ouvido do japonês.
- Eu estou aqui por você, tudo vai ficar bem, eu prometo...
- Prometa… - quase engasgou ao tentar se fazer ouvir - me prometa, Nikiforov, que vai cuidar da minha filhinha - e o encarou, os olhos levemente baixos, brilhantes -, por favor. - O coração do platinado doeu e ele sentiu uma fisgada na barriga como se tivesse levado um soco na região. Se dobrou mais e encostou sua boca na orelha do outro.
- Eu prometo com todo o meu coração! - Não se sentiu ridículo ao repetir seu juramento secreto de criança, muito pelo contrário, sentiu-se bem melhor do que queria com aquela simples promessa, mas seus lábios ficaram salgados e então percebeu que o japonês chorava. Não queria que ele morresse e nem sofresse mais, por isso liberou seu cheiro um pouco mais forte e passou a acarinhar as madeixas negras por onde a toca permitia.
Literalmente estava com seu rosto colado ao do moreno e se tornaram cúmplices e companheiros sem saber. Quem os visse, diriam que eram almas gêmeas, mas na verdade acabavam de se conhecer naquelas circunstâncias.
Viktor ficou assim e não saberia precisar quanto tempo havia se passado, mas logo o choro de criança encheu o ambiente e encobriu a música.
A filha de Yuuri nasceu perfeita e forte, parecia meio revoltada por estar fora do corpo que a gerava e abrigava, mas depois dos primeiros cuidados foi colocada no colo do russo por um outro médico que ele deduziu ser um pediatra.
- Pai, está na hora de criar seu vínculo com sua filha. - O pediatra começou a se aproximar. Tinha um sorriso divertido nos lábios e antes de passar o pequeno pacotinho para o platinado, mirou-o com interesse.
Viktor pensou em dizer algo, mas calou-se quando viu o pequeno ser nos seus braços. Os olhinhos escuros, o narizinho pequeno, uma cópia perfeita da do ômega ali tão perto. Ao voltar seus olhos para o moreno ainda preso à mesa de cirurgia, percebeu algo que estava querendo mascarar, ou que estava literalmente se fazendo de desentendido. Mas de fato, quem ele queria enganar? Tirado de seus devaneios, volveu os olhos interessados para o pediatra e prestou atenção no que ele lhe dizia.
- Deixe ela senti-lo, libere seu cheiro. - O médico passava as instruções e ajudava a como segurar a menina nos braços. - Isso, assim mesmo! - O bebê parou de reclamar e o platinado sorria com vontade de chorar. - Agora encoste o rostinho dela no rosto do outro pai. O vínculo deles começou na barriga e já é forte; o seu começou agora, por isso fique com ela no colo. Isso! Certo! Parabéns, agora, vocês são uma família!
O barulho característico ao acionamento de uma câmera de celular foi ouvida, o que fez com que ambos olhassem para o outro lado. Sorrindo como boba, a médica baixinha havia pego o celular de Viktor que havia o esquecido na bancada ao lado e registrava aquele doce momento.
- Ela é linda! - Viktor proferiu ao mirar o bebê e em seguida o pai ômega. Sem prestar atenção ao que estava fazendo, depositou um beijo carinhoso e casto na testa do nipônico. Ao volver novamente seus olhos para os de Yuuri, sentiu uma fisgada na clavícula que ignorou, já que preferiu perder-se naquelas gemas avermelhadas e brilhantes. O moreno tinha as bochechas rubras e o platinado não soube dizer por qual motivo isso seria.
- Minha pequena Akiko! - murmurou Yuuri ao quase fechar os olhos. Estava cansado, mas temendo que algo acontecesse com sua pequena, proferiu. - Por favor, não se esqueça do que me prometeu! - esticou a mão fechando-a sobre o pulso do russo.
- Podemos conversar sobre isso depois, Yuuri! - Viktor respondeu, um pouco antes de tirarem a pequena de seus braços. Como se ele fosse mesmo o pai da bebê, mirou impaciente a enfermeira que levava o pacotinho para longe de si.
- Precisamos fazer alguns exames em sua filha, pai! - o pediatra apressou-se em dizer ao ver a desconfiança estampada nos olhos azuis translúcidos. - Em breve todos poderão visitá-la no berçário. - e, sem esperar, foi ao encausto da mulher que saíra pouco antes pelas portas de vai e vem.
Voltando para próximo do ômega, o lúpus mirou-o enternecido. Podia notar claramente o medo nas íris chocolates. Segurando com firmeza a mão que lhe fora oferecida, encostou-a sobre seu coração, que batia desenfreado no peito.
- Não se preocupe, tudo vai terminar bem, eu te prometo!
- Não vá… - Yuuri pediu manhoso. Não sabia de onde estava vindo aquela audácia e coragem para pedir tudo aquilo para um estranho, que o havia enviado para aquele local. Acalmou-se antes mesmo de voltar a falar, ao ser novamente envolvido pelo aroma delicioso que o remetia a um passeio pelo campo, entre os pinheiros mais altos. Não poderia estar se encantando por aquele homem, ou poderia? Era casado, mas nunca havia se sentido tão bem, como naquelas poucas horas. Não sentia asco ou vontade de colocar tudo para fora como quando Akira deixava seus feromônios fétidos o envolver.
- Eu não vou o abandonar, não vou! - e o mirou com carinho, depositando um beijo sobre os nós dos dedos finos e longos do moreno. E sem esperar, saiu apressado da sala. Precisava colocar suas ideias em ordem, no lugar e tinha de ter uma conversar muito séria com a morena, irmã de Yuuri.
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Quando Nikiforov finalmente encontrou seus amigos e a Katsuki, deixou seu corpo cair pesadamente ao lado da mulher. Podia sentir os olhares curiosos a si direcionados, sabia que tinha de dizer alguma coisa, mas tinha certo receio de como começar. Sabia que teria de ser do começo e até mesmo por isso, tocou gentilmente a mão da beta, e volvendo os olhos para todos os outros, por fim, começou a falar.
- Parabéns, senhorita Katsuki, sua sobrinha Akiko nasceu forte, saudável e com um choro estridente o qual eu nunca imaginei ouvir! - gracejou sem obter muito sucesso, pois ao encarar a morena, apesar dela estar com os olhos rasos de lágrimas e ter poucas rolando pela face, podia sentir de onde estava como o mundo parecia estar caindo sobre seus ombros.
- Akira… meu cunhado à essa hora já deve estar sabendo que o bebê nasceu. - deixou escapar, e por fim a forte Mari, que até aquele momento estivera aguentando o peso angustiante sobre seus ombros, deixou-se abater. Lágrimas sentidas corriam pela face muito pálida.
- Senhorita Katsuki, tudo correu bem, não há motivos para… - Christophe calou-se ao encarar o amigo de infância. O suíço, com apenas um olhar de esguelha, passou a mão no bolso traseiro pescando sua carteira. - Yurio - chamou uma vez, mas ao ser ignorado, resolveu trocar seu discurso -, ei Yuri, vá buscar um pouco de café pra nós, sim? - pediu sem se importar com o olhar mortal a si direcionado.
- Ora, porque logo eu? - grunhiu ao encarar com olhar assassino ao loiro mais velho. - A distância é a mesma, seu folgado! - revirou os olhos ao mirar o suíço que sustentava um sorriso sacana nos lábios.
- Yuratchka, pajálsta (por favor)! - Viktor mirou o primo com os olhos frios. Massageando as têmporas com ambas as mãos, fechou os olhos pedindo aos céus que sua dor de cabeça o deixasse em paz.
Resmungando muito baixo, Yurio levantou de onde estivera sentado até o momento e começou a caminhar, mas antes de sair da sala de espera voltou-se para todos com olhos ferinos, parecendo duas fendas.
- Eu acho que vocês velhos, deveriam se lembrar que já não sou mais criança e que não precisam achar subterfúgios para que eu saia da sala e possam tratar assuntos que acham que não me dizem respeito. - e sem dar tempo para um revide, mirou bem o primo e o suíço fazendo sinal de foda-se, deixando a sala.
Balançando a cabeça de um lado para o outro, Chris estalou a língua e mirou com interesse o platinado. Conhecia-o muito bem para saber que alguma coisa o estava deixando levemente abalado. Viktor Nikiforov não era de se envolver tanto assim nos problemas dos outros. Para o outro alfa, o lúpus nunca havia demonstrado ser tão bom samaritano assim. Ou ele seria?
- Senhorita Katsuki, como assim seu cunhado já deve estar sabendo do nascimento da filha? - questionou Viktor ao mirá-la diretamente nos olhos.
- Enquanto você entrou em meu lugar na sala de cirurgia, fui atrás de um café para tentar acalmar meus nervos. - Mari suspirou ao lembrar quem e o quê havia a deixado mais preocupada. - Precisei ir até o térreo para conseguir o que queria e acabei por encontrar o primo de Akira, que pode ser considerado como seu braço direito. Quando meu cunhado viaja, geralmente ele deixa Minami Kenjirou de olho em meu irmão. - a beta dobrava incontrolavelmente a barra de sua camisa em um tique nervoso.
Para Viktor, apesar de ter tido contato com os Katsuki somente aquele dia, era claro que a beta ao seu lado estava quase tendo um colapso nervoso. Segurando delicadamente a mão da mulher mais uma vez, mirou-a com cautela. Precisava saber o que de fato havia acontecido. Viu quando ela tomou fôlego, e aguardou um tanto impaciente.
- Minami queria subir para ver como tudo estava saindo e eu não deixei. Falei que somente a parente mais próxima poderia ficar na sala de espera e o mandei embora, mas ele não parece ter se dado por satisfeito e tive de lhe contar o que estava acontecendo. - Mari baixou os olhos para as mãos descansando em seu colo, estava envergonhada por ter se deixado levar tão facilmente. - Agora nesse exato momento, ele pode ainda estar aqui no hospital, ou mesmo tentando fazer alguma coisa para obter informações sobre o parto. Se Akira descobrir que teve uma menina, não um "macho" como ele bradava aos quatro cantos que teria, meu irmão e sobrinha irão sofrer muito. - e mirando os dois alfas a quem estava despejando suas frustrações e temores, apertou a mão do platinado que ainda segurava a sua.
- Eu prometi à você e a seu irmão na sala de cirurgia que iria ajudar. - mirou-a ternamente, em seguida volveu os olhos para o suíço e sustentou-lhe o olhar. - Chris, por favor, sem perguntas que poderão ser feitas e obtidas respostas mais tarde, preciso que me ajude, meu amigo. Precisamos decidir como tirar a todos daqui…
- Viktor, pense direito sobre o que está propondo, - e baixou a voz para evitar que mais alguém os ouvisse - isso é considerado rapto! - bufou ao passar as mãos pelos fios aloirados. - Você terá toda a polícia japonesa em seu encausto e como seu advogado… - calou-se mais uma vez os olhos do russo levemente avermelhados.
Mari mirou os dois homens alarmada, o que aqueles dois estavam sugerindo?
- V-Vocês não conhecem o A-Akira! - começou aos tropeços. Tomando fôlego, a morena resolveu contar mais um pouco da vida do irmão, mesmo com o loiro alto junto. - Yuuri já tentou escapar dele por várias vezes e todas as vezes foi descoberto. Minami é como um cão de caça! E todas as vezes que foi encontrado, ele sofreu por isso. - soltando a mão do russo, escondeu o rosto entre as palmas, chorando copiosamente. Não conseguia esquecer das vezes em que o encontrara machucado e a última vez fora no início de sua gravidez. A pele alva marcada pelos cortes de algo que lembrava a cinta e seu fecho de metal.
Está querendo dizer que o marido bate nele? - Christophe proferiu as palavras que dos lábios do platinado não quiseram sair. Alarmou-se ao encarar o mesmo e o ver com os olhos ficando mais avermelhados. - Viktor, controle-se, sim! - pediu.
- Lúpus… - murmurou Mari ao encarar o russo. - Eu pensei que…
- Mari - Viktor começou, sem usar de formalidades -, espero que não esteja pensando que sou algum tipo de descontrolado. - sorriu de lado. - E também não é o momento para pensar em meu segundo gênero. Só gostaria de que o que acabou de descobrir fique entre nós. Há um momento para tudo, mas hoje não é para deixarmos as crendices de um povo bitolado nos atrapalhar com o que realmente nos importa agora. - proferiu ao mirar o amigo.
- Não sei quais são seus motivos para esconder o que é, e se isso te tranquiliza, não tenho o costume de sair por aí contando o que me foi dito. - cruzando os braços à frente do corpo, baixou um tanto a cabeça ficando pensativa. - Concordo que temos de nos preocupar com Yuuri e Akiko e, bem… - a beta fez uma pausa antes de prosseguir com cautela - como pretende nos ajudar? - perguntou por fim. - Afinal, não tenho certeza se Akira irá ficar o tempo o qual disse que ficaria fora.
- Esse não será nosso maior problema - Chris murmurou ao colocar uma das mãos sobre o queixo e começar a bater levemente com o dedo indicador sobre os lábios -, não por hora. - e antes que conseguisse prosseguir com seus pensamentos, um furacão em forma de gente acabou por intrometer-se e, por seu jeito agitado, alguma coisa havia acontecido.
- Quem é Mina-Minani… Minami? - Yurio perguntou ao olhar para a morena, que o mirou de olhos arregalados. - Um cara um tanto mais baixo que eu, olhar abobalhado, cabelos loiros com uma mecha vermelha aqui na frente - gesticulou próximo a franja de seu próprio cabelo -, e que parece ser oxigenado?! - descreveu o outro perfeitamente.
- É primo do marido de Yuuri… - foi a única coisa que a japonesa conseguiu proferir.
- O quê aconteceu, Yuratchka? - perguntou Viktor ao apoiar os braços sobre as pernas e sustentar os olhos esverdeados do primo.
- Eu não sei o que estão tentando me esconder, mas eu exijo saber de tudo antes de contar qualquer coisa!
- Yurio, o momento não é o mais adequado para que fique fazendo chantagens conosco. - Christophe avisou ao mirá-lo de soslaio. - Advirto que diga o que sabe pois não temos tempo para brincadeiras! - sim, o suíço quando queria também assumia um ar mais austero.
Olhando para todos ali naquela pequena sala de espera, o jovem beta suspirou. Sentia na pele a tensão e pinçando a base do nariz com os dedos, suspirou. De nada adiantaria ficar enrolando em dizer o que havia visto. Se aquilo dizia respeito ao bem estar de um ser humano, ele não poderia vacilar. Não ele!
- Para encurtar a história - começou, ao mirar o primo com cara de poucos amigos -, vocês dois poderiam tentar se acalmar? Não aguento mais sentir o cheiro de vocês! - Yuri Plisetsky é um beta, sim, mas que conseguia sentir os feromônios que os outros gêneros desprendiam e que não o afetavam - não como a um ômega - mas o incomodava e muito. O que para um ômega poderia ser agradável, para ele era um tormento.
Christophe sorriu, um sorriso sem graça.
- Ele tem razão, Viktor! Sem perceber estamos nós dois liberando nossos feromônios. - deu de ombros. - Sei que você tem um motivo, mas eu me deixei levar pelo momento. - e lançou-lhe um olhar sacana.
Balançando a cabeça, Viktor mirou novamente o primo. Tinha plena certeza que Christophe mais tarde iria lhe cobrar explicações - até mesmo por isso estava evitando olhar para o amigo -, pois o conhecia muito bem, mas não poderia se preocupar; nenhum deles poderia se preocupar com o que ele estava sentindo pelo moreno que acabara de dar a luz. Ele mesmo estava um tanto confuso e sabia que o único que o entenderia seria Giacometti, mas tinha que resolver aquela urgência.
- Por favor, Yuri! - pediu usando o nome verdadeiro do primo. O olhar sério, sustentando o do outro.
- Esse tal aí, Minami… eu estava pegando café na máquina do primeiro andar e não percebi que ele estava encostado bem ao lado - fez uma pausa para relembrar a cena -, ele estava ao celular e eu somente dei a atenção devida quando ele começou a falar sobre Yuuri. A princípio achei que fosse uma feliz coincidência, mas quando ele falou o sobrenome Katsuki e que tentaria descobrir como estava o pequeno macho alfa e que iria usar de argumentos especiais, o quê eu não entendi muito bem, para poder averiguar… - parou de chofre ao ver a morena se desesperar ao ficar em pé e começar a andar de um lado para o outro. - O que foi que eu perdi?
Naquele momento, um barulho alto pode ser ouvido por todos. Uma equipe de socorristas e enfermeiros entrava às pressas com uma pessoa em uma maca, indo em direção ao centro cirúrgico que ficava no final daquele longo corredor. No alto falante, a voz esganiçada de uma mulher, pedia para que o chefe daquele setor, Dr. Altin comparecesse à sala de cirurgia.
Notas FinaisCantinho Rosa e Azul:
Olá minha gente!
Finalmente os quinze dias passaram, e cá estamos nós com mais um capítulo para vocês. Esperamos que gostem, e venham nos dizer, contar o que acharam desta passagem na vida dessas pessoinhas que tanto amamos. Contamos com o apoio de todas e bem, é isso!
*silêncio na sala*
Viktor: Definitivamente não se pode confiar em alguém com o gatilho disparado! *esbravejava o platinado ao olhar para a loira com fones, que naquele exato momento ouvia Backstreat Boys*
Yuuri: Como é que é? Gatilho? *o japonês arqueou as sobrancelhas* Viktor...
Almaro: Ah! Podem ir parando! A gente também tem direito de ficar doente, sabia? Ou nem isso pode acontecer? Deixem a Coelha em paz, afinal foi apenas um dia de atraso!
Viktor: Um dia de atraso e a ansiedade...
Theka: *tirando o fone e ouvindo o restinho da conversa* Ai meus sais! Quando não é o Kardia é você, Viktor? Ah!
Almaro, acho que eu vou fazer o Yuu nunca mais ficar com ele!
Yuuri: Tá vendo, Viktor? Eu disse pra não atrapalhar *pegando o platinado e o puxando para longe*
Viktor: Mas Yuu...
Almaro: Sem mais... *mostrando a língua pro platinado* O kit fic é nosso, tá!
Brincadeiras à parte, Almaro e eu agradecemos muito por todos que aqui chegaram, e até o próximo capítulo, daqui quinze dias!
Beijos
Almaro & Theka
