Avisos no final do capítulo!
Beta: LadyCygnus, nosso carinho, amizade ever and ever! Dear, obrigado por mais uma vez nos ajudar!
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Se existia uma coisa que Otabek Altin odiava na sua profissão, era ter que conviver com a morte.
O menino franzino que foi um dia, desde muito pequeno dizia que salvaria vidas, que queria fazer os bebês nascerem e ver a vida vencer. Não estudou para ser Deus e já na faculdade entendeu que por muitas vezes, nada do que fizesse ou soubesse, mudaria o destino selado da pessoa em sua mesa de cirurgia.
Fechou os punhos com força enquanto saía do centro cirúrgico onde minutos antes acabara de fechar a barriga de uma ômega em óbito. Se fosse outro profissional, não perderia seu tempo em dar pontos tão perfeitos e pequenos para que não ficassem marcas feias no ventre vazio e sem vida da mulher que morreu em suas mãos.
Parou e suspirou forte. Dessa vez, tinha perdido a batalha para o ser superior e mesmo fazendo tudo que sabia - e até mesmo agindo pelo impulso em alguns momentos - não conseguira fazer a jovem mulher resistir à cesárea de urgência, depois que o útero se rompeu após uma queda violenta. E para piorar tudo e mais um pouco, a bebê, uma menina prematura, sobreviveu fora do corpo da mãe por poucos minutos. Todos os procedimentos de aspiração e reanimação não deram resultados e no fim, mãe e filha morreram em decorrência da hemorragia. Nada poderia ter mudado aquela situação, nada mesmo! Somente um milagre que o médico não poderia operar ou executar.
Olhou para o lado e viu o russo platinado andando em sua direção a passos rápidos acompanhado de outro homem e tentou melhorar a cara. Como se pudesse ou quisesse.
- Doutor Altin. - Viktor parou olhando para o rosto cansado e de mau humor que o moreno sustentava. - Está tudo bem? - perguntou mais por pura educação do que por algum outro tipo de interesse.
- Não! - As feições travadas não relaxaram e nem se alteraram quando percebeu o mais alto de todos empertigar a postura. - O senhor está precisando de alguma coisa?
- Não... – começou mas, mudando de ideia, prosseguiu. - Sim! Eu preciso de sua ajuda. - Viktor estancou sem saber como continuar, não havia pensado muito sobre o assunto, mas precisava tentar. E as ideias pareciam brotar sem cessar em sua mente, que parecia fervilhar. - Como posso fazer uma criança desaparecer sem ser preso por isso?
Chris olhou para o amigo incrédulo, tudo estava acontecendo rápido demais e temia que o russo estivesse agindo sob uma forte influência.
- Vik?! Coloque essa cabeça no lugar e haja direito. Meter os pés pelas mãos não vai adiantar nada e nem ajudar Katsuki.
- O que tem o Katuski? - Otabek via os dois homens conversando a sua frente e considerou em sair andando, voltar para a sua sala e começar tudo de novo, mas a menção ao nome do ômega que tinha parido horas atrás, chamou sua atenção. - O que está acontecendo? Yuuri já foi para o quarto?
O suíço se adiantou nas respostas, pois continuava achando o amigo incapaz para lidar com a situação.
- O marido dele não vai ficar feliz por ter tido uma menina. – informou rapidamente.
- O ômega ainda é jovem, pode ter outros filhos e é um rapaz extremamente saudável. Não vejo empecilhos para tentar outras gestações. - O médico não conseguia entender a conversa sem pé e nem cabeça que estava tendo, mas deu seu parecer mesmo esse não sendo pedido pelos alfas.
- O senhor não entendeu! - o platinado quase rosnou. Em seu peito, o lúpus adormecido parecia ter despertado de muito mau humor, e começou a rosnar em protesto. - O marido do Yuuri não quer a menina! - Viktor usou um tom exasperado e teve o braço segurado pelo amigo loiro. - Eu prometi que tudo ficaria bem e que a criança não sofreria nada, mas sinto que não vou conseguir cumprir minha promessa se o senhor não me ajudar. Preciso sumir com a menina e precisa ser rápido. – a voz baixa, urgente; não queria usar sua persuasão, mas talvez, quem sabe, não iria funcionar com o médico à sua frente? Ele dava mostras de ser espirituoso e nada influenciável.
O cazaque riu debochado ao perceber a entonação da voz do outro homem e deu as costas para seguir seu caminho, mas deu de cara com um loiro que não tinha visto até aquele momento e que impedia seu progresso no caminho.
- É um caso de vida ou morte! - Começou Yurio, seus olhos verdes brilhavam intensamente, lembrando um gato furioso. - Eu sei que você luta pela vida a cada segundo e nós estamos aqui pedindo sua ajuda para salvar a filha do Katsuki. Ele não pode fazer isso agora e nós não podemos simplesmente sair do hospital com o bebê que não é nosso nos braços. – deu um sorriso irônico antes de prosseguir. - Então, por favor, escute tudo que temos para falar e, se mesmo assim não concordar com nada, vamos embora e pensaremos em outra alternativa. Mas me dê uma chance de falar, de te explicar tudo. – pediu ao suavizar seu olhar e expressão.
Otabek encarou o loiro mais baixo - seus olhos lembravam duas gemas de esmeralda brilhantes -, algo nele transmitia uma confiança bem mais madura que seu jovem rosto demonstrava.
- Você tem a minha atenção e apenas uma chance, por isso, aproveite bem. – advertiu severamente. - Por quê você diz que é um caso de vida ou morte? – perguntou mostrando interesse.
Os dois mais velhos agora eram apenas espectadores da cena que se desenrolava entre o médico e o jovem russo de gênio difícil mas que, verdade fosse dita, era um excelente orador e além disso era um negociador voraz e muito sagaz, dono de uma mente brilhante que analisava suas alternativas a uma velocidade impressionante. E ele não foi diferente durante o diálogo com o médico, expôs o que sabia, o que imaginava e o que deduziu a partir do comportamento irresponsável do primo.
- Você entendeu? – perguntou, como se quisesse ter certeza. - Agora sabe o porquê do meu primo prometer ajudar, do porquê temos que fazer isso e do porquê precisamos da sua ajuda. – mirou-o com interesse, sustentando o olhar embasbacado do médico sem desviar um milímetro.
O moreno estava boquiaberto com o russo e com tudo que escutou, não tinha gostado do marido do ômega por conta do seu jeito, mas nunca poderia imaginar pelo que realmente Katsuki passava dentro do próprio lar e casamento. Não era da sua conta, mas não gostava de pessoas que usavam da força para subjugar os outros. Ficou mudo até que a porta às suas costas se abriu e duas enfermeiras pediram licença para passarem com uma maca coberta por um lençol branco, tomavam a direção do necrotério do hospital localizado no subsolo. Todos abaixaram os olhos em sinal de respeito, menos ele. Depois de tudo que escutou, não podia ficar parado, sabia que o japonês e a criança sofreriam nas mãos do marido alfa e por isso resolveu agir.
- Posso perder minha licença, ser caçado pelo conselho administrativo e ser preso pelo que estão me pedindo para fazer. – a voz baixa e cortante. Olhou de Viktor para Christophe, e depois parou no rosto impassível de Yurio. - Mas sei como ajudar vocês! - Agora Otabek olhava por cima do ombro do loiro e via as duas moças se afastarem lentamente pelo corredor. - Acabei de perder duas vidas, mãe e filha, sozinhas no mundo. E, talvez, haja uma certa beleza e conforto nas mortes delas.
Yurio se sobressaltou, sua mente trabalhando rápido e chegando à conclusão que o médico estava sugerindo. Olhou preocupado para o russo mais velho e percebeu que ele também tinha entendido.
- Vamos fazer Katsuki sofrer, é isso mesmo? – perguntou o Plisetsky incrédulo. - É muita crueldade, você vai quebrar o coração dele, Viktor, mas...
- Mas é o único jeito! - Otabek completou. - Pediram minha ajuda e é essa que posso dar: trocar as crianças. - a voz mais alta apenas que um sussurro.
O suíço olhava para todos como se fossem um bando de loucos e irracionais, mas entendia o apelo que o amigo russo sofria; sabia que ao quebrar o coração do nipônico, partiria o próprio, mas Viktor não pararia. Faria de tudo para cumprir a palavra dada aos dois irmãos, mesmo que o estrago fosse ser maior do que pudesse sonhar.
- E como o senhor faria isso? – perguntou Christophe. Muitas vezes o suíço servia como a consciência do russo platinado e sabia que teria de ser forte, forte pelo amigo - e por ele mesmo. Teria de dar suporte àquele homem, que desde pequeno nunca se importara consigo mesmo, mas sim com o bem estar dos outros. A vida poderia ter sido injusta, o fazendo por vezes agir como um egocêntrico, playboy arrogante, mas sabia que por baixo de tudo aquilo, o Viktor de anos atrás ainda estava lá.
- Vou trocar as pulseiras das duas crianças. - O moreno respirou fundo. - É arriscado, mas o único jeito de encobrir o nascimento e desaparecimento da filha de Katsuki Yuuri é transferir a menina para UTI e lá fazer a troca.
- Que assim seja! - Decretou Viktor com seu maxilar apertado, seu peito doendo e sua alma sangrando. - Faça o mais rápido possível. - E virou-se retornando para onde estava com a irmã japonesa, não esperou por ninguém.
Mari continuava sentada, não se deu ao trabalho de se levantar quando viu os homens conversando mais à frente no corredor, sabia do que tratavam e ela continuava travada em uma batalha com seu íntimo. Não queria ter que passar por nenhuma outra provação com o irmão, mas sentia dentro de si que a tempestade se aproximava.
- Mari? – chamou o platinado, a voz baixa, quase um sussurro. Agora todo o cuidado era pouco. - Conseguimos uma alternativa para salvar a pequena Akiko. Eu... – parou a frase antes mesmo de conseguir terminar, a moça levantou a mão o impedindo de continuar.
- Prefiro não saber, pois sei que meu irmão vai sofrer muito, mas também sei que é o único jeito, não é? – questionou apenas para ter a certeza que sentia em seu coração. Suas lágrimas desciam com vontade agora. - Só me prometa que vai cuidar dela, que ela não vai passar nenhuma necessidade e que quando meu irmãozinho se livrar daquele traste, eles vão voltar a ser apenas um. Só me dê sua palavra, por favor! – pediu entre as lágrimas teimosas.
O platinado não queria nada daquilo, não queria mais lágrimas e nem fazer mais promessas, afinal, temia que o japonês o odiasse depois de tudo e não suportaria ver nos olhos castanhos a raiva e o rancor direcionados a sua pessoa... mas havia dado sua palavra e foi de coração, por isso, a cumpriria da melhor forma possível.
- Eu prometo que nada faltará a nossa Akiko. – a voz solene, o olhar decidido. Ele faria todo o possível e o que teria de fazer não seria fácil, mas o primeiro passo já estava sendo dado.
Mari assentiu com a cabeça e, por entre as lágrimas, tentou sorrir da melhor maneira, fez uma reverência agradecendo e partiu para o quarto vazio do irmão.
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Otabek voltou para sua sala preso em seus pensamentos e nas loucuras que estava para cometer, porém, antes de entrar solicitou a uma enfermeira que procurasse pelo pediatra Doutor Takeshi.
Sentou-se na cadeira e aguardou, olhando fixamente para a porta fechada até que batidas o tiraram dos seus devaneios e viu a cabeça da médica anestesista e esposa do outro médico aparecer no vão; o sorriso fácil a lhe iluminar os lábios.
- O que você quer com meu marido? - Yuko era a alegria em pessoa, estava sempre se doando pelos outros e não ligava de passar horas e horas dentro do hospital cobrindo os colegas mais folgados ou com problemas com suas escalas de plantão. Mas deixou o sorriso morrer quando viu a carranca do amigo de profissão. – Ota, não fique assim, é triste o que vou te dizer, mas ela só foi apenas mais uma de tantas pessoas. – mirou-o, compadecida. A anestesista sabia por experiência que o homem sentado à sua frente, apesar de sempre deixar transparecer ser uma fortaleza, de aguentar o que a vida lhe impõe, tinha um coração enorme e por mais que escondesse, que não quisesse, perder uma vida sempre o abalaria.
Yuko e Takeshi entraram no consultório do médico e sentaram, pois ambos se compadeciam das perdas sofridas, mas era vida que seguia e eles agora não poderiam fazer mais nada.
- Yuko, tenho um assunto sério para tratar com seu marido e não gostaria de envolver você. – o obstetra tinha a voz baixa, o olhar sério e um tanto perdido, não querendo focar diretamente aos amigos.
- Nossa Altin, desse jeito até parece que você vai cometer um crime. - A mulher parou de falar quando escutou um grunhido partindo do amigo. - O que está acontecendo? – Yuko perguntou, enquanto voltava até a porta e a trancava.
O moreno resumiu tudo que havia acontecido desde manhã com a chegada do russo e do japonês Katsuki, finalizando com a conversa que tivera no corredor do centro cirúrgico.
- Você enlouqueceu? Só pode ser isso, Altin! Você pode ir preso se o marido daquele ômega desconfiar de alguma coisa por menor que seja! Não vou compactuar com isso de jeito nenhum! - O pediatra só não gritava para não chamar uma atenção desnecessária. Estava inconformado com a proposta descabida do amigo. - Você tinha que dizer não! Não e ponto!
Otabek já esperava uma reação assim do companheiro, nada há menos do que o chilique que estava tendo, por isso concluiu.
- Vou refazer o prontuário da menina do Katsuki e assumo total responsabilidade sobre esse fato. E, se algo acontecer, não quero que minta para salvar minha pele. Vou assumir meus atos. – profetizou sem demonstrar insegurança na atitude que estava tomando.
- Você é quem sabe! Vamos Yuko! - Mas a mulher não se mexeu na cadeira, ficou parada olhando para o médico cazaque. Amava sua profissão e nunca, desde os anos de residência feitos ao lado dos dois homens na sala, havia visto os dois discutirem. - Yuko?
- Você vai precisar de duas assinaturas para o novo prontuário da criança. No da menina morta, quem assinou fui eu, posso assinar o outro também.
Aquela declaração caiu como uma pedra sobre eles; o marido tinha ganas de pegá-la pelo pescoço e arrastá-la para fora da sala e da insanidade para que Altin os arrastava, mas sabia que se arrependeria no momento seguinte. Por isso, se sentou de novo e encarou o cazaque de frente.
- Pelo jeito sou voto vencido! - constatou exasperado. - É uma burrada sem tamanho ou dimensão, mas não vou deixar minha esposa e meu melhor amigo sozinhos nessa. - Bufou frustrado, mas sorriu diabólico. - Estou precisando ir viajar, só eu e a Yuko, e precisamos de uma babá para as trigêmeas.
Otabek finalmente relaxou a expressão e acompanhou o amigo no sorriso.
- Preciso que você transfira o bebê do Katsuki para a UTI neonatal o mais rápido possível. – pediu ao ficar pensativo. Tudo teria de ser feito rapidamente ou não teriam tempo para nada. A documentação ainda estava em sua mesa e, por hora, tinham um pouco de vantagem até o momento de ter de entregar os documentos.
- Devo fazer alguma coisa? - Yuko perguntou ao trocar olhares com o marido e o amigo. - Afinal, creio que não seja muito viável que você seja visto muitas vezes junto aos que estão acompanhando o jovem ômega. - parou, olhando para o nada e ficando pensativa.
- Talvez seja algo sem fundamento pensar assim, meu bem. - começou Takeshi, ao fazer uma leve pausa. - Ota conheceu a todos devido ao acidente e não vejo nada errado. Essas pessoas, pelo visto, são influentes de algum modo e poderiam imaginar e criar uma história perfeita para tudo, se necessário for. - e sem delongas, levantou-se da cadeira, não sem antes trocar um olhar com o amigo de longa data. Nishigori Takeshi sabia o que tinha de fazer e assim saiu da sala sem mais nada dizer.
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Por mais que Otabek Altin possuísse uma vasta experiência por ter trabalhado com a nata, os melhores entre os melhores médicos especialistas, ainda assim, não estava preparado para o que estava enfrentando com aquele jovem ômega.
Sabia que o mesmo, assim que acordara, pedira para que pudesse ver a filha que até aquele momento não havia sido trazida do berçário para a primeira mamada. E fora dessa forma, com pedidos insistentes, que o obstetra fora recebido. Arqueando a sobrancelha ao deparar-se com um homem não muito alto e "fedendo" a feromônios alfa, estreitou os olhos.
- Doutor, esse é o primo de Akira, Minami Kenjirou. - apressou-se Mari em dizer.
- Prazer, doutor! Obrigado por trazer mais um garotão alfa ao mundo! - adiantou-se Minami, estendendo a mão ao médico.
O fedor alfa deveria ser uma característica de família. Ignorando a mão que o outro lhe estendia, Otabek se aproximou do leito do ômega.
- Senhor Katsuki… - saudou-o. Otabek nunca havia se sentido tão incapaz e com vontade de exorcizar seus demônios e os de quem mais fosse preciso, apenas por ouvir aquelas míseras palavras.
- Doutor Altin, o senhor vai deixar que a tragam… - começou o Katsuki chamando-lhe a atenção, mas não conseguindo completar a frase, pois o Cazaque o mirara com pena antes de lhe dar a famigerada notícia.
- Senhor Katsuki, talvez seja melhor se acalmar, de nada irá adiantar se lhe acontecer algo!
- Então por favor, doutor! - pediu o nipônico ao lançar um olhar significativo na direção do obstetra. - Vocês estão me escondendo alguma coisa desde a hora que vim para o quarto! - bradou ao olhar para a irmã.
- Yuu, tenha calma! - pediu a morena ao segurar-lhe a mão, tentando passar a tranquilidade que a ela também estava a faltar.
- Isso mesmo, Katsuki-kun! Ouça o que o doutor tem a dizer sobre o garotão alfa igual ao pai dele! - sem noção! Sim, sem noção alguma, sem tato e mais uns incontáveis adjetivos poderiam ser usados para se dirigir a Minami. Como todo macho alfa da família, acabara se revelando prepotente, nada a ver com o pequeno garotinho que se dava bem até mesmo com os filhos do jardineiro beta.
Controlando a língua, o médico entendeu ali que não poderia fraquejar e que sua decisão fora realmente acertada. O silêncio que se seguiu começava a incomodar.
- Senhor Katsuki, o senhor precisará ser forte - e olhou de um irmão para o outro. A voz baixa e modulada.
- Por que está me pedindo isso? O quê aconteceu com minha pequena, doutor Altin? O quê aconteceu com a Akiko? - a voz começando a embargar, as lágrimas começando a lhe cortar as bochechas.
- PEQUENA? - Minami pareceu voltar à órbita e finalmente perceber o óbvio. - Não pode ser! - deixou escapar toda sua indignação. Sem olhar para os demais balbuciou: - Akira precisa…
- Akira não precisa saber de nada, Minami-kun! - Yuuri protestou veemente. - Vá embora! Seu cheiro está me incomodando. - ele não tinha medo de enfrentar o primo do marido, nunca tivera; talvez as ações dele e sua boca aberta muitas vezes o colocara em situações perigosas com relação ao marido, mas não, naquele momento ele queria o primo longe dali.
- Talvez você devesse dizer que meu cheiro te excita… - Minami tinha a parca ideia em achar que Yuuri poderia nutrir algo por ele. Cobiçava o marido do primo bem debaixo de seu nariz e vivia dizendo que se um dia o primo não quisesse mais o ômega, que ele o tomaria para si.
- Cale a boca… - Mari ordenou ao perder as estribeiras. - Doutor por favor, diga o que está acontecendo.
Otabek mirou as três pessoas ali dentro daquele quarto. Ele sabia dos riscos que correria com o primo daquele alfa ali presente, mas agora não poderia parar. Talvez aquilo, de certa forma, poderia ajudar nos planos do platinado. Limpando a garganta começou:
- Tivemos uma intercorrência com sua bebê. - falou com cautela - A princípio, os exames não acusaram nada - percebeu quando o ômega apertou forte a mão da irmã e seus feromônios, mesmo que poucos, inebriaram todo o quarto.
- O que aconteceu? - Mari fez a pergunta no lugar do irmão que parecia estar entrando em choque.
- A pequena teve uma parada cardíaca e não resistiu; foi constatado que ela tinha uma má formação do coração e, se aguentasse, teria de ser submetida a um transplante com urgência...
- Um livramento… - a voz ácida e quase infantil de Minami cortou a explicação do médico. - Akira vai dizer o mesmo, eu sei que sim! - e mirou o ômega com interesse. Quem o visse não poderia imaginar que já era um adulto. Ele realmente não pensava para agir ou falar. Tinha mesmo de ser um pau mandado do primo.
Yuuri moveu a cabeça lentamente. Sentia-se em um filme de terror de quinta categoria. Queria gritar, mas parecia que estava perdendo as forças. Ouvia tudo ao seu redor. Mari gritando com Minami, exigindo que ele fosse embora e, que se quisesse, poderia ser até para o inferno. Mari realmente não tinha papas na língua e ele amava muito a irmã por conta disso. Pelo canto dos olhos, viu quando este foi empurrado para fora do quarto.
Mãos apressadas, mas gentis lhe tocavam, baixando um pouco suas pálpebras inferiores. Estava sendo examinado.
- Vou ministrar um calmamente… - Otabek mal havia conseguido se afastar quando foi interrompido por um grito carregado de dor.
- N-Ã-O! Não é verdade, ela não! Me deixem vê-la! - o ômega tentou sair do leito, e foi contido.
Enfermeiras entraram correndo, tentando ajudar ao médico que segurava o paciente com certa dificuldade.
- Mari-nee, me dá ela! Deixa eu segurar minha Akiko! - os gritos estridentes podiam ser ouvidos lá fora, chamando mais a atenção de quem estava pelos corredores.
- Você não pode levantar, Yuu! - a beta, com a voz embargada, tentava inutilmente acalmar o irmão. Em seu ser, sabia que aquilo poderia ser um engodo, ainda mais depois de pedir para o platinado nada lhe dizer, mas naquele momento não deveria pensar naquele assunto - não era o melhor a se fazer; por isso mesmo deixou esquecidas as lembranças ao prestar melhor atenção no que estava acontecendo naquele quarto.
- Não, assim você vai abrir os pontos! - Altin apressou-se em segurar mais uma vez o ômega enquanto as enfermeiras prendiam seus braços e pernas. - Katsuki, é para o seu bem!
- Não, não é! Eu quero minha filha! Ela não morreu, eu sei disso! Eu sinto isso! - bradou a plenos pulmões.
- Ele está entrando em choque! - e tão logo começou a falar, ministrou um calmante direto no soro. - Você vai sentir letargia e sonolência, então, por favor, não se debata mais. - pediu o médico.
- Eu não quero, eu não quero dormir! - Yuuri murmurou antes de começar a sentir os efeitos e junto o leve cheiro daquela floresta de pinheiros. Ele não saberia dizer se antes ele já estava lá, mas agora estava ajudando a se manter mais calmo.
- Meus mais sinceros sentimentos. - murmurou o médico antes de sair do quarto e deparar-se com uma cena inusitada. - O quê aconteceu aqui?- perguntou ao ajudar o alfa loiro a segurar o platinado.
Yurio se adiantou mostrando a pequena seringa e uma ampola. Ele sabia o que era aquilo: calmante para alfas.
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A espera naquela pequena sala reservada próximo ao quarto do ômega estava sendo tortuosa para Viktor. Já fazia algum tempo que haviam exposto a situação do Katsuki ao doutor Altin e, mesmo com este dizendo que iria ajudá-los, o platinado ainda não conseguia acreditar nas palavras empregadas naquela promessa de ajuda.
Nikiforov sentia a necessidade crescente em seu peito de estar próximo, de sentir o seu ômega! Queria ajudá-lo no momento em que recebesse a falsa notícia, queria dar suporte, o qual sabia não poder fazer naquele exato momento. E esse pormenor parecia irritá-lo mais.
- Aconteceu, não é cher (querido)? - Christophe perguntou mais para ter a certeza do que já havia notado anteriormente.
- Aconteceu o quê, Chris? Não estou te entendendo! - Viktor respondeu evasivo, mas já sabendo que o experiente alfa já sabia a verdade.
Yurio, que estava até o momento perdido em pensamentos, voltou sua atenção para os dois mais velhos. Havia notado que o primo estava agindo diferente. Arqueando as sobrancelhas, resolveu que estava na hora de tirar um pouco mais daquela história a limpo. O beta podia jurar que, em poucos minutos, o platinado havia tido duas variações de humor.
Quando pensava em colocar em palavras o que queria, volveu rapidamente os olhos na direção que os dois alfas estavam olhando. Reconheceu o tal primo do marido do Katsuki. Este não se importava em falar baixo ao telefone percebeu fragmentos da conversa com outra pessoa, a qual Yurio deduziu ser o malfadado projeto de marido. Mirou o primo e o amigo nos olhos, mordiscando o lábio inferior em um tique nervoso.
- É ele! - murmurou para que somente eles ouvissem. - É o tal que escutei a conversa mais cedo.
Viktor arqueou uma sobrancelha e em seu peito, o bichinho do ciúme pareceu rosnar agoniado. Passando as mãos pelos cabelos, tentou se pôr em pé, mas uma pegada forte o conteve.
- Vik! - Chris chamou-lhe a atenção, bem como a de Plisetsky.
As pupilas dilatadas e avermelhadas não eram um bom sinal. Trocando um rápido olhar com o mais novo, lançou para este as chaves de seu carro.
- Yuri - usando o nome de batismo do outro, mostrava que a coisa estava se tornando séria e era por ver que o amigo da forma que se encontrava não era um bom sinal, começando a fugir de controle -, já sabe o que pegar, sim? Eu tento segurar o Don Juan aqui! - e, ao terminar de falar, apertou a pegada ao pulso do amigo.
- Me solta, Christophe! - exigiu o alfa lúpus.
- Você pode tentar usar sua voz de comando comigo, mon ami (meu amigo), mas eu não me submeterei a seus caprichos e vontades! - e olhando para o outro loiro, mandou. - Vá logo, Yurio! Eu não sei quanto tempo nosso amigo aqui ficará sob controle!
- Cacete, velhote! Segura ele aí! - Yurio praguejou ao levantar de um salto. - Aguenta aí! - e saiu feito um raio, não se importando por estar correndo por aqueles corredores silenciosos.
- Onde ele foi, Christophe? - Viktor perguntou, os lábios tremendo levemente. Por mais que ele tentasse conter seus instintos, não estava obtendo sucesso. Naquele momento, resolveu aceitar o que havia acontecido. Após tantos anos, o bem sucedido empresário havia finalmente sofrido um imprint.
- Ele já vai voltar... Agora, Vik, quero que preste atenção em minha voz e tente conter seus feromônios, e o principal: contenha seus sentimentos. Você consegue se controlar! Vamos, lute para ficar consciente! - ordenou, mas ao escutar o rosnado baixo, passou rapidamente os braços pelo corpo do outro e se preparou para o tranco. Desejava que o beta não demorasse com a frasqueira contendo uma dose de calmante para alfas.
- Me solta, Giacometti! - ordenou, ao começar a se irritar mais. Naquele exato momento o cheiro desagradável, possivelmente do alfa baixote no quarto de Yuuri, chegou até eles, o que fez o platinado lançar o amigo para o lado e avançar alguns míseros passos; novamente o suíço, mesmo zonzo, o segurava e liberava seu cheiro para pelo menos mascarar um pouco o do amigo. Sabia que talvez não funcionasse, mas poderia tentar. - O que você está tentando fazer, Chris? Me deixe…
- Viktor, você irá me agradecer por isso. - respondeu ao conseguir conter o amigo, que dando novo tranco, tentou soltar-se para ir atrás do alfa que acabara por ser mandado embora.
Quanto tempo havia se passado entre ele entrar e sair? Isso o russo não saberia dizer já que estava mais preocupado em libertar-se e fazer o que mais queria - esquentar a cara de bebê daquele abusado. Sim, em meio a tudo o que acontecia entre os amigos ali, fora possível ouvir o que a beta havia dito.
- Eu quero… deixa eu ir lá acertar aquele naniquinho! - rosnou, dando um novo tranco.
- Tenha um pouco mais de paciência, Nikiforov! Se for para cima daquele infeliz, sabe que muitas coisas podem ser desencadeadas por não conseguir pensar direito. Me ouça somente dessa vez, por favor! - pediu Christophe, dando novo puxão para trás.
Uma trégua! Uma trégua era tudo o que o suíço mais queria. Imaginava que se o amigo tivesse um novo surto e forçasse novamente, talvez não conseguisse o conter. Ele havia parado quieto, mas como nada é como a gente quer, lá estava aquele aroma adocicado, que não passava de nada além de medo, angústia e, novamente, o platinado se moveu.
- Viktor, por favor, paciência! Preste atenção em mim…
- Não! Você não precisa de mim, ele sim! Sinta, Christophe! Me deixa ir lá… - pediu ao "farejar" o ar. Viktor podia sentir o medo, angústia e a dor nos feromônios do ômega, que conseguiram fazer com que ele perdesse o controle racional de uma vez. Em desvario, quase gritou de volta ao escutar a voz de Yuuri exigindo pela filha. Como ele queria que ele também o exigisse ao seu lado, rosnou revoltado.
Pulando sobre o amigo, o suíço desejou que Yurio voltasse logo. Sem sombra de dúvidas Viktor era mais forte que ele e em descontrole, o platinado já havia conseguido o arrastar para o corredor e cravado as unhas em seus braços. A dor era terrível, mas o loiro sabia que se o deixasse ir, seria pior.
Os grunhidos, rosnados irracionais saiam em golfadas de ar pelos lábios abertos do russo. E quando tudo parecia estar perdido, finalmente Yurio chegara.
- Puta que pariu! Ele te machucou! - falou ao reparar nos braços arranhados do suíço.
- Ah! L'amour! (Ah! O amor!) - gracejou levemente, para logo em seguida empurrar o russo platinado na direção da parede, prensando-o. - Rápido, Yuri… injete! - ordenou. Christophe estava em seu limite.
Retirando a seringa do estojo, mordeu o protetor de plástico da agulha e, com um movimento rápido, aplicou a agulha diretamente na base do pescoço do primo.
Um grunhido alto escapou dos lábios de Viktor, que devido ao local estratégico o qual o calmante lhe fora ministrado, seu corpo começou a não mais lhe responder como deveria e queria. Ainda conseguia se manter em pé, mas soltar-se estava se tornando uma tarefa difícil.
- Quantos ml você aplicou? - Chirs perguntou ao passar os braços ao redor da cintura do amigo.
- Não sei… coloquei apenas mais um pouco no êmbolo enquanto ainda estava no elevador. - Yurio respondeu alarmado. O primo continuava em pé, mas mais lento e um tanto mais calmo. Vendo seus passos vacilantes, ajudou a segurá-lo. Ele nem bem tinha guardado a ampola com a seringa, quando ouviu o questionamento do médico e lhe mostrou os objetos antes de os guardar em seu bolso interno do casaco.
- Eu preciso vê-lo, doutor… - murmurou o lúpus mirando o recém chegado com seriedade, mas quase fechando os olhos.
- A dosagem do calmante foi muito baixa. - Altin comentou ao reparar nos braços arranhados do loiro mais alto.
- Mea culpa! - Yurio falou rapidamente. - Me mande a conta depois, doutor! - gracejou acidamente.
- Tudo bem! - fez pouco do comentário do loirinho e prosseguiu. - Do jeito que ele está, nada demais irá acontecer, mesmo com ele sofrendo com o imprint! - sim, Otabek já havia percebido e quase riu ao ver o loirinho o encarar em choque.
- Merda, Viktor! Depois de tantos anos, agora você foi achar de se engraçar com um ômega e, ainda por cima, um ômega casado!
- Meu ômega! - murmurou o platinado ao volver os olhos para a porta do quarto em que sabia seu homem estaria. - Doutor, eu preciso vê-lo!
- Não, agora não é o momento! - Otabek respondeu e ao vê-lo torcer os lábios continuou. - Entenda, senhor Nikiforov, ele foi sedado, assim como o senhor. E em seu estado, se ele estivesse consciente, bem, ele sentiria medo do senhor. - e olhando para os dois acompanhantes do platinado prosseguiu. - É melhor ir para casa, enquanto seu primo resolve algumas coisas por aqui. - e trocou um rápido olhar com o loirinho.
- Eu o levo, Vik! E sem mais… - Chris se prontificou e comandou antes do genioso amigo começar a perder as estribeiras mesmo estando dopado.
- Antes de ir, venham comigo, vou lhe fazer um curativo. - e os guiou pelos corredores, colocando pelo caminho o platinado sentado em uma cadeira de rodas para poderem ir mais rápido.
Em seu consultório, enquanto fazia os curativos no suíço, rapidamente o obstetra combinou com o loirinho para que esse voltasse um pouco mais tarde com seu carro para pegar a pequena Akiko e os documentos necessários para se fazer o registro da pequena.
- Em uma hora estarei de volta no local combinado. - Yurio repetiu mais para ter certeza e assim que viu o médico concordar, saiu atrás do primo e amigo.
Nunca havia pensado em passar por aquele tipo de situação, mas pelo primo, ah! Por ele, caminharia descalço em brasas. Guiando o carro do platinado, seguiu para a casa grande nos arredores de um bairro mais afastado. Ajudou Giacometti a levar Viktor para o segundo andar da construção e deixou-se levar por seus pensamentos. Queria a felicidade do primo e assim como este fizera consigo um dia, ele também faria para ele.
Observando Viktor ser colocado na cama, jurou que faria de tudo, qualquer coisa mesmo para que ele e seu ômega tivessem a possibilidade de serem felizes juntos. Bem, mas para isso, teria de seguir a risca o combinado. Com um leve aceno de cabeça, deixou Chris com o primo e saiu seguindo para seu quarto. Viktor havia montado um quarto para Yurio naquele grande casarão e ele queria se livrar do cheiro de hospital antes de ter de voltar para se encontrar mais uma vez com aquele homem sisudo e que mexia com seus brios.
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Explicações e curiosidades:
Sinônimo de Engodo: Qualquer atitude que visa enganar. 1 engano, cilada, embuste, armadilha, manobra, trapaça, emboscada, estratagema, artimanha, logro, ardil, farsa, mentira, esparrela, embrulho, intrujice, tramoia, engabelação, engabelo, mutreta, enrolação, tapeação, conversa, onda, cantilena.
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Cantinho Rosa e Azul:
Theka : Olá a todas, gostaríamos de pedir desculpas pela demora de uma semana, mas coisinhas e a vida aqui deste lado por vezes tende a fazer cobranças, e bem... finalmente o capítulo está no ar, não é Almaro?
Viktor: * olhando de lado, arqueando as sobrancelhas e já abrindo a boca para falar alguma coisa *
Almaro: Se eu fosse você, mocinho, nem tentava nada!
Viktor: Como não? Vocês duas estão querendo nós matar de alguma forma? Nos deixar nesse suspense todo? Nessa sofrência? Não é Yuu?
Yuuri: * só observando quieto *
Theka: Ah! Mas que ingrato... Almaro e eu não merecemos isso!
Almaro: Isso mesmo, pode se jogar no chão, fazer bico * mirando o platinado com cara de poucos amigos * que não vamos cair na sua onda!
Viktor: Bem que um certo Escorpião me avisou...
Theka: Ah! Lá vem o Kardia... não! Almaro, o kit fic, vamos ter de falar de novo!
Yuuri: Vik... Vitya, melhor você deixar as duas em paz, e sabe, não quero que nada dê errado na fic, sabe, elas podem mudar algumas coisas e a gente... * olhar preocupado para o platinado, que sem nada dizer sai arrastando o moreno de perto das malucas *
*suspirando aliviadas*
Bem, é isso minha gente! Deixando os chiliques do chiliquento em questão, esperamos que nos perdoem, pois realmente tivemos imprevistos com esse capítulo. Também estamos curiosas com o que vão achar do mesmo, e não nos matem... Obrigado pelo apoio e os comentários carinhosos, isso nos deixa muito, mas muito felizes!
Então, até o próximo capítulo.
beijos de nós duas
