Explicações e avisos no final do capítulo
Beta: LadyCygnus, nosso carinho, amizade ever and ever! Dear, obrigado por mais uma vez nos ajudar!
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Yurio abriu os olhos devagar e piscou várias vezes até conseguir focar a visão devido à claridade provinda das grandes janelas, dando-lhe finalmente a noção de onde se encontrava. A sala de estar da casa do primo estava irreconhecível e na hora se arrependeu por não ter ido para o seu próprio apartamento, abandonando o louco morador daquela bela casa à própria sorte, mas ao invés disso, estava lá em meio às embalagens plásticas espalhadas, fraldas descartáveis jogadas pelo chão e nos móveis, o tapete em tons de off white com uma mancha enorme que parecia com chocolate derretido e tinha o barulho incessante de uma sirene de ambulância que não parava e muito menos calava a boca fazendo-o gemer mais alto. O russo tapou os ouvidos - não queria gritar, mas por tudo que lhe era mais sagrado não estava aguentando, por isso colocou a almofada no rosto e começou a sessão de gritos e xingamentos. Deu livre acesso à sua frustração e completa constatação de ser um inútil. Levantou a cabeça e procurou aquele serzinho minúsculo que lhe consumiu a noite inteira de sono.
- Como pode chorar tanto?! - Saiu do sofá onde havia desabado e andou até a poltrona que estava com o bebê conforto. Parou encarando a menina que esperneava. - Duvido que serei pai um dia e isso é culpa sua, sabia, sua pestinha? - Mas o jeito durão não durou e segundos depois pegava a criança no colo. - Por que com a Yuko, você é boazinha? - Começou a andar pela sala chacoalhando Akiko nos braços. - Só fica quieta, por favor... - Mas ao se virar viu a governanta da casa, Minako, olhando a praça de guerra que era o cômodo.
- Senhor Plisetsky? O que... o que aconteceu aqui? - E apontando para ele. - E o que é isso? O loiro era famoso pelo seu humor difícil e pelas palavras rudes que dirigia a todos da casa, mas a mulher estava surpresa demais e ficou mais ainda quando o jovem caminhou até ela e simplesmente passou a criança para seus braços.
- É um bebê e eu vou dormir! - Ditou e virou-se em direção à escadaria.
A japonesa ficou parada olhando para a criança de maneira estupefata, afinal, quando fora deitar na noite anterior não existia um bebê naquela casa e não existia uma mãe pelo que sabia, mas o fato era que agora existia um pai! Mas quem?
- O que você espera que eu faça? - perguntou ressabiada a oriental, que começava a embalar o pequeno pacotinho que lhe fora atirado nos braços.
- Faça o que você quiser, não estou nem aí. Só preciso dormir um pouco e não pensar em nada, porque se paro para pensar... - Ele estacionou no meio dos degraus e voltou-se mais uma vez. - Eu mato aquele imbecil do meu primo. - Sorriu diabólico. - E com requintes de crueldade!
- Mon chèr (meu amor), não fale assim! - O suíço fazia o caminho contrário ao loiro e parou no alto da escada. Seus olhos, capturando todos os detalhes no outro, passeou pelos cabelos desgrenhados, pelo rosto cansado e chegou nas roupas amarrotadas e sujas. Sem falar do cheiro de azedo que suas narinas de alfa absorviam. - Noite difícil?
Yurio apenas rosnou uma resposta afirmativa sem olhar para os olhos do estrangeiro, seu olhar preso nas ataduras levemente manchadas de sangue nos dois braços do suíço.
- A sua também foi ruim. Como ele está?
- Pior do que imaginei, mas se levarmos em consideração o que aconteceu, ele está melhor do que podíamos esperar. - O suíço encarou os próprios braços. - Uma tragédia poderia ter acontecido e acho que ainda pode acontecer, mas vamos fazer o nosso melhor, Yurio. - Os olhos do loiro foram parar na criança nos braços da governanta da mansão. - Sei que você teve uma noite complicada, escutei os barulhos, mas o Viktor vai precisar de você na empresa e já chamei o Lee.
- Eu vou dormir, me entendeu?! – fuzilou o loiro alto com os olhos brilhantes. Pareciam arder em pura raiva. - Eu... ou melhor, nós viramos criminosos por conta dessa merda toda e sinceramente se eu não dormir duas horas seguidas, com toda a certeza uma tragédia vai acontecer e garanto que o idiota do meu primo será o menor dos seus problemas! – ameaçou. O gênio forte imperando e Yurio não se importava que sua noite de sono frustrada fazia com que ele agisse mais encolerizado.
O loiro falava bufando, seu cansaço cada vez mais visível, mas o que lhe consumia a alma era saber que nada e nem ninguém poderia resolver aquela situação. Na verdade, o que previa com sua mente rápida e habilidosa, eram só desgraças. Todos estavam agindo por instinto, os mais primitivos possíveis - não só o alfa lúpus - e sentia que essa confusão só estava no início.
A campainha tocou e o russo não conseguiu se conter, pois a criança que parecia ter se acalmado e dormido, voltara a chorar com força.
- Mas que inferno! - Desceu as escadas e escancarou a porta da residência.
Na soleira estava o outro advogado da empresa, o sul coreano Seung-Gil Lee, detentor de uma áurea que metia medo em vários negociadores vorazes e concorrentes. Ele não era de muitas palavras e poucos sabiam o que se passava na sua cabeça, mas quando tomava uma resolução, o mundo poderia explodir ao seu redor que nada o removia, nada era uma barreira intransponível e tudo tinha um jeito.
Mas o dia havia amanhecido torto para todos eles e para Seung também, seus olhos se estreitaram e em um gesto simples, cobriu as narinas com a mão.
- Que cheiro de leite azedo é esse? É você? – perguntou ao arquear as sobrancelhas e franzir o nariz.
O loiro espumou de raiva e revirou os olhos sem a mínima paciência. Sabia que estava fedendo, Akiko despejara uma boa quantidade de leite talhado em cima de sua blusa durante a madrugada, sem mencionar as outras secreções saídas de outras partes da pequena, mas Yurio não queria mais pensar nisso ou as imagens não sairiam mais de sua cabeça.
- Bom dia pra você também. Vai entrar ou não? – grunhiu, ainda sustentando o olhar do recém chegado.
O moreno entrou e passivamente começou a analisar o cômodo da sala, um arrepio passou por sua coluna e foi até a base de seus cabelos curtos na nuca. Algo havia acontecido além do chefe ter largado seu marido passando mal no meio do nada. Mas o quê?
- Onde está o Viktor? – perguntou ao tentar unir aquele quebra-cabeças.
Christophe desceu a escada e parou a frente do outro alfa, tentava encontrar as palavras certas para dizer o que tinha para falar, mas... quando estava pronto para dizer a verdade nua e crua, pois de nada adiantaria fazer rodeios com o perspicaz advogado, fora atalhado.
- Ele está dopado. - A voz do russo loiro se fez presente.
Seung olhou do amigo advogado para o primo loiro do dono da empresa para que trabalhava, tudo estava misturado, haviam peças que não se encaixavam; algo grande tinha acontecido.
- Por quê ele está dopado? - Perguntou de forma pausada, mas não obteve uma resposta.
O cheiro de pinheiro tomou o lugar e no alto da escada, Viktor parou. Seus olhos avermelhados não focavam em nada específico e ele parecia farejar o ar. Desceu os degraus de dois em dois e quando atingiu o pavimento, girou no próprio eixo olhando em todas as direções. Todos podiam escutar os ruídos da sua respiração forte e descompassada, então parou e se dirigiu para o sofá onde o primo minutos antes estava desmaiado de cansaço. Com as pontas dos dedos, pescou entre as almofadas bagunçadas e desorganizadas uma blusa azul escuro. Era a blusa do ômega, a blusa que Yuuri usava quando deu entrada no hospital, a mesma que o médico Otabek havia roubado e a peça que o loiro jogou longe no auge de sua frustração durante a noite mal dormida.
Viktor segurou o tecido com ambas as mãos, sentiu sua textura e depois levou ao nariz, respirou fundo e puxou com força o cheiro adocicado da peça. Não se importou com ninguém que estava ali, nada era mais importante que sentir o cheiro do seu destino, mas o choro da bebê o atingiu como uma espada.
- Akiko... – murmurou voltando os olhos na direção em que a bebezinha se encontrava nos braços da governanta que Viktor havia contratado pois lhe fora muito bem recomendada.
Dando leves tapas no rosto com ambas as mãos, o platinado recobrou a consciência, levantou a cabeça tentando se controlar e a passos rápidos, chegou perto da governanta e tirou do seu colo o pacotinho que esperneava com todo o cuidado possível, enrolou a blusa azul no corpinho frágil da criança e a aconchegou no seu peito. A pequena então serenou.
Seung encarava abismado toda a cena que acabara de se desenrolar na sua frente. Começou a ligar os pontos um por um, mas uma peça não fazia sentido: a criança estava fora do contexto.
- Você sofreu um imprint? - A pergunta à queima roupa fez o platinado torcer a boca e não dizer nada.
- Sim, Lee. - O suíço passou as mãos pelo cabelo e encarou o coreano. - Foi um momento difícil e tive que intervir, mas todos sobrevivemos.
Lee parou os olhos no russo e pensou durante alguns segundos; a informação explicava os olhos vermelhos, o calmante e até os braços machucados do outro alfa, mas continuava não explicando a criança e o estado da sala da mansão. Resolveu que iria por partes.
- Eu vim aqui pronto para te dar uma lição de moral, dizer poucas e boas sobre educação e respeito ao próximo e dependendo da nossa conversa, colocar meu cargo à disposição. - A boca do suíço se abriu, Yurio bateu a mão na testa e Viktor o encarou mais confuso do que antes, aquilo era tudo que menos precisava. - Você deixou o seu motorista no meio do nada e ainda por cima passando mal. Não lhe ocorreu em colocá-lo dentro do carro e levá-lo para algum hospital ou para a empresa ou de volta para a sua casa? – fez uma leve pausa e continuou em um fôlego só. - Jura que você achou melhor deixá-lo no meio da rua para não chegar atrasado? E no fim não chegou onde deveria, não é mesmo?
O platinado empertigou a postura ainda com a menina nos braços, era um lúpus, chefe do sul coreano e não iria receber um puxão de orelha, não dele!
- Eu estava com pressa, o senhor Phichit Chu... – parou um instante, pois não conseguia lembrar-se de todo o nome do ômega - Ele estava com problemas que no momento, eu não conseguiria sanar, mas disse que enviaria ajuda assim que pudesse.
- Sim, mas não enviou e ele me chamou. Eu o encontrei em um estado deplorável, pessoas estranhas estavam tentando ajudá-lo enquanto você o deixou lá. E para piorar tudo... - Seung parou, balançou a cabeça e suspirou. – E-eu descobrir que vou ser pai! Descobri que o ômega estava passando mal por conta da gestação e que não havíamos desconfiado. - Seung respirou aliviado. - E chego aqui e encontro você assim, Viktor. Não era exatamente isso que esperava, mas acho que foi melhor desse jeito. - Sua expressão suavizou e ele tocou os finos fios de cabelos da criança. - Agora, me conta o que está acontecendo aqui, sim? – pediu ao suavizar um pouco a fisionomia.
O russo absorveu devagar tudo que foi falado, não podia imaginar que o motorista estava grávido, não previu que atropelaria o seu destinado e que se envolveria em um sequestro, mas o pior de tudo era como contar tudo para o sul coreano e saber que ele acabaria envolvido nisso até o pescoço como todos que estavam lá.
- Lee, não quero que você se envolva, não agora que vai se tornar pai. - Viktor falou baixo e sorrindo.
- Acho que já estou envolvido e o melhor seria você ou vocês me colocarem a par de tudo. - O sul coreano pontuou sério enquanto observava as feições do russo mudarem para uma carranca.
E a partir desse ponto, Viktor despejou tudo o que havia acontecido no dia anterior, desde a hora que largou o motorista no meio do caminho, até a parte antes de ser dopado. Falou do japonês, seu soulmate, com doçura mas sua voz continha uma nota de amargura, pois muito embora tivesse cumprido a promessa que fizera de coração, tinha causado uma grande e talvez irreparável tristeza ao seu par. Terminou seu monólogo com lágrimas presas aos olhos azuis.
- Me deixa ver se entendi direito: você sofreu um imprint por um ômega casado que, por um acaso, atropelou e sequestrou a filha dele depois, tudo porque prometeu que salvaria a criança da tirania do pai alfa. - Lee se sentou no sofá. - E vocês dois concordaram com isso? - Apontou para os loiros que se encontravam no outro sofá e que confirmaram com acenos de cabeça. - Viktor, tudo que eu falar agora, vai ser como chover no molhado e na minha opinião, você agiu por puro impulso ou instinto em decorrência do encontro com a sua alma gêmea, então, se quiser voltar atrás com os seus atos, tem um motivo plausível para alegar e a lei permite isso para um alfa. - Fez uma pausa e olhou firmemente para o único alfa lúpus da sala. - Mas lhe conheço bem o suficiente para saber que isso não vai acontecer, não é mesmo? – perguntou mais para confirmar o que já sabia.
- Não vou voltar nada! Não vou recuar um centímetro da minha decisão. Não depois de tudo que passei ao lado dele. Eu quero ele, eu preciso dele e vou lutar por isso também.
O sul coreano se levantou em um pulo, deu alguns passos e quando retornou para onde estava, parou. O dedo indicador da mão direita batendo nos lábios sem parar, estava pensando e procurando as palavras certas para se expressar.
- Viktor, como seu advogado, posso alegar que você agiu por forte influência do imprint e justificar todas as suas ações, compreende isso? - O russo confirmou com a cabeça e abriu a boca para falar algo, mas o moreno não permitiu. - Mas como seu amigo, posso dizer que fez uma grande besteira e que provavelmente perdeu todo o pouco juízo que tinha. - Parou mais uma vez ao perceber o russo se levantar do seu lugar. - Só que sei o que você está passando, o certo ou o errado neste caso é apenas um ponto de vista e vou ajudar você, seu ômega e essa criança a ficarem juntos.
Yurio, que estava quieto e calado havia um bom tempo, começou a gargalhar de forma irônica.
- Quer ajudar? Fique com a menina, pois eu não sou babá. - A cara de bravo do primo não fazia cócegas no loiro, que continuou. - Vocês alfas se protegem, as leis os beneficiam em qualquer lugar desse mundo, mas não se esqueçam do pai ômega e de mim, um reles mortal beta. - Bufou. - Vocês são três cabeçudos e é óbvio que essa criança não pode ficar aqui! Por favor, vamos pensar, sim?!
- É claro que a Akiko vai ficar aqui, sou o pai dela agora! - Viktor estava em pé na frente do primo e o fazia levantar a cabeça para olhá-lo nos olhos.
- Vik? Ele tem razão. Infelizmente, existe uma verdade implícita no que Yurio acabou de falar. Você não é o pai legal dessa criança e seria extremamente complicado explicar a origem da sua filha. - Chris permanecia calmo, mas mesmo assim se pôs entre os dois primos. - Yurio, vá tomar um banho porque esse cheiro de leite azedo está me deixando enjoado. – e para reforçar o que estava dizendo, franziu o nariz em desagrado.
O loiro ainda encarou o primo por vários segundos e depois mostrou a língua para o suíço, saiu reclamando alto o suficiente para que todos o escutassem e quando foi repreendido pelo mais velho, só mostrou o dedo médio com ambas as mãos e sumiu no andar de cima quando atingiu o topo da escada.
Viktor abaixou a cabeça e sorriu feito um idiota quando viu que Akiko dormia tranquilamente nos seus braços - nem com a conversa um pouco mais alterada a fizera soltar um piu.
- O que vocês podem fazer para resolver essa situação? Quero dizer, sei que o imprint anula qualquer tipo de situação, inclusive o matrimônio. – Nikiforov queria respostas.
- Não é tão fácil assim. - Lee começou.
- Vik, tem que se comprovar tal ligação. - Christophe emendou. - E isso pode ser prejudicial ainda mais que, no seu caso, envolveria um adultério por parte do ômega se houvesse um relacionamento entre vocês sem essa ligação comprovada.
O russo fez um bico enorme e seus olhos mostravam toda a revolta que o começava a dominar.
- Yuuri é meu e vai ser de qualquer modo. Achem um jeito dentro da lei para que isso ocorra, pago os dois para isso. Senão, acho eu uma forma de deixá-lo viúvo. – ameaçou sem pestanejar.
Respirações suspensas, os advogados sabiam que era o lúpus que falava e não o amigo platinado, mas não duvidavam que se o instinto de posse e proteção o dominasse era capaz dele cometer um ato hediondo e com as próprias mãos.
- Vou estudar as opções que temos. - Chris falou por fim. - Agora temos que pensar o que fazer com a Akiko, não vamos conseguir dar conta dela e de você surtando ao mesmo tempo.
- Fico com a criança. - O moreno pontuou. - Ninguém falaria nada, até porque Phic está grávido e afastado de sua função durante uns dias e posso inventar uma história para o surgimento dela na nossa casa. - As palavras foram proferidas de forma baixa, pois não queria despertar a fúria que existia dentro do russo. - Só preciso me organizar e...
- Ela é minha! - Viktor falava se esquivando do sul coreano.
- E sempre será, meu amigo, mas vai ser mais fácil resolver a questão do imprint sem pairar sobre você a suspeita de um crime. - Seung foi direto. - Viktor, eu sei que existe uma necessidade física e psicológica de estar perto do ômega e pai dessa criança, mas não é mantendo-a aqui que isso vai se resolver. Você tem uma empresa que precisa de comando e a criança precisa de uma estrutura que acredito que nenhum de nós tenha para dispor nesse momento. Pense!
O russo olhou o cômodo onde se encontravam, estava destruído, olhou para o amigo suíço e seus braços machucados, lembrou-se da cara de cansado do primo e no fim para a criança nos seus braços. Queria ficar com ela, mais que tudo no mundo queria ficar com ela pois era uma parte do seu ômega, mas que a verdade fosse dita: não tinha o que ela precisava. Não agora.
- Você tem razão, Lee. - Suspirou triste. - Chris chame a Minako de volta, preciso me arrumar e ela vai cuidar da bebê até o Seung arrumar tudo para receber a Akiko. - Virou-se para o sul coreano. - Me desculpe pelo que fiz com o seu companheiro, não foi por querer e traga-o aqui da próxima vez, quero me desculpar pessoalmente com ele e agradecer o que vocês vão fazer por mim e pelo Yuuri ao cuidar dela. - E sem esperar muito tempo, viu a governanta voltar, passou as ordens e seguiu sem nem se despedir dos dois advogados. Estava transtornado!
No banheiro da sua suíte, Viktor deu vazão para todas as lágrimas que segurou - não estava certo, não era justo e muito menos fazia sentido. Não queria que a criança fosse afastada de si, não queria ter que vê-la saindo pela porta da sua casa nos braços de outro ômega que não fosse o seu Yuuri.
Tentou sorrir para o espelho, mas não conseguiu e em um ataque de nervos, quebrou o objeto com um soco. Seus olhos vermelhos denunciavam que precisava urgentemente tomar mais uma dose de calmantes antes que fizesse uma burrada maior ainda. A dor que sentia em seu peito parecia o asfixiar e ele tinha plena consciência que com Yuuri aquela mesma dor poderia o enlouquecer! Preocupado como estava, Nikiforov deixou-se escorregar encostado na bancada da pia de mármore. Com as mãos trêmulas, buscou pela caixa de comprimidos. Sabia que apenas aquele subterfúgio, se ficasse descontrolado, de nada iria adiantar. Teria de mais uma vez se dopar e não era aquilo que ele queria. Ele queria estar com Yuuri, livrá-lo de todas as dores mas, no momento, sentia-se um inútil, um bobo. Desferindo novo soco, agora em direção a porta de madeira do armário, rosnou ensandecido. Começava a perder a razão e seu alfa lúpus iria cobrar por todas aquelas dores. Antes de perder a razão, ajoelhou e abrindo a gaveta, buscou por nova dose do calmante, se auto medicando.
O remédio em contato com sua corrente sanguínea começou a agir quase que imediatamente, o que fez o lúpus novamente escorregar para o chão e, muito lentamente, fechar os olhos e com um leve sorriso débil a lhe iluminar a face. Em sua mente enevoada pela dosagem de calmantes, Viktor parecia ter seu predestinado ali, estar com ele próximo ao toque. Aquelas brilhantes íris levemente avermelhadas, o sorriso que já havia visto antes quando este havia visto Akiko pela primeira vez. Sim, Katsuki lhe sorria ao deslizar a mão de dedos finos e pálidos sobre o ventre distendido, preenchido pelo filho que eles tanto esperavam.
Piscando os olhos com força, a imagem se desfez tão rápido como havia se formado, e novamente o russo estava sozinho. O chão frio tentando combater juntamente com o calmante a quentura de seu corpo. Estendendo a mão direita, tentou puxar o moreno - ou o que achou que este seria - para junto de si, mas não encontrando nada em que se agarrar, gemeu frustrado deixando o braço tocar novamente o mármore e com a mão machucada socar o chão, manchando a brancura impecável com seu sangue; a dor servindo para aplacar um pouco seus devaneios.
- Yuu-ri… - murmurou, antes de finalmente ceder a dosagem utilizada e apagar mais uma vez.
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Tudo parecia muito surreal! Era estranho, difícil de tentar e conseguir achar um porquê ou mesmo um porém. Os sentimentos estavam impactados, obscuros, era tão difícil dizer e até mesmo tentar colocar para fora a tristeza, angústia e a incerteza de como seria seu caminho dali para frente. Quantos dias já haviam passado? Quantas horas estava ali parado, olhando para a mesma paisagem fria e impessoal? Mesmo com sua alta e saída do hospital, Katsuki Yuuri, não queria sair de seu quarto. Os dias haviam passado como se por vezes estivessem se arrastando; outras tantas vezes parecia que ele mal havia fechado os olhos e conseguido dormir e um novo dia se anunciava no horizonte, e ele praticamente sempre estava ali, sentado naquela poltrona confortável, estrategicamente posta próxima à porta balcão.
Com um pouco de dificuldade e muito lentamente, Yuuri abriu a cortina – que até então havia ficado fechada – e olhou para o dia cinzento que parecia lembrar-lhe que muito em breve poderia chover. Ele se sentia assim daquele jeito, cinza, vazio em todos os sentidos e sem esperanças. Passou uma mão pelo ventre liso, não tinha mais uma bolota ali e também não tinha mais um bebê, nem na barriga e nem nos seus braços. Se abraçou para diminuir a sensação ruim que se apossava do seu corpo. Não tinha mais lágrimas para chorar e nem forças para correr atrás de um sonho.
Quando ele já havia imaginado que não teria mais lágrimas para derramar, lá estavam elas, teimosas a lhe banhar o rosto; as mãos trêmulas sobre o colo murcho. A falta que sentia da pequena que carregara no ventre por nove meses, não poderia ser descrita. Alguém definitivamente no cosmo, no céu, ou mesmo no inferno deveria não gostar de sua pessoa. Sua única alegria, seu motivo para continuar lutando e tentar ver-se livre de seu cárcere - sim, poderia dizer que seu casamento nada mais era do que um cárcere privado, onde o egoísmo e a soberba do marido imperavam -, não mais se encontrava consigo. Queria gritar, esbravejar como já havia feito no hospital, dizer que ele sentia que Akiko não havia partido, tentar ir até o cemitério e a arrancar da sepultura e ouvir seu chorinho forte, seus olhos pequeninos brilhando para si… mas não tinha forças e não gostaria de ser taxado de louco e preso novamente em uma cama hospitalar, sendo dopado mais uma vez. Bem, de certa forma não havia necessidade para tanto, Yuuri mesmo estava se sabotando e sabia que a realidade era aquela, não a que seus pensamentos e o seu querer pareciam lhe ditar. Um suspiro baixo, a cabeça sendo tombada para trás, os olhos fechados, desejando, almejando deixar tudo para trás. E se não bastasse tudo isso, ainda sentia a quentura da pele, a vontade de ter por perto e poder anestesiar-se com o olor de pinheiros, o frescor que tinha o poder de o acalmar. Com um suspiro sentido, baixou os olhos para as mãos focando a aliança dourada em seu dedo anelar. Se ele pudesse saber como tudo iria terminar… Talvez sua vida tivesse tido um outro rumo... Talvez...
Bem, ele sabia que não poderia ficar vivendo em um perfeito looping, lembrando o que passou e o que deixou de passar, pois em seu ser sabia que os dias haviam voado – bastava forçar um pouco os sentidos para deduzir isso -, e que de fato se passara um mês desde o parto e do imprint que teve pelo estrangeiro, Viktor Nikiforov. Além dessa informação, o que mais sabia do homem que era seu destino? Nada ou quase nada, pois a verdade era: tinha encravado em sua memória, algo como um registro dentro de si, do cheiro de seu alfa. Poderia reconhecê-lo mesmo de longe e em um lugar apinhado de pessoas, o olor de pinheiros sempre iria se ressaltar e fazê-lo olhar na direção certa. Por que então sentia tanto medo em pensar nele? Não saberia dizer, ou até mesmo soubesse e não quisesse colocar para fora, para si mesmo.
Volvendo os olhos, que até então focavam apenas suas mãos, para a porta balcão, reparou no céu. Este havia ficado mais escuro e fez o moreno lembrar-se, mais uma vez, de sua pequena Akiko com seus fartos cabelos negros. A dor ainda era latente demais e sabia que nunca mais passaria um dia sequer sem pensar na filha e no tempo que não tiveram juntos, nos detalhes que nunca veria na criança, nem conheceria o som de sua risada ou a veria desabrochar... Era difícil concentrar-se em outra coisa, não queria ser repetitivo mas era impossível, como se para ele fosse vital pensar na pequena e fantasiar em seu íntimo que a menina estaria bem e feliz mesmo crescendo longe de seus olhos. Pensar ou imaginar esses pequenos detalhes era sua forma de encarar o que havia acontecido, acalentava seu coração e esquentava seu peito. Sua pequena estava bem e a salvo de Akira!
Balançando a cabeça, o japonês tentou não pensar nas atitudes do passado. E Yuuri tinha apenas a certeza de uma coisa: os dias que para ele pareciam frios e sem graça, poderiam sim piorar, ficando mais cruéis e obscuros pois algum tempo após chegar à sua casa, o alfa que bradava pelos quatro cantos ser seu dono e senhor, dera o ar de sua graça. E se o ômega almejava encontrar sua paz nesse mundo cruel e ingrato, estava sem sombra de dúvida enganado. Talvez ele nunca mais fosse conseguir voltar a sentir a felicidade junto a si.
Também tinha o fato de que dizer que Akira sentira a perda do bebê seria uma mentira deslavada e lá estava ele, dando graças aos céus por ter se visto livre da obrigação de cuidar e de criar uma menininha que poderia muito bem puxar seu pai ômega! Torceu a boca com desgosto ao recordar-se do marido.
Quem poderia esquecer a fatídica ida até o hospital para uma consulta de rotina em que o japonês mais velho acompanhou sua propriedade? Ninguém, nem mesmo o pobre ômega. Não era novidade que este desejava um filho homem, macho e alfa; ele sempre deixou claro sua ideia sobre a paternidade e sua inconformidade só apareceu quando foi informado que o ômega deveria passar todo o resguardado que envolvia um pós parto para poder pensar em uma nova gestação ou tentativa. Nesse momento, Yuuri achou que fosse apanhar, de novo, dentro do consultório do doutor Altin, tamanho o impacto da notícia que o ômega não era um simples reprodutor e sim um ser humano que merecia atenção. O japonês fechou os olhos com força, revivendo as palavras duras trocadas entre o médico e o alfa que se entendia prejudicado pelo ocorrido na gravidez, não pela morte da criança, mas pelo infortúnio de ter gerado uma menina.
"Foi melhor assim, Akiko!" – pensou Katsuki ao limpar as lágrimas que lhe desciam copiosamente pela face marcada pela tristeza. Deixou os braços caírem ao longo do corpo; não entendia porque o marido simplesmente não o deixava em paz, por quê não corria de uma vez por todas para a casa e cama da amante e realizava o sonho de ser pai de um menino alfa por lá? Akira nunca o amou e nunca o amaria e em alguns momentos chegava a pensar que na verdade o alfa o odiava com toda a força do seu ser. Sorriu com amargura, se o odiava, por que não o largava? Por que precisava manter um relacionamento com quem não queria?
Apertando os punhos com força, sentiu uma vontade enorme de gritar, gritar ao mundo suas desventuras, suas mágoas e tristezas. Mas ao mesmo tempo que sentia vontade de fazer tudo isso, sua mente o traía mais uma vez e os fatos voltavam como fantasmas para lhe assolar, para que não conseguisse se manter no presente.
Ainda estava em Tóquio, o vazio era seu único companheiro e Katsuki preferia isso a ter de aguentar a conversa mole e os protestos do marido. Quando este enfezava, o que era uma constante, seus gritos poderiam ser ouvidos ao longe na grande construção intitulada de lar. E para o senhor macho alfa tudo posso, o pequeno japonês nunca mais iria esquecer – pois ele não deixaria essa fato acontecer – que ele havia estragado tudo e como um leão revoltado, bradara que no próximo heat que sua posse tivesse, tudo seria resolvido e Yuuri teria de parir o macho alfa para continuar a linhagem da família.
De nada adiantara Katsuki se encher de coragem e protestar, dizer que não poderia, lembrá-lo do dia no consultório e que teria de esperar pelo resguardo, pois Akira não queria ouvir. Não concordava com o que o médicozinho de quinta categoria havia dito, pois quem sabia dos seus era ele e se ele estava dizendo que Yuuri iria engravidar dali três ou quatro meses, ah! Ele iria!
Apenas a lembrança de tudo o que havia passado fazia com que o estômago do ômega se revirasse - mas era difícil esquecer, não era como se pudesse apagar de sua mente tudo o que fora obrigado a ouvir semanas atrás - mas ele estava tentando, porém naquele dia em questão, todas as emoções contidas, a falta sentida, pareciam o jogar nos braços das lembranças daqueles dias infernais em que fora obrigado a aturar a presença do marido e seu fétido cheiro provindo de seus feromônios.
Baixando um pouco a cabeça, tentou conter a vontade que lhe subia pela garganta, uma vontade absurda de colocar o pouco que conseguira comer para fora. Era igual quando ainda estava na presença do marido e, em seu último dia próximo dele, novamente Yuuri se vira mais uma vez no meio de uma grande confusão.
Minami, aquele projeto mal acabado de alfa, havia ido visitar os parentes e insinuara ao primo que se este não quisesse mais seu precioso ômega, que ele não ficaria chateado de o tomar, mesmo este já sendo usado e rodado. Uma grande confusão havia se instaurado. Akira se irritara tanto com o que havia acabado de ouvir que não pensara duas vezes em usar sua extrema delicadeza, e colocar o primo para correr, o convidando tão sutilmente para que ficasse por uns bons seis meses longe de suas vistas e o principal: longe do que era dele por direito!
Mari, que fora visitar o irmão, acabara por chegar naquela mesma hora. Sem compreender o que estava acontecendo, tentou fazer com que o Katsuki mais novo lhe contasse o que se passava antes que Akira voltasse, mas não foi possível pois o alfa não só entrara rapidamente, como já se achava quase acima dos dois irmãos, os acuando contra o sofá. Aterrorizada, devido ao clima e como o alfa parecia encolerizado e ainda bradando altas ordens de que Minami fosse impedido de adentrar na casa, esta acabou por abraçar Yuuri e tentar protegê-lo com seu próprio corpo se necessário fosse.
A irmã mais velha dos Katsuki já havia presenciado os rompantes de cólera do cunhado, mas nunca este havia expulsado Minami para fora de sua casa sob uma chuva de ameaças. E ao ver o brilho decidido nos olhos do alfa, segurou o irmão atrás de si, ouvindo os disparates vindos do homem descontrolado.
Mari realmente não medira esforços para conter a fúria de Akira e tão logo entendera que Yuuri estava sendo acusado de dar atenção para Minami, acabou por interferir.
Realmente, o Katsuki mais jovem tinha muito a agradecer a irmã. Valente como nunca a tinha visto, a japonesa se pôs mais entre eles, ordenando para que batesse nela se este tivesse coragem. Akira parara o movimento de ir para cima do ômega, a mão espalmada pronta para ser desferida - havia sido pego de surpresa! Nunca em toda sua vida alguém o desafiara tanto. Aquilo deveria ser mal de família, algo no sangue. Yuuri também era daquele jeito antes dele ter conseguido quebrar-lhe a crista.
Bufando exasperado e fechando os olhos, Yuuri parecia reviver cada momento passado e ter as vozes de ambos reverberando em seus ouvidos como se ainda fosse aquele dia.
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- Está aqui, preto no branco, Akira! - Mari gesticulava ao quase esfregar o receituário do ômega na cara daquele ser prepotente.
- Não é um pedaço de papel que irá me proibir de fazer o que eu quiser com o que me pertence! - rosnou o alfa tentando se impor a cunhada.
- Entenda de uma vez, seu chovinista! Se tentar algo com Yuuri antes dele ser liberado, poderá não só ter de sepultar um filho, como também seu estimado - vomitou as palavras com certa acidez - ômega! - ao terminar de falar, a beta se preparou para o pior mas algo pareceu mudar dentro do alfa taciturno. Aproveitando-se disso e usando de sutileza, Mari prosseguiu. - Yuuri está muito debilitado e como você vai tornar a viajar, gostaria de o levar para as termas junto comigo, onde ele poderá se restabelecer longe de pessoas como Minami. - ao perceber o alfa pensativo, deu-lhe o tiro de misericórdia, usando o ciúme que havia presenciado a seu favor. - Com Yuuri nas termas, longe de pessoas indesejáveis, tenho certeza que logo ele estará bem e evitaremos que seu primo fique assediando meu irmão debaixo de seu nariz como ele vem fazendo há anos!
Arqueando as sobrancelhas, Akira estreitou os olhos ao mirar os dois irmãos.
Mari havia conseguido o que queria e dois dias após todo o ocorrido, eles haviam embarcado para as termas sem uma data certa para retorno. Talvez apenas em dias que Yuuri precisasse passar pelos consultas e acompanhamentos. Mas ali estava ele, longe daquele prisão, longe do marido…
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Remexendo-se na poltrona, volveu os olhos para a paisagem lá fora. Estava em um dos quartos maiores e a porta balcão se encontrava aberta. O vento do outono acariciando sua face, o cheiro de chuva servindo como um leve calmante. Mas nada ali parecia o animar. Era difícil entender o sentimento de perda e aquele vazio, quentura e a falta de alguém que havia visto apenas por algumas horas, mas que ele queria ali ao seu lado, para poder agradar… sentir-se querido. Como daria tudo para poder encontrar-se com o dono daqueles olhos lindos e poder ouvir sua voz levemente rouca, sentir que era almejado de verdade, ser protegido como naquele fatídico dia. Mas ao mesmo tempo que sentia toda essa gama de sentimentos e emoções, Yuuri também sentia-se inseguro e talvez nunca mais acreditasse em um alfa ou em como um alfa deveria ser e agir. Sentimentos confusos e conflitantes!
Sua amada mãe dizia que um alfa quando enamorado do ômega se completavam e o mais forte fazia de tudo para proteger e mimar seu par ômega; qualquer desejo era apenas mais um agrado e não havia nada que fosse negado, o alfa faria o possível e impossível para ver o ômega feliz e assim seria compensado também. Só que entre Akira e Yuuri nunca houve nada semelhante e essa má experiência o fazia desconfiar e temer por seu predestinado. Seria o seu alfa estrangeiro diferente? Ou seria apenas mais um parceiro odioso como seu atual?
Uma batida suave e o barulho da porta se abrindo o trouxeram novamente para a realidade, fazendo o moreno virar a cabeça e ver a irmã encostada no batente. Limpando o rosto com a manga de seu pijama, tentou ficar mais apresentável para a morena, mas não conseguiu o seu intento. Mari não era boba e tinha dias que percebia a olhos vistos que Yuuri não estava se alimentando como deveria, estava se deixando abater bem mais do que quando estivera hospitalizado. Os irmãos se olharam calados. Ambos sabiam que aquela calmaria não significava muito, mas era bom não ter o marido alfa que pareceu não se importar muito pelo ômega ir passar um tempo em sua antiga moradia. Bem, Yuuri tinha em seu ser que para ele fora um alívio pois não teria de lidar com os olhares de pesar quando os dois passavam juntos andando entre pessoas mais próximas.
- Um passo sempre atrás. Um passo, não mais que isso e nem menos. – Yuuri deixou escapar pelos lábios levemente secos. A confusão no rosto da mais velha se fez presente e não se importando muito o mais novo prosseguiu. - Akira nunca permitiu que eu andasse ao seu lado, era sempre atrás, lugar de todo e qualquer ômega. Um passo atrás...
Mari condoeu-se por ouvir a frágil mas sentida revelação do irmão. Ela sabia que Akira sempre fora muito rígido - e ainda o era - mas ele não tinha o direito de fazer e exigir certas coisas, mesmo que se achasse no direito. Mas ela sabia que não poderia fazer muita coisa, visto que as leis para betas e ômegas ainda eram muito cruéis e inflexíveis. Balançando a cabeça, aproximou-se do irmão.
- Né Yuu-chan, que tal se fossemos andar um pouco? – convidou ao gentilmente lhe tocar o ombro. – Você não pode ficar pensando e lembrando de coisas que te fazem muito mal. – mirou-o, sustentando-lhe os olhos. – Akira não está aqui e a sua vontade imperiosa não se faz presente!
Olhos tristes e com as pupilas levemente dilatadas sustentaram os dela. Se até aquele momento a japonesa estava a fazer vistas grossas para não invadir a privacidade do irmão, ela sentia em seu ser que estava na hora de tentar entender, ou melhor, apenas confirmar o que já sabia.
Mari esperou pacientemente até que Yuuri lhe desse uma resposta, mas parecia que o ômega se fechava ainda mais! Tocando gentilmente a face bonita, que se encontrava um tanto mais magra, alarmou-se em sentir a quentura. Realmente, era como o Dr. Altin havia a alertado quando ficaram por um tempo sozinhos enquanto o ômega fora fazer alguns exames.
- Nee-san… - murmurou tentando que ele não desviasse o olhar. - Há quanto tempo está se sentindo febril? - perguntou ao ajoelhar-se entre as pernas dele. As mãos calejadas tocaram as dele, buscando confortá-lo.
- É só uma febre passageira. - Yuuri murmurou em resposta, sem vontade alguma de lhe contar o que realmente estava lhe acontecendo.
Respirando pesadamente, Mari mirou o irmão com grande interesse. Ela realmente não entendia por que ele não se abria com ela como antigamente. Mari compreendia que Yuuri havia passado por um trauma muito grande e sem contar também o que os sintomas do imprint poderiam causar com a abstinência do alfa o qual é seu destinado. O doutor Altin a alertara e até mesmo dera um encaminhamento para que o ômega passasse por um especialista conhecido dele, que atendia na pequena Hasetsu - já que seria incômodo toda semana voltar para Tóquio -, mas o irmão não queria nem ouvir falar de marcar uma consulta. Tomando uma decisão drástica, a beta endureceu um tanto o maxilar e com um bufar exasperado, balançou a cabeça negativamente.
- Yuuri, eu não tenho como me colocar no seu lugar e até mesmo por isso, não posso dizer que sei como está se sentindo e muito menos dizer que eu o entendo, pois eu não consigo! - começou Mari, a voz baixa e cortante. Ela havia usado todas as táticas possíveis e imagináveis com o irmão, mas agora chegara a hora de agir como quando ele ainda era apenas um adolescente e ela tinha de ser mais enérgica. - Eu também sinto muito pelo que aconteceu, mas você tem de prosseguir, Yuuri! Você está se deixando abater pela depressão que só vem se agravando por que você não está próximo de seu alfa.
- Eu não quero ficar perto de Akira! - resmungou o japonês rapidamente, ao se encolher um tanto pelo simples fato de proferir o nome de seu marido.
Arregalando os olhos, Mari não pode deixar passar aquele gesto mesmo que involuntário do irmão.
- Eu não disse que era ele, disse? - a beta mirou o irmão seriamente sustentando-lhe o olhar. - Yuu-chan, não me tome como boba ou uma pessoa desligada. Posso ser tudo nessa vida, posso também não saber de tudo, mas pelo menos posso dizer que conheço você muito bem! - bufou ao vê-lo arregalar os olhos e inflar levemente as bochechas avermelhadas. - Você sabe de quem estou falando… - e o viu desviar o olhar, fixando-o em outro canto do quarto. - Yuuri… o que dirá Nikiforov quando ele o ver assim, sem se alimentar direito? Se entregando a depressão e não querendo ouvir seu obstetra, o doutor Altin, e se afundando mais e mais? - Mari estava perdendo a paciência. Sabia que deveria ter calma, mas havia horas em que seu irmão a colocava a prova.
- Viktor não é… - começou o ômega, mas parou no exato momento que sentiu mais a necessidade de bem estar e isso só aconteceria, ele sabia, ao lado do outro. A falta que sentia de poder inalar aquele frescor no cheiro de pinheiros quase o enlouquecia e se isso não havia ainda acontecido, talvez fosse por conta de sua própria sensatez e medos.
- Ele é sim seu destinado! - bradou a morena com convicção antes que o ômega terminasse de falar. - Você sempre ouviu a mamãe dizer que almas destinadas são raras e quando a ligação acontece, há várias maneiras de afetar ao casal até que finalmente eles estejam unidos; ninguém é igual, cada qual sente e é influenciado de um jeito peculiar.
Yuuri baixou um tanto a cabeça, havia acreditado que Mari nunca se importaria tanto pelos relatos da mãe por ser uma beta, mas estava muito enganado - ela não só prestava atenção a tudo, como havia assimilado e estava ali à sua frente o lembrando de tudo. Volveu os olhos na direção da irmã quando sentiu esta apertar suas mãos, chamando-lhe a atenção.
- Você está febril, suas pupilas estão dilatadas, seus feromônios estão um tanto mais doce e fortes, como de quando estava grávido, ou até mais... - assim que Mari deu-se conta do que havia falado e o que poderia aquela simples constatação causar, se apressou em dizer. - Yuuri, sei que você ainda sofre por Akiko, eu também sinto e sofro, mas se você não a deixar descansar e seguir sua vida, não consigo enxergar um futuro entre seu soulmate e você!
- Akira nunca deixará que o abandone! - murmurou o moreno não controlando mais suas emoções. De nada adiantaria tentar agir como estava fazendo. Ele não estava machucando apenas a si mesmo e tinha consciência disso agora. Podia ver a angústia e a dor nas íris escuras à sua frente.
- Yuu, vamos deixar ele para lá! - pediu ao massagear lentamente desde os dedos finos até os pulsos dele. - Escuta, vamos cuidar de você! De nada adianta você viver assim e sempre a sombra daquele monstro! Akira não está aqui e eu estou lhe pedindo pela última vez - fez uma pausa e sustentou as íris chocolates -, me deixa marcar uma hora com o psicólogo. Vamos viver meu irmão e eu tenho certeza que assim como o destino lhe sorriu de uma forma desastrosa para proporcionar o encontro com seu alfa, ele o trará de novo até você. Vocês irão se encontrar e nada de pessimismo! - exigiu, ao ver o outro ficar amuado. - Yuu-chan, o que foi? Você tem de acreditar, ter fé nas pessoas. - falou ao vê-lo balançar a cabeça negativamente várias vezes.
- Mari-nee… eu não conheço o Viktor, quem pode garantir que ele não será igual ao Akira? - perguntou com a voz embargada pelas lágrimas que teimavam em rolar por seu rosto. - E se ele for outro que acha que ômegas só servem para parir e… eu tenho medo do que virá! - por fim colocou para fora o que lhe estava corroendo a alma e o atormentando. - E se ele sentir nojo de mim por já não ser mais um ômega puro? Por saber por tudo o que passei com o Akira… e se… - parou ao sentir a irmã o puxar fazendo com que ficasse em pé bem à frente do espelho de corpo inteiro.
- Me diga o que você vê! - pediu, ao ficar atrás dele o segurando pela cintura em um abraço carinhoso e aconchegante.
- Eu vejo um homem sem esperança alguma… um ômega que teve sua felicidade e vida roubados… - murmurou ao baixar os olhos querendo evitar com isso ver seu próprio reflexo refletido no espelho. O espelho que não o deixava que ele se enganasse. Sua aparência estava horrível: olheiras, o maxilar mais em evidência, o pequeno volume ainda no baixo ventre, os cabelos sem o brilho esfuziante. - "O que Akira conseguiu fazer comigo em tão pouco tempo?" - pensou horrorizado, o corpo todo tremendo.
- Hei, Yuuri Katsuki! - chamou-o Mari, ao lhe dar um leve apertão. - Não, não diga isso… - cortou enraivecida. Se ela pudesse, mataria o cunhado com requintes de crueldade. Akira havia estilhaçado a auto estima do irmão, bagunçado com seu emocional, mas se dependesse dela, ah! Tudo iria mudar, nem que para isso ela trouxesse o lúpus para junto deles, afinal, ele havia feito uma promessa! - Yuuri, sabe o que eu vejo no espelho? - perguntou apenas para chamar-lhe a atenção. Quando seus olhos se cruzaram no espelho, ela prosseguiu. - Eu vejo um ômega lindo! Um homem perfeito, com seus medos, suas incertezas, mas que sempre foi alguém vivaz, que sabia sorrir, que apesar da insegurança adorava conhecer o novo. Inteligente e se nossa sociedade não fosse tão tacanha, talvez fosse um ótimo pesquisador, ou mesmo um arqueólogo ou até mesmo um ótimo cientista! - sorriu ao ver ele ficar um tanto encabulado e balbuciar palavras sem sentido. - Sim, meu bem, eu vejo todas essas possibilidades que podem ser alcançadas! Basta apenas você lutar para ver-se livre da opressão e alçar um lindo voo! E eu tenho certeza que seu soulmate vai querer ver você bem! Vai querer que você conquiste tudo o que sempre quis!
- Como pode ter tanta certeza e depositar tanto assim nas costas de um gaijin o qual nunca vimos antes? - Yuuri perguntou ao começar a conter as lágrimas quase sem perceber.
Com um sorriso vitorioso nos lábios, a mais velha dos Katsuki apenas afundou o rosto no ombro do irmão. A pontinha de esperança, o cisquinho necessário para o início de tudo fora plantado com êxito. E ela tinha certeza que muito em breve, a fagulha da esperança iria brilhar ardente nos olhos e coração de Yuuri com mais força que nem mesmo Akira iria conseguir fazê-lo regredir ao que hoje era.
- Eu faço isso porque eu vi a preocupação dele para contigo. Quando vocês estavam ali juntos, mesmo em meio ao desespero, parecia ser o certo. - mirou-o pelo espelho os olhos brilhantes. - Era como se não existisse mais nada e que uma luz própria os envolvesse. E ele prometeu coisas não da boca para fora, mas prometeu nos ajudar sem pedir nada em troca. Ninguém é igual, Yuu, cada pessoa é única! Se dê a chance de encontrar a felicidade; o caminho não irá ser fácil, sabemos que a vida de um casal é construída com muito respeito, amor, compreensão e a união nos piores momentos. Não posso garantir que tudo será um mar de rosas, você se lembra de papai e mamãe - sorriu ao lembrar dos pais quando estes discutiam por alguma coisinha corriqueira -, então… os tenha como seu modelo e dê a chance que aquele alfa platinado merece. - pediu ao deslizar uma das mãos para a altura do coração do ômega e o sentir descompassado no peito. Ao voltar os olhos para o espelho, quase caiu sentada. O mais belo sorriso, o mais doce dos sorrisos que poderia imaginar querer ver novamente nos lábios do irmão, voltara a iluminar a face marcada pela adversidade.
- Né, Mari-nee - fez uma pausa ao acariciar a mão sobre seu coração -, pode marcar a consulta com o psicólogo, por favor! - pediu ao perder-se no sorriso da irmã e suspirar aliviado. Não poderia deixar sua vida daquele jeito e ignorar quem realmente lhe queria bem.
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Cantinho Rosa e Azul:
Theka: Bem, cá estamos nós! Primeiro de tudo gostaria de pedir desculpas em nome da dupla, pois o mês que passou, não foi fácil, e atrasamos a postagem dos capítulos.
Almaro: Sim, mas cá estamos, e esperamos que gostem do que vão ler!
Viktor: Como não vão gostar?
Yuuri: *revirando os olhos * Vitya, por favor...
Theka: *arqueando as sobrancelhas * Ah! Mas que mocinho audacioso!
Almaro: Melhor nem dar muita trela, ou não vamos sair daqui!
Theka: Sim! E eu não estou nada bem... humph *ignorando os dois* Parabéns se chegou até aqui, obrigado por seu apoio, e nos aguardem até o próximo capítulo!
Almaro: Isso, vocês não vão se arrepender!
Até mais no próximo capítulo
Beijos da Almaro e Theka
