Explicações e avisos no final do capítulo
Beta: LadyCygnus, nosso carinho, amizade ever and ever! Dear, obrigado por mais uma vez nos ajudar!
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Akira olhava o sol se pôr pela pequena janela do avião sem muito interesse, do mesmo jeito que ignorava completamente o falatório da mulher ao seu lado enquanto a mesma devaneava a respeito de confecções de grifes famosas que via em um site de roupas falsificadas.
O céu escurecia e o fazia lembrar dos cabelos negros do seu ômega; não o via há um tempo, tempo este em que fora privado a força do convívio com o mesmo. Bem, era aquilo ou poderia, como a cunhada o havia ameaçado, mais uma vez perder seu objeto de prazer pelo simples fato de se impor ao mesmo. Bufando exasperado, fechou os olhos ao massagear as têmporas ao mesmo tempo. Ao reabrir os olhos, desejou ardentemente poder livrar-se daquele falatório e novamente foi inevitável não pensar no moreno, nos cabelos sedosos e mesmo assim, poderia afirmar que em nada se pareciam com as madeixas coloridas da amante que se sentava ao seu lado e cismava em se enroscar no seu braço a todo instante.
Kimiko era uma ômega fútil, possuidora de uma beleza vulgar e de gostos duvidosos, mas era na cama que se revelava a vadia que homens como Akira gostavam de ter. Tudo era permitido, tudo era válido e tudo ficava melhor com um pouco de sacanagem. Ela fazia jus ao dinheiro que investira e em hipótese alguma, poderia querer - ou mesmo sonhar - em fazer qualquer tipo de comparação com o que tinha em sua casa. Um leve apertão no seu antebraço o fez volver a cabeça a tempo de avistar a tela voltada para si e o silêncio ser quebrado mais uma vez pela voz fina e irritante.
- Posso comprar, benzinho? – o pedido, os olhos brilhantes em expectativa. - Vou comprar – por fim decidiu-se não aguentando esperar -, você disse que me daria um mimo, lembra? Sabe que não resisto quando vejo uma pechincha dessas! – insistiu, não dando tempo para o homem ao seu lado lhe dirigir a palavra. Ansiosa, gananciosa poderiam ser muito bem o prenome e sobrenome daquela ômega e não o que ganhara assim que viera ao mundo.
Akira só sacudiu a cabeça confirmando que a ômega poderia adquirir mais um casaco de animal print – seria melhor assim, talvez ela parasse de matraquear -, mais um de tantos que tinha no enorme closet que o alfa mantinha no imóvel que cedeu para ela. Ponderou que daria para montar uma verdadeira manada de zebras, girafas, onças e alguns outros bichos com todos aqueles panos estampados em exagero. Não gostava de nenhum, mas para não ficar escutando a mesma lhe aporrinhar a paciência, era mais fácil dizer que poderia comprar tudo.
Kimiko e Yuuri eram como a água e o vinho: um era requintado e fino enquanto o outro era achado em qualquer esquina. E se ele pensava que a ômega iria se calar, estava redondamente enganado. Com um novo bufar enraivecido – se a mulher fosse mais precavida, se atentaria mais aos sinais do homem que lhe custeava – Akira voltou a olhar pela janelinha e na sua cabeça uma frase se repetia: "uma vez prostituta, sempre prostituta!". Nada tiraria isso dela, ou mesmo ninguém a faria mudar; sua vida era única e perdida, talvez já a fosse, onde tudo começou, onde se conheceram…
Fechou os olhos uma outra vez e deixou se levar pelas lembranças de um passado que ainda vivia nele. Akira frequentava "os leilões" realizados pelo submundo da máfia japonesa, gostava de frequentar as melhores casas de banhos e, por onde passava, sempre encontrava o que procurava, mas quando a oportunidade, apareceu agarrou-a com as duas mãos e nunca mais a soltou. Pagou a "joia" que se pedia e teve acesso ao mundo que não conhecia, porém almejava com força ver com os próprios olhos e não somente ficar sabendo por declarações veladas e por meias verdades. Eram pouquíssimos que tinham acesso às salas escuras onde pessoas possuíam sim um preço e o dinheiro comprava mais que corpos, sexo e diversão.
A rotina sempre era a mesma: primeiro, as fotos em álbuns de couro preto passavam de mãos em mãos e os associados alfas eram informados dos lances mínimos de cada peça ali presente. As peças, no caso, eram ômegas femininos ou masculinos que muitas vezes tinham seus cios induzidos para que quando o leilão realmente começasse e eles fossem colocados nús em cima do palco central, dessem um show. Apetrechos sexuais eram abandonados em locais estratégicos e em várias ocasiões, Akira se masturbara ou acabara fazendo sexo ali mesmo no meio e junto dos outros alfas enquanto o leilão rendia um lucro inestimável para a casa. Nunca sentiu pena de nenhum dos ômegas que passou por essa experiência e Kimiko não foi a exceção.
Mas existia, também, o álbum de capa vermelha: neste, as peças tinham os lances mínimos na casa do milhão e todos eram virgens. Exames médicos comprovavam a autenticidade do artigo e garantiam a qualidade, mas Akira era macaco velho e nunca deu muitos créditos a esses laudos - sem contar que teve a chance de desvirginar um ômega macho e ainda o mantinha sobre seu cárcere, afinal, gostava de se vangloriar e satisfazer o seu ego, pois até o momento Yuuri era considerado um artigo de luxo por muitos associados do seu clubinho secreto, recebendo inclusive boas e indecentes propostas partindo de outros alfas interessados em seu pertence por apenas uma noite ou por um cio completo. Aquilo era como uma massagem em seu ego e os pobres não tinham noção de que nunca, nunca mesmo um deles sequer conseguiria ter o que era dele por direito. Akira nunca o venderia!
Por muito pouco, escorraçara o primo Minami do seio de sua casa e de perto de seu ômega. Não, ele não era um ignorante; sabia muito bem que tinha um brinquedo raro em mãos e este não era para qualquer um, que não ele. Balançando a cabeça, volveu os olhos para os lados mas preferiu novamente afundar em suas memórias. Não estava com vontade de trocar palavras com Kimiko. E pensar que ela era a escolhida de um dos homens mais importantes abaixo do chefe do clã líder. E, somente ao ter essa lembrança reavivada, lembrou-se de que, não raramente, os associados partilhavam suas peças entre si e algumas depois de um tempo se tornavam prostitutas de alguma casa qualquer. Eram tão usadas e usufruídas que seus compradores não queriam mais e assim para não ficarem passando fome, se tornavam aquilo que já eram: putas sem valor nenhum – assim mesmo que a pobre ômega fora designada por seu antigo senhor, um triste fim de certa forma -, mas não Yuuri, ele era seu e somente seu. Nunca em sã consciência Akira, o impetuoso e impiedoso empresário deixaria, ou chegaria ao ponto de fazer isso com seu mais valioso tesouro.
Ganancioso, sem escrúpulos - um déspota como muitos o taxavam -, mas houve uma época de sua vida em que ele nem imaginava que se tornaria e se transformaria em seu pior tormento: alguém como seu pai!
Akira foi um alfa que passou por sua juventude acreditando que um dia teria o seu par como muitos dos seus amigos. Se tornou um adulto completo e ainda aguardava a sonhada sensação de não conseguir viver sem uma determinada pessoa, mas o tempo passou e o imprint não veio, nunca aconteceu! E pior era ver e escutar os companheiros falando, enaltecendo e se entregando a vida a dois e o abandonando a uma vida reclusa e sem ninguém. Nada acontecia, nada mudava. Então, Akira acabou se amargurando e passou a olhar e acreditar que predestinados não existiam; na verdade, existia uma paixão real e avassaladora que justificaria toda a insanidade que muitos chamavam de amor.
O alfa olhou para as estrelas e lembrou-se como desejou que Yuuri tivesse se apaixonado por si, como quis ver o ômega lambendo o chão ao seu redor só para agradá-lo! Como pediu para ser o mundo dele, receber um mísero sorriso, mas ao invés disso, o jovem filho do seu amigo se mostrou muito difícil, se revelou um menino ômega que não aceitava ser rebaixado e muito menos dominado, sabendo do seu valor e da sua criação.
Até hoje, Akira ainda via o fogo nos olhos castanhos avermelhados flamejar quando lhe dava uma ordem. Sorriu pequeno, gostava de domá-lo, de subjugá-lo pela força e impor suas vontades, mesmo sabendo que o machucava, mas era mais forte e precisava disso. Gostava de quando o ômega lutava e se debatia em seus braços, abaixo do seu corpo, tornava o prazer de tomar o que queria maior e melhor, igual da primeira vez. Por tudo isso e mais um pouco, Yuuri era seu.
Outro puxão no seu braço. Rosnando baixinho tentou acalmar-se. Aquele não era um local para perder a pouca paciência que tinha, mas Kimiko parecia decidida a lhe pôr a prova.
- Benzinho... benzinho... olha esse... – insistiu a mulher ao bater os cílios de um modo coquete. Os lábios finos, pintados com o batom vermelho sangue, levemente abertos.
Como um raio, mãos fortes tomaram conta do maxilar da amante. Travando-lhe a boca com a palma da mão, quase a sufocou e a encarando com o rosto escarlate de raiva, continuou trancando-lhe os lábios de forma rude. Por vezes, Kimiko esquecia como o alfa podia ser implacável e impiedoso. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas com uma força fora do comum, conteve as mesmas.
- Cala essa boca, vadia! Não vou mais gastar meu dinheiro com essa merda, entendeu? - O alfa rosnava baixo de jeito que só o ouvido dela escutasse suas palavras. - Fique quieta se sabe o que é melhor para você! Me escutou, entendeu? Acho bom ter captado o que estou ordenando ou senão desço a mão em você! – ameaçou. A voz mais alta apenas que um sussurro, um lufar gélido como o vento vindo das encostas praianas no inverno.
Kimiko arregalou os olhos, mas quando a mão a soltou, destilou todo o seu veneno.
- Você me deve isso! – começou sem imaginar o que poderia vir. - Você me deu sua palavra que não faria um filho naquele bastardo do seu marido, e o que você fez? - A voz dela se elevava perigosamente e Akira tentou tampar sua boca com uma mão mais uma vez. – Claro, você não irá me responder, pois não admite seus erros, não é? Mas eu posso responder... Você foi lá e meteu nele até fecundar... – fez uma pausa dramática e continuou a seguir, pois ainda não queria dar-lhe tempo para revide - então, benzinho, você me deve isso sim! – cuspiu as palavras esquecendo que estava brincando com fogo.
A mão pesada finalmente lhe cobriu os lábios e uma parte de suas narinas.
- Ele é meu, e muito melhor do que você! E é óbvio que eu faria um filho nele e não em você! – sibilou, destilando veneno em cada palavra dita. Se Kimiko fosse esperta, ficaria calada. – Consegue entender a sutil diferença? - Sorriu perverso e tampou o nariz e a boca da ômega ao mesmo tempo. Sufocamento... ah! Isso dava um gostinho tão estranho, ele sentia uma adrenalina fora do comum e se não fosse tão estranho, quem sabe até se excitaria com tudo isso.
A mulher tentou empurrá-lo para longe, de um jeito que o afastasse para conseguir respirar, mas Akira se divertia com a situação e sabia que seu ato em lutar só lhe atiçava mais os brios. Parou de repente e como esperado, o homem se afastou mais uma vez, suspirando fundo e tentando se acalmar. Ela apenas ficou em silêncio, já o tinha perturbado demais e cobrar a promessa feita enquanto era fodida meses atrás não foi uma das melhores ideias que teve.
- Não fale dele, não se atreva a falar dele, escutou mulher? - Os olhos do alfa não a encaravam mais, ele estava perdido em algum ponto na poltrona da frente. - Quando percebo que se, por um acaso, aquela criança tivesse sobrevivido e que ela poderia se tornar algo parecido com você... - Akira a olhou com nojo. - Tenho certeza que foi a melhor coisa que me aconteceu – fez uma pausa buscando pelo lenço branco no bolso interno de seu casaco para limpar a palma da mão marcada com o batom e prosseguiu com seu raciocínio -, sim a melhor coisa... foi a menina ter morrido. – sem emoção, mirou-a diretamente nos olhos. Ele não possuía sentimentos; não importava quantas vezes fodesse e se de todas resultassem em crias fêmeas, ele as mataria antes mesmo de acabar descobrindo seu segundo gênero.
Kimiko sustentou seu olhar e o devolveu na mesma moeda, se submetia ao alfa pelo simples fato dele ser rico e por bancar a vida que ela queria, só por isso aguentava-o. Mas uma coisa a ômega odiava mais que tudo nessa vida, era não ter conseguido fazer o casamento sem amor do seu alfa acabar - Akira não abandonava o ômega macho por mais que ela fizesse.
- Benzinho... – murmurou, para logo prosseguir ao perceber que ele não lhe fazia nenhuma objeção - sou mais jovem que seu ômega e posso lhe dar herdeiros. Já pensou nisso? - Os olhos negros se suavizaram, mas não tanto como ela queria. - Posso ter todos os meninos que você quiser! – ofereceu, sem nenhum pingo de amor próprio.
O japonês a olhou pasmo. Ela nunca entenderia que eles não formariam uma família, que ele não tinha interesse em ter um filho com ela ou qualquer coisa parecida. Era só sexo, nada mais. Não com uma desqualificada!
- O que você queria comprar? – perguntou à queima roupa, evitando entrar no campo em que ela queria o guiar. Para ele, aquele assunto já era encerrado e se para conseguir isso tivesse de lhe comprar mais uma dúzia daqueles casacos e roupas espalhafatosas, ele os compraria. Nunca, em sã consciência, trocaria seu ômega de estirpe refinada por aquilo! Akira podia levar sua vida vazia sem o amor que almejara um dia, apenas por só querer o melhor ao seu lado e já não fazia questão por Yuuri não o idolatrar - ou desejar -; tudo que ele queria sua força conseguia, afinal já não era um jovenzinho e o espelho todas as manhãs o lembrava disso! Seu cabelo já estava repleto de fios brancos que o faziam a cada momento querer logo seu herdeiro alfa, e sim, Yuuri iria dar isso a ele.
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No dia seguinte à confusão ocorrida no escritório do primo alfa, Yurio resolveu fazer home office. Mandou mensagem para a secretária e pediu que todos os documentos fossem enviados para sua casa, não fazia ideia de quando sua solicitação seria atendida, mas já estava feito. Ainda estava magoado com as palavras de Viktor, só não admitiria isso em voz alta e por isso, ficar recluso em casa era seu jeito de se preservar e evitar novo confronto.
Olhou pela janela enquanto aspirava o cheiro gostoso do café forte que acabara de fazer - pequenas coisas podem mudar o dia, mesmo com o tempo nublado e fechado, queria mudar alguma coisa e esquecer que era um "pirralho malcriado". Sem saber, o primo colocara um dedo na ferida aberta em seu peito, o fazendo relembrar do relacionamento conturbado com o pai e as muitas acusações de ambas as partes.
Yurio e seu progenitor nunca se deram bem; as memórias que o loiro tinha eram sempre de ver as costas de seu pai saindo por alguma porta. Ele nunca tinha tempo para as pequenas conquistas do filho e nunca estava presente para nada e, quando decidia dar o ar de sua graça, ambos quase se pegavam - só não chegavam às vias de fato em respeito a seu avô. Ah! O avô! Era o velho amado que cuidava do seu bem estar. Pensar no idoso lhe acalmava os ânimos e o loirinho fez uma nota mental: ligar para casa mais tarde. Era duro admitir, mas estava carente e com saudades da única pessoa a qual poderia dizer sem pestanejar que o amava tal e qual a como ele era.
A campainha soou alta, tirando-o de seus devaneios e Yurio abandonou a janela para atender à porta. Para sua total surpresa, deu de cara com a secretária do primo, a ruiva Mila. A mulher deve ter caído da cama ou o primo era um carrasco da pior qualidade, afinal, passava-se apenas alguns minutos das oito horas da manhã.
- Que horas você entra no trabalho? - Cuspiu a pergunta que teimava em sua mente e a viu medi-lo dos pés à cabeça, na hora tentou ajeitar melhor a blusa do seu pijama. - Mas que inferno, Mila!
- Bom dia pra você também! - A moça o encarou e sorriu travessa. - Está com algum problema?
O loiro devolveu o questionamento com uma sobrancelha erguida e puxou das mãos dela a pasta com os documentos.
- Isso é tudo? - Passou os olhos pelos papéis dentro da pasta e bocejou impaciente e, sem esperar uma reação da mesma, prosseguiu. - Ótimo! Mais tarde mando minhas considerações, ok? - Ele estava pronto para fechar a porta na cara da moça, mas foi quando ela começou a falar, ele congelou.
- O seu primo está lá embaixo, ele foi me buscar em casa e foi o Christophe quem separou esses documentos! Ele pediu para avisar que o contrato com o fornecedor do Canadá é o mais importante e o Seung vai enviar umas anotações para você do marketing também, mas por e-mail. - Ela parou e mordeu o lábio inferior. - E o senhor Nikiforov pediu para lembrá-lo que o senhor é essencial na empresa.
Arqueando uma sobrancelha, o loiro começou a compreender o que estava acontecendo. Pelo tempo que havia enviado a mensagem à ruiva, as coisas só chegariam as suas mãos um pouco mais tarde e se já estavam ali, o primo deveria estar preocupado mesmo. Yurio encarou a mulher, não sabia o que responder para o "dono" da empresa em que trabalhava, mas uma ideia passou por sua cabeça.
- Diga ao mala do senhor Nikiforov que eu sei o meu valor e... - Levantou a mão e mostrou o dedo do meio, sorrindo de forma angelical e concluiu. - Você entendeu?! - Não esperou por confirmação, apenas bateu a porta com força.
Parou no meio da sala, ainda sorrindo perverso com o que tinha feito com a secretária, mas mudou a postura tão rápido que ficou com a sensação que nada havia acontecido de verdade. Atitudes assim não fariam dele um exemplo de adulto e não fariam as pessoas o considerarem um e, no fim, ficaria sozinho como estava no momento, apesar de apreciar a solidão que o cercava no seu apartamento por escolha própria. Não gostava desse tipo de solidão por não ser uma boa conselheira, no seu caso, mas era o que tinha.
- Quanta maturidade! - debochou o beta. Olhando ao redor tomou mais uma decisão: não daria o braço a torcer e resolveu que faria o primo sentir sua falta do mesmo modo que ele sentia do outro.
Jogou a pasta no sofá e foi tomar um banho, tinha uma porção de documentos chatos para ler, mas antes de entrar no chuveiro, pegou o celular e escreveu uma mensagem simples para o médico moreno, algo como "bom dia/ como está?", ficando em dúvida em como finalizar e optando por uma carinha feliz. Era óbvio que se arrependeu no instante seguinte, mas se controlou para não apagar nada, por isso correu para o chuveiro sentindo um friozinho gostoso.
Quando saiu, conferiu o aparelho que tinha várias notificações no visor, a grande maioria do advogado suíço com informações adicionais sobre os formulários, mas nenhuma que realmente interessava vinda do médico. Suspirou cansado; Otabek deveria estar de plantão atendendo algum ser que precisava de seus cuidados mais que o próprio Yurio, só que se sentia carente de atenção. Com isso em mente resolveu começar o seu serviço finalmente - talvez encher a cabeça lhe fizesse bem.
Passou o dia debruçado sobre os papéis e notebook; sua gata aparecia somente para lembrá-lo que precisava comer e o celular só tocava para fazê-lo ficar mais irritado, pois nunca era a pessoa que ele queria que fosse.
Foi assim até que no meio da tarde as coisas começaram a mudar. Primeiro, Chris ligou perguntando se ele estava se alimentando, se precisava de alguma coisa ou se queria conversar e o russo revirava os olhos para cada novo questionamento e os respondia de forma banal só para chatear mais o seu interlocutor. E quando achou que tudo estava perdido, depois de desligar mais uma vez o telefone na cara do advogado, o celular tocou na sequência, imediatamente, e teve vontade de jogar longe o aparelho mas, de péssimo humor, atendeu.
- Mas que porra Chris, me dá um tempo, sim?
- Liguei numa hora ruim? - A voz de Otabek do outro lado soou insegura e o tapa que se deu na testa foi bem audível para o loiro que procurava por sua voz e palavras para consertar o seu erro. Já o moreno, que levou horas tentando digitar algumas palavras que prestassem e que quando tomou a coragem de ligar, descobriu que ligou na pior hora possível. - Eu ligo mais tarde!
- Não! Não é com você! – apressou-se em dizer. - Na verdade, esperei o dia inteiro por você... - e o loiro emudeceu mais uma vez de repente; estava falando demais como sempre e escutou a risada nasalada do outro lado da linha, acompanhou-o no riso. - Desculpe, achei que fosse o chato do Christophe. - Suspirou tentando se acalmar. - Tudo bem, doutor Altin? - Depois disso, não viu as horas passarem, conversou com o médico sobre tudo, desde o ocorrido na empresa com o Viktor até os partos que o moreno operou no hospital durante aquele dia. E algum tempo depois, ao perceber Otabek bocejar no meio das frases, propôs que eles se falassem no dia seguinte. Despediram-se.
Yurio ficou mais tranquilo, o longo papo com homem que se tornava cada vez mais seu objeto de desejo, teve o dom de aplacar seu ânimo. Foi deitar um pouco mais feliz, pois havia conseguido mudar seu dia.
Nos dias seguintes, Yurio voltou a trabalhar no seu escritório na empresa do alfa, mas evitava ter contato com o primo a todo custo, por isso a comunicação com ele era sempre através da secretaria Mila ou do advogado Chris - essa distância foi imposta pelo loirinho e Viktor, sem alternativa, aceitou da melhor maneira possível, mas não deixava de se preocupar com o bem estar do primo.
Batidas na porta - era uma quinta-feira e Yurio soube pelo advogado alfa que Viktor estava se preparando para ir através do japonês ômega. Sinceramente, não era contra, mas com a ausência do presidente da empresa, tudo estava sendo passado para as mãos do mais jovem e o loiro tingido praticamente havia montado acampamento na sua sala para ajudá-lo e por isso mesmo a criatura enxerida descobriu que estava mantendo contato com o moreno bonitão.
- Me diga gatinho, em que pé está a relação de vocês?! – perguntou Chris mal contendo sua curiosidade.
Yurio deixou o papel cair das suas mãos e encarou o outro que mexia no seu celular que estava esquecido em algum lugar da mesa.
- Hein? Isso é meu e minha vida não é da sua conta! - Arrancou o aparelho da mão do advogado, que só sorriu.
- Ele parece ser uma boa pessoa e vocês se aproximaram depois daquele encontro, não é mesmo? - Chris apoiou os dois cotovelos na mesa, abrindo um sorriso cúmplice.
Tal sorriso foi respondido com uma língua pra fora pelo mais novo, que ficou sério no segundo seguinte.
- Venho me sentindo muito sozinho e até pensei em voltar para casa, mas sei que não posso abandonar o barco... - fez uma pausa apenas para dar ênfase no que estava querendo dizer - pelo menos, não agora. - Yurio se levantou e olhou pela janela. - O Viktor precisa de suporte e acho que de mim, de um certo modo. E Otabek, bem... ele tem me ajudado a passar por esses dias.
Christophe olhou as costas do mais jovem e se antes se assustava com a infantilidade em algumas atitudes, agora se assustara com a maturidade das palavras. Por um momento pensou em abraçá-lo e dizer que ele estar ali fazia toda a diferença na vida do alfa lúpus, que ele havia crescido muito e amadurecido, mas conhecia o loiro e seu mau gênio de gato arisco, por isso, disse calmamente.
- Você não imagina o real significado que é estar aqui nesta sala e sei que, se por um acaso resolvesse ir embora mesmo, o Viktor sofreria muito, mas entenderia sua decisão e abriria mão do homem que você se tornou. - Capturou o olhar esmeralda que virou-se rápido. - Mas sei também que hoje você tem um motivo a mais para ficar. - Abriu um sorriso encantador. - Sabe que sou liberal e o médico em questão é um pedaço de mal caminho, o que faz dele um excelente motivo!
- Por que você tem que ser assim, me diz? Por um momento, estava gostando da nossa conversa mas agora te odeio com toda a minha força. - Yurio falava um pouco mais alto e o suíço ria da cara dele descaradamente.
- Convide-o para sair, vá a algum restaurante da moda ou parque, uma feira ou sei lá o que. Mas me prometa que vai chamá-lo para passear e que vai se divertir também. - Empurrou a cadeira para trás e levantou-se. - Viva um pouco! Vai te fazer bem, acredite. Não deixe que as amarras imaginárias da incerteza o prendam no lugar! - e deu-lhe uma piscadela.
O russo ficou calado, escutando todos os conselhos que o outro deu e o viu sair da sua sala ajeitando o paletó. Voltou a se sentar e olhou para os documentos que analisava há poucos minutos, girou a cadeira para ver a janela aberta mais uma vez e reconheceu que em todas as infinitas conversas que tivera com o médico nos últimos dias, o convite para fazer algo a mais e diferente, sempre morreria em sua garganta. Christophe tinha razão - precisava sair, ampliar seus horizontes e dar uma chance para o que lhe aquecia o peito ultimamente.
Naquela noite, Yurio convidou Otabek para jantar em um restaurante indicado pelo advogado alfa.
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Ficar sozinho naquele casarão nunca fora um problema para seu dono. Talvez nunca havia sido, pois até então, Viktor Nikiforov, o exímio empresário do ramo dos artigos esportivos, nunca havia passado por tormentas tão grandes as quais o estavam desestruturando e deixando seus dias vazios, com a casa parecendo grande demais!
E naquela tarde, em seu escritório no último andar do prédio que abrigava sua empresa, constatara que da forma que estava levando sua vida, não teria escapatória e a ruína estava a bater em sua porta.
Se ele puxasse por suas lembranças, nunca em toda sua vida sentira-se tão sozinho e confuso. Era um homem decidido mas que sob os efeitos do imprint não conseguia mais ser senhor de si mesmo - nem mesmo quando enfrentara o pai para levar a frente seu sonho de desmembrar sua parte na empresa e sair dos olhos constantes do patriarca o cobrando, fora tão sofrido. E apesar do jeito mandão de Yakov, Viktor conseguira o que almejara, indo muito além do que imaginara a priori! E se não tivesse tomado a atitude de enfrentar os pais, nunca iria encontrar o seu predestinado. De que valeria tudo o que tinha, se estava sozinho, magoado e ruminando o que aconteceu.
Bufando exasperado ao fechar os olhos, Viktor parecia conseguir ver o desapontamento nos olhos verdes e frios do primo. Havia perdido o tato e a ética profissional havia passado bem longe de sua pessoa. Yuri Plisetsky sempre fora um jovem explosivo e de temperamento forte, não deixando nada a desejar à família ao qual pertencia. Aprendera com a vida e se ocupava um local de destaque nas empresas, fora por méritos próprios que o alcançara, não apenas por ser seu primo. E nunca, nem nos sonhos mais loucos, alguém havia o superestimado. O próprio Nikiforov ditava as regras – regras essas tão rígidas e nada maleáveis – de que não haveria nenhum tipo de distinção e ataques verbais, também não seriam tolerados fosse com quem fosse, desde o mais baixo empregado, até ele próprio, mas fora logo ele a quebrar a conduta e ofender sem dó ou mesmo piedade o primo.
Passando a mão pelo rosto, sentiu-se exaurido emocionalmente como fisicamente. Ao caminhar até a janela e mais uma vez voltar seus olhos cansados na direção do céu escuro, praguejou mais uma vez mentalmente. A noite nunca fora uma companheira tão indesejada.
Grunhiu enraivecido, a dor novamente o consumindo e nublando seus pensamentos. Precisava fazer uso do "presente" que o primo havia lhe dado, mas também era fato que ainda não poderia seguir atrás de seu Yuuri devido aos seus compromissos. Aquilo o torturava cada vez mais mas tinha que tentar fazer como Chris o aconselhara. Bufando, voltou seus olhos para sua mesa e os vários papéis que o aguardavam. Tinha de conseguir se concentrar, precisava de paz de espírito para continuar e terminar as coisas o mais rápido possível.
As horas iam adiantadas no relógio e ele sabia que estava sozinho na empresa. Há muito todos já haviam seguido para seus lares, mas ele não via motivos para voltar para seu lar. Balançando a cabeça, forçou-se a seguir até o banheiro anexo. Mirando seu reflexo no espelho, não gostou do que viu e não pode deixar de lembrar das palavras ácidas de Plisetsky. Ele não conseguia se reconhecer, estava mergulhado até o pescoço em suas dores e não poderia se deixar desanimar. Abrindo a torneira, lavou o rosto com água em abundância; tentava desesperadamente acalmar seu ser. Respirando ruidosamente, piscou forte algumas vezes e, em seguida, voltou para trás de sua mesa, tomando novamente os papéis em suas mãos. Queria terminar tudo aquilo de uma vez, pois tinha muito o que fazer em tão pouco tempo e desconfiava que não daria conta do recado. Se ao menos não tivesse sido tão calhorda com o primo...
Bem, tornar a lembrar de Yurio fazia com que ele quisesse voltar no tempo. O loirinho já havia o deixado na geladeira tempos atrás mas agora parecia estar sendo pior, muito pior. Das outras vezes, em poucas horas estavam trocando farpas, mas se acertando. Agora mesmo com Viktor sabendo que ele havia se preocupado em lhe ajudar, Yuri não queria nem olhar-lhe nos olhos. Até mesmo no elevador o beta evitava estar com ele. Era terrível a sensação que estava sentindo, nem mesmo bom dia ele se dignava a lhe desejar - os olhos baixos e por vezes crispados do loiro o feriam mais que palavras.
Nikiforov nem tivera a oportunidade de agradecer pelo endereço que o primo havia lhe entregado. Na realidade, nem tivera tempo de descobrir como e onde ele havia conseguido aquilo. Ele pressupunha que talvez o loiro estivesse se encontrando com o doutor Altin, mas na atual altura em que estava sua situação, não poderia se dar ao luxo de descobrir alguma coisa. Era verdade que, no auge do fervor da raiva do beta, o mesmo dissera, antes de rumar para longe do platinado, que este não lhe devia nada. Ok! Lá estava o orgulho falando mais alto, delatando que ele realmente era daquela família, mas mesmo assim, na concepção de Viktor, ele devia muito ao primo e iria tentar agradecer adequadamente, mesmo que para isso ele tivesse de invadir o apartamento do mesmo.
Acomodando-se atrás de sua mesa, voltou os olhos para os papéis os quais ele já tinha lido e relido, e apreciado o relatório que Seung-Gil havia lhe enviado sobre o mesmo. O atleta escolhido tinha um grande potencial e após dias de negociações, ambas as partes haviam entrado em um acordo. Bastava Nikiforov assinar a documentação e em menos de um dia o patinador suíço radicado em Sendai, Lars Masumi Gautier, seria a nova imagem da marca "Fast Speedy", artigos para patinação artística. Para ele, tudo parecia perfeito; não havia sido fácil conseguir fechar o contrato com um dos melhores patinadores - se não o melhor patinador - da atualidade e Viktor sabia que o primo, seus advogados e toda a equipe envolvida havia feito um bom trabalho. Sem pensar mais no assunto, assinou todas as vias, as quais estavam assinaladas e quando ia fechar a pasta para dar como encerrado aquele caso, voltou seus olhos para a porta de pinho sendo aberta.
- Cher, sabia que o encontraria aqui! - Chris se aproximou a passos rápidos, deixando o corpo cair pesadamente sobre a poltrona confortável à frente da mesa do chefe.
- Pensei que você já tivesse ido embora. - Viktor voltou seus olhos para os papéis, terminando de assinar os últimos memorandos.
- Eu estava terminando de revisar algumas coisas e, Georgi entrou em contato comigo, disse que não estava conseguindo falar com você. - Chris respondeu ao focar sua atenção no celular do outro, este se encontrava virado com o visor para o tampo, e ele poderia dizer que no modo silencioso.
- Ah! Eu deixei o celular no modo silencioso, não queria ser importunado. - fez uma pausa para sustentar o olhar do loiro a sua frente. - O que ele queria? - perguntou ao parar o que fazia para dar atenção ao amigo.
- Que tudo está certo e pela manhã bem cedo estará pousando com o jatinho da Nikiforov Co. no aeroporto de Tóquio. - Chris anunciou. Ainda era difícil de acreditar que Yakov não havia feito ou dito nada sobre o uso da aeronave, mas o astuto advogado tinha quase certeza que naquela situação toda havia o dedo de Lilia, mãe do lúpus.
- Isso é muito bom! - Viktor não conseguia ser eloquente, não como antes. O peso em seus ombros parecia o fazer afundar mais e mais. Era estranho, mas mesmo com a chegada de seu fiel escudeiro, não conseguia se animar.
- Vik, você precisa se animar, sei que não está sendo fácil, mas você não pode partir assim atrás de Yuuri! - Christophe já havia passado o limite de sua preocupação. Agora ele entendia o que Yurio estava passando. - Makkachin vem chegando naquele voo! Espero que não o negligencie como está fazendo consigo mesmo. Torno a dizer: como irá se encontrar com seu ômega assim?
- Chris, minha vida se tornou vazia, desde que meu Yuuri sumiu! Minha estrelinha também foi para longe, não irei negligenciar a ninguém, não mais, mas vocês precisam entender o buraco que se abriu em meu coração! A dor da ausência, de não o ter por perto é maior que tudo! - fez uma pausa antes de prosseguir. - E tudo o que eu mais queria era já estar com minha vida nos trilhos novamente com Yuuri e Akiko ao meu lado. - observando o advogado, baixou os olhos para as mãos que começavam a tremer novamente.
Sem dizer nada, o suíço levantou da poltrona e seguindo até um pequeno nicho, abriu a porta, revelando o frigobar. Achando o que queria, voltou-se para junto do amigo, estendendo-lhe a garrafa de água e dois comprimidos.
- Viktor… - chamou Chris ao colocar o remédio na palma da mão do russo. E ao vê-lo ruminar palavras sem sentido, estreitou os olhos. - Devo lembrá-lo que não sou seu primo e se começar com graça, esqueço que nós nos conhecemos desde o uso das fraldas e parto para a ignorância enfiando esses comprimidos por sua goela abaixo! - ameaçou com um leve sorriso cínico nos lábios. - E digo mais, não vou me chatear nem um pouquinho se precisar chegar às vias de fato! - e deu um sorriso irônico.
Ok, aquilo era um aviso para Viktor. Arqueando as sobrancelhas, resolveu acatar o que o amigo quase o ordenara. Ele conhecia muito bem a Giacometti e mesmo que ele tentasse reagir por ser mais forte que o suíço, estando daquele jeito, com aquela dor irritante, não conseguiria nem que quisesse entrar em um atrito… na realidade, não tinha vontade. Com um muxoxo, levou os comprimidos aos lábios os engolindo com um grande gole d'água.
Christophe poderia espicaçar o amigo perguntando quem estava alí, pois nunca o alfa lúpus se deixaria levar e acatar uma ordem de outrem, mas o loiro sabia e tinha noção do grau em que a vida do amigo se encontrava. Mas se fosse Yurio ali… melhor nem pensar no que poderia acontecer.
- Vai querer ver embaixo da minha língua para saber se os engoli? - Viktor perguntou ao reparar no olhar astuto e zombeteiro do loiro.
- Vik, cher… não sou sua mãe, mas talvez devesse agir como ela, não? - e riu divertido.
- Cretino! - Viktor finalmente se soltou, mesmo que fosse um pequeno sorriso.
- Ah! Mon amour (meu amor), sabe que faço das tripas o coração por você! - Suspirando aliviado, Chris recostou na mesa e observou a tela do notebook. Um mapa da pequena cidade praiana de Hasetsu estava aberto. - Tem certeza que não quer que eu vá com você? Posso te fazer companhia e... - perguntou.
- Não! - rosnou Viktor quase sem perceber. O simples fato de imaginar Christopher próximo de seu predestinado já fazia seu lúpus interior rosnar e uivar enciumado. Seus olhos buscaram pelos esverdeados, sustentando-os em uma disputa que não existia.
- É sobre isso que eu venho lhe falando desde quando decidiu seguir atrás do Katsuki! - Chris bufou contrariado. - Você vai conseguir se controlar quando estiver perto dele e sozinho? Você tem tomado doses cavalares de calmante para alfas e eles não tem feito o efeito desejado, ainda assim quer ir sozinho? - questionou e antes que o mesmo vociferasse algo que pudesse se arrepender, prosseguiu. - Eu não tenho nenhum interesse no seu ômega! Confesso que ele é de uma beleza exótica, lindo, mas não faz meu tipo... já esse… - Chris fez uma pausa e pegou da pasta ainda aberta uma foto do patinador, novo contratado da empresa. - Ah! Vik… esse sim faz meu tipo! - e sorriu, deslizando a língua pelos lábios.
- Depois eu posso me descontrolar perante meu homem, não? - Viktor mirou o amigo com interesse. Este sustentou-lhe o olhar sem desviar um milímetro que fosse. - Apenas lhe peço, Chris não espante nosso contratado! Não se envolva!
- Isso é um aviso, ou uma ordem? - questionou ao arquear as sobrancelhas.
- Tome como quiser, apenas ouça a voz da razão. Ele já deve ter seu predestinado! - Viktor puxou de volta a foto e a colocou novamente junto com o restante dos documentos.
- Falando assim, até parece que eu é que estou sob o efeito de um imprint! - bufou o advogado. - Mas você sim, não vá agarrar seu ômega quando o ver! Não quero ter de ir tirá-lo do xilindró. - gracejou e, ao receber um sopapo na nádega direita, riu abertamente. - Agora sério, mon cher… - fez uma pausa para chamar atenção.
- Diga… - Viktor sustentou os olhos do amigo.
- Antes de ir embora, tente conversar com seu primo. - Chris sabia que aquele assunto era um caminho um tanto tortuoso e perigoso. Quando ele tocava neste com o loiro mais novo, esse rosnava feito um alfa e ruminava palavras nada agradáveis e podia ver que com o empresário a coisa parecia ser mais leve, mas apenas só parecia. - Eu sei que vocês dois são cabeçudos e teimosos, também sei que você evita o procurar para não piorar mais as coisas, mas creio que já está na hora dos dois quebrarem esse silêncio entre vocês e nada melhor que seja você! Se dê essa chance, vocês são família… - Christophe foi obrigado a parar de falar, pois o alfa levantara a mão chamando-lhe a atenção.
- Não prometo nada, Chris, mas antes de partir para Hasetsu daqui dois dias, tentarei novamente. Nem que eu precise ir até o apartamento dele, vou tentar!
- Isso! É assim que eu gosto, Vik! - Chris falou para logo em seguida perguntar. - Parte quando? Pela manhã, noite?
- Vou aproveitar o jatinho da empresa de meu pai e parto daqui dois dias, e melhor que seja pela manhã! - revelou. - Tenho de esperar que Makkachin passe pela quarentena imposta por lei. Pelo que vi, como nossa região está livre da hidrofobia e o Makka tem o microchip e o atestado de permanência de região livre da raiva há bem mais de cento e oitenta dias, esse tempo passa a ser de doze horas apenas. - respondeu. - Algo muito burocrático!
- Sim, eu me lembro da burocracia e de tudo que tivemos de ouvir de reclamações de seu primo. Ainda bem que Potya foi logo liberada! - Chris sorriu. Lembrar do quase escândalo do beta, servia como um bálsamo para os nervos abalados de ambos - Viktor, pela primeira vez desde que chegara, deu seu primeiro sorriso genuíno. Aproveitando-se do clima ameno que se instaurara entre eles, o sutil alfa resolver tocar no assunto que mais o preocupava novamente. - Vik, eu sei que vou estar soando como uma matraca, mas eu tenho de lhe lembrar, tome cuidado como irá abordar Katsuki! – fez uma pausa apenas para sustentar o olhar ressabiado que o amigo platinado lhe dirigia. – Sabemos apenas o que a irmã de Yuuri nos contou e podemos apenas supor o que ele tem passado nas mãos do marido... – parou ao escutar um rosnado tão alto que era impossível ignorar, mas mesmo assim continuou – e não sabemos como ele irá te receber. Tente não amedrontá-lo impondo sua presença, deixe que ele...
- Christophe! – Viktor atalhou com novo rosnado. – Acaso acha que eu faria algo para o meu Yuuri? – perguntou ao se levantar e se dirigir até a grande janela.
O silêncio que se seguiu calou fundo entre os dois, com o platinado sentindo-se acuado pela desconfiança que parecia vir enraizada na preocupação do loiro.
- Vik, não entenda errado o que ouviu! – Chris pediu. O suíço conhecia muito bem o outro e tinha certeza que naquela situação, Viktor iria sempre lembrar que tinha um gênio forte e intolerante por vezes, além de seu descontrole quando o lúpus resolvia aparecer.
- Não tente melhor a situação, meu amigo! – pediu sem se voltar, ele não queria mostrar a tempestade que seus olhos deveriam conter. – Desde que Yuuri sumiu, venho me perguntando se não farei nada que o assustará, que o levará para mais longe de mim... Será que ele me aceitará como sou? – ao volver os olhos para o advogado, percebeu que este quereria tomar a palavra, mas com apenas um olhar trocado este não apenas se calou, ficando em aguardo do que o platinado deveria dizer, se iria continuar. – Eu sei que todos temem os lúpus devido a toda crendice que paira sobre quem são, então tenho bastante com o que me preocupar. – bufou ao começar a caminhar sem parar pela sala, parecendo um animal enjaulado. – Eu só posso prometer a você que farei o meu melhor! Tentarei de todas as formas e do fundo de meu coração ser paciente com ele, dando seu devido tempo para que se acostume e confie em mim.
Christophe deu-se por satisfeito e nada mais disse. Lá fora, a chuva finalmente deu o ar de sua graça, grossos pingos começaram a molhar a janela do escritório do alfa lúpus.
oOoOoOo
Na noite seguinte, o barulho das patas e os latidos eufóricos do grande poodle marrom quebravam o silêncio da mansão, indo de um lado para o outro atrás de seu dono. Makkachin finalmente havia se livrado de seus "algozes" do Serviço de Controle Sanitário Animal, do Ministério da Agricultura, Silvicultura e Pesca Japonês no final da tarde e, agora, não se cabia em si de felicidade por estar com seu dono mais uma vez. E como prometido, o eterno companheiro do lúpus não estava sendo deixado de lado.
Até mesmo quando já estavam na cama prontos para dormir, Viktor fez questão de contar ao cão sobre Yuuri e Akiko. E que, em menos de um dia, ambos estariam de partida para Hasetsu, onde Makka conheceria seu novo papai. O cão parecia entender ao mover a cabeça de um lado para o outro e arfar alegre.
- Sim, Makka! Você terá outro papai e irá nos ajudar, não é mesmo? – perguntou Nikiforov ao fazer-lhe carinhos nas bochechas fofas. – Não, é? Hmmm... – tornou a perguntar, sorrindo divertido ao escutar os latidos eufóricos do animal de estimação.
Batendo ao lado da cama, esperou que o mesmo se ajeitasse confortavelmente ao seu lado e finalmente apagou a luz do quarto. No outro dia, teria um dia agitado e à noite iria atrás do primo.
Viktor esperava que seu dia fosse ser estressante, mas tudo parecia estar seguindo como um reloginho. Controlando seu temperamento e a vontade que tinha de invadir a sala do primo, deixou as horas passarem e quando finalmente viu-se livre de seus afazeres, sentiu-se como um colegial ao término de suas aulas. Uma felicidade sem fim e rumando para casa, encontrou o grande cão marrom o aguardando no hall de entrada.
Deixando-se abraçar e abraçando Makkachin, que sobre as patas traseiras tentava lamber-lhe o rosto, Viktor sorriu ao imaginar o dia em que não somente o seu cão o estivesse a esperar. Balançando a cabeça, correu para o quarto, precisava trocar-se para ir ter com o primo.
Chamando seu mascote alguns minutos depois, saiu em disparada com seu carro já tendo um destino certo: o bonito prédio em que Yurio morava.
Ludibriar o porteiro para que o mesmo não avisasse seu parente que ele estaria subindo foi uma verdadeira batalha e o mesmo só deixou o platinado subir porque já estava acostumado com os dois e os poucos conhecidos do loiro.
Quando a porta finalmente foi aberta, após várias vezes que o platinado tocou a campainha, íris esmeraldas recaíram sobre os oceanos revoltos; a surpresa era quase que palpável e por alguns poucos minutos – que pareceram horas – um silêncio constrangedor se abateu entre os primos.
Por fim, parecendo entender o impasse dos humanos, Makkachin pulou sobre Yuri resolvendo quebrar todo o silêncio, lambendo animadamente ao loiro.
- Não, Makka! – Yuri pediu ao tentar se afastar do cão que só o deixou quieto quando escutou o miado quase chiado de Potya vindo do corredor. – Viktor, se o seu vira-latas machucar minha gata, vou chutar você e ele para longe daqui! – ameaçou Plisetsky ao voltar-se para dentro e correr em auxílio da felina que continuava miando, mas encarapitada em cima da geladeira, onde o cão não a alcançaria.
- Yuri... – Viktor chamou tão logo fechou a porta do apartamento e seguiu atrás do mesmo. – Makka não vai fazer nada, ele está com saudades de vocês! – uma verdade um tanto distorcida, mas mesmo assim ainda continuava sendo uma verdade já que o cão amava a gata, mas já não se podia dizer o mesmo da pequena Gata do Himalaia.
- Você tem um jeito de pensar um tanto distorcido, velho! – reclamou Yuri ao pegar a gata no colo e a levar (tendo Makkachin pulando à sua frente) para seu quarto, a trancando lá.
Makkachin voltou-se para seu dono, sentando ao seu lado e recostando o corpo em suas pernas, parecendo um tanto chateado.
- Vamos, meu rapaz, pelo menos você a viu! – gracejou Viktor ao coçar atrás da orelha do mascote.
- O que você quer, Viktor? – Yuri finalmente parou à frente do primo. Os braços cruzados na frente do corpo, o rosto bonito retorcido em uma carranca fria.
Suspirando, o lúpus passou as mãos pelos cabelos buscando por uma calma que ele sabia estar a quilômetros de distância dali. Com seu primo, nada era fácil e já não eram adolescentes para ele usar uma brincadeira qualquer para quebrar o gelo - também não sentia vontade alguma, só queria acertar as coisas entre eles para poder viajar com sua consciência tranquila.
- Visto tudo que vem acontecendo e a forma como eu venho agindo... – foi atalhado pelo parente.
- Que, diga-se de passagem, é de um total amalucado, careca! – a voz ácida, o olhar de deboche.
Rosnando, Nikiforov o mirou como aviso; seus olhos levemente avermelhados.
- Não força, Yuratchka! – grunhiu e, antes que o primo continuasse, buscou por sua linha de raciocínio. – Vim aqui fazer as pazes contigo, meu primo. Basta dessa coisa toda, eu fui um calhorda, escroto, deveria ter contido minha ira, mas nada tem saído da forma ou do jeito que quero. – fez nova pausa.
- Você se tornou um porre com esse negócio de imprint! E eu gostaria de ter meu primo cabeçudo de volta, sim? – Yuri mirou-o com intensidade. – Tem sido muito difícil para Lee, Chris e eu o aturarmos! Só queremos o seu bem, só que você não tem dado desconto! – bufou ao se aproximar mais do mais alto.
- Eu sei disso tudo e o máximo que posso fazer agora por você, é lhe pedir desculpas, minhas mais sinceras desculpas! Não garanto voltar a ser o que eu era antes disso tudo acontecer, mas eu vou tentar e terei todos vocês ao meu lado para me lembrar disso. – Viktor mirou o loiro com interesse e somente agora notando suas roupas elegantes, a priori não iria dizer nada a esse respeito, queria resolver primeiro aquela situação. – Desculpe, Yuri! Por tudo que te disse sem você merecer e...
- Hei, velhote! Tudo bem! Não é fácil, nada é fácil em nossa família e como eu já te disse, nunca deixarei você! – ao terminar de dizer isso o russo mais baixo abraçou-se ao parente, deixando que seu lado desconfiado e ranheta ficassem esquecidos por um tempo. – Então, vai mesmo atrás de seu ômega? – perguntou ao se soltar dele.
- Sim! Eu vou partir em poucas horas, e Chris já me rezou um rosário. – o platinado revirou os olhos ao terminar de falar.
- Bem a cara dele! – Yuri completou. – Mas não pense que eu também não vá fazer o mesmo contigo, por que eu vou sim, senhor Nikiforov!
- Não, Yuratchka! Já fui advertido e lembrado por uma vida toda! – gracejou e olhando zombeteiro para o primo, emendou rapidamente. – Pelo visto não cheguei em boa hora, não é? Vai sair? Está esperando alguém? – encheu o diretor executivo e CEO de sua empresa de perguntas.
- Não, eu vou assim até a padaria! Eu gosto, sabe? – Yuri respondeu em tom malcriado e ácido. – Claro que vou... – parou de falar ao escutar o interfone. Arregalando os olhos, seguiu rapidamente até a sala, tendo o primo logo atrás, para abrir a porta e dar de cara com o moreno médico e um lindo buquê de flores do campo. – Otabek...
- Boa noite... cheguei muito cedo? – perguntou, percebendo o clima estranho no ar ao avistar o platinado.
- Não, doutor! Boa noite! – Viktor sorriu ao se aproximar, tendo o cão em seus calcanhares. – Aproveitem a noite! – e voltando-se para Yuri, murmurou. – Quando estiver em Hasetsu, te dou notícias, agora, viva a vida! – e sem dar tempo para um questionamento, Nikiforov deixou os jovens sozinhos.
oOoOoOo
Era madrugada quando o platinado apareceu no hangar respectivo ao qual Georgi, no dia anterior havia, lhe passado. Este já o esperava à frente da entrada da aeronave. Com um forte aperto de mãos, Nikiforov e seu cão adentraram no pequeno jato, nas cores branco e azul escuro, da empresa do pai. Sentado confortavelmente, o platinado escutou com atenção ao que o experiente piloto tinha a lhe dizer e, com um suspiro, volveu seus olhos para fora. Prendendo o cinto de segurança, bateu a mão enluvada no colo e tão logo Makka se ajeitou sobre si, aguardou até que o jatinho fosse taxiado e ganhasse os céus.
Quando finalmente fez com que o poodle saísse de seu colo, bateu a mão no cinto liberando seu corpo um pouco e novamente seus olhos voltaram para a janela. Tóquio ficava para trás e ele mal podia esperar por finalmente poder se encontrar com o seu querido e verdadeiro amor.
- Yuuri, mais um pouco e estou chegando! – murmurou ao mordiscar os lábios e voltar a se fechar em seus pensamentos.
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Notas FinaisLembretes e Explicações:
Olá para todos que aqui chegaram, como sempre, Almaro e eu tentamos nos focar com tudo ao redor, pesquisando, idealizando e buscando por pequenas coisas que tornassem esse capítulo mais verossímil. E foi com muita curiosidade que chegamos até esse site ( . . ), que nós explicou direitinho como é a entrada de animais domésticos ou mesmo de grande porte no Japão. Foi de grande valia!
Sobre o tempo, tentamos ao máximo deixar tudo em uma sequência de fatos. E esperamos que tenhamos conseguido passar o tempo de cada um cos russos em seu núcleo.
Também mais uma vez pedimos desculpas pelo atraso em esse novo capítulo ir ao ar. A vida por deveras pode se tornar atribulada, e assim tanto para a Almaro, LadyCignus e eu, esse mês acabou se tornando complicado. Só podemos agradecer a quem chegou aqui, e que teve paciência conosco. Já temos muitas coisas adiantadas, mas que precisam ser lapidadas, e esperamos muito em breve trazer a continuação desse nosso projeto.
Cantinho Rosa e Azul:
Viktor: - Você viu, Yuu? - murmurou ao chamar a atenção do moreno para si. - Parece que muito em breve teremos mais capítulos no ar! E quem sabe em um desses a gente… Isso é, se elas não resolverem bancar deusas...
Yuuri: - Vitya, por favor! *revirando os olhos* Elas são as donas da coisa toda, e sabe, creio que você tem de aprender que o kit fic é delas e não seu!
Theka: Almaro, você ouviu isso? *parando de escrever e olhando para o casal mais ao lado*
Almaro: É amiga Coelha! Por essa eu não esperava, mas sabe *olhar matreiro* Talvez fosse bom a gente mostrar quem manda na coisa toda! *levantando o tom da voz* Eu estava pensando em deixar certo platinado de molho por um tempo, o que acha?
Theka: É… seria interessante, e quem sabe voltemos com a programação que estávamos pensando e…
Viktor: Eu não falei… olha lá! Yuuu…
Yuuri: E depois eu que sou o ansioso? *puxando o platinado para longe das duas ficwriters* Vamos, Vitya, antes que elas ajam mesmo com as deusas que são! *sorriso de lado*
Ah! Que bom que vocês chegaram, é parece que até mesmo certo platinado está querendo que as coisas mudem não? Mas sabemos que para tudo tem seu tempo, então… Almaro e eu, agradecemos pelo apoio e carinho de todos. Nossos mais sinceros saudares e até o próximo capítulo!
beijocas
