Lembretes e explicações no final do capítulo

Capítulo ainda sem verificação de nossa Beta. Assim que possível, faremos a substituição pelo betado.

Qualquer erro, será corrigido depois!

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O barulho provindo das turbinas do jatinho cortando os céus, até aquele momento, haviam embalado o leve sono a que o platinado fora acometido. Aos seus pés, o grande poodle marrom também parecia embalado em sono profundo, acompanhando assim, seu dono que repousava uma das mãos sobre o peito.

Fazia algum tempo que o ilustre lúpus, não conseguia relaxar daquela forma. As preocupações do dia a dia com sua empresa e as de sua vida pessoal acabaram por se fundirem, e eram raros os momentos em que ele, Viktor conseguia se desligar. E quem dirá agora, que ele por fim encontrou o ser especial o qual achara que nunca apareceria em sua vida? Se tudo que era tão fácil havia se tornado um tanto complicado, agora…

Talvez fosse questão das preocupações, de tudo o que ele teria de tentar balancear, ou quem sabe, não haveria como dizer ou como explicar por que todo seu ser parecia conspirar contra ele. A única coisa que poderia ser dito com precisão, é que mesmo Nikiforov sendo uma pessoa confiante, havia momentos em sua vida, que tudo parecia sem sentido, e alguns fantasmas de seu passado o assombravam, como parecia estar acontecendo naquele momento. Lembrando em muito, o pequeno garotinho que a tudo tinha de fazer, pois assim cairia nas graças de seus pais exigentes. Um pequeno que ainda não parecia que despontaria como um alfa e muito menos lúpus.

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Após tantos dias nebulosos, em que a neve caía constantemente deixando toda a paisagem esbranquiçada, finalmente o sol - mesmo que fraco - vencia os tons acinzentados, fazendo a neve ganhar um brilho constante. O céu levemente salpicado por nuvens, que o pequeno encarapitado em seu esconderijo observava atentamente, o fazendo imaginar serem feitas de puro algodão doce… fofinho, e de várias formas.

Ele não deveria estar ali! Deveria estar em mais uma enfadonha aula de piano com madame Clayderman, mas quem conseguiria segurar o platinado quando este colocava algo em sua cabeça? A resposta sempre seria ninguém! Viktor havia conseguido ludibriar o motorista da família, que tinha a incumbência de o levar para a aula naquele dia. Sem a mãe para ditar regras e o pajear, vira ali a oportunidade de fazer o que há muito queria. Do alto de seus oito anos de idade, mesmo temeroso, tivera a audácia e coragem para desviar seu caminho, e fugir aproveitando-se de um momento de distração do pobre homem.

Fora tudo tão rápido! Tão convidativo, e de fato, a vida fora de seu mundinho, lhe parecia muito, mas muito mais atrativa. Ganhar as ruas se aproveitando da parada devido um congestionamento, e sobre os gritos desesperado do velho serviçal, fora emocionante, e ao mesmo tempo que sentia medo de ser apanhado, sentia uma vontade louca de brincar como as crianças daquele parquinho no caminho para o escritório de seu pai. Queria ter o que não tinha: com quem brincar e espantar o que achava ser uma vida de imposições e tristezas, ainda mais para ele.

Errado quem pensava que Viktor era avoado, e que se perderia se ficasse sozinho. Ele poderia ter a ingenuidade de uma criança, mas era muito esperto e inteligente o suficiente para não se deixar levar por qualquer coisa, e já sabia se locomover muito bem, mesmo que atrapalhando-se vez ou outra, com as placas de indicação nas ruas e as direções que deveria tomar. O próprio, tinha dentro de si, que se saísse um milímetro a mais fora da rota que conhecia, estaria perdido, e até mesmo por isso, manteve-se fiel aos seus instintos de direção, e fora muito fácil chegar onde queria.

Sorrateiro, deixara mister Stokell para trás, e não conseguia imaginar o que aconteceria com o velho motorista, pois na ânsia de alcançar o seu intento não pensara em mais nada, e ao finalmente escutar a algazarra vinda do outro lado da rua, seu coraçãozinho bateu acelerado no peito, fazendo se esquecer de todo o resto.

Mordiscando o lábio inferior, parou a um canto apenas observando enquanto os pequenos como ele se divertiam nos brinquedos que ainda eram possíveis, ou mesmo lançando bolas de neves uns nos outros.

Atravessando a rua, parou admirando todas as crianças, seus sorrisos, os gritinhos eufóricos quando um ou outro era acertado pelas bolas de neve. Um tanto ressabiado, talvez devamos dizer, até mesmo envergonhado, Viktor caminhou tentando manter-se afastado do que poderia ser intitulado de "bagunça organizada"!

Sempre conseguira fazer amizades facilmente, mas o novo, ao mesmo tempo que o deixava muito feliz, este também estava tendo um efeito contrário, como se algo o estivesse fazendo se retrair.

Sentando em um banco de pedra, volveu os olhinhos curiosos em todas as direções, até se perder a observar as nuvens, que o faziam imaginar várias coisas. Uma bola de neve perdida o acertou em cheio no peito o fazendo voltar para a realidade. Arregalando os olhos, volveu-os rapidamente na direção em que achava que a bola tinha partido, e deparou-se com um garotinho de riso fácil, e brilhantes olhos verdes com uma expressão traquina a iluminar-lhe a face. Seus cabelos em um castanho escuro levemente esvoaçantes quando este corria de um lado para o outro.

Sem nada dizer, entenderam-se apenas com uma troca de olhares. E foi assim que em um piscar de olhos, o pobre menino rico acabou por achar o que ele mais almejava até aquele momento em sua vida. Sem nem saber os nomes, ou mesmo a classe social a qual cada um ali pertencia, passaram horas em uma esfuziante guerra de bolas de neve, fazendo anjinhos na neve fofa, e escorregando em meio a neve que tomava conta quase que totalmente do escorrega.

O pequeno Nikiforov nunca iria se importar com as coisas que adultos, tais como seus pais, pareciam dar tanto valor.

Correndo de um lado para o outro, caindo e rindo muito mais do que poderia imaginar, Vitenka não percebeu as horas passarem, e nem se lembrava que aquela hora, sua família deveria estar em polvorosa atrás dele. Em meio a brincadeira de "Pique Esconde", as vozinhas esganiçadas gritavam alegres posições falsas para enganar o escolhido para procurar os outros. E lá estava Christophe, o garotinho de olhos verdes, respondendo aos gracejos e pistas falsas, a olhar para todos os lados.

- Onde estão vocês? - Christophe com uma carinha arteira, e um sorriso traquina, gritou para se fazer ouvir por todo o local. - Eu vou achar vocês, podem tentar se esconder, mas eu posso encontrar todo mundo! - rindo correu para outro lado, ao escutar risos.

Escondido atrás de uma frondosa sebe carregada de neve, Viktor sorriu matreiro. Em sua vã inocência, achava que encarapitado ali e em total silêncio, quem sabe, teria a sorte de ganhar o jogo. Volvendo os olhos para o alto, observou melhor as nuvens, e se esquecendo por alguns minutos de tudo ao seu redor, desejou sempre poder divertir-se como estava acontecendo naquele dia. Voltando seu olhar para os dois lados, riu um pouquinho mais alto, chamando assim a atenção do outro garotinho que estava bem ali perto.

- Quem está aí? - perguntou o pegador. Ele parecia estar bem próximo do platinado. O silêncio foi a resposta para o castanho com um leve sotaque na pronúncia do russo. - Vamos, eu sei que tem alguém por aqui! - tentou inutilmente convencer ao jogador escondido a se apresentar.

Distraído, só conseguiu entender que dois amiguinhos haviam conseguido chegar até o local de partida, ao gritarem o combinado e se salvarem. Bufando contrariado, voltou seus olhos na direção oposta, acabando por flagrar cabelos prateados correndo para longe de si, também tentando chegar ao grande pinheiro, onde os outros se encontravam.

- Eu vou conseguir! - Viktor alardeava feliz enquanto ainda corria na direção desejada. Ele sabia que se não tropeçasse, que tinha uma leve vantagem sobre o novo coleguinha. E pela primeira, de muitas vezes, o russo conseguia ficar livre de ser o próximo pegador!

- Isso é injusto! - Chris deixou escapar, ao novamente ser ele a ter de voltar a ser quem iria atrás dos amigos. Ele tinha as bochechas rubras devido ao pique dado ao tentar ganhar de um dos outros meninos. Seus olhos verdes, brilhavam mais que gemas de pedrinhas preciosas.

- Chris, você sabe que Misha, de todos nós, é o mais ligeiro. - uma das meninas comentou ao acaso.

- Isso, Christophe! Não seja um mau perdedor! - cutucou o moreno, o tal de Misha, que aparentava ser um ou dois anos mais velho. - É sua vez… - fez uma pausa, apenas para cutucar o outro - de novo!

- Conte até cem! - Viktor instigou, ao já se preparar para encontrar novo esconderijo.

Bufando desanimado, e sem muita opção, Christophe se aproximou do tronco largo do pinheiro, e cobrindo o rosto que se encontrava encostado na árvore, começou a contar feito um raio, engolindo as palavras, e por muitas vezes, pulando alguns números.

- Prontos, ou não, aqui vou eu! - anunciou tão logo terminou a contagem. E mais uma vez, risos e coordenadas sem sentido e falsas eram gritadas pelos participantes. - Onde estão vocês? - cantarolou Chris.

- Venha me pegar! - foi a resposta, que pela primeira vez, Nikiforov gritava. Não que ele não quisesse interagir, mas sim por ter medo de ser localizado. Para quem nunca havia brincado daquele jeito, ele estava se saindo muito bem! O que o menino realmente não sabia que tinha feito, era sem querer, ter entregado sua posição.

Christophe conhecia muito bem aquele local, e o único lugar que era possível apenas falar e ser emitido um eco, era dentro da redoma que era cheia de entradas, mas com o topo fechado - o que servia como uma edificação protetora. Até mesmo por isso, e ter reparado no eco proveniente da resposta, este seguiu para o brinquedo. Parando ao lado de uma saída, pode perceber que a neve havia tapado três das entradas. Torcendo para usar a abertura correta, enfiou a cabeça apenas pela abertura, e sem modular a voz, gritou:

- Te encontrei! - e saindo em uma louca desembalada, tentava cruzar o pátio do parquinho, sabendo que o platinado vinha logo atrás de si. - Um, dois, três, Viktor! - o pegador finalmente conseguiu pegar assim ao outro.

Um tanto chateado o pequeno sentou-se ao sopé da árvore e com um leve sorriso divertido nos lábios, suspirou resignado.

- Então, o pegador, agora serei eu! - mesmo havendo perdido, Viktor não conseguia sentir-se desanimado. Aquela tarde, nunca mais seria esquecida por ele. - Vamos de novo? - perguntou. Os olhos brilhantes olhando para todos que ali estavam, foi quando finalmente ele se deu conta do adiantado das horas.

Já era quase o final da tarde, algumas crianças correram para suas casas, restando muito poucas presentes, as quais o garotinho de expressivos olhos verdes fez questão de lhes apresentar devidamente. A maioria, para não dizer todos, o pequeno platinado nunca mais os veria, ou até chegaria os ver em outras ocasiões, e escapadas, mas aquela tarde, ficaria para sempre na memória daquela criança aprisionada pela hipocrisia de seus próprios pais.

- Já está ficando um pouco tarde, Viktor. - Chris respondeu ao voltar seus olhos algumas vezes para a entrada do parque. Muito em breve um de seus pais iriam buscá-lo. - Meus pais me deixaram ficar aqui, pois foram se encontrar com alguns conhecidos, mas creio que já devam estar voltando. - e apontado para um homem mais afastado, murmurou: - Aquele ali, é o Jarvis, trabalha para meus pais, e geralmente fica me pajeando ao longe…

- Você também? - Viktor arregalou os olhos, pois isso era o que o pobre motorista de sua família fazia muitas vezes. Ao reparar que era observado com surpresa, suspirou. - Sempre tenho alguém comigo, mas hoje… Ah! Hoje eu fugi! - confessou. - Não queria ir para minha aula de piano. Meus pais, não me deixam brincar como eu consegui hoje!

- Então, eles devem estar preocupados com você, não? - Christophe levantou-se de um salto e em seguida, puxou o mais novo amiguinho pelas mãos.

- Bem…

- Vem, eu posso pedir para meus pais te levarem para casa e… - Giacometti não conseguiu terminar de falar, pois o outro soltou a mão com um puxão. Arregalando os olhos, ele encarou o platinado que parecia muito ressabiado.

- Não… - Viktor começou ao negar enfaticamente com movimentos da cabeça. - Eu não quero ir para minha casa! - bradou aborrecido. - Não quero mais voltar!

- Mas você não pode ficar sozinho… - Chris tornou a segurar-lhe uma das mãos. - Vai ficar mais frio a noite, Viktor! - preocupado, segurou com força a mão do outro que parecia titubear. - Vamos, venha comigo, tenho certeza que meus pais… - mas novamente não pode terminar de falar, pois na entrada do parque, um carro negro havia parado.

Sentindo novo tranco, Giacometti voltou seus olhos na direção do amigo, e o encontrou com os olhos arregalados, as pupilas dilatadas, e antes que pudesse ter alguma reação, uma voz cortante, mas ao mesmo tempo imponente, se fez ouvir.

- Viktor Nikiforov! - a passos largos, rápidos e decididos, um homem de cabelos castanhos escuros, marchou até onde os dois garotinhos estavam.

- Quem é… - a pergunta morrendo na garganta do castanho.

- Pai… - murmurou Viktor, começando a tremer. Temia mais ao seu progenitor do que sua genitora. Segurando forte na mão que tinha entre a sua, fechou os olhos tão logo o homem segurou-o pelos ombros e começou a dar-lhe chacoalhadas.

- O que está pensando, Viktor? - perguntou Yakov, a voz grossa levemente rouca, os olhos um tanto avermelhados. - Acaso está querendo agir como seu tio-avô? - claro que ele não iria deixar de fazer aquela comparação, com o irmão mais velho de seu pai, que havia abdicado de seu nome para viver seu verdadeiro amor. Ao ver o filho negar, deu novo chacoalhão no mesmo. - Sua mãe está desesperada, eu tive de sair no meio de uma reunião importante para te procurar, Viktor! E onde você estava? - ao ver o filho baixar-lhe os olhos, chacoalhou-o uma vez mais.

- Ele estava comigo, senhor! - Christophe respondeu antes que o outro pudesse, ou pensasse em abrir a boca. - Nós estávamos brincando… - parou de falar abruptamente ao receber um olhar furioso de esguelha do homem recém chegado.

- Brincando? - rosnou baixo. - Brincando, Viktor? Eu não sei onde estava com a cabeça de deixar que você fosse ter aulas de piano fora de casa. Acaso pensa que dinheiro cresce em árvores? - ao ver o filho negar, continuou. - Não pago uma fortuna, para que jogue tudo o que lhe proporcionamos pelo ralo! E sua mãe não vai gostar nada em saber que esteve esse tempo todo brincando no meio de garotos que não são de sua estirpe.

- São meus amigos! - Viktor tentou explicar, mas os olhos de seu pai diziam mais do que as palavras que ele havia proferido até aquele momento, e o pequeno sabia que seria melhor ficar quieto, mas sua teimosia infantil parecia o dominar. - Eu queria estar com eles , brincar com eles…

- Um Nikiforov não tem tempo a perder brincando! - rosnou Yakov assustando não só o filho, mas também ao outro pequeno que ainda se encontrava de mãos dadas com seu único filho. - Vamos, teremos muito o que conversar, e quero acalmar sua mãe! - puxando o filho, viu quando este segurou mais forte na mão do outro garoto. - Solte-o Viktor! Eu estou ordenando! Não me faça tomar atitudes drásticas, moleque! - ameaçou.

Arregalando os olhos, o platinado começou a soltar-se do amigo, que preocupado e até mesmo assustado, tentou continuar com o contato, mas foi impedido, parando onde estava ao ver seus pais entrando no parque.

- Nós nos veremos novamente, Viktor, é uma promessa! - Christophe prometeu ao empertigar-se estufando o peito. Seu amiguinho, olhou uma única vez para trás. Correndo de encontro aos pais, ouviu quando seu pai conversou calmamente com o de Viktor, e sem entender nada, mirou seu papai buscando por uma explicação, a qual não fora dita, não imediatamente. Com apenas um movimento de cabeça, o homem alto, loiro e de quem o Giacometti mais novo havia herdado a cor esverdeada das íris, o impediu de perguntar algo que não fosse devido. Conhecia o filho, e sabia muito bem que ele havia herdado não apenas a coloração de seus olhos.

Viktor permaneceu encolhido ao lado de seu pai, que pareceu um tanto aliviado em saber que o outro jovem que estivera com Viktor, era filho de um de seus investidores - realmente o mundo era muito pequeno -, mas aquilo não suavizava em nada a situação para seu herdeiro.

Despedindo-se deles, já na limusine negra, Yakov não lhe dirigiu uma única palavra sequer. Ruminava o que o filho havia feito, e ficar quieto, em sua concepção era uma das piores formas de castigar o platinado, que era sempre muito falante. Sim, o ignorando!

- Papai… desculpe! - pediu Viktor, a voz baixa e muito solene. Ele detestava ser ignorado, e não queria chatear aos pais. Havia feito uma malcriadeza ao fugir, sim, e apesar da pouca idade, sabia estar errado, mas era difícil para ele entender porquê de não poder ser como as outras crianças. Com os olhos marejados, sustentou o olhar severo do lúpus mais velho.

- Fique quieto, Viktor! Pense no que fez! Pense que seus pais quase infartaram com seu sumiço egoísta! - ralhou Yakov, os lábios trêmulos. Ao ver as lágrimas grossas rolando pelas bochechas do menor, trincou os dentes. - Eu disse a sua mãe que deveríamos tê-lo colocado no colégio interno, onde todos de nossa família estudaram! Eu disse a ela que você tinha de ter aulas de línguas e não piano! - estreitou os olhos ao ver o filho o mirar de olhos arregalados. Os soluços sentidos, o alfa lúpus deu-lhe o tiro de misericórdia. - Pare de chorar! Engula o choro, um lúpus não chora! Se não parar, te darei um bom motivo para aí sim chorar! - ameaçou com isso encerrando a conversa, e deixando novamente o silêncio dominar a ambos.

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- Fale mais baixo! - exigiu a alfa lúpus. Sua voz cortante, fria e por deveras enraivecida. - Ele pode nos escutar! - informou Lilia, sabendo que o filho deles, deveria estar no corredor ainda, mesmo tendo recebido um castigo e o comando de que deveria ir para seu quarto e lá ficar até ser liberado novamente.

- Ora! Veja só você quem é que me pede isso? - Yakov dirigiu-se a esposa com um tom irônico e o olhar fincado ao sustentar as íris esverdeadas dela. - Talvez fosse bom que nosso único filho, conheça a mãe amorosa que ele tem! A mulher que preferia ter tido uma carreira brilhante como pianista e não ter filhos! - deixando o corpo cair sobre a poltrona macia, não reparou que sim, Viktor os observava pelo que ficara aberto da porta quando havia passado.

- Você sabia de tudo a esse respeito! - rebateu Lilia, prima em primeiro grau do marido. - Sabia que meus pais não iriam deixar o grande e imponente nome de nossa família cair ao léu por eu não querer seguir os passos de todos os nossos antepassados. - grunhiu ao caminhar até a janela e ficar de costas para o marido. - Nós nunca havíamos trocado olhares… - fez uma pausa ao recordar-se de sua meninez - sabíamos apenas que já estávamos prometidos em casamento, apenas para perpetuarmos nosso linhagem.

- Lilia, ninguém colocou uma arma em sua cabeça para se casar comigo! - sim, Yakov sabia ser um calhorda quando necessário.

- Claro, meu querido, não tinha uma arma, mas algo muito pior pairava sobre toda a nossa querida casa, não? - comentou ao acaso e como quem não quer nada, ao finalmente voltar-se para o marido. Seus olhos brilhavam incontidamente. Ambos se mereciam! - Afinal, ninguém queria que o nome da família fosse mais uma vez enlameado, como seu tio já fez, não é? - sim, nunca ninguém esqueceria o que Nikolai havia feito.

Fincando os pés no chão, Yakov levantou-se rapidamente e marchou em direção da esposa, a qual não se moveu nem por um milímetro. Sentia ganas de lhe enfiar a mão na cara, mas não fora educado para ser um animal. A família tinha seus princípios, e um deles era nunca levantar a mão para um seu igual. Parando a poucos milímetros dela, as respirações se misturando.

- Já lhe disse para não ousar falar sobre ele aqui! - grunhiu encolerizado. - Ele não está mais entre nós, não no seio de nossa família, ele ainda prefere ficar com aqueles ômegas. - cuspiu a última frase ao passar as mãos sobre os cabelos, deu uns passos para trás e se aproximou novamente de sua escrivaninha. Pegando um papel com um brasão timbrado, estendeu-o a mulher, que com os olhos arregalados pareceu estremecer. - Reconhece, não? - e ao vê-la concordar, continuou. - Conversei com Paschall, e ele disse que mesmo já estando no meio do semestre, que as notas de Viktor são muito boas, e que não haverá problemas em adaptação no Institut Le Rosey*!

Sim, não era novidade que todos os filhos da família principal haviam ido para essa instituição. E para Yakov, ter Viktor estudando lá, seria a continuação de uma longa linhagem de lúpus em tão renomado colégio. Mas como da primeira vez, talvez, seus planos novamente fossem frustrados.

- Viktor não tem idade para ir! - murmurou Lilia. Seus olhos se enchendo de lágrimas. Poderiam acusá-la de muitas coisas, mas nunca de ser uma mãe não presente. Todavia, apesar de todo o sofrimento até ter o filho, que no início não queria, ela o amava e não o imaginava longe de si. Se necessário fosse, iria novamente lutar com unhas e dentes por ele.

- Ele tem sim! Meu pai foi para a mesma instituição com apenas oito anos, e é a mesma idade que nosso filho tem. - toda vez que ele se referia ao pai, era de peito estufado. - Eu já acertei tudo com Paschall, esse final de semana Viktor seguirá para Rolle - Suíça, e iniciará seus estudos. Voltará de lá um alfa lúpus melhor. Aprenderá com a nata e… - não conseguiu terminar de falar, pois não contava com o descontrole da mulher, que se orgulhava de dizer que nunca tinha tido um destempero emocional na vida. Talvez por que ninguém tinha mexido com sua cria mais de uma vez.

- Ele não vai! - começou Lilia, que com passos rápidos ao agarrar o marido pela lapela da camisa a qual usava o chacoalhou várias vezes. - Você e aquele diretorzinho de merda, não irão...

Antes que a mulher tivesse a chance de terminar de falar, ouviram um barulho alto no corredor, e a porta do escritório abrir violentamente. Parado na soleira estava o platinado, os olhos marejados, além de estar transtornado.

Ele nunca havia visto seus pais brigarem daquele jeito. Sabia que ambos eram geniosos, e nem sempre entravam em um acordo, mas aquela era a primeira vez que os via daquele jeito. Acusações sendo lançadas de ambas as partes e agora aquilo. Ficando quieto, o jovem Nikiforov controlava a vontade de gritar, e chorar em alto e bom tom, apenas para eles terem a certeza que havia ouvido cada barbárie que ambos estavam a vomitar. Não sabia se sentia culpado ou não, mas saber-se não desejado pela mãe, a mãe que tanto ele temia, mas que mesmo assim ele a amava?

- Você não me queria? - perguntou Viktor. Lágrimas grossas escorriam por seu rosto. - Não queria que eu nascesse? - insistiu arrasado. Para ele não tinha importância se o pai tramava contra ele, o que mais estava lhe doendo o coração, fora saber dos fatos, do passado dos pais pela metade e tirar conclusões precipitadas. - Eu irei pra lá…

- Não, Viktor! Você não irá sair daqui! - Lilia mirava o filho em desespero. - Eu não quero que vá para tão longe de mim! Não faça isso, meu filho! - a ex-musicista mirou enraivecida o marido. Se pudesse o mataria com requintes de crueldade, mas o estrago já havia sido feito, e ela conhecia o filho que tinha. Ele poderia ter um coraçãozinho de ouro, mas talvez nunca a perdoasse pelo que ouvira, mesmo que agora tudo fosse diferente.

- Sábia decisão, filho! - Yakov sorria vitorioso. - Le Rosey é uma ótima instituição, e toda nossa família se deu muito bem por lá. Formando-se com honras, você terá as portas de ótimas universidades abertas! E a Suíça, é um país…

- Suíça? - Viktor finalmente acabara por cair em si. Em sua ânsia de ver-se livre dos problemas que começavam a lhe assolar, não havia prestado atenção que o colégio não era em São Petersburgo. Balançando a cabeça, o platinado saiu correndo sem nada dizer, iria procurar refúgio em sua cama.

- Desmanche esse sorriso, Nikiforov! - certo, Lilia estava fuzilando. Nunca usava o sobrenome da família. Nunca chegara as vias do que iria fazer naquele momento, mas por seu filho, seu único bem, tomaria a decisão mais difícil de sua vida. Esticando o dedo indicador e quase o tocando no nariz do marido, começou. - Viktor não irá para colégio interno nenhum! Ele não saíra de perto de mim, nem desta casa! E se você insistir muito, eu juro por tudo que há de mais sagrado que lhe peço o divórcio, sumo com ele e você não precisará mais fingir que gosta de nossa presença!

- Ora, você não teria essa coragem? - sustentou o olhar ferino da mulher que com o tempo, aprendera a amar, um amor torto, sem parâmetros, mas que para ele era a forma dele de amar.

- Nunca duvide de mim, meu bem! Nunca! - Lilia endireitou mais o corpo e antes de sair, continuou. - Posso não ter sido uma mãe maravilhosa, posso ter errado e pecado em muitas coisas, mas Viktor é o meu bem maior, e eu só quero o melhor para ele, e eu vejo que mandá-lo para longe desta casa, não é o correto, não agora e nem nunca. Não ouse o tirar daqui, não ouse, ou eu não respondo por mim! - ameaçou, e ao sair bateu violentamente a porta, que se fechou com um estrondo.

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Acordando assustado com o estrondo de um trovão, Viktor olhou rapidamente para a pequena e arredondada janela do avião. Piscando forte algumas vezes, notou ao longe o céu ganhando nuances enegrecidas, e o mau tempo encobrindo a beleza do raiar do dia.

Passando as mãos pelo rosto, buscou em seguida por Makkachin, e o fiel escudeiro continuava largado a seus pés. Viktor não saberia dizer se aquilo era bom ou não, mas na atual situação, uma preocupação a menos para si já era de bom tom!

Suspirando aliviado, tentou entender os motivos de ter tido um pesadelo em forma de lembranças… recordações de um tempo que se para ele fosse possível, gostaria de esquecer para sempre. Deixar soterrado por camadas e mais camadas de novas memórias, e quem sabe mais felizes, mas ele sabia que por tudo que havia passado, o havia moldado para o que ele era hoje. E toda aquela preocupação que o assolava, poderia sim ter desencadeado tudo o que parecia ter revivido em forma de pesadelo.

Quando era pequeno, ele não tinha a altivez de seus pais e antepassados. Gostava das coisas simples, e até mesmo hoje em dia poderia dizer que ainda era assim, com apenas algo de diferente: com o passar dos anos percebera que também possuía o porte de seus antepassados, apenas não gostava de agir e pensar como eles. E claro, por ser tão diferente assim, ainda jovem fora muitas vezes castigado.

Para Viktor, as mágoas antigas eram difíceis de serem superadas. E não, ele não se importava com os muitos castigos que teve de enfrentar, mas sim com as palavras ditas em várias situações. A última delas sobre seu tio-avô, e sobre o fato de ter arrastado o nome da família pela lama, ao seguir sua vida por amor ao lado de uma ômega!

"Ômegas, betas, ou mesmo alfas… será que eles não fazem idéia de que quando o fim chega, ele é igual para todos?" - pensou ruminando o quanto seus pais tentaram o moldar da forma que queriam e não conseguiram.

Hoje, com toda a certeza, ele mais uma vez não deixaria os pais falarem de suas escolhas e muito menos de quem ele queria ao seu lado. Sabia que se tudo corresse bem, que ele e seu destinado não voltariam de jeito nenhum para São Petersburgo. E ele irá proteger Yuuri de todo mal e qualquer pessoa, fossem elas seus pais ou não. Ele não o deixaria sofrer mais, o ômega não merecia ter mais sofrimentos em sua vida já um tanto sofrida. Ele havia feito sua mais leal promessa, e nada o faria voltar atrás em sua palavra. Palavra essa que ele fizera bem questão de deixar clara para a mãe e seu pai.

Bem isso o fazia lembrar da última artimanha dos pais, e de uma forma bem sutil, antes mesmo de ir para o Japão em definitivo, Viktor havia conseguido escapar pela segunda ou terceira vez dos planos audaciosos dos velhos. Ele já deixara bem claro que não teria um casamento arranjado fosse com quem fosse, parente ou alguém da nata russa, e a última tentativa, fora dois dias antes de sua partida, com uma beldade romena, que para ele tinha o cheiro de gambá e uma cara de fuinha! De onde tiraram que ela era uma beldade, até hoje ele tentava entender, mas lembrar o deixava com um pouco de bom humor, pois ele deixara a todos com os queixos caídos, quando sumira após dizer que não se casaria sem amar a pessoa.

"Amor! Uma palavrinha tão curta e que tem um significado e poder tão grandes!" - pensou ao lembrar-se do moreno e de sua pequena Akiko. Ainda não poderia dizer que amava Yuuri, seria indelicado, imaturo e muito leviano de sua parte, mas ah! Akiko, a pequena conquistara seu coração, e ele havia jurado não deixar que nada e nem ninguém fariam algo contra ela. Akiko teria como fazer escolhas independente de seu segundo gênero, não seria podada, seria educada da melhor forma possível, e teria o amor incondicional de seus dois papais! Sim, Viktor já se considerava pai da pequena, mesmo sem ainda desposar a Yuuri. Desposar… Palavra também tão simples, mas com um poder muito forte de unir duas pessoas pelo amor… tudo girava em torno daquele sentimento.

Pensar desta forma, fazia Viktor almejar seu futuro ao lado de seu destinado. Ele sabia que não seria fácil, dentro das circunstâncias, mas jurara a si mesmo que teria toda a paciência do mundo para ter sua família unida e sob sua proteção. A mesma proteção que admirava em ver e sentir vindas de sua mãe. Lilia poderia ter seus demônios, ser firme, mas usara de todos os meios para o livrar da sina que o nome Nikiforov carregava.

"É mãe… não será com uma alfa pura que me casarei, e estou deveras curioso para saber como irá reagir o seu coração de mãe, pois de papai não espero nada!" - pensou, ao mordiscar levemente o lábio inferior. Não que se importasse tanto com o que iriam dizer, mas sentia que gostaria pelo menos que sua mãe gostasse de Yuuri. Tivera tanto tempo a matriarca ao seu lado, porque não agora também?

Ele sabia dos vigias do pai, mas esperava que depois da última briga a qual resultou no desmembramento da empresa, e a quebra quase de relações entre eles, que Yakov o deixasse em paz. Novamente a força de sua mãe lhe mostrara o quanto ela o amava.

No meio do calor da discussão, onde pai e filho quase estavam se engalfinhando, fora Lilia, usando de sua sabedoria e força, que apelara em favor do filho. Se hoje Viktor continuava na família, devia a sua mãe, claro que não se importava pelo pai o renegar e desertar, mas sabia que sua mãe não aguentaria tal provação, e faria o que havia dito. Viktor era o seu bem mais precioso, uma parte boa que ela ainda tinha, e como bem lembrara, o último a levar o nome Nikiforov e o sangue puro dos lúpus na face da terra. A família principal, e filho único daquela mulher guerreira, que daria sua vida em prol da dele, mais uma vez demonstrara seu amor torto.

Realmente, Lilia Baranovskaya-Nikiforov era a força do casal, talvez, seu pai nunca entenderia, ou melhor, os entenderia. Talvez, agora entendesse sua mãe. Ambos foram criados como ele, para saberem o seu lugar, e rechaçarem o que não era bom para a linhagem: o que realmente é bom? Essa deveria ser a questão toda!

Suspirando pesadamente, volveu os olhos para a janela ao lado, os primeiros pingos de chuva riscavam o vidro, se pudesse gostaria de estar naquele velho parquinho, tomando toda aquela chuva para lavar e levar embora as incertezas e medos - sim medos, pois ele não sabia como seria recebido -, deixando-o limpo e de mente e coração repletos do que Yuuri fosse mais precisar. Ah! E ele estava chegando! Iria mover céus e terras por seu predestinado, estava decidido!

"Não adianta pensar no que irá acontecer com meus pais! Eles são um caso à parte, você só tem de se preocupar em ajudar Yuuri, e somente a ele, e por fim reunir a família, a família que formaremos!" - pensou Nikiforov, um sorriso bobo a lhe iluminar os lábios.

A pressão dos dias que os separaram, agora pareciam dissipar, e com as idéias clareando, os temores poderiam ser superados. O platinado sabia que não seria fácil, e até por isso, talvez as recordações de sua infância tenha sido avivadas, mas para tudo se tem um propósito, tudo o lembrou do amor e a proteção de sua mãe. A proteção que nunca viu seu pai dispensar nem a ela e muito menos a ele. E daquele dia em diante ele, Viktor, seria a fortaleza para suas duas pessoas especiais e queridas, Yuuri e Akiko!

O aviso de pouso soou alto, e Viktor sentiu seu coração disparar, em pouco tempo estaria chegando as termas, e se tudo corresse bem, ao seu futuro!

Puxando Makka para seu colo, só o deixou voltar ao chão quando a aeronave já havia parado. Com uma rápida conversa com Georgi, despediu-se do mesmo, aliviado por este imaginar que estava ali a trabalho, e que o mesmo poderia voltar para a Rússia.

Já fora do aeroporto, e um tanto curioso, por fim, Viktor decidiu-se por ir para a pequena Hasetsu de trem. Conseguiu que Makka fosse com ele após muito explicar que era um cão dócil, e que não saíria da caixa transporte. Não o queria em compartimento de bagagens frio e sozinho. Já acomodado, sentou-se sabendo que seu destino estava a poucas horas de si, e esperava de coração estar chegando em uma boa hora.

oOoOoOo

Explicações e curiosidades:

* O Instituto Le Rosey, estabelecido em 1880, é o mais antigo internato particular da Suíça, essa instituição foi criada para educar jovens promissores, localizada em Rolle no Cantão de Vaud, é uma das instituições educacionais mais exclusivas do mundo. Oferece educação bilíngue e multicultural com estudos em francês ou em inglês a estudantes (com idade entre 9 a 19 anos) que vêm de diferentes países. Le Rosey recentemente têm oferecido bolsas de estudos e começou a aceitar mais estudantes suíços.
Le Rosey é o maior e mais antigo colégio interno no país. Conhecido como a "Escola dos Reis" por educar príncipes e princesas, Le Rosey é o lar dos fazedores da história de diferentes partes do mundo. Então, se algum dia você for para lá, é provável que seus colegas sejam filhos de pessoas muito poderosas. No inverno, a escola muda-se para seu segundo campus, um resort de esqui nos Alpes para "escapar da névoa do inverno que cai na área do lago Léman". Além do currículo acadêmico, os alunos têm atividades desportivas e de arte todos os dias para melhorar sua experiência de "inteligência múltipla".
Localização: Rolle, Suíça
. /conheca-treze-escolas-privadas-extremamente-ricos/

Cantinho Rosa e Azul:

Primeiro de tudo gostaríamos de pedir desculpas por mais um atraso, mas como sabem, já não somos mais tão jovenzinhas, e as agruras da vida aqui fora do mundinho das fanfics, por vezes nos cobra um alto preço.

Esperamos de coração, que apreciem esse capítulo, mas como explicado no início, ele ainda não foi revisado por nossa beta e amiga, LadyCignus! Assim que isso for possível, ele será atualizado e feito as devidas correções.

Viktor: Yuu… elas demoraram muito dessa vez, não?

Yuuri: Vitya, pelos céus… *volvendo os olhos na direção das duas amigas*

Almaro: Coelha, você está ouvindo alguma coisa? *arqueando as sobrancelhas*

Theka: Não, minha cara! Eu acho que deva ser algum mosquitinho muito do irritante! *riso de troça a iluminar os lábios* Vamos jogar uma baforada de mata moscas para ver se resolve a situação!

Almaro: Bem pensado!

Viktor: Ei! Não somos mosquinhas não! *exclamou o platinado ao puxar o moreno para longe da mira das duas ficwriters* Melhor irmos ficar no quarto, vai que essas duas diabas fazem algo contra nós!

Theka: Ora, mas veja só você, lindona!

Almaro: Pois é, Coelha! *arqueando as sobrancelhas* Vamos aproveitar que estamos sozinhas?

Theka: Ah! Sim… vamos! *sorrindo*
Obrigado para você que não desistiu de nós e muito menos de nosso trabalho! Esperamos de coração que tenham gostado, e se sim, deixem seus comentários, isso nos deixará muito feliz!

Assim, beijos e até a próxima
Almaro & Theka