Lembretes e explicações no final do capítulo
Beta: LadyCygnus, nosso carinho, amizade ever and ever! Dear, obrigado por mais uma vez nos ajudar!
Parceria com a ficwriter Almaro ^^
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Alguns dias haviam se passado desde a conversa que Mari havia tido com ele e o ômega achava muito pouco o que ele havia conseguido fazer até aquele momento. De fato, ele sabia que nada seria fácil e que tudo teria um processo lento. Ele fora consultar-se com a psicóloga e apesar de seu pessimismo, tivera de concordar com tudo que lhe fora dito. Realmente, a doutora Harada lhe surpreendera de todas as maneiras. Uma beta confiável em todos os sentidos, como o doutor Altin havia lhe garantido.
A dor da separação, a dor da perda de sua pequena Akiko ainda residia em seu peito, mas Yuuri já não se deixava abater mais. Haviam as recaídas, mas como a doutora mesmo tinha lhe dito, no começo essas situações voltariam, mas ele precisava ser perseverante! Sempre um passo após o outro, um dia depois do outro.
A insegurança, essa era uma constante para ele e até mesmo por esse motivo o japonês se cobrava demais e entrava em conflitos consigo mesmo, deixando sua ansiedade tomar-lhe conta de todo seu ser. E não eram poucas coisas, ou pequenas coisas. Por vezes tudo girava em torno de seus traumas e o medo de seu predestinado ser igual a Akira! Yuuri tinha consciência de que não poderia julgar uma pessoa sem a conhecer direito, mas era maior do que ele e por vezes se pegava aos prantos em desespero apenas por tentar imaginar como o alfa platinado agiria. Se realmente iria aceitá-lo como ele era.
Geralmente quando isso acontecia, Katsuki recorria às pequenas recordações do dia que Viktor havia surgido em sua vida. Era até meio contraditório o que sentia e ele sabia que era errado julgar a única pessoa, fora seus pais e irmã, que o havia tratado como uma pessoa merecedora, não ligando para seu segundo gênero.
Checando as horas em seu discreto relógio de pulso, Yuuri volveu os olhos para o céu límpido e se encolheu ao sentir o vento frio cortar-lhe a face e o corpo. Estava sentado no banco de madeira aos pés da cerejeira na área reservada da parte familiar dentro das termas, que naqueles dias também tinha as poucas folhagens restantes ganhando tons de alaranjado para levemente amarelados. Com um suspiro pesaroso, imaginou-se em uma outra época, onde a frondosa árvore estaria carregada com suas flores rosadas.
Fechando os olhos, parecia que conseguia ouvir seus pais, Mari e ele rindo, conversando enquanto garotinho no alto de seus sete anos, escalando os galhos mais baixos para buscar colher as delicadas flores que ainda não começaram a cair.
Recostando o corpo no banco, Yuuri deixou-se levar pelas emoções contidas naquelas recordações. Lembrava perfeitamente bem, como era divertido tentar pegar várias flores de cerejeira, apenas para poder tentar fazer uma linda coroa com as delicadas e pequenas coisinhas cor de rosa.
Naquela época, ele nem sonhava com as preocupações que chegaria a ter quando se tornasse um adulto. Seus sonhos eram outros; gostava de brincar de adivinhações e, por vezes, idealizar seu futuro.
Queria ser um alfa, como seu pai, ter um soulmate amoroso e em sua cabecinha, seu par ideal não seria um igual, ou melhor, não seria um japonês.
Um sorriso iluminou-lhe a face ao lembrar desse pequeno pormenor. Desse pequeno fragmento de memória. Abraçando o próprio corpo, tentou espantar assim um pouco do frio. Fechou os olhos mais uma vez e deixou-se dominar pelos sentimentos nostálgicos que o assolavam.
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Os finais de semana nas termas geralmente eram um pouco mais calmos. E, com as temperaturas baixando gradativamente, quase ninguém queria sair no frio sujeito a pegar a neve que caía lenta mas constantemente. E até mesmo por isso, a família Katsuki encontrava-se reunida na sala onde ficavam as mesas e a TV, em um típico momento de descontração. Até mesmo, Airi, a Shiba-Inu caramelo de seis anos, se encontrava enrodilhada ao lado de seu pequeno dono.
Haviam acabado de almoçar e depois de um certo tempo, Hiroko levantara-se e, com o auxílio dos filhos, retirou as coisas da mesa. A tarefa de lavar e enxugar a louça utilizada era mais divertida quando os filhos a estavam rodeando. E naquela tarde fria, Mari e Hiroko haviam engatado em uma conversa divertida a respeito de Yuuri, que no dia anterior ao se atirar seguindo Airi para o quintal havia afundado na neve, ficando somente com suas pequenas mãos para fora da branca camada que tomava todo o que deveria ser o gramado dos fundos da habitação.
O pequeno tinha as bochechas rosadas, estava mais do que envergonhado por ser o motivo da atenção das duas.
- Eu poderia sair sozinho, Mari-neesan! - respondeu Yuuri ao fazer um leve beicinho de descontentamento.
- Então, eu deveria ignorar seus apelos gritados de socorro? - perguntou a morena mais velha, ao agachar ao lado dele e acariciar Airi, ao mesmo tempo que desalinhava os fios ébanos do irmãozinho.
- Hmm… não! - Yuuri respondeu a contragosto, ao mesmo tempo que tentava afastar a mão da irmã de sua cabeça. - Nee-san! - aumentou o tom de voz ao olhar irritado para a irmã.
- Okaasan, veja isso! - Mari chamou a atenção da genitora, mas sem tirar agora as mãos do irmão, que estava o torturando ao lhe fazer cócegas. O riso do menor quebrando o pouco silêncio que a cozinha se encontrava.
- Pára, Mari-nee! Páraaa… - Yuuri pedia entre o riso, quase engasgando, tendo até mesmo a Shiba sobre os dois, os lambendo, como quem também quisesse participar da brincadeira.
Enquanto a brincadeira parecia saudável, Hiroko não havia dito nada, mas ao escutar seu caçula engasgar, volveu seus olhos na direção dos filhos e se aproximando dos dois, tirou Mari de cima de Yuuri.
- Okaasan! - Mari no alto de seus doze anos retrucou ao ser colocada longe.
- Não seja assim, meu bem! - Hiroko ralhou, mas sempre com a expressão serena. Ninguém poderia dizer que ela e o marido tratavam os filhos com indiferença ou mesmo mal. - Yuuri é muito pequeno para alguns tipos de brincadeiras. - informou ao mirar o pequeno nos olhos.
- Nie… num so'! - murmurou Yuuri ao tornar a se sentar e puxar Airi para seus braços. - Eu já tenho seis anos…
- Oh, sim e já é um homem feito! - gracejou Mari ao lhe dar língua. - Um daqueles que é preciso ser salvo do acúmulo de neve! - e gargalhou em deboche.
- Okaasan! - Yuuri chamou pela mãe ao perceber que de fato, ele era mesmo uma criança e que precisava de auxílio, fosse para o que fosse.
Antes mesmo que a mãe pudesse ralhar com ela, Mari mostrou a língua mais uma vez para o irmão e voltou para junto do pai na sala. Yuuri não era um garotinho mimado, mas era mais sensitivo e se magoava com muito facilidade.
Hiroko voltou seus olhos mais uma vez para seu caçula e sorriu ao vê-lo lançar a bolinha vermelha para que Airi fosse buscar.
- Airi… a bolinha! - murmurou Yuuri ao perceber que a companheira desde que era um bebê, não queria ir buscar. - Pega, vai! - instigou, mas a cachorrinha sentou-se à frente de seu jovem mestre e deitando a língua rosada para fora da boca, passou a lamber onde conseguia do rosto rechonchudo do dono.
A risada divertida do pequenino enchia o coração de Hiroko de felicidade. Adorava ter os filhos tão próximos a si e gostava mais ainda quando o seu caçula passava um tempo, mesmo que em seu mundinho onde Airi era sua melhor companhia para tudo. Por vezes, ele lembrava de incluir a mãe e contar-lhe seus mais mirabolantes sonhos.
- Sabe, okaasan! - começou o pequeno a olhando com interesse, e esperando até que ela lhe desse atenção para continuar.
- Diga meu bem! - pediu para que assim ele continuasse a falar.
- Eu vou ser um alfa igual ao otousan, né? - começou ainda sem voltar os olhos para sua mãe e antes que ela lhe respondesse como sempre, Yuuri disparou a falar, ainda dispensando todo seu carinho para a cachorrinha. - Pois eu serei e assim como okaasan e otousan, terei um… um… sou…
- Um soulmate? Uma linda ômega como eu? - gracejou ao interrompê-lo. Hiroko em sua juventude e ainda mais velha, sempre fora uma mulher linda, não com os padrões que muitos cultuavam, mas aos olhos dos seus, ah! Era fenomenal e até mesmo por isso adorava brincar daquela forma com o filho.
- Não, okaasan! - como toda criança inocente, Yuuri não iria enganar sua mãe a respeito de seus sonhos infantis. - Não será como a senhora! Meu soul, meu sou…
- Mate!
- Isso, isso aí que okaasan falou. - sorriu em agradecimento, para logo continuar com seu raciocínio. - Vai ser um ômega, terá cabelos brancos e os olhos tão lindos, okaasan! - divagou finalmente olhando para a mulher, que havia parado de fazer o que fazia e olhava espantada para o filho.
- E que cor serão os olhos dele, meu bem? - perguntou Hiroko ao colocar a mão sobre o coração. Somente uma pessoa na família Katsuki também havia descrito seu mate e era a bisavó do pequeno, o que ela vivia dizendo ser algo especial. E de certa forma, fora mesmo, pois ela sendo uma ômega, tinha conseguido manter a família apesar das adversidades que o destino fora colocando no caminho deles. Balançando a cabeça para afastar o que realmente havia pensado e chegado a conclusão, pediu carinhosamente. - Como foi que disse, meu bem? - não havia prestado atenção ao que ele lhe dizia.
- Ah! Okaasan! Ele terá olhos azuis como os céus, como o oceano daquelas fotos do otousan! - e com um sorriso enorme, tornou a olhar para a mulher que agora sustentava-lhe o olhar.
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- Olhos tão azuis… - murmurou Yuuri ao mirar o céu entre os galhos secos da cerejeira. - Cabelos platinados, sim de fato eu estava certo pelo menos em alguma coisa, não? - sorriu, um sorriso triste, pois mesmo aceitando algumas coisas, mesmo assim o destino lhe pregara uma peça enorme aos quinze anos, ao revelar-lhe seu segundo gênero.
Mordiscando o lábio com pesar, escondeu o rosto entre os braços e os joelhos dobrados. Se não estava enganado, encontrara a mãe sentada ali mesmo sobre a sombra da árvore frondosa, naquele dia fatídico.
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Aquele era um dia que para alguns poucos alunos do colégio ao qual Yuuri frequentava seriam feitos os exames para saberem qual seria o segundo gênero dos adolescentes com a idade limite. Seria necessário fazer uma coleta de um pouco de sangue pelo médico escolar e o resultado seria entregue dali poucos dias.
Retirar a amostra de sangue não fora nem um pouco difícil, a ansiedade de obter o resultado esperado sim fora bem pior, pois Yuuri queria dar orgulho para sua família e queria muito poder continuar os genes dos Katsukis, mas novamente seus pais foram tão amáveis, pois não importava o que fosse seu outro gênero, Yuuri sempre seria um orgulho aos olhos de seus genitores. Nunca, em hipótese alguma, eles demonstraram que torciam e queriam que ele fosse um alfa.
- Meu bem - Hiroko acarinhou os cabelos do filho assim que este chegara do colégio no sétimo dia após o exame - , Yuuri… O que foi, meu amor? - com delicadeza fez com que o caçula lhe mirasse nos olhos. - Você está me preocupando, meu bem! O que aconteceu?
Sem nada dizer, o jovem puxou de sua mochila o pequeno envelope pardo e com ele uma outra carta que dentro também havia uma cartela com trinta comprimidos de supressores.
Um tanto intrigada, a japonesa abriu o envelope pardo e leu, releu e tornou a ler o resultado do exame. Sem dizer nada, Hiroko puxou seu bebê para os braços e deixou que o mesmo colocasse para fora suas frustrações. Em sua cabeça, não sabia como poderia confortar seu filho, um jovem tão solícito e por vezes deixando a timidez de lado para se impor quando era necessário.
- Shiii… meu amor! Não chore. - pediu com a voz calma, ao acarinhar as costas dele.
- Era para eu ser um alfa… - murmurou inconsolável.
- Não, não importa, Yuuri! Você é amado pelo que é e de modo algum eu ou seu pai vamos deixar de amá-lo por conta disso! - e beijou-lhe a fronte, carinhosamente limpando as lágrimas teimosas que lhe marcavam o rosto bonito.
- Isso está errado, okaasan! - choramingou inconsolável. Sabia o que acontecia com quem não era alfa. - Por favor, okaasan, eu preciso fazer o exame de novo. Devem ter trocado minha amostra sanguínea! - pediu ao segurar fortemente nas roupas que a mãe usava nas termas.
Em silêncio Hiroko abraçou o filho mais uma vez. Não precisava dizer mais nada. Iria sim levá-lo para fazer uma segunda prova, mas em seu coração, sabia que de nada adiantaria. Seu precioso filho carregaria a mesma sina que ela tivera de carregar até ter Toshiya a seu lado.
Sem se preocupar com o outro envelope por hora, a matrona Katsuki levou o filho para dentro, o fazendo caminhar ainda agarrado a ela e tentou acalmá-lo fazendo com que esse bebesse um chá calmante.
No dia seguinte, logo bem cedo, ao em vez do Katsuki estar seguindo para o colégio, fora com os pais até o consultório do doutor Yamagushi, médico esse que cuidava da saúde de todos eles. Sendo de confiança, este não iria fazer alarde devido ao segundo gênero do jovem. Todo aquele cuidado se dava justamente por conta dos desaparecimentos de vários jovens ômegas, principalmente machos, pois estes eram tidos como casos raros. As notícias sensacionalistas diziam que havia um comércio ilegal, mas nunca fora conseguido se provar se era mesmo a verdade. E faziam poucos dias que alguns jovens de vários distritos e até mesmo da pequena ilha Hasetsu, constavam nas listas de desaparecidos.
Feito a coleta, o doutor baixinho e atarracado, pediu extrema urgência. Ele até pediu para que eles voltassem mais tarde, mas os Katsukis acharam melhor esperar, passando assim o dia fora das termas como não faziam há tempos.
Ao finalmente pegarem o resultado e deixarem que Toshiya abrisse o envelope, este baixou os olhos com pesar e não foi preciso dizer mais nada. Abraçando o filho com força, Hiroko puxou-o para seu peito. Pensara que ele fosse chorar novamente, mas nenhuma lágrima rolou por seu rosto.
- Yuu, meu anjo, como disse antes, nada irá mudar!
- Como não, okaasan? - Yuuri perguntou um tanto alterado. - Vocês não leram a carta do médico da escola, não é? - perguntou, e ao ver os pais negarem, continuou sem se importar com o doutor Yamagushi. - Para que não revele meu segundo gênero aos colegas em hipótese alguma, devido à onda de sequestro e também para evitar desgastes… Desgastes futuros? O que será da minha vida? Corro perigo? - murmurou ao tornar a abraçar a mãe. - Serei um recluso?
- Oh, meu amor! Sua vida seguirá e você será brilhante! - fez uma pausa e antes de ser interrompida continuou. - É um dom precioso ser como você, meu filho, por isso temos que te proteger! E assim o faremos. - mirou-o com convicção tentando passar uma calmaria que estava longe de conseguir naquele momento.
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Sim, Yuuri sorriu de lado. Fora a primeira de muitas vezes que a mãe lhe dissera aquilo. E novamente a desejou ali, antes da doença que a levou para longe deles e antes de Akira.
Balançando a cabeça, tentou espantar para longe de si o pensamento que o acometeu. Teria de fazer como a psicóloga havia lhe dito, não se deixar abater. E bem, se Yuuri fosse como antigamente, talvez até fosse um tanto mais fácil! Mas de nada adiantaria pensar no que teria sido, de como teria se portado, pois sua realidade era outra e as lembranças, eram apenas isso… lembranças.
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Como prometido, os pais começaram a protegê-lo bem mais, afastando possíveis alfas que conseguiam sentir o olor de cerejeiras que ele ainda não aprendera a controlar totalmente. Fora tirado da escola e bons predecessores foram contratados para que ele terminasse seus estudos. E seus pais estavam enganados apenas em uma coisa: Yuuri não sentia falta de estar com os amigos, pois estes ele não os tinha. Eram apenas pessoas sem importância que ele tinha de conviver. Na realidade ele nunca fora um garoto de ter um grupo, ou mesmo um único colega mais próximo. Então por isso mesmo ele não se deixava abater.
Quando queria sair, estava sempre acompanhado por alguém da família. A única coisa que lhe incomodava de verdade, era não poder seguir para uma universidade e se graduar no curso que gostaria de fazer, seus sonhos haviam sido podados pela raiz, mas sabia que teria de se conformar com sua condição e de como trabalho para ômegas eram praticamente inexistentes.
Era difícil o ômega Katsuki baixar a cabeça, fora ensinado muito bem por sua mãe, que deveria ter orgulho de si mesmo.
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- Hmm… - bufou exasperado consigo mesmo, por lembrar-se de seu orgulho a muito perdido. - Orgulho que me foi estilhaçado. - murmurou ao volver os olhos para o lado. - Se mamãe estivesse viva… - parou de falar antes de completar a frase e, ficando um pouco de pé, deu a volta até perto da sebe que naquele momento tinha também as folhas levemente amarronzadas, queimadas pelas baixas temperaturas que já começavam a ficarem mais rígidas e constantes.
Abaixou-se, puxando algumas folhas para longe da pequena lápide de pedra colocada apenas para sinalizar onde a fiel Airi fora sepultada.
- Minha doce amiguinha, prometo que assim que entrar, irei lhe prestar as devidas homenagens. - murmurou antes de voltar para o mesmo lugar e tornar a se sentar.
Ao colocar os pés para cima do banco, deixou o rosto novamente afundar entre os braços e os joelhos. Fungando, aspirou o ar carregado do próprio feromônio. O olor de cerejeiras quase o afogando. Teria de tomar mais cuidado, ou acabaria tendo outro alfa que não o seu sendo atraído para as termas. Não queria que outros soubessem, como havia acontecido com Akira. Só de lembrar disso, o ômega sentiu seu corpo todo estremecer de medo.
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Deveria estar faltando pouca coisas para terminarem a arrumação da parte que tivera de passar por reformas nas termas. A movimentação de pessoas estranhas já havia terminado e Yuuri estava suspirando aliviado, pois pelas suas contas, um novo heat se aproximava. Seu feromônio já começava a vencer as barreiras dos supressores e redutores de cheiro que costumava usar quando era necessário deixar o ciclo do heat acontecer.
Estava sentado em seu quarto, a porta aberta deixando a brisa arejar o cômodo um pouco. Imaginava que somente sua família estava na residência, mas fora um ledo engano. Equivocara-se e quando sua irmã surgindo do nada, fechando a porta mais branca que papel, este se empertigou.
- O que… - não teve tempo de terminar sua frase, pois Mari descarregara um vidro de spray de neutralizador de cheiro. Preocupado, o jovem nipônico se colocou de pé e segurando a irmã pelos ombros, franziu o cenho enrugado o nariz no processo. Era tarde e pela janela aberta um cheiro acre chegou até suas narinas o deixando enjoado. Mas mesmo com tal sentimento de repulsa, sentia vontade de se aproximar da janela e ver quem era o dono de tal cheiro insuportável.
- Não apareça na janela! - impediu Mari ao contê-lo segurando-o pelas mãos, ao mesmo tempo em que o puxava para longe da única entrada de ar no cubículo em que se encontravam. - Aquele amigo nojento de otousan sentiu seu cheiro. Okaasan disfarçou dizendo ser de nossa cerejeira, mas ao que parece ele não acreditou muito, visto que justo por esses dias, você não se encontrava em local algum. Eu disse que ele não tirava os olhos de você desde a última vez que aqui esteve em férias! - a morena parecia muito preocupada.
Colocando a mão sobre o peito, Yuuri mordiscou o lábio inferior. De todas as pessoas que poderiam descobrir seu segredo, tinha logo de ser aquele velho babão? Claro que o ômega havia percebido as investidas veladas, ele nunca fora um bobo como todos eles pensaram que seria. E como sempre, ele nunca dera atenção a essas investidas. Como sua mãe havia lhe ensinado usava o orgulho para dar um jeito de negar o que vinha escondido nas bajulações ou qualquer outra coisa que partisse do alfa. Mas ele tinha de dar mão a palmatória, ainda era jovem e inexperiente, e ter um alfa - mesmo que sendo conhecido da família já alguns anos e sócio do pai - aquilo era muito preocupante.
- Mari-nee… - ficou um tanto pensativo antes de colocar em palavra o que queria saber - o que okaasan falou a você? - perguntou receoso.
- Ela não teve tempo. Eu saí correndo ao escutá-lo fazer um comentário absurdo com otousan e já vim com o neutralizador de cheiro. - Mari tentou ocultar na realidade o que ela também além de ter ouvido, percebera.
- O que foi que ele disse? - perguntou um tanto ressabiado e um tanto amedrontado do que poderia vir.
Mari não queria contar de forma alguma, mas também não poderia deixar o irmão nas sombras e, quem sabe, correndo o risco de cair em uma armação daquele ser ladino que o pai deles costumava chamar de amigo.
- Shimizu-san disse ao otousan que se você fosse um ômega, que ele gostaria de cortejá-lo devidamente, pois é um belíssimo espécime! - parou de falar ao ver o irmão perdendo a cor. - Mas calma - pediu, tentando que ele se acalmasse -, otousan disse que você além de não ter idade para isso, que você é um beta. - e baixou os olhos. - Otousan não gostou nem um pouco e deixou bem a entender que ele tem a idade para ser seu pai!
- Entendo… mas ele não acreditou, não é? - perguntou mais para ter certeza do que havia conseguido entender escrito nas entrelinhas.
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- Não só não acreditou, como passou a ser uma visita constante nas termas! - Yuuri murmurou para si mesmo. Todos sabiam que não havia necessidade, mas Akira sempre aparecia até conseguir o que queria. Parecia até que o mesmo havia feito algo para que a cruel doença que ceifara Hiroko do convívio com sua família, fora o alfa atrevido quem fizera.
Fechando os punhos com força, o ômega tentou afastar a presença do alfa que tinha asco em ter de respeitar como marido. Se quando era criança, achava que seu futuro seria promissor, agora já não poderia dizer isso com convicção.
Como gostaria de voltar no tempo! Mas ele sabia que aquilo era impossível; agora Yuuri tinha de se contentar com o que a vida estava a lhe ofertar. Quem sabe uma segunda chance…
Em meio a todas essas desventuras e no pequeno mal estar que o acometia, levou um susto dando um pulo sobre o banco de madeira. Algo gelado tocou sua pele para logo em seguida o deslizar de algo quente e molhado. Levantando o rosto o mais rápido que podia, sorriu ao reparar no grande cão marrom a encará-lo.
- Olá, amiguinho! - saudou-o ao acariciar os pelos da cabeça do animal, que eufórico respondeu-lhe com um latido como se estivesse mesmo a responder-lhe. - Ora, mas como você veio parar aqui? - perguntou ao afagar as orelhas caídas do poodle e o receber entre os braços.
Enterrando o rosto na pelagem fofa, inalou um odor que para Yuuri já era um tanto conhecido e até mesmo saudosista. Curioso, tateou à procura de uma coleira de identificação e quando a encontrou soterrada pelos pêlos macios e encaracolados, puxou-a um pouco para poder ver o nome do cão, que estava escrito em inglês e algo que não lembrava ao japonês, talvez algo inscrito em russo.
Arregalando os olhos, abraçou novamente o cão, com um leve sorriso abobalhado. Não seria possível, ou seria? Como ele o havia encontrado? Bem, talvez fosse melhor deixar as preocupações para lá e lembrar de tudo o que vinha buscando com seu tratamento. Não deveria desconfiar e nem julgar sem antes deixar que o alfa recém chegado mostrasse quem realmente ele era!
- Seja bem vindo, Makkachin! - Yuuri desejou, já imaginando como seria o reencontro de ambos, mas era melhor não começar a sonhar acordado, para não levar um tombo ao se desapontar. E também, por mais que houvesse desejado ser encontrado, também queria o inverso. Sentimentos muito adversos e conflitantes, mas que ele sabia, devido as sessões com a psicóloga, que ele teria de as vencer para poder se dar uma chance. - Onde está seu dono, hein? - perguntou ao se levantar para voltar para seu quarto. Não queria que o platinado o visse daquele jeito. Eles poderiam esperar mais um pouco para se encontrarem e Yuuri gostaria muito de que o outro não o visse do jeito que estava, usando um jinbei verde musgo sem graça! Bem, e verdade fosse dita, estava pedindo para ficar doente, pois a temperatura fora do onsen estava muito baixa para uma roupa mais para o verão.
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Explicações:
Jinbei ou Hippari é um conjunto de happi com shorts ou calças, usado como uma espécie de pijama no verão. Todos podem usá-lo, tanto homens, como mulheres e crianças. Como é uma roupa para o verão, ele é feito com tecidos leves, geralmente algodão.
Pesquisa: Kimonos Arisa's Art kimonosarisasart. blogspot 2015 /03/ jinbei-o -que
Cantinho Rosa e Azul:
Viktor: Finalmente um novo capítulo no ar! *mirando sobre o ombro da Coelha o capítulo que esta está a arrumar para colocar no ar*
Yuuri: Vitya, se eu fosse você, eu não diria mais nada! *mirando o olhar decidido da loira, e a troca de olhares entre as duas ficwriters*
Almaro: Coelha amiguinha, talvez fosse melhor em um dos próximos capítulos separarmos de vez certo casal, o que me diz? *riso traquina*
Theka: Lindona, acho que seria muito interessante e digo mais…
Viktor: Epa! Pera lá! Sem essa de digo mai… Yuuu *parando de falar ao ser puxando para longe pelo moreno*
Yuuri: Não sei quanto a você, seu toupeira, mas eu não quero deixar essas duas irritadas. Estou sabendo que a Coelha não anda com seu emocional muito bom, e vai que ela tem uma recaída e pra piorar a situação queira não mais escrever fics conosco? *fazendo o platinado ficar calado e pensativo* Então, vamos para lá, não irrita quem gosta da gente!
Theka: Lindona, alguém com bom senso!
Almaro: Amo isso nesse japinha!
É… e quem não ama? ^^
Bom, cá estamos com mais um capítulo fresquinho. Esperamos que todos apreciem um pouquinho mais, e ainda mais por sabermos mais um pouco desse nosso xodozinho! Se chegaram até aqui, e gostaram, deixe-nos saber! Nos contem o que acharam, para que assim possamos continuar com nosso trabalho.
Almaro e eu, Theka, desejamos a todos um Bom Ano, e para quem escreve como nós, que tenham muita inspiração!
Beijos
