Lembretes e explicações no final do capítulo
Capítulo ainda sem seleção de nossa versão Beta. Assim que possível, faremos uma substituição pelo betado.
Qualquer erro, será corrigido depois!
Parceria com um ficwriter Almaro ^^
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Yuuri havia seguido o caminho inverso ao que o mascote do russo desaparecera. Não gostara nem um pouco por ter enganado o belo poodle, mas não queria ser visto estando vestido de qualquer jeito. Não se achava preparado para ter com o recém chegado, e também havia o fato de estar a tanto tempo fora com roupas inadequadas, que gostaria de evitar um confronto com a irmã. Realmente, ela iria lhe perguntar coisas, que nem mesmo ele poderia responder, tais como: o que estava pensando ao sair daquele jeito para o frio quintal?
Deixando os pensamentos sobre o que havia feito de lado. Tornou a lembrar de seu encontro com o mascote do alfa que ali chegara. Seu coração batia descompassado no peito quando finalmente adentrara pela porta principal, evitando assim passar pela cozinha, pois ele tinha absoluta certeza, que Mari estaria interrogando o Nikiforov ali. Conhecia muito bem a irmã, e compreendia o fato dela agir daquela forma. Talvez se a situação fosse inversa, ele também teria a mesma postura. E bem, aproveitando-se disso, entrara em silêncio, sem se deter por nada, seguindo para seu antigo quarto, onde algumas coisas suas se encontravam guardadas.
Fechando a porta lentamente, trancou-a, e se aproximando de sua velha mesa de estudos, buscou por uma caixa quadrada de tamanho razoável, onde se encontrava aquele feio e rude objeto opressor. Com um suspiro desanimado, deixou a caixa onde estava, e sem pensar, aproximou-se da janela. Afastando a cortina lentamente, Yuuri tentou ver o pátio traseiro, mas para seu desgosto, ou até mesmo alívio, o local se encontrava vazio.
Voltando sua atenção para outra coisa, mirou os antigos porta-retratos, que se encontravam espalhados pela mesa de estudos, e até na mesinha de cabeceira. Pegando um em questão, observou a família feliz que eram há uns anos atrás. Um saudosismo apoderou-se do moreno, e pensamentos de como teria sido se sua mãe não tivesse adoecido lhe assolaram a alma. Balançando a cabeça, Yuuri tentou afastar os pensamentos tristes, e tornou a olhar para a caixa de mogno, e ao abri-la, revelar a coleira de couro escura, resistente para a colocar em seu pescoço. Sabia que não seria necessário usá-la, mas aquele ato já era tão automático a se fazer, ainda mais na presença de um alfa, mesmo esse sendo seu destinado. Ele sentia que com o alfa russo tudo seria diferente, e ele tinha de se apegar a esse sentimento, pois se assim não o fizesse, tinha medo de dar o próximo passo!
Precisava voltar para o quarto maior o qual estava utilizando. Recolocando o quadro em seu devido lugar, ficou em pé, mas não seguiu o que tinha em mente. Seus pés seguiram para outro local, preferindo dar mais uma olhada pela janela. Contendo a respiração, o Katsuki por fim o avistou. O russo estava sentado no mesmo lugar em que estivera até a pouco. Uma quentura gostosa se apossou de todo o seu ser. Queria poder ver-lhe a face bonita, as íris cerúleas a mirá-lo com intensidade. Sentir o delicioso e refrescante olor de pinheiro. Se imaginar longe de todos seus problemas, e envolvido naquela calmaria, a qual o feromônio de seu destinado lhe remetia. Com um suspiro, farejou o ar instintivamente, buscando, tentando sentir aquela deliciosa fragrância, mas apenas o que lhe enchera as narinas e os pulmões fora o ar carregado de seu próprio odor.
Baixando um tanto os olhos, mirou as mãos sobre o próprio ventre já liso. Balançando a cabeça, lançou para longe os pensamentos tristes. Ao tornar a mirar o platinado, só teve tempo de deslizar rapidamente para o lado, fugindo assim do olhar alheio.
Sentia o coração bater desenfreado no peito. Já não era mais um adolescente, e não podia dar-se ao luxo de passar por aquilo, mas tudo era tão novo! Nunca pode experimentar o que os jovens diziam sentir quando apaixonados, e agora achava que tudo que ouvira da mãe e irmã, seria algo de pouca importância, mas Yuuri sentia o rosto em chamas, o coração em batidas fortes e alucinado no peito. Com um sorriso bobo, espalmou as mãos sobre o peito na altura de seu coração.
- Katsuki Yuuri, contenha-se! - murmurou para si mesmo. - Primeiro conheça as intenções deste alfa! - ruminou antes de mais uma vez espiar pela janela, e para surpresa do moreno, o alfa estava de costas para ele, em pé e parecia estar falando em seu eletrônico. Observando melhor o corpo do platinado, mordiscando o lábio inferior, forçou-se a sair de onde estava. Precisava estar apresentável para quando finalmente se encontrassem.
Levando consigo a caixa de madeira, ao chegar no quarto espaçoso, separou algo confortável para usar, e saindo apressado, seguiu para a ala particular a qual era reservada para a família. Podia ter usado o banheiro de seu quarto, mas Yuuri queria poder relaxar, e quem sabe, idealizar como iria reagir e se portar perante esse homem que mesmo sem o conhecer direito, sentia que deveria, e poderia confiar.
Após deixar suas roupas e mudas limpas em um dos armários, seguiu até a ducha, e por fim entrou lentamente deixando as águas termais lhe envolver o corpo. Com um suspiro satisfeito, recostou-se sentado próximo as pedras, colocando uma pequena toalha ocultando seus olhos. Quando começava a notar seu corpo mais leve, sentiu aquele olor que tanto almejara. Ressabiado, retirou rapidamente a peça clara dos olhos, volvendo-os em todas as direções. Fixando as íris chocolates na parede de tábuas de bambus a sua frente. Sabia que do outro lado daquela divisão, os banhos termais para hóspedes se encontravam, e parecia estar sendo usado por uma única pessoa em específico.
A floresta calma e cheirando a pinheiros parecia o engolir, envolvendo-o totalmente.
"Será que… não, não é possível…" - pensou Yuuri. Uma louca vontade de poder estar ao lado do russo, poder inebriar-se naquele cheiro e ser impregnado por ele, deixando seus feromônios se mesclarem.
Fechando os olhos com força, travou uma luta interna, sua insegurança parecia estar tomando o controle mais uma vez. Pensamentos escusos, e que não faziam sentido o tomavam. Cravando as unhas bem cortadas em suas palmas, buscou por sua paz. Tinha de continuar perene! Tinha de lembrar do que estava o motivando, lembrar da terapia, e que deveria de ver e sentir com o coração livre dos fantasmas do passado.
Mordiscando o lábio inferior, o Katsuki deslizou lentamente sobre as pedras deixando seu corpo todo afundar nas águas que o faziam relaxar. Ficou embaixo d'água o tempo que conseguia prender a respiração. E quando finalmente resolveu que já era hora de voltar para seu quarto, e se preparar para o almoço, o fez tão rápido e automaticamente, que não percebera que deitado ao lado da entrada das termas se encontrava o grande poodle marrom, que ao avistá-lo, levantou rapidamente. Agitando a cauda felpuda, acompanhou o ômega passar, e o seguiu pateando alegremente.
Distraído como estava, Yuuri só reparou no cachorro, quando este virou-se ao fechar a porta, e o viu sobre sua cama. A cauda agitada, a língua para fora, e os olhos fixos em sua direção.
- Ora, como… - Yuuri começou. Ao se aproximar do mascote, afagou-lhe as orelhas, o abraçando logo em seguida. - Seu dono vai ficar preocupado com você se começar a desaparecer assim, Makkachin! - comentou ao mirar o cão diretamente nos olhinhos cor de carvão.
Recebendo uma lambida no rosto, deixou que uma gargalhada fácil quebrasse o silêncio do cômodo. Colocando ambas as mãos sobre os próprios lábios, Yuuri se conteve. Não conseguia se lembrar há quanto tempo não ouvia a própria risada, mas não conseguia ficar assim por muito tempo, pois o animado mascote havia se lançado sobre ele, exigindo mimos e sua atenção.
- Quem é um bom menino? - perguntou ao abraçar mais uma vez o poodle. - Hmmm... quem é? - Yuuri deixou-se ser lambido mais algumas vezes pelo peludo, e o afastando, mirou as horas no relógio de cabeceira. Assustando-se um tanto, constatou que muito em breve, Mari já estaria o chamando no início do corredor para que fosse almoçar.
Abrindo a porta lentamente, deixou que o mascote passasse primeiro, e o seguiu com passos decididos. Yuuri abriu mais os olhos ao perceber que Makkachin havia se esgueirado para dentro de um dos quartos. Preocupado que este atrapalhasse, ou mesmo assustasse alguém, se aproximou rapidamente da porta.
Contendo a respiração, mirou atônito e ao mesmo tempo curioso, o corpo do platinado desnudo. Os ombros largos, musculatura definida e torneada, e nádegas perfeitas. Ele parecia ralhar com o cão, mas de uma forma calma e fraternal, e por mais que Yuuri não quisesse ficar ali, ele não conseguia concentrar-se no que o platinado estava dizendo ao mascote, que com a língua para fora, parecia não ligar nem um pouco para seu dono. Com um leve sorriso, tornou a mirar o russo - que tão compenetrado, ainda não havia notado que estava sendo observado.
Até aquele devido momento, o Katsuki nunca havia sequer imaginado como seria o corpo de seu destinado. Talvez, quem sabe por não ter podido prestar melhor atenção, e apenas ter fixado seu interesse no rosto bonito, não poderia mesmo imaginá-lo. Mas agora, com aquela oportunidade, não poderia deixar de pensar que só sentia asco ao ver o marido desnudo… já com o platinado, sentia uma quentura percorrer todo o corpo, e era inevitável sentir-se mais atraído e ao mesmo tempo temeroso. Sabia que teria de enfrentar seus medos e receios, era bem consciente disso, todavia tinha noção do que estava fazendo ser errado, não poderia ficar espionando o homem daquela forma. Balançando a cabeça, Yuuri tentou afastar aqueles pensamentos para conseguir sair dali com dignidade, e dar ao alfa o respeito que este merecia, mas o ômega não contava com o que viria a seguir. Makkachin em um rompante de alegria por tê-lo avistado, pulou da cama correndo na direção do japonês. De olhos arregalados, saiu de seu torpor ao escutar o latido forte e feliz, e ao ter as íris azul-celestes sobre si. Olhos chocolates perdidos naquela imensidão azul!
- Yuu-ri… - Viktor mirou-o com saudosismo. Quando pensou em seguir atrás dele, lembrou-se do inevitável: estava nu!
Em choque, finalmente o moreno reagiu. Dando uns passos para trás, sentiu a parede de madeira chocar-se com suas costas. Sentindo o rosto em chamas, sabia que estava terrivelmente com as bochechas rubras. Desviando o olhar, e com o coração batendo forte como um tambor, saiu disparado corredor a fora, deixando o platinado um tanto surpreso, e até mesmo preocupado com o que seu destinado estaria pensando sobre ele naquele exato momento.
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Ao ser deixado sozinho, Viktor mirou o vazio corredor. Sabia que deveria ter fechado a porta com a chave, mais nunca imaginou que seu fiel escudeiro iria deslizar a porta de correr, e que acabasse por fazer uma exibição gratuita para o moreno.
"Há quanto tempo Yuuri estaria me observando?" - pensou o platinado ao finalmente se mover e ainda nu, ir fechar a porta, percebendo enfim que a mesma era simples e não havia fechadura.
Puxando o ar profundamente, sentiu com maior intensidade o perfume característico a cerejeiras que Yuuri havia liberado talvez sem ter notado. O alfa interior, seu lúpus uivou em protesto. Claro que pela cabeça de Viktor havia passado a vontade de puxar o outro homem para seus braços, poder enterrar seu nariz na glândula de cheiro do Katsuki, e o marcar. Não queria que mais ninguém o tocasse, mas Nikiforov tinha consciência de que não poderia fazer tudo como bem queria! De nada adiantaria tentar ser territorialista, possessivo e superprotetor, se isso fizesse com que seu amado ômega o rechaçasse. Iria ser um belo desafio para o Lúpus controlar seu temperamento em prol de um bem maior, mas o russo estava decidido: e se fosse necessário, até pediria desculpas pela exposição que havia feito o japonês passar.
Em outros tempo, Viktor nem pensaria muito no que acontecera, mas agora… Ah! Agora tudo estava diferente!
"Ah! Se eu soubesse que tudo seria assim! Não acreditei quando me disseram, e agora comprovo a duras penas que todos tinham razão!" - E com esse pensamento, começou a se vestir, e a pensar em como abordaria o assunto, e explicaria ao moreno que não fora algo premeditado o que havia passado. - "Pense, Nikiforov! Você não é uma ameba!" - mirando-se no espelho, o empresário tentava exigir de si mesmo uma solução para aquele dilema, mas tudo o que lhe vinha à mente, não parecia agradar.
Talvez pudesse deixar as coisas acontecerem, e seguirem seu curso, mas não seria o certo. Já haviam muitas inverdades obscurecendo o que buscava ter com seu destinado, e não gostaria de ter mais uma que por um equívoco de sua parte, pudesse de alguma forma vir a atrapalhar o enlace dos dois.
Fixando o olhar em uma única direção, acabou perdendo-se em seus pensamentos, dos quais foi despertado, ao sentir o focinho gelado de Makkachin ao lhe tocar o rosto.
- Não, Makka! - ralhou Viktor entre o riso. Quando o cão queria, o enchia de lambidas, exigindo que fosse acariciado, ou mesmo abraçado por seu dono. O que este já estava fazendo. O cheiro de sakuras impregnado no costado peludo, fazendo com que o platinado preferisse ter o ômega ali, e não seu fiel escudeiro!
Nesse mesmo instante, algo lhe passou pela cabeça, e ele já sabia o que fazer. Talvez, quiçá não fosse algo esperado, mas teria de servir. E assim, com um sorriso decidido, deixou seu quarto, voltando pelo mesmo caminho até o salão onde acabou por encontrar com os dois irmãos.
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- O que aconteceu, Yuuri? - Mari questionou tão logo percebera que não se encontrava mais sozinha na cozinha.
- Não foi nada! - Yuuri tratou de responder o mais pronto possível. Ainda sentia seu rosto em chamas, mas não havia lembrado que sua irmã notaria sua agitação. Agora já não tinha muita coisa a se falar, e de nada valeria chorar pelo que ele mesmo havia inconscientemente procurado. O leve olor a sakuras tomando o lugar, como se ele quisesse se fazer notado.
- Porque será que não consigo acreditar no que diz? - a mais velha lhe questionou ao cruzar os braços e se recostar na pia, parando o que estivera até a pouco fazendo.
- Mari-nee… - resmungou Yuuri ao sentar-se à mesa, e tentar se ver livre de ter que responder ao que ela queria. Não teria coragem de contar que acabara de invadir a privacidade daquele homem maravilhoso. Apenas por lembrar-se do que a pouco passara, sentiu que suas bochechas se esquentavam mais uma vez. Conhecendo a irmã como conhecia, já sabia que não teria escapatória, e teria de contar tudo, tim-tim por tim-tim.
Ao voltar os olhos na direção da mais velha, que até então estava evitando, percebera tarde demais que estava onde ela queria, e antes mesmo de conseguir falar alguma coisa, ela tomou a frente.
- Você já o viu, não é? - perguntou com o semblante sério, mas com ganas de rir. O irmão mais novo estava acanhado, a fazendo relembrar de quando este era apenas um garotinho e havia aprontado alguma coisa, e envergonhado, não sabia como começar a falar. - Sabe, você não mudou nada de quando ainda era pequenino e ficava morrendo de vergonha de contar o que havia feito! - Mari sorriu ao sustentar os olhos castanhos avermelhados.
- Não aconteceu nada, Mari-nee! - Yuuri tentou soar convincente, mas sua voz levemente falha havia chamado mais a atenção da japonesa mais velha.
- Vocês se viram sim! - era uma afirmação, pois a beta conseguia sentir o adocicado cheiro de cerejeiras em flor. - Como foi? - questionou ao se aproximar do irmão e sentar a seu lado na cadeira vaga.
Yuuri mordiscou o lábio inferior antes de começar a falar. Não sabia exatamente quanto tempo teria até que o platinado aparecesse para se juntar a eles, por isso não queria enrolar para confessar a irmã o que havia acontecido, mas claro, que se pudesse omitir o fato do outro estar desnudo, ah! Isso com certeza o faria!
- Não foi algo planejado! - começou o ômega tomando o cuidado com as palavras que estava usando. - Makkachin estava comigo, e adentrou em um dos quartos próximos ao meu. Não sabia se tratar do quarto de… - fez uma pausa ao sentir que mais uma vez estava envergonhado - o quarto dele! - murmurou sem conseguir dizer o nome do alfa sem deixar de sentir o calor que o dominava. - Fiquei tão envergonhado, que não consegui dizer nada, e o deixei sozinho!
- Yuu-chan! - Mari mirou desconfiada ao segurar-lhe carinhosamente a mão que este tinha sobre o tampo da mesa. - Isso não foi tudo, não é? - questionou ao sentir-se um tanto preocupada. Não se perdoaria se algo acontecesse bem debaixo de seu nariz.
- Foi apenas isso, Mari! - Yuuri apressou-se em dizer. - Viktor apenas me chamou quando me viu, mas estava tão envergonhado por observá-lo sem que soubesse, que deixei meus medos assumirem meu ser, e saí correndo. - baixando a cabeça, escondeu o rosto entre os braços.
- Ah! Meu irmão! - acarinhou os fios negros tentando confortá-lo. - Você não deve se deixar abater. Sei que o novo lhe deixa amedrontado, mas lembre-se… - parou de falar ao ver que o mais novo voltava seu olhar levemente avermelhado para si. - Lembre do que a psicóloga lhe disse: não julgue o livro pela capa!
- Eu sei, nee-san, mas é tão difícil! Eu o quero perto, mas ao mesmo tempo temo por nosso destino, e que algo de ruim nos aconteça. - algumas lágrimas começaram a rolar pelo rosto do Katsuki, as quais foram amparadas pela beta.
- Não, por favor, não chore, Yuu! Lembre-se que sua felicidade está bem ao seu lado, e só vai depender de você para que possa senti-la, e se deixar completar por sua alma gêmea. Por seu parceiro para o resto de sua vida! - Mari o lembrou. - Vamos lá, Katsuki Yuuri! Levante essa cabeça, enxugue as lágrimas, e tente ser você mesmo perante Viktor! - e sorriu ao ver o irmão concordar consigo. - E tenha sempre em mente, você sempre soube quem seria seu soulmate! - declarou. A beta conhecia o segredo de Yuuri e Hiroko. A matriarca da família, havia lhe contado um pouco antes da doença que a acometia, piorar. A ômega contara, na esperança de que algo pudesse acontecer e interferir no futuro de seu filho.
Mirando a irmã um tanto surpreso, Yuuri quis perguntar-lhe como a morena sabia daquele pormenor, mas não pode fazer nada, pois a entrada festiva do poodle marrom, lhes chamou a atenção, e logo em seguida, o platinado e o olor a pinheiro se fizera presente.
Observando os dois, a beta até fez menção de sair de perto deles para lhes dar, quem sabe, um pouco de privacidade, mas o olhar dos dois em sua direção, dizia o contrário fazendo-a ficar por ali.
- Konnichiwa! (Boa tarde!) - saudou o russo ao fazer uma leve reverência. Por mais que Viktor sentia seu coração descompassar ao fixar o olhar nos do ômega, e que tinha ganas de o estreitar entre os braços, controlou-se, esperando pela reação do mesmo.
- Konnichiwa! - as vozes dos irmãos em uníssono acabaram por desconcertar um pouco o alfa.
Este gostaria muito de ouvir a voz de seu destinado, somente a dele, para matar as saudades e sentir o prazer de ter sua atenção. Sorrindo abobalhado, Nikiforov fez nova reverência quando os dois irmãos o saudaram imitando seus movimentos, e respeitando os bons costumes.
- Há quanto tempo, Katsuki Yuuri! - Viktor tentou modular a voz, fazendo um coquete ao lembrar a apresentação que ambos fizeram meses atrás no hospital. Queria que não soasse sensual, apenas para não desagradar ao ômega, e antes que esse lhe desse qualquer resposta, continuou. - Espero que esteja bem, apesar do que aconteceu contigo. Sinto muito por sua perda. - terminou a frase, e só então percebeu que poderia ter colocado o dedo no meio da ferida ainda aberta no peito do moreno.
Pigarreando, Mari cutucou levemente o irmão quando este demorou um tanto a responder ao russo. Dando-lhe um leve cutucão embaixo da mesa, mirou-o seriamente. O recém chegado não merecia ser tratado com indiferença devido a insegurança do moreno mais novo.
- Sim… - Yuuri começou, a voz levemente fraca, um tanto tímido. Talvez até estivesse se sentindo desconcertado por tudo o que o alfa lhe falou. Bem, mas era de se esperar que ele soubesse de tudo. O ômega havia o sentido enquanto estava em desespero, mas precisava viver o dia de hoje, por isso, tornou a focar-se no que deveria. - Realmente, faz algum tempo, senhor Nikiforov!
- Viktor… - pediu o platinado ao sustentar-lhe o olhar.
- Agradeço seus votos de pesar, senhor Nikiforov! - Yuuri continuou a falar, evitando fazer o que o platinado queria. Não poderia ser descortês, e somente ousaria usar chamá-lo por seu nome próprio, se assim chegassem a ser muito próximos. Com o marido havia sido daquela forma, então por que teria de ser diferente? Na cabeça do japonês estava agindo com coerência, e como sempre fora instruído e obrigado a fazer por Akira.
Mari não conseguia entender o que estava se passando com Yuuri. Ela o sentia distante, temeroso. De certo o novo o faria agir assim, mas havia imaginado que talvez ambos fossem mais receptivos. Podia sentir os feromônios de ambos bem fraco e para ela parecia que os dois nem haviam sofrido o imprint!
Tinha consciência que Viktor estava a base de supressores e calmante, bem como seu irmão poderia ter também assumido essa postura, ainda mais que se encontrava usando aquele incômodo objeto ao redor do pescoço. Sustentando o olhar de ambos, a beta resolveu quebrar aquela barreira que ambos estavam erguendo entre si.
- Nikiforov-san, espero que tenha desfrutado das termas. - Mari levantou-se para ir até o fogão, mas não sem antes fuzilar o irmão com a mirada.
- Sim, foi relaxante e muito bom! - Viktor respondeu prontamente. - Ouso até em dizer que foi como um bálsamo, me ajudando a desestressar, e o olor a cerejeiras me deixou mais tranquilo. - revelou ao mirar com intensidade ao moreno a sua frente.
Yuuri ficou rubro de vergonha, havia sentido o cheiro de pinheiro também, e assim como o alfa, havia se tranquilizado um pouco, e desejado muitas coisas, mas não colocaria em palavras nem por decreto. Havia aprendido a duras penas que só deveria falar na presença de um alfa quando este lhe deixasse, ou se dirigisse a ele. Assim não expressou nenhuma palavra.
Achando aquilo estranho, Viktor voltou os olhos de um irmão para o outro. Não conseguia entender o que estava se passando ali, por isso mesmo resolveu observar o que aconteceria a seguir para não meter mais uma vez o dedo sobre a ferida, e acabar se complicando mais.
- Yuuri, vá com Viktor para a sala de jantar, já está tudo pronto, e por favor ajeite as coisas, sim! - pediu Mari acabando com o silêncio constrangedor.
Com um aceno de cabeça, o ômega levantou de onde estivera sentado, e pegando algumas coisas, deixou que o alfa lhe ajudasse ao levar as pequenas peças de porcelana.
O platinado seguia os movimentos do moreno, e assim que tudo estava pronto e em seu devido lugar, sentou-se à frente do japonês na pequena mesa de tampo escuro. Mirando o moreno com intensidade, não aguentou muito tempo e proferiu:
- Eu gostaria… - Viktor parou de falar, pois o ômega havia dito o mesmo que ele praticamente juntos. Quem sabe se houvessem combinado, aquela situação não haveria de dar certo.
- Desculpe, pode falar primeiro. - Yuuri cedeu sua vez ao se colocar em seu lugar. O ômega submisso que havia se tornado falando mais alto que seu primeiro gênero.
Estranhando um pouco o gesto, o platinado arqueou um tanto suas sobrancelhas, ele queria entender aquele baixar de olhos, e aguardar, uma postura muito submissa aos olhos do lúpus. Para o russo, aquilo era novo e constrangedor, pois havia aprendido com sua mãe que nem mesmo uma alfa deveria baixar a cabeça perante a opressão de alguns alfas decrépitos. Ele nunca vira sua mãe agir como estava vendo o seu ômega. Conhecia poucos ômegas que agiam daquela forma, e aí lembrou-se do que Mari lhe contara. Quis rosnar enraivecido, mas sua ira não deveria ser descontada em seu destinado, por isso controlou-se. Se pudesse, faria aquele alfa prepotente pagar por cada humilhação que este tinha impingido em seu destinado.
- Eu gostaria de me desculpar com você por hoje um pouco mais cedo. - Viktor deixou que um leve sorriso um tanto sem graça surgisse em seus lábios.
Yuuri levantou a cabeça incrédulo. Não fazia ideia de quanto tempo não ouvia um pedido de desculpas, ainda mais vindo de alguém como o alfa. Balançando a cabeça negativamente, voltou finalmente os olhos, sustentando as íris cerúleas do alfa.
- Não, não, Nikiforov-san, sou eu quem tenho que me desculpar com você! - Yuuri correu em dizer. - Eu não deveria ter ficado te observando, eu… eu… eu não poderia imaginar que era seu quarto, e…
- Não, não se desculpe! - pediu o platinado. - Eu não deveria estar desnudo por tanto tempo e…
- Como é que é? - a beta questionou ao colocar o almoço disposto sob o tampo da mesa. - O que foi que aconteceu? - e olhou ferozmente do alfa para o ômega. O silêncio persistiu e percebendo que o irmão havia abaixado a cabeça enquanto mordia os lábios e que nada confessaria, Mari focou toda sua atenção no alfa. - É melhor começar a se explicar senhor Nikiforov! – pediu sem alterar a entonação de sua voz. - Permiti que entrasse em meu lar, que falasse com meu irmão e preciso saber se posso confiar em você como me disse mais cedo. – sustentou o olhar do alfa lúpus a mesa sem em nenhum momento baixar a guarda.
Viktor odiava se sentir acuado e sabia que havia cometido um erro mesmo sem querer, e que a irmã do seu destinado não deixaria por menos quando descobrisse.
- Mari, não foi de propósito, eu... eu... - a irmã japonesa não arredava os olhos furiosos do russo, e essa atitude muito o lembrou do próprio pai alfa e chefe da família Nikiforov. - Eu estava no quarto... – fez uma leve pausa apenas para pensar melhor em quais palavras poderia usar sem cometer um belo deslize - não imaginei que Makkachin fosse abrir a porta e... – parou de falar ao mirar o ômega com preocupação. Não queria expô-lo a nenhum tipo de constrangimento, mas parecia que não iria dar certo.
Yuuri levantou o rosto vermelho de vergonha, não eram crianças para serem tratados daquela forma. E ele entendia o porquê de sua irmã estar agindo tão protetoramente, mas aquilo já estava indo um pouco longe demais para o gosto do ômega.
- Mari nee-san... – chamou-lhe a atenção - pare, por favor! - seus olhos não se voltavam para o alfa, mas encontraram com os da irmã. - Não aconteceu nada demais, foi apenas um... encontro casual?! - tornou a morder os lábios indeciso com suas palavras, afinal não era uma mentira, mas também não era uma verdade. - Prometo que serei mais cuidadoso! - no fundo queria que a irmã parasse e que suavizasse o olhar, mas conhecia bem demais a beta a sua frente e por isso completou. - Não aconteceu nada demais... – e se enchendo de valor continuou - não brigue com o Nikiforov! – sussurrou sua vontade.
Mari levantou a mão e acariciou os cabelos negros do irmão, fazia anos que não o via daquele jeito, mesmo que estivesse ainda muito fragilizado e quebrado, tentava não responsabilizar o alfa a sua frente. Diferente do que sempre presenciava quando Yuuri estava com Akira e assumia toda a culpa por principalmente sentir medo do marido. Agora Yuuri, timidamente, havia defendido e poupado Viktor do ataque de ira que sabia ir na direção dele. Sorriu pequeno e mesmo contrariada, a japonesa confirmou com a cabeça.
- Tudo bem meu pequeno! Vou atender seu pedido, só porque você pediu! – frisou as últimas palavras ao dar maior ênfase nestas. Virando-se, olhou na direção da cozinha. - Você poderia pegar o tonkatsu, eu deixei a travessa em cima da bancada! – pediu ao sustentar os olhos levemente avermelhados do irmão.
O alfa platinado se viu mais uma vez observado pelos olhos da mulher beta e soube de antemão que a comida esquecida fora um mero artifício para tirar o ômega do recinto. Sendo assim, aguardou - não por muito tempo - o que ela queria com aquilo.
- Na primeira oportunidade, você tinha que se exibir como um pavão? - o dedo em riste na cara do russo o acusando sem medo algum. - Você escutou algo do que conversamos mais cedo? – questionou sem deixar chances que o lúpus pudesse falar alguma coisa. - Você por um acaso considerou que está em uma casa de família, e com um ômega casado e de luto, e que por sinal é meu irmão?! - Mari falava rápido e sem baixar o dedo ou os olhos.
- Mari me ouça – pediu tentando acalmar os batimentos de seu coração que pulsava descompassado -, eu não fiz de propósito! - Viktor passou às mãos pelos cabelos. - Meu erro foi ficar sonhando acordado e disso você pode me culpar, e também de esquecer de vestir o mínimo de roupas, por assim dizer, mas lhe garanto, não chamei o Makka ou imaginei que o Yuuri ficaria me olhando... – parou de falar de chofre ao escutar a voz da morena. Ela parecia incrédula.
- Ele ficou... o Yuuri? – Mari respirou fundo. - Quer dizer que meu irmão o espiou?
- Sim! – Viktor respondeu calmamente, para o que pareceu para ele como surpresa para a beta, que arregalou os olhos. - Quero dizer... não! – o Lúpus não sabia mais o que dizer, e o que deveria realmente falar. Abrindo a boca mais uma vez, antes mesmo de conseguir se fazer ouvir, parou prestando atenção. A voz doce do ômega chegara até eles, e seu alfa interior pareceu estremecer apenas por poder escutar seu prometido.
- Nee-san...
Os três se olharam e Mari antes de voltar-se muda, ainda deu uma encarada no russo em um aviso mudo de "estou de olho em você". Os três se sentaram calados para almoçarem e Viktor tentava saborear a comida e evitar os olhos da irmã japonesa. Mari por sua vez, fazia questão de delimitar o território do estrangeiro, seguia com os olhos todos os movimentos que ele fazia. Confiava nele e torcia para que salvasse seu irmão, mas não poderia descuidar, pois tinha medo que se o russo fosse com muita sede ao pote, e fizesse o moreno sofrer mais que tudo, por isso todo cuidado era pouco.
Já Yuuri, assim como a irmã, observava discretamente o alfa a sua frente. O jeito refinado dos movimentos denotava sua educação, a delicadeza dos dedos ao pegar os hashis, e a atenção aos mínimos detalhes da etiqueta revelavam a atenção que teve em sua criação, a postura dizia que estava de frente para um alfa que conhecia seu lugar na hierarquia, mas aquela delicadeza e cuidado com tudo a sua volta, eram diferentes para o moreno. Só que o mais marcante para o japonês, com certeza, era o cheiro de pinheiros que envolvia a pequena sala onde se encontravam.
Por um instante, Yuuri fechou os olhos, a comida no meio do caminho para a boca ficara suspensa, respirou fundo e segurou o ar, queria guardar essa lembrança para sempre: a floresta de pinheiros. Quando reabriu os olhos deu com a cara de interrogação da irmã e com a face brilhante do russo, ficou sem graça e voltou a comer sem mais olhar para frente.
Onde estava com a cabeça para fazer o que acabara de fazer? Imagens do russo nu voltaram a sua mente e Yuuri tremeu com a figura forte e definida que guardara na memória. Balançou a cabeça para os lados tentando recuperar o mínimo do raciocínio a mesa e voltou a analisar o alfa que o destino lhe trouxe. Queria que estivessem em outros tempos para ter o poder de conhecê-lo sem medos ou meios termos. Na verdade, queria ter todas as chances do mundo para mudar sua vida e apagar o erro que era Akira, mas... suspirou triste e se deixou abater por sua realidade. Viktor era um destino distante e talvez impossível, e não adiantava desejar o impossível. Suspirou outra vez e foi quando sentiu uma quentura no peito, o cheiro do alfa havia mudado sutilmente e ocupava mais o espaço, o russo sentirá a sua tristeza e fazia de tudo para confortá-lo. Yuuri levantou os olhos de sua tigela e mergulhou nos azuis cristalinos que o observavam carinhosamente. Viktor era seu destino e a sua melhor parte também.
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Viktor ajudou a retirar toda a louça da mesa do almoço e depois ficou sem jeito de como agir ou o que fazer, no fim apenas sentou-se na cadeira e ficou observando Yuuri lavar todos os utensílios na pia. O ambiente ficou estranho, alfa e ômega estavam cientes um da presença do outro, mas não trocavam nenhuma palavra.
Yuuri sentia-se aflito, pois sabia ser observado e ainda não tinha se decidido se era bom ou ruim ter a atenção do platinado. E de tão concentrado que estava, deu um pulo no lugar quando ouviu a voz do russo do seu lado e deixou o prato ensaboado escorregar por seus dedos, que acabou espatifado no fundo da pia.
- Quer ajuda? – perguntou o platinado ao mostrar interesse. - Eu posso fazer algo... – insistiu deixando no ar sua vontade de se fazer prestativo.
O japonês o encarou assustado, não pelo prato, mas sim pela atitude do alfa. Era estranho para o moreno ter alguém tão prestativo, e este alguém ser do gênero dominante. Se bem que Toshiya, seu pai, era tão prestativo... Balançando a cabeça tornou a mirar o homem ao seu lado com surpresa.
- Alfas, como você... – fez uma pausa buscando pelas palavras corretas - não fazem trabalhos domésticos! – a voz de Yuuri não passava de um sussurro, e seus olhos incrédulos vasculhavam o rosto do russo a procura de alguma emoção sarcástica, mas ficara mais surpreso ainda, quando viu o imponente alfa pegar o pano de prato em cima da mesa.
- Não sou igual aos outros alfas que você conhece! - Viktor passou a secar a louça conforme o japonês lavava, e embora não tivessem mais trocado nenhuma palavra, o clima melhorou dentro da cozinha. E foi assim até que Makkachin entrou correndo. - Oi menino! Você deve estar com fome, não? – questionou o russo ao mirar o mascote com interesse.
Yuuri parou de lavar a louça e virou-se para ver o grande poodle marrom do russo que rodava aos seus pés para chamar a atenção do seu dono. Sorriu, amava cachorros, e ter um por perto seria especial, ainda mais esse sendo do estrangeiro que cheira a pinheiros. Ficou parado olhando o homem enquanto ele mexia em uma frasqueira que estava em cima da mesa, e que o moreno não tinha reparado até então. Deveria ser as coisas do animal, pois o cão estava mais agitado do que antes, e agora latia feliz enquanto pulava somente nas patas traseiras, mas Yuuri, também, aproveitou a oportunidade de observar o russo que carinhosamente falava com o animal de estimação em seu idioma natal, provavelmente pedindo para o cachorro não latir e o alertando sobre o escândalo que fazia.
O alfa platinado voltou-se para a pia novamente com um pacote e uma lata nas mãos, Makkachin ao seu redor pulando e latindo. Tudo aconteceu de forma rápida, o grande cão pulou nas costas do seu dono, o fazendo perder o equilíbrio. Viktor tombou para frente e só não caiu porque se apoiou em Yuuri, o prensado contra a pia com o peso do seu corpo, na verdade os dois ficaram colados um ao outro. Yuuri segurou o alfa, mesmo molhando um pouco a roupa dos dois, mas não deixou-o cair. Viktor era uma muralha de músculos, mesmo sob as roupas pode sentir a firmeza do que seus olhos viram horas antes. Para o ômega, o cheiro do alfa mais de perto era melhor ainda e a quentura que sentira antes, também apareceu para reconforta-lo.
Viktor não sabia o que fazer e onde colocar as mãos. Sua vontade era se aproveitar da situação e abraçá-lo, mas algo lhe dizia que não deveria fazer isso, não depois de aparecer pelado para o ômega, afinal poderia ser mal interpretado mais uma vez se deixasse se levar por seus instintos. Encarou o nipônico e viu o rosto deste se tingir de vermelho aos poucos, os lábios entreabertos, a respiração ofegante. E então, o russo fechou os próprios olhos e puxou o ar com força, o cheiro mais doce da sua infância o capturou e ele queria degustar muito e sentir aquele sabor, mas tornou a abrir os olhos e viu a expressão de susto no rosto do ômega. Se recompôs como pode.
- Seu cheiro... – fez uma breve pausa, apenas para poder aspirar longamente mais uma vez aquele olor a flores - é o melhor de todos. - e nesse momento, Viktor notou a coleira que até então não tinha sequer percebido no pescoço alvo. - Me desculpe... – começou a tentar se retratar, mas parou abruptamente ao ser atalhado.
- Eu não acredito! - a voz uma oitava mais alta do que deveria da irmã beta do japonês encheu a cozinha. - Não posso deixá-los um minuto sozinhos que você já está em cima do meu irmão! - Mari puxou o russo pela blusa e o girou para ficar de frente para ela, mas não teve tempo de falar mais nada ao estrangeiro, pois um Yuuri muito corado passou correndo pelos dois em direção as escadas e foi seguido pelo cachorro.
Viktor piscou os olhos um par de vezes depois de ver a saída tempestiva do japonês e do seu cachorro, voltou o olhar devagar na direção da beta que ainda o segurava. Mari, era muito mais baixa que o alfa e na organização social em que viviam, ela deveria ser mais obediente a ele, um alfa lúpus incrustado no topo da cadeia hierárquica. Mas pelo visto a mulher japonesa cagava para certas convenções.
- Mari... você acreditaria em mim, se eu dissesse que foi sem querer mais uma vez? – Viktor perguntou um tanto sem graça. Ele tinha certeza que ela nunca iria confiar piamente em si. E aquilo não ajudaria muito, pois ela poderia até mesmo tentar influenciar o irmão contra a sua presença ali. O lúpus sabia que não poderia pensar daquela forma, também compreendia que a irmã era a proteção do ômega até aquele momento, por isso mesmo, Nikiforov sabia que teria de ter jogo de cintura para lidar com aquela mulher batalhadora.
A japonesa o encarou com cara enfezada e respirou fundo, não o respondeu e virou-se em direção a escadaria.
- Vou falar com meu irmão! – e sem mais nada dizer, saiu da cozinha, deixando um homem pra lá de confuso com tudo que aconteceu. Mari, nunca fora de meias palavras, ou alguém que precisasse mandar recado, e até mesmo por isso, naquele momento, preferira seguir seu caminho, e deixar o platinado sem uma resposta.
Balançando a cabeça para espantar suas preocupações, subiu devagar e caminhou mais lento ainda até chegar a porta do quarto do irmão. No fundo, ela se preparava mentalmente para encontrá-lo se lastimando por ter mais um alfa tarado atrás de si, mas para sua surpresa, Yuuri estava conversando com o cachorro de maneira agradável. A voz baixa, contava um episódio que vivera na infância ao lado do sua fiel amiga peluda, e era uma daquelas histórias que deixam suas marcas de saudades, com muitos risos e lágrimas nos olhos. Mari, por um minuto, antes de abrir a porta, encostou a cabeça no batente e ficou ouvindo o irmão divagar com o animal, havia algum barulho mais baixo que ela não conseguia identificar o que seria, mas preferiu se fixar na voz gentil do irmão. Suspirando aguardou até o momento para poder se fazer presente.
Quando finalmente entrou no cômodo, estava mais calma! O que quer que tivesse acontecido na cozinha entre os dois, não havia destruído mais o psicológico do seu irmão.
- Está tudo bem? – Mari perguntou antes de aproximar-se da cama do irmão.
O ômega encarou a irmã e o cão fez o mesmo, na forma como estavam deitados, só dava para ver o topo da cabeça de fios morenos e os olhos, o restante era um emaranhado de pelos marrons.
- Eu estou bem, mas acho... - a voz de Yuuri morreu sem terminar a frase e não conseguir olhar mais para a irmã.
- O que foi que ele fez, Yuu? - Mari estava agora em pé no meio do quarto com as mãos na cintura. Parecia possuir uma aura carregada, e não notar o que estava se descortinando bem à frente de seus olhos. - Ele não pode chegar aqui e...
- Viktor não fez nada! – o moreno mais novo a cortou não deixando que está terminasse de formular o que queria dizer. - Ele não me ofendeu ou tentou outra coisa, pelo contrário... ele é diferente! - Yuuri baixou o rosto e se escondeu atrás do cachorro outra vez. Sentia seu corpo começando a arder em febre, e precisava dizer tudo o que queria antes de ser consumido. Se valendo de coragem, voltou a falar. - E pare de pegar no pé delem, por favor! – pediu abrandando um pouco a voz. Não havia percebido quando elevara o tom e simplesmente enfrentara a irmã, como há muito não fazia.
A beta arregalou os olhos, era a segunda vez que o irmão, ao modo dele, defendia o alfa, e ele a havia enfrentado? Sim, havia! Sem perceber um sorriso de satisfação surgiu em seus lábios. Como havia sentido falta daqueles rompantes que Yuuri tinha, de como ele gostava das coisas ao seu modo. Mordiscando o lábio inferior, resolveu pôr fim ao lhe perguntar:
- O que você sente quando ele está por perto? É bom? Seu coração chega a palpitar, não é?
A vermelhidão tomou conta do rosto do moreno que mesmo oculto pelo cachorro não escondeu o fato.
- Nee-san... - Yuuri respirou fundo e puxou mais o animal para perto de si. - Mari, meu cio... adiantou!
A confissão foi feita em um fio de voz e fez a beta começar a ligar os pontos do que via. O fato de estar deitado em sua cama em meio a um ninho feito mesmo que com suas roupas as quais deveriam estar guardadas, a vermelhidão de sua pele tão clara, o calor que ela tinha certeza que o irmão estaria sentindo, e o que culminava como se fosse a cereja coroando tudo: a maneira como Yuuri se agarrava ao mascote do russo. Tudo, agora fazia sentindo. Só que ela tinha um grande problema, um enorme alfa lúpus para banir de sua casa o mais rápido possível.
- Vou mandá-lo embora agora...
- Não... – Yuuri mais uma vez a atalhou. Sua voz enérgica, em hipótese alguma lembrando a usada anteriormente. Ambos trocaram olhares espantados, mas o ômega piscou várias vezes para logo em seguida continuar – Não faça isso, eu... eu...
Mari virou-se para o irmão e o encarou incrédula.
- Não é o que você está pensando! Apenas, quero sentir... o cheiro de pinheiros. - e dito isso, Yuuri afundou mais uma vez o rosto nos pelos do animal.
Mari sentiu pena do irmão, seria um período difícil e não sabia se poderia cumprir o pedido de não mandar embora o estrangeiro. Se aproximou da cama e com jeito se sentou na ponta ouvindo um leve rosnado, o qual pensou ser de Makkachin, mas estava enganada. Havia se esquecido de como Yuuri ficava um tanto territorialista quando entrava no cio. Balançando a cabeça, esticou levemente a mão e encostou os dedos no focinho gelado do cachorro.
- Yuuri, você não pode...
O barulho estridente chamou-lhes a atenção, parado no limiar da porta aberta estava Viktor, seus olhos presos na cena que via, suas mãos tremiam levemente, e ele fazia um esforço enorme para não deixar seus instintos o dominarem e pular em cima do ômega que estava na cama. Com um rápido olhar percebeu o ninho, e seu alfa lúpus interior uivou sedento. Ele sentiu, quando estavam na cozinha, ele capturou algo diferente vindo do cheiro do seu par, mas não podia considerar que fosse um cio, não era hora para isso. Mas estava redondamente enganado, e Yuuri estar no centro de sua cama rodeado por peças que não eram as suas havia mexido com seus instintos mais primitivos.
- Ouvi tudo, estava escutando atrás da porta! - confessou a queima roupa. Viu Yuuri se encolher mais na cama e a irmã se pôr de pé a sua frente. Por mais que seus instintos mandavam colocar aquela beta para fora do quarto, a razão ainda o controlava, e entredentes grunhiu para esta. - Mari, depois você briga comigo, mas preciso dos meus calmantes, agora! – exigiu sem esconder seu incômodo.
A mulher remexeu no bolso do avental que ainda usava e retirou o estojo preto. Abriu e pegou uma das seringas.
- Você vai conseguir andar até o quarto ou vou ter que te arrastar até lá? – a mulher baixinha questionou ao mirar as íris cerúleas com intensidade.
Viktor tentou sorrir, mas foi obrigado a mordiscar o lábio inferior controlando o que já começava a se tornar insuportável. Sentia seu corpo doer, e uma parte de sua anatomia querer criar vida própria, o que não seria nada bonito ou mesmo agradável.
- Me dê aqui, eu mesmo aplico! – pediu ao estender a mão na direção da morena. - Só peço que confira se tomei a dose toda é importante que tenha certeza! – solicitou com os olhos brilhantes.
Mari colocou nas mãos do lúpus a seringa e ficou parada a frente dele. Escutava a respiração ruidosa que o mesmo tinha, e conseguia divisar as pupilas levemente avermelhadas e dilatadas.
- Venha Makka! - Viktor por fim, chamou o animal de estimação, não queria ficar ali, não queria demostrar o quão débil poderia ser, mas Yuuri o segurou com sua voz, a voz que somente o ômega destinado possuí e a mesma que faz com que seu alfa mova céus e terras para lhe agradar.
- Não!
Viktor parou de chofre, os pelos de seu corpo se arrepiando. Se aquilo era uma provação, ele estava prestes a fraquejar.
- Por favor, deixe o ficar! - disse baixinho com medo que o dono do animal tivesse uma explosão de raiva por causa do seu jeito.
Viktor se virou para olhá-lo nos olhos pronto para dizer que ele poderia ficar com o animal se quisesse, mas o dono também ficaria.
- É por conta do cheiro, senhor Nikiforov. - Mari explicou ao mostrar o leito. - Yuuri está montando o ninho e... – fez uma pausa tentando buscar pelas palavras certas a serem usadas, sem que desenfreasse a ira do lúpus - bom, seu cachorro tem seu odor impregnado nele. Não brigue com Yuuri, por favor! Tente entender...
O alfa suspirou e arregaçou a manga da própria blusa e na frente dos dois irmãos, aplicou a injeção. No fim soltou todo o ar que prendia nos pulmões. Deu um passo meio bambo e se apoiou na japonesa, depois deu mais um e caiu de joelhos próximo a cama onde o ômega estava deitado. Sorriu de forma débil.
- Se você me pedisse qualquer coisa... eu faria, te daria... tudo... – Viktor passou a mão sob os pelos de seu mascote evitando a vontade que tinha de esticar um pouquinho mais seu braço e tocar ao moreno. - Mas ele vai te dar trabalho... e, e... - de repente a mente do alfa pareceu clarear por um segundo. - Você gosta do meu cheiro? - e abriu mais o sorriso bobo quando viu o ômega confirmar com um movimento leve da cabeça. - Então... - Nikiforov começou a puxar sua blusa de mangas compridas pelo alto de sua cabeça, mas por já sentir o efeito do calmante correndo pelas suas veias, acabou todo enrolado e Yuuri o ajudou a finalizar o processo quando se sentou na cama. - Fique com a blusa!
Yuuri segurou com força a peça doada e depois levou em direção do nariz enquanto fechava os olhos e respirava fundo. Na sequência sorriu tentando esconder a alegria pelo alfa tentar lhe dar o mínimo de conforto.
- Obrigado! - e permitiu que Viktor vislumbra-se seu pequeno sorriso, mas o russo já estava muito alterado pela medicação e nunca saberia, de verdade, se Yuuri havia mesmo sorrido para ele.
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Lembretes e explicações:
Fizemos várias pesquisas, acabamos lendo muitas fanfics e inclusive regras de alguns jogos de RPG sobre verse, e o que realmente chegamos à conclusão é que:
O livre arbítrio ainda prevalece muito entre as autoras e autores de jogos e fanfics com essa temática. Então, até mesmo por isso, tomamos a liberdade de não deixar, a princípio, ômegas e alfas descontrolados. Claro, não que isso não possa acontecer, mas pensamos muito, e para esse nosso trabalho, gostaríamos de dar nossa visão deste vasto universo. Esperamos com isso, não deixar ninguém chateado conosco.
Cantinho Rosa e Azul:
*arrumando o capítulo para colocá-lo no ar. Nickelback ao fundo, sem nenhuma intromissão*
Theka: Almaro, creio que hoje seremos só você, os leitores e...
Viktor: Ah! Elas nos deixaram finalmente estarmos juntos em um capítulo! *sorriso de orelha a orelha*
Yuuri: Viktor, não começa a amolar as duas!
Almaro: Amiga Coelha, creio que você falou muito cedo! Olha lá!
Theka: Ah! Mas vou cortar esse mal pela raiz já, já! *olhar de esguelha* Sabe aquele capítulo todinho que tínhamos bolado para certo casal?
Almaro: *entrando na brincadeira* Sei, aquele lá que é mais quente?
Theka: O próprio! ^^ então, se certo platinado vier com graça, vou deletar tudo que já está escrito, e mudar os rumos da história toda...
Almaro: É, é uma boa pedida!
*barulho alto*
Yuuri: Viktor!
Almaro: Desmaiou...
Theka: Morreeeuuuu? *rindo* Aff... fraquinho! Achou que eu seria louca? Mas toma, papudo!
Almaro: É... acho que agora ele aprende a não nos atormentar!
Bem, olá para todos que até aqui chegaram, esperamos de coração que estejam gostando da fic, e que esse novo capítulo lhes agrade. Também esperamos que todos vocês estejam bem nessa quarentena!
Contamos com o apoio de vocês, e até nosso próximo surto!
Beijos
Almaro & Theka
