J~L


I'll tell you a story before it tells itself

Eu vou te contar uma história antes que ela conte a si mesma

I'll lay out all my reasons, you'll say that I need help

Eu vou expor todas as minhas razões, você vai dizer que eu preciso de ajuda

We all got expectations, and sometimes they go wrong

Todos nós temos expectativas e às vezes elas dão errado

But no one listens to me, so I put it in this song

Mas ninguém me escuta, então eu as coloquei nessa canção

(The Chainsmokers feat Kelsea Ballerini - This Feeling


QUATRO ANOS ANTES...

Abriu a porta do quarto do hospital com certo receio.

Durante toda aquela semana, aquele lugar tinha virado seu rumo após a escola. E todo dia, sentia seu coração quebrar um pouco mais.

Entrando devagar, Sirius fechou a porta com cuidado. O quarto era razoavelmente grande, mas sem muito luxo. Uma cama de hospital, um negócio que talvez poderia chamar de sofá, duas poltronas e milhares de aparelhos.

Aparelhos esses que pareciam berrar naquele quarto sem conversas, sem televisão ligada. Apenas os aparelhos...ligados ao seu pai adormecido.

Orion parecia tranquilo em seu sono. Sirius conferiu sua respiração - fazia isso todos os dias, toda hora - para saber se ele respirava com dificuldade ou mesmo se parasse de respirar. Sabia que os aparelhos avisariam se fosse o caso, mas não conseguia não conferir de tempos em tempos.

Jogou sua mochila em uma cadeira perto da entrada do banheiro e sentou-se na poltrona. Fechou os olhos. Queria chorar, mas se segurou. Nos outros dias, não teve aquele ímpeto, mas também nunca esteve ali sozinho antes. Sua mãe e irmã sempre estiveram com ele, mas agora? Era obrigado a enfrentar aquele medo de perder o pai, pois não havia nada para distraí-lo daquilo.

Com o seu pai na cama, imóvel, aparelhos gritando o quanto Orion dependia deles e Sirius sem companhia, sentia-se sozinho, isolado, inútil. A cada segundo que passava, torcia para que o médico entrasse e dissesse que o pai teve uma melhora enorme durante a noite, estava apenas descansando e poderia voltar para casa no dia seguinte.

Os segundos se passaram, minutos se passaram, e ninguém nunca entrou.

- Sirius!

A voz fraca o acordou de um cochilo leve que não percebeu ter caído. Abriu os olhos, um pouco confuso, mas os arregalou quando viu seu pai olhando para ele.

- Pai?!

Orion não estava em coma ou nem nada parecido, mas dormia bastante. Pegá-lo acordado era uma oportunidade que não poderia perder.

Ele sorriu para o filho ao ver sua alegria.

- Venha cá. - Orion fez um sinal leve com a mão, pedindo para o filho se aproximar. - Fico feliz que esteja aqui.

- Eu também. Eu não te vejo acordado há dias.

- Eu sei, me desculpe por isso. Mas que bom que veio agora, assim eu posso olhar um pouco para você. - Orion o estudava como se não visse o filho por anos. - Como você está?

- Preocupado com você. Quando eles vão te deixar voltar?

- Eu ainda não sei. - Percebeu uma leve falha na voz do pai. - Talvez logo.

Aquilo era uma boa novidade, finalmente. Se o pai pudesse voltar no fim de semana, poderiam assistir o jogo juntos.

- Eu vou deixar tudo preparado para o jogo de sábado, então - Disse, sem conter a alegria.

Orion apenas assentiu.

- Sirius, aproveitando que está aqui, que tal uma conversa? De pai para filho?

- Sobre o quê? - Sirius, com o coração na boca, perguntou enquanto se inquietava, olhando para os aparelhos, como se pedisse por ajuda para eles, não gostando do tom de voz do pai.

- Sobre as duas coisas mais importantes das nossas vidas.

Se aproximou com cautela, não querendo fazer tanto barulho, com medo de que o som dos próprios passos fossem machucar o pai de alguma forma.

- O que gostaria de falar? - Perguntou baixinho.

- Sobre sua mãe e sua irmã.

- Mamãe levou Lily para a aula de dança.

- Eu sei, não é sobre onde elas estão. É sobre o que eu gostaria que você fizesse para tomar conta delas.

Sirius deu um passo para trás, soltou um riso nervoso.

- Não sei porquê quer falar disso. - Olhou para os lados, querendo fugir. - Eu...eu não sei porquê...

- Sirius, olhe para mim. - Não queria olhar para o pai. Não quando ele parecia tão fraco, mal conseguindo falar, os olhos tão fundos, sem brilho. Aquele não parecia o seu pai, não queria que fosse o seu pai. - Por favor, filho.

Se virou contra a sua vontade. Sua boca tremia, trazendo a vontade de chorar de novo.

- Não tem porquê a gente falar disso.

Orion levantou a mão em sua direção. Sirius logo a pegou, se aproximando da cama.

- Você é tão precioso para mim. Eu nunca pensei ser capaz de amar alguém tanto quanto eu amo você. - Orion abriu um grande sorriso, tentando arrancar alguma felicidade do filho. - Quando te vi pela primeira vez, eu podia explodir de felicidade.

- Deve ter sido o mesmo comigo.

O pai riu com um pouco de dificuldade.

- Espero que sim. - Orion se ajeitou na cama, sem soltar a mão do filho. - Depois da infeliz da sua mãe...

- Não. - Sirius o cortou. - Minha mãe é perfeita.

Eles se olharam por alguns segundos, até Orion assentir, compreendendo.

- Claro, usei a palavra errada.

- Usou. A minha mãe é e sempre foi Geneviève.

- Você está absolutamente certo. Me desculpe. - Orion, apesar da correção, estava feliz com ela. - A mulher que te colocou no mundo, depois dela, eu não pensei que minha vida pudesse ser tão feliz novamente.

O pai desviou os olhos e virou o rosto. Sirius sabia o quanto Walburga tinha ferrado com a sua vida. Foram torturas psicológicas, ameaças por conta de dinheiro, mantendo Sirius longe e lhe concedendo visitas apenas com testemunhas. Não era à toa que sempre foi difícil para conversarem sobre isso sem que Orion se abalasse.

- Ela não importa mais, nunca importou. - Sirius tentou amenizar.

- A única coisa boa que ela fez, foi te trazer no mundo. - Orion murmurou antes de virar para Sirius. - Porém, a vida não deu sinais do quanto tudo poderia melhorar, o quanto eu ainda seria feliz. O mais feliz em todos os meus anos.

- A mamãe apareceu.

- Sim, ela apareceu.

Se um dia Sirius se apaixonasse, queria que fosse daquele jeito, não menos. Queria poder pensar na pessoa e sonhar acordado mesmo depois de anos juntos, de brigas e desacordos, de dois filhos, traumas...

Se não fosse daquele jeito, preferia nem se apaixonar. Que ficasse sozinho vivendo sua vida ao invés de ter uma cabeça ocupada, mas o coração não preenchido.

- Sua mãe te ama bastante. Você não é seu sangue, mas é muito mais do que isso. Tem a mesma importância quanto Lily para ela.

- Eu sei. - Apertou a mão do pai. Não estava gostando do rumo daquela conversa.

- Ela sempre pensa e pensará na sua felicidade, sempre tomará as melhores decisões. Nunca duvide disso. - Orion continuou.

- Eu nunca duvidei.

- Ela vai considerar tudo o que vocês querem, mas também o que ambos precisam. Escute-a, respeite-a, tome conta dela.

- Eu nunca fiz nada diferente de tudo isso.

- Continue, meu filho. Ela vai precisar de você, de Lily, da família dela.

Sirius engoliu o choro. Queria sair do quarto, parar aquela conversa, mas de alguma maneira seu pai fazia com que seus pés permanecessem colados no chão, ao lado de sua cama.

- Eu sempre vou estar com elas. E você.

Seu pai deu tapinhas em suas mãos.

- Um dia...se ela achar a felicidade com outra pessoa, apoie. - Sirius abriu a boca, pronto para retrucar, mas Orion balançou a cabeça. - Não, não faça isso. Sua mãe merece ser feliz e se ela não achar essa felicidade sozinha, mas sim com outra pessoa, preze por isso.

- Mas pai...!

- Eu vou sempre ser o seu pai. Ninguém vai pegar o meu lugar, tanto na sua vida quanto na vida da sua mãe, mas ela não merece viver infeliz por minha causa.

Uma lágrima escapou agora e Sirius a limpou com certa raiva.

- É com você que ela quer ficar. Com você que ela vai ficar. Só por terem brigado antes de você entrar no hospital, não quer dizer que ele quer o divórcio.

Orion apenas sorriu, o que incomodou Sirius demais. Seu pai não estava concordando, não estava dando chances para que ele acreditasse que sairiam daquele hospital juntos ou de que era sobre a briga dos pais que ele se referia. Estava prestes a chamar a atenção de Orion, pedir para esquecerem aquela conversa, mas Orion foi mais rápido, mudando um pouco o assunto:

- Agora, a sua irmã...- Orion se ajeitou novamente. - Lily quer uma universidade fora do país. Visitamos algumas durante as férias e ela estava empolgada.

- Sim, eu sei.

- Porém, eu acho que ela vai mudar de ideia.

- Por quê?

- Porque ela vai querer ficar com vocês.

Sirius desviou o olhar para a janela, seu maxilar travado. Não queria ficar ali ouvindo aquilo, ouvindo o seu pai anunciando a sua partida.

Ele estava bem, conversando bastante, lúcido. Ele iria sair daquela cama logo, ele tinha que sair.

- O reitor de Oxford. - Orion chamou sua atenção novamente para a conversa. - Ele tem o seu dossiê, porque você quer entrar lá. Ele vai ficar de olho nas suas notas e te acompanhar enquanto estiver em Hogwarts. Eu...- Orion respirou fundo. - Tomei a decisão de criar um dossiê para Lily também. Se ela não fosse para o exterior, Oxford era a outra opção. Ele também ficará de olho nas notas e desenvolvimento dela, mas ele vai esperar por um sinal de vocês. Se você ver que a carta dela não chega, por favor, vá vê-lo e cuide disso para ela.

Sirius assentiu.

- Claro. - Sua voz estava mais fraca do que a de seu pai agora.

Aquilo pareceu um peso saindo do peito do pai. Sirius podia jurar que encontraria alguma nota sobre isso em seus papéis, apenas para caso acontecesse algo com ele, alguém saberia sobre o tal dossiê de Lily em Oxford.

- Criamos dois filhos maravilhosos, que se tornaram boas pessoas e serão adultos corretos. Às vezes são bons até demais. - Orion olhou para o filho e apertou sua mão. - Você é o irmão mais velho. Apenas alguns meses, mas ainda sim o mais velho. Tem uma malícia que a sua irmã não tem, uma aptidão para encrenca...Lily vê as pessoas de um jeito inocente e só de pensar que alguém poderia tirar proveito dela, eu sinto o meu sangue esquentar.

- Ninguém vai tirar proveito da minha irmã. E se tentar, eu não vou responder por mim.

O pai achou graça ao ver o filho tão novo inflar o peito daquele jeito.

- Eu ouvi que ela gosta de um garoto de Hogwarts...

- Gideon Prewett. - Sirius confirmou.

- O que sabe sobre ele?

- Não muito, mas ele é legal. Nunca vi o carinha sendo idiota. Acho que ele gosta dela ou tem algum interesse, porque ele olha para ela várias vezes.

- Ok. Cuide dela, Sirius. Se for Gideon Prewett ou qualquer outro garoto, apenas confira. Você é um homem também, vai conseguir ver se o cara é bom ou não.

- Eu vou cuidar dela. Nada de ruim vai acontecer com Lily, eu prometo. Nem com a mamãe, nem com você. Com ninguém.

- Não precisa prometer, filho. Há coisas nessa vida que não se pode controlar.

- O que eu puder fazer, eu vou. Ninguém vai tirar proveito da minha irmã.

Vendo que não adiantaria ir mais além, Orion sorriu e revirou um pouco os olhos, antes de adotar uma expressão séria. Teria que entrar em um assunto que Sirius não gostava e que já trouxera muitas discussões entre eles, mas Orion não poderia deixar isso passar.

- Você sabe que há pessoas ao seu redor as quais eu não confio.

- Pai, agora não.

- Escute, por favor, pois é muito importante. É verdade que nem sempre o filho toma o mesmo caminho do pai...

- Então acho que isso já termina a nossa conversa.

- Sirius, me escute. A única coisa que peço é que não confie cegamente nas pessoas como você faz. Você tem amigos ótimos, sabe que eu adoro cada um deles...

- Pai, só porque você não gosta e não confia em George Pettigrew, não significa que Peter seja ruim. Nós já conversamos sobre isso. Ele nunca deu motivos para isso, sempre foi um cara legal com todo mundo, com a gente.

- Eu insisto nisso, porque eu não gosto de algumas atitudes dele, algumas falas, alguns olhares. O garoto tem 13 anos e faz brincadeiras um pouco pesadas, deixa sua mãe desconfortável às vezes, olhares bizarros para Lily...

- Ele é meu amigo desde os cinco anos, conhece todos vocês desde essa época. Ele está apenas confortável em fazer brincadeiras, é tudo.

- Conhecê-lo por tanto tempo não quer dizer muito. O pai dele tem muita influência nele e você conhece aquele homem.

Era verdade que Sirius também não gostava de George Pettigrew, o juiz. Nunca tinha feito nada contra ele ou seus amigos, mas ele era estranho e dizia coisas que mesmo uma criança entenderia a gravidade.

Orion e Geneviève ficavam chocados quando um Sirius mais novo chegava em casa e repetia o que ouviu do homem. Orion havia proibido o filho de frequentar a casa dos Pettigrew, apesar de não proibi-lo de ter amizade com Peter. Porém, encontrar com o pai do amigo não era muito difícil.

- Peter é meu amigo, nunca deu outro sinal.

- Filho...

- Eu vou correr esse risco.

Orion estava pronto para retrucar, mas parou, tomando um bom momento para respirar profundamente. Sua mão subiu até a altura do peito.

- Eu vou chamar o médico. - Sirius começou a se afastar, querendo correr para fora do quarto, mas Orion o segurou.

- Não, está tudo bem. Estou apenas cansado, filho.

- Então descanse. Eu vou ficar ali sentado.

- Sirius, apenas me escute. - Orion o chamou novamente.

- Você tem que descansar. A gente conversa mais depois.

- Não, me escute, filho. - Orion fechou os olhos por um momento. - Eu só peço para ficar de olho e tomar cuidado, ok?

- Eu irei, pai. Agora descanse.

Se afastou, sentando de volta na poltrona. Seu pai não tirava os olhos dele, parecendo admirá-lo. Sirius apenas não sabia que Orion o olhava para gravar cada pedacinho do filho, como se pudesse levar aquela lembrança embora com ele...já que tinha sido o último dia em que vira o filho.

O último dia que Sirius conversou com o pai, vendo-o partir na manhã seguinte e deixando-o destruído dos pés a cabeça, de sua pele até sua alma.


QUATRO ANOS DEPOIS...

They tell me think with my head

Eles dizem para eu pensar com a minha cabeça

Not that thing in my chest

Não com aquela coisa no meu peito

They got their hands at my neck this time

Eles colocaram as mãos no meu pescoço desta vez

But you're the one that I want

Mas você é a única que eu quero

If that's really so wrong

Se isso é realmente tão errado

Then they don't know what this feeling is like

Então eles não sabem como é esse sentimento

(...) Não sabia como, mas ele parecia o mais calmo entre eles. Se alguém perguntasse o que tinha feito para aquela proeza, ele não saberia o que responder. Talvez ver Lily daquele jeito ativou o modo "sobrevivência", onde um teria que pensar logicamente enquanto o outro se desesperava. Os dois desesperados seria a morte, e os dois calmos eles não iriam para lugar nenhum. Devia ter um equilíbrio e James pegou o papel da pessoa calma.

Não sabia como, mas ali estava ele.

- Ok. Nós vamos até um laboratório agora e fazer o teste. Tudo bem? - Ela assentiu. - E então, conversar.

- Conversar? - Ela perguntou.

- Vamos ter que conversar sobre o que você quer fazer. - Ela arregalou os olhos. - Eu não vou impor nenhuma vontade minha, Lily. Você vai me dizer o que quer fazer e você pode ter certeza de que eu vou te apoiar para qualquer uma das suas escolhas. - Os olhos dele procuraram os dela, querendo que ela entendesse o que ele dizia e que ele era verdadeiro. Ainda que estivessem perto, ambos sentados no chão do quarto, ele se aproximou dela. - Eu vou respeitar se você não quiser continuar com a gravidez e eu vou te ajudar do começo ao fim. - James pegou a mão dela e a apertou. - E se você quiser continuar, eu vou estar ao seu lado além do fim, além de tudo.

O desespero ainda estava ali, mas James conseguiu ver alguma mudança nos olhos dela. Talvez fosse um alívio por saber que ela teria alguém, que teria ele lhe dando o suporte, ao invés de agir como um merda.

- Eu estou com medo. - A voz dela estava fraca.

- Eu estou aqui com você e sempre vou estar. - Ele colocou os fios de cabelo dela que caiam em seu rosto, para trás de seus ombros. - Para o que você quiser, para qualquer decisão que tomar.

- Tomarmos! - ela o corrigiu.

Aquilo arrancou um pequeno sorriso verdadeiro dele.

Talvez a notícia ainda não tivesse caído de verdade nele, talvez estivesse em um choque tão grande, que não conseguia distinguir as coisas ou pensar claramente. Mas se sentia calmo, e o máximo de tranquilidade possível. Sim, ele entendia que a coisa era grave e que teria muita, mas muita coisa para resolver.

Mas a sua prioridade agora era Lily e como ela se sentia.

- Vamos, pegue o seu casaco.

- Mas você não ia sair com Sirius?

- Eu vou arrumar uma desculpa, pedir para ele ir na frente e encontrar Remus.

James ofereceu as duas mãos para ela, que aceitou. Ele se levantou a puxando consigo, então não foi surpresa quando os dois perceberam, ao mesmo tempo, uma sombra na porta do quarto.

Uma sombra alta e grande. Uma silhueta, na verdade.

De Sirius.

Ninguém precisava perguntar se ele havia ouvido a conversa. Sirius estava deixando bem claro em seu rosto e em sua postura. Ele ouviu tudo e, se não tudo, o principal.

E foi quando James quase caiu de bunda no chão pela segunda vez.

Lily soltou suas mãos e se apressou a meio caminho até o irmão.

- Sirius! - A voz dela mostrava todo o desespero que sentia. Talvez até o desespero que ele também sentia, tudo junto. - Certo. Não era para as coisas terem sido assim, mas por favor, me escute. Vamos conversar, colocar tudo em ordem, ok?

Aquela expressão. James viu apenas uma vez tanta raiva nos olhos do melhor amigo e, o mais irônico que poderia parecer, foi naquele mesmo quarto alguns anos atrás. Também envolvia Lily, também envolvia um de seus amigos, mas se recusava a pensar que era a mesma situação. Pois não era e nunca poderia ser comparada.

Nunca faria tal coisa com ela ou qualquer outra.

O tempo passava e Sirius apenas ficou ali, mudo. James poderia começar a falar, Lily poderia também, mas o ar estava tão pesado...Não parecia que o próximo a falar deveria ser qualquer um dos dois. Estavam esperando pelo grito, pela corrida de Sirius até James e o esganar. Qualquer coisa.

Quando Sirius pareceu descolar os lábios, James percebeu que parou de respirar, apenas na expectativa do que viria:

- Eu não posso negar que, depois do que aconteceu anos atrás, eu vinha exagerando com as minhas reações. - O tom de voz de Sirius era tão gélido, tão sem emoção, que seria difícil alguém tentar cortá-lo. Os olhos cinzas não deixavam James desde o momento que se depararam com ele na porta. - Eu estava lidando um pouco melhor, pensando que deveria ser menos protetor...

- Sirius, por favor. - Lily tentou, se aproximando mais. O irmão a ignorava.

- Eu sempre confiei em vocês. Remus, um santo, sendo um grande amigo de Lily, lhe dando puxões de orelha, ajudando-a pelas minhas costas, mas para o bem dela. - Sirius abriu um sorriso tenebroso. - E você, sempre solícito, sempre preocupado com ela, ainda que adorava provocá-la. Vocês eram os dois caras que eu nunca imaginei que me trairiam. Eu colocaria as minhas duas mãos no fogo por vocês.

- Por favor, Sirius, me escute. - A voz de Lily tremia. O irmão continuava ignorando-a, completamente cego pela raiva. - Queremos te explicar as coisas primeiro, antes de você começar com as suas explosões.

- Mas você, Potter, conseguiu! - Sirius deu um passo para dentro do quarto e bateu palmas, e Lily rapidamente se colocou em seu caminho, ainda que Sirius agisse como se ela fosse apenas uma mosca no cômodo. - Você quebrou uma confiança que eu nunca imaginei que fosse quebrável. Você é PIOR DO QUE PETTIGREW!

O grito de Sirius pareceu estremecer as paredes do quarto.

- Não me compare à ele! - James grunhiu. Sirius poderia gritar o quanto quiser, mas não aceitaria aquilo.

Sirius riu. Não, gargalhou. Como um louco, completamente fora da realidade.

- Você engravidou a minha irmã?! - Ele perguntou, completamente retórico, dando outro passo, a voz baixa em um tom que era pior do que gritos. Lily ainda em sua frente, tentando ser um muro entre os dois. - Você transou com a minha irmã, quando eu quase matei Pettigrew por tocá-la?

- Sirius, não foi assim, são coisas completamente diferentes. Me escute, por favor. - A voz de Lily parecia se perder, ninguém a ouvia. - O que aconteceu entre nós foi algo incomparável com Peter.

O que James poderia dizer em sua defesa? Nada. Sirius estava completamente certo e não havia evasão e não havia desculpas. James beijou, transou e colocou Lily naquela situação. Ele não a forçou, mas ele poderia ter parado antes de irem mais a fundo. Teve oportunidades de parar, mas ao invés de aproveitá-las, ele as deixou de lado e correu atrás de Lily. Deixou as investidas dela crescerem, deu espaço para que tudo aquilo acontecesse, lutando bem pouco. Depois, ele mesmo investiu.

Ele era culpado, sabia o que estava fazendo, sabia que Sirius agiria daquele jeito ou pior, e ainda sim continuou. Até o ponto de engravidá-la, talvez.

- Sim! - James respondeu. Mesmo sabendo que a pergunta de Sirius era retórica, não poderia mais ficar calado. Lily se virou para ele após a sua resposta, completamente chocada.

E Sirius sorriu. Diabolicamente. Estava mais claro ainda que, apesar dele ter entendido o que se passou entre a irmã e o melhor amigo, estava apenas esperando pela confrontação para dar mais dois passos decididos na direção de James. Lily, com as duas mãos no peito do irmão, não foi o suficiente para impedi-lo de se aproximar.

James não se mexeu e nem iria. Se o amigo queria vir para cima de si, ele iria deixar. Não iria mover um músculo para atacar, provavelmente tentaria se defender ou desviar, mas não o atacaria. Sabia que bem merecia uns bons socos, então talvez o deixasse dar um ou dois. O problema era que tinha certeza que no momento que ele começasse, Sirius não iria parar.

E Lily não teria forças para tirá-lo de cima dele.

Mas, de alguma forma, Sirius parou de avançar. Não foi Lily quem o impediu, porque estava bem provado que a ruiva não conseguiria. Mas ele parou. Os olhos como verdadeiras adagas que nunca deixavam James, nem por um segundo.

- Pegue suas coisas, Lily. - Sirius disse.

- Para quê? - Ela perguntou automaticamente.

- Pegue suas coisas, sua bolsa, casaco, não importa. - Lily continuava não sendo o alvo de seu olhar. - Vamos fazer esse teste logo.

Aquilo fez com que James reagisse, finalmente.

- Você não vai com ela para lugar algum. Eu vou!

Sirius poderia ter virado o próprio diabo, até aparecer com chifres e um rabo, mas James descobriu que havia um limite que aceitaria. Sirius bater nele? Já imaginava que aconteceria. Sirius gritar? Foi apenas uma vez, então ficou surpreso. Mas ele não iria se intrometer naquilo.

Sirius Black não iria se intrometer naquilo.

- Você tem coragem de pedir qualquer coisa agora? - Sirius perguntou. - Você tem mesmo essa coragem?

- Eu não estou pedindo. Eu estou informando que você não fará nada quanto a isso.

E como já demonstrado, Lily estar na frente de Sirius não o impediu de voar até ele. James não se mexeu nem um centímetro e apenas encarou Sirius de volta, os rostos tão perto que, se fosse uma brincadeira, James perguntaria se ele estava prestes a beijá-lo.

- Não se atreva a dizer o que eu vou fazer ou não. Ou se eu vou levar minha irmã ou não. Eu não sei como eu não estou apertando o seu pescoço agora, Potter, mas essa hora está chegando. Não apresse as coisas.

- O que você não parece estar entendendo, Black, é que ela é a sua irmã, mas se está carregando um filho, ele é meu! - James agora quem deu um passo, aproximando ainda mais os rostos. - Então você se coloque no lugar que te pertence nessa soma, enquanto eu tomo o meu.

James sabia e Lily também. Não saberiam explicar, foi apenas o ambiente que mudou, o ar pareceu ficar mais pesado e parecia que havia um campo estranho envolta do punho esquerdo fechado de Sirius. Ele levantou o braço e estava pronto...

- CHEGA! - Finalmente os olhos de ambos caíram e se depararam com Lily. Ela estava espremida entre os dois, sem nenhum deles ter percebido. - Chega! - Ela repetiu e empurrou Sirius o máximo que podia, deixando um vão de dois metros entre eles. - Sirius, você precisa me escutar e eu estou pouco me lixando se você quer ou não.

- Você me conta no caminho para o laboratório. - Ele rosnou.

- Ela não vai com você! - James rosnou de volta.

- PAREM! - Ela gritou novamente e se virou para James. - Eu preciso conversar com Sirius. Ele pode me levar, mas eu te encontro lá.

Ela estava falando sério?

- Mas...! - Tentou argumentar ao mesmo tempo que Sirius falava:

- Ele não vai. - Sirius disse apontando para o outro.

- Sim, ele vai. - Lily se virou para o irmão. - Ele tem o direito de estar lá, muito mais do que você.

- Lily! - O irmão disse, surpreso.

- E acabamos por aqui. - A ruiva foi até a bolsa e o casaco, pegando-os. - Eu te encontro lá, James.

Não iria contra o pedido dela. Lily queria conversar com o irmão e não poderia impedi-la, então ele foi em direção a porta do quarto, mas não antes de parar ao lado de Sirius.

- Não faça nada com ela que o faria se arrepender. - Sussurrou.

- Eu nunca machucaria a minha irmã. - Sirius respondeu entre dentes e chocado com a linha de pensamento do amigo.

- Fisicamente eu também acredito que não, mas de outra maneira... - James respondeu, deixando a frase pendurada no ar, e sem esperar pela resposta, saiu do quarto sem olhar para trás.

Assim que o quarto se encontrava em silêncio, finalmente, a ausência de James pareceu se transformar em um imenso vazio. Lily olhava fixamente para o tapete, enquanto os olhos cinzas de Sirius estavam focados na varanda, olhando para os jardins.

A porta da frente sendo fechada com certa força pareceu acordar a ambos. O irmão soltou uma pequena risada, incrédulo com as coisas que parecia pensar.

- Eu estou esperando lá embaixo. - Disse ele antes de sair como entrou: furioso e quase imperceptível.

As mãos de Lily tremiam. Parecia a ponto de desabar, muito fraca, ou talvez tivesse sido toda a adrenalina que tivera correndo pelo corpo e que agora havia caído drasticamente, de uma hora para outra.

Saiu do quarto com os pés se arrastando, sem acreditar que aquilo tinha acontecido. Tantas maneiras, tantos jeitos de contarem...estava quase tudo certo para falarem no dia seguinte, ou no outro.

Quando chegou no térreo, ouviu barulhos vindo do escritório de Orion e aquilo fez com que Lily se desesperasse e corresse até lá. Orion tinha uma arma escondida em seu escritório.

Largou sua bolsa e casaco no chão e entrou no cômodo, encontrando Sirius abrindo uma caixa na antiga mesa do pai.

- Sirius, pare.

Ele levantou o olhar ao ouvir a voz chorosa da irmã e parou o que estava fazendo.

- Não estou fazendo nada.

Da caixa, Sirius tirou uma elegante e fina garrafa de bebida cor de amêndoa. Um copo já estava ao lado, mas que Lily não havia reparado antes. Rapidamente, Sirius abriu a garrafa e despejou o líquido até a metade do copo, antes de virá-lo em um gole só. Tudo isso em menos de dez segundos. As palavras haviam sumido para Lily, assistindo seu irmão tomar daquela garrafa que só vira Orion tomar em sua vida.

Sem se preocupar em fechar a garrafa e a caixa, Sirius saiu de trás da mesa e pegou as chaves do carro, mostrando para onde estava indo. Ela saiu logo em seguida, vendo-o se abaixar no corredor e pegar sua bolsa e casaco que tinha largado antes de correr atrás dele. Sirius não se virou e nem a entregou, apenas continuou seu caminho para fora.

Quando Lily entrava no carro, Sirius já o ligava e apertava o controle para abrir o portão da garagem. Assim que ela fechou a porta, ele acelerou, mal dando tempo para o portão abrir o suficiente, quase arranhando a lateral, de ponta a ponta, do carro.

Decidiu não falar nada sobre estar agindo igual um imbecil, pois já teriam uma conversa difícil, a qual ela mal sabia por onde começar. Porém, o que mais a preocupava era a relação dos dois amigos. Era tudo o que pensava agora e por onde, ela achava, que deveria começar.

Não podia deixar aquela amizade acabar por causa dela.

- Não foi culpa dele! - Disse, enfim.

Sirius parou no semáforo e cobriu o rosto com as mãos. Se não soubesse que o irmão não rezava, até pensaria que era o que ele fazia, mas conhecendo-o...sabia que eram palavrões, injúrias e até ajuda para não enlouquecer de vez. Ele virou o rosto para ela lentamente:

- Não foi? Como foi, então? Você engravidou dele, mas ele não estava lá? Ele só emprestou o essencial por uma noite, você se divertiu e depois devolveu?

Podia lidar com a ironia dele, mas o pior de tudo aquilo era a raiva, fazendo a voz dele tão fria e rouca.

- Pare de ser criança. Quer ser adulto, resolver as coisas, os problemas, mas age como uma criança.

- "Criança". Que boa escolha de palavra, querida irmã.

O semáforo abriu e ele acelerou exageradamente.

- Eu provoquei James, desde o começo. Eu quis. Eu quis beijá-lo, eu o procurei quando aconteceu a primei... - Ela se calou.

Idiota! Não haviam dito ainda que estavam se vendo e, pela reação do irmão, acreditava que ele não imaginava isso.

- "Primeira"?! Era esta a palavra que estava a ponto de dizer? Primeira? - Sirius se virou para ela por alguns segundos, o completo choque por todo o seu rosto. - Isso não foi algo de uma vez, um erro, uma noite que não sabiam o que faziam?

Os dedos dele se apertaram ainda mais no volante, fazendo um som bizarro no couro do mesmo.

- O que você precisa saber e entender é que foi tudo consensual. Eu queria e muito. Eu quero James. E...ele me rejeitou no começo, disse que não poderia fazer isso com você, porque ele te ama como seu irmão. E eu sei que é verdade.

- O amor fraterno dele não me parece muito grande agora. - Ele respondeu ironicamente. - O tesão dele, aparentemente, foi maior.

- Você sabe o quanto James te ama, Sirius. Pare de ser ridículo. O único problema disso tudo é você querer controlar situações que não são possíveis controlar, para evitar que coisas ruins aconteçam. Mas adivinha só?

- O que é? - Ele perguntou, bruto.

- Você não controla nada. NADA. Não dizer que ama Marlene, não vai te fazer amá-la menos e nem te proteger de uma decepção. - Os olhos de Sirius se arregalaram. - Querer que eu saia com alguém específico, por achar que ele é "seguro", não vai me proteger de uma decepção. - Ela teve que dar uma pausa, respirar. Quando voltou a falar, sua voz estava mais calma. - Eu tenho dezoito anos, eu quero namorar, quero beijar e aproveitar minha vida. Você faz isso, eu te encobria quando trazia alguma garota para casa no meio da noite. Mas o que você faz por mim em relação a tudo isso?

- Aparentemente não o suficiente, já que a minha irmã engravidou aos 18 anos, não é mesmo?

Aquilo foi como um tapa. Lily se recolheu no banco, sem saber qual caminho pegar com Sirius naquele momento. Queria fazê-lo entender que nada do que aconteceu foi em vão, que James não era Pettigrew e que ela não queria ser vista pelos olhos dele como a sociedade já iria olhar: a garota que não tem controle e que engravidou aos 18 anos.

A sociedade era doente e sabia que ela teria muitos dedos apontados. Mas não imaginava que teria isso na própria casa.

- Você é ridículo.

- Sou, não é? Porque eu menti para você, te enganei, fiz outras pessoas mentirem para mim. Você estava fazendo papel de ridícula, enquanto outras pessoas deviam rir nas suas costas!

- Isso não é verdade. Ninguém riu de você, pelo contrário.

- Talvez não quando estava transando com ele, eu imagino...mas enquanto fazia os planos para se encontrar com ele? Devia ser muito engraçado ver o trouxa do seu irmão perdidão, sem ideia do que está acontecendo. Meu melhor amigo e a minha irmã estão se pegando por aí, se escondendo, enquanto eu tento ajudar a ambos.

- Você não estava me ajudando com nada.

- E o convite para você ir com Prewett para Southend-on-Sea?

- Eu não pedi por isso, Sirius. Sei que você tinha boas intenções, mas eu não queria aquilo.

- Você é apaixonada por ele, Lily, sempre foi! - Sirius disse, indignado.

- Eu estou apaixonada por James! - Ela rebateu no mesmo tom, sem pensar.

O carro saiu, por um leve instante, do curso que seguia, quase batendo em um outro carro a esquerda, antes de Sirius voltar para a faixa.

- O que você disse?

Já tinha deixado escapar, não dava para voltar atrás. Então respirou fundo e se virou para o irmão, deixando sua voz firme, não ousando fraquejar em nenhuma palavra:

- Eu me apaixonei por James. O que eu sinto por ele é muito mais do que eu já senti na vida, por qualquer outro.

Dizer aquilo lhe pareceu tão certo. Ela preferiria ter dito a James primeiro, de preferência quando estivessem tranquilos após um bom momento juntos, após um beijo, após uma noite. Não para Sirius, dentro do carro em direção a um laboratório para saber de uma gravidez, com o irmão fora de si.

Mas ainda sim, lhe pareceu certo dizer aquilo em voz alta. Aquelas palavras estavam presas desde quando aceitou aquele fato em Godric's Hollow, no fim de semana passado. Era algo muito bom de sentir e não explanar.

A risada irônica de Sirius a tirou daquele pensamento alegre.

- Ah, Lily...pobre Lily. Lamento dizer, mas James não é esse tipo de cara.

Ela o encarou, embasbacada. Sirius parou em um outro semáforo, mas não se virou para ela.

- O que quer dizer?

- O óbvio: James não namora, ele não se apaixona, ele não te ama. - Sirius olhou para ela. - E isso eu tenho que tirar a culpa dele, porque eu duvido que ele tenha dado qualquer indício de estar apaixonado por você.

Seu irmão não poderia tê-la machucado mais, nem se quisesse.

Mas Sirius não sabia o que ocorria entre eles. Não estava lá quando os beijos foram dados, quando as palavras foram pronunciadas, quando os carinhos foram feitos. Ele não viu como se olhavam e como se tocavam.

James nunca disse uma palavra sobre ser apaixonado ou estar a ponto de, mas ele não era indiferente. Lily sabia, porque ela viu, sentiu e ouviu.

Ainda que... pudesse ter sido apenas a cabeça apaixonada dela querendo ver coisas.

Não. Lily, pare. Não entre na de Sirius.

O irmão estacionou perto do laboratório, mas nenhum dos dois se moveu.

- Não sabe o que diz. - Murmurou a ruiva.

- Você tem alguma prova sobre isso? Ele te disse? Ou ele apenas foi um cara legal e simpático enquanto te trancava pelos lugares para fazer o que queria? Porque ele é legal e simpático com todas as garotas.

A raiva dele estava sendo transferida para ela agora. Seu corpo parecia a ponto de entrar em ebulição.

Se ele podia ser um idiota com ela, então estava na hora dele saber que aquilo poderia ser recíproco.

- Talvez eu tenha provas, mas como eu posso te dar alguma? Você não sabia de nada, não é mesmo? Não estava lá quando aconteceu. Estava aqui, completamente no escuro, enquanto eu estava trancada nos lugares com ele, aproveitando cada pedaço de James Potter. E foi muito bom a cada segundo que eu... como Edgar disse mesmo?...Ah, como eu fodi James até não querer mais.

Lily saltou do carro, não esperando por ele ou pela resposta.

- Lily! Espere, Lily. - Ouviu a voz de Sirius, mas não se importou. Entrou no laboratório com a raiva espumando pela boca. Talvez deveriam fazer outros testes com ela também, conferir se não tinha enlouquecido.

Foi até a recepção e estava pronta para pedir pelo exame e pelos papéis que deveria assinar enquanto cuspia fogo, quando uma prancheta semi preenchida apareceu em seu campo de visão. Olhou para o lado e encontrou o olhar suave de James.

O que via nele naquele momento foi capaz de trazer uma calma que parecia não ser capaz de atingir sozinha, mas ele foi capaz de trazê-la. E foi apenas com o seu olhar, com uma serenidade que Lily não conseguia saber de onde ele estava tirando.

- Eu preenchi o que sabia de cabeça ou que tinha salvo no meu telefone, mas tem alguns detalhes que eu não teria como saber. - Até a voz dele estava suave.

Pegou a prancheta e viu que a maioria estava, realmente, preenchida: nome, sobrenome, endereço, telefone, email, data de nascimento, nome da mãe e do pai.

O que estava em branco era mesmo impossível: remédios sendo tomados, identidade, quando foi a última data de sua menstruação, sintomas e qualquer doença que poderia ter.

Voltou a olhar para ele. Não era possível que ele fosse indiferente, era?

- Você está bem? - Ele perguntou. - Ele fez algo...?

- Ele foi apenas...Sirius. Mas o Sirius malvado.

James se virou para a porta, onde estava o dito cujo parado, os olhos não saindo de cima deles. Viu que sua mandíbula estava trancada de raiva.

- Preencha o resto, ok? Não há espera, então será rápido. - Tentou acalmá-la.

Lily assentiu e preencheu as lacunas restantes, entregando para a recepção logo depois. Quando se virou, viu que James estava de um lado do saguão e Sirius de outro.

Onde deveria ir? Provavelmente no meio, sem tomar partido de ninguém e evitar uma briga ali mesmo, na frente das enfermeiras. Mas quando se dirigia até uma das cadeiras, no meio deste vão enorme entre eles, a enfermeira a chamou.

- Obrigada! - Ela murmurou para si e foi até a mulher.

- Olá, querida. - A enfermeira cumprimentou Lily e fechou a porta. Olhou para o papel em mãos. - Beta hCG, certo? Se eu estou vendo correto, sua menstruação está atrasada cinco dias?

A enfermeira começou a preparar o exame e Lily tentou se concentrar na conversa ao invés de olhar para a agulha.

- Sim.

- Ok. Nenhum sintoma também. - Ela continuou lendo. - Esteve tomando corticoide. Por quanto tempo?

- Algumas semanas. Estou com um tratamento depois de um acidente de carro.

- Você falou com o seu médico sobre o atraso e o medicamento?

- Não, apenas fiz o teste. O meu atraso e os medicamentos podem estar ligados?

- Eu não poderia afirmar qualquer coisa, mas há medicamentos que influenciam o ciclo da mulher, assim como estresse e muitas outras coisas.

Aquilo seria um alívio.

- Acho que vou descobrir após o exame, não é? - Comentou retoricamente.

- De qualquer maneira, recomendo falar com o seu médico sobre.

A enfermeira se aproximou e começou a realizar o teste de sangue. Lily apenas virou o rosto para o outro lado, sua cabeça voltando para o problema enorme que enfrentava e nem era a possível gravidez.

Sabia que uma hora ou outra aquilo iria acontecer. Poderiam ter escondido e levado aquilo para o túmulo caso tivesse ocorrido apenas uma vez, mas como poderiam? Eles se davam bem, em tudo. Tudo o que sentia quando estava com James era bom, em todos os momentos, e duvidava que estivesse sendo ruim para ele, já que ele a procurava tanto quanto ela agora.

Era sua culpa. Lily havia insistido, procurado, seguido, pedido. James tentou se afastar, disse que daria problemas. Ele a avisou sobre tudo isso, mas Lily não quis escutar.

E na verdade, eles não deveriam escutar. Sirius não era ninguém para dizer com quem eles se relacionavam ou não. Ela era livre para ficar com quem quiser, assim como James. E estava mais do que na hora, muito mais do que na hora, do seu irmão dar um passo para trás e parar de se meter.

Amava Sirius, com todo o seu coração. Não poderia pedir por um irmão melhor, mas ele tinha que se colocar no lugar. Pettigrew havia sido um idiota de graus gigantescos, mas aquilo aconteceu há anos e agora Lily não era uma garotinha indefesa mais. Sim, ainda existiam homens horríveis e tão ou mais idiotas que Pettigrew, mas não poderia não viver só por conta disso.

E seu irmão precisava entender isso.

Não se importava se ele quisesse conversar com um namorado dela, tentar ver se ele era uma boa pessoa. Mas para isso, Sirius precisava aceitar que ela teria um namorado, pretendia criar uma família um dia - ou talvez em alguns meses, dependendo do resultado do exame -, e que a vida iria seguir em frente.

Saindo de seus pensamentos, ela olhou para o lado e viu que a enfermeira a encarava com um pequeno sorriso.

- Já acabou? - Ela perguntou.

- Há dois minutos, mas percebi que você estava longe. - A enfermeira se aproximou. - O seu parceiro está aí fora? - "Parceiro"? Não era bem uma boa descrição, mas entendeu o que ela quis dizer, então apenas assentiu. - Certo, pelo menos isso. Escute, querida...saiba que você tem opções e que você deve escolher o que for melhor para você. Não deixe ninguém te dizer o contrário, não importa o que disserem ou qual for a sua decisão. Ok?

- Ok! - Lily engoliu em seco. - Sim, claro.

- Bom, você está pronta. Como estamos fechando, você terá o resultado apenas amanhã de manhã.

- Ah! - A decepção na voz dela era nítida. Não estava esperando ter que passar a noite com aquela dúvida feroz em mente. Porém, ela deveria ter feito algo mais cedo, quando percebeu o problema e o resultado da farmácia tinha dado inconclusivo.

Mas ela nunca poderia ir até ali sozinha. Lily era forte, astuta e independente, mas até as pessoas fortes precisavam de ajuda, certo? Não era como se um resultado positivo ou negativo não fosse virar o mundo dela de cabeça para baixo.

J~L

Assim que Lily foi chamada, o coração de James parecia a ponto de pular para fora do seu peito.

Esteve calmo todo o tempo, até mesmo enquanto dirigia até ali, mas agora as coisas pareciam fazer efeito. Se o resultado fosse positivo, independente do que Lily escolhesse fazer, seria uma reviravolta e tanto na vida.

Se Lily estivesse mesmo grávida e não quisesse continuar a gravidez, ele a apoiaria e ajudaria com tudo. Mas isso, consequentemente, deixaria uma marca nela. Uma que ele, como um cara, nunca teria que carregar com o mesmo peso e nunca entenderia, e isso era o que o preocupava. Mas ninguém poderia forçá-la a não fazer e ele não cogitou nem por um minuto pedir ou impor qualquer coisa.

E se a gravidez continuasse. Bom... teria muito o que planejar. Lily ia para Oxford, isso faria com que James escolhesse Oxford também, caso contrário, como eles poderiam fazer aquilo? Teriam que arranjar um lugar, de preferência juntos, para cuidarem, ambos, do bebê.

Espera!

De repente, algo o atingiu: Lily gostaria de ficar com ele caso tivessem o bebê? Gostaria de morar com ele, continuar aquele relacionamento, porém agora, oficialmente?

E se não continuasse a gravidez?

Levou as mãos aos cabelos, talvez pela décima quinta vez, e nem percebeu. Seu coração batendo como um louco, mas por outro motivo agora.

- Sabe que aqueles seus planos que havia me contado, acabaram, não sabe?

Ele se virou para Sirius que se aproximou, mas com os pensamentos loucos que estava tendo, não percebeu. Sem contar com a recepcionista, eles eram os únicos na sala de espera, dando uma margem enorme para Sirius assassiná-lo ali mesmo.

- Aquela viagem para a Ásia que você queria fazer antes de começar a universidade, por exemplo. - Continuou o amigo.

- Eu não pretendo largar nada, até termos todas as informações.

- E eu te garanto que não há chances de você fugir da sua responsabilidade.

- Eu nunca fugi de responsabilidade nenhuma, e não começaria com ela. - James começava a se irritar. - Você quer encontrar um culpado onde não existe um.

- Ah, porque transar com ela desprotegido e engravidá-la não existe culpa.

James olhou bem fundo nos olhos do amigo.

- É melhor você calar a boca e não ficar falando de algo que não sabe.

- Se ela está grávida, é porque vocês fizeram merda.

- Se ela está grávida e se ela quiser manter, então vai ser um enorme imprevisto, mas um que não vou fugir. Ela quem vai decidir o que fazer e não será você quem mudará isso.

- Ah não, não mudarei nada. Só vou te arrastar até a igreja com ela. - Sirius disse sem rodeios.

James o olhou por alguns segundos e depois riu.

- Eu gostaria muito de saber em qual século você vive. Seria 1800? Porque, com certeza, não é o mesmo que o meu.

- Você vai engravidar a minha irmã e depois abandoná-la? - Sirius flexionou os dedos, como se estivesse pronto para matá-lo.

- Não. Eu vou ser e dar tudo o que Lily e o bebê precisarem. Mas quem vai decidir isso será ela, comigo. Se quiser, pode dar sugestões e ajudar, mas não decidir.

Ele sabia o quanto aquilo devia estar matando Sirius por dentro e ainda não entendia como o amigo ainda não havia pulado nele e arrancado sua pele inteira.

Sim, ele tinha peso na consciência sobre o que fez, mas a única coisa que o impedia de implorar pelo perdão de Sirius, era o fato de que tudo o que aconteceu havia sido verdadeiro. Eles não se forçaram a nada, Lily não foi forçada e...

James era louco e apaixonado por ela.

Nunca machucaria Lily, física ou emocionalmente, não a abandonaria ou a obrigaria a tomar qualquer decisão sobre qualquer coisa sobre sua vida. E se ela quisesse, se ela quisesse, James se casaria com ela no dia seguinte. Ainda que tivesse certeza de que isso fosse uma das últimas coisas das quais ela gostaria naquele momento.

Deu uma olhada para o lado e viu Sirius quieto, o que era absurdamente estranho naquela circunstância. Talvez o valor da amizade estava contando, no final das contas. Ou talvez ele apenas estivesse planejando a melhor maneira de acabar com ele.

Sirius se mexeu e começou a andar em círculos, as mãos para trás, olhando a cada dez segundos para a porta que Lily saiu. Talvez ele só estivesse tão nervoso quanto o próprio James, um nervosismo que te deixa quieto, pensativo. Talvez a sua irmã era a única coisa que importava para ele agora, preocupado demais para agir sobre o fato de que esconderam algo dele, e mais focado na possível gravidez e consequências na vida dela.

As portas se abriram e Lily saiu. James soltou todo o ar que segurava e se aproximou dela ao mesmo tempo que Sirius. Os dois abriram a boca, prontos para soltarem todas as perguntas.

- Só amanhã. - Ela respondeu antes de ouvir qualquer uma delas.

James se limitou a fechar os olhos, engolindo aquela notícia à força.

- Vamos embora. - Sirius disse e deu as costas, já indo para a porta. Lily se virou para James, os olhos tão perdidos quanto antes.

- O que você quer fazer? - James perguntou.

- Ir para a minha cama, dormir e acordar apenas amanhã.

Ele sorriu fraco para ela, compreensivo.

- Você vai ficar bem? Com ele? - Apontou com a cabeça para onde Sirius esperava por ela.

- Uma pergunta muito difícil de responder agora.- Ela tentou sorrir.

- Eu estarei na sua casa amanhã de manhã, mas se algo acontecer, por favor, me chame. Sabe que eu estou a menos de 1km de distância.

- Sim, eu sei. Obrigada, James. - Ela se aproximou e deu um beijo em sua bochecha. Não era na boca, mas James sentiu todo o significado dele, todos os sentimentos confusos e loucos que ela estava sentindo. - Até amanhã.

Lily saiu do laboratório e ele ficou parado no meio do saguão, engolindo a espera e a angústia. Depois, se forçou a se mexer e voltar para a casa, onde passaria a noite entre universidade, fraldas, Sirius cortando seu pênis fora e Lily.

Especialmente Lily.

L~S

A volta para casa foi feita em total silêncio.

Sirius dirigia tão devagar, que estavam quase parando, muito diferente de como ele conduziu até o laboratório. Arriscou um olhar ou outro para ele, vendo que a raiva não dominava mais tanto o seu rosto. Era pior.

Estava vazio, como se ele não estivesse ali, apenas sua carcaça.

Quando chegaram em casa, não esperou por ele e saiu do carro. Foi até a cozinha e pegou um grande copo d'água gelado, tentando se acalmar um pouco.

Na última vez que esteve naquele cômodo, naquela manhã, nem poderia imaginar que o seu dia terminaria daquele jeito. Estava ainda em maus termos com James após a briga no campo de futebol e a discussão de ambos, mas estava planejando conversar com ele. Eles deveriam falar com Sirius naquele fim de semana e seu irmão deveria se resolver com Marlene.

Era para ser um fim de semana incrível, mesmo se Sirius reagisse mal. Porque ele iria reagir mal caso contassem com calma sobre estarem juntos, mas não haveria aquele drama, a descoberta do jeito que foi.

Ouviu uma risada em suas costas e se virou, encontrando o irmão na porta da cozinha. Ele continuou rindo, como se achasse graça de algo de verdade. Lily colocou o copo em cima da pia e o encarou, esperando por uma explicação. Ela era a única ali a não achar graça no que ocorria?

- Entendi tudo, tudo mesmo. Foi muito boa, eu confesso. - Ele disse, finalmente.

- Do que está falando?

- Dessa brincadeira de vocês. Me diga, Remus também está envolvido de alguma maneira? Qual é o papel dele? A que horas ele vai chegar e dizer as coisas mais absurdas?

Meu deus, ele estava em negação? Ou tinha perdido completamente a cabeça?

- Não tem brincadeira, Sirius.

- Tem, claro que tem. - Ele voltou a rir. - Só agora que consegui pensar melhor. Porque assim, você e James? Pf, isso foi planejado quando eu pedi para ele te levar para Hogwarts enquanto eu estava em Oxford, não? Demoraram para executar a vingança, mas finalmente conseguiram.

- Não tem brincadeira, nem vingança.

Sirius começou a balançar a cabeça enquanto ria. Lily começou a se preocupar com a reação dele.

- Não, Lily. Não! - Ele parou de rir. - Sabe o porquê? Porque vocês não fariam isso de verdade. Você não mentiria para mim, não esconderia isso, certo? James não esconderia isso. Meu melhor amigo, James Potter, ele não faria isso comigo. E você? A minha irmã... não faria isso.

- Você está vendo as coisas pela perspectiva errada.

- Ah, desculpe, tem uma perspectiva certa de ver isso? - Ele riu de novo. - Por favor, me traga a luz para essa maravilhosa perspectiva que devemos ter.

Ele parou no meio da cozinha, com as mãos cruzadas na frente do corpo.

- O que aconteceu entre James e eu não era para te atacar, como você parece estar pensando. Foi algo que simplesmente surgiu e levamos em frente, sabendo que você não compreenderia e...!

- Então havia a questão "esconder de Sirius e fazê-lo de trouxa". Isso está mesmo na perspectiva "correta" do caso?

- Não era para te fazer de trouxa ou qualquer coisa! - Respondeu, já perdendo a paciência. - James quis contar desde o começo e eu pedi para não fazermos isso. Você me disse que não queria saber o que eu andava fazendo, com quem eu andava fazendo as coisas.

- EU IRIA QUERER SABER SE ERA COM O MEU MELHOR AMIGO!

O grito dele a pegou desprevenida.

- Qual seria a diferença se fosse James ou Gideon? Ou qualquer outro?

- Porque James mentiu. O meu melhor amigo mentiu, escondeu tudo isso. - Ela podia ouvir o sentimento de traição na voz dele, pois aquilo não era dito com raiva, mas com tristeza. - Eu pedi milhares de vezes para que ele me dissesse o que acontecia e ele não me falava. Ele dizia fazer uma coisa, mas estava indo atrás de você. Como um delinquente, correndo pelas sombras, por baixo do meu nariz.

- Eu pedi para não falarmos para você. Se há uma culpada nisso, sou eu. - Ela apontava para o próprio peito, dando a volta no balcão e se aproximando dele. - Fique com raiva de mim, esbraveje, grite! - Jogou as mãos para o alto.

- É EXATAMENTE O QUE EU QUERO FAZER, LILY! EU QUERO GRITAR PARA OS QUATRO CANTOS DO MUNDO O QUANTO EU ESTOU PUTO DA VIDA!

- ENTÃO GRITE! ISSO VAI TE AJUDAR, TALVEZ ME AJUDE TAMBÉM!

Os dois respiravam com dificuldade enquanto se encaravam. Raiva, tristeza, decepção...tanta coisa sendo trocada naquela cozinha e tudo o que ela queria, era voltar no tempo e tentar consertar aquilo: ter ido falar com James assim que desconfiou da gravidez; não estar em casa quando os dois chegaram. Até terem falado com Sirius quando James propôs na primeira vez.

- Como você reagiria se tivéssemos contado? - Perguntou com a voz mais baixa, mas não tão pacífica.

- Não sei.

- Você sabe. Você sabe como reagiria e eu também, assim como James. Não seria muito longe de como está fazendo agora.

- Se você não estivesse grávida, não.

- Você teria reagido mal, eu dizendo estar grávida ou não. Teria partido para cima dele, culpando James por algo que eu também quis. Seria injusto, ficaria cego pela raiva e estaria jogando essas palavras horríveis para mim o tanto quanto está fazendo agora.

- ELE É O MEU MELHOR AMIGO, LILY!

- E DAÍ? O QUE O FAZ PIOR DO QUE QUALQUER OUTRO?

Ele deu as costas para ela, andando até a mesa e se apoiando ali.

- Nada faz James pior ou melhor. - A voz dele tinha caído vários decibéis. - O fato de ser ele dentro de um armário da escola com a minha irmã ou ter transado com ela e, provavelmente, a engravidando...o fato dele ter feito isso pelas minhas costas...é esse o problema, mas um que você não parece entender.

- Claro que entendo.

Sirius soltou uma risada.

- Não parece. Vocês pareciam mais preocupados comigo não me metendo entre vocês do que me informarem e fazerem isso de uma maneira limpa, sem machucar alguém.

A boca dela caiu.

- Está fazendo isso algo como pessoal de novo, como se quiséssemos te machucar fazendo isso.

Sirius largou a mesa e se virou.

- NÃO ERA A INTENÇÃO? DESCULPA TE DECEPCIONAR, POIS ADIVINHA? FOI ISSO QUE VOCÊS FIZERAM!

- NÃO QUERÍAMOS TE MACHUCAR!

- MAS FIZERAM, ENTÃO PARABÉNS! VOCÊ FEZ O MEU MELHOR AMIGO MENTIR, QUANDO ELE SABIA O QUANTO ISSO ERA IMPORTANTE PARA MIM! VOCÊ FOI ÓTIMA, PERFEITA, UMA VERDADEIRA IRMÃ! - Ele fez alguns gestos de celebração. - QUE MARAVILHA TER ALGUÉM QUE EU POSSO CONFIAR E QUE DORME NA PORRA DO QUARTO AO LADO!

Seus olhos se encheram de lágrimas e ela começou a se afastar, dando alguns passos para trás.

- Eu não queria te machucar, apenas queria viver.

- E VOCÊ VIVEU BEM, NÃO? ENQUANTO O TROUXA DO SEU IRMÃO PENSAVA QUE ESTAVA INDO BEM, ENTRANDO NOS EIXOS DEPOIS DE TODA AQUELA MERDA QUE VOCÊ PASSOU, QUE TODOS NÓS PASSAMOS...TAVA AÍ FORA, FUDENDO COM JAMES NAS MINHAS COSTAS!

Estava quase na porta da cozinha...

- Eu te odeio. - Ela disse, parando. - Eu odeio você, odeio as suas palavras, odeio como você reage. - Começou a chorar, o que a deixou com mais raiva ainda, porque não queria chorar na frente dele. - EU ODEIO VOCÊ!

Deu as costas e saiu.

G~S

Geneviève abriu a porta da frente naquela noite, depois de um longo dia de compras para uma famosa atriz americana que se hospedava em Londres, e a única coisa que sabia era que algo estava errado.

Não sabia como explicar, mas havia algo no ambiente, algo negativo e pesado. A casa estava toda escura e silenciosa, o que dava a entender que deveria estar vazia, mas o carro de Sirius estava ali e a porta da frente destrancada.

- Oi?! Alguém em casa? - Falou bem alto para ser ouvida, pelo menos, no térreo. Nada.

Jogou as chaves na bolsa, colocando-a no aparador, e foi para a cozinha. Ninguém. Nem uma única louça suja, além de um copo em cima da pia. Foi para a sala principal e sem sinal de que os filhos passaram por ali. Conferiu outros cômodos e ficou no mesmo resultado, até chegar no escritório de Orion. O baú em que ele guardava uma bebida que adorava bebericar, principalmente quando estava nervoso, estava aberto. A garrafa estava em cima da mesa, um copo ao lado e que parecia ter sido usado.

Aquela cena enfraqueceu suas pernas, levando-a ao passado, como se a qualquer momento seu marido aparecesse em suas costas, a abraçando e perguntando se ela precisava dele para algo: ajuda na cozinha para o jantar para os monstrinhos ou no quarto.

Mas claro, a vida não era perfeita a ponto de trazê-lo de volta, o que significava que um dos seus filhos estivera bebendo daquela garrafa, em plena quinta-feira.

Precisava encontrá-los.

Subiu as escadas. Dali, ouvia uma música alta no quarto de Sirius e a porta fechada da filha. Sirius parecia em seu modo operacional normal, então foi ao quarto de Lily e bateu. Sem resposta. Bateu de novo, mais forte, e nada.

Testou a maçaneta e começou a abrir a porta, devagar.

- Estou entrando. - Avisou antes de se deparar com qualquer coisa, mas a única coisa que viu foi a filha dormindo. Pesado.

Se aproximou e conferiu se estava bem, mas aparentemente estava apenas em um sono profundo. Saiu do quarto e fechou a porta.

Andou até o quarto de Sirius e bateu. Nada também. A música estava bem alta, então bateu com mais força.

- Entre.

O tom de voz do filho fez com que Geneviève abrisse a porta com urgência. Nunca, em todos esses anos morando com Sirius, ela ouviu aquele tom de voz. E agora tudo fazia sentido. Toda a preocupação quando entrou na casa; aquela sensação de que algo estava errado e que alguma coisa havia acontecido com seus filhos ou um deles; a garrafa de Orion em cima da mesa...tudo estava esclarecido agora ao ver Sirius sentado na cadeira giratória que usava em sua mesa de trabalho. Uma garrafa vazia estava tombada no quarto, enquanto ele segurava uma segunda.

Geneviève correu até ele e tirou a garrafa de suas mãos, o que não causou nenhuma reação dele. Ela se abaixou em sua frente, levantando o rosto do filho. Ele cheirava a puro álcool, seus olhos estavam vermelhos e perdidos.

- Sirius, o que aconteceu? - Geneviève tentou não soar desesperada, mas duvidava de que tivesse conseguido.

- Eu...eu, mãe,...eu...- ele tentou. Falava tão baixo, a língua enrolada, que era impossível ouvir.

Ela se levantou e foi até o grande rádio ou qualquer nome específico que pudesse ter aquele negócio enorme e muito técnico que tocava músicas absurdamente altas, e desligou. Pelo menos o botão para isso era bem claro.

- Querido, por favor. Me diga. - Ela voltou até ele.

Sirius tentou se mexer, mas estava tão mole que mal podia sentar corretamente sozinho, tendo a ajuda de Geneviève para isso.

- Eu não consegui, mamãe. - Ela tentou não amolecer ao ouvir aquilo. Sirius não a chamava de "mamãe" desde a morte de Orion e sentia tanta falta. E se não fosse o estado que seu filho se encontrava, ela estaria ainda mais feliz.

- O que é, querido? Me diga, por favor. Isso é sobre Marlene?

Com muita dificuldade, Sirius se levantou, cambaleando. Geneviève ficou próxima caso ele caísse, estando pronta para amenizar a queda. Ela nunca conseguiria segurar Sirius e toda sua altura e peso, mas poderia ajudar a cair mais devagar.

- Eu tentei. Tentei tanto...eu não queria que acontecesse nada. Mas eles...são as duas pessoas que eu amo tanto na vida.

- Meu amor, seja direto. Alguém está em perigo? Machucado?

- Não, não. - Sirius abanou a mão e foi até a janela, olhando para o jardim de trás. - Eu os amo tanto, tanto. Eu te amo tanto também, mãe. Eles são as duas pessoas que eu amo, mas você também.

O álcool fazia a língua de Sirius enrolar, dificultando a compreensão, mas ela estava obstinada a compreendê-lo.

- Oh meu querido, eu sei. Eu sei. - Ela passou a mão pelos cabelos bagunçados dele. - Eu te amo tanto também. Muito.

- Eu sei. - Sirius falou e deu uma fraca tentativa de sorriso. - E eu amo Lily. Eu amo a minha irmã.

- Ela sabe também e ela te ama tanto quanto.

- Eu quero o melhor para ela. Eu daria tudo o que eu tenho para vê-la feliz, tudo. Até a minha vida.

O coração de Geneviève batia tão rápido e de um jeito tão doloroso, que queria chorar. O que estava acontecendo com o seu filho? O que o fez beber tanto assim no meio da semana e dizer essas coisas, ainda que fossem declarações? Ele estava sofrendo e não poderia assistir a isso.

- Meu amor, me diga o que está te afligindo tanto, por favor.

- Eles mentiram. Esconderam. Mais de uma vez. Isso é o que dói mais.

- Ainda estamos falando de Lily?

- Sim. Ela e ele.

Na delicada e complicada vida de Sirius Black, Geneviève podia contar nos dedos quem ele amava de tal maneira : sua família - Lily, Orion e ela -, James, Remus e Marlene. Não existia ninguém mais que ocupasse o coração de Sirius do que eles no momento.

- A outra pessoa seria...- A resposta não era difícil, mas preferiu não mostrar que a tinha na ponta da sua língua.- ...James?

Sirius pegou um copo que estava em cima da mesa e jogou na parede. Para a sorte de ambos, o copo era de plástico, então apenas o susto e o barulho foram o resultado.

Uma resposta não era necessária, Geneviève entendeu o recado.

- Meu pai...- Sirius recomeçou, sentando-se na cama e parecendo mole novamente. - Meu pai. Lembra quando ele estava no hospital? Naqueles últimos dias?

Sentiu que tinha engolido uma pedra enorme. Claro que se lembrava de quando perdia o marido, o homem que foi sua salvação no amor, para sua família.

- Sim, querido. - Tentou não deixar transparecer a dor ao lembrar.

- Você saiu com Lily, foi levá-la para as aulas de alguma coisa, e eu cheguei depois. Naquele dia, eu prometi algo para ele. Ele não me forçou, porque não era necessário. Eu prometi por querer.

- O que prometeu, Sirius?

- Que eu tomaria conta de vocês. - O corpo dele balançou de um lado para o outro. - Enquanto ele voltava a dormir, eu estava sentado no escuro, sem conseguir pregar os olhos...e prometi ali que cuidaria de você, que a ajudaria a ser feliz, que ficaria com você o maior tempo possível, não a deixaria sozinha e que se alguém se aproximasse, eu iria me certificar de que ele seria bom o bastante.

- Meu amor. - Ela disse o abraçando tão forte, que duvidava que mesmo com os músculos do filho, ele poderia abraçá-la tão forte quanto aquilo, ainda que ele estivesse tentando e muito naquele momento. - Eu sou tão feliz e você é uma das razões por isso. Eu sinto tanto orgulho de ser sua mãe.

- E...- Ele continuou. - Prometi que cuidaria de Lily. Que estaria ao seu lado para tudo, não abandoná-la, guiá-la, dar meu ombro quando precisasse, bronca quando necessário, tomar o lugar de irmão mais velho e, acima de tudo, espantar qualquer filho da puta que se aproximasse para se aproveitar dela. - Ele riu sem humor. - Eu já iria fazer tudo isso sem que ele pedisse, mas eu ainda sim prometi. Isso só me fez ficar mais focado nisso.

- E você é um ótimo irmão. O melhor que Lily poderia ter, eu tenho certeza.

- Mas papai não deve estar feliz... porque não fui bom o suficiente para mantê-la segura. - Agora ela não sabia mais o que pensar. - Segura contra Pettigrew. - Ele respondeu a pergunta muda dela.

- Peter? Aquele seu amigo que vocês não falam mais?

- Mãe, eu não consegui protegê-la dele. Aquele filho da puta se aproximou, foi devagar e de repente, ele pulou nela. Tentou forçar Lily... a gente conseguiu impedir, mas Lily...ela chorava e chorava. E eu não consegui impedir...

- Sirius, Peter abusou de Lily? - O coração de mãe começou a se despedaçar ao ouvir aquilo. Aliás, por que ela ouvia aquilo só agora? Peter Pettigrew não aparecia por anos e anos.

- Chegamos a tempo, mas ele tentou. Lily chorava e eu não consegui impedir. - Sirius ainda repetiu mais algumas vezes "não consegui impedir" antes de conseguir sair daquele bloqueio. - Foi minha culpa. Eu trouxe aquele bosta para a vida dela, aqui para casa, o deixei confortável o bastante para fazer essa merda. Abri minha porta para aquele filho da puta e ele tentou aquilo com a minha irmã.

Ele tentou se levantar, mas a mãe o impediu quando percebeu o quanto o filho estava alterado. Geneviève estava chocada com o que ouvia. Sua filha havia sido vítima de um quase abuso e nem ficou sabendo.

- O que tem James a ver com isso? O que ele fez?

- James. - Sirius riu. - James e Lily. Quem poderia imaginar? - Mais risadas. - Lily é apaixonada por James. Eles ficaram juntos, escondidos de mim. De mim! - Ele apontou para o próprio peito, nervoso. - Por quê? - Sirius quase gritou.

O alívio em ouvir que, aparentemente, não aconteceu um quase abuso de novo lavou a preocupação de Geneviève, ainda que só um pouco. Eles teriam que falar novamente sobre Peter Pettigrew quando Sirius se recuperasse.

- Talvez por você ser ciumento e controlador em excesso? - Ela se forçou a sorrir um pouco, tentando deixar Pettigrew de lado. Precisava tomar conta de um filho de cada vez e, naquele momento, Sirius estava precisando dela.

- Bff! Eu não sou tão ruim assim.

- Filho, você é absurdamente ciumento com a sua irmã.

- Talvez por saber o que os caras pensam dela, por lembrar o que Pettigrew tentou, por saber que a minha irmã é linda e gentil, fazendo esses idiotas pensarem que ela é um alvo fácil.

Ela respirou fundo.

- Ou talvez seja por você ter prometido algo para o seu pai no leito de sua morte e você achar que não cumpriu com a sua palavra, mesmo sendo algo que você não podia ter controle algum? - Sirius olhou para ela, os olhos ainda bem nublados pelo álcool. - Você não pode arcar com as responsabilidades dessas ações, querido.

- Mas o papai...ele tentou conversar comigo sobre Peter tantas vezes. E eu...eu apenas dizia que era besteira, eu não queria ouvir. Se eu tivesse pensado melhor, nada daquilo teria acontecido.

- Talvez não teria acontecido caso não fossem amigos, mas quem pode garantir que não acontecesse em outras circunstâncias? E então qual seria a sua razão para sentir-se culpado: não estar com a sua irmã na hora? Não ter saído cinco minutos mais cedo de algum lugar? Então eu, como mãe, deveria me sentir responsável, culpada pela maldade das pessoas também que foram tão ruins com a minha filha?

O olhar triste e cheio de arrependimento de Sirius era tão paralisante, a deixava sem chão, sem norte.

- Não é sua culpa, mãe.

- Assim como não é a sua também, por mais difícil que seja. Nós criamos vocês na esperança de serem boas pessoas, mas não podíamos criá-los de uma maneira que evitasse suas tristezas. Se houvesse uma maneira, teríamos feito. Pagaria o quanto fosse preciso: dinheiro, vida? Eu estaria dentro, o seu pai também. Mas a única coisa que pudemos fazer era tentar fazê-los felizes, preparados para o mundo, oferecendo o suporte que precisam caso um momento como esse...- Ela apontou para os dois. - ...chegasse.

Apesar de estarem bem perto, Sirius se aproximou mais, parecendo procurar por um abrigo.

- Vocês fizeram um bom trabalho. Lily e eu somos felizes. Eu sou feliz por poder ter um momento como esse com você. Eu gostava dos meus momentos com o meu pai e ele faz muita falta, mas eu fico feliz por ter você.

- O seu pai está sempre com você. Não podemos ter os mesmos momentos de antes, mas ainda podemos visitá-lo, conversar...talvez contar coisas que apenas ele compreenderia.

Os fios insistiam em cair pelo rosto bonito dele, então Geneviève tentava arrumá-los, lhe dando a oportunidade de contemplar o homem maravilhoso que o seu filho estava se tornando.

Ele respirou fundo.

- Três anos. - O filho finalmente disse. Geneviève ficou atenta. - Três anos que eu não o visito, que não vou levar flores ou qualquer coisa do gênero. Eu perdi aquela vontade de falar com uma pedra que tem o nome dele.

Ela sabia que Sirius visitava Orion duas vezes por semana após sua morte. Algumas vezes ia sozinho, outras tinha seus amigos com ele, outras sua irmã e ela mesma. Há muito tempo ele não falava sobre essas visitas e saber que ele não o fazia por três anos, lhe surpreendeu.

- O que houve? O que te fez não querer visitar mais o seu pai?

- Eu comecei a sentir que não valia a pena. - Ele respondeu, dando um alto soluço alcoólico. - Eu não estava tendo respostas...não que eu esperasse que ele aparecesse para me dar, mas... simplesmente nada ocorria: minha cabeça não ficava mais sossegada, eu não ficava mais relaxado e começava a sentir mais pressão do que já sentia.

- Pressão? - Soltou ela, confusa.

- De deixar tudo ok, de ter as coisas fluindo bem...porque desde o começo, eu não consegui.

Por anos, seu filho pensava que devia cuidar delas como se fosse responsável. Um garoto, um adolescente que tinha a vida toda para viver, se viu trancado por quatro anos com uma responsabilidade que não era dele, que nunca deveria ser.

- Orion era um cara maravilhoso. - Começou, abraçando o filho. - Sempre tão justo, leal, visionário. Mas não perfeito. Até pessoas boas como ele, erram. E o seu pai errou em pedir tal coisa para você, querido. Porque não é o seu papel cuidar de nós. Cabe a mim, como mãe, ser o refúgio para vocês. Cabe a vocês, meus filhos, viverem com responsabilidade, consciência, cuidar um do outro, mas não ser nada além de irmãos. Você não é o pai de Lily e nem o meu. É meu filho, seu irmão, e que tem o seu papel fundamental na família...mas não o de provedor.

A cabeça de Sirius caiu para o lado, em seu ombro. Ela o apertou ainda mais, querendo tanto que aquela agonia que via nele, se fosse. Seu filho não merecia tantas coisas ruins em sua vida, mas sim felicidade. Merecia viver de acordo com a sua idade e deveres, não com o de qualquer outro.

- Eu não queria decepcionar mais uma pessoa. - Ele respondeu com a voz mole.

- Como assim?

- Já bastava ser um ser humano odiado pela mulher que me deu a luz. Eu não queria ser por ele também.

Geneviève sabia que, se não fosse pela quantidade de álcool correndo no sangue dele, Sirius não diria aquilo. Talvez ficaria trancado em sua mente, mas não deixaria vir à superfície.

Soltou seus ombros e segurou o rosto dele, fazendo-o olhar em seus olhos.

- Você nunca seria odiado pelo seu pai, nem por nenhum de nós. Aquela mulher era o problema, não você. O fato de você estar envolvido foi um infortúnio, mas não a causa de nada.

Não sabia se o filho entendia o que dizia. Sentia que sua atenção estava se perdendo. Começou a pensar se não seria prudente levá-lo ao hospital.

- Ela me odeia.

- Walburga?

- Não. Lily.

- Nunca. Lily nunca te odiaria, ela te ama como louca.

- Ela me odeia. - Ele repetiu. - Ela disse. Não, ela gritou.

- Querido, isso é apenas briga de irmãos. Lily não te odeia.

- Eu disse coisas que não deveria...com certeza ela me odeia.

- Se você disse o que não devia e reconhece, então deve pedir desculpas. Mas Lily não vai te amar menos por isso.

Não teve resposta. Olhou para baixo e viu os olhos de Sirius quase fechados.

Se levantou e o deitou, tentando o máximo colocá-lo inteiro na cama. Teve o cuidado de deixá-lo de lado, caso vomitasse, mas ele não parecia àquele ponto.

Que confusão. Seu filho tinha bebido tudo aquilo por descobrir sobre Lily e James ou havia algo mais?

E o que era aquela história de Peter Pettigrew ? Sentia-se horrível, perguntando-se onde esteve aquele tempo todo enquanto seus filhos sofriam por aquilo. Lily sempre foi tão aberta com ela, mas escondeu algo tão importante quanto aquilo.

Foi até a porta e acendeu um abajur, dando uma última olhada para o filho, antes de sair e encostar a porta.

J~E

O vento frio era muito bem-vindo, quase como se merecesse.

James tinha os olhos fechados, a cabeça caída, os cotovelos apoiados nos joelhos e sentado na varanda de seu quarto, de frente para a piscina. As luzes estavam todas apagadas, seus pais estavam dormindo a muito tempo. Assim como ele também deveria.

Mas como você podia dormir com uma notícia daquelas pendurada em sua frente? Sentia que havia um enorme outdoor para todo o canto que olhava, escrito: Lily está grávida ou não está? Mesmo com os olhos fechados, ele podia ver as palavras quase zombando dele.

A única coisa boa de tudo aquilo era que Sirius sabia. Não estavam nas melhores situações, mas agora ele sabia. Um peso pareceu ter saído de seus ombros, dando lugar a outro, mas aquele de esconder algo do melhor amigo, ele já não carregava mais.

E como James ainda estava inteiro, era uma questão que não saberia responder.

Um barulho de passos lhe chamou a atenção e ele levantou a cabeça de imediato. Eram quase três horas da manhã, quem estaria no jardim de sua casa agora?

Mas ninguém menos que sua mãe estava ali, embrulhada em um roupão e vindo até ele.

- O que está fazendo aqui tão tarde? - ele perguntou.

- O que você está fazendo aqui tão tarde? Em dia de semana.

Ela cutucou o ombro dele, fazendo-o deslizar no banco e lhe dar espaço para sentar.

- Problemas para dormir. - James respondeu. - E você?

Euphemia deu de ombros e suspirou.

- Você sabe que eu tenho sono pesado, não sabe? - James assentiu. Uma bomba poderia, literalmente, explodir ao lado dela e ela não acordaria. - Quando você nasceu, eu fiquei com tanto medo. Eu pensava que você choraria ou chamaria por mim e eu nunca iria ouvir. Seu pai dizia para eu não me preocupar, pois ele acordaria e você não ficaria abandonado, mas ainda sim eu tinha tanto medo. Você não pode acalmar um coração de mãe preocupado desse jeito. - Ela sorriu para ele. - Nos primeiros meses, você dormiu no nosso quarto, em um pequeno berço ao lado da cama e a cada movimento seu, cada mínimo movimento, eu acordava. Você era um bebê que dormia bastante, então raramente chorava à noite, mas sempre se mexia muito.

- Eu ainda me mexo bastante.

- Ah, eu sei. É muito chato ser o responsável por arrumar a própria cama, não é?

- O lençol está sempre fora do lugar, é uma chatice. - James confirmou e sorriu.

- Pois bem. - Euphemia tinha as mãos bem presas nas coxas, tentando esquentá-las. - Eu acordei morrendo de sede agora e isso nunca acontece, sabe? Mas era impossível continuar na cama e não vir tomar um grande copo de água gelada. Então eu passei pela sala e vi um vulto branco sentado aqui, cabisbaixo. - Ela o cutucou com o ombro. - Agora eu sei que não era com a sede que eu precisava me ocupar.

James sorriu de lado, apreciando o fato de que era bom poder conversar com sua mãe, de tê-la sempre aberta para qualquer tópico e pronta para ajudá-lo. Bom, claro, ela era sua mãe, mas não era todo mundo nessa vida que tinha aquela sorte.

- Não é louco como a vida pode mudar de repente? - Ele perguntou. - Como podemos ter tantas coisas planejadas por anos e em um piscar de olhos, você se vê em um plano que nunca imaginava e vê sua vida tomando aquele rumo.

- Planejar a vida pode ser um meio para tentar chegar até onde quer, mas há muitas vertentes no caminho, muita intervenção externa para lidar, o que acaba nos desviando. - Euphemia olhou para o filho. - Mas isso não quer dizer que sua vida será pior do que o planejado.

- É, eu sei.

James deixou a cabeça cair ainda mais.

- Você quer me contar o que está acontecendo, querido?

- Eu não sei o que está acontecendo, esse é o problema.

- Bom, podemos começar com o que já sabe. - Ela se ajeitou no banco. - Estamos falando de Lily?

James soltou uma risada.

- Sim.

- Ah, muito bem. - Euphemia tamborilou as pernas. - Se você não sabe o que está acontecendo, então talvez seria ela com dúvidas sobre vocês? Ou talvez tenham brigado e você não sabe se ela voltaria?

- Não.

- Eu costumava achar tão fofo como você a olhava, sabe? Havia aquela aura inocente em seus olhos, algo que apenas uma mãe pode ver. E você ainda adorava pentelhá-la aqui e ali, fazendo brincadeiras e criando armadilhas junto com Sirius. E, de repente, eu vejo o meu filho com ela em seu quarto. Que mudança.

Euphemia soava tão empolgada com a história, que ele quase sentia-se mal por tudo o que acontecia.

- Mãe...

- E ela sempre pentelhando vocês. Aquela ruivinha linda correndo e gritando atrás do grupo. Seu pai e eu costumávamos rir tanto ao vê-los brincando.

- Mãe?! - Tentou de novo.

- Sim? - Ela perguntou com os olhos brilhantes pela nostalgia.

- Talvez...Lily esteja grávida.

Ele continuou seu olhar na piscina, sem querer ver a cara de decepção da mãe, ainda mais com aquela informação cortando boas lembranças que contava. Mas nossa, falar aquilo para alguém era realmente pesado, não podia culpar Lily por ter demorado algum tempo para lhe dizer. As palavras saíam com um certo peso e pareciam ficar no ar por um tempo, deixando o ambiente bizarro.

Lily grávida de um filho seu. Aquilo era louco.

- Grávida?! - Euphemia murmurou.

- Eu juro que não usamos proteção apenas uma vez, mas não foi dessa vez que ocorreu, porque isso rolou há poucos dias. Usamos em todas as outras...Mas, como fui bem lembrado, as camisinhas também falham.

- James...!

- E Sirius descobriu. - Ele levantou, não conseguindo ficar parado enquanto sua cabeça parecia mandar uma enxurrada direto para sua boca, precisando exteriorizar tudo aquilo. - Mas ele não descobriu que "estávamos juntos", nããão. Ele descobriu que "eu engravidei a sua irmã", o que é bem diferente. E, claro, não foi uma descoberta simples, não é mesmo? Ele teve que vir atrás de mim e nos ouvir conversando. - James gesticulava enquanto andava de um lado para o outro. - Se ele não fosse tão idiota, se não ficasse nas costas dela do jeito que fica, as coisas não teriam acontecido assim. Eu teria me declarado para Lily, ou flertado com ela ou algo assim. Mas não...ele tinha que ser um pouco ciumento maníaco. Ao mesmo tempo, eu não o culpo, porque Pettigrew...se alguém tivesse feito o mesmo com a minha irmã, eu teria matado o desgraçado e...

- Pettigrew fez algo contra Lily?

Aquilo o parou. Merda, não deveria ter comentado sobre isso. Tinham prometido nunca comentar com ninguém.

- Não. Ou não chegou a fazer. Isso é passado e a gente não fala mais sobre isso. Porém, o futuro...aí é que está. Eu vou ficar com ela? Eu posso criar esse filho com ela ou não? Teremos que viver separados, dividindo a guarda? Eu...eu...Oxford. Terá que ser Oxford e o meu pai...e Sirius, a nossa amizade...!

James respirava com dificuldade, fazendo sua mãe se levantar e o abraçar.

- Calma, meu filho.

- Eu acho que perdi ambos. Perdi Lily e perdi Sirius.

Aquela angústia era uma das piores coisas que já tinha sentido na vida. Não era pela possível gravidez, mas pelo fato de que poderia ter perdido duas pessoas importantes na sua vida.

Sirius era o seu melhor amigo desde sempre. Era seu irmão, quase um pedaço seu caminhando ao seu lado. Apesar de Remus ser tão importante quanto, Sirius e ele tinham uma conexão fora do comum.

E Lily. Simplesmente a primeira garota que gostou, a que fez seu coração bater mais forte e que ainda faz. E apesar de tudo isso, era importante por estar presente em vários momentos da sua vida. Suas primeiras memórias da infância já a envolvia, assim como Sirius.

Se perdesse os dois, o que iria fazer?

- Filho, você não os perdeu. Nunca os perderia por isso.

- Você não viu a raiva no rosto de Sirius. - Se virou para a mãe. - A decepção. Como eu posso consertar isso? Ele confiava em mim como eu confio nele. Eu sabia dos problemas dele com isso e, ainda sim, escolhi deixar de lado, pensando em mim, no que eu queria.

- Não, meu filho, você apenas se deu a oportunidade de agarrar a chance com a garota que gosta.

- A qual preço? Porque parece que nenhum ficou.

- Não acho que há um preço, James, mas há falta de conversa. Sirius não seria incapaz de compreender que você gosta da irmã dele e que não quis fazer tudo isso sem se importar com a amizade de vocês. Não deveria existir escolha, você não deve escolher entre um ou outro. - Sua mãe colocou uma mão em seu ombro. - Conversem, meu filho. Não haverá nada a mais a fazer, além de conversarem.

A solução parecia bem fácil quando discutida assim, mas para isso, Sirius precisaria querer conversar e ouvi-lo. Se precisasse de tempo para entender e aceitar, tudo bem, mas ele precisa ouvir primeiro.

Mas talvez se o resultado daquele exame viesse positivo, James não teria tempo nem de soltar a primeira sílaba antes de partir desse mundo.


Nunca se sentiu tão mal em toda a sua vida. Fisicamente e, arriscaria dizer, psicologicamente também.

Seu corpo todo doía, como se tivesse sido espancado na noite anterior. Nem sabia como tinha acordado, pois a coisa que menos estava preparado era encarar a vida naquele dia.

Também não entendia como o tanto de bebida que ingeriu ontem permitiu que ele acordasse.

Sirius levantou o tronco com dificuldade e percebeu que era apenas 7h da manhã. Estava até que no bom horário para Hogwarts, mas não achava que iria naquele dia.

Se arrastou para fora da cama até o banheiro e escovou os dentes, tirando aquele gosto horrível de ressaca. Tudo o que aconteceu ontem insistia em voltar à sua mente, mas tentava bloquear com todas as suas forças. Precisava se recuperar antes de qualquer coisa, antes de surtar novamente, antes de ter que lidar com aquele problema que ele nunca imaginou ter que enfrentar.

Assim que abriu a porta do quarto, tomou um susto: Geneviève estava em uma poltrona no corredor, entre o seu quarto e o de Lily, dormindo.

- Mãe?!

Ela despertou tão rápido, que ficou impressionado.

- Sirius! Sirius, como você está? - Ela perguntou com um tom preocupado e indo até ele, conferindo seu rosto.

- Uma merda. O que está fazendo aí? Passou a noite dormindo no corredor?

- Você não estava bem, querido, e não quis te deixar incomodado dormindo no seu quarto.

- Mãe! Não precisava. Você deve estar toda moída.

- Quando você for pai um dia, entenderá que isso não importa.

A mãe acariciou seu rosto. Se ela soubesse o quanto aquele carinho fazia diferença...

Seus olhos viraram para o quarto de Lily e seu coração pareceu tomar um choque, uma dor horrível ao lembrar do dia anterior. Das palavras trocadas, da raiva, de terem se separado sem resolver o problema. Eles não eram assim, não deveriam ser assim. Porém, muita coisa não deveria ser assim, como sua irmã estar com o seu melhor amigo pelas suas costas,

Sem dizer nada, ele deu as costas e preferiu descer, sem ter contato algum com ela. As palavras de ontem ainda estavam tão vivas e frescas, dançando em sua cabeça e não eram apenas as de Lily e James, mas as suas também. Um lado seu estava tão arrependido de dizê-las, enquanto um outro muito mais fora da luz achava que tinha dito pouco sobre o que sentia.

Enquanto preparava o café, ficou lembrando quando aquela cozinha estava sendo o palco dos berros dos dois irmãos, de Lily dizendo que o odiava.

Respirou fundo e pegou sua xícara, sentando em seu lugar habitual. Olhou para a cadeira em sua frente, onde Lily costuma sentar, onde James costuma parar ao lado e roubar o café da manhã dela...onde Sirius costumava deixá-los a sós para terminar de se arrumar e os dois deviam aproveitar sua ausência.

Bateu com a xícara no balcão e cobriu o rosto, levando as mãos aos cabelos depois, segurando-os com força e raiva. Parecia que não os conhecia, que estava lidando com dois estranhos. Era tão fácil pensar que James conversaria com ele, exporia o que estava sentindo ou pensando, que imaginar o amigo se embrenhar por aí escondido com Lily era quase inconcebível.

Já Lily era outra história. Estava acostumado com os segredos dela, de saber que ela se esgueirava por aí para fazer sua vida, por mais que ele não gostasse de pensar muito nisso.

Mas James? Justo com ele? Tantos outros que poderia ter feito isso, mas tinha que ser seu melhor amigo? O cara que era o seu irmão, e que ele pensava que era o mesmo para ela? O cara que não quer nada com nada, só aproveitando a garota que está afim dele. Como poderia aceitar isso para a sua irmã? Ela disse que estava apaixonada por James, pelo amor...mesmo sem querer fazer de propósito, James iria quebrar o coração da sua irmã.

Foi tirado do seu momento de raiva ao ver a mãe entrar na cozinha, procurando por algo. Ela deu uma olhada rápida pelo lugar e saiu. Sirius deu de ombros e voltou a tomar o seu café. Continuou ouvindo os passos da mãe pela casa toda, abrindo e fechando portas, falando sozinha.

- Seu carro...! – Ela disse voltando para a cozinha quando ele terminava de preparar uma torrada.

- O que tem?

- Não está na garagem.

Que porra é essa?

Deixou a torrada de lado e saiu da cozinha. Foi até a grande janela que dava visão à entrada da casa e conferiu que apenas o carro da sua mãe – que chegou mais tarde do que ele ontem – estava.

- Roubaram meu carro?! – Pensou alto.

- Eu também não acho Lily em lugar algum.

Se virou para a mãe.

- Como não? Ela está no quarto dela.

- Não está. Nem no quarto e nem em lugar algum.

Inferno, Lily pegou seu carro.

- Ela não pode dirigir! – Disse indo para as escadas e subindo de três em três degraus.

O quarto de Lily estava aberto agora, provavelmente após a sua mãe tentar achar a peste da sua irmã e, de fato, estava vazio. Foi até o banheiro e esse mesmo também estava vazio. Sentia ainda um pouco do cheiro de perfume, o que significava que ela não tinha partido há muito tempo.

Ah, inferno.

- Talvez eu saiba onde ela possa estar. - Disse, trincando os dentes e descendo novamente. Só podia estar lá. - Ela não necessariamente precisaria do carro, mas não tem outro lugar que ela possa estar.

- Ela não sairia de casa assim, Sirius. Lily nunca sairia com outro carro sem falar com alguém.

Sirius abriu a porta da frente e saiu no pátio da garagem com sua mãe em seu encalço.

- Onde estão as suas chaves, mãe?

A mãe voltou até o aparador perto da porta e pegou a própria bolsa, tirando as chaves do carro.

- Onde pretende procurar por ela?

- Há dois lugares na minha cabeça, mas vamos começar pelo mais perto e certo.

Não demoraram nem mais um segundo e saíram da casa, com Sirius dirigindo.

- Devagar, Sirius. Ter um acidente agora não vai nos ajudar.

Rolou os olhos, mas levantou um pouco o pé do acelerador. O fato de estar tão cedo ajudava com o trânsito, chegando na casa dos Potter mais rápido do que poderia esperar.

Foi até a porta da frente quase correndo, enquanto olhava pela rua e pela entrada da casa: o seu carro não estava ali, mas não significava muita coisa. Apertou a campainha e esperou, os nervos lhe deixando mais tenso do que corda. Sua mãe segurou o seu braço, quase lendo sua mente e o quanto ele queria começar uma briga em poucos segundos assim que visse a cara dele.

Não estava planejando ir atrás de James nem nada do tipo, não naquela manhã ou naquele dia, mas se a sua irmã estava ali, toda se recolhendo com ele, esperando juntinhos o resultado daquela miséria de exame, ao invés de também deixá-lo saber... ah, infernos, estava cansado das coisas escondidas, tudo passando pelas suas costas.

Uma sorridente Euphemia abriu a porta. O sorriso dela vacilou ao ver quem apertava a campainha tão cedo.

- Sirius, Geneviève. - Ela os cumprimentou com um tom de surpresa.

- Olá, Euphemia. Desculpe-nos pela hora...- Geneviève foi cortada quando Sirius passou pelas duas e entrou tempestivamente na casa. - Sirius Black! - A mãe o chamou, horrorizada pela ação dele, mas isso não o pararia.

Teve a impressão de ver Fleamont saindo da cozinha, mas não parou até chegar às portas do jardim, abri-las e sair como um louco. Ao chegar na porta de James, não bateu e nem anunciou sua chegada, apenas abriu. Se o visse com a sua irmã, tinha certeza que estaria cego para o que quer que fosse. Apenas iria estrangular o cara que se dizia seu melhor amigo, ele estando no estado e com quem estivesse.

Ninguém na cozinha. Não havia cheiro de café ou qualquer preparo de comida. Ninguém na sala, tudo estava desligado. Soltou uma risada pelo nariz ao ver a porta do quarto fechada. A esta hora, eles já o teriam escutado entrando.

Abriu aquela porta com toda a sua raiva, apenas para encontrar o cômodo vazio.

Foi até o banheiro e nada.

- Onde ele está? - Grunhiu.

Ouviu passos vindo do jardim, até ver duas sombras entrarem correndo.

- Sirius! - Sua mãe o chamou, procurando por ele. Pareceu aliviada ao vê-lo sozinho. - Quem você pensa que é para entrar na casa das pessoas assim?

- Eles não estão aqui. - Balbuciou, não respondendo a mãe.

- Sirius, meu querido. - Euphemia se aproximou dele. - Eu sei que pedir para se acalmar não adianta, mas eu preciso que você fique são.

- Euphemia, eles mentiram na minha cara. O seu filho levou Lily para lugares que eu nem posso imaginar, transando com ela, engravidando a minha irmã!

Geneviève, sendo a única a não saber ainda da história completa, arregalou os olhos.

- O que disse? Lily está grávida?

- Ah, ainda tem isso. - Sirius começou a rir como um louco. - Esqueci de te contar ontem? Pois é, sua filha engravidou do meu melhor amigo. Aos 18 anos! Não foi o suficiente ele ter feito o que fez, ainda fez sem se proteger. Sabe-se lá o que mais ele pode ter transmitido para ela.

- Sirius! - Euphemia tinha a voz mais firme. - Eu estou pedindo...por favor...vamos nos acalmar. James nunca arriscaria a vida de Lily, seja com uma gravidez precoce, seja com uma doença. Ele a aprecia muito, a tem no coração com muita estima. Eu conheço o meu filho, eu conversei com ele.

- Eu também pensei que o conhecia. - Respondeu.

- Não como uma mãe conhece o seu filho. Se conhecesse James como eu o conheço, saberia de tudo isso e não duvidaria nem por um segundo.

Palavras. Era tudo o que ouvia: palavras. Desde ontem, nada parecia fazer mais sentido quando alguém falava, nenhuma palavra parecia valer para algo, não tendo valor algum.

Seus olhos pescaram sua mãe, quieta, os olhos estáticos e a boca tensa.

Droga, ela recebeu aquela notícia da pior maneira possível. Ele poderia estar o mais puto possível com toda aquela história, mas não podia deixar a mãe daquele jeito. Assim como ele, foi pega totalmente de surpresa em uma conversa tensa, mas que não imaginava por onde ia. Ele, pelo menos, teve horas para pensar e repensar tudo aquilo, mas ela ainda estava apenas se recuperando do choque.

Euphemia parecia preocupada com sua mãe também, pois acariciou seu braço.

- Geneviève, se acalme, não há nada certo.

Os olhos verdes se viraram para Euphemia e depois para ele.

- Precisamos encontrar Lily. - Foi a primeira coisa que Geneviève pareceu capaz de dizer. - Agora eu tenho certeza que o fato dela não estar em casa é um pouco mais complicado do que imaginava.

- Lily sumiu? - Euphemia perguntou, surpresa.

- Acordamos e ela não estava em lugar algum. - Geneviève respondeu como um robô. Estava claro que sua cabeça estava em qualquer outro lugar, mas não ali.

- Eu não sei onde James a levou, mas eu estou bem disposto a descobrir. - Sirius respondeu, indo em direção a porta.

Euphemia se apressou até ele, o segurando.

- James saiu dois minutos antes de vocês chegarem. Ele estava sozinho, abatido e completamente perdido. Eu tentei convencê-lo a ficar, mas ele não me ouviu. James não está com ela, querido.

Não sabia se queria ouvir aquilo ou não. Se James não estava com a irmã, então onde ela estava?

- Temos um outro lugar para procurar. - Disse, virando-se para a mãe. - Está pronta?

- Querido, sua mãe não parece bem. Você comeu, Geneviève?

Nenhum deles havia comido, apenas saíram como doidos de casa.

- Ela não comeu. - Respondeu por ela.

- Eu vou dar algo para comerem, então vocês podem ir.

- Não podemos esperar.

- Então levarão e comerão no carro. Venham comigo.

Seguiram Euphemia de volta para a casa principal. Um confuso Fleamont estava parado na sala, perto da porta dos jardins, esperando por eles.

- Geneviève, Sirius. O que está acontecendo? - Perguntou ele.

- Eu explico depois, querido. - Euphemia respondeu.

Seria melhor. Sirius estava cansado de dizer em voz alta o grande problema que cobria a todos.

Mas o principal, agora, era encontrar a sua irmã.

Onde diabos ela se meteu?

J~P

James entrou na garagem dos Black-Evans e percebeu que não havia carro algum.

Estranho.

Geneviève partia cedo muitas vezes, mas o carro de Sirius não estar ali? Aquilo era algo que não estava descendo bem. Não depois de tudo o que aconteceu.

A porta estava destrancada, como sempre ficava quando tinha alguém na casa. Foi para a cozinha, mas estava vazia, tudo apagado. Apenas uma xícara de café ao lado de um prato com uma torrada intocada em cima do balcão, indicando que alguém - parecia muito com Sirius pelo lugar onde a pessoa estava comendo - havia começado, mas não terminado o seu café da manhã.

Pegou o caminho para as escadas.

Chegando no primeiro andar, já pôde ver que os quartos dos dois irmãos estavam abertos. Olhou o de Sirius primeiro: vazio. Estava com um cheiro forte de álcool por ali e viu uma garrafa caída no chão. Uma outra, ainda cheia, estava em cima da mesa.

Merda, o que aquele idiota fez?!

Saiu dali com pressa e foi até o quarto de Lily. Vazio. A cama estava desfeita, então ela dormiu ali naquela noite, o que foi exatamente o que ela havia dito que faria ao se despedirem no laboratório.

Pegou o celular e ligou para ela. Assim que o primeiro toque soou, ele ouviu algo vibrando dentro do quarto. Revirando as cobertas, encontrou o celular dela ali, a sua própria foto na tela enquanto ainda não desligava a ligação.

Onde eles estavam?

Sirius não seria louco de fazer algo com a irmã, mesmo estando tão furioso como estava. Acreditava que ele poderia ser o alvo maior da sua ira, mas não Lily. Não por achá-lo mais ou menos culpado de algo, mas Sirius nunca deixaria de estar ao lado dela.

Sentou no chão, ao lado da cama, sentindo-se sem saída. Não sabia o que poderia fazer para consertar as coisas, além de não saber das coisas. Sem Lily por ali, não havia resultado de exame, não havia jeito de conversarem com Sirius, colocarem um pouco de racionalidade no amigo.

Por que esperaram tanto para falar? Por que ele tinha que descobrir daquele jeito? Parecia uma brincadeira de mau gosto do destino, quase como se fosse castigo.

Encarou o celular. Tinha algo que poderia fazer. Clicou no nome de Sirius e ligou. Tinha a impressão que ele saberia onde encontrar a irmã.

Se ele atendesse, o que não parecia ser o caso. Foi enviado para a caixa de mensagens.

Ligou para Alice.

- Não são nem 7:30 da manhã. - Ela atendeu. Pela voz, ainda estava acordando, o que poderia significar que Lily não estaria com ela.

- Alice, Lily está com você?

Ouviu movimentos do outro lado da linha que indicavam que a garota se levantava da cama com pressa.

- James, o que está acontecendo? Por que vocês estão procurando por ela desde ontem? Ela estava em casa, me confirmou que estava em casa. Como ela desapareceu agora?

Não era a intenção deixar a garota desesperada. Já bastava ele agora.

- Ela estava em casa, estava...bem. Mas não está hoje de manhã.

- Então ela deve ter ido para Hogwarts já.

- Você não teve nenhuma notícia dela desde ontem à noite? Ela não te ligou, nem mandou mensagem?

- James, você está me assustando em um nível que nem posso dizer.

- Não se assuste. Apenas houve discussões ontem...depois de Sirius descobrir sobre nós.

- MERDA! - A garota gritou.

- Eu não sei se eles brigaram mais ontem, eu não sei. Não tem ninguém na casa.

Alice respirou fundo do outro lado da linha.

- Vamos nos encontrar Hogwarts, ok? Vamos ver se eles aparecem. Caso não, vamos pensar no que fazer. Eles devem estar bem, mas apenas não sabemos onde.

- Espero que você esteja certa.

- Eu também.

Se despediram e James continuou onde estava: sentado no chão, as costas contra a cama dela e encarando o corredor na sua frente.

Onde poderia achá-los?

S~G

Lily não estava e nem passou no laboratório em que fez o exame ontem.

Estava começando a ficar preocupado de outra maneira agora.

- Ela pode ter ido para Hogwarts mais cedo, se afastar da gente. - Sirius comentou enquanto estava atrás do volante, tentando convencer a si mesmo de que não havia nada de errado.

- Não, ela não foi para Hogwarts. - Geneviève respondeu, mais aérea do que ele. - Mas com certeza ela quis se afastar de todos nós.

Ver sua mãe naquele estado começou a mexer com ele de uma maneira que não esperava, não enquanto se afogava na raiva e parecia ser o único sentimento que existia.

- Sabe que não é a sua culpa, não sabe? - Disse, virando-se para ela.

A ruiva se virou para ele e tentou sorrir. Ambos parecendo lembrar da conversa de ontem.

- Assim como não é a sua.

Sirius estalou a língua.

- Eu deveria ter aberto mais os meus olhos, deveria acreditar que alguém próximo tentaria algo com a minha irmã mesmo depois de Pettigrew. Aprender com os erros. - Jogou a cabeça para trás, com raiva de si. Após tudo o que aconteceu, deveria ter aprendido a lição, mas como imaginar que as coisas aconteceriam pelas suas costas novamente, não é? Quem iria imaginar que James pudesse fazer algo? Dessa vez, não houve nenhum alerta. - Naquele dia no hospital, o papai conseguiu me alertar sobre ele, sabe? Sobre Peter, sobre o que vocês pensavam.

- O que ele disse?

- Que não gostava de algumas atitudes dele, que Peter te deixava desconfortável, que olhava Lily de um jeito bizarro. E eu o confrontei, claro, como sempre o confrontava quando ele falava disso, não querendo crer que um amigo meu, que era tão próximo de Lily também, faria algo para machucá-la.

Aquilo ficaria grudado na sua alma até a morte. Se tivesse escutado o seu pai desde o começo, se afastado de Peter ou, até mesmo, tentar ajudar o cara a melhorar. Mas não, lutou contra. O orgulho de pensar que tinha escolhido alguém tão bosta como amigo não o deixou ver a realidade.

E a realidade trouxe aquele maldito dia da festa.

- Eu ainda não sei o que aconteceu e vocês precisam me explicar tudo sobre esse caso, Sirius, porém, James não é Peter. Você tem que parar de pensar e, principalmente, falar que ele fez mal para Lily.

- Se a minha irmã está grávida, quer dizer que sim.

- Se a sua irmã está grávida, quer dizer que ambos foram descuidados. - Ela o corrigiu, a força na sua voz voltando. - Ou que algo não funcionou como deveria funcionar.

- Mas e se...!

- Ele nunca a forçaria a nada e eu quero que você pare, neste exato momento, de começar a criar uma história onde James é o vilão e a Lily uma mocinha boba. Eles são dois adolescentes que gostavam um do outro o bastante para ficarem juntos. Se uma gravidez precoce surgiu, não foi culpa de mais ou de menos de um deles, ou não até algum deles nos explicar o que houve. Estou sendo clara, Sirius?

Sirius poderia estar com a raiva que quisesse, mas aquele tom de voz da mãe nunca deixaria de funcionar. Além do mais, respeitava-a o bastante para não responder ou ir contra.

- Clara como cristal.

- Você deve um pedido de desculpas à Euphemia e Fleamont pelo desrespeito na casa deles hoje mais cedo. Eu ouvi meu filho desrespeitando o filho deles, na frente da mãe dele, sob o teto da família. Você não tem um rei na barriga e, mesmo se tivesse, não te dá o direito de fazer isso.

Abaixou a cabeça, envergonhado. Ele estava de acordo nisso 100%. Euphemia e Fleamont sempre o trataram como um filho e ter descarregado sua raiva neles foi injusto.

- Eu irei me desculpar.

- Ótimo. - A mãe parecia se acalmar um pouco, ou pelo menos, parecia ter esvaziado algumas palavras que precisavam ser ouvidas por ele. - Eu tenho alguns lugares em mente onde a sua irmã possa ter ido.

- Onde?

- Muitos. Todos eles, ligados ao seu pai.

Claro! Como não pensou nisso? Era óbvio que ela tentaria se aproximar do pai de alguma maneira.

Girou a chave do carro quase feliz com a ideia de encontrá-la logo. Teriam alguns vários lugares para procurar, mas daria em algo, com certeza.

Teria que dar.


I'll tell them a story

Vou contar uma história pra eles

They'll sit and nod their heads

Eles vão sentar e acenar com a cabeça

I tell you all my secrets

Eu te conto todos os meus segredos

And you tell all your friends

E você conta pra todos os seus amigos

Hold on to your opinions

Se agarre às suas opiniões

And stand by what you said

E não volte atrás naquilo que você disse

In the end, it's my decision

No final, é minha decisão

So it's my fault when it ends

Então, é minha culpa quando isso termina

Assim que entrou no estacionamento ainda quase vazio de Hogwarts, James percebeu que o carro de Sirius não estava ali. Óbvio que eles não viriam para a escola tão cedo e ainda mais depois de tudo aquilo.

Cinco minutos depois de chegar, Alice estacionou ao seu lado.

- Nada? - Ela perguntou quando se encontraram do lado de fora.

- Nada.

- Certo, o que aconteceu? Como foi a briga, como Sirius descobriu? Lily me disse que vocês contariam para ele no fim de semana.

- Esse era o plano, mas foi adiantado por conta da curiosidade de Sirius.

Relembrando todo o fim de tarde e a noite de ontem, James contou cada detalhe da sua versão: Lily não o respondendo a tarde toda; encontrando-a no quarto, parecendo abalada; a notícia da suposta gravidez e Sirius ouvindo tudo da porta.

Quanto mais pensava naquilo, mais achava louco o fato de ainda estar vivo. Não podia imaginar a surpresa do amigo ao ouvir que, não só James e Lily tinham tido algo, como ela, potencialmente, estava grávida.

Se fosse Sirius e Marlene, ele teria ficado chocado. Não iria reagir mal com o fato deles estarem juntos, mas se descobrisse esse segredo enquanto ouvia que Sirius tinha engravidado a prima, ficaria louco.

Alice soltou um palavrão pesado, que o assustou.

- Por isso ela agiu daquele jeito quando estávamos conversando ontem. Falávamos de fazer algo, tipo uma reunião com todos nós na piscina nesse fim de semana e, de repente, ela ficou branca e saiu correndo.

- Algo a fez pensar no fato de que ela estava com o ciclo atrasado, talvez o fato de ser na piscina.

Sentou no canteiro do jardim, mais perdido do que antes.

- Talvez eles tenham ido até o laboratório pegar o exame? - Ela sentou ao seu lado.

- Eu passei em frente antes de vir para cá e sem sinal deles. - Olhou para cima e suspirou. - Eu sei que Lily costuma sumir quando está chateada, mas você sabe aonde ela vai?

Pensando, a garota levou alguns segundos para responder.

- Cemitério, até Orion. Às vezes no parque Hampstead, onde ele costumava levar os dois filhos.

- Ela procura Orion, claro. - James balançou a cabeça, descrente em não ter pensado nisso.

- Sim, ela procura por ele.

Se pegou pensando se Orion estaria ok com James ficando com Lily.

Duvidaria que o homem fosse contra a filha nesse sentido, como Sirius era, mas será que ele ficaria feliz por ser James? Gostava de pensar que nunca deu motivos para ser repudiado naquele quesito pelo pai dela, mas talvez Orion não tivesse visto um dos amigos de Sirius como um potencial candidato.

Com certeza ele teria alguma coisa a dizer sobre Edgar Bones, caso tivesse conhecido o cara. Se Bones agisse como agia normalmente na frente de Orion, o garoto tomaria uma invertida que nunca mais se recuperaria, andando torto para todo o sempre.

Aquilo o fez rir sem perceber.

- James?! - Alice perguntou, sem entender o motivo da sua risada.

- O que você acha que Orion faria caso conhecesse Edgar Bones?

- Há! - Ela jogou a cabeça para trás. - Duvido que Lily teria sequer se aproximado de Edgar caso Orion ainda estivesse vivo. Lily estaria com outra mentalidade, assim como Sirius, então talvez ela estivesse com Gideon desde sempre, já que eles se gostavam.

Ela parou de falar, se arrependendo. James estalou a língua, dando de ombros.

- Provavelmente.

- Eu não queria dizer que ela nunca estaria com você, James.

- Não se preocupe, eu entendi o que quis dizer. De qualquer maneira, você não está errada. As coisas estavam tomando o caminho para eles ficarem juntos naquela época: Lily gostava dele, ele gostava dela. Tinham se beijado já e tudo mais.

- Ambos se gostarem também não é a fórmula do sucesso. Poderia dar certo até um momento e depois acabar.

Honestamente, aquilo não importava. Infelizmente, Orion não estava ali e as coisas pegaram um outro caminho. Para o bem ou para o mal, ali era onde o destino chegou.

Aos poucos, o estacionamento começou a encher e nada do carro de Sirius aparecer. O primeiro a dar as caras foi Frank, que ficou preocupado com a expressão de ambos.

- Vocês não dão a impressão de que teremos um bom dia. Posso saber o que aconteceu?

- Sente e eu te conto depois. - Alice bateu ao seu lado, pedindo para o namorado se juntar a eles.

Quando Remus chegou, James sentiu que tudo o que aconteceu parecia mais real. Sendo alguém do grupo deles, melhor amigo de Sirius e James, parecia que uma parte da coisa toda tinha se materializado na sua frente, fazendo seu coração disparar.

E conhecendo os dois amigos que tinha, Remus apenas parou na sua frente, segurando uma das alças da mochila bem firme no ombro, e o encarou por cinco segundos. Ele ainda deu uma olhada ao redor, talvez procurando por Sirius.

Percebendo que o outro amigo não estava ali e James não passava um ar de calma e tranquilidade, Remus abaixou a cabeça e soltou todo o ar.

- James, não me diga...?

Eles se conheciam bem demais para dispensarem um complemento naquela frase. Apenas ao vê-lo, Remus já sabia o que poderia ter acontecido.

Levantou e deu uma última olhada pelo estacionamento, confirmando que não havia sinal de Lily ou Sirius e que, provavelmente, nem teriam.

- Obrigado por me ajudar, Alice.

- Isso não acabou ainda, James. Vamos nos encontrar no almoço e falar melhor sobre tudo, ok?

Assentiu e pegou o caminho para um dos prédios, sendo seguido por Remus. Apenas naquele momento percebeu que não trouxera nada: nenhum material, nenhum livro que usou em casa naquela semana, nada. Nada de nada.

Não que fosse estudar naquele dia, pois a sua cabeça estava em outro lugar.

Parou contra um muro mais afastado de todos e esperou. Não iria dizer uma palavra sequer ainda, pois sabia que Remus iria.

- Sirius descobriu, não?

- Descobriu o quê?

Estava se fazendo de tonto, porque era óbvio que Remus sabia o que estava acontecendo. Os olhares que recebia dele, as piadas indiretas eram mais do que claras.

- Que você matou o Coronel Mostarda na biblioteca, óbvio. Sobre o que mais seria? - O sarcasmo caía no chão de tão pesado que saiu da boca de Remus.

- Sirius sempre foi muito ruim jogando Detetive, mas alguma hora ele aprende a jogar.

A mochila de Remus caiu no chão e ele cruzou os braços.

- É muito divertido falar sobre a dificuldade dele em jogar esse jogo, o que é verdade, mas podemos falar sobre o que está rolando? - Remus apertou os olhos, tentando encontrar a paz que precisava para aquela conversa. - Eu não sei o que aconteceu exatamente ainda, onde estamos nessa história, como foi e tudo mais, mas o que você acha que aconteceria, James? Depois daquela festa, depois de Pettigrew.

- Primeiramente, que Sirius soubesse que eu não sou Peter Pettigrew.

Aquilo pareceu acalmar um pouco a indignação de Remus, fazendo-o recuar os ombros.

- Você não é como Pettigrew, nós sabemos. Eu nunca pensei isso e Sirius também não.

- Bom, não foi exatamente isso que aconteceu quando eu fui acusado ontem. Na verdade, se me lembro bem das palavras dele, eu sou pior do que Peter Pettigrew.

Remus perdeu o ar, incrédulo.

- Você fez errado em esconder dele, mas isso não te faz um abusador.

- Acredite em mim: eu sei.

O amigo parecia digerir aquelas poucas palavras trocadas, os olhos assistindo os alunos pelos jardins e entrando nos prédios, prontos para mais uma aula naquela sexta-feira que parecia tão normal.

- Ok, vamos colocar as cartas na mesa: você estava com Lily esse tempo todo. - Remus voltou para eles, para a conversa. James assentiu. - Como isso aconteceu?

- Nem eu sei. Simplesmente aconteceu.

- Começou quando Sirius estava em Oxford e você estava dando carona para ela, eu imagino.

- Sim. Alguma coisa mudou nesse meio tempo.

- Alguma coisa do lado dela, você quer dizer.

- Como assim?

- Você gosta dela desde os 12 anos, James. Eu lembro mais do que Pettigrew sendo um bastardo naquela festa. Você me contou que queria chamá-la para sair, que você gostava dela.

Sim, lembrava de ter contato para ele.

- Mas eu não fiquei na nuca dela, Remus. Eu nunca fiz nada depois daquele dia, nunca dei um passo para isso. Eu deixei tudo de lado.

- Eu sei. Você deixou de lado, eu vi. Eu me perguntava o motivo, aliás.

James abriu os braços, sem acreditar no que ouvia.

- Você acaba de perguntar o que eu achava que aconteceria caso Sirius descobrisse sobre nós após a festa e Pettigrew. Qual você acha ser o motivo, Sherlock?

- Mesmo depois de anos, você poderia ter falado com Sirius, ter dito que gostava dela.

- Ele iria me capar.

- Não. Iria discutir com você, provavelmente, comentando sobre Pettigrew, com certeza. Talvez ele ficasse emburrado por um dia ou dois, depois iria entender que ao invés de atacar a irmã dele como um imbecil sem limite, você quis ser sincero com ele sobre o que sentia e o que gostaria de fazer, deixando bem claro o quão diferente do outro você é. Sirius não é um cara sem discernimento. Ele reage sem pensar, às vezes, mas sempre chega a coisa certa depois de um tempo.

- Mesmo se a irmã dele estiver grávida aos 18 anos?

Por aquela, ele não estava esperando. Ninguém estava, claro. Mas a cara de Remus era impagável. Riria caso não fosse algo tão importante e problemático naquele momento.

- Lily está grávida? - Remus mal conseguia falar.

- Estamos esperando a confirmação ainda. Ou pelo menos eu estou.

O amigo parecia perdido agora. Segurou os cabelos, dando voltas por ali, balbuciando algumas coisas.

- Puta merda, James! Disso o Sirius está sabendo?

- Foi desse jeito que ele descobriu que estávamos juntos.

- Puta merda!

Remus parecia mais em parafuso com aquele fato do que o próprio James. Por que ninguém poderia ficar calmo para ele, o suposto-talvez-pai, perder a cabeça por um momento?

ELE QUERIA SURTAR! Porém mantinha a calma. MAS QUERIA SURTAR.

Onde estava Lily com o resultado daquele exame? Se fosse no laboratório, eles não o dariam. Ao mesmo tempo, não era só pelo resultado que queria encontrá-la.

Mas para saber o que fariam, o que aconteceria a partir de agora. O que seria deles?

- Como você ainda está aqui na minha frente, falando, andando, respirando? - Remus voltou até ele.

- Não sei, mas não passei muito longe de chegar nos portões do céu, eu acho.

- Ele deve ter quebrado, não sei. Não que eu esteja dizendo que você deveria ser capado depois disso e ir conhecer o diabo, mas se eu pensasse que ele reagiria exageradamente ao descobrir o que está a acontecendo com vocês, descobrir que Lily engravidou deve ter sido... nem imagino!

- Não sabemos se ela está grávida, Remus.

- O simples fato de que há a possibilidade, já torna as coisas um pouco sérias. Tem como ela não estar?

- Não tem como dizer algo assim. - Respondeu sem paciência. - A gente transou e a gente transou mais de uma vez. O fato de termos transado já dá margem para isso acontecer.

- Sem camisinha?

- Com camisinha. Apenas uma vez sem, mas foi muito recente e não teria dado tempo. Lily disse que pode ter sido da primeira noite, e eu usei camisinha todas as vezes.

- Então alguma estava com defeito.

- Pode ser.

- Então existe a possibilidade.

- Aparentemente.

- E se ela estiver?

Suspirou.

- Tudo depende do que ela vai querer. Lily vai ter a palavra final sobre isso e eu vou com o que ela escolher.

Foi a primeira vez que viu uma certa calma no olhar de Remus em toda aquela conversa.

- Você é um cara decente, James, e eu não conseguiria pensar menos de você. E Sirius sabe disso.

Isso eles iriam descobrir.

S~G

Foi sua decisão descer do carro e acompanhar a mãe. Ela não o obrigou, nem mesmo pediu. Era um lugar que poderia ser um destino de Lily e eram obrigados a parar.

E ali, no estacionamento, Sirius pensou que três anos eram o suficiente e estava na hora de visitar o túmulo de Orion.

Quando encontrou Geneviève, Orion se desprendeu de todos os Black, fazendo todo o necessário para que sua família fosse apenas sua mulher e os dois filhos. Por isso, havia um mausoléu apenas para eles no cemitério...e que o próprio Orion foi o primeiro a chegar.

Caso você quisesse visitar, bastava olhar na lista da recepção e encontraria o local. Sirius e Geneviève não precisavam, obviamente, pois sabiam o caminho de cor.

Avistaram a estrutura ao longe e Sirius já sentiu suas mãos suando. Sua mãe apertou seu braço, dando forças para ele, assim como pedia forças para ela mesma.

Na porta, viram flores novas e frescas. Só podia ter sido uma pessoa.

- Ela esteve aqui. - A mãe disse ao parar na entrada do mausoléu.

- Sim, mas não está mais. Chegamos muito tarde.

- Pelo menos estamos seguindo um bom caminho. Você tentou ligar para ela de novo?

- Ainda sem resposta.

A mãe assentiu.

- Gostaria de entrar? - Ela perguntou.

Sirius investigou a estrutura como se considerasse ser seguro ou não.

- Eu te espero aqui fora.

- Sem problemas, querido. Eu já volto.

A mãe havia comprado flores na entrada do cemitério, então as levou para dentro.

Os olhos cinzas caíram para as flores deixadas na entrada do mausoléu, pensando o motivo de Lily também não ter entrado. Não que fizesse alguma diferença a irmã ter entrado ou não, mas tentava pensar em qualquer coisa para se distrair do que aquele lugar lhe causava. Como se ouvisse a voz do pai dizendo sobre o que ele errou, o que acabou trazendo tanta tristeza para a irmã. Sobre Peter, sobre como ele vinha agindo...

Orion estaria decepcionado pelas palavras de ontem. Diria que em momento algum aquilo estava correto e que o filho deveria saber como agir naquelas ocasiões. Mas como ele poderia reagir de outra maneira? Como levar as coisas levianamente depois daquelas explosões de informações, todas chegando encarrilhadas na outra? Sentiu que foi atingido por uma bola de neve, arrastando-o pelo caminho enquanto mais neve se acumulava enquanto mais informações chegavam, não lhe dando indícios se estava virado para cima ou para baixo.

Assim como se estivesse verdadeiramente preso em uma bola de neve, sabendo que tinha que procurar pela saída ao invés de se afundar mais nela, Sirius também sabia o que devia fazer naquela situação. Mas não era fácil. Eram muitos sentimentos em combate, irracionais na maior parte do tempo, e que tomavam controle de si.

Se afastou um pouco da entrada do mausoléu, querendo ter uma visão do todo. Era difícil saber que alguém que amava tanto tinha se resumido a uma caixa dentro daquele lugar. Alguém que o ajudaria tanto a passar por tudo aquilo, que o guiaria. Sua mãe era ótima naquilo. Sem ela, Sirius estaria perdido. Mas não foi para ela que tinha prometido cuidar das coisas e mesmo sabendo que não era sua responsabilidade, o peso de ter prometido para o seu pai um dia antes da sua morte, parecia verdadeiro e sem escape.

Como poderia dizer uma coisa e fazer outra? Seu pai partiu desse mundo pensando que tudo ficaria bem e que Sirius iria se assegurar disso.

- Desculpa, pai. - Se viu murmurar.

Continuou a se afastar com passos curtos, encarando o chão. Se despedir de uma estrutura de pedra era quase tão ruim quanto falar com ela.

O braço de sua mãe enrolou no seu, obrigando-o a olhar para ela.

- Tudo está bem, querido. - Ela deu um beijo em seu rosto. - Vamos, temos alguns quilômetros a percorrer ainda.

Com o suporte dela, Sirius a levou de volta para o estacionamento e para um novo destino, à procura de Lily.

J~P

Quando James entrou em casa, sua mãe parecia estar de prontidão, apenas ao seu aguardo.

- E então?

- Então..?! - Perguntou sem emoção enquanto ia até a cozinha dos pais.

- Você tem novidades de Lily, sabe onde ela está?

Pegou um refrigerante e começou a servir.

- Como sabe que Lily não apareceu?

- Sirius e Geneviève apareceram por aqui essa manhã, procurando por ela.

Deixou o refrigerante de lado e encarou a mãe.

- Eles vieram aqui? - Euphemia assentiu. - O que disseram?

- Apenas procuravam por Lily.

- O que Sirius disse?

A mãe suspirou.

- Ele não está nada contente, para dizer o mínimo.

- Eu imagino.

Voltou sua atenção para o copo, bebendo. Seria pedir muito por um milagre e o amigo deixar de lado a vontade de matá-lo.

Passou o dia todo, além de se remoer sem ter notícias de Lily, pensando como poderia consertar aquela bagunça. Nada parecia o suficiente, nada soava como algo que ajudaria. Nada. Apenas se voltasse no tempo e não fizesse nada.

Ou voltasse no tempo e dissesse que eles tinham se beijado.

Ou voltasse no tempo e se declarasse para Lily anos atrás, naquela cozinha, antes de Peter Pettigrew mostrar o verdadeiro demônio que era.

- Mas eu creio que há esperança. - Sua mãe voltou a dizer. - Para que ele reagisse assim, é por te amar e te considerar muito. Uma hora ou outra ele vai ver que a reação que teve foi um pouco demais, porque você é uma boa pessoa e nunca faria mal para Lily.

- O problema é ele querer ver isso. Para Sirius, todo cara quer fazer mal para ela por conta do que aconteceu... por ter tido alguém que ele considerava muito, fazendo mal para ela. Então por quê não seria o meu caso também, não é mesmo?

Era exagerado o trauma dele, apesar de entender de certa forma. Mas bem, nem todos os amigos dele eram Peter Pettigrew. Ele, definitivamente, não era Peter Pettigrew. E Sirius precisava desligar aquela corda que ligava aquele demônio com o resto do mundo.

Desligar aquela corda que o ligava a James.

- Você gosta dela, filho, e eu assumo que Lily também gosta de você. Não tem como ele continuar a pensar isso. - Euphemia se aproximou dele. - Acho que ele precisa de tempo para absorver o que aconteceu, porque não é fácil descobrir as coisas assim.

- Imagino que não seja fácil descobrir que a irmã está saindo com o seu melhor amigo enquanto escuta que ela pode estar grávida.

- Não, não é fácil. Aliás, sem notícias de Lily, sem notícias do resultado do exame também, eu imagino.

- Nada.

Era óbvio que ele não seria o único esperando pelo resultado daquele exame.

Durante o dia todo, ficou pensando se o sumiço de Lily estava ligado ao resultado ou se por alguma briga com Sirius. Ou ambos. Porém, independente do que fosse, achava injusto ter ficado no escuro, já que saber se ela estava grávida ou não mudava a vida dele também.

Naquele momento, estava com raiva. Por um tempo deixou a preocupação lhe tomar, depois esperançoso que receberia notícias. Quando saiu de Hogwarts, voltou até a casa dos Black-Evans e estava tudo da mesma maneira de antes, fazendo-o ter certeza que ninguém havia voltado desde o momento que ele mesmo saiu dali naquela manhã.

Tentou ir até o laboratório e receber o resultado, mas foi negado, obviamente. Tentou alguns lugares que sabia que tinha conexão com Orion, e nada também.

Alice também tentava comunicação com a amiga e ficou tão sem respostas quanto ele.

- Ela vai aparecer logo e falar com você, querido. - A mãe tentou tranquilizá-lo.

- "Logo" não me parece bom.

- Deixe-a com o próprio tempo. Lily deve estar confusa, perdida.

- E eu quero estar com ela para ajudar!

- Sua vontade e disposição para ajudar talvez não seja o que ela precisa nesse momento, filho, por mais difícil que possa parecer. Nós temos nosso próprio meio de lidar com as coisas e, às vezes, precisamos estar sozinhos.

James foi até a porta dos jardins, abrindo-a.

- Eu queria também poder escolher como lidar com as coisas...caso eu tivesse uma resposta.

Saiu da casa dos pais sentindo-se mais nervoso do que minutos atrás. Ao entrar na sua cozinha, a sensação de que estava mais confuso do que naquela manhã cresceu. Não estava planejando ficar no limbo daquela maneira até o fim do dia, pensando que chegaria na casa de Lily, eles teriam o resultado e tomariam uma decisão, independente de qualquer coisa.

Tirou o celular do bolso e viu uma mensagem de Alice:

(19:16) Lice: Nada, sem resposta e não a encontrei. Eu acho que devemos deixá-la tranquila no momento e esperar que ela nos contate, por mais chato que seja.

Aquilo era uma merda, mas parecia a única solução no momento.

Respondeu com um "ok" e se jogou no sofá, encarando o vazio. Tinha que entender que ficar naquele modo de pensar não ajudaria em nada. Sirius não apareceria miraculosamente dizendo que tudo estava bem, nem Lily. Eles tomariam o tempo deles e James seria obrigado a tomar o dele.

- Tudo bem, uma hora ou outra eles terão que aparecer. - Disse enquanto ligava a televisão. - Eu não vou esquentar a cabeça com isso até lá. Não. Vou continuar minha sexta-feira com tranquilidade, meu sábado de manhã será pacífico e, a partir daí, vamos ver. Se ninguém quer falar comigo, que seja então. Não quero falar e nem ver ninguém também.

Seu celular começou a tocar e se esticou todo no sofá, tentando alcançá-lo do outro lado com rapidez e indo contra tudo o que acabara de falar. Seu coração diminuiu o ritmo ao ver que era Remus.

- Fala.

- Pelo tom da sua voz, você segue sem notícias.

- Sim. E quer saber? Não me importo. Eu só quero resolver as coisas, mas eles não. Então que se dane.

Ouviu Remus resmungar baixinho do outro lado, mas foi incapaz de ouvir.

- Eu estou vindo. Prefere cerveja ou whisky?

- Cerveja, por favor. - Respondeu sentindo-se derrotado. Seu plano de não se importar e ficar sozinho, tranquilo, não durou nem um minuto.

Sabia que Remus não viria para ficar falando daquilo, mas tentar distraí-lo, o que estava precisando e não conseguiria sozinho.

- Chego em uma hora.

Era um bom plano. Sem lamentações de madrugada, sem ficar falando sozinho, deixando o desgosto crescer...porque era aquilo que aquela espera estava reservando para ele.

S~L

Estava perdendo todas as esperanças de achar Lily. Passou o dia todo percorrendo todos os lugares possíveis. Mais de uma vez. Abasteceu o carro duas vezes de tanto que rodou. O banco de trás estava cheio de embalagens de comida, de fast-food, de garrafas d'água.

E agora, eles se dirigiam para o último lugar que tinham na lista, mas que não imaginavam que ela iria, porém esperançosos de encontrá-la por lá.

Mais cinco minutos e eles chegariam na casa de veraneio da família, na Cornualha. Era um lugar que lembrava muito a Orion, onde passaram férias e feriados com o pai e marido, construindo tantas lembranças, que às vezes era difícil voltar ali.

Sirius se xingou por não ter pensado na casa antes.

Geneviève estava acabada ao seu lado, um pouco adormecida. Estavam há 12 horas rodando a cidade após uma noite horrível para ambos. Ele mal sabia como ainda conseguia ter forças para dirigir, mas pensar que sua irmã estava mal em algum lugar, lhe fazia continuar. Nas primeiras horas, estava possesso com tudo aquilo, apenas querendo encontrá-la e soltar tudo o que tinha guardado em seu peito. Com o dia passando, a preocupação foi ficando maior, a ponto de ignorar o cansaço e continuar dirigindo para todos os lugares.

Poderia dirigir até a Escócia naquele mesmo momento se fosse preciso.

Via alguns turistas felizes e despreocupados na rua, rindo alto, o deixando com inveja. Apenas queria aquela calma, aquele estado de relaxamento de volta.

Seu celular marcava algumas ligações perdidas. Não atendeu ninguém naquele dia, só se importando caso fosse o nome de Lily no visor. Marlene tentou ligar para ele duas vezes e a ignorou. Era para ele estar em Oxford naquela hora, conversando com ela, dizendo que a amava e que não iria fugir dessa vez.

Infelizmente, Marlene teria que esperar. Ele precisava encontrar a irmã.

As casas agora estavam mais conhecidas. O pequeno mercado que sempre se abasteciam ainda existia, o mesmo dono estava na calçada, conversando com um casal. Aquele mercado significava que estavam quase chegando e Sirius sentiu suas mãos suarem de nervosismo pela centésima vez naquele dia. Se Lily não estivesse ali, não saberia mais onde procurá-la e aquilo lhe deixava em pânico.

Os faróis iluminaram a rua. A casa seria a última, afastada de todas as outras.

Quando parou o carro, se jogou contra o banco, fechando os olhos com força ao perceber as luzes da casa todas apagadas, indicando que não havia ninguém.

Lily, onde você está? Por favor...

Abriu os olhos e algo chamou sua atenção: o portão tinha as correntes destrancadas.

Com o coração na boca, ele saiu quase tropeçando do carro, assustando a mãe. Ela chamou por ele, mas Sirius não parou seu caminho até o portão da garagem, abrindo-o.

O seu carro estava ali.

Como um louco, ele entrou pela garagem e correu até a porta da frente. Estava aberta.

A casa ainda estava no escuro, mas Lily tinha que estar ali. Talvez tivesse saído para comprar algo ou caminhar na praia, o que fosse, mas ela estava ali. Finalmente.

Foi até as escadas e começou a subir com pressa, até algo no topo delas o congelar no meio: Lily apareceu, completamente confusa e assustada.

Todo o ar que pareceu ter guardado por todo o dia, um ar poluído, cheio de preocupação, saiu de sua boca. Segurando-se no corrimão, Sirius caiu contra a parede, aliviado, não acreditando que finalmente a encontrou. E ela estava bem.

No segundo seguinte, voltou a subir os degraus e, no final, abraçou a irmã, tirando-a do chão. Ela o abraçou de volta e começou a chorar. Um choro silencioso, mas tão pesado. Seus ombros tremiam, os braços dela o apertavam com força.

- Chora, pode chorar. Tudo está bem agora. - Ele disse mais para si do que para ela.

Agora tudo estava bem.


N/A:

Não tenho muito o que falar, apenas que é um alívio finalmente postar esse capítulo (talvez uma galera não vai entender o motivo...).

Estamos na reta final, gente. O próximo sera o último. Depois, epílogo!

Ajude uma pessoinha que leva horas (e que ainda deixa escapar vários erros lol) para preparar tudo isso e deixa esse comentário maroto aí ;)

Beijos!