J~L


I've been a liar, been a thief

Tenho sido um mentiroso, um ladrão

Been a lover, been a cheat

Um amante, um traídor

All my sins need holy water

Todos os meus pecados precisam de água benta

Feel it washing over me

Sinto-a me lavando

Oh, little one, I don't wanna admit to something

Oh, pequena, eu não quero admitir algo

If all it's gonna cause is pain

Se tudo que isso vai causar é dor

Truth in my lies right now, are falling like the rain

As verdades nas minhas mentiras agora estão caindo como a chuva

So let the river run

Então, deixe o rio correr

(Ed Sheeran feat Eminem - River)


Quando James abriu os olhos no domingo, foi atingido por tantas coisas, que mal sabia exatamente em qual delas se concentrar.

A primeira foi ter acordado mais um dia sem ter notícias do que estava acontecendo com a sua vida. Procurou pelo celular para conferir se tinha alguma mensagem de alguém, como Lily ou Sirius, mas não achou o aparelho. Mal lembrava de ter ido para a cama, para ser honesto. Remus ficou até o meio da madrugada de novo e James só lembrava de ter reclamado muito, botando tanta coisa que só se permitia pensar, para fora. O amigo apenas o escutou e deixou sua opinião em momentos específicos, o que James apreciou. Sempre apreciava, aliás.

A segunda, foi uma frase de Lily na semana, quando estavam no armário de Hogwarts, após o almoço:

"- Então você me vê nas suas memórias, enroscada em você a noite toda...tudo pegando fogo.

James apertou suas pernas, suas mãos deslizando para dentro da sua saia.

- É só o que eu consigo pensar.

Ele encostou a testa contra a sua, respirando com tanta dificuldade quanto ela.

- Essas lembranças me seguem mesmo estando aqui, com você. - Ela respondeu."

Aquilo veio na sua cabeça, porque parecia que ela sabia que ele estaria naquela situação poucos dias depois, pensando em tudo o que havia acontecido entre eles, em todas as escapadas; nos beijos inocentes e os nem um pouco inocentes; nas poucas noites que puderam ficar juntos, literalmente enroscados um no outro.

E além de tudo o que pensou, a cena dela em Godric's Hollow, ao lado da piscina e assistindo ao pôr do sol enquanto esperava por ele, ficava em looping em sua cabeça. Ali, pensou, via todas as Lilys que conhecia, todas aquelas pela quais ele se apaixonou. Não era apenas aquela que se entregou para ele, lhe surpreendendo, mas a soma de todas elas. Era o conjunto, era ela inteira. E era uma que queria estar ali com ele.

Então, depois, pensou em Sirius e em como tudo parecia estar ferrado, como aquela amizade que era tão importante para ele, uma pessoa que era quase um pedaço seu andando por ai, queria matá-lo. E ainda não conseguia achar um caminho para consertar aquela loucura, além de tentar conversar com ele e explicar as coisas. Mas ele estaria disposto?

Todos aqueles pensamentos obrigaram-no a levantar e ir procurar pelo seu celular. Vasculhou pelo sofá, por baixo das almofadas. Olhou embaixo do móvel da televisão, ou mesmo no chão, mas não achou.

- Porra.

Preparou um café e sentou no balcão, encarando o vazio na sua frente enquanto bebia. Ouviu uma vibração não longe dali e começou a procurar. Aquilo não parava, mas não parecia que era uma ligação, e sim muitas mensagens chegando. O que era aquilo?

Pensava que talvez fosse um dos dois enviando mensagem com a notícia: Lily estava grávida. Sirius estaria ameaçando sua vida e pronto para obrigá-los a se casarem ou Lily dizendo que não esperava aquilo e que era melhor acabarem com tudo.

Quando achou o celular embaixo de uma caixa de pizza de ontem à noite, honestamente, talvez tenha pensado por um segundo que a realidade alternativa acima fosse melhor, porque o que estava lendo parecia levemente mais perturbador.

Que merda era aquela? Estava mesmo lendo aquilo tudo ou ainda estava dormindo?

Sua raiva subiu como em um vulcão. Fechou todas as mensagens enquanto já tinha uma decisão tomada, e ligou para a única pessoa que poderia ajudá-lo naquele momento

- Hey, cara. Tudo bem? Alice me contou ontem o que está rolando. - Frank atendeu mal deixando James dizer "alô".

- Frank, está rolando treino hoje?

- Treino de quê?

- Futebol!

- Sim. Você quer jogar? - O amigo parecia perdido.

- Não exatamente. Onde vai ser?

- Acho que no mesmo campo da última vez.

- Obrigado.

- Mas James, o que...!

Como não teve oportunidade de dizer "alô", também não se importou em dizer "tchau", e desligou.

Pegou um pedaço de pizza fria que ainda tinha dentro de uma caixa, a chave do carro e saiu de casa.

J~L

O estacionamento do campo estava mesmo cheio, indicando que Frank estava certo. No meio do caminho, o amigo tentou ligar cinco vezes - pelo menos - e deixado algumas mensagens. Remus também começou a ligar, o que indicava que Frank havia precavido o outro.

Não atendeu ninguém. Conferia sempre, querendo atender Lily ou Sirius, mas nenhum deles tentou.

Saltou do carro e foi com passos largos até o maldito campo. Algumas pessoas o encaravam e cochichavam, provavelmente não entendendo o que ele fazia ali, ou mesmo lembrando da última vez em que James estivera em um campo de futebol e que envolvia uma briga física com Edgar Bones e seus dois panacas. Inclusive, que ocorreu poucos dias antes e que ainda carregava um bom olho roxo e alguns machucados pelo rosto.

Não havia muitas pessoas assistindo, mas seria o suficiente para passarem a mensagem.

Abriu o portão de ferro do campo e invadiu o treino que já havia começado. Quem assistia das arquibancadas, percebeu o intruso. Poucos jogadores notaram sua presença, mas quando alguns começaram a notar, não se mexeram muito, apenas esperando pela sua ação.

Assim que Edgar Bones o viu, parou de correr e disputar a bola, e o assistiu se aproximando. O próprio infeliz também estava bem marcado desde o embate na quarta-feira e aquilo dava um prazer culposo nele. Aliás, estaria mais do que feliz em adicionar mais algumas marcas nele naquele exato segundo.

Mas ao invés de chegar enfiando o soco nele como amaria fazer, James apenas o empurrou com força, fazendo Bones se desequilibrar para trás.

- Você é muito corajoso ou muito burro? - Perguntou empurrando-o novamente. Bones ainda conseguiu não cair, mas não parecia que um terceiro empurrão o manteria em pé. - Eu quero que você olhe nos meus olhos e seja corajoso ou burro para falar isso em voz alta.

- Qual o seu problema, Potter?

- Ah, você não sabe?! - Tirou o celular do bolso e o balançou no ar. - Muito interessante o que anda rolando como rumor em todos os grupos de Hogwarts.

Não entendia o motivo de não ter todos os jogadores pulando em cima dele naquele momento, mas aproveitaria aquela oportunidade para arrancar tudo da boca daquele bosta.

- Ah, isso? Bem...- Bones começou a rir. - Não tem muito o que dizer, eu acho.

James puxou aquele desgraçado para perto, colando seus rostos. Chegou até a pensar, rapidamente, o quanto aquele tipo de confronto estava acontecendo na sua vida ultimamente e lembrou de Sirius na quinta-feira, enquanto queria arrancar seu couro. Entendia o ódio que deveria sentir para ter alguém tão perto do seu rosto, porque aquilo lhe dava a impressão que poderia arrancar a cabeça da pessoa na sua frente com os dentes.

- Vamos de corajoso, apesar de achar que é muita burrice sua de qualquer maneira. Então repete na minha cara usando toda essa sua coragem. - Bones fez um som de deboche, fazendo James sentir mais ódio ainda. - Se você pode espalhar isso para todo mundo, você vai ter coragem de me dizer também, não?

Edgar tentou se afastar, mas James não o deixou. Parecendo contrariado por estar sendo controlado por James, ele colocou a expressão mais sonsa do mundo na cara e o encarou.

- Dá um tempo, Potter. Quem é você para exigir qualquer coisa assim?

- Você sabe bem quem eu sou ou, de repente, aquelas suas ameaças de antes não valiam nada? Pensei que estava por dentro de tudo.

- E você estar me ameaçando aqui, na frente de boa parte de Hogwarts, não é muito inteligente para esconder o seu segredinho.

James o empurrou de novo.

- Talvez eu não me importo mais. - Começou a arregaçar as mangas. - Vamos, fala o que você andou espalhando por aí.

- Quem garante que fui eu?

- Não tem pessoa idiota o bastante para isso. E aposto que se fosse outra pessoa, você estaria desmentindo.

Bones fez uma careta de desdém.

- Ou não.

Outro empurrão e Edgar caiu, mas foi rápido ao se levantar.

- Eu te dou apenas alguns milésimos de segundos para começar a abrir a sua boca. Eu não quero brigar, você também não, então melhor acelerar.

Bones parecia pedir por reforços, mas ninguém parecia disposto a comprar a briga dessa vez. São nessas horas que você via quem era seu amigo de verdade e quem apenas queria guardar seu lugar no time, com medo de represálias.

Sabia que se fosse com Sirius e Remus, nenhum deles deixaria o outro sozinho ou sem apoio. Se bem que, como estavam 1x1, não atacariam de primeira e deixariam o desenrolar da história ditar as regras.

- Se você quer tanto discutir sobre isso, então tá. - Edgar levantou os ombros. - Estamos falando sobre Lily estar grávida, não? Um pequeno descuido meu, confesso, deveria ter sido mais cuidadoso. Mas com Lily, às vezes, fica difícil de se segurar e quando eu vi...já tinha ido. - Edgar Bones disse com a maior calma do mundo, rindo um pouco. James sentiu os dentes rangerem. - Foi isso que ficou sabendo? Eu sei que é complicado neste momento da vida, pois eu sou jovem com uma carreira promissora no futebol e Lily pronta para a universidade, mas acho que podemos resolver esse problema.

Segurou o pescoço de Edgar com uma mão e começou a empurrá-lo para trás.

- Ela não está esperando nada seu, talvez apenas o seu sumiço, mas um filho? - Queria apertar mais o pescoço dele, mas resolveu largá-lo antes de fazer algo que se arrependeria. - Do jeito que você fode mal, segundo ela mesma, você talvez nem seja capaz de engravidar alguém.

- Aparentemente não é o caso.

Aquilo era inacreditável de se ouvir.

- Como você pode inventar uma coisa dessas? Qual o objetivo de mentir?

- Eu não estou mentindo. Ela está grávida, não? - Bones diminuiu o tom de voz. - Você mesmo parece ter dito para Lupin na sexta-feira, nos jardins. Vocês não estavam sendo muito discretos na conversa. Então, claro, é óbvio que eu sou o pai.

James o pegou pela camiseta.

- Se ela está grávida, eu garanto que não envolve sua genética... o que eu considero um alívio, aliás. Então eu acho melhor você desmentir esse boato, antes que eu não desista de apertar o seu pescoço até sua boca ficar roxa.

- Potter, acorda para a vida. Se ela descobriu agora que está grávida, não foi com o seu sexo bosta de uma semana atrás.

Aquilo o fez rir um pouco, o que foi bem surpreendente para toda a situação. Se aproximou dele novamente.

- "Uma semana atrás"? Ah, Bones, acorda para a vida. - Repetiu suas palavras e deu uns tapinhas em seu rosto. - Você tem tanto para aprender, que me dói a alma.

- Pensa pelo lado bom: você aproveitou o que queria, mas pode sair dessa sem Black te matar. - Ele sussurrou. - Eu estou fazendo o maior favor da sua vida.

- Está, é? Assumir uma criança que não é sua é algo que você almeja desde sempre?

- Não preciso assumir nada, Lily e eu poderemos dar um jeito nisso e o seu nome nem vai ser citado. Eu vejo como uma grande vitória para você. - James estava chocado, que nem conseguia reagir. - Porém, essa sua perseguição e obsessão por ela tem que acabar. Você volta para o seu cantinho e não se enturma mais.

Deveria estar rindo, mas o choque ainda o congelava. Era realmente irreal o que ouvia. Edgar Bones vivia no seu próprio mundo e era um muito louco.

- Tem algo faltando aí dentro, Bones, de verdade. Eu estou quase preocupado.

- Veja a situação como quiser.- O outro deu de ombros. - Mas se não entrarmos nesse acordo, eu acho que serei obrigado a ter uma conversa com Black e dizer algumas coisas que ele não está ciente.

Aquilo, finalmente, trouxe um sorriso para James.

- Por favor, faça isso. Eu te peço para fazer isso. Vá até ele e conte tudo o que, aparentemente, você sabe.

- Não me peça duas vezes, vai ser um prazer enorme.

- Se eu pedir três vezes, você iria ainda mais rápido? - Fechou o sorriso falso e deu um passo até ele. - Desminta essa merda, Bones, ou vamos ter problemas.

- E já não temos?

- Um ainda maior.

Deu as costas, querendo se afastar. Não seria hoje que partiria para cima dele de novo e, para ser honesto, nem queria. Por mais irritado que estivesse, não seria uma briga com Edgar Bones que consertaria as coisas. Na verdade, só piorava o seu estado de espírito.

Ainda estava sendo observado por todos os presentes. Os outros jogadores mantiveram a distância. Os dois que pularam em cima dele na última briga, e que tinham boas marcas também dela, apenas o fuzilavam com o olhar. Não achava que estava sendo respeitado por eles, mas tinha certeza que era a condição do treinador para continuarem no time: sem brigas, sem confusão.

- Isso, Potter, esqueça essa loucura de querer ajudar o seu amigo, tentando encobrir a gravidez da irmã dele. - Edgar gritou ainda do seu lugar. - Se o vir, diga que eu estou disposto a assumir o que eu fiz.

Seus punhos fecharam e ele parou no meio do campo. Uma parte sádica sua o mandava voltar até lá e quebrá-lo em milhares de pedaços. O que o impediu foi o espanto e cochichos das pessoas. Ficou assistindo a onda do rumor invadir o lugar: dos jogadores até a arquibancada. De alguns pais presentes e de dois funcionários da escola. Parecia que o rumor não tinha se espalhado completamente antes, mas agora...

Olhou de novo para Bones, que parecia bem contente com o feito. Limpou a garganta antes de aumentar a voz e ser ouvido por todos:

- Não vejo como você pode assumir algo que não existe. Principalmente quando Lily esteve comigo esse tempo todo e não com você. - O choque dos estudantes foi ainda maior e James se virou para todos eles. - É isso mesmo o que ouviram: Lily Evans está comigo e qualquer merda que sair da boca desse babaca monumental, é mentira. Isso quer dizer que ela não está grávida dele.

Mais cochichos, quase tão altos quanto antes.

- Está mesmo com ela, é?! Sirius Black sabe ou você estava se escondendo para não levar uma surra do seu melhor amigo? - Bones jogou a pergunta no ar.

Parecia um filme, com todos assistindo os insultos voarem a torto e a direito.

- Pensei que você iria se encarregar de contar para ele, então aproveita e vai tirar sua dúvida.

Continuou o seu caminho para fora do campo quando viu Remus saindo do carro e correndo até ele.

- O que você fez? - Perguntou quando chegou até James.

- Nada.

Remus tentou conferir por cima dos ombros se o amigo tinha mesmo deixado o campo sem maiores problemas, enquanto tentava acompanhar os passos dele.

- Eu escutei bem? Você disse para toda a escola que está com a Lily?

- Talvez.

Chegou no carro e abriu a porta, mas Remus o segurou.

- Você ficou maluco?

- Remus, quem deveria saber, já sabe. Se isso piora as coisas, bem...vou ficar surpreso. Não sabia que tinha como.

Conseguiu entrar no carro, mas Remus o impedia de fechar a porta.

- Eu recebi as mensagens da fofoca. Sirius deve ter recebido também.

- Ele não parece estar se importando tanto, já que nenhum dos dois entra em contato com ninguém.

- Eu acho que ele vai se importar com isso, assim como Lily.

- Acho que teremos que pagar para ver. A minha parte eu fiz. Se Edgar Bones gosta da própria cara, é melhor fazer a dele e desmentir isso.

- Ele não vai desmentir, sabe como ele é.

- Bom, então já sabemos o que vai acontecer. - Fechou a porta finalmente. - Uma pena que será duas vezes: uma minha e outra de Sirius.

Ligou o carro e saiu do estacionamento sem olhar para trás.


Lately, I've been, I've been thinking

Ultimamente, eu tenho pensado

I want you to be happier, I want you to be happier

Eu quero que você seja mais feliz, eu quero que você seja mais feliz

When the morning comes

Quando a manhã chega

When we see what we've become

Quando vemos o que nos tornamos

In the cold light of day we're a flame in the wind, not the fire that we've begun

À luz fria do dia, nós somos uma chama no vento, não o incêndio que começamos

Every argument, every word we can't take back

Cada briga, cada palavra que não podemos retirar

'Cause with the all that has happened

Porque com tudo o que aconteceu

I think that we both know the way that the story ends

Acho que nós dois sabemos como a história termina

(Marshmello feat Bastille - Happier)

Sirius parou na porta do seu quarto na Cornualha por um momento quando finalmente acordou naquela manhã e ainda estava descrente na confusão que ainda se encontrava.

Desceu as escadas já sentindo o cheiro de ovos e bacon vindo da cozinha e seu estômago roncou. Não tinha aproveitado nenhuma refeição desde sexta-feira, evitando ter que dividir aqueles momentos com Lily.

- Bom dia, querido. - Sua mãe o recebeu na confortável cozinha da casa de veraneio.

Ainda estava razoavelmente frio, então a pequena lareira do cômodo estava acesa. Às vezes eles passavam algum fim de semana do inverno ali quando Orion ainda estava vivo, e ele tinha essa memória do pai acendendo aquela mesma lareira para os quatro tomarem café da manhã juntos.

- Bom dia.

- Dormiu bem?

- Como pude.

Sentou de frente para a mãe, encarando o prato ainda vazio.

- Certo. Bem, coma um pouco. Você precisa de alguns nutrientes. Eu preparei ovos, bacon e há torradas com geleia.

Assentiu e serviu-se primeiro de ovos e bacon, porém de olho nas torradas também. Estava varado de fome.

- Onde está Lily?

- Lá fora. Ela acordou cedo, comeu e resolveu pegar um pouco de ar.

- Certo.

- Ela não quis conversar comigo de novo. - A mãe soava inconsolável. - Sempre conversamos bastante quando há um problema, mas ela pediu para fazermos isso mais tarde. Eu fico impressionada o quanto ela tirou tanta coisa do seu pai. Quando Orion tinha algum problema, ele podia fazer exatamente o mesmo e isso é de enlouquecer.

- Se te serve de consolo, ela não quis conversar comigo na sexta, quando chegamos, e nem ontem.

Após chegarem e Sirius abraçar a irmã como se tivesse medo dela desaparecer novamente, Lily voltou para o quarto e sentou na cama, todas as luzes apagadas, encarando ao longe a praia. Ele não sabia o que fazer, sentindo-se um intruso.

Um intruso odiado.

Então apenas deu as costas e fechou a porta, deixando-a sozinha. Não queria ter feito aquilo, mas não sentia-se bem-vindo naquele momento. No dia anterior, a mesma coisa: tratamento frio e mal cruzando os caminhos. Ele sabia que ela fazia de propósito, evitando-o o máximo que podia.

Muita mágoa ainda estava no ar e de ambas as partes, então não forçou uma conversa, sendo que ele mesmo ainda não queria conversar com ela...apesar de saber ser necessário. Então apenas foi para o próprio quarto e se trancou ali até aquela manhã, não falando nem com a mãe.

Sentiu-se um pouco egoísta, já que ali era um lugar onde doía a todos. Quando procuravam por Lily e pensaram em ir até a Cornualha, não tiveram tempo de se planejar, de se prepararem psicologicamente para chegarem naquela casa que respirava o pai e o marido. Estavam tão cansados das inúmeras viagens por todos os lados, que mal pensaram naquilo no caminho.

Durante toda a noite, a última conversa que teve com o pai ficou rondando sua cabeça, como se ela ficasse muito alta e clara estando ali. Lembrava em como ele parecia fraco, mas ao mesmo tempo não querendo demonstrar para ele. Sua voz continuava grave e forte, apesar da falta de fôlego às vezes. Os olhos dele, os mesmos de Sirius, não pareciam muito vividos, mas continuavam tão amáveis...

Olhou para a mãe, que comia suas torradas e olhava para os jardins.

- Você chegou a encontrar alguém? - Perguntou.

Geneviève se virou para ele.

- Eu não fui lá fora ainda, apesar de ter ido conferir onde estava a sua irmã.

- Não digo algum vizinho ou coisa assim. Digo na vida...um outro cara.

A mãe se surpreendeu.

- Não, Sirius, eu não tive nenhuma outra pessoa na minha vida desde que encontrei o seu pai.

- E desde a partida dele?

- Também não. - Ela cruzou os braços na mesa, curiosa. - Por que a pergunta, querido?

Sirius brincou um pouco com o bacon, pensando se valia a pena entrar naquele assunto.

- Papai...ele queria que você fosse feliz, sabe?

- Claro que sei. Ele nunca desejaria que algum de nós fosse infeliz.

- Mas ele queria que você encontrasse alguém. - Aquilo pareceu acordar a mãe para a conversa. - Ele me disse.

- Estou vendo que o seu pai te disse muita coisa, muito mais do que eu recebi de informação.

- Talvez.

- O que não foi certo da parte dele. Você está e esteve longe de ser ou estar responsável por tudo isso.

Concordava com ela, claro. O que menos queria era ter sido colocado naquela posição, mas há algum tempo ele vinha pensando nisso e apenas uma coisa estava clara na sua cabeça, considerando o quanto o pai queria conversar naquele dia no hospital.

- Sabe o que eu acho? - Não quis olhar para ela enquanto dizia aquilo, querendo ser forte. - Que o papai sabia que ele estava indo e, talvez, pensasse que não teria chance de ter essa conversa com você.

Continuou com a cabeça voltada para a mesa enquanto sentia o peso daquelas palavras. Era sempre horrível pensar que o seu pai sabia o que estava vindo, enquanto os três estavam tão esperançosos pela sua recuperação na época.

Deu uma garfada na comida e finalmente levantou os olhos, apenas para encontrar sua mãe com o olhar perdido pela janela novamente. Ela tinha as sobrancelhas franzidas, os lábios em um arco para baixo. Parecendo notar que era observada, ela se virou para Sirius.

- Coma, querido, ou vai esfriar. - Apenas respondeu, com ela mesmo voltando para o seu prato.

Não se falaram mais até o final da refeição. Ele percebeu que a mãe estava com a cabeça em outro lugar e não queria interromper, assim como ele parecia ter muito no que pensar.

Se ocupou da louça e resolveu ir até os jardins. Não foi difícil encontrar Lily, que estava sentada em um banco de madeira que tinha uma vista bonita até a praia. Não sabia se seria bem-vindo, mas queria tentar a sorte.

- Posso sentar? - Perguntou. Lily sobressaltou-se e deu uma olhada rápida para ele, lhe dando um lugar no banco.

Assim como com a mãe, ficaram em silêncio por um bom tempo. Sirius lutava, como sempre, com todos os sentimentos malucos: a raiva, a saudade dela, a inconformidade, o amor, tudo. Mas sabia que não poderia deixar apenas o ruins vencerem.

- Você está com o seu celular? - Ela perguntou sem olhar para ele.

Sirius tirou o aparelho do bolso.

- Vai ligar para ele? - Perguntou sarcasticamente.

- Vou dar uma olhada no meu email.

- Era assim que vocês se comunicavam?

A irmã não respondeu. Aquela ironia, aquela provocação não poderia passar sem ser utilizada. Perguntava-se como eles combinavam as coisas, mas talvez era com a velha e infalível mensagem por telefone. Fazia sentido, pelo menos, já que James havia mudado a senha do seu celular.

Começou a rir sozinho, lembrando de não conseguir acessar o celular do amigo e tudo para que ele não visse as mensagens que trocava com Lily. Lembrar dessas pequenas coisas era tão irritante, sentia-se tão feito de idiota.

Poucos minutos depois, Lily entregou o celular novamente.

- Você tem 1% de bateria - Ela informou. - Mas tem tempo o bastante para ver o resultado do exame.

- Você ainda não tinha visto?!

- Sim, eu vi ontem pelo computador de uma loja perto daqui.

Sirius pegou o celular rapidamente, mas seus olhos estavam quase relutantes em olhar. Não tinha perguntado para ela, apesar daquilo estar batendo na sua cabeça como um martelo, preferindo adiar o problema ao invés de enfrentá-lo.

Quando abaixou os olhos para a tela, fechou-os em seguida após ver o que estava escrito.

Sem se virar para Lily, colocou o celular no bolso.

Ambos ficaram estáticos, olhar perdido em direção a praia, perdidos em seu próprio mundo.

- Bom...- Sirius finalmente se levantou e deu uma risada irônica.

Não conseguiu terminar sua frase, apenas se afastou do banco e voltou para a casa.


Not really sure how to feel about it

Não tenho muita certeza de como me sentir sobre isso

Something in the way you move

Algo no jeito que você se move

Makes me feel like I can't live without you

Me faz sentir que eu não posso viver sem você

It takes me all the way

Isso me leva do começo ao fim

And I want you to stay

E eu quero você você fique

The reason I hold on

O motivo pelo qual eu insisto

Ooh, 'cause I need this hole gone

é porque eu preciso que esse vazio se vá

Well, funny you're the broken one

É engraçado que você é quem está destruída

But I'm the only one who needed saving

Mas eu sou o único que precisava ser salvo

'Cause when you never see the light

Porque quando você nunca vê a luz

It's hard to know which one of us is caving

É difícil dizer qual de nós está desabando

(Rihanna feat Mikky Ekko - Stay)

- O que precisam para dar o resultado? Identidade? Ou apenas aparecer e se identificar como alguém próximo dela?

Após a cena no treino de futebol, Remus o havia seguido até em casa e se plantado ali, ao seu lado, como fizera o fim de semana todo. Já iam para muitas horas sem notícias, e James se encontrava mais do que enlouquecido. Não era possível aquilo, estava desacreditado.

- Não sei, Remus. Acho que precisa de identidade.

- Com o laboratório do seu pai, pensei que saberia como funciona.

- Você sabe que não é esse tipo de laboratório que ele tem.

Tinha tentado o celular de Sirius novamente e, agora, apenas ia para a caixa de mensagens. Pensou que seu número tinha sido bloqueado, mas Remus também tentou e teve o mesmo resultado.

- Talvez teremos notícias amanhã. Eles não podem desaparecer, muito menos de Hogwarts. Os dois estão aceitos em Oxford, mas não podem perder aulas assim.

- Veremos.

Remus estava certo, mas era difícil pensar nas coisas daquele jeito naquele momento. Ele via a lógica, mas será que o outro lado da história também via?

Geneviève deveria estar pensando naquilo, provavelmente. Ela estaria com os dois filhos, com certeza, já que ela também não tinha voltado para casa. Ele tentou falar com ela, mas sem sucesso. Parece que ninguém da família se importava em ter um carregador de celular extra em algum lugar do carro ou bolsa.

Ele também não tinha, mas enfim...

Perdendo a paciência, o que era um pouco raro para Remus, o amigo bateu nas próprias pernas, como de saco cheio, e se virou para ele:

- Bom, James, estamos assim por alguns dias. Passo as madrugadas aqui e escuto tudo o que você diz, mas acho que já chegou a hora de você começar a realmente falar.

Virou para o amigo, achando que ele tinha perdido a cabeça.

- Começar a falar?!

- Sim, o que realmente está te deixando assim. Eu sei que não é pela falta de resposta do exame, apesar de saber que você está preocupado com isso também, claro. Só que não é isso que está te deixando para baixo assim e eu acho que você está querendo conversar sobre isso, mas deixando seu receio te impedir de botar para fora.

- Talvez você esteja enganado.

- Eu não estou. Me engano poucas vezes, é verdade, mas não é o caso agora.

James desviou os olhos e preferiu encarar as próprias mãos.

- Não sei o que você espera ouvir. - Resmungou baixinho.

Remus suspirou tão alto, que o deixou desconfortável, sabendo que tentar desviar da conversa não iria adiantar e o amigo viria com tudo o que tinha nos próximos segundos.

- Certo, eu falo por você então. Você está assim, porque você ama Lily, não por ela possivelmente estar grávida. E ela não está aqui e você não sabe o que vai ser de tudo isso agora que Sirius sabe e deixou claro que não gostou nem um pouco do que estava rolando. O fato de ter perdido Lily é muito mais assustador do que se tornar pai aos 18 anos, eu diria até que você estaria mais do que pronto para se engajar nessa aventura caso o resultado desse exame fosse positivo...mas longe de estar pronto para perder Lily.

Riu sem graça alguma.

- Oh, o senhor-que-pensa-saber-tudo.

- Eu não sou o único que pensa assim. Todo mundo que sabe da história, pensa assim. É claro e límpido, mas ainda que seja claro, você fica colocando o "resultado do exame" como cobertura e não está falando sobre isso, te deixando consumir aí dentro. - Remus se aproximou. - Eu não quero te forçar a falar, eu só quero que saiba que se você tem receio de falar em voz alta, não precisa. Não será novidade para mim ou qualquer outra pessoa envolvida, então...então apenas deixe sair.

Foi sua vez de suspirar alto. Estava com raiva, não combinando muito com o que tinha para falar sobre aquilo, mas já que o amigo insistia...

- Estou com raiva, Remus! - Finalmente disse. Levantou, precisando de espaço para que tudo aquilo tomasse o espaço necessário. - Eu quero fazer algo, quero tentar, quero...quero lutar! Quero lutar por isso, por ela! Mas eu fui jogado em um canto onde eu não posso fazer nada, me deixando de mãos atadas. Eu quero consertar as coisas.

- Mesmo que isso signifique que você será pai?

- Mesmo que signifique isso. - Jogou as mãos para o alto. - Eu só quero uma chance de fazer as coisas do jeito certo, mas por quê eu sou o único aqui querendo isso? Por que ela não está entrando por essa porta para a gente conversar? Por que Sirius não está me enviando para o hospital de tanta porrada?

- Ambos devem ter boas razões para não estarem fazendo nada disso. - Remus deu de ombros. - Sirius não está te enchendo de porrada, porque você é você. Ele não pulou no seu pescoço...

- Ainda. - James adicionou.

- Ainda. - Remus se corrigiu. - Ou não, talvez ele não faça. De qualquer maneira, ele ainda-e-talvez-nem-faça isso justamente por ser você. Se fosse Edgar Bones, você pode ter certeza que ele não estaria mais nesse mundo.

- Justamente por eu não ser Edgar Bones, acho que a gente pode resolver isso.

- E eu tenho certeza que irão.

- Mas quando? - Sua voz até falhou com o nervosismo. - Por que não agora? Inferno!

Remus também levantou, tentando acalmar a situação, mas James sentia-se dentro de uma jaula naquele momento, querendo ser solto.

- Porque não é você quem decide quando as coisas acontecem, quando as pessoas devem fazer ou falar algo.

- Eu não quero decidir nada, apenas resolver.

Era tão problemático assim? Um pedido tão absurdo? Tinha certeza que conversar seria a solução para o problema de todos, e não se enfiarem numa caverna no inferno da terra ou seja lá onde estavam Lily e Sirius.

- Sirius pode estar tendo dificuldade em lidar com isso, precisando de tempo para deixar tudo se encaixar e fazer sentido. Já Lily...ela pode ter que mudar todos os planos dela para os próximos cinco anos ou mais, tendo também dificuldade em lidar com essa loucura.

Caiu de volta no sofá, ainda em desacordo.

- Então você acha que Lily não estaria considerando ficar comigo depois dessa coisa toda, mas apenas pensando se está grávida ou não?

- Eu não disse isso. - Remus se aproximou e sentou na mesa central da sala. - E muito menos acho que a sua briga com Sirius seja menor do que a sua vontade de ficar com ela ou o que for, mas acho que pelas suas posições, vocês três estão com diferentes preocupações no momento. Ou, talvez, apenas com prioridades diferentes.

Sim, sim, ele sabia. Cada evento daquele problema atingia os envolvidos de maneiras diferentes, pois havia irmãos, melhores amigos e um casal na soma. Cada um com um problema diferente de acordo com a sua relação com o outro.

Mas poderia algum deles interagir com ele também? Seria interessante envolvê-lo naquilo, não? Mesmo com um problema considerado familiar no meio e que não lhe cabia dizer ou fazer algo, gostaria de fazer a sua parte. Poderia até ajudar no resultado global.

Porém, estavam falando de um Black e de uma Evans. Ou melhor dizendo: dos Black-Evans. Era uma mistura que só podia dar certo, mas que também podia ser um pouco explosiva. E ele só podia esperar sua vez.

Apenas esperar.


I guess we can't control

Eu acho que não podemos controlar

What's just not up to us

Aquilo que simplesmente não depende de nós

Be mine, be mine, yeah

Seja minha, seja minha

Anytime, anytime

A qualquer momento, a qualquer hora

Baby, you are bringing out a different kind of me, yeah

Baby, você está despertando uma versão diferente minha

There's no safety net that's underneath, I'm free

Não há rede de segurança embaixo, estou livre

Fallin' all in you

Me apaixonando completamente por você

Fell for men who weren't how they appear

Você se apaixonou por homens que não eram o que pareciam

Trapped up on a tightrope, now we're here, we're free

Foi aprisionada em uma corda bamba, agora estamos livres

Fallin' all in

Nos apaixonando completamente

(Shawn Mendes - Fallin' all in you)

Sirius encarava a parede em sua frente, a mesma que encarou o fim de semana todo. Teriam que voltar hoje para Londres e se perguntava se conseguiriam resolver alguma coisa antes de se lançarem na rotina novamente.

A raiva ainda era grande, mas ver Lily chateada era pior.

Desviou os olhos para o teto, pensando em como consertar aquilo com ela e ainda manter a sanidade. Ou talvez fosse esse o problema: pensar demais, manter-se são quando precisava apenas desapegar, deixar a vida ditar um pouco as regras.

Não deveria estar tão mal assim. Sabia que, uma hora ou outra, Lily namoraria com alguém e ele estava ok com aquilo - quando não era um idiota sem escrúpulos como Edgar Bones, claro - , apesar de não ser o irmão bobão que deixaria o novo cara fazer o que quisesse. Mas...James?

Porra, o James?

Ouviu batidas na porta. Não era como Lily costumava bater, então descartou ser a irmã.

- Está aberta. - Disse ainda olhando para o teto.

A porta abriu e a mãe não disse nada, parecendo assisti-lo encarar o teto. Geneviève era outra que não estava indo bem com tudo aquilo, sentindo-se de mãos atadas, querendo conciliar tudo.

Como ela ainda não disse nada, Sirius olhou para ela, querendo saber o que estava acontecendo.

Sentou na cama com o susto ao ver não sua mãe, mas Marlene.

- Que isso?! - Perguntou sem pensar.

- Sua namorada, seu tonto. - Ela respondeu fechando a porta logo após, sem tirar os olhos dele.

Sirius engoliu a bola de ar presa na garganta ao ouvir aquilo.

Eles tinham terminado, mas ela parecia decidida a não aceitar aquela palhaçada dele, provavelmente vendo que não era aquilo que ele realmente queria fazer depois de dizer que a amava e correndo logo depois.

- Como me achou?

- Sua mãe me ligou ontem à noite. - Ela veio até a cama e parou ali, cruzando os braços. - Eu cheguei em Londres ontem para poder conversar com você e resolver as coisas, mas descobri pela minha tia que ninguém sabia onde você estava e nem Lily.

- Ah!

- E depois eu soube o que aconteceu.

Sirius levantou.

- Aposto que o seu primo adorou dar a versão leve dele de todo o ocorrido. Não me surpreenderia ele mentir de novo, falar um monte de merda para encobrir o que fez.

- Quem me contou foi a minha tia Euphemia. - Marlene não parecia querer cair na vitimização dele. - Eu nem falei com James, ele nem sabe que eu passei por lá. Euphemia disse que ele não queria receber ninguém.

- Oh, coitado do pobre James que transou com a minha irmã pelas minhas costas. Ele deve estar sofrendo tanto.

Marlene fechou os olhos.

- Você está falando do meu primo, não se esqueça. Seu melhor amigo, aliás, ou quase o seu irmão. Se você quer manter isso como uma conversa minimamente decente, cresça um pouco.

- Por que todo mundo insiste nessa de irmãos?

- Porque vocês poderiam se considerar como tal. - Ela respondeu, abrindo os braços. - Mas você parece esquecer disso.

Sirius se recostou na cômoda e cruzou os braços, respirando fundo.

- Você veio aqui para defender o seu primo ou por nós? Mal chegou, mal entrou, e já começou a atacar.

- Eu vim por você, Sirius! - Ela, finalmente, pareceu deixar a raiva cair um pouco e se aproximou. - Sua mãe me ligou quando eu já pensava em voltar para Oxford, já que eu não sabia onde estavam. Peguei o primeiro trem desta manhã para estar aqui, então acho que eu mereço uma conversa, não?

Estava prestes a dizer que ela deveria ter ligado para ele e iria ao seu encontro, até ele se lembrar que não estava atendendo ninguém, nem ela, além de não ter mais bateria no seu celular.

- Desculpa não ter te atendido ontem. - Disse ao lembrar das ligações.

- Eu estava possessa por isso, mas agora que sei o que está acontecendo, eu deixei para lá. - A voz dela parecia mais calma com os segundos passando. - Onde está Lily?

- Não sei. No quarto dela, talvez.

- O quarto ao lado está vazio. Ela deve ter saído, o que nos deixa mais livres para conversar.

Achava que aquela conversa não poderia ser mais difícil do que qualquer outra, então apenas balançou a cabeça, concordando.

- Certo, então me diga o que você soube.

- Soube que James e Lily estavam juntos escondidos de você. E que você surtou.

- Eu não surtei. - Disse, não gostando da palavra usava.

- Não? Então você costuma invadir a casa das pessoas como fez na sexta-feira, procurando pelo pescoço do meu primo?

- Não fui lá para estrangular James, apesar de não me opor. Estava procurando por Lily.

- Por quê?

- Porque ela não estava em casa.

- E desde quando ela tem que te dizer onde vai?

Abriu a boca para responder, mas fechou. Marlene levantou uma sobrancelha, esperando.

- Ela não tem que me dizer onde vai. - Finalmente disse. - Mas ela pegou o meu carro.

- E?

- E?! Oras...meu carro. É o meu carro.

- Lembro uma vez, antes do acidente de Lily, que você pegou o carro dela de madrugada, porque o seu estava quebrado, e veio me ver. Ela não soube desse empréstimo, se eu bem me lembro, porque eu te perguntei.

Sabia que ninguém ficaria ao seu lado naquele caso Lily/James, mas não esperava aquelas jogadas na cara.

- Não vejo como podemos comparar as duas coisas.

- As únicas diferenças são o destino, a razão e o infrator. De resto, continua sendo um irmão pegando o carro do outro sem pedir.

Levou as duas mãos ao rosto, sem acreditar que agora teria que brigar com Marlene também.

- Você veio aqui por mim, mas na intenção de me queimar vivo.

- Eu vim até aqui para te ajudar, principalmente tentar te mostrar que as coisas não são bem assim como você está lidando. - Marlene parou na sua frente e Sirius apenas queria abraçá-la por longos minutos, tentar esquecer tudo o que passou nos últimos dias, na última semana.

Não queria mais pensar em James e Lily, nem na briga que teve com Marlene, nem em Orion e toda a última conversa com ele no hospital. Nada, nada de nada. Apenas queria esquecer tudo e ficar com ela.

- Você acha que o que eles fizeram estava correto, então? - Perguntou, mas mais tranquilo do que antes.

- Eu acho que não há correto ou incorreto. Eles queriam, ninguém forçou ninguém, ambos solteiros...- Surpreendendo-o, ela segurou o rosto dele e Sirius sentiu aquela onda de felicidade em estar perto dela, aquela alegria que sempre sentia com ela. - Você está sofrendo por algo que não pode lutar contra, Sirius. Você não pôde lutar contra os seus próprios sentimentos, como acha que poderia lutar contra ou pelos sentimentos deles? James e Lily são os únicos que podem decidir o que fazer.

- Lily está apaixonada por ele, Lene. Por James. Deixando de lado toda a raiva que eu estou, James nunca quis ficar com alguém, se prender. Eu vou ser obrigado a ver a minha irmã sofrer por alguém que não quer nada sério, pelo meu melhor amigo!

Marlene meneou a cabeça e sorriu, deixando Sirius confuso. Por que ela sorria?

- Você chegou a pensar nas coisas, Sirius?

- Como assim?

- Nós dois conhecemos James, certo? - Sirius abriu a boca para retrucar e vendo que ele parecia pronto para dizer bobagens, ela continuou. - Você conhece James, não me venha com qualquer outra resposta.

- Eu nunca pensei que ele faria isso.

- Nem todos contamos nossos segredos, não é? Você tem os seus, todos temos direito. - Sirius revirou os olhos. Marlene suspirou. - Nós tivemos os nossos: viajando escondidos, ficamos juntos um pouco antes de James saber de tudo. Não fomos os mais honestos lá no começo. Sua mãe pensava que você estava na casa de James, enquanto você estava comigo em Oxford.

- Mas era algo inocente...

- Não houve maldade no que eles fizeram também.

Ele não quis responder, preferindo deixar de lado. Entendia o que ela dizia, mas em momento algum eles tiveram que inventar algo para James na época sobre suas saídas. Simplesmente faziam e não davam desculpas esfarrapadas sobre o que acontecia. E no dia que James perguntou algo, ele contou a verdade. Depois disso, o amigo até o ajudou.

Não que aquele início escondido de Sirius com Marlene tenha durado muito tempo. Se tivesse ocorrido em uma semana e meia ainda era muito.

- Você lembra quando James ficou alguns meses com aquela garota mais velha? - Ela perguntou.

Sim, ele se lembrava. James dizia que era um bom acordo entre eles: a garota queria fazer um pouco de ciúmes no ex e James veio de uma experiência horrível com outra garota e queria descobrir melhor as coisas. Se encontravam uma ou duas vezes por semana, até não se falarem mais.

- Sim.

- Convenhamos...ele tinha algo para ganhar com aquele acordo, certo?

- Sim. Segundo ele, ganhou bastante experiência.

- E seguindo essa linha de raciocínio..considerando que James e Lily ficaram mais de uma vez, e sabendo que ele nunca colocaria a sua lealdade à prova, nunca arriscando a sua amizade por algo leviano; que tem bastante experiência, sem precisar "treinar" com ninguém... o que você acha que ele poderia estar "tirando proveito" nisso?

Seus olhos se prenderam nos dela.

- Nada.

- E correndo o risco de perder?

- Muito!

- Então por que ele estaria com ela?

Se desencostou da cômoda e começou a andar pelo quarto.

- Eu sei o que você está sugerindo, porque penso nisso desde quinta-feira, Marlene. Eu penso em muitas coisas, mas elas não batem. Como ele sempre agiu, as coisas que ele já me falou...e tudo o que tem acontecido. Não batem. - Estava saindo do sério. - Se ele tivesse me dito que gostava dela, como eu estou começando a desconfiar que sempre foi o caso, eu não ficaria tão surpreso agora.

- Ou se você tivesse prestado mais atenção...

Parou de andar.

- Se eu tivesse...? Eu nunca vi nada que poderia dar qualquer indício.

- Ou você não queria ver, o que eu acho que é o caso. Por que você não iria querer um amigo seu, alguém que você conhece e confia, com a sua irmã? Por que você estaria cego para isso?

O nome de Peter piscava na sua cabeça, fazendo seu sangue ferver.

- Nem todos ao seu redor que dizem ser seus amigos, são seus amigos. Nem todos esses vão fazer a sua irmã sorrir.

Aquilo pareceu lançar um alerta em Marlene.

- Do que está falando? Algum amigo seu já fez Lily chorar?

Não iria espalhar aquele segredo para ninguém, pois Lily não queria. Mesmo essa pessoa sendo Marlene.

- Sim. - Mordeu os lábios ao lembrar da cena: Lily com o rosto encharcado, agarrando-se nele após fugir de Peter... - Mas é passado. Ele é passado e está longe de nós agora, longe dela.

Queria ter poderes e arrancar aquela memória, e não só dele. Porque se aquele dia ainda o deixava alucinado, não imaginava como era com Lily. Às vezes pensava se a irmã não tinha raiva inconsciente dele por ter trazido aquele cara na vida dela. Não a culparia caso sentisse.

- E você acha que James faria Lily chorar?

Ele havia comparado James com Peter na discussão, dizendo até que ele era pior. Não estava orgulhoso daquilo. O amigo tinha tanta raiva e asco pelo ocorrido, quanto ele mesmo.

Independente das intenções de James, se queria apenas curtir ou não, ele não forçou Lily. Nisso ele tinha que dar o braço a torcer. Para a sua irmã dizer que estava apaixonada por ele, mesmo com aquela história toda de gravidez, James só pôde tê-la feito sorrir.

- Propositalmente, eu gosto de pensar que não.

- Isso não é justo dizer. Você quer culpar alguém por machucar outra pessoa despropositadamente, mesmo antes de acontecer.

- Eu não quero que o meu melhor amigo machuque a minha irmã, apenas isso.

- E quem pode? Você? Você pode machucá-la? Porque eu tenho certeza que você não está fazendo-a sorrir neste momento.

Um tapa teria sido menos doloroso do que aquilo.

- Eu quero que ela seja feliz. - Sua voz saiu muito mais baixa depois desse tapa imaginário que recebeu. Não olhava para ela, sentindo-se envergonhado.

- Então eu acho que você deve pensar no que ela quer e deseja e não no que você acha justo, apenas para acalmar a sua tempestade. Eu ouço bem claro nas suas palavras que Lily e o bem dela são as coisas mais importantes para você, mas eu vejo você fazendo esse castelo de cartas cair toda vez que age, indo na direção completamente contrária.

As mulheres da vida dele pareciam bem dispostas a fazê-lo queimar todos os neurônios que tinha. E isso estava longe de significar que estavam erradas. Aquilo era até engraçado de pensar, pois nunca se imaginou um cara rodeado e guiado por mulheres. Lily e Geneviève estavam sempre em balanço com ele e o seu pai dentro da casa. Na maior parte das vezes, viam-se mais como dois irmãos e seus pais, não necessariamente dois homens e duas mulheres na casa.

Agora, era sua mãe, sua irmã e sua namorada. Tinha dois amigos para balancear tudo aquilo também, claro...

Pensar naquilo também o irritava, pois lembrava-se de James. Que inferno. Grande parte de seus problemas, Sirius ia até ele, pedia conselhos, e recebia toda a ajuda possível. Mas desta vez não era possível.

Marlene estava tão certa no que dizia. Se quisesse que Lily fosse feliz, não aconteceria pelas escolhas dele. Odiaria ter alguém escolhendo o que fazer na sua vida e não queria ser esse cara na vida da irmã...mas tinha medo. Medo de vê-la chorando daquele jeito de novo e ele sentir-se tão impotente, de mãos atadas...ou até mesmo ter aquela culpa lhe tomando dos pés a cabeça.

Chegava a ser bizarro o quanto tinha a sensação de não ter saída para evitar que Lily se machucasse. Se deixasse as coisas acontecerem, tinha medo dela cair. Se tentasse tomar as rédeas das situações, tinha medo dela cair de novo.

E no final, como Marlene mesma disse, quem estava fazendo Lily triste era ele. O cara que tinha mais medo da infelicidade dela, fazia-a infeliz.

- Eu não sei como agir, o que fazer, como fazer. Além do mais, eu ainda estou puto da vida de como as coisas aconteceram. Eu sei que eles terem agido assim foi justamente para evitar tudo isso, mas...é uma merda pensar que eu estive vivendo de uma maneira, mas outra coisa completamente diferente estava acontecendo pelas minhas costas.

- Não vou dizer que isso foi legal e até entendo a sua raiva. James é o seu melhor amigo e ele mentiu, escondeu algo que sabia ser importante para você, independente das razões dele. Porém, isso é algo que deve ser resolvido entre vocês dois, mas não misture isso com o que é James e Lily. Entre eles, você não deve ter voz da razão e nem ser o protagonista.

Abaixou a cabeça, deixando aquelas palavras rodarem e rodarem.

- Há muitas coisas para colocar em ordem, Lene. Tanto para ser conversado, colocado no lugar...

- Então vá resolver isso. Vá falar o que precisa falar, perguntar o que precisa perguntar. Eu tenho certeza que não será sozinho dentro desse quarto que as soluções virão. Há duas pessoas muito importantes na sua vida envolvidas e que estão chateadas. E elas estão chateadas, porque amam você e não querem que essa situação se prolongue. - Marlene segurou as duas mãos do namorado. - Você não tem o poder e nem é o único que vai solucionar tudo, mas você pode ser uma peça importante para ajudar essas duas pessoas. Por que, então, você ficaria aqui, rodando os polegares?

As palavras de Marlene, as de sua mãe e até as de Lily se misturavam agora. Tudo fazia sentido, ao mesmo tempo que nada parecia se encaixar. Toda aquela incoerência vinha do seu orgulho, do seu ego ferido por ter sido deixado para trás, no escuro, por duas pessoas que ele nunca pensaria serem capazes. Por outro lado...

Endireitou o corpo e levantou a cabeça , decidido. Foi em direção à porta, mas parou. Deu meia-volta, segurou o rosto de Marlene e a beijou. Ela sorriu entre seus lábios, mas o respondeu logo em seguida.

- Obrigado.

- De nada.

Olhou para ela, para aquela mulher linda que era a sua namorada e que sorria para ele, orgulhosa. Respirou fundo uma vez e se concentrou.

- Eu...- Começou e parou. Fechou os olhos com força, contou até 3 e os abriu. - Eu te amo.

Falar aquilo era...bom. Sentiu um desespero crescer em seu peito, mas foi rápido em pará-lo e deixar outra coisa tomar conta: o alívio em finalmente poder dizer para a namorada que a amava.

O sorriso que ela tinha ficou ainda maior.

- Eu nunca precisei das suas palavras para saber disso, mas fico feliz em ouvir. - Ela respondeu.

Aquilo o fez rir um pouco. Claro que ela sabia que ele era apaixonado por ela mesmo sem nunca precisar dizer, mas ela merecia mais que o afeto, os gestos...merecia ouvir todo dia o quanto ela o fazia bem.

Feliz por aquele passo, ele saiu do quarto pronto para resolver o outro impasse na vida.


Then only for a minute

Então por um minuto

I want to change my mind

Eu quero mudar de ideia

'Cause this just don't feel right to me

Porque isso não soa certo para mim

I wanna raise your spirits

Eu quero te animar

I want to see you smile

Quero te ver sorrir

But know that means I'll have to leave

Mas saiba que isso significa que eu vou ter que partir

Lately, I've been, I've been thinking

Ultimamente eu tenho pensado

I want you to be happier, I want you to be happier

Eu quero que você seja mais feliz, quero que você seja mais feliz.

So I'll go, I'll go

Então eu vou, eu vou

I will go, go, go

Eu vou, vou, vou.

Mal percebia que a televisão estava com o volume quase no zero. Vinha lendo os lábios das pessoas por todos esses minutos, isso quando estava prestando atenção, claro. Seus braços estavam caídos ao seu lado no sofá, as pernas abertas, a cabeça jogada contra as grandes almofadas no encosto.

Nada, absolutamente nada dava qualquer vontade em James naquele momento. Tinha pego um suco, que bebeu apenas alguns goles, ficando abandonado na mesa de centro. O pacote de doce também estava jogado no canto do sofá.

Seu celular estava mais perto. A única coisa que ele esperava, era que aquele maldito aparelho tocasse e o nome de Lily aparecesse na tela. Já era final de tarde do maldito domingo, Remus havia voltado para casa, o sol já não iluminava tanto a sala agora, mas não iria sair daquela posição para acender luz alguma. A televisão faria o trabalho.

Que inferno havia caído. Nunca sentiu-se tão para baixo na vida quanto agora. Não era um cara negativo, sempre tentando ver as coisas pelo lado bom, ou mesmo se forçando a seguir em frente sempre. Mas agora? Nada passava pela sua cabeça além de um vazio imenso. Nem poderia dizer que sentia-se triste, confuso e com raiva...porque não sentia nada. Era vazio, desolador quase.

Pegou um doce e jogou na boca apenas para acalmar o estômago que resmungava desde o meio da tarde, quando sua mãe tentou fazê-lo comer algo. Sabia que não escaparia do jantar. Talvez nem devesse. Deveria continuar sua vida, como Lily e Sirius pareciam estar continuando em algum lugar desse mundo sem avisá-lo, sem lhe dar notícias.

- Descabelado!

Quase engasgou ao ouvir aquilo. Ele se levantou tão rápido, que quase perdeu o equilíbrio. Se recuperou tão rápido quanto, como se não tivesse desperdiçado o seu domingo naquele sofá.

Não estava esperando ouvir aquele apelido tão cedo e em suas costas...

Muito menos na voz em que foi dito.

Sirius ocupava quase toda a porta. Ele era alto - cinco centímetros a menos do que James, é verdade -, era fã de esporte também. Se um dia os dois brigassem, seria uma luta justa e James não saberia quem ganharia.

Talvez dependesse do motivo. E se esse motivo fosse Lily, James continuaria sem saber.

E, honestamente, ele estava sentindo que poderia ter a resposta para aquele enigma em alguns minutos. Ou talvez segundos.

- ...Quê? - Ele disse baixo, finalmente, sem entender o motivo de ter sido chamado daquele jeito.

Sirius deu dois passos para dentro. Agora saindo das sombras e entrando na iluminação da televisão, James tentou ler seu rosto, mas ali estava seu melhor amigo completamente ilegível.

- "Descabelado". Esse é o jeito que ela te chama por tantos anos. - Ele fez uma pausa, deixando James pendurado na confusão daquele tópico de conversa por alguns segundos. - Nós nunca tivemos apelidos. Você, Remus, eu...nem mesmo na época daquele maldito Pettigrew. Sempre foram os nossos nomes.

James continuou parado, apenas encarando o amigo.

- Mas você e ela... - Sirius voltou a falar. - Você a chama de "Sardenta" desde o começo. Lily começou a te chamar de "Descabelado" logo após.

Seria interessante ficar ali discutindo sobre apelidos, mas naquele momento não poderia se importar menos.

- Aonde ela está?

Ficou a tarde toda falando o mínimo ou quase nada, então sua voz soava estranha, grossa, quase como se estivesse doente.

- Por que você acha que eu sei? - Sirius segurou as mãos na frente do corpo, a cabeça caindo para o lado.

- Você não estaria tão tranquilo caso não soubesse. Além do mais, eu não consigo pensar em qualquer outra pessoa que pudesse saber onde ela está.

- Nem mesmo você? - A ironia escorria pelos cantos de sua boca. James preferiu não responder, porque nem mesmo ele, já que revirou a cidade de cabeça para baixo e não a encontrou.

- Onde ela está?

- Vou mudar minha pergunta: por que você acha que eu te falaria?

- Porque é o mínimo que você pode fazer após tudo o que ocorreu na quinta-feira. - Sua voz estava encontrando seu lugar agora, pronta para gastar tudo o que não usou nas últimas horas.

- Pois a minha irmã se resume a isso, não é?! - Sirius entrou na sala e, como se dominasse o lugar, sentou no sofá, cruzando os pés no calcanhar.

- Se resume a quê?

- Uma gravidez, algo que você não pensou que poderia ocorrer enquanto mentia, escondia e ria da minha cara...enquanto transava com a minha irmã a torto e a direito.

James riu ironicamente.

- Sabe o que é mais incrível? Nós já brigamos antes. Já discutimos feio, já quase saímos no soco até...mas eu sempre soube quem você era. Eu discutia com o Sirius Black e eu o conhecia, sabia do que você era e é capaz. Mas, aparentemente, isso não é uma via de mão dupla.

- Você quer que eu diga que te conheço bem, quando eu pensava que você nunca mentiria para mim? - Sirius se levantou do sofá lentamente. - É assim que eu deveria te conhecer?

- Você deveria saber que, por mais que isso tenha sido escondido de você por um momento, não foi para te prejudicar. - James estava se saindo bem em não se deixar levar pela raiva até agora, raiva essa que ficava mais e mais aparente no rosto do amigo, e se aproximou dele. - Que eu nunca faria algo de ruim com Lily, assim como você sabe que eu nunca fiz a ninguém. Assim como você deveria saber que eu nunca faria algo contra você!

Se encaravam intensamente, nenhum deles dando um passo para trás nisso. James sentia a raiva de Sirius como se estivesse misturada no ar e esperava que a sua também estivesse clara, mostrando que ele não estaria se encolhendo no canto, com medo.

O que mais queria, além de falar e ter notícias de Lily, era resolver as coisas com aquele tonto na sua frente. Era mesmo primordial, pela importância que aquele cabeça dura representava e significava para ele. Mas também não iria deixá-lo fazer e falar o que quisesse.

Para sua surpresa, foi Sirius quem desviou o olhar primeiro.

- Eu tive muito tempo para pensar desde quinta-feira. - Sirius começou. - Eu rebobinei a minha vida como se fosse um filme, revi momentos por um outro ponto de vista, tive ajuda para abrir os olhos. Foi muito interessante e alarmante. - Ele começou a andar pela sala, pegando alguns objetos e os estudando, talvez esperando por James perguntar algo. Como James estava longe de conseguir dizer qualquer coisa, Sirius continuou. - Eu pensava que sabia entender as pessoas, mas só descobri que sou muito ruim. Eu só vejo o que eu quero, o que é fácil...- Ele riu um pouco. - ... meu pai teria umas poucas e boas palavras sobre isso. A "eu te avisei" seria uma das primeiras.

Não entendeu muito o que ele quis dizer sobre Orion, mas não iria perguntar. Não hoje, não agora.

- Onde ela está? - Tentou de novo.

- Vou parecer repetitivo, mas novamente não consigo não comparar. - Sirius dizia, ainda ignorando James. - Remus...ele gosta muito dela, sabe? Totalmente platônico, mas adora Lily. - Continuou seu monólogo. - Então, por que seria diferente com você, certo? Eu nunca te vi agindo diferente com ela do que o próprio Remus. Não podemos falar sobre Pettigrew, aquele bosta, que deu sinais claros do que era e eu ignorei. Mas você não, não sinais diferentes de Remus. - Ele se virou para James, finalmente. - Mas não era bem assim, não é?

Ah, eles teriam essa conversa, então. Ficou pensando se algum dia seria perguntado sobre isso.

- Eu não sei o que você quer com essa conversa, mas eu não estou com paciência para o que for.

Na verdade, estava na dúvida se era Sirius na sua frente ou se começou a alucinar. O que mais queria era resolver aquele problema e, tê-lo ali depois de tantos dias, quase não parecia real.

O amigo deu a volta no sofá, andando calmamente. Sirius parou na sua frente, os olhos correndo pelo rosto de James.

- O jeito como você socou Pettigrew...aquilo era pessoal. Você socou aquele imbecil com tanta força, tanta vontade, e que agora quando eu penso nisso, eu vejo que foi por muitas razões, além de um cara abusando de uma garota.

- Pettigrew estava abusando da sua irmã! - James disse entredentes. Seu peito subia e descia rapidamente com a raiva que começava a deixar vir. - Eu socaria aquele filho da puta caso fosse qualquer outra pessoa ali: Marlene, Alice...qualquer outra garota daquela festa!

- Ainda sim...

Sirius não terminou a frase e encarou James. Sem baixar a guarda, James o encarou de volta.

- Por que veio aqui, Sirius?

- Então teve aquela sua bebedeira em um fim de semana. - Sirius continuou. - Tivemos que trazer a sua bunda até debaixo do chuveiro e a gente conversou sobre o seu problema com mulher. E eu...- Sirius começou a rir, desacreditado consigo mesmo. - Eu, idiota, dizia para você esquecer os problemas e ir com tudo. Eu até lembro de dizer que se você estivesse dando mais importância para o problema do que para a mulher, será que você a merecia?

Ah, James lembrava muito bem dessa conversa. Geneviève foi a primeira com quem conversou naquela manhã cheia de ressaca, depois foi Sirius. E o amigo lhe deu tanto suporte para esquecer os problemas e deixar tudo de lado, fosse religião ou família ou qualquer outra coisa, e se jogar com ela.

Mas claro, é óbvio, que o discurso iria mudar quando ele descobrisse. Não era novidade para ninguém, nem para o próprio James. Seguiu o conselho de Sirius mesmo sabendo que ele não estava se incluindo naquela soma.

- Vemos que seus conselhos não são 100% confiáveis, não? - Respondeu baixinho o suficiente para o amigo não ouvir.

- E Edgar Bones...- Sirius voltou a falar. - Vocês dois entraram numa rinha um pouco maluca nesses últimos tempos. Eu, idiota novamente, pensei que você apenas estava me ajudando. A gente sabe do que ele é capaz, do que ele faz com as garotas, todas aquelas histórias de remédios para deixá-las drogadas, as festas dos caras do futebol com todo aquele troca-troca infernal. Eu não queria aquilo para a minha irmã, imaginei que você também não queria aquilo para a irmã do seu melhor amigo.

- Você pode ter certeza de que eu não queria e não quero isso para ela ou qualquer outra.

- Mas agora a gente vê que o ciúmes também estava jogando ali. - Era incrível o talento de Sirius de parecer ignorar suas respostas. - Eles já nem estavam mais juntos e essa rinha ainda continuou. Ele vinha te provocar, você respondia com tanto afinco... e como ele soube que havia algo, de qualquer maneira? Digo, aquele traste sabia de vocês e eu não?! Um outro bosta que ria da minha cara. Justo ele, ainda por cima. EU TIVE QUE SABER POR ELE QUE ALGO ESTAVA ACONTECENDO!

- EU NÃO SEI SOBRE ELE, SIRIUS! EU QUERO QUE EDGAR BONES SE FODA! - Gritou de volta. Fechou os olhos, tentando se acalmar um pouco. - Se eu for considerar alguns eventos recentes, ele ficava andando por aí às escondidas, ouvindo conversas...um pouco como você mesmo fez.

- Ah, agora é culpa minha ouvir você conversar com a minha irmã sobre a chance de você tê-la engravidado?

- VOCÊ ESTAVA OUVINDO ESCONDIDO! Poderíamos estar conversando sobre qualquer outra coisa, até sobre um plano maligno de te matar, se quiséssemos...isso ainda não te daria o direito de ouvir porra nenhuma que eu tenha a falar ou ouvir dela. Você não tem o direito de ouvir nada, de ninguém.

- E VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE FAZER O QUE VOCÊ FEZ!

- E O QUE EU FIZ DE TÃO GRAVE? ESCONDI DE VOCÊ QUE EU ESTAVA COM A SUA IRMÃ, QUE ESTAVA COMIGO DE BOA VONTADE, SEM SER FORÇADA A NADA? POXA, QUE CRIME BÁRBARO! POR QUE NÃO CHAMOU A POLÍCIA AINDA PARA ME PRENDER?

Aquilo era idiota, aquela conversa era idiota. Não deveriam estar gritando - apesar de achar que estava até leve, se pensasse sobre o quão raivosos estavam -, mas resolvendo aquilo de maneira mais civilizada. Imaginou que diria para Sirius que não era a sua intenção chateá-lo, nem causar grandes problemas. Só queria...só queria poder ficar com Lily sem precisar começar uma terceira Guerra Mundial. E era isso.

Se afastou dele, querendo respirar um pouco sem a pressão do olhar do amigo em si.

- Eu estou achando que nem deveria ter vindo para essa conversa. - Disse Sirius um pouco mais calmo.

- Então que tal parar de dar voltas e me dizer o porquê de ter vindo? - James perguntou após alguns segundos.

- Vim por muitos motivos, para ser honesto. Mas neste momento, neste preciso e exato momento, James Potter, eu quero respostas. Então quero que você olhe nos meus olhos ...- James se virou para ele. - ... e me responda uma única e simples questão: você já gostava da minha irmã antes de tudo isso?

James desviou o olhar. Ainda tinha a cabeça erguida, mas alguma parte da sua mente não conseguia encarar Sirius agora.

- Se a nossa amizade valeu ou vale algo para você, olhe para mim e responda se você gostava ou se nunca, nunca, gostou da Lily antes de tudo isso. - Sirius continuou.

O maxilar de James estava travado, seus dentes apertando um ao outro com muita força. Seus olhos voltaram a encarar o amigo. Ainda não conseguia decifrar o que Sirius estava sentindo ou querendo ali, apesar das perguntas.

- É tão difícil dizer que gosta dela? - Sirius trocou o apoio dos pés. Finalmente James pôde ver que ele estava ficando nervoso, mas não raivoso. Aquele era um Sirius mais conhecido, dando chances para James saber lidar. - Você é desse tipo de covarde?

Respirando fundo, James travou ainda mais o maxilar.

- Por que você quer saber? - Finalmente disse.

- Curiosidade. - Sirius respondeu na sua vez de travar o maxilar. - Sim ou não?

- Não interessa, muito menos para você.

Sirius se aproximou ainda mais.

- Diga, Potter, se você gostava da minha irmã ou não.

Já estava na merda, por quê, então, não dizer a verdade? Não sabia. Talvez por achar aquilo irrelevante, além de não ser problema de Sirius. Ele sendo o irmão de Lily ou não.

Apenas ficou ali, encarando o amigo. Sirius sorriu daquele jeito um pouco assustador.

- O seu silêncio está falando bastante. - Sirius meneou a cabeça. - Você poderia ser mais corajoso.

- E você menos intrometido.

James teve sua camiseta agarrada pelas duas mãos do amigo. Agora estavam indo para algum lugar e Sirius estava mostrando a que veio. Pensou no confronto com Edgar Bones naquela manhã, onde eles estiveram exatamente naquela posição, mas agora ele se via do outro lado: sua camiseta enrolada nos dedos de Sirius e sendo chamado de covarde.

- Você mentiu para mim. Escondeu e ficou pegando a minha irmã nas minhas costas. Ficou transando com ela em lugares que eu nem quero imaginar. A minha irmã, Potter! Lily merece muito mais do que transar em lugares apertados.

- Eu não posso discordar.

- Claro que não. - Sirius rugiu, suas mãos apertando a camiseta dele ainda mais. - Não estamos mentindo agora, estamos?

- Não.

- Nem escondendo nada.

- Não. - James não se mexia, nem tentava se livrar das mãos do outro. - Por isso eu me sinto na obrigação de dizer que eu nunca transei com Lily em algum lugar medíocre. - Sirius apertou mais sua camiseta. - Nos encontramos em armários, sim. Em banheiros, sim. Um lugar ou outro ali, sim. Mas eu nunca coloquei Lily em uma posição na qual ela não queria ou que eu não achava justo para ela.

Sirius parecia querer matá-lo ainda mais ao ouvir aquelas confirmações, mas não era isso que ele queria saber, que o ameaçava para saber? Então ele deveria estar bem preparado para ouvir as respostas.

- Você está se sentindo bem confortável agora ao me dizer tudo isso, Potter. - James deu de ombros. - Apesar de você não conseguir olhar para mim e dizer se gostava dela ou não! Para isso, você é covarde demais. Para sexo, você abre bem a boca para falar, mas o resto? Não tem coragem. - Sirius soltou a camiseta de James e passou as mãos no rosto. - É tão ruim dizer que gostava da minha irmã? Qual o seu receio? O pior, eu imagino, já passou. O fato de você ter feito coisas com ela escondido, já passou. Então qual o problema de responder? - O tom sarcástico de Sirius o estava tirando do sério. - Tem vergonha? Por ela estar mancando agora? Pelo o que aconteceu com Pettig...?

James não deu tempo de Sirius terminar a frase, pegando a camiseta do amigo agora.

- Não termina essa frase! Eu nunca senti vergonha, muito menos dela. - Balançou o amigo, o trazendo para perto.

- Então abre essa sua boca e me diga, porque eu estou achando um pouco difícil você ter começado isso com ela tão de repente. Você não estava vivendo a sua vida, em paz, e foi acometido por uma vontade de transar com a minha irmã. Então eu quero ouvir da sua boca, quero ver se você é corajoso a esse ponto de, finalmente, me dizer que sempre gostou dela.

Fechou os olhos com força, antes de abri-los e olhar bem fundo nos olhos de Sirius.

- Quer saber, Sirius? Se isso é tão importante para você, aqui vai: eu gostava de Lily antes e gosto dela agora. Eu menti para você nas últimas semanas, mas nunca para ela. Eu a tratei bem, apesar de tê-la levado, sim, em lugares que ela merecia mais. Mas sabe o que mais? Eu também a levei para lugares legais, onde eu pude ver uma Lily muito descontraída e, arrisco dizer, feliz. A minha única preocupação foi com ela. Eu pensei em você, na nossa amizade...mas a sua loucura, o seu trauma, não pode ser o meu, não pode ser o dela. Não pode ser o nosso.

Largou Sirius e se afastou novamente, a raiva ficando cada vez mais insuportável de segurar.

Aquilo era loucura. Mal acreditava que disse em voz alta que gostava e gosta de Lily e para ninguém mais ninguém menos do que Sirius. Era tão fora da sua realidade, enquanto mantinha isso para si, que soava como um pesadelo dizer agora.

- Algo mais que gostaria de acrescentar? - Perguntou o amigo. Estranhamente, Sirius soava mais calmo após aquele comunicado formal de que James sempre gostou de Lily. Talvez era isso que ele queria ouvir?!

Virou-se, encarando Sirius.

- Na verdade, sim. Gostaria de deixar bem claro que na próxima vez que você me comparar com o maldito Peter Pettigrew, eu vou quebrar a sua cara em duas. - Quase não conseguia respirar mais de tanta raiva. - Se você acha que eu sou como ele por ter ficado com a sua irmã, eu espero que você se ache também por ter ficado com a minha prima.

Sirius não parecia impressionado, mas algo como satisfeito. Ele esteve esperando por isso também? Por James confrontá-lo pela comparação?

- De fato, você não é Peter Pettigrew.

- Ah, não me diga. - Respondeu sarcasticamente.

- Você é apenas um imbecil.

James bufou pelo nariz e cruzou os braços.

- Foda-se! - Respondeu com a boca cheia. - Foda-se o que você pensa agora.

- "Agora"? Parece que foi assim que você esteve pensando nas últimas semanas.

- Onde ela está, Black? - Rugiu sem paciência.

- Talvez eu não saiba. Talvez eu tenha procurado por todo o Reino Unido e não a achado.

- Olha só quem pegou gosto pela mentira. - James cuspiu as palavras.

- Não gosta de mentiras? Que engraçado, eu também não. Mas isso não te impediu, não é?

- Se não vai me dizer onde ela está, então vá embora. Se não for para conversar e tentar arrumar as coisas, então vá para o inferno. Eu estou longe de estar com humor para você e suas merdas.

Sirius apenas sorriu.

- Quando a conversa não te convém, é assim que você reage.

- A conversa não convém para nenhum de nós, seu idiota. Não vamos chegar a lugar algum dessa maneira, então eu prefiro que você suma da minha frente.

No fundo, não era aquilo que queria dizer. Desejava que pudessem chegar em um consenso, James querendo que aquele cabeça oca entendesse que nada daquilo foi feito com a intenção de machucar ninguém.

Mas era pedir demais para Sirius.

E falando nele, o dito cujo não respondeu, apenas ficou observando James por um momento. O encarou de volta, querendo saber se ele iria dar o braço a torcer, ou partir, ou voltar a gritar. Mas Sirius apenas meneou a cabeça antes de dar as costas, pronto para sair.

Ali estava uma oportunidade deles consertarem as coisas descendo pelo ralo.

Porém, Sirius parou seu caminho e se virou novamente.

- Quer saber?! Antes de ir...

James não teve tempo de desviar, então apenas aceitou o destino do punho de Sirius em seu rosto. O soco foi tão forte que o desnorteou completamente.

Não sentou, mas teve que se apoiar no sofá, balançando a cabeça, tentando voltar ao mundo real. Uau, aquele foi um soco bem dado. Sirius nunca poderia dizer que aquilo foi sem vontade alguma, pois estava claro que ele estava sedento para socar sua cara.

Além do mais, ainda estava se recuperando da briga no campo de futebol da quarta-feira. Pelo menos Sirius acertou seu rosto e não suas costelas, porque elas estavam longe de recuperadas.

- Isso foi por você ter mentido. Eu não vou te socar pelas outras coisas...ou não ainda.

Assim, ele saiu.

- E eu ainda não sei onde ela está. - Gemeu com uma frustração enorme, ainda maior do que antes.

Viu sangue nas suas mãos, mas não sabia de onde vinha. Mexeu o rosto e sentiu uma ardência logo abaixo do olho. Bem, ali estava. Mais um para a conta.

Sua mãe iria adorar aquilo.

Pegou um guardanapo em cima da mesa central da sala, apertando o corte. Pelo menos não perdeu um dente ou ficaria muito puto e iria atrás de Sirius para arrancar alguns também.

Não estava surpreso pela reação do amigo. Na verdade, foi uma reação tardia até. Esperava que Sirius arrancasse seu couro desde o dia que descobriu tudo. No mínimo, poderia dizer que estava surpreso, mas não desapontado.

Deu risada sozinho, sem acreditar no que a sua vida tinha se tornado naquele ponto. A cada dia que passava, ficava mais e mais perdido sobre o que fazer.

- E mais uma coisa antes de ir... - A voz de Sirius soou da porta novamente.

O quê? Ele viria terminar de socá-lo?

- Que porra você quer agora?

Revirando os olhos, James virou para a porta e congelou.

Sirius estava ali, Lily em sua frente, e tinha as duas mãos apoiadas nos ombros dela. Seu coração quase explodiu agora, ficando mais confuso do que nunca.

- Amanhã é segunda-feira e as últimas semanas de aula são importantes. - Sirius continuou a dizer. - Lily está com o meu carro, mas é melhor você acompanhá-la de volta e não levá-la embora tão tarde.

Ele apertou os ombros da irmã um pouco, fazendo Lily olhar para ele, agradecida. Sirius sorriu para ela antes de dar as costas e sair, deixando-os sozinho.

James não tirava os olhos dela, mas também pôde ver Sirius se afastando dali, entrando na casa principal dos Potter, e desaparecer.

Minha nossa, o que estava acontecendo?

Ele deixou os braços caírem ao seu lado, abrindo-os um pouco, completamente confuso.

- Lily! - Sua voz tinha o tom certo de confusão e preocupação. - O que aconteceu? Onde você estava? Eu...eu...

A ruiva entrou na sala, se aproximando do sofá.

- Há tanta coisa para dizer.

- Você está bem? - Ele perguntou. - Eu fiquei preocupado, eu...depois de...mas...

Ele abria e fechava a boca, tentando encontrar as palavras, mas elas sumiram. Seu cérebro parecia gelatina, nada fazia sentido. Talvez foi o soco. Nada daquilo estava acontecendo e ele devia estar caído na sala, desacordado, e sonhando com tudo aquilo.

- Desculpe. - Ela disse. Sua voz estava tão triste. Seus olhos estavam caídos, sua boca para baixo. - Eu tenho muitas desculpas para pedir.

- Primeiro, eu quero saber se você está bem.

Os lábios dela quase formaram um sorriso. Quase.

- Eu estou bem.

Ele soltou todo o ar. Ok, ela estava bem. Dizia que estava, pelo menos.

- Você sumiu. Eu fiquei colado nesse celular todos os dias, todos os minutos, esperando você me ligar. Eu estava enlouquecendo.

- Eu sinto muito por isso.

- Pensei que você estava...não sei...não sei onde, mas mal. E eu não sabia onde e queria ajudar. O bebê...!

- James.

- O bebê. Você precisava de ajuda, de mim. Foda-se, eu precisava de você.

- James. - A voz dela estava um pouco mais alta. Colocou a mão na barriga. - Não há bebê.

Foi como um segundo soco agora. Não havia bebê?

Ela não estava grávida?

E o fato de estar atrasada? E todo aquele sexo com camisinhas que só tinham 97% de eficácia? Onde estava tudo aquilo?

Não havia bebê? Não havia...?

- Mas...?! Eu não entendo.

- Eu falei com o médico hoje de manhã. O teste de gravidez deu negativo e o médico disse que os meus remédios poderiam mexer com o meu corpo, hormônios. Enfim. Eu fiz mais cinco testes de farmácia e todos estão negativos, assim como o de sangue.

Seu lado racional estava aliviado. Não havia bebê. Lily iria para Oxford e estudaria tranquilamente, sem ninguém apontando, sem cochichos. Era tudo o que ele desejava para ela.

Por um outro lado, de tanto que foi deixado sozinho mergulhado nessa preocupação, tinha já se acostumado com a ideia, quase formando todo um filme, um mundo todo onde eles estariam cuidando de um bebê juntos. Aquilo lhe dava frio na barriga apenas em pensar, estava longe de ser ideal, mas estava tão disposto a provar para todos que não iria fugir da sua responsabilidade, que tudo aquilo estava certo na sua cabeça. Se imaginou pedindo para Lily para ficarem juntos, caso ela quisesse manter o bebê. Teriam um lugar para eles em Oxford...ele tomaria conta dela. Deles.

Mas não havia bebê.

Haveria eles, então?

- Ok. - Ele disse, sem saber o que responder. De repente, sentiu um gelo pelo corpo todo ao lembrar da conversa de Sirius alguns segundos antes. - Você esteve aí o tempo todo? Ouviu a minha conversa com Sirius?

Aquela história toda do bebê e eles juntos estourou como um balão, dando lugar para uma história pior: Lily ouvindo que ele gostava dela antes e que ainda gosta, e dizendo para ele que o que tiveram não passava de algo bom, mas passageiro.

- Não, eu não ouvi nada. Estava na casa principal, esperando. Sirius me pediu para falar com você sozinho em troca de ir embora quando fosse a minha vez. - Ela fez uma careta. - Ouvi gritos, mas não dava para entender a conversa.

Ufa. Menos um problema.

Um silêncio bem desconfortável caiu na sala. Agora que soube do resultado do teste e que não havia bebê, com Sirius distribuindo soco em domicílio e puto da vida ainda, não sabia o que pensar ou o que fazer. Ele mesmo estava cultivando raiva de toda a situação, principalmente por ter sido tratado como um mero coadjuvante aqueles dias todos.

Talvez a sua raiva e decepção estivessem claras, pois Lily quem quebrou o silêncio:

- James, me desculpe.

- Por que está se desculpando? - Na sua cabeça, ela poderia estar pedindo aquilo por várias razões, muitas delas ele não concordava ou não achava necessário, então precisava saber.

Lily respirou fundo e colocou as mãos no encosto do sofá. Parecia ser difícil para ela dizer o que estava prestes a dizer e ele começou a imaginar o quão difícil seria para ele ouvir o que viria.

- Me desculpe. Eu te arrastei para isso tudo, para toda essa bagunça. Você estava quieto no seu lugar, com o seu melhor amigo e eu, com uma vontade louca de você, te enfiei nessa loucura.

E como ele desconfiava, ela pedia desculpas por algo que não precisava.

- Não foi assim, Lily. - Ela levantou a mão, pedindo para ele parar. James assentiu. - Desculpe, continue.

Ela agradeceu com um aceno.

- Eu causei essa bagunça por um simples desejo. Isso era algo que eu temia sempre e nunca quis machucar ninguém.

O terceiro soco do dia chegou.

"Um simples desejo", ela disse?

Um simples desejo? A porra de um simples desejo, enquanto ele se via mergulhando cada vez mais de cabeça naquilo. Pensou que poderia fazer aquilo mais sério depois da viagem até Godric's Hollow e, de fato, achou que tinha dado certo. Ela estava ok em falar com o irmão na época, o que dava a entender que gostaria de ficar com ele por mais um tempo. Mas agora ela falava de "um simples desejo"?

E toda aquela brincadeira de se apaixonar pela cidade enquanto olhava para ele daquele jeito? Era apenas esperança em pensar que ela falava dele em forma de brincadeira, talvez insegura ainda em poder dizer diretamente para ele? Pelo amor, Sirius estava certo: ele era um imbecil mesmo.

Soltou uma risada abafada, fazendo Lily parar seu discurso.

- Bagunça por um simples desejo. - Repetiu a frase dela.

- Eu comecei, certo? Você estava apenas vivendo a sua vida, antes de eu começar a te atazanar.

Só ficava melhor e melhor aquela conversa.

- Foi uma surpresa, sem dúvidas. - Tentava guardar a raiva ainda pela conversa com Sirius, pelo soco. Agora se juntava com aquela chateação.

- Se não fosse por mim, nada disso teria acontecido. - "Não mesmo", pensou. - Eu nunca quis e nem quero ficar entre vocês.

Tarde demais.

Infernos, ele sabia que Lily estava sendo sincera e honesta, mas a cada palavra que saia da sua boca, mais difícil ficava para segurar tudo aquilo que foi obrigado a segurar desde o sumiço dela.

- Dentre tantas desculpas que você poderia pedir, está pedindo justamente pela única coisa que não deveria.

- Como não deveria? Eu sinto que é a única coisa pela qual eu deveria me desculpar. Foi por isso que o problema começou.

Honestamente, não tinha nada para fazer além de rir. Não foi uma gargalhada, mas riu, porque pensar que ter sido deixado de lado aqueles últimos dias esperando por uma resposta não era motivo de uma conversa franca ou, até mesmo, um pedido de desculpa...então ele estava muito fora da realidade daquela história toda.

Lily o assistia rir, um pouco perdida, a boca ainda aberta, mas não sabendo o que falar.

- Por que você sumiu? - James lançou a pergunta antes mesmo de pensar.

Ela foi pega de surpresa pela pergunta um pouco fora do assunto atual.

- Eu só quis me afastar de tudo isso.

- Tudo isso significa "nós".

- Significa a bagunça que formou. Sirius disse coisas horríveis quando voltamos do laboratório e eu só fiquei com raiva e peguei o carro dele no começo da manhã seguinte.

- Na manhã onde deveríamos receber o resultado do exame.

- Sim.

Pelo menos ela parecia arrependida daquilo. James entendia que cada um tinha seu jeito de lidar com a raiva ou frustração, ele mesmo estava se mordendo naquele momento; Sirius agia sem pensar e ela se afastava...mas merda, eles estavam esperando um resultado importante!

E quando ela teve a informação, nem se preocupou em ligar para ele. Cacete, ele estava ali se remoendo por dentro, sem saber o que fazer. Seria tão difícil enviar uma mísera mensagem de qualquer outro telefone apenas para informar que o resultado era negativo?

- Quando você fez o teste na quinta-feira, foi difícil para você aguardar até o dia seguinte para saber se era positivo, não? - Ele perguntou.

- Foi.

- Bem, Lily, eu estou assim desde quinta-feira também. Quisera eu ter sabido antes.

Ela abaixou a cabeça.

Não imaginava aquela conversa quando pensava em seu reencontro, mas uau, os dois irmãos conseguiram juntar suas forças em poucos minutos e tirá-lo do sério de verdade.

Queria dizer que não importava mais, que agora eles tinham a resposta, que tinham ideia do que esperar do futuro e que até poderiam falar dele, mas não conseguia. Estava empacado depois daquele começo de conversa, com raiva por ter dito à Sirius que gostava dela, mas Lily vir falando sobre um "simples desejo" logo depois.

Sirius devia saber o que a irmã sentia e devia estar se matando de rir no caminho para casa.

- Você tem todo o direito de estar com raiva, James. Eu entendo.

- Não foi justo da sua parte e eu acho que se eu não te falar isso, eu vou me arrepender depois. Eu iria compreender totalmente caso você quisesse espaço, tempo para pensar depois de tudo isso, mas após ter acalmado todo mundo. Não era só sobre você, ou sobre mim. Meus pais esperavam por isso também. - Ele apontou na direção da casa principal. - Porra, Lily, não era a resposta para um pedido de casamento ou confirmação se você viria para o meu aniversário, era sobre uma gravidez! Algo que iria mudar todas as nossas vidas.

Aquele desabafo pareceu ser levado a sério e com o devido peso que continha. James não queria ser o malvado, não queria brigar (mais uma vez e com outra pessoa), nem ser rude. Mas se não falasse o que pensava, o que sentia, então quando falaria? Não poderia manter aquilo guardado. Se fosse o contrário, ele aceitaria a raiva dela, porque seria mais do que justificável.

- Não, não foi correto da minha parte. Você tem toda a razão. - Lily concordou. - Eu não tenho razões boas o suficiente para explicar, apenas que eu queria sumir, deixar para trás o receio do que isso poderia trazer. Eu queria viver por algum tempo sem tudo isso. Só que fazendo isso, eu acabei deixando você sozinho nessa. - Ela fez uma longa pausa. - Estava com tanto medo.

- Eu acho que é seguro dizer que todos estávamos!

- Não, você não entendeu...

- Mas que bom que você pôde se livrar desse medo tão rápido, não? - Cortou Lily, tentando ainda se manter o mais calmo possível, mas agora via tudo ir ladeira abaixo. - Ter o resultado antes de todos e não comunicar a ninguém.

- James...!

- Ou mesmo se não tivesse o resultado, informar que você estava bem. Todo mundo sumiu, Lily, todo mundo.

- Eu sinto muito por isso. - Lily tentava engatar uma frase inteira, mas James continuou seus atropelos de palavras.

- Espero que você tenha passado uma ótima folga de todos os problemas nesses dias e não precisar se preocupar com esse maldito "simples desejo", porque ele foi saciado, descoberto e vocês dois parecem bem, em paz.

Estava mais raivoso do que quando conversava com Sirius, pois agora sentia a rejeição em dose dupla: uma pela amizade de anos com Sirius e outra pelo "simples desejo" que ele sempre foi para Lily.

A porra de um simples desejo. Queria gritar aquelas duas palavras para ver se elas explodiam no ar e saíssem da sua cabeça.

- Eu sei que posso pedir mil desculpas agora e ainda não seria suficiente.

- Eu não quero que você peça mil desculpas. Minha intenção aqui não é ficar te culpabilizando até o fim dos tempos, mas...eu estou puto da vida, Lily. Feliz por você parecer bem, não ter piorado e tudo mais, mas agora eu estou deixando toda a preocupação cair e a raiva, que eu estive tentando gerenciar todo esse tempo, está saindo.

- Eu não deveria ter te deixado assim.

- Não, não deveria. Nem eu e as outras pessoas envolvidas, não quando você tinha as respostas.

Foda-se aquilo. Não queria ficar ali só piorando a situação, porque a raiva não parecia baixar. Queria apenas ter uma conversa normal com ela. Tudo o que desejava perguntar era se eles ficariam ok, se ela ainda queria fazer aquilo dar certo. Sirius sabia deles, até a acompanhou ali...não era possível que as coisas estivessem contra eles agora.

Mas, aparentemente, ele era o que estava nadando contra a corrente ali por conta da raiva, de uma suposta rejeição - ou talvez diria pelo tapa na cara que recebeu com aquele "simples desejo" -, e estava sendo difícil de colocar a cabeça no lugar.

Assim como havia dito para Sirius que a conversa não estava sendo benéfica no momento, sentia que aquela conversa com Lily também não seria.

- Talvez devêssemos conversar depois. - Ele voltou a dizer.

Viu a decepção nos olhos dela, mas apesar de tudo, ela apenas assentiu.

- Eu também acho.

Uma parte do seu cérebro pedia para não deixá-la ir. Outra, pedia que a deixasse ir e que eles pudessem ter uma conversa melhor quando as coisas baixassem. Era difícil decidir, mas era melhor ir pelo mais seguro.

Nem sabia o que falar mais, então apenas se encararam. Um esperando pela atitude do outro, mas nenhum deles se movia ou dizia algo.

- Eu vou indo, então. Não precisa escutar meu irmão e me acompanhar, eu estou bem dirigindo sozinha até em casa.

Ela também estava querendo certa distância agora, era fato. Talvez conversar amanhã seria uma boa ideia.

- Como você preferir.

Sim, amanhã parecia bom. Esperava que não estivessem tão estranhos um com o outro. James podia imaginar seu dia mais calmo após deixar a briga com Sirius abaixar e tudo mais.

Foi tirado dos pensamentos quando Lily deu um passo em sua direção.

- Eu sinto muito por toda essa bagunça, James. Eu não tinha a intenção de fazer qualquer coisa que o fizesse se arrepender.

- Lily, não. Por favor, não. - Ele soltou o ar, cansado. Cansado de brigar, de se explicar. - Não peça desculpas pelas coisas que não precisam.

A ruiva não disse mais nada, e também desviou o olhar. Era tão claro que ela também não estava feliz, quase o fazendo desistir de uma conversa mais tarde.

Lily deu alguns passos até a porta, se afastando dele. James queria dar as costas, não vê-la ir embora, mas seus olhos estavam presos nela, vendo-a chegar cada vez mais perto da saída.

Não a deixe ir embora.

Deixe-a. Vocês podem conversar melhor depois.

Vocês não estão bem para chegarem em um bom resultado agora. Acalma os ânimos e depois vai atrás dela...

Tanta coisa passando em sua cabeça, que quase sentia-se com mais raiva agora por não conseguir se decidir, de deixá-la partir...

Lily parou no batente da porta e ficou encarando-o. Sua cabeça não parava de repetir que precisava dar uma chance a uma conversa justa mais tarde, impedindo-o de pedir para que ela ficasse. Lily estava chateada e ele raivoso. Nada de bom sairia daquilo.

E era um círculo vicioso de pensamentos.

- Antes de eu ir embora, você se importa se eu disser algo?

- Não, diga o que precisa dizer. - Tentou soar mais calmo e falhou. Estava temeroso agora.

Qual bomba ela jogaria nele agora? Deveria dizer que não queria ouvir nada agora, pois não achava que gostaria de ouvir qualquer coisa, ou qualquer coisa que não conseguisse lidar naquele momento.

Ela se afastou ainda mais, já quase saindo. Seria a segunda vez da noite que um Black-Evans sairia daquela sala e lançaria algo que o deixasse espumando, com certeza.

- Quando eu disse mais cedo que estava com medo, não era do resultado do teste, mas das coisas não darem certo entre a gente. - James deixou os ombros, tensos, caírem. - Quando eu me afastei de tudo era por receio de não conseguir fazer isso dar certo, pensando como eu poderia fazer meu irmão aceitar o fato de que...- A ruiva parou por um momento, parecendo tentando encontrar as boas palavras. - Porque tudo que eu pensei nesses dias era como eu poderia fazer isso funcionar, como eu poderia ficar com James Potter, o cara pelo qual eu me apaixonei. Então se isso serve de algo, aí está.

Sem mais, ela foi embora.


If you're ready, heart is open

Se você estiver pronto, meu coração está aberto

I'll be waiting, come find me

Estarei esperando, venha me encontrar

If you're searching for forever

Se você está em busca do para sempre

I'll be waiting, come find me

Estarei esperando, venha me encontrar

(Sigma - Find me)

Saiu da casa dos Potter o mais rápido possível, sem se despedir de Euphemia e Fleamont, apesar deles não estarem à vista. Entrou no carro e partiu, não querendo que as lágrimas viessem ainda na frente da casa, como se aquela coisa inanimada pudesse julgá-la de alguma maneira.

Deveria imaginar que James não estaria feliz por ter desaparecido. Ela também não ficaria, ainda mais quando havia uma resposta muito importante pendente.

Não custaria ter enviado uma mensagem, ou ligado apenas para informar que não estava grávida, que eram apenas os remédios mexendo com seu corpo e tudo voltaria ao normal logo. Não, não custaria nada ter aliviado a preocupação dele e foi muito egoísta, de fato, em ter pensado apenas em si naquele momento. A vida dele também estava em jogo e James tinha dado todo o suporte para ela desde o começo, o que ela não retribuiu.

Foi mesquinha, apesar de não ter feito por mal. Então não o culparia pela raiva que sentia.

Mas aquilo não era nada agradável, claro. Longe de ser agradável, machucava. A conversa que teve com Sirius naquela manhã voltou como um filme, quase como zombando dela:

"Aquele banco nos fundos do jardim da casa da Cornualha virou um dos seus lugares favoritos. Era pacífico, você tinha um pouco da praia a distância, havia alguns ninhos de passarinhos na árvore ali perto, que não paravam de cantar. Era tudo o que queria para poder pensar no próximo passo, em que fazer, quando fazer, como fazer.

Ouvia alguém se aproximando. Logo depois, Sirius parou em sua frente. Ele tinha uma posição decidida, mas nada muito segura.

- Temos que ir embora em alguns minutos. - Sirius avisou.

- Eu sei.

Não o olhava diretamente, mas via um desconforto e ansiedade crescerem no irmão, criando coragem, talvez, para continuar aquela conversa. Ele não ia embora e nem estava sendo sarcástico ou maldoso, então só podia imaginar que ele queria começar uma paz entre eles.

Ela só não sabia como ele conseguiria aquilo com aquelas atitudes.

- O que você quer, Lily? - Ele perguntou mudando de peso nos pés.

- Perdão?

Ele, novamente, mudou de posição. Agora parecia mais inseguro do que decisivo.

- Você não está grávida. Se o que o médico te disse por telefone e aquele teste está certo, você não está.

- Não, não estou grávida. Eu comprei alguns testes de farmácia essa manhã, de todas as marcas, e todos marcam a mesma coisa.

- Então o que você quer?

- Que você pare de me encher o saco.

Não estava gostando do jeito que ele falava, mesmo sabendo que era pela incertitude dele de como levar aquela conversa. Se o seu irmão quisesse conversar, então ele teria que aprender a lidar melhor com a situação. Ela não estava sabendo lidar também, mas não atacava ninguém.

Só queria paz por um momento antes de enfrentar uma possível tempestade que sentia que chegaria quando voltassem para Londres. Uma que não sabia como resolver.

Surpreendeu-se quando Sirius abaixou na sua frente. Ele pegou suas mãos e apertou contra as dele, tão quentes e confortáveis...do jeito que ela sempre as teve, como estava acostumada a ter o irmão quando enfrentavam qualquer problema juntos.

Viu em seus olhos que ele estava ali para resolver as coisas e não para brigar. Aquela informação foi quase um sopro de esperança.

Não soube o que mudou, ou que aconteceu para ele ter mudado de uma hora para a outra, mas não iria reclamar. Contando que fosse verdade e que ele não daria para trás, não iria reclamar.

- O que você quer, Lily? - A voz dele estava mais doce, muito mais convidativa para uma conversa sincera.

- Quero viver, Sirius.

- Não é isso o que eu estou perguntando e você sabe. - Ele quase soltou um sorriso. - Me responda com o que está na ponta da sua língua.

Ela quem quase soltou um sorriso dessa vez. Vendo que a irmã parecia estar amolecendo para a conversa, Sirius parecia ficar mais confortável.

- James. - Deixou o que estava "na ponta da sua língua" sair.

O peso que o nome dele tinha era tão importante, dizer aquilo parecia tão bom, que parecia mais leve. E pela expressão de Sirius, era o que ele estava esperando.

- Você quer ficar com ele.

- Sim.

- Você está realmente apaixonada por ele? Não é só uma coisa que possa ser passageira, um rolo?

- Não. Não da minha parte. Eu quero ficar com ele, Sirius. Eu te disse antes, é algo completamente diferente do que já senti e é por ser ele. James foi o cara que mais me deixou confortável, que mais esteve no momento quando estávamos juntos, que parecia estar ao meu lado durante toda essa viagem. Nunca houve outro cara que me deixou feliz como ele me fez, como ele sabe fazer. Ele adiciona tudo isso na minha vida já feliz, sendo uma adição perfeita.

Era óbvio que ele não esperava por uma declaração daquelas, pois Sirius tinha a melhor das expressões de espanto.

Ele apertou ainda mais suas mãos, mais cauteloso, acariciando seus dedos.

- E se não for a mesma coisa que ele esteja querendo?

- Você não pode saber disso. - Respondeu, na defensiva, e começando a se estressar novamente.

Sirius puxou suas mãos delicadamente, querendo chamar sua atenção para ele, para que ela voltasse para aquela conversa tranquila.

- Eu não estou dizendo que é o caso, eu só tenho medo de vocês não estarem na mesma página, dele estar querendo uma coisa muito diferente.

- Ele tem o direito. - Deu de ombros, mas apenas ela sabia o quanto iria doer se fosse o caso.

- Sim, ele tem e, ainda sim, não quero o meu melhor amigo quebrando o coração da minha irmã.

- Ele sendo o seu melhor amigo ou não, um completo desconhecido ou quem for, você não pode impedir isso. Faz parte da vida.

Ele assentiu, mesmo lhe dando uma leve impressão de que o irmão não havia aceitado aquele fato ainda.

- E pelo o que você tem me dito, sua intenção também não é de quebrar o coração dele.

Foi ali que um certo alívio a atingiu. Ver a preocupação de Sirius com James também. Tê-los como amigos era tão prioridade quanto ela ficar com James.

Caso não ficassem juntos, seria doloroso. E muito. Mas se os dois nunca voltassem com aquela amizade, seria muito mais.

- Está preocupado comigo quebrando o coração do seu melhor amigo?

- Eu vi o quanto Bones reagiu mal depois de você dar um pé nele, mesmo o caso dele ser um pouco diferente, porque ele é um idiota. Mas Prewett? Não reagiu mal, mas eu vi que ele ficou chateado por não ter dado certo. Então sabendo como você parece hipnotizar os caras, melhor ter certeza de que você não pretende quebrar o coração dele também.

Ela riu um pouco.

- Longe disso. Longe de tudo isso. Eu quero ficar com ele e estar longe de chateá-lo. As coisas estavam dando certo, Sirius, e eu acho que podem continuar assim. Não vejo motivos para não dar. - O irmão pareceu prestes a falar, mas Lily balançou a cabeça. - Não acho que eu esteja sozinha nessa. - Disse antes do irmão dizer qualquer coisa sobre James não querer o mesmo. - Pensando em tudo, eu não vejo como. Eu acho que ele gosta de mim como eu gosto dele e só gostaríamos de estar juntos sem que você fique maluco, sem brigas, sem problemas.

Sirius levantou e se afastou, dando as costas para ela e encarando o mar. Não conseguia imaginar como aquilo poderia soar louco para ele, já que foi algo muito inesperado. Mas talvez ele pudesse ver o lado bom de tudo aquilo: duas pessoas que ele gosta, ficando juntos.

- Então é isso o que você quer. - Ele comentou sem se mover.

- Eu quero ficar com ele, sim. - Respondeu.

Alguns segundos depois, ele se virou. Não havia mais rugas por franzir o rosto, não havia maxilar travado de raiva. Seu irmão parecia o mais relaxado possível.

- Vamos. - Ele disse oferecendo sua mão.

- Onde? - Lily aceitou a sua mão e ser levantada por ele.

Com um sorriso encorajador, ele enlaçou o braço dela no dele e os levou de volta para casa.

- Fazer a única coisa que eu posso fazer por você agora: te levar para falar para o cara que você gosta, que você quer ficar com ele. E se ele for inteligente, vai querer ficar com você também.

Estava sonhando? Aquele Sirius ao seu lado era alguém fantasiado, um holograma?

Não importava. Agarrou o braço dele com toda a sua força, sentindo-se a pessoa mais feliz do mundo."

Entrou na garagem de casa com aquela conversa ainda rodando sem parar em sua cabeça. Saiu do carro, cabisbaixa, sentindo-se horrível. Talvez James quisesse conversar em alguns dias, então poderiam resolver aquele impasse.

Se arrastou pelo hall, virando à direita, para a cozinha, onde ouvia vozes e barulhos. Quando passou pelo arco da porta, Sirius e Geneviève pararam o que estavam fazendo - até riam entre eles - e a encararam, completamente surpresos.

Sirius deixou o pano de lado e se apoiou no balcão, escaneando todo o seu rosto, antes de abaixar a cabeça.

- Ah, Lily...eu te disse. - Ele começou, pesando por ela. - Eu disse que havia essa possibilidade.

As lágrimas estavam a caminho agora, percebendo que talvez o irmão estivesse certo o tempo todo e que James não era o cara que se engataria com alguém, mesmo esse alguém sendo ela.

- Eu não imaginei que seria assim. - Ela respondeu com a voz tremendo.

- Mas o que houve? - Geneviève perguntou, chocada. - Não, há algo errado. O que ele falou?

- Muita coisa, mas não o que eu estava esperando ouvir.

Sirius pegou o pano de prato de volta e o torceu.

- Esse é James Potter. - Disse ele, parecendo desejar que aquele pedaço de pano fosse o pescoço de James. - Acho que ele nunca vai...

A porta da frente abriu. Lily perdeu o fôlego por um momento, enquanto via o irmão soltar o pano e, assim como Geneviève, olhar em direção à porta da cozinha.

Lily se virou no exato momento que James entrou quase correndo em sua direção, a pegou nos braços e a beijou com tanta emoção, que a ruiva quase saiu do chão de felicidade enquanto o correspondia.

Há um minuto, ela pensava que tudo tinha ido por água abaixo. E agora estava sendo beijada por James em frente da sua mãe e do seu irmão...e nem se importava. Se agarrou nos cabelos dele e o beijou de volta como se não houvesse plateia, querendo matar toda a saudade que sentia dele, o receio de minutos atrás de que tudo tinha ido por ralo abaixo.

Não, ela não poderia deixar James escapar de suas mãos, não por algo que poderia se resolver facilmente, principalmente depois de toda a confusão.

- Hey! - Ouviu o irmão ao fundo. - Oi, hey!

Não pararam nem por um instante. James apenas os girou e deu as costas para os outros dois ocupantes da cozinha, a beijando com mais vontade ainda. Até o momento que Lily sentiu um outro braço na sua cintura e foi puxada para trás, desgrudando de James como se fosse um polvo. Sirius a segurava, seus pés mal tocavam no chão.

- Você! - Sirius dizia para James. - Me parece bem enérgico para quem tomou um soco na cara. Deveria ter mirado na sua boca, talvez assim te daria juízo. - James parecia pronto para responder, mas Sirius o interrompeu e apontou com a cabeça para a porta da cozinha. - Escritório.

James não parecia nem um pouco abalado e saiu da cozinha com um sorriso enorme no rosto.

- Me solta, por favor. - Ela pediu.

- Você, fique aqui! - Ele respondeu soltando-a.

- Não! Para vocês brigarem de novo? Não, não.

Sirius já saía da cozinha.

- Vamos ter a segunda conversa da noite.

- Eu vou junto.

- Isso é entre nós dois, Lily! - Ele disse já do corredor.

Foi até a porta da cozinha.

- Como você pôde ver há alguns segundos, existe um "nós dois" que não envolve você.

Sirius apenas balançou a mão, como se pedisse para ela parar de falar, e desapareceu pelo outro corredor da casa.

Lily se jogou contra o batente da porta e cruzou os braços, irritada. Até se lembrar do beijo.

- Eu acho que a minha filha vai começar a namorar.

Geneviève tinha uma expressão tão serena e feliz, que fez Lily deslizar.

- Você acha que tudo vai dar certo?

- Depois desse beijo, duvido que seu irmão tenha algo que possa fazer contra.

A ruiva mais nova sorriu. Mal podia esperar para aquela conversa terminar.

J~S

Entrou no escritório de Orion e sentiu aquele cheiro típico de livros e chá. Era estranho o último cheiro, já que Orion, óbvia e tristemente, não estava mais por ali, o que fez James pensar que Geneviève pudesse sentar-se ali às vezes, bebendo seu chá.

Imaginou-se entrando ali para falar com o pai de Lily, querendo saber se ele estaria ok com James ficando com ela. Talvez ele riria primeiro, dizendo que não tinha ideia de que o melhor amigo do filho tinha algum sentimento daquele tipo pela filha, já que James adorava irritá-la. Ou ele iria perfurar James com aqueles olhos cinzas e congelantes que podia ter quando nervoso, e chutar a bunda dele porta afora.

E falando em porta, esta se fechou em suas costas e James se virou para encontrar um outro Black, que possui os mesmos olhos cinzas e gélidos quando nervoso. E lá iam novamente por aquela estrada em menos de uma hora. Só esperava que não ganhasse um outro soco, porque estava levemente cansado de passar pomada e antisséptico no rosto.

Sirius não disse nada, apenas passou por ele e sentou-se no tampo da mesa de mogno, cruzando as mãos no colo. James poderia rir daquela cena, mas de certa maneira, meio que estava impressionado pela maturidade do amigo.

- Então você beijou a minha irmã na minha frente, na minha cozinha, na presença da minha mãe.

- É o que parece.

Estava tão feliz, que não se importava em assumir. Mas o que poderia negar também? Era verdade, não podia falar que Sirius tinha alucinado.

- Lily não está grávida. - Sirius disse.

- Não.

- Então não tem motivos você assumir qualquer coisa por pura pressão.

- Não há e nem seria por pressão, caso ela estivesse grávida.

- Hmm. - Sirius rodou os dedos, olhando para o chão. - Bom, eu tive essa conversa com ela e agora está na hora de você me dizer o que você quer. Com todas as letras. Um beijo na minha cozinha não vai te dar passe-livre, então eu quero ouvir da sua boca quais são os seus planos, só para deixarmos as coisas bem claras, límpidas e com algumas regras.

- Regras?!

- Vamos falar delas depois e começar com você me dizendo o que você planeja.

Então pela primeira vez, James sentia-se encarando Sirius com um pouco mais de respeito, diferente do embate que tiveram mais cedo. Desta vez, o via como o irmão mais velho de Lily que queria entender quais eram suas intenções com ela, e não o julgava, não achava ruim também. Era um cuidado que ele estava tendo e James não tinha nada a temer.

E assim como achava justo Sirius querer saber o que ele pretendia com Lily, achava que não precisava mais enrolar.

- Eu quero ficar com ela!

- Tudo e simplesmente?

- Exato. Eu quero ficar com Lily.

Sirius pareceu desconfortável por um momento.

- Você nunca quis ficar com ninguém. Como eu posso acreditar que seria diferente agora com ela?

- Porque eu gosto dela. Eu te disse: eu gostava dela antes e eu ainda gosto.

O amigo passou a mão pelo rosto, perdido.

- Você disse para ela? - Sirius perguntou.

- Que eu gosto dela?! Você ainda não me deu a chance disso, já que a arrancou de mim.

- E na sua casa? Você não disse que gostava dela? Não disse que gostava dela há algum tempo? Você me diz tudo isso, mas Lily chegou aqui desolada. Está entendendo que nada faz sentido?

Certo, as coisas tinham saído um pouco dos trilhos. Ele havia dito tudo aquilo de Lily para Sirius, mas ter sido pego de surpresa depois enquanto explodia de raiva, não ajudou sua conversa com ela.

- Eu tive que dizer que ela ter sumido não foi justo. Se eu não falasse o que estava me incomodando, a conversa teria sido pior.

- Então você não disse nada que poderia assegurar a minha irmã de algo?

- Não. - Foi sincero. - Acredito que não. Quando eu consegui sair da raiva, eu fui atrás dela, mas ela já tinha ido. Eu não achava as chaves do carro, então eu vim correndo.

- Você veio correndo?!

É, ele tinha corrido até ali. Não era longe e havia um caminho de pedestres que podia encurtar ainda mais. Invadiu um pouco a propriedade de um vizinho, mas ninguém pareceu ter visto.

- Sim.

Aquilo pareceu ter sido um choque para Sirius.

- Então você quer ficar com ela.

- Sim. 100%! Eu tenho a impressão de que ela quer ficar comigo, já que disse que está apaixonada.

- Ela disse isso e, ainda sim, você deixou a minha irmã voltar para casa daquele jeito?

- Eu fui pego de surpresa, Sirius! - Abriu os braços. - Eu estava com raiva. Não sou um interruptor que muda de "ligado" para "desligado" tão rápido assim. Além do mais, a minha ficha não tinha caído.

Talvez fosse difícil para qualquer um entender aquilo. Ele gostava de Lily por anos, mesmo que tenha deixado isso de lado nos últimos quatro. Depois de tudo o que aconteceu - como a vida pegou o seu rumo para todos eles e até outras pessoas em suas vidas -, ouvir que a garota que você gostava estava gostando de você era um pouco chocante.

Mas ele não era um saco vazio. Estava com raiva quando ela disse tudo aquilo e as coisas não funcionavam como em um filme, onde era o suficiente para uma pessoa dizer algo e tudo estava resolvido.

Achou até que reagiu rápido, tentando ir atrás dela.

Sirius levantou da mesa e suspirou alto.

- Isso vai mudar tudo, você sabe. - Ele disse.

- Vai mudar algumas coisas. - James concordou. - Isso não quer dizer que deve afetar nossa amizade. Além do mais, você não tem que dar sua benção e nem autorizar nada...mas se você não for contra, tudo vai ficar mais fácil para todo mundo.

Sirius riu.

- Ok, vamos devagar lá, cara. Eu estou tentando ser bem aberto para tudo isso, mas não começa a forçar.

- Eu não estou forçando. Quero apenas dizer o óbvio: o fato de gostarmos um do outro não vai nos fazer ficar separados, pelo contrário. Eu não vou deixar escapar essa chance de ficar com ela e eu espero muito que ela também não.

Não queria que o melhor amigo entendesse que James passaria por cima dele sem escrúpulos, mas apenas que as coisas estavam se encaminhando para algo e que ele mesmo não iria impedir de acontecer, além de querer ajudar a acontecer.

Ficou esperando uma resposta atrevida, mas ela nunca veio. Sirius apenas ficou ali, pensando e refletindo sobre a vida, o espaço, a economia, talvez. Demorou tanto, que James pensou em sair do escritório ou dar um tapa na cara do amigo para ver se acordava.

- É o seguinte, James Potter...- Sirius pareceu acordar, quase assustando-o. - Quero que você escute e escute bem. Primeiro: você não vai ficar dormindo no quarto da minha irmã todas as noites. Talvez nenhuma noite, aliás. Você mora perto e pode ir embora a qualquer hora, até correndo, pelo visto. Segundo: eu vou grudar em você e se fizer qualquer merda com outra pessoa, eu te corto em mil pedaços e ninguém vai achar nem um dedo seu. Terceiro: se você fizer a minha irmã chorar, terá o mesmo destino do item anterior. Quarto: você vai encapar esse seu troço entre as pernas todas as vezes, está entendendo? Nem uma vezinha sequer sem. Nem se você tiver tomado um coquetel de viagra e minha irmã estar mais do que disposta a te ajudar, se você não tiver a porra de um preservativo, você não enfia esse seu troço em lugar nenhum. Quinto: você não vai ser dono dela. Ela vai decidir se quer ou não fazer algo e se você forçar qualquer coisa, eu vou forçar meu punho na sua cara repetidas vezes. Sexto: se você...

- Quantos tópicos mais? Só para saber se eu sento ou se posso continuar em pé. - Perguntou tentando segurar um sorriso vitorioso. Quando percebeu que Sirius tinha largado a corda desnecessária que era a de não estar de acordo, não ouviu metade do que ele disse depois. Foi um monte de "blablabla" que entrava e saía pelos seus ouvidos enquanto só pensava em sair dali e dizer para Lily de volta que era tão louco por ela quanto.

- Muitos tópicos. Sugiro que sente, então.

Como Sirius não parecia estar brincando, sentou na poltrona perto da janela. O sorriso bobo ainda bem instalado no seu rosto enquanto assistia a boca de Sirius mexer, suas mãos voando para os lados, dedos apontando em uma possível ameaça. E nada das palavras dele entrarem na sua cabeça.

Dois minutos de palestra depois, olhou para o relógio.

- É isso?

- Sim, é tudo isso

- Então se me der licença...- James levantou . - Você tem uma irmã me esperando em algum lugar dessa casa.

- Não se esqueça das regras! - Sirius o alertou.

- Claro, não se preocupe. Eu anotei mentalmente todas elas.

- Ótimo.

Porém, apesar de tudo isso, ao invés de ir direto para a porta e caçar Lily em algum cômodo, James parou na frente de Sirius.

- Eu só quero que você saiba que eu não quero machucar Lily, apenas fazê-la feliz. - Colocou uma mão no ombro do outro. - E espero que você entenda que tudo o que foi feito, não foi para te prejudicar. Eu nunca faria isso com o meu irmão.

Sirius, pela primeira vez, pareceu relaxar. Vê-lo tão tenso, nervoso e estressado o desagradava muito, pior ainda em saber que ele mesmo causou aquilo. Assim como Lily, James só queria que Sirius fosse feliz. Ele, mais do que muita gente, merecia um pouco disso.

- Acho que "irmão" não pode ser mais usado, já que está apaixonado pela minha irmã. Vai começar a ficar um pouco estranho.

Os dois riram.

- Eu não a considero minha irmã. - Respondeu.

- Você me deixa aliviado em dizer isso. - Sirius brincou.

Balançou a cabeça, tão absurdamente aliviado em ouvir Sirius fazer piada com aquilo, que mal poderia explicar. Foi em direção a porta, sua mão já quase na maçaneta, pronto para ir resolver tudo isso com a principal pessoa, mas parou.

- Queria pedir uma coisa. - Disse James, se virando.

- Já?!

- Não reclama, não é nada demais. - Estalou os dedos de nervoso por um momento. - Sobre eu gostar de Lily antes...você pode segurar essa informação para você?

Sirius pareceu bem intrigado, cruzando os braços.

- Você não vai contar para ela?

- Não.

- E por qual motivo?

- Eu acho que não é importante, ou não mais. Talvez um dia eu conte...- James deu de ombros, um pouco perdido. - Eu prefiro que a gente comece algo com tudo o que começamos a sentir dessa vez. Eu tenho essa impressão de que o que eu sentia por ela antes da festa e antes de Pettigrew, foi jogado um pouco na lama por tudo isso. Foi tudo coberto por esse evento e eu não quero trazer isso de volta. Além do mais, qual diferença faria? Já basta eu ter que lidar com o arrependimento de não ter falado com ela antes na cozinha, impedindo que Pettigrew a atacasse.

Desencostando-se da mesa, Sirius veio até ele.

- Do que está falando?

- Naquela festa, eu iria falar com ela...me declarar, sabe. - Odiava pensar naquilo, odiava imaginar que poderia ter feito algo que mudasse tudo. Lily até poderia dizer não, deixando James na merda, mas poderia impedi-la de estar no quarto mais tarde. - No último momento, eu dei para trás, com medo de levar um "não" e querendo me preparar mais um pouco. Isso poderia ter mudado muita coisa.

Percebeu o quanto aquilo colocou Sirius em um modo reflexivo, talvez fazendo-o imaginar a cena, o que poderia ter mudado. Os olhos cinzas estavam estáticos, como se o amigo nem estivesse ali. Até que, de repente, Sirius levantou o olhar para ele.

- Se eu não tivesse dado a ideia da festa, talvez poderia ter mudado algo. Se você tivesse agido, talvez poderia ter mudado algo. Se Remus tivesse feito qualquer outra coisa, talvez poderia ter mudado algo. Mas isso impediria que Pettigrew agisse em outro momento? - Sirius balançou a cabeça. - Eu acho que não. Ele quem cometeu o erro e não nós. Não poderíamos fazer nada contra a vontade anônima dele de fazer algo ruim e a cada dia isso parece ficar mais claro para mim. Então não se culpe e não deixe isso ser algo entre vocês. Você não quer contar para ela sobre o que sentia antes por não se sentir bem com isso? Não tem problema, eu não serei a pessoa que abrirá a minha boca. Mas se você quiser fazer isso dar certo com a minha irmã, deixe para trás o ocorrido, dando e fazendo o seu melhor para ela.

- Eu irei!

Dessa vez, foi Sirius quem colocou a mão no ombro de James e o apertou, dando todo o suporte que James sempre esperou.

- Posso não ter visto antes, mas eu sei que você é um dos poucos que poderia.

Assentindo, James finalmente abriu aquela porta e saiu do escritório enquanto sentia seu corpo se livrar de tudo de ruim que vinha guardando por dias e deixando um Sirius sorridente e confiante para trás.


You said: Hey, whatcha doing for the rest of your life?

Você disse: Ei, o que você vai fazer pro resto da sua vida?

And I said: I don't even know what I'm doing tonight

E eu disse: Eu nem sei o que vou fazer esta noite

Went from one conversation to your lips on mine

Fomos de uma conversa para seus lábios nos meus

And you said: I never regretted the day that I called you mine

E você disse: Eu nunca me arrependi do dia em que te chamei de minha

So I call you mine

Então eu te chamo de meu

(The Chainsmokers feat Bebe Rexha - Call you mine)

Seu irmão não queria que ela participasse da conversa. Tudo bem, era justo. Não iria querer a participação do irmão em uma conversa com James também.

Mas estava ficando maluca já. Estavam no escritório há 20 minutos e nada acontecia. Ela descia a cada dois minutos, passando em frente da porta, tentando ouvir briga, gritos ou algo assim, mas tudo parecia calmo. Conseguia ouvir a voz de ambos, mas não compreendia o que era dito. Então subia e continuava a andar pelo quarto como uma maluca, tão ansiosa e nervosa.

Eles já tinham conversado antes, por que tinham que conversar de novo? Ela quem deveria ter o direito de conversar com ele, pois foi ela quem foi pega no meio da cozinha por um beijo que não estava esperando.

A boa notícia é que Sirius não pulou em cima de James depois dessa. Lily também não achava que ele faria algo assim mais. Não mais.

Olhou para o relógio e viu que mais dois minutos passaram, estava na hora de descer e ouvir se o irmão não estava arrastando o corpo de James ou jogando-o pela janela.

Virou para a porta e tomou um susto ao ver James parado ali, encostado no batente, assistindo-a. Ele tinha um pequeno sorriso.

- Você me assustou! - Disse ela, levando a mão ao peito.

- Desculpa. - Ele pediu, ainda sem se mexer. - Você parecia tão concentrada, que não queria interromper.

- "Ansiosa" seria o melhor adjetivo.

James assentiu, parecendo entender a situação.

- Posso entrar?

Ele já tinha entrado ali antes, por que perguntava? Costume? Os meninos nunca entravam sem serem convidados, sabia. A não ser que você fosse um idiota...Mas naquele momento da vida deles, ele mais que poderia entrar sem precisar pedir.

- Claro.

James finalmente entrou, deu uma olhada no corredor, e fechou a porta. Lily começou a ficar nervosa de novo, mas por outros motivos. O que seria dali para frente? Ela se declarou para ele, James não disse nada de volta, mas a beijou na cozinha e na frente de quem quisesse ver.

Aquela conversa parecia mais promissora do que aquela na casa dos Potter. E que dava mais frio na sua barriga também. Não sabia o que falar, por onde começar, então estava deixando aquela bola no campo dele. Mas ele estava demorando tanto, apenas ali parado, a encarando.

- O que Sirius queria? O que ele disse? O que você disse? - Deixou escapar.

James riu um pouco.

- É sobre isso que você quer falar? São essas perguntas que você quer me fazer?

Não, não eram. Ou não eram as principais coisas que gostaria de discutir, na verdade, mas elas faziam parte de tudo. As coisas seriam facilitadas? Ela teria que lutar contra o irmão a cada manhã? Etc, etc.

- Não exatamente, apesar de estar curiosa.

- Bom, então eu diria para não focar nisso agora, porque acho que há coisas mais importantes para falarmos.

Se fosse medir seu nervosismo em uma escala de 0 a 10, diria que estava a 100 agora.

- Sim, eu concordo.

James deu um passo em sua direção. Eles ainda estavam razoavelmente longe, mas estava claro que ele não queria se afastar ainda mais.

Ele deu um outro passo e Lily deu um pequeno de volta, não querendo ser a única a não avançar ali.

- Aquela...- Ele parou, parecendo quase receoso. Lily soltou as mãos inquietas que tinha, tentando parecer mais aberta, querendo encorajá-lo. - Aquilo que disse, quando estava indo embora...

- Sim?!

- Então é verdade?

Ele queria ouvir de novo algo que parecia tão simples de falar, mas que agora lhe dava um certo receio após o final que a conversa teve.

Inalou profundamente. Estava na hora de falarem abertamente sobre tudo aquilo, sobre sentimentos, sobre tudo. Dar para trás agora estava fora de cogitação.

- Eu não saio por aí, gratuitamente, dizendo esse tipo de coisa para as pessoas.

Ele começou a balançar a cabeça, achando graça.

- Não, não use sua ironia nervosa comigo, Lily. - Ele deu um passo novamente. Ficavam cada vez mais perto, a ponto de Lily poder ver as pequenas ondas esverdeadas em seus olhos. - Diga diretamente, como você fez minutos atrás.

- Por que você precisa que eu repita?

- Porque eu preciso responder.

Era quase difícil respirar com a aceleração do seu coração agora.

Bom, aqui vai mais uma vez.

- Eu me apaixonei. Por você. - Adicionou a última frase rapidamente, mesmo não sendo necessário. Revirou os olhos, sentindo que estava fazendo papel de boba ali. Se recompôs, arrumando a postura, e criou coragem de olhá-lo nos olhos. - Eu me apaixonei por você, James. Esses dias, essas semanas...tudo pelo o que passamos, foi bom. Eu me senti preparada para dar tudo de bom que eu tenho e senti que encontrei alguém que pode me dar tudo isso de volta. Você foi gentil, atento, respeitoso...soube quando e qual intensidade sobre tudo. E tudo foi intenso desde o começo, tudo foi bom desde o começo. A cada momento que passamos juntos, eu tinha certeza de que estava vivendo algo de verdade, mesmo não sabendo no que daria. Eu senti que era algo que valia a pena a luta e, apesar dos pesares, eu não me arrependo em momento algum. - Deu uma pausa, pensando se devia continuar enquanto via os olhos dele fixos em si. - Estou dizendo um pouco mais do que foi dito antes, mas se você quiser saber tudo, aí está.

James continuou com os olhos nela. Os segundos se passaram e Lily começou a se perguntar se ele iria mesmo responder ou ficaria apenas como uma estátua em sua frente.

- Eu pensei que, na segunda vez que ouvisse, eu teria as palavras certas na ponta da língua, mas você conseguiu de novo.

- Consegui?!

- Sim. - Ele se aproximou muito mais, parando a poucos centímetros dela. - Conseguiu me fazer entender que a vontade de lutar por você não era por gostar do que estava acontecendo com a gente, mas por querer lutar pela pessoa, pela Lily, que eu estou tão apaixonado. - James pegou suas mãos. - Foi uma montanha-russa as últimas semanas, onde pensei que deveríamos parar algumas vezes por conta do seu irmão, mas eu não podia parar, eu não podia te deixar de lado, porque isso iria doer muito mais do que um ou dois socos de Sirius ou uma briga com ele. Vale e valeria a pena lutar para ficar com você e, se você ainda quiser, eu quero continuar lutando e me apaixonando por você todos os outros dias.

Entendia o motivo dele ter ficado como uma estátua em sua frente após sua declaração. Sua mente ficava repassando aquelas palavras uma e outra vez, querendo absorver cada uma delas, sem perder nem uma sílaba sequer.

- Quer dizer então que James Potter se apaixona? - Foi a única coisa que a sua ironia nervosa, como ele chamou, conseguiu dizer.

- Quer dizer que James Potter se apaixonou por Lily Evans.

Lily o puxou e o beijou. Era tudo o que ela queria ouvir, tudo o que precisava saber.

Se precisasse lutar por ele contra quem for, ela iria. Não por James ser prioridade em sua vida e as outras pessoas menos, mas por aquilo lhe permitir dar prioridade a ela mesma, poder dar prioridade para o que queria e desejava. E era ele e tinha a impressão que seria sempre ele quem iria querer e desejar.

Porque estava tão caída e entregue para ele, que sua vida parecia encaixada. Seu coração estava tranquilo ao ser entregue para ele, sabendo que seria bem cuidado tanto quanto ela cuidaria do dele.

- Apenas para deixar claro. - Ele parou o beijo. - Em momento algum eu me arrependi do que aconteceu, de você. Assim como eu não vou me arrepender de ter te roubado e agora poder te chamar de minha.

- Então me chame disso quantas vezes quiser, pois eu não vou me impedir de te chamar de meu.

Com o sorriso que ele abriu, aquilo parecia bem ok para ele.

Que acabassem as palavras. Queria aproveitar até não poder mais. Voltou a beijá-lo, sentindo-se tão bem em não esconder mais aquilo, poder viver a experiência completa, com aquele cara tão...

Três batidas na porta os pararam.

- A porta! - Ouviram a voz de Sirius. Ele abriu a dita cuja, mas sem olhar para dentro do quarto. - Você tem problema de memória, Potter? Acabei de te dar umas regras.

- Deu? - James riu entre os lábios dela, não se importando com a possibilidade de Sirius entrar a qualquer momento.- Acho que o meu cérebro não registrou essa.

- Você quer que eu deixe a porta aberta com o meu namorado aqui dentro, quando você sabe muito bem que a gente já passou dessa fase? - Ela respondeu também sem parar de beijar James.

Ouvindo a irmã, Sirius se permitiu colocar a cabeça para dentro do quarto. Os dois pararam de se beijar.

- Namorado, hein? - Disse olhando para James. - Muito bem, é o mínimo que você poderia fazer por ela. - James deu de ombros, sereno. - Mas a porta fica aberta. Se eu tenho que manter a minha com Marlene, então vocês também vão deixar essa aqui aberta.

Ele deu as costas deixando a porta com uma fresta nada ameaçadora. Como se aquilo impedisse qualquer coisa para ela.

Soltou James e foi fechar a porta sem cerimônias, querendo que Sirius ouvisse. Ele também fazia exatamente a mesma coisa com Marlene.

Se virou para o agora namorado.

- Certo, onde paramos?

Não foram muito longe, pois naquele momento sentia que apenas em estar na sua cama, beijando James até não poder mais, já era o paraíso. Era leve e lhe trazia um conforto que nunca pôde sentir antes. Além do mais, achava que seu irmão poder ouvir suas gargalhadas era ainda melhor do que dar a impressão de que estavam ali apenas para outras coisas. Queria que Sirius soubesse o quanto James a fazia feliz, muito mais do que qualquer um poderia imaginar.

E a fazia tão feliz, que cair no sono após todos aqueles beijos, conversas e risadas, foi bem fácil. Acordou com uma exclamação de dor. Ao se virar, viu Sirius puxando James pela orelha e tirando-o da cama.

- Você pode voltar para casa com o meu carro, ele já está ligado, pronto para você. - Dizia o irmão enquanto ainda levava James para fora do quarto.- Duas regras quebradas já no mesmo dia, no primeiro dia.

Iria reclamar, mas James parecia tão feliz. Provavelmente orgulhoso em encher o saco de Sirius.

- Amanhã, no café da manhã. - Ele disse se despedindo dela antes de ser levado para o corredor.

Teria que conversar com Sirius, mas não hoje, não essa noite.

Hoje era sobre tudo ter dado certo. Era sobre ter James, era sobre o seu irmão estar bem, era sobre o futuro maravilhoso que ela via dali.

E nada mais importava.


CENA EXTRA

James saiu do carro no estacionamento de Hogwarts no dia seguinte, vendo Sirius e Lily saindo do carro ao lado. Remus, esperando por eles, sorria todo orgulhoso.

- E aí, casal. - Remus cumprimentou.

- Oi! - Os três responderam juntos.

Eles se entreolharam, estranhando.

- Eu acho, só acho, que você e James não são mais os alvos. - Lily se dirigiu ao irmão.

- Não sei. - Sirius respondeu. - Nós somos um casal antes de vocês dois.

- Isso vai virar um problema. - James comentou.

Antes de qualquer outro dizer algo mais sobre isso, uma sombra vinda dos jardins chamou a atenção dos quatro.

- Ah, finalmente. - Edgar Bones disse. Ele parecia tão feliz ao vê-los ali, que James começou achar que havia algo errado com aquele cara. Não que fosse muita novidade. - Black, hoje é seu dia de sorte.

- Perdão?! - Sirius perguntou, completamente perdido.

- Que tal a gente ter uma conversa que ficou pendente? O Potter aqui...- Edgar apontou para James. - Quer muito que eu te conte uma coisa, mas como você não estava por perto, acho que podemos começar a segunda-feira com uma pequena reunião.

Aquilo era incrivelmente louco. Edgar Bones não largava mesmo da sua obsessão. Aquilo tudo era mesmo apenas o ego ferido em ter conseguido a garota que parecia tão inalcançável e ter perdido depois? No dia que ele entendesse que foi por sua própria culpa que Lily deu um pé na sua bunda, talvez nem acreditaria.

- Ah, não. Nem começa. - James desdenhou do cara. - Vai a merda, você está muito atrasado nesse seu universo paralelo.

Passou o braço pelo ombro de Lily, a trouxe para perto, enquanto davam as costas, e se afastaram. Que Sirius tomasse conta daquilo, pois estava cansado de lidar com aquele alucinado.

Edgar Bones ficou para trás, mas agora eles encaravam metade da escola que parecia mais chocada do que quando disse para boa parte deles, no sábado, que estava com Lily.

Bom, aí estava a prova. Talvez teriam que lidar com as fofocas de Lily estar grávida, mas desmentir Edgar Bones sobre a atual relação dele com Lily já tirava boa credibilidade de qualquer outra fofoca criada.

De longe, viu Gideon Prewett os assistir. James acenou discretamente com a cabeça e o ruivo começou a rir e deu de ombros, como se aceitasse uma suposta derrota.

- Acho que Edgar Bones não será mais um problema. - Ouviram a voz de Sirius em suas costas.

- Depois do que você disse, acho que ele entendeu que não tinha como ele continuar sendo um problema. - Remus concordou também se aproximando deles.

- O que você disse para ele? - Lily perguntou.

- Nada que você precise se preocupar. - O irmão respondeu. - Precisamos focar no verdadeiro problema agora.

- Qual? - Os três perguntaram juntos.

Sirius passou por eles e começou a andar de costas, os encarando.

- O casal é Lily e James ou James e eu?

Lily fez uma careta, desacreditando daquilo. Remus levou os olhos para o alto. James foi o único a parecer pensar.

- Eu vou até Alice. Ficar apenas alguns segundos com vocês três, já me rendeu o bastante. - Lily respondeu enquanto acenava para a amiga perto do prédio de Química.

James não se impediu de dar um beijo intenso de despedida e soltar a namorada, atraindo ainda mais olhares dos outros alunos e um som de vômito de Sirius. Lily sorriu para ele e foi até a amiga.

- Vai ficar nojento assim o tempo todo? - Sirius perguntou voltando a andar, sendo seguido pelos outros dois.

- Sim. - Respondeu simplesmente.

- Mas se te servir de consolo. - Começou Remus. - Você sabe que o casal que eu mencionei era você com James, não sabe?

Sirius abriu os braços, como se pesasse.

- Não é novidade. Só não comentei antes para não chateá-la.

Era sobre toda aquela felicidade sobre conversas bobas e sem sentido que tudo fazia ter valido a pena.

James olhou para Lily que conversava com Alice alguns metros distante, vendo-a empolgada e feliz ao conversar com a amiga. Olhou para frente e viu Sirius xingar Remus sobre uma piada mal colocada do outro.

Nem em seus sonhos mais selvagens aquilo parecia possível. Mal tinha começado, mas sentia que não seria passageiro.

E, ainda sim, ao invés de achar que usou toda a sua sorte para finalmente ter chegado ali, pensou que deveria ter mais sonhos selvagens e ir atrás deles. Dessa vez, não sozinho.


N/A:

Feliz Aniversário atrasado, Lily! Queria ter postado ontem, mas não deu :(

Como sempre, é uma loucura finalizar mais uma história. Queria poder ter tido mais tempo, mais cabeça, menos drama na vida pessoal para Wildest Dreams ter saído como eu queria, mas como o Sirius teve que aprender nessa fic: eu também não tenho controle da vida e as coisas acontecem como devem ser.

Sem mais delongas, eu quero agradecer a todos que leram, curtiram, comentaram. Vocês são as pessoas lindas que fazem o caminho da escrita mais fácil. Obrigada sempre, por tudo.

Ah, existe um epílogo vindo ainda, então não vá muito longe e nem esqueça de nós aqui :D

Não esqueça do comentário maroto aí ;)

Beijos ;*