CAPITULO 2
Entre Invocadas e Dríades
Após seu encontro com Veldora, Rimuru continuou a valar pela caverna atrás de uma saída. Durante todo o caminho, Rimuru tentou treinar e melhorar suas habilidades. Em algum ponto, ele conseguiu aprender a se mover sobre a superfície da água, o que fez com que ele ganhasse a habilidade Deslocamento na Água. Não querendo ser vulnerável, ele treinou por um bom tempo, até ser capaz de usar lâminas de águas, que eram fortes o suficiente para cortar grandes rochas. Essa conquista lhe deu a habilidade Lâmina de Água. Quando ele conseguiu essa habilidade, suas três habilidades de água se fundiram, dando origem a Habilidade Extra Manipulação da Água.
Sem surpresam Rimuru também teve encontros desagradáveis com outros monstros, que habitavam a caverna. O primeiro foi uma Serpente Negra. É claro que, comparado a tudo o que ele tinha visto em sua vida passada, e até mesmo comparada a Veldora, a Serpente Negra não parecia assustadora. Matá-la tinha sido muito fácil e Rimuru não hesitou em usar sua habilidade Predador, para absorvê-la. Com isso, ele ganhou duas habilidades novas: Sopro Venenoso e Sensibilidade a Fontes de Calor. Ele também foi capaz de assumir a forma de uma Serpente Negra.
A serpente foi apenas o primeiro monstro. Houve o Lagarto de Armadura, que lhe deu a habilidade Armadura Corporal; Centopeia Maligna, resultando na Habilidade Sopro Paralisante; Aranha Negra, que lhe deu duas habilidades: Fio Pegajoso e Fio de Aço; Morcego Gigante, em sua opinião, foi uma das melhores, pois lhe deu a habilidade de emitir sons sônicos, o que ele pode usar para aprender a falar novamente.
Depois de muito tempo, Rimuru finalmente foi capaz de alcançar a saída da caverna, apenas para descobrir que ela estava bloqueada por uma grande porta de aço.
– Daikenja… analise a porta. – Pediu, olhando para a porta.
[Analisando. A porta é feita de rubrânio, metal resistente a magia. Ataques mágicos serão ineficientes. A espessura do metal é de 34 centímetros, com uma resistência de 15 toneladas. Ataques físicos serão ineficazes.]
– Hn… eles realmente não queriam que Veldora saísse dessa caverna. – Murmurou, olhando para a porta. – Daikenja, existe alguma forma de passar por essa porta?
[Analisando. Resposta: usar a Habilidade Única Predador, para absolver a porta. O rubrânio poderá ser armazenado para uso posterior. Você deseja usar a Habilidade Única Predador? Sim/Não?]
Rimuru sorriu, satisfeito com a ideia.
– Sim!
Imediatamente, seu corpo se se expandiu, se tornando mais líquido e de um brilho prateado, antes de cobrir a porta e começar a absorvê-la. Assim que terminou o processo, Rimuru piscou e olhou para frente. Quando o fez, porém, ele foi presenteado com a visão de quatro humanos: dois homens e duas garotas. Um dos homens era mais alto, com cabelos curtos castanhos e usava uma faixa vermelha na cabeça, o segundo homem era um pouco mais baixo e magro, com cabelos mais longos de um loiro sujo. A primeira garota era loira e segurava um cajado, enquanto a segunda garota tinha cabelos escuros e usava uma máscara branca sem olhos.
Os três primeiros encararam Rimuru por alguns segundos.
– Um… slime? – murmurou a garota loira, inclinando a cabeça para o lado.
Antes que Rimuru pudesse dizer algo, a garota de cabelos negros avançou para frente, uma espada envolvida em chamas em sua mão, enquanto encarava Rimuru com uma postura cheia de cautela.
– Não abaixem a guarda! Esse slime… ele não é um monstro qualquer!
Rimuru viu os outros assumirem posições rígidas e cautelosas.
"Daikenja, analise-os."
[Analisando. Os dois homens são da raça élfica, mas possuem habilidades de baixo nível. Chances de sucesso em combate: 100%. A jovem loira pertence a raça élfica, habilidades mágicas de alta classe detectadas. Chances de sucesso em combate: 70%. A jovem morena é hospedeira do Espirito das Chamas, Ifrit. Alta habilidade de combate detectada. Chance de sucesso em combate: 50%. ALERTA. ALERTA. Ifrit está tentando ganhar o controle do corpo de sua hospedeira. Nesse momento, a corrupção de Ifrit é de 80%, hospedeiro se encontra em estado volátil. Chances de o hospedeiro perder o controle sobre Ifrit: 79%. Se entrar em combate, há uma probabilidade de 89% de que Ifrit ganhe o controle do corpo de sua hospedeira.]
– Quem é você?! Você não é apenas um slime! – Questionou a hospedeira do Espirito das Chamas.
– Meu nome é Rimuru Tempest. E eu sou apenas um slime. Simples assim. Você está com sérios problemas, senhorita. – Declarou Rimuru, olhando para a morena.
– Hn… isso é uma ameaça?
– A única ameaça, para todos os presentes, é você senhorita. Seu controle sobre o Espirito Elemental em seu corpo está falhando, não é mesmo? Se continuar como está, sua consciência logo será completamente devorada pelo Espirito das Chamas Ifrit.
A morena congelou, enquanto os outros três pareciam confusos com o que Rimuru estava falando.
– Como… como você sabe disso…?
– Minha Habilidade Única: Daikenja. Ela me permite analisar coisas e seres ao meu redor. Quando vocês assumiram uma postura hostil, eu a usei para analisá-los e determinar o grau de perigo que sua presença era para mim. Você e a loira são as mais perigosas, mas você se torna muito mais volátil, por seu controle instável sobre o Espirito das Chamas.
Era óbvio que a morena estava ainda tensa e desconfiada, mas Rimuru a viu abaixar um pouco a espada. Bom.
– O que sua análise disse?
– Segundo minha análise, eu poderia descartar facilmente os dois homens, o que me deixaria com vocês duas. Tenho uma probabilidade de 70% vencer a loira e de 50% de vencer você. Contudo, se entrarmos em combate, há uma chance de 89% de Ifrit assumir o controle do seu corpo. Se isso acontecer, é provável que ele mate todos os seus companheiros.
A mulher parecia ainda mais tensa com isso. Era obvio que ela se importava com aquelas pessoas.
– Apenas meus companheiros?
– Sim. Ifrit não conseguiria me matar. – Declarou com calma. Era a verdade. Daikenja já tinha lhe dado a resposta, mesmo que fosse desnecessário, para que ele fosse capaz de vencer Ifrit.
Lentamente, a mulher baixou a espada, antes de erguer a mão e retirar a máscara, revelando um rosto jovem e bonito.
– Você não é um slime qualquer.
Rimuru sorriu.
– Isso não quer dizer que eu seja um slime ruim. – Brincou, sorrindo quando arrancou uma pequena risada da mulher de cabelos escuros.
– Meu nome é Shizue. Shizue Izawa. Meus companheiros são Kaval, Eren e Gido.
Rimuru olhou para o grupo, que tinha relaxado, mas ainda o encaravam com curiosidade.
– É um prazer conhecê-los. Se isso é tudo, eu vou continuar o meu caminho. Ah, Shizue-san, sugiro que encontre um método para extrair Ifrit de seu corpo, antes que seja tarde.
Rimuru estava passando por Shizue, quando ele a escutou sussurrar.
– É impossível.
Parando, a pequena slime olhou para cima, vendo os olhos escuros de Shizue repletos de dor.
– Não é impossível.
Shizue olhou para ele, seus olhos brilhando momentaneamente em esperança.
– Você seria capaz de fazer isso? – Perguntou, quase hesitante.
"Daikenja."
[Analisando. Resposta…]
– Sim, eu posso. Mas se eu o fizer, há uma grande possibilidade de que você morra pouco depois. – Falou com calma. – Minha outra Habilidade Única, Predador, pode devorar Ifrit e separá-lo do seu corpo. Contudo, segundo a minha análise, é a presença de Ifrit que lhe proporciona juventude e vigor. Se ele for removido por mim, seu corpo receberá todo o desgaste de sua verdadeira idade. Isso poderá ser um choque para o seu sistema. Sua morte seria apenas uma questão de tempo.
Lentamente, Rimuru viu Shizue se sentar no chão de pedra da caverna, em uma distinta postura japonesa.
– Morrer como uma humana é preferível, do que ser consumida completamente por essa maldição. – Afirmou, sua voz calma e suave.
– Ei! Shizue! Isso é… - Exclamou Kaval, olhando para a morena assustado.
– Você não pode estar falando sério… – murmurou Gido.
– Shizue-san…
Rimuru olhou para a mulher por vários minutos. Havia tanta paz e dor em seus olhos. Eram os olhos de alguém que já tinha visto demais, sofrido demais… olhos de alguém que apenas queria descansar. Alguém que desejava que a dor terminasse.
– Você tem certeza? – Perguntou uma última vez, enquanto se virava para encarar Shizue.
– Sim.
– Sendo assim, eu farei como você desejar. – Concordou, se preparando para usar sua habilidade.
– Eu gostaria de lhe perguntar uma coisa, Rimuru-san.
– Pergunte.
– Você não é desse mundo, não é mesmo?
Rimuru sentiu os três companheiros de Shizue congelarem com aquelas palavras, mas toda a sua atenção estava focada em Shizue.
– Você está certa. Eu fui assassinado, então acordei nessa caverna como um slime.
– Assassinado… entendo. Deve ter sido difícil. De onde você é?
– Inglaterra. Você também não é desse mundo, não é mesmo?
– Sim, eu sou do Japão. Fui invocada para cá, por um Lorde Demônio. O mesmo homem que aprisionou Ifrit em meu corpo.
Rimuru estreitou os olhos mentalmente. Ele se lembrava muito bem da explicação de Veldora sobre as invocações.
– Como esse Lorde Demônio de chama?
– Leon Cromwell. Ele é um dos Lordes Demônios mais forte.
– Se eu o encontrar um dia, prometo dar-lhe um soco em seu nome, Shizue.
Shizue sorriu, parecendo agradecida.
– Você está pronta?
– Sim…
[Você deseja ativar Habilidade Única Predador? Sim/Não?]
"Sim."
O corpo de Rimuru se abriu no manto prateado já característico, envolvendo Shizue. O processo demorou cerca de cinco segundos, antes que Rimuru recuasse e Shizue caísse enfraquecida. O pequeno slime foi rápido em inflar e apartar a queda da morena.
– SHIZUE-SAN! – Exclamaram os três aventureiros que acompanhavam Shizue.
– Ei vocês, preparem um acampamento. Devemos fazer Shizue o mais confortável possível. – Instruiu Rimuru.
Em pouco tempo, uma fogueira tinha sido acesa e uma cama improvisada havia sido feita, onde Shizue foi deitada com cuidado. Rimuru permaneceu em silêncio ao lado de morena. Eles não se conheciam. Não possuíam nenhum tipo de relação. Contudo, ele sentia que era seu dever estar ali com ela, até o fim.
– Nee… Rimuru… obrigada… por me libertar. – Sussurrou Shizue, sua voz estava bastante fraca. Rimuru podia ver as rugas começarem a surgir, assim como os fios brancos mancharem seus cabelos negros. – Eu vivi muito tempo… foi muito doloroso…, mas… houve bons momentos… eu conheci boas pessoas… creio que… só me restam alguns arrependimentos…
– Diga. Seja o que for, prometo corrigi-los para você. – Prometeu, desejando que ele pudesse aliviar qualquer angustia que ela pudesse carregar. Naquele momento, o mais importante, era que Shizue partisse em paz.
Os lábios de Shizue se curvaram em um fraco sorriso.
– Rimuru é muito gentil… não deixe que as pessoas… se aproveitem de seu coração…
Rimuru sorriu internamente.
– Está tudo bem. Eu sou gentil apenas com aqueles que merecem a minha gentileza. Eu posso ser muito cruel, com aqueles que merecem minha raiva.
Com um sorriso fraco, Shizue começou a falar de seus únicos arrependimentos. Leon Cromwell… cinco crianças que eram suas alunas… um homem… e uma mulher… Rimuru jurou naquele momento aliviar os arrependimentos de Shizue, garantindo a ela que ele cuidaria de tudo. Enquanto os dois falavam baixinho, o único som que preenchia a caverna era o choro baixo dos três aventureiros. Várias horas tinham se passado, os cabelos negros de Shizue tinham se tornado brancos acinzentados, sua pele tinha se enrugado e sua voz estava cada vez mais fraca.
– Rimuru… eu posso… pedir… um último favor…
– Sim. – Respondeu com calma. Estava quase na hora. Ele podia ver a vida se esvaindo dela.
– Quando… eu morrer… por favor… me devore… assim… como você… devorou… a minha… maldição…
Rimuru olhou-a com atenção. Ele podia escutar o choro atrás de si aumentando ainda mais.
– Tem certeza?
– Sim… eu… odeio esse mundo… não quero… ser enterrada aqui… por isso… por favor… me permita… descansar… dentro de você…
– Eu farei como você deseja.
Os minutos seguintes se passaram lentos e torturantes, até que a vida de Shizue se extinguiu completamente. Nesse ponto, Eren estava chorando algo, sendo abraçada por seus companheiros, que não estavam em melhor estado. Rimuru se permitiu um momento de silêncio, lamentando a partida da mulher infeliz, antes de cumprir o último desejo dela. Lentamente, envolvendo o corpo da mulher com sua habilidade única, e permitindo que ele fosse absorvido por seu corpo.
[Analise concluída. Habilidade Extra Degenerar adquirida. Habilidade Extra Chamas Explosivas adquirida. Mimetização da forma humana adquirida. Gostaria de mimetizar essa forma? Sim/Não?]
"Sim…" Pensou, enquanto sentia seu corpo ser envolvido por uma nuvem negra. Quando ele piscou novamente, Rimuru se sentiu muito mais alto, olhando para si mesmo, ele viu braços finos e mãos delicadas, magras e um tronco andrógeno, mas uma genitália masculina pequena. Sua pele era bastante clara e suave. Ele podia ver sem usar sua Habilidade de Detectar Magículas, podia ouvir com clareza os sons ao seu redor, assim como sentir o cheiro do ambiente. Ele tinha acesso a todos os sentidos.
"Daikenja, projete um reflexo da minha aparência na minha mente." Pediu, imaginando o que veria.
[Afirmativo.]
Poucos segundos depois, Rimuru foi capaz de se ver completamente. Ele parecia muito com Shizue, mas um pouco menor e mais jovem, com cabelos azuis lisos na altura de seus ombros e olhos verdes esmeralda. Era o mesmo verde esmeralda que ele possuía, quando era Harry Potter. Seu corpo andrógeno e magro era certamente bonito e delicado.
– R-Rimuru-san… – chamou Eren, fazendo com que Rimuru se virasse para olhá-la.
Seu rosto estava manchado por lágrimas, mas havia um rubor de vergonha distinto em seu rosto, enquanto ela lhe estendia algumas roupas. Provável, alguma muda reserva que ela deveria carregar.
– Obrigada. – Agradeceu, aceitando as roupas.
Era um conjunto simples: uma calça marrom três dedos abaixo dos joelhos e uma bata branca, feitas de linho. Mesmo que fosse simples, era mais do que o suficiente para aquele momento. Ele se vestiu com calma, assim que terminou ele se virou, apenas para ver Eren lhe estendo um par de botas de cano curto e salto baixo, com forro de pelo.
– São femininas, mas os de Kaval e Gido ficariam grandes demais… – murmurou, parecendo envergonhada.
Rimuru sorriu, aceitando as botas.
– Essas são boas, obrigado. Slimes não tem gênero, então não importa o tipo de roupa que eu vista. – Agradeceu, enquanto calçava as botas. Eram confortáveis, pareciam terem sido feitas para alguém que viajava longas distâncias. Certamente, era adequada para uma aventureira.
Terminando de se vestir, Rimuru começou a caminhar em direção a saída da caverna.
– Espere! – Exclamou Eren, fazendo com que Rimuru parasse a poucos passos da saída.
– Precisa de algo?
– Hn… eu… o que você pretende fazer?
– Não sei. Eu não tenho nenhum plano imediato. Creio que, por enquanto, vou apenas explorar. Sou um slime bastante jovem, e nasci dentro dessa caverna, então não conheço esse mundo. – Falou com calma, não vendo motivo para mentir. – Em algum momento, porém, irei cumprir minha promessa a Shizue.
– V-você podia se juntar a nós…
Rimuru sorriu, um pouco divertido com a oferta gaguejante.
– Sinto muito, mas não posso aceitar. Contudo, espero ser capaz de encontrá-los outra vez. Até que esse dia chegue, é um 'adeus'. – Afirmou, saindo da caverna a passos calmos.
Nenhum dos três elfos tentou impedi-lo.
Rimuru chegou do lado de fora da caverno, se vendo no alto de uma montanha, cercada por uma vasta floresta. O vendo fresco tocou seu rosto e fez com que seus cabelos se agitassem. Era uma sensação agradável. Erguendo os olhos, ele observou o céu noturno, salpicado de estrelas e a grande lua crescente brilhando no céu escuro.
"Lua crescente… a professora Sinistra ensinou que a lua crescente é o símbolo do crescimento, da evolução e da renovação. Pergunto-me se essa lua, tem um significado mais profundo para mim…" Pensou, olhando com atenção para a lua, quase como se esperasse que ela lhe fornecesse uma resposta.
[Aviso. Impossível de responder.]
Rimuru riu ao escutar a voz de Daikenja.
"Não seja bobo, Daikenja. Foi apenas um pensamento filosófico."
oOoOoOoOoOoOoOoOoOoOo
Enquanto Rimuru deixava a caverna pela primeira vez, desde seu renascimento, dentro de seu estômago, Ifrit estava ofegante, ajoelhado em meio ao espaço escuro e sem sim. Ele tinha passado, o que pareciam ser, as últimas horas tentando se libertar daquele confinamento. Ele não conseguia nem mesmo estender sua consciência, para tentar subjugar a mente aquele simples slime que o tinha devorado!
– HAHAHA! Desista, Ifrit!
Ifrit levantou-se assustado, sentindo a presença de um ser muito mais assustado do que o próprio Lorde Demônio que o tinha invocado. Foi quando ele viu, erguendo-se em meio ao espaço escuro, o Grande Dragão da Tempestade, Veldora.
– Desista, Ifrit. Rimuru é meu irmão mais novo jurado. Alguém com seu nível de poder, nunca poderia derrotá-lo. Agora, venha… ao invés de fazer birra, você irá me fazer companhia. Eu ainda ficarei um longo tempo aqui, então seja uma distração adequada, Ifrit.
oOoOoOoOoOoOoOoOoOoOo
Rimuru olhou para a direita, antes de olhar para a esquerda. Sua testa franzida, antes de se virar e olhar para trás.
Algo não estava certo.
Não… essa não era a palavra. Apenas… havia algo de estranho naquela floresta. Na caverna ele encontrou alguns monstros, o que ele julgava ser comum. Porém, ele estava andando há algumas horas, em uma floresta escura e silenciosa, e nenhum monstro parecia surgir. Talvez ele tenha sido muito apressado em julgar a frequência e natureza dos monstros daquele mundo. Poderia ser que eles estavam apenas restritos a cavernas e ambientes subterrâneos… semelhantes a dungeons de alguns jogos de RPG.
Ele apenas deu de ombros e continuou a caminhar sem um rumo certo. Contudo, Rimuru não tinha nem mesmo dado cinco passos, quando sentiu uma presença em suas costas.
Parando, ele se virou com calma e encarou o ser atrás dele. Assim que o fez, Rimuru não pode deixar de piscar um par de vezes. Parado há cerca de dois metros de distância, estava um rapaz jovem, talvez por volta dos vinte anos, com cabelos verdes lisos e longos, pele clara e olhos azul-esverdeados. Ele usava uma longa bata que misturava diversos tons de verde e branco, a única outra cor que se destacava, era o simples colar em volta de seu pescoço, que lembravam pequenas presas vermelhas.
– Quem é você? – Perguntou, decidindo esperar para ver que tipo de ser tinha se aproximado tão repentinamente.
– Rimuru Tempest, irmão jurado do Dragão da Tempestade, Veldora. – Falou o rapaz, enquanto colocava a mão direita sobre seu peito e se ajoelhava diante do jovem slime. – Meu nome é Treyni, eu sou a dríade que protege a Floresta Jura.
– Dríade? Pensei que dríades fossem espíritos femininos. – Comentou, olhando com bastante atenção para Treyni. Enquanto Treyni parecia ser dono de uma beleza andrógena, era evidente que seu corpo era masculino. Mais evidente do que o próprio Rimuru naquele momento.
Treyni ergueu o rosto e sorriu, quase parecendo divertido.
– Rimuru-sama está parcialmente certo. Dríades optam por assumir formas femininas, pois elas tendem a agradar as fadas com mais frequência, do que as formas masculinas. Contudo, em uma gestão de gênero, dríades não possuem um gênero especifico, semelhante a Rimuru-sama.
"Sama…? Esse é… o sufixo formal japonês, que é direcionado para pessoas em uma posição muito mais superior à de quem fala…? Eu sou apenas um slime… por que ele está me tratando tão formalmente?"
– Se esse é o caso, por que sua forma é masculina?
– Porque Rimuru-sama prefere a forma masculina a feminina. – Afirmou Treyni, sorrindo divertido.
Rimuru estreitou os olhos. Isso estava começando a deixá-lo desconfiado.
– Usar algo como 'sama' para se referir a um simples slime, é algo muito estranho. Ainda mais, se você é o responsável pela proteção dessa floresta. Não apenas isso. Você já sabia o meu nome, assim como a minha relação com Veldora. Creio que seja melhor se explicar corretamente, Treyni, caso contrário, há uma chance real de eu ficar irritado.
– Peço humildemente seu perdão e paciência, Rimuru-sama. Eu me explicarei. – Afirmou, voltando a se curvar em direção a Rimuru. – Como disse, sou uma dríade. Como tal, estou completamente ligado a floresta. Nada pode acontecer nessa floresta, sem que eu saiba. Percebi o nascimento de Rimuru-sama, no segundo em que surgiu na Caverna de Veldora. Apesar de muito mais fraco do que nesse momento, pude perceber que Rimuru-sama era 'Único'. Cerca de um mês após seu nascimento, senti sua evolução e o aumento de seu poder, assim como sua ligação com o Dragão da Tempestade, creio que esse tenha sido o momento em que Rimuru-sama tenha sido nomeado. Da mesma forma, fui capaz de sentir o momento em que absorveu o Espirito da Chama Ifrit e a Invocada. Dois atos que multiplicaram ainda mais o poder de Rimuru-sama. Meu respeito e formalidade perante Rimuru-sama é simples: Rimuru-sama não é um simples slime. Os monstros vivem sob a 'lei do mais forte'. Dríades não são diferentes. Escolhemos os mais fortes para seguirmos e abençoá-los, assim como dar a eles o poder sobre nosso território.
Os olhos verdes de Rimuru se arregalaram ao escutar aquilo.
– Ei… você está dizendo que…?
– Sim. Pelos últimos 300 anos, a presença de Veldora protegeu a Floresta de Jura e nós, dríades, o declaramos o protetor e soberano dessa floresta. O fato de que ele estava selado não importava, pois mesmo selado, Veldora era capaz de proteger a Floresta de Jura apenas com a presença de sua aura. Contudo, um mês atrás, a presença de Veldora desapareceu completamente. Isso trouxe desarmonia para a floresta. Monstros tem invadido e lutado pela dominação desse território. É por isso, Rimuru Tempest-sama, eu, Treyni, lhe concedo o título de soberano da Floresta de Jura e lhe peço para trazer a ordem a este território mais uma vez.
Rimuru suspirou, passando a mão por seus cabelos, sentindo uma pontada de frustração.
Como ele poderia saber que Veldora tinha algum tipo de influência ou importância para a floresta, estando selado em uma maldita caverna por 300 anos? Só a ideia de isso ser verdade, era ridícula. Além do mais, pedir para ele, um slime, ser o soberano da floresta? Rimuru estava seriamente questionando a sanidade de Treyni. Contudo…
"Daikenja… Treyni insinuou que eu sou muito mais forte do que um slime… não, do que um monstro comum. Elabore."
[Analisando. Monstros são classificados em 10 categorias: Dragão Verdadeiro, Lorde Demônio Verdadeiro, Lorde Demônio, Superior, classe S, classe A, classe B, classe C, classe D e classe E. Slimes são classificados como monstros de classe E. O Dragão da Tempestade Veldora é classificado como Apocalipse. Nesse momento, Rimuru Tempest, é um monstro de classe Superior inicial.]
Rimuru massageou sua testa. Ele não deveria ser capaz de sentir dor, mas tinha certeza de que estava sentindo o inicio de uma dor de cabeça.
"Daikenja. Explique de um jeito fácil, que eu possa compreender. Me dê exemplos da diferença de poder que eu entenda."
[Analisando. Usando dados de conhecimento passado. Monstros classe E equivalem em força a Bulma Brief. Monstros de Classe Apocalipse equivalem há Zeno. Monstros de Classe Superior inicial equivalem a Goku Super Saiyajin primeira transformação.]
A explicação fez com que Rimuru piscasse e bufasse. Sim, aquele era um jeito simples de explicar toda a questão.
"Bem… isso apenas monstra que eu realmente sou muito mais forte do que pareço, ou me sinto. Contudo, isso é tudo simples força bruta. A verdade é que mal sei lutar ou usar meus poderes ainda. Inexperiência, mesmo com um poder incrível, é algo extremamente desvantajoso."
Rimuru olhou para Treyni, que permanecia ajoelhada, mas o estava encarando com um sorriso no rosto. Era óbvio que Treyni tinha escolhido aquela aparência propositalmente. De alguma forma, ele sabia das preferência pessoais de Rimuru. Talvez, aquela fosse a forma de Treyni amolece-lo e fazer com que Rimuru aceitasse a proposta.
"Bem… ele não está completamente errado. É difícil apenas recusar um rosto bonito."
– Eu não tenho grandes planos ou ambições no momento, mas vou considerar o seu pedido. – Declarou, virando-se para continuar seu caminho, antes de parar. – Antes de eu ir… como você sabia que eu era poderoso, apesar de ser um slime?
Treyni emitiu uma risada baixa.
– Foi algo simples. Rimuru-sama não está escondendo sua aura nem um pouquinho. É por isso que nenhum monstro da floresta se atreveu a se aproximar.
Isso fez com que Rimuru congelasse por um momento.
"Er… Daikenja…?"
[Resposta. Monstros emitem naturalmente auras equivalentes a seus níveis de força. Quando mais forte o monstro, mais poderosa e intimidadora é a aura. Monstros de alto nível mantém a aura sobre controle.]
"Me mostre a minha aura com a Detecção de Magia."
[Afirmativo.]
No momento em que Rimuru foi capaz de ver sua própria aura, ele sentiu o rosto esquentar de vergonha. Ele estava praticamente gritando e pisando como um tiranossauro, exibindo uma aura daquele tamanho. Realmente, não era uma surpresa que ninguém tenha se aproximado dele até aquele momento. Prontamente, ele começou a sugar e conter sua aura o melhor que pode, até que apenas uma fina camada estivesse envolvendo seu corpo. Era um pouco diferente, mas era semelhante à técnica de controle de magia, que ele havia aprendido em Hogwarts.
– Você é muito habilidoso, Rimuru-sama. A ocultação de sua aura é praticamente perfeita. – Comentou Treyni, parecendo divertido.
– Tsk… adeus. – Murmurou, continuando a caminhar.
– Aguardarei sua decisão ansiosamente, Rimuru-sama.
Ignorando a dríade, Rimuru voltou a caminhar pela floresta sem rumo certo.
As próximas horas foram menos tranquilas. Com sua aura contida, monstros tentaram atacá-lo. Até o momento em que o sol apareceu no horizonte, Rimuru tinha sido atacado por dez monstros, que ele prontamente devorou, adquirindo suas habilidades: Visão Noturna, Manipulação de Sombras, Garras de Diamante, Resistência a Veneno, Sopro Sonífero, Benção da Noite, Olhar Demoníaco, Invisibilidade e Manipulação de Gelo. A cada monstro que ele absorvia… a cada nova habilidade que ele adquiria… Rimuru sabia que estava reunindo mais e mais poder bruto. Contudo, era apenas poder bruto. Ele precisava refinar todas aquelas técnicas, dominá-las verdadeiramente… caso contrário, ele não passaria de um trasgo com uma clava. Poder bruto e resistência, mas sem habilidade ou inteligência para manejá-lo.
"Daikenja. Você tem acesso a tudo o que eu vi na minha passada?" Perguntou, enquanto usava uma mimetização parcial do Morcego Gigante, convocando suas asas, para conseguir voar até a altura de uma árvore com frutas estranhas. Elas lembravam um pouco o formato de uma pêra, mas eram azuis com listras roxas.
[Afirmativo.]
"Ótimo. Você pode usar essas memórias para encontrar desenvolver ataques? Devo ter muito material de mangás que eu li." Pediu, puxando uma das frutas, olhando-a com curiosidade.
[Analisando possibilidades. Múltiplas probabilidades encontradas.]
"Ótimo, mantenha um registro. Quando encontrarmos um bom momento, irei pedir sua orientação para começar a treinar." Determinou, antes de morder a fruta. Era doce. Apesar de seu formato, o sabor lembrava mais uma manga do que uma pêra. Era bom. Ele não precisava comer, mas com um corpo humano, ele poderia sentir o sabor dos alimentos. Era um prazer que ele estava feliz em possuir.
Rimuru ergueu a fruta para uma segunda mordida, quando sentiu uma presença próxima a ele. Seu Detector de Magia lhe alertava que eram cerca de vinte indivíduos, escondidos nas árvores atrás dele, mas… suas auras eram bastante fracas. Lentamente, ele mordeu a fruta, deixando o sabor adocicado se espalhar por sua língua.
– Ei, é falta de educação espiar os outros. – Declarou, sua voz soando calma e clara, enquanto continuava a comer sua fruta.
Vários guinchos agudos seguiram sua declaração, antes que o som nítido de pés correndo sobre o chão da floresta fosse ouvido. Inclinando a cabeça para trás, Rimuru foi capaz de ver… vinte monstros pequenos, com peles verdes, corpos magros e fracos, carregando armas desgastadas e roupas de pele surradas.
"O que são eles?"
[Goblins. Monstros de classe E.] Goblins? Eles não pareciam em nada com os goblins que ele tinha visto em seu mundo. Além do mais… classe E? Rimuru inclinou a cabeça para o lado ao escutar aquilo. Todos os monstros que o atacaram até aquele momento eram, ao menos, das classe A e B. Nenhum monstro mais fraco ousou cruzá-lo. Isso era estranho.
– O que vocês querer, goblins? – Perguntou, pousando calmamente, enquanto engolia o último pedaço de fruta.
O goblins hesitaram e alguns recuaram dois passos, porém, um dos goblins que estava mais a frente avançou, largando sua espada enferrujada e escudo rachado, antes de se ajoelhar e encostar a cabeça no chão, em uma posição completamente submissa. Imediatamente, os demais goblins o imitaram.
– POR FAVOR, SER DE GRANDE PODER, NOS AJUDE!
Rimuru piscou, olhando para o grupo sem entender o que estava acontecendo. Talvez, devido a sua confusão, a única coisa que ele conseguiu dizer foi:
– Ahn?
Continua...
