Capítulo 9 – A primeira tarefa
Antes mesmo do sol despontar no horizonte Snape estava acordado. Vestia sua calça habitual, assim como a camisa branca que normalmente ficava escondida por baixo do sobretudo azul marinho e seus diversos botões. Os cabelos negros ainda estavam molhados pelo banho recente e deixavam os ombros da camisa úmidos, mas ele não ligava, sua atenção estava inteira no menino que ainda dormia pesado esparramado em seu colchão. Não queria ter que acordá-lo, queria deixá-lo dormir por mais várias horas tomado pelo poder da poção que inibiu toda e qualquer possibilidade de ter pesadelos ou sonhos. Nada mais do que um breu total em sua mente deixando que seu corpo descanse completamente. Ele mesmo sabia o quão era bom dormir sobre esse efeito, só não tomava todo dia a poção por saber que isso o levaria a um coma.
Devagar se aproximou do garoto e estendeu a mão afastando os cabelos de sua testa e vendo a cicatriz em forma de raio.
Ah, se soubesse antes, essa cicatriz jamais teria acontecido.
Ficou mais alguns minutos apenas acariciando os cabelos pretos e rebeldes enquanto deixava sua mente vagar por estradas que jamais poderia caminhar, estradas já andadas por Harry a qual Snape não fazia parte. Como teria sido o bebê Harry? Será que chorava muito ou era um bebê mais quietinho? Quando começou a andar e falar, será que era muito questionador como é hoje? Talvez um dia pedisse permissão para entrar na mente dele e ver essas lembranças, poderia pelo menos ter um pequeno vislumbre do filho que teria se Lillian não tivesse mentido. Fechou os olhos por um instante suportando o sentimento sufocante de ter perdido tanto. Então, depois de imaginar como teria sido ter um pequenino Harry em seus braços, sacudiu o menino devagar o chamando baixinho até que os olhos verdes começaram a despertar.
- Que horas são? - Perguntou Harry meio alheio esfregando os olhos.
- São seis horas, senhor Potter.
Harry parou de esfregar os olhos e os arregalou olhando para Snape. Devagar as lembranças da noite anterior, do seu medo e sua fragilidade voltava o fazendo ficar vermelho de vergonha.
- Mérlin!
- Não precisa se envergonhar. - Disse Snape adivinhando facilmente como aquele grifinório orgulhoso estava se sentindo. Ele também ficaria assim se em algum momento de sua vida tivesse corrido para os braços de alguém quando se sentisse com medo. O orgulho dentro de seus peitos não permitia que se deixassem mostrarem-se tão frágeis, Snape sabia muito bem como era isso. Quantas vezes já não quisera bater na porta de Dumbledore de madrugada? E quantas vezes negara esse desejo por constrangimento de si mesmo. - O senhor estava passando por um momento delicado e precisava de um lugar seguro. Não tem problema ter me procurado. Já disse que pode confiar em mim. E você confiou, agradeço por isso.
- Obrigado, professor. – Falou Harry baixinho olhando para baixo e mexendo nervosamente em suas mãos, as bochechas ainda vermelhas.
Snape o observou por um instante, pigarreou e então se sentou na beirada da cama ao lado dele olhando para o menino que também se sentara mais ereto.
- O senhor me contou que estava com medo devido ter descoberto que a primeira tarefa era com dragões. Muito compreensivo e vamos trabalhar com isso em nossas aulas particulares. Vou te ajudar no que eu puder para que você se iguale a seus adversários e claro, não morra na tarefa. - Um peso acumulou-se na garganta de Snape ao falar em morte, pois esse era agora um grande medo de sua parte. Que algo acontecesse a Harry. Seus dedos se fecharam no lençol onde estava apoiado. - Mas... - Continuou chegando um pouco mais perto e falando mais baixo, suas cabeças quase se tocando. - Sei que tem mais coisas acontecendo com você, coisas que estão atrapalhando seu rendimento e que se você não puder lidar, poderá ser fatal. – Harry ergueu a cabeça encontrando-o tão perto que podia facilmente ver os poros de seu rosto. Um rosto que antes era tão asqueroso e duro e que agora parecia pacífico e amigo.
Harry sentiu, ao olhar tão perto para os olhos negros que aquele pedido era genuíno, pode sentir a preocupação nas palavras quase sussurradas e mais estranho ainda, sentia que queria falar para ele. Era como se uma energia saísse do adulto a sua frente e o aquecesse ao ponto de deixa-lo confortável o suficiente para que as palavras saíssem. Não precisava de Veritasserum para saber que Snape lhe dizia a verdade, seus olhos lhe diziam isso. Eram olhos negros e firmes, mas que traziam gentileza e verdade.
- Eu... - Começou Harry não sabendo como seguir. - É que...
- Você se sente sozinho. – Completou Snape.
- Como sabe?
- Não somos tão diferentes, Potter. Já estive no seu lugar muitas vezes. Com os outros apontando dedos para mim, me xingando e pregando peças detestáveis comigo, o meu agravante era que não tinha amigos, eu não tinha ninguém. - Harry olhava com atenção para o professor, jamais imaginava que algo assim acontecera com ele. Por diversas vezes pensara nele como sendo um sonserino idiota como Malfoy, rodeado de outros idiotas a sua volta. Mas jamais sozinho. - Você tem o senhor Weasley e a senhorita Granger.
- Rony é um babaca! - Vociferou Harry sentindo uma raiva gritante subir por seu corpo e esquentar seu rosto, sua mão se fechou em punho. Seus olhos afastaram-se do professor e se postaram na parede oposta, sentia que poderia começar a chorar de raiva a qualquer segundo e não queria que ele visse isso.
- O senhor Weasley sente inveja de você.
- Inveja do que? – Questionou Harry olhando-o de volta e Snape se assustou ao ver os olhos marejados. - Ele acha que minha vida é maravilhosa? Porque não é não. Tudo que fiz minha infância inteira foi apanhar e passar fome, eu não tenho uma família que me ame como ele tem. - Harry se exaltava ao falar quase gritando, Snape não o impediu, queria que ele falasse. Se precisasse gritar, que gritasse. Se precisasse bater, daria seu braço de boa vontade para que o menino descontasse a ira e ressentimento que havia dentro de seu peito, pois guardar aquilo só o faria tornar-se igual a si e não queria isso para ele. - Meus tios não me dão roupas feitas a mão com a letra do meu nome como a senhor Weasley faz com tanto amor e ele detesta, me dão a roupa velha e enorme do Duda. Minha mãe não prepara uma comida gostosa para mim e garante que eu durma de barriga cheia, minha tia me deixa com fome por dias por derrubar uma maldita torrada no chão! Ou por meus cabelos crescerem sozinhos após ela cortar como se eu soubesse como isso acontecia. Meu pai não me leva para voar de vassoura no quintal, ou ri comigo contando o que houve no trabalho e nem me leva para comprar materiais da escola. – A boca de Snape tremia ao ver o menino gritando o que estava no fundo de sua alma entre lágrimas que jamais deveriam ser derramadas. - Meu tio me bate até me cortar apenas por eu existir e causar raiva nele! Então se ele quer a minha vida que a pegue, eu troco de bom grado.
As mãos de Snape agiram por conta própria puxando o garoto com força e o agarrando em um abraço apertado. Aquele abraço não era apenas para Harry que estava visivelmente abalado com as verdades que gritara, mas para Snape que sentia a raiva consumir sua pele a cada relato de maus-tratos tão parecido com os seus.
- Seus tios vão pagar pelo que fizeram com você. - Prometeu Snape deixando Harry desabar em seus ombros. Seus olhos e mente estavam presos na imagem dos Dursley sofrendo com cruciatus que saia de sua varinha. - Um dia, eles vão pagar. – Finalizou fechando os olhos e apertando o menino em seus braços garantindo que ele estava seguro e que podia chorar o quanto quisesse.
E Harry chorou, seu corpo tremeu e sua garganta rasgou com os gritos que deixou sair enquanto sentia o calor daquele abraço o incentivar a por tudo para fora. Toda a dor e angústia que sentia não apenas naquele quarto ano, mas de toda a sua vida. O professor o apertava e passava a mão por suas costas aquecendo-as e assim o fazendo se acalmar. Seria isso que seu pai faria caso se sentisse triste? Era a primeira vez que sentia algo assim e era justo com Snape, nem mesmo Sirius que era seu padrinho o fizera sentir vontade de se abrir dessa forma. Os minutos foram passando e aos poucos o corpo tenso de Harry foi se acalmando e amolecendo mostrando que a tensão começava a ir embora. No entanto o menino não queria sair dali. Sua cabeça estava apoiada no ombro dele, seus olhos virados para seu pescoço e os braços soltos, levemente apoiados em Snape que mantinha o abraço firme, suas mãos normalmente geladas, agora estava quentes em suas costas e seu queixo apoiava em sua cabeça deixando os cabelos negros fazerem cosquinhas em suas bochechas. Snape não disse nada, nem se mexeu, ficou ali o tempo que Harry precisava.
Aos poucos Harry se mexeu e então os braços de Snape afrouxaram. O menino se sentou de novo e ficou calado enquanto limpava o rosto e respirava fundo.
- Sente-se melhor?
- Sim, mas um pouco confuso.
- Com o que?
- Com isso. - Disse indicando ele e Snape. - Nós. O que está acontecendo? Eu não entendo. Sei que disse que quer me ajudar e agradeço por isso. Mas sinto que há algo mais, tem alguma coisa e eu consigo sentir isso. No entanto não sei o que é.
- Potter, não está acontecendo nada de errado. Eu sei que é estranho, eu também acho, por anos te odiei principalmente devido ao seu pai. - Um nó se fez na garganta de Snape ao falar sobre o "pai" de Harry. - Mas algo aconteceu esse ano e mudou tudo o que eu pensava e sentia de uma forma que eu não sei explicar para você.
- O que aconteceu?
- Nada que você possa saber agora. Talvez um dia eu possa te contar. - Disse o professor olhando intensamente para Harry, o segredo dançando na ponta de sua língua. - Um dia. Por enquanto basta você saber que você se tornou uma pessoa da qual eu estimo muito. - O mestre de poções respirou fundo, achando ser aquele momento o ideal para poder dizer o que queria, pelo menos o pouco que podia. - Eu criei sentimentos por você, Potter, afeto. Gosto que me procure, gosto de te ter por perto. Me preocupo com você. Eu jamais imaginei sentir essas coisas por ninguém, mas eu sinto por você.
- Eu acho que posso entender o senhor. - Disse Harry baixinho olhando para suas mãos. - Eu gostei de começar a jantar em sua sala e aos poucos comecei a gostar de ficar perto do senhor, professor. Sinto que não estou sozinho quando estou aqui.
- E não está, senhor Potter. Não está.
Snape postou a mão no ombro do menino e o viu assentir com a cabeça, um silêncio se seguiu enquanto ambos deixavam as palavras recém declaradas, assim como os sentimentos confessados, fossem digeridos. Então Snape se levantou sendo seguido por Harry que o acompanhou até a sala. O que fora dito ali dentro ficaria ali dentro para todo o sempre.
- Tenho uma reunião com Dumbledore em alguns minutos. A noite vamos falar mais sobre os dragões e a tarefa. Até lá, não se meta em confusão e tente não deixar que as coisas o afetem, o senhor precisará de toda a concentração que puder.
- Vou tentar professor.
- Saia pela passagem atrás da tapeçaria, assim não arrisca dar de frente com algum sonserino gerando pensamentos errados.
- Sim senhor. - Disse Harry se dirigindo a tapeçaria e assim como na primeira vez, acariciou o desenho da corça. - Ela é muito bonita.
- Sim é.
- Tem algum significado?
- O meu patrono é uma corça.
- Ah, o meu é um cervo, devido meu pai. – Disse Harry acariciando a corça e não vendo Snape cerrar os dentes atrás dele.
- Melhor o senhor ir, para não se atrasar para o café.
- Tudo bem. Obrigado, professor. - Agradeceu Harry afastando a tapeçaria.
- Potter! - Chamou Snape antes que o menino se fosse. - Pode vir aqui sempre que quiser ou sentir que precisa de um lugar seguro. Use essa mesma passagem, ela vai te reconhecer magicamente.
- Tem certeza, professor? Esses são seus aposentos pessoais. Eu posso encontra-lo em seu escritório.
Snape olhou para os aposentos e o frio que vinha deles o arrepiou, então olhou para os olhos verdes e viu o calor de sua presença. Um sorriso quase se fez presente em seus lábios.
- Tenho certeza, Potter.
Um sorriso apareceu no rosto de Harry antes dele passar pela tapeçaria e sumir de vista, um sorriso que aqueceu o coração de Snape, um prelúdio de um relacionamento que no fim poderia dar certo. Não poderia?
- O que o trás aqui tão cedo, Severus? - Questionou Dumbledore após abrir a porta com um aceno de mão.
- Espero não tê-lo acordado, diretor. - Disse Snape sabendo pelas vestes do ancião que ele estava acordado fazia tempo.
- Não meu rapaz, não me acordou. Sente-se.
Snape adiantou-se e se sentou em frente ao diretor o encarando com olhos ferinos.
- Diga-me, qual o motivo de sua raiva?
- Acredito que você tenha uma ideia. - Disse Snape respirando fundo para conseguir manter a conversa em um nível respeitoso. - Dragões, Alvo?
- Acho que a tentativa de deixar isso como segredo está se tornando cada vez mais difícil.
- Como pôde aceitar algo assim? Sabe muito bem os riscos que os campeões vão passar. Dragões são criaturas domadas por pelo menos 5 profissionais da área, como um estudante vai passar por um gigantesco dragão, ainda mais um garoto de 14 anos?
- Harry ficará bem, Severus. - Disse Dumbledore calmamente. - Sua preocupação é louvável, mas desnecessária. Temos pessoas competentes postas para que nada de ruim aconteça. E vamos ser sinceros Severus, se você não soubesse que Harry é seu filho, jamais estaria aqui brigando comigo por ele. Além do fato que está treinando-o, e muito bem pelo que imagino.
- Só quero garantir que ele possa competir sem que no final eu tenha que enterrá-lo.
- Dará tudo certo, Severus. Seu filho ficará bem. Agora me diga, como estão as coisas entre vocês dois?
- Ele tem confiado mais em mim, me procurado como uma fonte de segurança e assim me confidenciado o que o aflige. - Nesse momento o rosto de Snape endureceu ao ponto de Dumbledore se mexer na cadeira, ainda que seu semblante permanecesse inalterado enquanto encarava os olhos negros. - Principalmente o que diz respeito aos vermes dos trouxas que deveriam cuidar dele.
Snape sentiu o formigamento nas pontas de seus dedos, mas não fez nada para impedi-lo. Queria sentir aquela sensação, queria deixar que se espalhasse por seu corpo até nublar seus olhos enquanto seus pensamentos eram devidamente ordenados atrás de muros muito bem levantados por sua mente afiada. O ódio gelava sua pele e deixava suas feições duras feito aço, um ódio que direcionava ao velho sentado à sua frente. Sabia muito bem que Dumbledore poderia ler sua mente como o exímio legilimens que era, sem nem mesmo usar uma varinha, queria que lesse, queria que ele visse o quanto o culpava pelo que seu filho passara nas mãos daqueles monstros, o quanto queria que a dor que o menino sentira fosse sentida por ele também.
- Pode me odiar o quanto quiser Severus, eu entendo seu ódio. Um dia espero que possa entender meus motivos de não me intrometer no que acontecia, ainda que precise se passar muitos anos para que isso venha a acontecer.
- Minha vontade agora é...
- Matar. - Completou Dumbledore com a voz tão calma como em qualquer outro momento em que conversara sobre algo banal. - Não pode matá-los, Severus.
Snape respirou fundo e se levantou observando o lago negro da janela onde conseguia ver também seu próprio reflexo. Os braços devidamente cruzados diante do corpo.
- Tenho métodos de matar que nem mesmo o mais expert do Ministério ou da polícia trouxa saberia o que aconteceu.
- Não duvido de suas habilidades, sei muito bem do que você é capaz. Mas lembre-se de Harry.
- Se eu fizesse isso, seria unicamente por ele. Para que nunca mais aquelas mãos nojentas encostassem nele.
- Harry não suportaria.
- Eles o espancavam. - Disse Snape fechando as mãos em punho. - A morte é algo generoso ainda, o garoto entenderia.
- Não Harry. - Dumbledore se levantou ficando ao lado de Snape encarando o lago através da janela. - Aquele menino tem mais honra, pureza e amor do que qualquer outra pessoa que eu já tenha visto. Muito mais do que eu ou você, Severus. Matar os tios dele, ainda que traga um alívio, traria também tristeza. São sangue do sangue dele e Harry é bom demais para pensar que mereçam um castigo tão intenso como esse.
- Não posso permitir que aqueles monstros voltem a tocar nele, Alvo. Só de pensar no que ele já passou e o que pode vir a passar... nem sei o que sinto ao pensar nisso.
- Então diga a verdade a ele, você é o pai biológico. Teria assim a guarda total dele, assim Harry não precisará voltar para os Dursley. A magia que cerca o menino, a magia de Lilian, pode se acabar. - Disse Dumbledore virando-se para encará-lo. - Mas talvez a magia entre vocês possa ser até mesmo mais forte.
Snape pensou por um momento, assim como pensara diversas vezes antes, em contar ao menino. Sonhara com um abraço dele, um abraço de filho, em tê-lo morando consigo onde poderia então cuidar e juntos descobrir como seguir a vida ao lado do outro. Mas esse sonho era algo que não poderia acontecer, não quando a verdade acabaria o afastando dele, talvez para sempre. Era uma dor que não poderia sentir, que não estava disposto a correr.
- Não. - Respondeu virando-se para o diretor. - Harry não saberá a verdade. Ele não pode saber.
"Se não ele irá embora" quase dissera Snape afastando o olhar do diretor para que o mesmo não lesse esse final de pensamento. Essa dúvida, ele guardava para si mesmo.
- Não matá-los não me impedirá de fazer uma visita a eles de qualquer forma.
Snape saiu do escritório sem dizer mais nenhuma palavra. Não queria o aperto no ombro que Dumbledore sempre lhe dera, nem mesmo o sorriso ou os docinhos. Só precisava se afastar.
Harry abriu a porta do escritório de Snape, que agora o reconhecia, com raiva. A fome que sentia mais cedo até mesmo sumira. O mestre de poções levantou a cabeça e ergueu a sobrancelha. Fazia alguns dias que as visitas do garoto não passavam de exercícios pacíficos e bem executados devido a calma que ele apresentava, naquele momento porém era possível sentir a perturbação no ar.
O rosto do grifinório estava vermelho e seus olhos não focalizaram nada a sua frente. Estava devidamente perdido em pensamentos raivosos e confusos. Enquanto andava de um lado para o outro abrindo e fechando os dedos, revia em sua mente os últimos acontecimentos.
Primeiro os olhos claros de Cedrico se arregalando de surpresa ao lhe contar sobre os dragões e então a mão quente do Lufano em seu ombro apertando-o de leve ao agradecer fazendo sua barriga revirar enquanto pedia desculpas pelos bótons que os amigos usavam e então indo embora o deixando confuso.
Depois Rony sendo novamente babaca. A vontade de voar em cima do ruivo era gigante ao mesmo tempo que a raiva de vê-lo se afastando junto a Simas era gritante. E por fim Draco o fazendo dizer o que estava engasgado em sua garganta.
- Você está bem? - Perguntou Snape se levantando e se aproximando do menino.
- Estou, é só mais do mesmo.
Harry não queria ser repetitivo, sabia que Snape estava disposto a ouvi-lo e se sentia bem com isso, gostava até, mas não queria alugar o professor com uma coisa tão repetitiva. Draco era algo que queria lidar sozinho, afinal o sonserino era um dos queridos de Snape e só essa ideia já o deixava mexido, se falasse algo e Snape defendesse o menino, não saberia dizer qual seria a sua reação. Normalmente sentiria raiva pela provável injustiça que o professor cometeria a fim de favorecer seus alunos, mas agora que o mestre de poções estava cada vez mais próximo de si de uma forma que causava um sentimento confortável e um gosto de querer mais, talvez sua reação fosse um pouco mais intensa. Por isso guardou essa informação apenas para si mesmo.
- Eu tenho uma ideia para treinarmos. – Disse querendo mudar de assunto.
- Que ideia? - Perguntou Snape cruzando os braços diante do peito.
Harry mordeu o lábio inferior pensando em como poderia dizer sem comprometer Moody que ofereceu ajuda lhe contando sobre os dragões, que já sabia, mas fingiu surpresa. Se contasse a Snape que Moody sabia e queria ajudar poderia prejudicar o professor.
- Sei que não posso levar nada mais do que uma varinha para a primeira tarefa, mas estive pensando que apesar de estar indo bem nos feitiços, o que mais me dou bem é em voar. Eu poderia treinar convocação para caso eu precise, possa contar com a vassoura para pelo menos fugir.
Snape observou Harry por alguns segundos antes de respirar fundo e soltar os braços.
- Podemos treinar sim, sempre melhor ter mais de uma opção.
- Foi o que pensei.
- Hoje vou jantar nos meus aposentos.
- Ah, tudo bem. - Respondeu Harry rapidamente ficando sem graça. - Eu vou para o salão principal então.
- Ou pode me seguir e jantar comigo.
- Nos seus aposentos?
- O senhor já dormiu duas vezes nele, jantar não seria algo tão estranho assim.
Harry riu espontaneamente fazendo com que Snape sentisse seus próprios lábios querendo se erguer em um sorriso, no entanto, sorrir não era algo comum em sua vida, nem mesmo se lembrava a última vez que sorriu, por isso deixou que aquela imagem se gravasse em sua mente e então, mantendo o rosto inexpressivo, pediu que o menino o seguisse. Passou por algumas passagens secretas até sair diretamente em seus aposentos por uma segunda tapeçaria, dessa vez com o símbolo da Sonserina. Harry não disse nada, mas entrar novamente naquele local trouxe a si um sentimento confortável, parecia familiar, quase aconchegante, mesmo sendo tão simples e vazio de decoração além de livros e velas. Era quase como quando voltava para Hogwarts depois das férias.
O jantar foi posto magicamente na sala de jantar que havia atrás de uma porta que Harry não tinha reparado existir.
- Seus aposentos são bem grandes. Os dos outros professores são grandes assim também?
- Eu tenho cara de quem fica entrando nos aposentos dos outros professores? – Perguntou Snape antes de tomar um gole de vinho.
- Não, definitivamente não tem.
- Todos os professores tem aposentos conforme seus gostos. Somos bruxos, então ampliamos magicamente conforme a necessidade. Essa sala de jantar não existia até ontem.
Harry ergueu as sobrancelhas e olhou mais uma vez para o recinto. Era simples e bonito. A magia era algo que ainda o deixava de boca aberta.
O restante do jantar se deu com poucas falas. Ambos aproveitaram a comida deliciosa e depois foram para a sala onde Snape fez os móveis sumirem com um aceno de varinha e então começaram a praticar o feitiço de convocação. As horas passaram rápido e quando o relógio mostrou ser meia noite Snape acenou a varinha devolvendo cada móvel para seu lugar e então acompanhou Harry até a tapeçaria.
- Professor?
- Sim.
- Acha que eu conseguirei passar pela primeira tarefa?
Snape aproximou-se um passo e o encarou por alguns segundos. Os olhos verdes estavam arregalados e ainda traziam medo em suas íris, mas havia mais ali dentro, havia garra e determinação, talvez até mesmo prepotência.
- Eu te treinei, senhor Potter e o senhor se saiu melhor do que pensei. Não vejo porque não conseguir.
Harry sorriu e então passou pela tapeçaria de corça. Snape respirou fundo. Uma semana era o tempo que tinham até a primeira tarefa. Uma semana.
Uma semana que passou rápido demais para o gosto de Snape. Naquele dia de manhã o professor se dirigiu ao grande salão para o café da manhã e o encontrou barulhento com adolescentes excitados com a tarefa que aconteceria em duas horas. Ao se sentar olhou para seu prato e só conseguiu pensar que seu estomago estava embrulhado demais para que conseguisse digerir qualquer coisa. Seus olhos esquadrinhavam o salão atrás de Harry, o procurava em cada grifinório que passava pelas portas duplas.
- Acalme-se Severus. – Sussurrou Minerva ao seu lado. – Está tão tenso que consigo sentir.
- Estou é?
- Vai dar tudo certo. Harry foi bem treinado e, por Merlin, aquele menino tem o dom de conseguir se safar de coisas piores do que um torneio. Tenha fé nele. Ele tem sangue de um grande bruxo nas veias, isso não vai falhar no momento certo.
- Minerva não puxa meu saco agora, não estou com cabeça para isso.
- Você nunca está meu caro. – Disse McGonagall rindo e postando a mão em cima da dele. – Vai dar tudo certo.
Era o que desejava.
Harry chegou no café da manhã acompanhado de Hermione que estava repassando com ele todos os feitiços que haviam treinado juntos em todos os momentos possíveis em salas vazias, menos a noite quando treinava com Snape.
- Você se sairá bem, Harry, tenho certeza disso. – Disse a amiga se sentando ao seu lado e empurrando algumas torradas com ovos para seu prato. – Precisa comer.
- Não sei se consigo.
- Consegue sim. Precisa estar bem alimentado para enfrentar... – Hermione olhou em volta e pigarreou. – enfrentar o que tiver a sua frente.
Harry deu um sorriso amarelo e colocou a torrada na boca, parecia velha e insossa, o que não era verdade, mas seu nervosismo fazia com que sentisse isso. Foi difícil, mas comeu tudo que Hermione colocou em seu prato e copo e então, quando o sinal tocou, se ergueu para ir até a área dos campeões no campo de quadribol. Tentou olhar para Snape e buscar a segurança que precisava para por um pé depois do outro, mas todos a sua volta o engolfaram e o levaram para fora. Hermione segurou sua mão e o guiou entre a multidão diretamente para a tenda dos campeões.
- Não posso entrar. – Disse a menina dando alguns pulinhos nervosos. – Boa sorte Harry, você vai conseguir.
Hermione então se adiantou e abraçou Harry apertado. O menino gostava dos abraços de Hermione, eram raros, mas eram tão sinceros que quando acontecia desejava que não acabassem. A menina, porém, soltou seus braços, acariciou o rosto do amigo e voltou para o fluxo de alunos que iriam para as arquibancadas. O grifinório entrou na tenda e encontrou Cedrico já sentado em uma cama de montar. O lufano se levantou e se aproximou de Harry postando a mão nos ombros do menino. Uma sensação estranha se passou pelo corpo do mais novo e ele não soube dizer ao certo porque.
- Está bem, Harry? – O menino afirmou balançando a cabeça achando que se abrisse a boca vomitaria. – Que bom. Vai dar tudo certo, Harry, vamos nos dar bem e chegaremos ao final juntos.
Novamente Harry balançou a cabeça e então sentiu uma sensação de abandono quando o lufano se afastou e voltou a sentar-se na cama de armar.
Logo depois os outros campeões e o comitê do Ministério chegaram. Os dragões foram divididos e a primeira tarefa do torneio Tribruxo finalmente começou. O primeiro a ir foi Cedrico que antes de sair da barraca olhou para Harry, acenou com a cabeça e deu um leve sorriso. O grifinório engoliu em seco desejando pela primeira vez que o lufano conseguisse passar ileso pelo dragão.
Fleur e Krum foram os próximos. Já era quase sua vez quando ouviu o barulho do pano da barraca e ao olhar encontrou Snape adentrando o local. O professor se aproximou e estendeu a mão, Harry postou a sua em cima da dele e encarou seus olhos. Havia muito medo nas esmeraldas, medo completo do desconhecido e de falhar. Snape não disse uma única palavra, apenas indicou para que Harry o acompanhasse em um exercício de respiração. Um que já fizeram várias vezes. Snape se postou atrás do menino segurando em seus ombros e encostando as costas dele em seu peito, então respirou fundo fazendo-o acompanhar o movimento de subir e descer de seu peito, deixando o ar entrar em seu corpo e encher suas células de oxigênio. Em poucos segundos a tensão que Harry sentia começava a se dissipar e a coragem que sempre tivera em suas veias emergiam para seus poros. O menino olhou para a entrada da barraca sabendo que em segundos o sinal tocaria e ele teria que passar por ali direto para o encontro do dragão.
- Obrigado. – Sussurrou virando-se para trás, mas já não havia mais ninguém. Agora era somente ele.
O sinal tocou exatamente no momento em que Snape se sentara ao lado de Minerva. Suas mãos com os dedos entrelaçados e descansando em seu colo, seu rosto sem passar um único sentimento, ao contrário de seus olhos que traziam preocupação e tensão em sua superfície. Minerva estava o completo oposto de Snape, enquanto o mestre de poções mostrava-se sem preocupações, como se mostraria antes de saber a verdade, a vice diretora de Hogwarts já estava com a mão no coração e os olhos arregalados. Tudo que Snape escondia, Minerva escancarava.
- Olha ele lá.
Harry acabara de sair da tenda dos campeões e olhava para o cenário a frente. Viu o dragão adiante, um Rabo Corneo Ungaro muito grande que protegia seus ovos ficando praticamente em cima deles. O menino travou por um segundo antes de puxar todo o treinamento que teve durante todos esses meses e então colocá-los em prática. Iniciou com o feitiço de levitação tentando levitar o ovo, mas o mesmo nem mesmo se mexeu, muito menos quando o convocou. Com um muxoxo de frustração percebeu que o ovo era encantado e não poderia ser pego com magia, teria que chegar até o ninho e pegar com suas próprias mãos. Pensando em outra estratégia Harry atravessou para o outro lado do campo e começou a jogar o máximo de feitiço que sabia e conseguia, inclusive usando levitação para tacar objetos da arena em cima do dragão, mas parecia que nada o fazia sair daquele local e abandonar o ninho.
Aos poucos ouviu as vaias vindo da arquibancada com sonserinos. Aquele som entrou em seus ouvidos como lava saindo de um vulcão e destruindo tudo em seu caminho. Estava fazendo papel de bobo em frente a escola inteira, possivelmente estava parado há muitos minutos sem nem reparar, mas a escola reparava. Sentindo a garganta apertar e uma raiva subir por suas entranhas Harry se aproximou perigosamente do dragão como se quisesse simplesmente tentar chegar ao ninho sem ajuda de nenhum feitiço. Mas o dragão, apesar de parecer estar o ignorando, estava completamente atento ao menino e bateu o rabo com força onde Harry estava a um segundo, pegando-o quase de raspão se não tivesse pulado para o lado em um rochedo.
Na arquibancada Minerva segurava-se no braço de Snape e o apertava conforme via as vãs tentativas do menino de se aproximar do ninho e as perigosas investidas do dragão com o rabo tentando afastá-lo.
- Esse moleque vai morrer dessa forma. – Balbuciou Snape vendo aquela cena com raiva. Do que adiantara todo o treinamento que fizera com ele, se na hora que ele precisava se concentrar e pensar, não fazia isso?
Como se seus pensamentos estivessem ligados a Harry, o menino se escondeu atrás de uma grande rocha e se abaixou fechando os olhos e respirando fundo. Em sua mente apareceram as imagens de Snape, Moody, Hermione e Rony. Cada um trazendo um sentimento e pensamento diferente para si, mas completando-se em um todo. Snape lhe trouxe a calma e concentração, Moody a ideia de chamar sua vassoura fazendo-o erguer a varinha e convocá-la. Hermione trazia a coragem e Rony a raiva e vontade de jogar na cara do amigo que ele era um idiota e que jamais arriscaria sua vida assim de propósito. O tempo de se deixar sentir todos aqueles sentimentos fora o necessário para então ouvir o barulho característico de sua Firebolt rasgando o vento em sua direção.
- O que ele está fazendo? – Perguntou Minerva ainda segurando fortemente o braço de Snape.
- Está pensando. – Disse Snape estreitando os olhos e fechando as mãos em punho enquanto finalmente sentia que o menino poderia conseguir uma vitória.
Foi pensando e se concentrando que Harry conseguiu sobrevoar o dragão em sua vassoura o fazendo tentar mordê-lo. Hermione tinha a mão na boca de tanta preocupação e emoção. Rony, que estava ao seu lado mostrava um semblante igualmente preocupado, mas nenhum dos dois traziam em seu coração a exasperação que Snape sentira quando o dragão se soltou da corrente e voou atrás de Harry pela arena passando pela arquibancada e indo em direção ao castelo.
O rabo do Rabo Corneo destruiu parte da arquibancada onde estavam os professores, fazendo Snape puxar Minerva com força para o lado evitando que se machucasse. A vice diretora estava agarrada ao homem, seu coração disparado e suas roupas tortas.
- Obrigada, Severus. – Disse se ajeitando.
Snape não a estava ouvindo. Seus olhos estavam fixados na figura do dragão no horizonte voando e gritando atrás de um pontinho pequeno a sua frente, um pontinho que era seu filho. Harry estava distante de si e isso o deixava impossibilitado de fazer qualquer coisa para ajudá-lo. Era aterrorizante saber que o menino poderia morrer naquele instante se o dragão chegasse muito perto e cuspisse fogo, ou se mordesse sua vassoura podendo assim derruba-lo ou devora-lo. O pavor tomou conta de seu sangue o deixando frio, sumindo com todo o calor de seu corpo. O homem estava com a varinha em mãos e olhava para o horizonte onde não mais podia vê-los com olhos arregalados. Seria aquela a última vez que veria Harry? Perderia seu filho sem nem mesmo ter tido a chance de contar-lhe a verdade?
Não, não podia pensar isso. Harry era imprudente e as vezes tapado, mas ele conseguiria fugir do dragão, sua destreza na vassoura era incrível e ainda que o sangue grifinório batesse forte, havia sangue sonserino em suas veias e isso o faria pensar em como salvar sua pele.
McGonagall se aproximou ficando ao seu lado e sem que ninguém visse ou percebesse tocou na mão de Snape o fazendo fechar os olhos por alguns segundos. O calor da mão daquele que poderia chamar de amiga o fizera voltar dos devaneios.
- Os treinadores de dragão estão prontos para alçar voo e ir atrás dele caso não apareça em um minuto. Mas ele vai aparecer, Severus.
Snape não disse nada, seus dentes estavam cerrados com força igualmente sua mão fechada em sua varinha. McGonagall continuou ao seu lado com a mão postada em cima da dele aproveitando do fato de ninguém estar prestando atenção para apertá-la e junto com Snape pedir a Merlin que o garoto voltasse.
Um minuto, era isso que Harry tinha para aparecer, apenas 60 segundos, um tempo ínfimo em certas circunstâncias, mas que naquele momento parecia uma verdadeira eternidade.
O mestre de poções estava quase conjurando uma vassoura para ir atrás do menino ele mesmo quando toda a arquibancada explodiu em gritos e aplausos. No horizonte, voando meio torto, vinha Harry em sua vassoura. Snape quase deu um passo para trás quando finalmente deixou o ar que não sabia estar segurando sair e um novo entrar enchendo-o de vida. Minerva aplaudiu e então olhou para Snape com um sorriso.
Era a primeira vez que via Snape daquela forma, completamente preocupado e emocionado. Podia sentir a emoção do homem ao seu lado e sentia que finalmente aquele homem encontrara o caminho de sua felicidade. Um caminho que vinha na vassoura, com o braço encostado no corpo evidenciando o machucado e então voara direto para o ninho pegando o ovo de ouro e fazendo a arquibancada explodir uma segunda vez. Viu Snape respirar fundo e então a olhar mostrando o quanto aquele menino importava para ele.
- Vamos, vamos para a tenda dos campeões. – Disse Minerva.
Ao chegar a tenda dos campeões Snape sentiu uma enorme vontade de ir até o menino e o puxar para perto de si, olhar cada canto dele e garantir que estava bem antes de o abraçar. Mas reprimiu seu desejo e apenas se manteve distante com as mãos para as costas e observou Madame Pomfrey cuidar de seu ferimento no braço.
- Muito bem campeões, muito bem. Podem ir descansar. – Disse Dumbledore após passar o placar dos quatro.
Harry se levantou pegando a vassoura com um braço e o ovo com o outro que Madame Pomfrey curara. O menino se dirigiu a saída, mas não sem antes olhar para Snape e sentir dentro de si uma vontade igual a do mais velho de correr até ele, abraça-lo e enfim sentir a glória de sua vitória.
Uma glória que os grifinórios fizeram questão de comemorar no salão comunal. A bagunça foi enorme regada a comida e bebida roubada da cozinha por Fred e George. Harry estava mais do que feliz, conseguira mostrar que tinha competência para ganhar uma tarefa do torneio, o que faria aqueles malditos botons diminuírem e mais ainda, Rony voltara a falar consigo. Sentia falta do amigo, por mais idiota que ele fosse. Hermione abraçou aos dois e chorou em seus ombros, a menina sentia falta deles juntos e essa separação a afetara mais do que Harry imaginava.
- Prometam que não brigarão por algo tão idiota de novo.
- Prometemos, Hermione. – Disseram os dois juntos.
A festa estava maravilhosa e Harry amara sentir-se tão importante, mas havia mais uma vontade em seu pensamento. Algo que o fez ir até o quarto e pegar a capa de invisibilidade. Então saiu pelo quadro da mulher gorda quando todos estavam distraídos e rumou até o primeiro andar onde passou pela passagem secreta que levaria diretamente aos aposentos de Snape. A tapeçaria afastou-se para que passasse e então o viu em pé diante da lareira olhando para as chamas. Aos poucos se aproximou e ficou ao seu lado olhando para o fogo também. Sem dizer nada Snape ergueu a mão e puxou sua capa revelando o menino.
- Pensei que estaria comemorando o seu feito hoje. – Disse Snape virando para olhá-lo.
- Eu estava, a sala comunal está um alvoroço. Fred e George sabem dar uma boa festa de comemoração.
- E por que não está lá?
- Não seria justo. – Disse o olhando meio sem jeito. – Comemorar sem você.
Pela primeira vez um sorriso pequeno, apenas um levantar simples no canto dos lábios apareceu no rosto de Snape. O professor não disse nada, foi até o bar, pegou dois copos com bebidas e trouxe de volta entregando um ao menino.
- Não se alegre. O seu é cerveja amanteigada.
- E o seu o que é?
- A vantagem de ser um adulto.
Harry sorriu e brindou sua vitória junto ao homem. Ambos beberam de um gole suas bebidas e então voltaram a olhar para a lareira. Depois de alguns segundos Harry deu um passo para o lado aproximando-se de Snape que não deixou aquele gesto passar despercebido. Apesar de não saberem ao certo como lidar com os sentimentos que borbulhavam dentro deles, ambos escolheram igualmente deixar que as coisas acontecessem, sempre amparados pelo fato de que o que acontecia ali dentro era da conta apenas dos dois. Por isso Snape se aproximou mais um passo e então colocou o braço sobre o ombro de Harry puxando-o para perto e então encostando seu queixo na cabeça do garoto. Não demorou muito para que Harry deixasse a cabeça descansar no peito do homem e passasse seu braço pelas costas dele. Era um abraço estranho, muito menos íntimo do que o que tivera anteriormente no quarto do professor, mas muito mais significativo.
Os olhos negros e esmeraldas continuaram assistindo as labaredas de fogo na lareira sem perceberem o laço que era dado entre suas almas, um laço permanente e difícil de soltar.
