Se havia uma palavra que definia Lay'ti, segundo a própria concepção dela de como se via, era confusão. Primeiro, ela tinha uma responsabilidade enorme desde criança, mas o dia que assumiria essa responsabilidade, por mais que crescesse e fosse mais velha agora, parecia não chegar nunca. Crescer lidando com essa ideia a deixava confusa.

Segundo, todo jovem Omaticaya tinha que se tornar um caçador para ser parte do povo efetivamente. Apesar de bem instruída por uma das melhores guerreiras e caçadoras da tribo, ela mal tinha sobrevivido ao seu ritual nas Montanhas Aleluia. Tinha cicatrizes no seu braço de mordidas do seu ikran para provar isso. Tinha sido uma luta da qual ela achou que não sobreviveria, mas ali estava ela, viva, parte do povo, de verdade, mesmo não sendo a mais prodigiosa das caçadoras.

O que fazia Lay'ti se sentir útil de verdade era cozinhar e aprender como ser tsahik diretamente com Mo'at, a quem ela admirava muito, as duas tinham criado uma conexão forte desde que Lay'ti era só uma criança, por mais de um motivo.

A jovem se lembrava de ver o Olo'eyktan confuso, olhando para ela, e para o menino ao seu lado, filho dele. Um Neteyam de dez anos, calado, tão constrangido quanto ela. Ao olhar de relance para cima, viu Jake encarando os pais dela.

-Precisam me perdoar pelo que vou falar, mas Isso me parece estranho, forçado - ele disse com toda cautela possível - ela é só uma criança, eles são crianças, me parece injusto tirar essa decisão da vida deles.

-Ma'Jake, é a tradição, para eles seria uma honra fazer parte da nossa família, e eu sinto que isso é da vontade de Eywa - Neytiri, a esposa do líder tentou apaziguá-lo, explicando da melhor maneira que podia - se isso o conforta de alguma forma, eles podem crescer juntos, vamos nos certificar de que ao menos uma amizade exista entre os dois, para que quando o momento da união chegar, seja mais agradável aos dois.

Sem ter muito para onde ir, Jake apenas assentiu, terminando de fazer o acordo com Mignah e Tupi, os pais de Lay'ti. A menina em questão por sua vez, estava confusa.

Ela olhou uma última vez para Neteyam de forma perdida, sem ter muita ideia do que estava acontecendo, indo embora dali com seus pais.

-O que foi que aconteceu? Por que o Olo'eyktan estava tão irritado conosco? - ela quis saber ao chegar no seu próprio espaço familiar.

-Não estava irritado com você, é que como ele não cresceu como um Na'vi é difícil entender nossos costumes - a mãe dela explicou, com toda delicadeza possível.

-Tomara que isso não se repita - murmurou o pai dela, preocupado - mas o acordo está feito, isso é que importa.

-Que acordo? O que está acontecendo? - a menina quis saber.

-Minha pequena Lay'ti, me escute com atenção - Tupi se abaixou na altura dela, acariciando seus cabelos - nossa família foi abençoada, você será a esposa de um Olo'eyktan um dia, tsahik do povo Omaticaya, quando Neteyam for líder.

-Quer dizer que eu vou me casar com ele? Mas eu nem o conheço direito, eu sei quem ele é, mas ele não é meu amigo - Lay'ti protestou, processando o máximo que sua mente de 9 anos conseguia entender de toda a situação.

-Você tem as mesmas preocupações do Olo'eyktan, agora entendo - a mãe dela sorriu, compreensiva - pra isso, meu bem, você terá que ser amiga do Neteyam, é bom que estejam juntos, para conhecerem melhor um ao outro.

-Entendi - Lay'ti abaixou a cabeça, ainda processando o que tudo aquilo podia significar.

Sua mente de criança simplificou tudo para uma simples coisa, ela seria amiga de Neteyam agora.

Não era difícil simpatizar com as crianças Sully, para início de conversa, eles não eram nem um pouco entediantes, com suas brincadeiras de subir e descer, competições e provocações um com outro que eram até divertidas. Neteyam fez questão de inclui-la no grupo, sempre a chamava para brincar, contava como estava se tornando um pescador melhor com as aulas do pai, sobre as coisas que achava interessante sobre o povo do céu. Assim, Lay'ti cresceu com as crianças Sully sendo amigas dela, e principalmente, o mais velho deles, como um cumprimento da missão que havia sido dada a ela.

A maior confusão que Lay'ti tinha presenciado até agora tinha começado num dia comum.

-E aí? Bom dia! - Neteyam a tirou de seus afazeres, separando algumas ervas que tinha colhido mais cedo.

-Bom dia, eu vejo você, como você está? - ela o olhou rapidamente, esperando sua resposta, disposta a ouvi-lo.

-Está tudo bem, estou saindo pra caçar, pretendo pegar um yarik enorme e depois disso, te pedir um favor - ele propôs de um jeito nobre, sem parecer provocativo, como Lo'ak sempre era, era uma das coisas que Lay'ti admirava no mais velho.

-Pode pedir, se eu puder te atender - ela sorriu, esperando que ele concluísse sua ideia.

-Vou trazer a caça direto pra você, pode deixar uma parte separada pra mim, quer dizer, pra nós - ele se explicou, parecendo levemente constrangido - você sabe que eu adoro seu tempero.

-Ah sério? Tudo isso por causa disso? - Lay'ti acabou rindo e dando o tapinha no braço dele - vocês dizem que eu cozinho bem e tudo mais, mas sério, uma Omaticaya que não é tão boa caçadora assim, é um pouco vergonhoso, não acha?

-Não se preocupa - Neteyam estalou a língua e balançou a cabeça - você é boa em outras coisas, que também são importantes pro nosso povo, e não se preocupa, tsahiks tem ocupações mais parecidas com as que você já faz.

A menção à futura posição dela fez os dois estremecerem no breve momento. Era comum ele brincar com o que o deixava nervoso, usar o humor para lidar com coisas difíceis, mas a verdade é que ele achava o noivado arranjado entre eles constrangedor. Ele sabia que um dia teria que se casar, mas perder o direito de escolher quem quisesse antes mesmo de poder fazer isso era confuso, estranho. Quando esse tipo de contestação enchia sua cabeça, Neteyam fazia questão de relembrar o que se tornou um mantra desde que tinha tomado consciência plena da situação.

"Você nasceu para ser Olo'eyktan, é tradição que sua esposa seja escolhida desde cedo, esse é seu dever como futuro líder dos Omaticaya". Depois de toda essa seriedade, ele acrescentava um pensamento de alívio como "você poderia se casar com alguém bem pior que a Lay'ti, ao menos ela é legal."

Depois de recapitular isso tudo, ele suspirou, voltando ao momento presente.

-É, acho que sim - Lay'ti respondeu quietamente, com suas próprias reservas sobre o assunto - acho melhor você ir logo, não quero ter que cozinhar seu yerik tão tarde, bom sorte na caça.

-Obrigado - ele agradeceu e dando um último cumprimento à noiva, deu as costas para ela, pronto para encarar o que estava por vir na floresta que amava tanto.


A/N: Bom, está aí meu primeiro capítulo de uma nova história com o Neteyam. Dos personagens novos, com certeza ele é um dos meus preferidos, o que eu mais me identifiquei com certeza, por ser uma irmã mais velha como ele. Espero que tenham gostado, vou tentar atualizar ao menos 3 capítulos por semana, muito obrigada e nos vemos na próxima!