Tudo parecia seguir o esperado, com a família acordada, compartilhando a primeira refeição do dia, se não fosse pelo silêncio e sobriedade de Jake e Neytiri. Conforme o dia foi passando, a tensão desse momento inicial foi se intensificando cada vez mais, até que as crianças pudessem descobrir o que estava acontecendo. No meio do dia, Jake os reuniu, suspirando antes de conversar.

-Descobrimos algo horrível ontem à noite, eu e sua mãe, e por causa disso, nós conversamos sobre o que poderíamos fazer, pelo bem de vocês, pelo bem do povo - ele explicou - o povo do céu está de volta e eu sei que nada de bom pode vir disso, por isso eu tenho um plano, e preciso contar com vocês pra que dê certo.

-O que é? - Neteyam foi o primeiro a se prontificar, enquanto seus irmãos ainda estavam em choque, silenciosos.

-Nós vamos nos mudar para as montanhas, construir uma fortaleza lá até sabermos das intenções deles, se ficarmos, vamos estar expostos - Jake contou seu plano - eu reuni o povo hoje, eles já sabem sobre tudo isso, nós vamos começar a mudança em breve, então organizem tudo que puderem para sairmos daqui o mais rápido possível.

-Mas pai, a gente não pode deixar a floresta assim, essa aqui é a nossa casa! - Kiri teve coragem de protestar no momento, não conseguindo imaginar sua vida longe dali.

-Eu sei, não é justo com vocês, não é justo com ninguém, mas é o melhor que eu posso fazer no momento, ficar seria perigoso, nós precisamos de vantagem antes que algo pior aconteça - ele deu mais argumentos, soando claramente triste, era uma decisão difícil, com consequências tristes, mas era o que podia fazer.

Com certa relutância inicial, mas concordando afinal de contas, as crianças Sully junto com todo povo Omaticaya fizeram o que seu pai pediu. Ao ouvir a notícia, a reação de Lay'ti foi de choque, medo, tristeza. Mais uma vez em sua vida, a confusão inundava sua mente.

-O que foi dito pelo Olo'eyktan? Isso é verdade? O povo do céu de volta e nós termos que nos mudarmos? Isso é uma loucura, ele que não me ouça, mas é loucura - a jovem compartilhou sua opinião com os pais - nós sempre vivemos aqui, eu entendo que é uma questão de segurança, mas como vamos viver nas montanhas?

-Vai ser uma vida nova, meu bem, eu sei que é difícil, acredite, ninguém quer se mudar, mas é para o melhor - Tupi tentou consolá-la.

-Tudo mostra que o Olo'eyktan tem um plano - Mingnah replicou - vamos acreditar que esse plano dará certo.

-Está bem, que a Grande Mãe continue nos protegendo - Lay'ti suspirou, tentando buscar uma forma de lidar com a mudança.

O que a ajudou a entender que tudo aquilo era bem real foi organizar suas coisas, encher as bolsas com seus pertences, ajudando os pais nessa tarefa também, como também separando suas preciosas ervas e panelas. Uma noite anterior antes da mudança, recebeu a visita de alguém que só até aquele momento percebeu que estava sentindo falta.

-Eu vejo você - ela respondeu a Neteyam, observando-o para ver se ele estava bem.

-Eu vejo você - disse ele - me desculpe não ter vindo antes, tínhamos muito que arrumar.

-Eu sei, eu também estava ocupada, como estão todos? - ela quis saber.

-Contrariados, mas aceitando a ideia, agora que é inevitável - ele deu de ombros.

-Sabe, depois de um tempo, acho que comecei a entender a escolha do seu pai, ele é um homem sábio, sempre foi - ela comentou - então meu pai me disse pra acreditar no plano que ele tem, é só que essa questão toda de mudança, de adaptação, me deixa ansiosa, nervosa.

-Olha, eu também, se eu posso te confessar uma coisa, meu pai parece bem seguro na frente do povo, mas ele está bem preocupado - Neteyam confiava o bastante em Lay'ti para contar algo assim - ele mencionou sobre treinamento, eu e Lo'ak aprendermos a usar armas, estratégias táticas, isso me assusta.

-Ma'Eywa... - Lay'ti suspirou, agora ainda mais preocupada - não acho que ele colocaria vocês em perigo, ele só está se prevenindo.

-Eu sei, ao menos por agora, não temos notícias de ataque ou algo assim, é só o meu pai com medo do que pode acontecer, ao menos por enquanto, vamos ter um pouco de paz, para nos instalar nas montanhas pelo menos, é nisso que estou focando agora - ele refletiu sobre tudo aquilo, encontrando uma motivação no meio daquela tarefa relutante.

-É, acho que é o que podemos fazer - Lay'ti concordou.

-Você precisa de ajuda pra carregar alguma coisa amanhã?- ele ofereceu, sendo tipicamente gentil.

-Acho que não, só precisamos arrumar tudo à bordo dos ikran - ela explicou.

-Eu vejo você amanhã então, descanse, Lay'ti - ele disse, já se despedindo, depois de se certificar que ela estava bem,

-Você também, ma'Neteyam - ela recomendou igualmente.

Trocaram um último sorriso antes que ele partisse. Na manhã seguinte, ali estava Lay'ti junto com todo seu povo, numa longa procissão pelos céus, os ikran voando até seu local de origem. Por um breve momento, Lay'ti pensou que era como uma volta ao lar para eles.

A galeria de cavernas em que ficariam já estava escolhida e então, lentamente, todos começaram a desembarcar, arrumando suas coisas, dando a forma de uma comunidade àquele lugar inusitado. Depois de ter sua tenda pronta, tudo que Lay'ti queria era um boa noite de sono. Deixou se despencar na esteira, completamente cansada, mas interrompida por certos amigos, o que a deixou um pouco irritada a princípio.

-Oi, Lay'ti! - Spider a cumprimentou, animado, agitado, a única pessoa que poderia ainda ter energia numa hora como aquela.

-Spider, eu não sabia que ia vir pra cá, pelo menos não hoje - ela se sentou lentamente, chegando a coçar os olhos para ficar mais desperta.

-Eu não ia perder a mudança, não vão se livrar de mim assim tão cedo - ele disse brincando, num tom orgulhoso.

-Ninguém falou em se livrar de você, é bom te ter por aqui - ela acabou sorrindo, escolhendo acolher o menino macaco ao invés de afastá-lo bem quando queria descansar - o que tá achando disso tudo?

-Ah acho que legal, mas meio diferente, né? Todo mundo reclamou sobre deixar a floresta, mas ainda temos floresta aqui por perto, poderia ser pior - ele tentou ver algum lado bom naquilo tudo.

-É, pode ser - Lay'ti tentou achar algum conforto naquilo tudo - você já encontrou com o restante do pessoal?

-Ah sim, na verdade, eu vim ver como você tava e eles me pediram pra te pedir se não podia ajudar com a comida - ele disse, um pouco envergonhado.

-Ah um bando de interesseiros os filhos do Olo'eyktan, não acha? - ela acabou rindo, um tanto indignada, mas se levantando para atendê-los, se ocupar com algo ajudaria a lidar melhor com a presente realidade.

-Eu concordo - Spider respondeu a ela, também rindo.

Com os dois andando juntos, Lay'ti se apegou à ideia de que ao menos coisas boas do passado, como a amizade que tinha com o menino humano e os Sullys, não mudaria, nem mesmo morando em um novo lugar.