Jogar-se de cabeça naquele mundo novo podia ser bastante assustador, mas de alguma forma, Lay'ti foi recompensada por isso. Toda a beleza do fundo do oceano era encantador demais, como um motivador para viver ali, conforme os costumes dos Metkayina. O que não era tão agradável assim era a constante provocação de Aonung e seus amigos, que não ajudava em nada num processo que era bem complicado. Ao menos, Tsireya era um alento no meio de tanta irritação.

Depois das primeiras lições sobre respiração com ela, Lay'ti sentiu que conhecia a moça há muito tempo, talvez pelo fato de ela ser tão aberta com eles, mesmo sendo forasteiros.

-Tsireya, eu gostaria de agradecer por tudo que está fazendo por nós - a noiva de Neteyam fez questão de agradecer.

-Ah não há de quê, de verdade - a outra moça sorriu, um pouco constrangida com a gratidão demonstrada - eu posso imaginar o quanto deve ser difícil viver de um jeito completamente diferente do que estava acostumada.

-É, não é nada fácil mesmo - Lay'ti se permitiu um suspiro - você viveu a vida toda aqui, não foi?

-Sim - Tsireya confirmou.

-Então é difícil pensar em viver de outra maneira que não seja como você vive desde que nasceu, acho que tentar imaginar isso a faz entender melhor o que estamos passando - completou a Omaticaya.

-Ainda assim, eu espero que algum dia enxerguem nossa vila como um lar - respondeu Tsireya, tendo esperança que isso pudesse acontecer.

-É, eu também - Lay'ti replicou quietamente.

-E se não for te incomodar, posso perguntar uma coisa? - a Metkayina preferiu tentar mudar de assunto.

-Acho que sim - a outra foi paciente com ela.

-Como é a floresta? Imagino que muito diferente daqui - Tsireya perguntou, com claro entusiasmo.

-Ah sim, com certeza, enquanto aqui vocês são cercados pelas águas e as rochas, as plantas, as árvores enormes nos cercavam, por onde quer que íamos, tudo muito verde e muito vivo - contou Lay'ti, com muita admiração - sem falar nos animais, nantang, yerik, ikran...

-Ikran, que trouxeram vocês até aqui - comentou a Metkayina - eles são como ilus pra vocês?

-Ah não, estão mais para pa'li, quer dizer, pa'li são animais de montaria como os ilus, mas os ikran, eles fazem parte de um ritual muito importante pra nós, chamamos de Ikinimaya, acontece nas nossas montanhas - Lay'ti detalhou, aumentando o interesse de Tsireya em tudo que estava contando - nos tornamos caçadores antes de poder realizar essa tarefa, temos que escolher um ikran pra montar pro resto da vida.

-E como você faz essa escolha? - a Metkayina quis saber.

-Bom, tá mais pro ikran te escolher, geralmente ele tenta te matar - disse Lay'ti como se fosse algo comum, o que fez Tsireya arregalar os olhos - está vendo isso aqui? - ela mostrou as cicatrizes no seu braço - Tayni fez isso, o meu ikran.

-E ainda assim você ficou com ele? - aquela escolha parecia uma loucura para Tsireya.

-Bom, são os nossos costumes - Lay'ti deu de ombros - hoje somos bons amigos.

-Isso é diferente do que fazemos aqui - concluiu Tsireya.

-Eu sei, é por isso que é complicado nos adaptar - suspirou a Omaticaya - os costumes e a saudade de algumas coisas, eu penso muito nos meus pais...

-Então você não é filha dos Sullys - Tsireya constatou - quer dizer, você não se parece com eles e não perguntamos nada sobre isso a você.

-Pois é - Lay'ti ficou um pouco constrangida, mas prosseguiu em explicar sobre sua atual situação, sobre o que a tinha levado até ali - outra coisa que tem a ver com os nossos costumes, eu sou a prometida de Neteyam, nossos pais fizeram um acordo quando éramos crianças, é esperado que eu me case com ele, em algum momento da nossa vida.

-Você veio com eles por isso? Por Eywa... - a escolha dela fez Tsireya se comover - é mais uma coisa difícil com que se lidar, não é?

-Também acho - Lay''ti acabou rindo - não esperava começar minha vida de casada em um lugar tão diferente da minha casa, mas eu e Neteyam decidimos adiar nossa união justamente por isso, vamos nos ajustar primeiro, e depois vamos pensar nisso.

-Eu sinto muito se toquei num assunto delicado - a Metakayina fez questão de se desculpar, se sentindo constrangida pelo rumo que a conversa tinha tomado.

-Não se preocupe, está tudo bem - Lay'ti a assegurou, mas também começando a ponderar se não tinha falado demais - acho melhor eu ir, muito obrigada por seu tempo, é bom conversar com você.

-Eu também gostei de conversar com você - respondeu Tsireya, de bom grado.

De volta ao Marui, Lay'ti encontrou apenas Neytiri ali, calada e em um canto, ocupada com pedras e fios, ocupando a mente e as mãos construindo um novo adereço.

-Eu vejo você, ma'Neytiri - a moça disse de forma delicada, a notando abalada - onde estão todos?

-Jake está com Tonowari, as meninas e os meninos na água, tendo mais lições, achei que estava com eles - ela respondeu, olhando para Lay'ti.

-Eu estava falando com a Tsireya, nos separamos do resto do grupo - a moça explicou - ela tem sido uma boa amiga, acho que ela entende nossa situação.

-Achei que ninguém aqui entendesse nossa situação - Neytiri confessou, de forma amarga - eles nos julgam o tempo todo, nos acham um bando de incapazes.

-Não, não somos assim - Lay'ti se comoveu ao ouvir aquilo, ainda mais de alguém que ela sempre enxergou como tão forte - é difícil, mas não impossível, estamos fazendo progresso nisso tudo, acho que a senhora deveria dar uma chance aos costumes deles.

-Eu não quero esquecer quem eu sou, ainda sou Omaticaya, não importa onde eu esteja - disse a mais velha, sem sombra de dúvida - posso até aprender a respiração, mas eu não quero trocar de montaria. Um ikran é confiável para a vida toda.

-Eu sei como se sente, estava falando sobre eles com Tsireya, eles são importantes pra nós, e não vão deixar de ser - continuou Lay'ti - mas é verdade, somos Omaticaya, não importa onde estivermos, ainda assim, somos sobreviventes, temos que fazer o necessário para sobreviver, não é?

-Tem razão, Lay'ti, somos os forasteiros aqui - Neytiri suspirou, acariciando o rosto da menina - você está lidando com tudo isso bem melhor que eu, isso me deixa orgulhosa.

-Obrigada - a moça sorriu diante dos elogios - espero que as coisas melhorem para a senhora também.

-Elas vão, minha querida, com o tempo - a mais velha assentiu, buscando forças para deixar as dificuldades para trás.

Lay'ti a deixou em seu silêncio contemplativo, enquanto começava a trabalhar no jantar. Era uma vida diferente, mas ao menos os laços que a unia aos Sully eram os mesmos e ainda estavam fortes.