A/N.: Esse capítulo contém algumas descrições de ferimento que podem ser sensíveis para alguns leitores. Também aviso que se não estiver muito correto os procedimentos médicos, usei apenas minha experiência de assistir filmes e séries sobre como uma ferida assim seria tratada.


Mesmo estando a certa distância da batalha, dava para ouvir os gritos de guerra e explosões ao longe, todo o som era extremamente perturbador para Lay'ti, o que a induzia apenas a pensar no pior cenário acontecendo naquele momento. Não queria que ninguém da sua família morresse, mas tudo levava a crer que estava nas mãos de Jake o sacrifício final para assegurar a segurança da família.

Enquanto ela estava ali, seu medo foi aumentando cada vez mais conforme o tempo passava e não havia sinal de Neteyam de volta. Tudo que lhe restou, foi se ajoelhar, fechar os olhos e clamar por Eywa, a única que poderia cuidar de sua família agora.

-Eu peço que me escute, Grande Mãe - ela suspirou, chegando até mesmo a chorar - foram meses muito difíceis, mas sentimos o seu cuidado por perto, eu peço que nesse momento, que com certeza está sendo o pior até agora, proteja minha família, não deixe que eu fique sozinha, tão longe do meu povo, eles são os únicos entes queridos que tenho aqui, são parte do meu povo de origem, não leve-os de mim, não leve o Neteyam de mim... Eu vim até aqui por causa dele, porque eu acredito que meu futuro está com ele, se tirá-lo de mim, o que serei?

Suas últimas palavras a surpreenderam. Era claro o quanto se importava com Neteyam, antes de qualquer coisa, título ou acordo, ele era seu querido amigo, um companheiro leal, que estava sempre por perto, que tinha a ajudado tanto. Continuar a vida sem ele seria, sem dúvida, insuportável. Talvez Eywa tinha respondido suas preces, mas não da forma que Lay'ti queria ou esperava.

Em meio à escuridão do cair da noite, Lo'ak surgiu na tenda, trazendo Neteyam desacordado. Não foi necessário nenhuma palavra de explicação, ela entendia a gravidade da situação, estava nas mãos dela fazer de tudo para não perdê-lo.

-Salve ele, por favor... - implorou Lo'ak, completamente abalado, sem conseguir formular mais nada, a deixando sozinha, correndo diretamente de volta ao perigo.

Ela não pôde fazer nada para impedi-lo, apenas deixando que partisse, enquanto todas as suas atenções se voltavam para Neteyam. O tom pálido de seu rosto a assustou ainda mais, mas Lay'ti decidiu ignorar o medo da morte e resolveu agir. Virou-o de costas delicadamente, percebendo o tiro que tinha levado, o projétil ainda alojado por dentro, a quantidade de sangue que ele devia ter perdido.

Esperava que Neteyam não sentisse a dor do que iria acontecer a seguir, esterilizando as mãos em uma solução caseira, ela pegou um dos bisturis que Norm tinha deixado com ela e se concentrou na tarefa de retirar a bala, tentando remexer a carne ferida o menos possível.

Encontrou a bala e a descartou, trabalhando no próximo passo, costurar a ferida aberta. Ao esterilizar o local, sentiu Neteyam tremer sob o toque dela, tinha sido muito rápido, mas o suficiente para lhe dar esperança de que ele ainda estava vivo. Precisava continuar, terminar logo aquilo para que houvesse uma chance de recuperação completa. Preparou a sutura o mais rápido que podia, só então, se permitiu ter a paciência suficiente para tecer ponto por ponto, delicadamente.

Quando terminou, percebeu que o sangramento estava estancado, ela tirou o resto de sangue que ainda estava ali com cuidado, atirando o pedaço de tecido para o lado. Ajoelhada, exausta, respirou fundo, observando Neteyam, esperando alguma reação dele.

-Por favor, fique bem, eu fiz o que podia... - ela suspirou, começando a chorar de novo de repente, se sentindo muito sozinha.

Respirando fundo, Lay'ti viu que seu trabalho podia não estar tão concluído assim. Para compensar a perda de sangue de Neteyam, ela preparou algo rapidamente, uma poção numa combinação única de ervas que vinha da sabedoria Na'vi. Tentando fazer com que ele bebesse, ergueu a cabeça dele lentamente. Ele estava completamente frágil nas mãos dela, muito diferente do guerreiro ágil que conhecia, era devastador o que a guerra podia trazer, o que poderia alterar para sempre, transformando seu noivo em alguém que ela não reconhecia.

Deixando-o descansar, ela chorou mais um pouco, mesmo em meio a mais cuidados, verificando sua pulsação, notando a cor voltar lentamente para seu rosto. A respiração era lenta, mas ainda assim, um pequeno bom sinal. Neteyam ainda estava vivo, fraco, mas vivo. Uma chama de esperança se acendeu dentro dela.

Ela o cobriu com uma manta, verificando sua temperatura. Ainda frio, mas muito menos do que quando ele tinha chegado. Sem pensar muito no que estava fazendo, começou a acariciar os cabelos dele, observando seu rosto, lembrando de seus olhos abertos, despertos, olhando com bondade de volta para ela, todo ato de gentileza que já tinha feito a Lay'ti, como a sensação de felicidade e satisfação que sentiram e compartilharam juntos quando ela conseguiu montar no ilu, como todas as vezes que se sentavam no fim do dia e conversavam.

Ao lembrar disso, Lay'ti desejou ter mais momentos assim com Neteyam, prometeu a si mesma que moveria céus e terra para vê-lo feliz outra vez, desperto, bem do lado dela, compartilhando a vida. Porque não haveria vida para Lay'ti sem ele, sem o rapaz que amava...

O pensamento a pegou de surpresa, suspirando levemente. Justo quando estavam numa situação tão crítica chegava à conclusão de que amava Neteyam. De repente, achou melhor bloquear o pensamento. Podia ser um fato, mas não algo para se refletir no momento, o importante é que ele ficasse bem, só então ela cogitaria fazer algo a respeito.

Tudo que lhe restava fazer agora era pedir a Eywa que desse uma segunda chance a Neteyam, completamente inocente e apenas mais uma vítima em toda aquela guerra. Ele não merecia nada daquilo, depois de tudo que também tinha feito por sua família. Ele merecia viver e quem sabe, alcançar uma vida tranquila, uma vida da qual Lay'ti também fizesse parte.