Tsireya observava com atenção os dedos ligeiros e habilidosos de Lay'ti trabalhando no tear, tecendo o material que tinha colhido mais cedo, uma mistura de algas, cascas de árvores que tinham na região e algumas fibras. A própria Tsireya era muito habilidosa com materiais marinhos, mas não tanto quanto os materiais com que Lay'ti estava acostumada.
-Eu nunca vou conseguir ser tão rápida quanto você - admitiu Tsireya, chegando até mesmo a rir.
-Ah você não precisa fazer tão rápido - Lay'ti opinou - e nem pensar que é tão difícil assim, é só fazer devagar no seu ritmo.
A esposa de Neteyam então levantou e deixou que Tsireya tomasse seu lugar, começando a tecer de maneira mais lenta, mas não menos eficaz.
-Obrigada por me ensinar e pela ajuda - disse a moça Metkayina depois de alguns minutos de trabalho em silêncio - eu sei que meus pais estão ajudando bastante, até mesmo meu irmão, mas tinha medo das coisas não ficarem prontas a tempo.
-Não se preocupe, vocês vão se ajeitar e tempo é o que mais temos, é o que você decidiram fazer, não é mesmo? Esperar. Não se preocupe, vai dar tudo certo - Lay'ti mostrou sua fé nisso.
Um tempo depois foram interrompidas pelos respectivos pares. Neteyam e Lo'ak voltaram da do mar com uma grande leva de peixes nos ombros, era mais que suficiente para celebrar com a família daqui alguns dias, quando o casamento de Tsireya e Lo'ak aconteceria.
-Por Eywa, Isso é uma grande dádiva! - exclamou a noiva animada.
-Bom, nós temos que agradecer a Grande Mãe - Neteyam concordou.
-Mas nós usamos algumas estratégias, Payakan foi conosco e nos mostrou onde os maiores estavam - Lo'ak admitiu, ainda assim orgulhoso de poder contar com a ajuda do amigo.
-Deixa isso lá fora, vou cuidar disso mais tarde - Lay'ti pediu.
-Você me parece cansada, meu amor - Neteyam observou, chegando a acariciar seu rosto com delicadeza e afeição, sorrindo ao observar o ventre dela, que agora estava um pouquinho maior - não se canse, eu espero que você peça ajuda para preparar o banquete amanhã.
-Ah Neteyam, eu vou, não se preocupe, eu estou bem, sabe o que me faria bem agora? - a esposa dele cruzou os braços - um passeio, sair um pouco daqui e ver como está o tempo lá fora, faz tempo que não fazemos isso.
-Que tal um passeio aéreo? - Lo'ak sugeriu, de um jeito um pouco travesso - mas a Tsireya voou tão poucas vezes, talvez seria um bom momento para fazer isso.
-Ah não, você tem certeza mesmo?Estamos prestes a nos casar e você pretende me fazer ficar pelos ares por um longo tempo? É bem diferente pra mim - Tsireya deixou claro sua opinião sobre a questão.
-Eu não quero te deixar desconfortável - garantiu Lo'ak - eu sei que você tem um certo receio disso, mas seria bom experimentar outra vez, podemos fazer de um jeito mais calmo, prometo. Não se preocupe se alguém a achar estranha por fazer algo do povo da floresta no meio do povo do recife,
A sinceridade espontânea dele a deixou um pouco desconcertada. Percebendo isso, Lo'ak pediu desculpas imediatamente.
-Tá tudo bem, sério, é só que, bom, você não está errado, talvez agora que eu vou fazer parte da sua família, que é uma família que voa em ikrans, faz sentido eu voar - Tsireya acabou sorrindo, aceitando o convite.
-Então vamos logo gente! - Lay'ti apressou a todos, escutando o riso deles enquanto deixava a tenda, sua família logo atrás dela.
Tayni aos poucos, conforme a gestação de sua montadora foi avançando, se acostumou com o estado diferente e delicado dela, e sabendo da responsabilidade que tinha carregando mãe e filho, realmente tinha se tornado um ikran mais cuidadoso, o que não era muito difícil, já que a própria Lay'ti sabia das suas condições e não ousava nenhum voo rasante ou alguma movimentação de caça.
Ela, Neteyam, Lo 'ak e Tsireya sobrevoaram a região da Árvore das Almas e depois pousaram, sentando-se perto um do outro sobre uma rocha.
-Imagino que está muito ansiosa pelo bebê, não? - Tsireya iniciou o assunto.
-Nós dois estamos - Neteyam acrescentou - e vocês também estão, não? Com o casamento e tudo mais?
-São muitas coisas pra se esperar - Lay'ti riu antes de responder o que a cunhada tinha perguntado de fato - mas sim, estou ansiosa, fico pensando no dia em que ele vai nascer, como vai nascer...
-Como todo bebê normal, é o que a gente espera - Lo'ak disse em tom de brincadeira, mas esperando que o sobrinho fosse muito saudável.
-Não é disso que eu falo, seu tolo - Lay'ti estreitou os olhos, mas deixou a gracinha dele passar - há um certo debate ainda não travado sobre como vai ser o parto do meu filho, isso me assusta um pouco, confesso.
-As nossas mães, não é? - Tsireya acabou deixando escapar um sorrisinho - olha, se fosse há um tempo atrás, elas brigariam muito pelo jeito de fazer seu parto.
-O que tem isso? Uma criança não nasce do mesmo jeito sempre? - Lo'ak não compreendia.
-Já viu um parto Metkayina, meu querido? - sua noiva chamou a atenção dele.
-Ah submerso, é isso que preocupa a Lay'ti - ele deduziu finalmente - preferia fazer o parto na superfície.
-Eu tenho medo, penso se vou ter fôlego o suficiente, se vou conseguir respirar tempo o suficiente que o bebê precisar - Lay'ti contou, confiando igualnente em todos que estavam ali para compartilhar tamanha insegurança.
-Nossos partos tem sido assim desde que me lembro, na verdade a água ajuda em todo o processo - Tsireya acrescentou, procurando ajudar.
-Eu sei disso, eu vi alguns ao longo dos anos que estamos aqui, mas você sabe, eu sou Omaticaya, da floresta - insistiu a futura mãe, balançada entre as duas identidades.
-Você é Metkayina também, e uma curandeira maravilhosa, vai saber o que fazer quando o momento chegar - Neteyam a aconselhou, segurando o rosto dela delicadamente.
-Eu espero, que Eywa me guie - ela sorriu para o marido, grata por suas palavras.
Tinha certeza que, no tempo determinado, as coisas se sairiam bem para ela e o bebê.
