Capítulo 3

-/-/Kagome/-/-

Tentava inutilmente me concentrar em reunir qualquer ínfima energia espiritual ao meu redor, fora em vão. O pouco reiki que me restava eu focava em me manter viva por mais alguns minutos. Eu sabia que estava na minha hora, reconhecia a sensação mórbida daquele manto negro a me cercar. Era isso. Desfiz de minhas preces e chorei em frustração, já não adiantava esconder nada do Daiyoukai.

Seu olhar queimava a minha pele, hostil. Seria o último ser que eu veria e não esperava nada dele além de uma companhia silenciosa. Um demônio na espera de minha alma, engraçado como o verso se encaixava na situação, pelo menos pude rir com a ironia dos meus últimos momentos. Se soubesse que acabaria assim, nem teria revidado o urso, não teria pulado de um penhasco, assim haveria algum significado no tecer da vida, uma vida pela outra. Sinto meus pensamentos desconexos, as imagens daqueles que amo passavam em minha mente, o arrependimento de jamais ter me despedido corroendo esses poucos segundos de vida que me restam. Está frio.

Sentia meus sentidos confusos, tanto que mal percebi o Youkai se aproximar até tê-lo ajoelhado em cima de mim. Sua silhueta, que antes estava embaçada, agora era clara, apesar de eu não conseguir decifrar o que ele faria a seguir. Pelo visto, ter o sádico prazer de presenciar minha morte de perto-muito perto- ou adiantá-la.

Vi como seu grande corpo comportou ambas as minhas pernas entre as suas sem dificuldade e o encarei confusa, em busca de decifrar suas intenções. E, como sempre, ele se encontrava impassível, a face não demonstrando nada mais do que o brilho obscuro em seu olhar, ou achei que vi algo nos olhos dourados. Estava com dificuldades para focar ao meu redor, ainda assim, me sobressaltei ao vê-lo erguer as garras e rasgar qualquer peça de roupa sob o corte. O terror me alcança tão rápido quanto as possibilidades do que poderia acontecer.

—Não, Sesshou...maru, Longe!_ Reúno todas as minhas forças para lhe afastar, num último ato falho.

—Quieta._ Rosnou em resposta, com escárnio, com seus olhos vermelhos domados por sua besta. Só pude chorar diante da cena, minhas pernas tremiam de medo e rezei para ser rápido, rezei pela misericórdia de Kami.

O pavor tomou conta do resto do meu ser quando paralisei com a visão, seu corpo era grande me fez perder qualquer coisa de vista que não fosse ele, seus olhos profundamente rubros, escuros como o sangue me deixava consciente demais da minha vulnerabilidade.

E então tudo pareceu acontecer devagar demais. Senti seu aperto em meus pulsos, ele os prendeu entre uma das mãos e ergueu meus braços até a parede atrás de mim, me prendendo contra a parede atrás de mim, como se eu pudesse rebater sua força. Não havia saída. Era o que dizia através de suas atitudes. Os traços youkai em seu corpo estavam mais proeminentes e me indicavam a presença da besta, apesar dele manter a forma humanoide. Observei impotente as suas ações sem saber o que fazer, simplesmente inerte ao aceitar meu destino, o vi aproximar seu rosto do meu corpo. Ele pareceu me cheirar, como um cão a farejar algo em meu abdômen, para depois voltar cruzar seus olhos com os meus, o rosto bestial próximo demais e tudo o que eu podia ver era a lua roxa em sua testa.

—Sobreviva. _Ordenou sua voz ao fundo e tive a impressão de vê-lo morder a si mesmo.

Por um momento, nada aconteceu, senti algo quente cair em mim. Era sangue? Me perguntei confusa.

Eu nunca tinha visto algo do tipo e minha mente falhando em raciocinar seus dizeres, soando como uma alucinação... Até sentir. O calor fervente, um ardor descomunal que surgiu a partir do meu estômago e se espalhou pelo meu corpo, fazendo-me gritar com todas as minhas forças para espantar a sensação de ser furada por milhares de agulhas ao mesmo tempo. Senti que Sesshoumaru segurou meu rosto e tapou minha boca com a mão para abafar qualquer som, isso me fez olhá-lo furiosa. Não sei o que fez, só sei ser culpa sua.

Aquela dor me tornou extremamente consciente, a sensação de sentir meu reiki borbulhar, como se estivesse combatendo algo maligno, youki. Havia youki em mim. Pensei com assombro e não sabia o que fazer além de sentir aquela batalha em meu espírito, seu sangue corroendo-me por onde passava, eu estava fraca e minha mente não conseguia se organizar, as sensações me tomavam toda a consciência que me restava.

Não sei quanto tempo permaneci lutando contra aquilo, só sabia ser uma batalha perdida até finalmente sentir a escuridão me tomar. Os olhos bestiais de Sesshoumaru foram minha última visão antes das trevas.

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Os primeiros raios solares me atingiram, acariciando meu rosto com o calor familiar de um novo dia e desde então o sono me fugiu. Sono? Sol? Estou viva? Abri os olhos assustada e pude reconhecer o local o qual me encontrava como a caverna, também é dia, manhã cedo, e pelo estado da brasa, a fogueira se apagou há poucas horas. Teria sido um sonho? Não entendia a confusão das lembranças da noite anterior, automaticamente olhei para baixo, em busca do corte que causou toda a situação e me deparei com a pele lisa do meu abdômen, com absolutamente nenhum sinal de que um dia havia qualquer marca ali. E, surpreendentemente, notei que meu corpo se curou... ou melhor, foi curado.

Não cabia em mim o sentimento irreal de estar viva às custas de Sesshoumaru, nem consigo sonhar em saber sua motivação. E talvez, não coubesse a mim saber, somente aceitar a bondade alheia, mesmo que ela seja improvável em diversas circunstâncias e até mesmo na qual me encontro, mesmo vivendo a situação não acredito nela. Era mais fácil eu estar morta e esse ser o pós-vida de um universo paralelo onde a personalidade de todos se invertem e na verdade, o youkai de alcunha cruel, seja um benfeitor caridoso.

Nem mesmo eu consigo aceitar essa imagem mental, melhor parar com essa loucura, Kagome.

Suspirei, ficar deitada me pareceu incômodo, no fundo, a sensação de vulnerabilidade me incomodou, então sentei-me sem dificuldade, ainda incrédula com a potência do seu sangue. Se youkais podiam curar com tamanha efetividade, por que nunca soube? Estudei anos e anos para aprender o sacerdócio e nunca nem ouvi falar acerca dessa característica. Era simplesmente inacreditável, um milagre.

Nunca ouvi falar sobre sangue youkai curar, e era ainda mais improvável para mim imaginar que Sesshoumaru tinha feito isso por vontade própria.

Estava tão absorta nos meus pensamentos que me surpreendi ao sentir a presença de Sesshoumaru se aproximar da caverna, antes mesmo de ter a visão do mesmo. Ele caminhava devagar, e tive algum tempo para matutar sobre chamar sua atenção e decidi por não incomodar o maior, pelo menos não até receber uma saudação, quase amigável do mesmo.

—Humana._ Ouvi a voz do ser que rondava meus pensamentos de modo contraditório, acenei em resposta. Tomei a decisão de não iniciar um inquérito sobre a noite anterior, me pareceu o mais sensato tendo em vista que se ele escolheu me salvar, eu não deveria ter o mínimo esforço em desfazer sua atitude e imagino que o mesmo não esteja acostumado a ter seus atos questionados.

—Arigatou, Sesshoumaru._ Tratei de agradecer, pois graças ao mesmo eu pude ver outro dia.

Reparando melhor no estado do maior, percebi que seus cabelos estavam úmidos e ele não vestia a costumeira armadura. Estava somente com as vestes brancas de detalhes vermelhos, aparentemente bem confortável em andar com o haori aberto por aí. Quem é você para julgar, Kagome, está pior do que ele.

E perceber isso me tornou extremamente autoconsciente de meu estado.

Até o momento, não havia reparado a falta de banho, envergonhando-me pelo provável cheiro que deveria ter para narizes sensíveis. Boa, Kagome, essa é, de fato, uma ótima prioridade para torturar-se no momento. Aproveitando o ensejo, reflito se conseguiria banhar-me eu mesma, já que, graças ao dito cujo, as minhas dores sumiram. Era estranho reparar na pele suja pelo sangue seco e dentre outras coisas. Apesar de morar anos nessa era, jamais me acostumei a passar mais de um dia sem limpar-me, um hábito da modernidade raro no japão feudal e podemos dizer que esses seis dias significam um recorde nojento na minha vida. De modo discreto, puxei meu cabelo oleoso e o cheirei, sentindo ainda mais urgentemente essa vontade de me jogar num rio até todo esse sebo ser limpo.

Eu sei que não deveria reclamar, até porque Rin lavou-me ontem mesmo, com panos úmidos. Como você deve fazer por enquanto. Suspiro, observando o balde ao meu lado e torcendo para surgir do céu algum shampoo e condicionador, até mesmo um único sabonete a faria feliz. Teria que me contentar com o que tinha no momento. Pensei enquanto fiz uso dos panos dobrados ali para tirar o que conseguia de todo esse sangue.

Demorei-me no processo, avaliando toda a extensão de minha pele, não foi somente o abdômen que o sangue de Sesshoumaru curou, todas as outras feridas se foram. Sentia que o dito cujo me observava e fiz questão de ignorá-lo, a fim de não piorar o rubor que me subiu à face. Sentia-me grata, mas envergonhada pela situação de estar à mostra para o youkai, principalmente ao relembrar do mesmo tão próximo como na noite anterior. Logo, a situação era um tomate ambulante, seminu e sem coragem de saber se o mesmo permanecia me encarando ou não, só continuei focada em tirar todo o resquício de sangue que restava. Ao terminar, pus as tolhas dentro do balde, tal como o resto das ataduras que tinha, exceto pela bandagem que me cobria o busto, a única coisa que me mantinha coberta na parte superior. O tecido estava manchado em alguns lugares e sabia que Rin se preocuparia assim que visse a cor dos mesmos e seria sensato explicar-lhe antes de qualquer coisa. Quando a mesma acordasse, é claro. Por falar nela, a menina parecia ter agradáveis sonhos enquanto ressonava agarrada ao youkai dragão.

Então decidi passar o meu tempo de forma útil, meditando, só não esperava ter o total vazio em resposta.

Ato o qual foi frustrando-me a cada tentativa de sentir meu reiki para além do vazio e senti uma ponta de desespero ao perceber minha incapacidade de sentir qualquer reiki, seja ou meu ou de meu redor, até mesmo notei não sentir o youki dos youkais na caverna, apesar de vê-los a poucos metros de mim. Exceto por um. Percebi, sim, estranhamente eu conseguia sentir Sesshoumaru, como se ele não escondesse sua presença de propósito, algo estranho se considerar o quão protetor ele é com Rin. Agora, em meio ao deserto espiritual, sua energia está servindo de farol para os meus sentidos. Parando para pensar, desde mais cedo, eu soube o momento de sua chegada antes de vê-lo por entre as árvores e eu nunca consegui essa proeza antes, não de maneira espontânea.

Ok, sem pânico, vamos utilizar a razão nesse momento fatídico, Kagome.

Com certeza há uma explicação, seja para seus atos como para seu "efeito colateral" e se havia alguém capaz de ter as respostas, seria o sujeito por trás de tudo. Matutei por um tempo se deveria ou não abordá-lo e tive de reunir minha coragem para tal. Voltei-me para Sesshoumaru determinada e me vi diante do youkai de olhos fechados, como se dormisse ou talvez como um gesto para me dar privacidade, o mínimo de decência depois de ontem. Ok, foco. Suspirei, ele nunca fora o ser mais comunicativo, porém não era de todo mal desejar que o fosse! Seria tão mais simples tirar informações dele sem essa carranca permanente.

—Sesshoumaru_ chamo-o pela primeira vez no dia, minha voz saiu estranha, ignorei.

Sentia as batidas do meu coração em expectativa e uma sensação ansiosa surgiu quando os âmbares se fizeram presentes e fixaram-se em mim. Tive a sensação de ser analisada por aquele olhar breve e tive que afundar qualquer pensamento meu sobre minha nudez no fundo do meu ser para evitar corar diante de si. Graças a kami, meu orgulho foi o suficiente para manter a dignidade de manter o olhar em si. Eu preciso de respostas.

—…

—Você poderia me responder algo?_ pergunto já que o mesmo nem se mexeu para indicar que me ouvia, aposto que ele preferia não ter ouvido para evitar esse contato. Mas eu sabia, após conviver tanto tempo com outro daiyoukai, meio-youkai, enfim, eu sabia que ele estava atento apesar dele não possuir orelhas caninas para denunciá-lo.

E como se ouvisse os meus pensamentos, ele me encara com uma expressão que tomei a liberdade de interpretar que ele queria saber a causa de meu pronunciamento -sem nenhuma ameaça por trás do ato.

—Não consigo sentir meu reiki, o que você fez?_ Pergunto diretamente. Certo, isso soou como uma acusação.

—Curei._ Disse simples, como se fosse corriqueiro, mas eu sabia que não era somente isso, nunca havia visto, ouvido ou sequer imaginado que sangue youkai pudesse ter esse efeito. Pelo contrário, o contato com o youki demoníaco era fatal para humanos e envenena qualquer ser vivo que, por ventura, entre em contato com a energia maligna. Quantas vezes Nakaru não envenenou a região somente de permanecer no local? Não faz sentido assumir o oposto, portanto, me vi obrigada a contrariá-lo e vi seus olhos cerrarem brevemente, em desgosto.

—Seu sangue, o que ele fez?_ questionei no auge de minha paciência, somente para receber a resposta crua dele:

—Este Sesshoumaru não costuma repetir.

—Se você tivesse me respondido, não haveria necessidade de perguntar novamente.

Certo, talvez eu não devesse estar confrontando o meu "salvador" assim. Ainda mais quando a única forma de me proteger, meu reiki, estava até o momento, selado. E sim, vê-lo se aproximar num piscar de olhos me deu mais uma vez a impressão de que eu estava fazendo uma bela besteira ao falar assim com o Daiyoukai conhecido por seu ódio à raça humana. De novo, senti-me indefesa em sua presença e eu definitivamente detesto esse fato.

Me recusei a parecer fraca diante dele e mantive o contato visual com uma determinação que não o atingiu. Pois o vi sentar-se ao meu lado agora, de modo despreocupado, com um dos braços apoiado em sua perna dobrada e o corpo virado em minha direção.

A atitude foi tão inesperada que acompanhei inconscientemente suas ações, reparando na pele do seu torso exposta, pelo haori ainda aberto. Foi de modo inconsciente que passei a seguir o trajeto das marcas demoníacas pelo seu corpo, curiosa sobre algo que nunca vi até perceber ser uma atitude que podia facilmente ser mal interpretada, portanto, me apressei em desviar minha atenção das listras violetas que acompanhavam seus músculos. Me neguei a demonstrar qualquer sinal de timidez quando voltei meu olhar para seu rosto, a expressão desinteressada dele quase me fez pensar em desistir de continuar qualquer coisa.

—Meu youki submeteu seu reiki._ ele informa, adicionando mais dúvidas do que resoluções à minha questão e trato de juntar as peças sozinha, como medo da direção a qual seu argumento me levou.

—Eu o perdi para sempre? _ Murmurei num fio de voz para ninguém específico, o bolo em minha garganta já formado como se quisesse me sufocar com a realidade. Kami-sama, o que eu faço agora?

— O sangue sairá do seu corpo, o poder deve retornar._ Ele pôs fim a minha agonia. Me senti grata ao ponto de sorrir levemente em agradecimento. Certo, alguns dias sem ser sacerdotisa será fácil de suportar. Passei quase toda a vida nessa situação, o que são alguns dias? Tentei me acalmar, sem saber ao certo o porquê me senti tão incomodada com a informação.

—Voltaremos a viajar. Oeste. _ Escutei Sesshoumaru dizer, agora ele estava do outro lado da caverna, em sua posição inicial, sem me dirigir o olhar, pareceu ocupado em prestar atenção no horizonte escondido por trás das árvores. Entretanto, pude perceber o significado de suas palavras, eles seguiram seus planos. Não fiquei chateada com a afirmação, já que sempre soube, eventualmente cada um seguiria seu caminho.

Chegou a hora de me despedir.

—Bem, eu estou quase conseguindo recuperar as minhas forças. Poderei seguir viagem sozinha a partir do próximo vilarejo. Agradeço por toda a sua aj-

—A Miko irá conosco. _ Ele me interrompeu e fiquei sem palavras por um momento, soltando um incrédulo "Nani", mas a expressão irritada de Sesshomaru deixou claro que foi uma reação.

Isso foi um convite?

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