Capítulo 4

—/-/Kagome/-/-

Continuei imóvel desde mais cedo, meditando desde então, numa tentativa frustra de acelerar o processo de eliminação. Uma movimentação ao meu lado indicava que a menor acordara.

—Kagome-sama?_ Rin me cumprimenta preguiçosa, incrivelmente fofa.

—Ohayo, Rin-chan!_ digo feliz

—Ohayo! Acordou cedo hoje senhorita Kagome, já comeu?

—Lie, acabei de acordar.

Omito os fatos de mais cedo. A pequena estava tão preocupada comigo que me era estranho ser alvo de tal atitude, normalmente eu seria a pessoa que cuidava. Tomando com satisfação a surpresa da menor depois de sua avaliação matinal, eu lhe informo que consegui me curar. Contente, Rin se levantou e saiu da caverna com uma cesta, não demorando ao retornar com algumas frutas. Pelo visto há árvores frutíferas por perto.

—Trouxe café da manhã! _ ela diz sorrindo e me estendendo algumas maçãs e pêssegos. Agradeço e me pus a comer com gosto.

—Dormiu bem?_ perguntei-lhe entre as mordidas.

—Hai! Muito bem! E você, Kagome-sama? Ainda dói?_ ela pergunta preocupada, já buscando verificar, mas a impeço, assegurando-lhe que não sentia dor nenhuma.

—Estou bem, graças a você, Rin-chan!_ Digo e vejo-a suspirar aliviada.

—Isso é bom, seus ferimentos se curam muito rápido! _ A pequena Rin diz sorrindo.

—arigatou Rin-chan, você fez um ótimo trabalho._ agradeço sinceramente. Sem ela, eu provavelmente estaria em outro plano nesse momento.

—ah, que isso Kagome-sama _ Rin cora.

—Kawaii!_ Não me aguentei diante de tanta fofura. E apertar as suas bochechas só a fazia ficar mais e mais corada, ri gostosamente e Rin me acompanha.

A manhã passou rapidamente, Rin se animara ao saber que eu consegui curar dos meus ferimentos, foi isso que lhe disse, evitando, é claro, a parte que envolvia o albino. Mas foi durante a refeição que senti falta do maior, pois nem mesmo com o "farol", podia sentí-lo. Como se percebesse que o estava procurando, a menor disse:

— O Sesshoumaru-sama sai muitas vezes.

—O que ele tanto faz lá fora?

—Não sei. Nunca lhe perguntei.

—Nunca lhe surgiu a curiosidade?

—Hai, mas para mim basta saber que ele vai me proteger, enquanto isso, eu o espero com Jaken e Arurun!_ Rin disse sorrindo, com uma sabedoria anos à frente de sua idade.

Depois disso eu fiquei sem graça de voltar nesse assunto. Rin estava tão acostumada com o seu cuidador que lhe era natural as suas ações e questionar sobre isso me pareceu como se eu estivesse incluindo-me num assunto que não tem nada haver comigo. Portanto, inicio um diálogo a parte. Queria saber mais sobre a doce menina e apesar de ter iniciado a conversa, era ela a que mais falava. Dizia as coisas que gostava de fazer, de comer, de cantar, de como gostava de irritar Jaken, o youkai sapo que servia Sesshoumaru. E logo a tarde se passa sem nenhum sinal do albino dos olhos de sol.

—Kagome-sama, posso lhe fazer uma pergunta?_ Rin repentinamente solta.

—Claro Rin-chan

—Como a Senhorita se feriu tanto?_ Sua pergunta veio de súbito, e por isso, não pude conter a surpresa, procuro algo em meus joelhos que fossem capaz de responder essa pergunta;

Eu não sabia os motivos que fizeram Inuyasha agir assim, na verdade, eu sabia. Kikyou sempre fora seu amor e ele foi até onde pode para viver ao seu lado. Infelizmente, ele me feriu muito nesse processo, apesar de no fundo, do fundo de meu ser, eu saber que seus olhos não brilhavam tanto comigo perto e seus momentos de avaliar o horizonte eram preenchidos por um sorriso nostálgico. O pensamento me abalou como se fosse a primeira vez que percebi isso. Não pude impedir que minha tristeza caísse por minha face. Eu sabia que não conseguiria dizer nada à pequena. Então forcei um sorriso a ela. Não podia desabar agora, sabia disso.

—Foi um acidente, não voltará a acontecer _ respondo engolindo o choro.

—Tudo bem se não quiser me contar, Kagome-sama._ Sua fala me surpreendeu, de fato, Rin era muito madura.

—Você é bem inteligente, Rin-chan._ falo e remexo seus fios escuros, gesto que fez com que ela corasse imediatamente, a deixando incrivelmente fofa.

—Arigatou Kagome-sama.

—kawaii!_ grito e aperto suas bochechas, a deixando mais e mais vermelha.

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Era noite quando o DaiYoukai se fez presente. Rin foi a primeira a lhe perceber e não tardou em cumprimentá-lo, ele tocou sua cabeça como resposta, num gesto que contrastava em tudo com o ser. Acredito que seja a sua forma carinhosa de respondê-la. Desvio o olhar, novamente sinto como se estivesse invadindo a privacidade da relação deles.

—Kagome-sama, Senhor Sesshoumaru trouxe comida! Olhe!_ A pequena festejava com alguns pacotes na mão e não pude deixar de sorrir. Realmente, Rin alegrava o seu redor.

—Então o que estamos esperando?

Comemos em paz, a menor e eu conversando sobre tudo o que ela quisesse, sobre minha era, sobre meu treinamento sacerdotal e até lhe disse como sentir o reiki ao seu redor, apesar de eu mesma não conseguir fazê-lo no momento, fato que ocultei dela. Ela estava maravilhada com a possibilidade de conseguir sentir a energia da vida e desde então, se sentou em posição de lótus para praticar. Isso tornou a noite um pouco mais silenciosa, mas por um breve instante.

— Isso é impossível! _ Reclamou e eu ri de sua cara de desgosto.

—Rin, você precisa de concentração, não é algo que se aprende de uma hora para outra!

—Mas a senhora conseguiu naturalmente, eu quero tentar sentir também!_ Eu me surpreendo com seu ponto de vista, sentindo-me orgulhosa da sua determinação.

—Primeiro, Rin, não me chame de senhora, eu sinto como se 100 fios brancos surgissem em mim quando você faz isso!_ Reclamei e a vi rir com meu comentário.

— Pode me chamar de Kah e segundo, eu já tinha usado o meu reiki, para mim, esse treinamento só me fez melhorar algo que eu já possuía contato. É muito diferente para quem começou agora. Não precisa se comparar comigo assim, pequena.

—Entendi, irei praticar mais então, se eu preciso de mais tempo, irei me esforçar mais para conseguir rapidamente!

—É uma boa forma de pensar.

—Arigatou, Kah-chan!

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Era tarde e após o jantar, mais uma vez o youkai some. Dessa vez, estava atenta, tendo em vista que o mesmo disse que iríamos viajar logo. No entanto, a noite se passou sem maiores informações do mesmo. Foi somente ao amanhecer que senti o youkai novamente, tal como ontem, estava acordada observando a mudança que ocorria nas cores celestes. Novamente havia acordado ridiculamente cedo para a minha rotina.

—Está melhor, humana_ afirma Sesshoumaru ao entrar na caverna, o olho de canto estranhando o seu tratamento.

—Ohayou, youkai.

Ele fez uma micropausa pela forma como o chamei, numa inexpressividade sútil. Ele carregava algo, uma trouxa, mas não parecia ter tomado banho, como ontem fez. Sua armadura estava presente também. Ele avaliava-me, pude sentir, fiz o mesmo.

Não sei quanto tempo esse momento durou exatamente, mas o ser imutável se aproximou.

—Hoje partiremos._Diz por fim, de frente a mim.

—Achei que íamos ontem._ Respondi e permaneço a observá-lo, ele ergue uma sombrancelha de forma sutil antes de jogar o objeto na minha direção, a trouxa. Jogada por sesshoumaru. Uma sacola. Certo.

— Não dessa forma._ O escuto se referir ao meu modelito da última estação. Ok, certamente eu estava nua para seus padrões, já que meu haori estava aos pedaços, curto o suficiente para mantê-lo aberto. Em algum momento, eu me esqueci desse detalhe, já que estava com o tórax e abdômen completamente enfaixados, era quase como se usasse uma blusa por baixo do haori.

Certo, diante da situação, decido ver o conteúdo da trouxa.

—Roupas?_ Questiono, mais para mim do que para ele, o que não importava, já que o mesmo não me respondeu. Estava sem palavras com o gesto atencioso do youkai. De fato, seria inconveniente viajar com minhas roupas, ou com o que restou delas, ensanguentadas ao limite. Prefiro pensar que foi um gesto gentil.

Sesshoumaru começa a andar para fora da caverna, devagar, como se me esperasse seguí-lo. Até de fato parar e esperar que eu levantasse. O que não tardei a fazer, sabia que sua paciência não era das maiores. Levantar foi difícil, minhas pernas demoraram a se fixar no chão, os dias sem usá-las cobraram o seu preço, no entanto, eu não podia deixar escapar a chance de um banho, que subentendi que teria direito.

O sol estava claro demais e levei alguns segundos para me acostumar com sua luz. Encarei as costas do maior e tratei de seguí-lo por vários minutos, meia hora talvez, não imaginava que o Rio estava tão longe de nós, já que Rin constantemente pescava no mesmo. Porém, confiava no caminho feito pelo Daiyoukai e não o questionei. O albino continuou por uma trilha a leste, desviando duas vezes a direção. Logo mais pude ouvir o som de água corrente.

Aproximei da margem e com deleite lavei o rosto, num simples gesto de saudade dessa sensação. Mas o youki permaneceu ali. Esperei. Porém o albino não pareceu entender a minha necessidade, portanto, tomei a iniciativa de deixar claro:

—Preciso de privacidade, Sesshoumaru.

—Youkais._ Foi o que me disse.

—Sinto-me grata pela preocupação, mas sei me cuidar. Me deixe só._ Pedi, dando por encerrado aquele assunto e fui lindamente ignorada pelo albino.

Vi o maior se virar, de costas para o rio e sentar na grama seca, o que claramente indicava a sua resposta. Como um cachorro. Ri com o pensamento, jamais me atrevendo a dizer isso. Era estranho ter que decifrar o maior a partir de seus microgestos, mas de alguma forma me parecia mais natural desse modo.

Decido que Sesshoumaru de costas seria o máximo de privacidade que eu conseguiria sob seus cuidados. Sinceramente, o conceito de vergonha não existe para os youkais! Organizo as vestes presenteadas pelo cão de guarda, uma roupa sacerdotal com a tradicional calça vermelha. Uma faixa, um laço para meus cabelos e sandálias de madeira, a vestimenta semelhante a que eu uso. Realmente atento aos detalhes. Penso observando suas costas.

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Assim que terminei de me vestir, após longos minutos aproveitando a correnteza e a sensação de limpeza que ela me transmitia, Sesshoumaru se faz perceber:

—Por que se afastou do seu grupo?

—Isso é algo... que não quero falar._ respondo sem humor, querendo que ele desistisse logo desse interrogatório. Quem imaginaria que o youkai seria tão insistente?

—E por que não, humana do Inuyasha?_ Me chama de uma forma detestável e não consigo esconder a raiva. Era como se ele soubesse exatamente o que dizer para me perturbar.

Será que ele não repara que está me machucando?

Decidi que iria lhe ignorar, observo a trilha para a caverna e vou caminhando na frente, dando por fim aquele assunto. Ou tentei, já que ele impediu a minha fuga, pondo-se no caminho. Seria um ótimo momento para usar meus poderes, sorte sua. Tentava ver um jeito de descontinuar aquela conversa, mas ele parecia decidido. Como tudo o que fazia, esperava conseguir o que quer.

—Onegai Sesshoumaru, não._ Disse-lhe.

—Explique, humana.

—Kagome.

—Humana do Inuyasha. _ Repete e suspiro audivelmente.

—Eu não… Eu não respondo por esse título, Sesshoumaru._ Peço, tentando soar sincera, mas ouço que minha voz saiu em tom de súplica, era um assunto sensível e o buscava nos céus a força para não desabar.

O fato de que o albino me lembrava descaradamente seu irmão não ajudava-me a lidar com a situação. Por que eles são tão parecidos? Apesar de terem personalidades tão opostas… Pelo menos com o outro, eu poderia usar o Kotodama.

—Vamos voltar._ Tento novamente, sem encará-lo. Não o via ali e sim, sua versão menor e mais ativa, com orelhas caninas e dentes salientes.

—Explique._ Novamente ele se mostrou irredutível. Sua postura deixava claro que eu não sairia dali sem lhe oferecer sua resposta. Continuei encarando algum ponto entre os meus pés, até sentir seu toque em meu queixo, me puxando quase rudemente, obrigando o contato visual consigo. Eu sabia que ele iria até o fim dessa vez.

—Eu não mereço... Ser companheira de um youkai..._ murmuro baixo repetindo as palavras de Inuyasha, sentindo novamente as pontadas em meu peito.

—O hanyou disse isso? _ Sesshoumaru perguntou, fazendo com que fosse impossível não reviver a minha despedida.

—Hai.

—E como terminou ferida?

— Eu fugi.

— Tente me convencer melhor _ Ele estava implacável.

— Pulei de um penhasco.

—Aquele hanyou vale a sua vida?_ O escárnio era tão cru, que sua voz o tornava palpável. Onegai, pare, Sesshoumaru.

Eu via que não passava de lixo aos seus olhos, mas tudo bem. Eu me sinto assim, eu não sou forte como Kikyou. E como todas as vezes que nos comparo, chego à conclusão de que ela merece mais, por ter sofrido tanto em sua vida e por ter partilhado sua alma comigo. Inclusive, merece o amor de Inuyasha, que aguardou por todos esses anos o seu retorno.

Não aguento e o primeiro soluço vem num espasmo.

Sesshoumaru virou de costas para mim, o seu jeito de me dar privacidade, após ser a causa do meu choro. Aos poucos, os vários flashes passavam por minha mente, com a veracidade de que nunca voltaria a ser como antes, Sesshoumaru fizera com que toda a minha força de vontade se esvaísse, sua palavras cruéis me atingiram profundamente e de um jeito que não pude mais controlar minhas emoções.

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Viajávamos sem rumo, na verdade, eu sabia o destino, Oeste. Não me atrevera a perguntar ao albino sobre quanto levaria para chegarmos ao nosso destino, e também, nem Sesshoumaru voltou a se pronunciar desde mais cedo, no Rio. Estávamos confortavelmente nos ignorando por horas desde que ele me fez chorar como uma criança. Estava com a pequena Rin caminhando ao meu lado, feliz, sem perceber o clima pesado entre nós.

—Hai, Rin-chan._ concordei para não deixá-la falando só.

Passamos o resto do dia assim, até Rin demonstrar sinais de cansaço, mesmo sem informar ao grupo. Era por volta do fim da tarde quando paramos numa clareira não muito grande. Nela estava Jaken, nos esperando com algo familiar aos seus pés.

— Minha bolsa!_ Reconheci o objeto amarelo que não pertencia ao Japão Feudal.

Corri ao seu encontro e explorei os meus bens, estavam todos aqui, exceto pelo meu arco e flechas, que provavelmente estava com Kaede Obaasama. Mesmo assim, era reconfortante ter tudo o que era meu por perto, não que eu reclamasse da hospitalidade, digamos assim, do grupo, mas a sensação de estar de mãos vazias me incomodava.

— Kah-chan, o que é isso?_ Rin pergunta apontando para o objeto quadrado em minha mão, minha câmera estilo polaroid. A trouxe há tempos, pois com ela poderia marcar os momentos com os meus amigos e imprimir suas fotos sem precisar retornar ao meu tempo e ir numa máquina reveladora.

— Lhe mostrarei, fique parada e sorria para mim.

Ela estranhou, mas ainda sim o fez. Esperei o processo de impressão da máquina e logo tive o papel em mãos. Foi bem engraçado como Rin ficou confusa sobre como aquela pequena coisa conseguia fazer uma pintura dela tão rápido e a tempo passou enquanto tentava lhe explicar o funcionamento de uma máquina fotográfica, que escalou para uma câmera de vídeo, cinema e tudo o mais que a menor perguntava sobre as tecnologias do século 21.

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Notas finais do capítulo
Então né, mais um. As vezes, eu só sinto vontade de burlar tudo, cria uma cena muito louca e fazer esse casal se unir de uma vez. Vocês pensam assim também quando leem? Até a próxima! bjuss bjuss bye!