Capitulo 9

—/-/Kagome/-/-

O kimono cor de pêssego combinada perfeitamente com o meu tom de pele e com o obi avermelhado, completava a vestimenta com coerência. Uma coisa que aprendi a gostar, após tantos anos na era Feudal, eram os kimonos, belos e imponentes. Apesar disso, poucas foram as vezes que tive alguma ocasião para utilizá-los, já que somente nobres o usam com tanta frequência assim, ainda mais dentro de casa. Trancei meus cabelos, já que era o mais simples que conseguia sozinha, não precisava ser um gênio para deduzir que não possuiria a ajuda de nenhuma serviçal.

Não tardou, e Rin veio ao meu encontro, também arrumada, com um kimono verde claro e obi azul. Seus cabelos curtos soltos.

—Rin, chan, venha, vou arrumar seus cabelos!_ Ofereci carinhosamente. Feliz por vê-la sorrir com isso. Durante o processo, Rin e eu conversávamos sobre seus gostos.

Talvez tenha durado tempo demais, pois pude sentir a presença intimidadora de Sesshoumaru se aproximando.

No começo, estranhei que, ao recuperar a minha afinidade pelo reiki, permaneci com a habilidade de reconhecê-lo. Talvez meus sentidos estejam acostumados com sua energia, nunca saberei o que, de fato, ocorreu, simplesmente eu tinha, agora, uma facilidade em encontrar sua presença. Podia sentir que estava com meus "estoques", digamos assim, quase totalmente abastecidos após passar o resto da tarde meditando em meu quarto. O quarto sagrado Shinsei tinha, em seu nome, o motivo de ter sido designado para mim, ele era o ponto de convergência espiritual dessa região. Perfeito para uma sacerdotisa que precisa repor seu reiki.

—Entre_ Indiquei para o maior, que esperava de frente à porta.

Lembro-me de mais cedo, quando chegamos aqui. Sua postura tensa, e forçadamente inabalada ou pelo menos o que tentou aparentar. No entanto, agora, ele parecia estranhamente confortável, mesmo em sua casa eu não o havia visto dessa maneira tão... Despreocupada até o momento. Seus cabelos estavam presos, num rabo de cavalo baixo e não usava suas armaduras ou espadas. Suas vestes azuis escuras eram como o céu noturno e contrastavam com seus cabelos alvos, pareciam perfeitamente escolhidas para ele, numa combinação quase imoral de tão bela. Quem o visse, poderia confundí-lo com um mensageiro de Kami, ou de Tsuki. Definitivamente, um Lorde.

Senti seu olhar questionador e percebi que passei tempo demais sem dizer nada, somente o fitando. Pare de encará-lo, Kagome! Pensei desesperada sentindo um calor na face, como se eu não pudesse estar numa situação pior. Fui pega cometendo o crime!

—Senhor Sesshoumaru, nos atrasamos?_ Rin fez-se notar.

—Lie, estou adiantado.

— Kagome-chan penteou meus cabelos, gostou, Senhor sesshoumaru?_ A pequena fez questão de rodar para que o youkai avaliasse o meu trabalho, prendi seu cabelo com fitas em dois coques laterais, sua franja reta eu deixei solta.

— Hm._ Respondeu e Rin agiu como se dissesse sim.

Novamente tive a sensação de que não deveria presenciar tal situação entre ambos, como se fosse algo íntimo demais para que qualquer um visse. Desviei meu olhar e fiquei esperando o desenvolver do diálogo de ambos, tentando não me fixar em nada. Estava incomodada, entretanto eu não poderia sair do ambiente, já que não estávamos todos indo para o mesmo lugar.

— Sesshoumaru-sama fica bem de azul não é, Kah-chan?_ perguntou Rim sorridente, sem perceber meu estado envergonhado. Olhei para a pequena e lembrei que não deveria sentir vergonha do youkai e nem virar o rosto em sua presença, se estou vivenciando esse momento, é porque ambos estão me permitindo.

— Hai, é a primeira vez que não o vejo de branco._ comentei para a pequena, ela fez uma cara pensativa.

— Verdade, e o branco ainda faz o Sesshoumaru-sama parecer velho!

A espontaneidade da pequena chocou a todos, mas assim que vi a cara de Sesshoumaru ao ouvir o "elogio", me arrependi de não estar com a câmera a postos. Uma cena impagável! Única na vida, meu deus, todo o meu ar acabou com o ataque de risos que me dominou, apesar da culpa que me veio ao ver a expressão confusa da menor, me vendo cada vez mais sem ar.

— O jantar está servido. _ ouvi Sesshoumaru dizer bruscamente e se retirar do recinto. Foi quase como um alarme para meu estômago avisar que não trabalharia mais para a sua dona ingrata se não fosse muito bem alimentado hoje.

—Certo, vamos Rin, kami, isso foi muito bom!_ perguntei para a menor que ainda estava confusa, mas assentiu.

Sesshoumaru nos aguardava no corredor, andando a passos lentos, como se avisasse que nos esperava. Sorri pelo gesto, definitivamente, estou presenciando um outro lado do youkai. O seguimos até uma porta de correr clara que não era efetiva em esconder o delicioso aroma da refeição.

A sala de jantar era bastante espaçosa, como toda a casa do youkai e elegante o suficiente para me fazer desejar me arrumar melhor, somente para estar nesse cômodo. Os móveis pareciam esculpidos a mão, e nas paredes, quadros enormes, com uma riqueza de detalhes transferidos para sua tela. O maior deles retratava inúmeros Daiyoukai voando em conjunto, do céu noturno com uma lua minguante no centro, noutra parede, havia um retrato de um homem, um daiyoukai similar a Sesshoumaru, idêntico se não fosse pelo sorriso e olhos alegres, que lembravam Inuyasha, de certa forma. Ao seu lado, havia uma mulher que não deixava dúvidas ser a mãe de Sesshoumaru, sua perfeita versão feminina.

A mesa estava repleta de pratos dos mais diversos, que só pioraram meu protesto estomacal.

—/-/Sesshoumaru/-/-

A observava em cada atitude, trejeito e dizer. Incapaz de controlar minha curiosidade sobre quanto mais dela existia. Diversas foram as facetas que a humana demonstrou nos poucos dias de convivência e de todas, estou certo de que essa combinava muito mais com sua figura delicada. O rosto limpo e cabelos penteados, roupas elegantes que enaltecem compuseram o conjunto perfeitamente.

Após o jantar, que confesso ter demorado mais do que o costume, ordenei que Kimiko acompanhasse a Miko e Rin até seu o salão, para que ambas pudessem descansar e aproveitar o resto da noite acompanhadas. E, apesar delas saírem do cômodo, permaneci atento à sua posição, às acompanhando mentalmente até que estivessem no local correto.

Assim, me dei por convencido, me levantei, indo em direção ao Sul da casa, onde ficava meu escritório. Deslizo a porta dupla do ambiente e passo por ela sentindo o cheiro de papel que tanto me agradava. Esse era o único canto da casa em que ninguém nunca entrava, a única exceção era da empregada chefe, autorizada a limpar semanalmente o local e ela sabia o perigo de retirar qualquer papel daqui.

O pouco trabalho que acumulei nos últimos 15 dias que me ausentei, estavam encaminhados, se não resolvidos. Haviam pouquíssimos assuntos urgentes a serem tratados, o que me dava certa folga para aproveitar a noite. Peguei um livro que há muito não lia e era um de meus prediletos, escrito por um youkai urso. Falava sobre as diversas culturas existentes nesse mundo, as diferenciava e as comparava, segundo ele, existiam povos que andavam ao natural de dia e a noite, se reuniam em torno de fogueiras para discutir seus deuses numa língua primitiva, com urros e sons, entre outras características inusitadas.

.

Era tarde quando decidi retornar aos meus aposentos, dando o dia por encerrado. Após tantos anos de jornada, adquiri o hábito de correr a noite em alerta, alongando o dia para além do necessário. Isso até Rin intervir e pedir que eu tentasse tomar esse local como área segura e relaxar a guarda, inconsciente do perigo que existia, até mesmo aqui, onde eu mais tinha autoridade. Os Youkais são seres acostumados a dominar os fracos. Aqui, enquanto eu estivesse no comando, seria sensato não ousar desobedecer-me, todavia, nada me garantia a reprodutibilidade disso com as humanas.

Ao me aproximar da ala dos quartos, pude sentir que ambas já haviam se recolhido. Rim estava em meu antigo aposento, o primeiro deles e a Miko estava no último. Originalmente, o quarto sagrado não poderia ser usado por nenhum youkai e sua existência servia, secretamente, de treinamento para os herdeiros do castelo. Deveríamos aprender a suportar nossa energia oposta, para que não houvesse uma fraqueza tão simplória em nossa linhagem. Não pude imaginar o quarto mais ideal para si.

Deparei-me comigo mesmo encarando a porta do mesmo, inconscientemente atraído enquanto vagava distraído. Porém, a proximidade me fez sentir seu aroma especialmente concentrado naquele local. Seu cheiro de fêmea. Minha fera fez questão de salientar. Eu estava consciente do aroma, intenso, agradavelmente marcante para o meu olfato e que tomava todo o ambiente que a humana adentrava.

Inspirei profundamente, ao escutar seus passos para além do banheiro, como se para me atrair, a situação brincando com meu inconsciente cada vez mais ativo. Ridículo. Apresso-me para sair dali, conhecia as consequências de ser exposto aos feromônios, principalmente quando sua Fera estava tão eriçada.

Entro em meu quarto, decidido por tomar outro banho, dessa vez gelado.

Foi inútil.

Estava tão absorto em pensamentos que tardei a escorrer durante o banho, os fragmentos de nossos encontros anteriores brincando em minha mente ao formar novas imagens de situações elaboradas e igualmente vergonhosas. Sentia-me perder parte do controle, mas jamais faria algo tão decadente, independente de ser para calar a besta que queria assumir, objetivando invadir o cômodo próximo e equilibrar esse desejo.

Como num castigo, o sono fugiu-me devido a minha indignação. Permaneci nu, deitado enquanto recusava-me a refletir sobre a origem desse vergonhoso assunto e correr o risco de significar algo tão primitivo. Porém Tsuki negava-me a bênção onírica, zombando de meu sofrimento e prolongando-o além do necessário.

Desisto de ficar na cama, certo de que um passeio pelos jardins acalmará minha mente. Decidido, então, vesti-me com o hakama e sai pela varanda em plena noite a caminho do jardim principal..

Eram em noites insones como essa, que o jardim revelava a sua maior qualidade. Durante o primeiro ano de Rin aqui no Oeste, decidi que esse seria seu presente de agradecimento por seus cuidados. Hoje, vê que foi uma ótima decisão elaborar tal ambiente na residência, tanto para Rin, que amava as flores e fez questão de escolher cada uma das espécies, tanto para mim, que me conectava com a natureza, apesar de estar dentro dos muros.

E foi isso que pensava, até sentir a presença do ser que me causou tamanha confusão, ironicamente desfrutando do local onde eu buscava esquecer de sua existência. Eu ainda não havia sido percebido pela Miko, de tão concentrada que ela estava, posicionada no meio da ponte do lago, observando o céu escuro. Nessa noite minguante, sua imagem servia para compensar a falta do luar.

Ela estava vestida com um kimono simples, longo o suficiente para ser arrastado no chão, e com mangas que acompanhavam o comprimento do mesmo, apesar disso, era decotado o suficiente para ser possível observar o colo da mesma. A veste, de um negro escuro, fazia o branco de sua pele se ressaltar e o azul de seus olhos se destacarem, como se ficassem mais claros com o tom da vestimenta. Os cabelos longos estavam, pela primeira vez, soltos, ainda úmidos, indicando seu banho recente, tornavam sua imagem etérea, um ser sagrado em meio a noite.

—Sesshoumaru?_ Escutei-a chamar, e logo tratei de esquecer o que pensava antes. Recusando-me a nutrir tamanha loucura.

—Kagome _ respondi, minha voz soando mais grave do que o normal. Permaneci imóvel, certo de que seria mais fácil me controlar assim. Não era a primeira vez que presenciava essa situação, no entanto, essa não estava sendo sua melhor noite. Costumava controlar os instintos, mas assim que a viu, teve quase certeza que não conseguiria, Tsuki brincava consigo novamente, desde a noite que decidi fazer o compartilhamento, para evitar sua morte. Era uma alternativa aos desejos de tenseiga, pois a partir do momento que a usasse, eu ligaria o fio do destino da Miko ao meu e isso era inadmissível.

Já era de seu conhecimento que estava se aproximando demais da Miko desde então, sua curiosidade lhe trouxe aqui. O compartilhamento de sangue fora comente o início de um longo processo, ao ponto de sentir que sua fera insistia em manter seus desejos presentes.

Kagome estava parada, do mesmo modo como a encontrei, dirigindo-me uma atenciosa observação, enquanto eu fazia questão de acompanhar seu olhar pelo meu corpo. A mudança em sua expressão tornou claro que seus pensamentos mudaram de rumo, para um que a envergonha profundamente. Em meu âmago, minha fera sorriu satisfeita pelo seu desejo, uma atitude primitiva. Decido encarar a lua, desejando que Tsuki traga-me o autocontrole que preciso.

Daí Youkais eram seres noturnos, tal como sua origem, era para a Lua que devem sua lealdade. Por isso, o turno da noite era especialmente complicado suprimir por completo sua parte fera. O vento denota sua diversão comigo, pois fez questão de tornar o aroma da Miko presente a cada respirar meu. Quando jovem, costumava simplesmente assumir sua verdadeira forma durante todo o período, a fim de unir-se ao seu cerne, mas hoje vê que é uma atitude inútil.

Sinto que permaneci sendo alvo de sua atenção, seu olhar era cru e avaliava cada canto exposto meu. Deixando-me curioso com a tonalidade que tomariam sua face se eu permitisse que visse além disso.

—Está sem sono?_ Ela pergunta de repente, alheia aos meus pensamentos.

Aceno afirmamente.

—Lamento, se preferir, posso deixá-lo sozinho._ Ela prontificou-se a descer da ponte, caminhando até mim, seu predador natural. Lie, pensei, sem a coragem de externar. A acompanhei se aproximar, uma fêmea pronta, não pude deixar de notar,Que lamentável situação esta.

Ela estava a poucos passos, próxima o suficiente para incapacitar-me de desviar a atenção novamente. Seus olhos eram de um azul profundo, escuro em sua maioria, com manchas claras por toda a iris, piscavam suavemente, convidando-me a mergulhar em sua imensidão. Seus lábios eram tentadoramente umedecidos por si, avermelhados e carnudos, que se moviam para mim, num monólogo indecifrável.

—... -ersar um pouco?

—Hm._ Me fiz ouvir para demonstrar minha atenção plena. Era divertido ver o tom rosado de seu nariz se espalhar para as bochechas ao ter tamanha atenção, era um ato de timidez adorável. Percebo que estava novamente divagando e não escutei parte de sua frase. Concentrei-me novamente.

— -ui capaz de recuperar meus poderes. O que me torna novamente grata a você, por ter me oferecido Shinsei. Não sei como posso retribuir tamanho favor, se houver algo que lhe venha à mente, torne claro e farei o meu melhor._ Então se curva respeitosamente, pela primeira vez, como prova de sua gratidão.

Sua inocência brincava com meus sentidos, o decote médio de seu kimono me dava margem para imaginar, mas não me movi, não ousaria tomar tamanha atitude. No entanto, tudo o que me vinha à mente era detestável demais para ser dito. Sua escolha de palavras foram perfeitas para esse momento, como reflexo de um tempo de consideração, apesar disso, eu soube que não possuíam o significado que meu ser enviesado insistia em tomar.

Devo considerar evitar ficar sozinho em sua companhia durante esses dias, até que tal período se finde ou então posso não ser capaz de controlar meus anseios numa próxima vez. Minha falta de resposta deve ter servido como afirmativa. Pois a mesma indicou que iria se retirar e, quando percebi, estava encarando fixamente a porta de sua varanda.

Notas finais do capítulo
Essa com certeza foi a cena mais difícil que tive até agora. Nossa, tentar imaginar como o Sesshoumaru iria reagia me enlouquecia, tive de reescrever várias vezes até sentir que estava ao menos um pouco próximo do que eu imaginava. (e sim, esse foi outro momento que quase decretei os felizes para sempre, por mim, a fic resovia toda no capítulo 1, bem oneshot fanfiqueira) Até mais, Bjus bjus Bye!