Harry suspirou entediado enquanto folheava o Profeta Diário.
- Meu senhor quer mais chá? - perguntou Filp o elfo doméstico que Harry contratou a alguns meses.
- Não Filp, obrigado.
Com uma reverência o elfo se retirou.
Ele parou em uma das páginas, que falava sobre uma prisão a bruxos que praticavam magia negra, feita pelo ministério da magia francês. Franziu a testa confuso, jurava que conhecia a mulher que saiu na foto, um pouco atrás de um dos presos enquanto conversava com o que ele sabia ser o chefe do departamento dos aurores da França. Harry balançou a cabeça, estava ficando louco só podia, sabia bem a quem sua mente ligou aquela imagem, a caçula da família do seu melhor amigo, Gina Weasley.
Harry levantou-se, tomou seu resto de chá e aparatou.
Fazia uma semana que Harry leu também nos jornais que a grande estrela Gina Weasley artilheira de quadribol, que tirou o time Pride of Toulouse da segunda divisão da liga francesa depois de um século lá e que na temporada seguinte conseguirá conquistar a terceira colocação na liga principal, a melhor posição na sua história, o prêmio de atleta revelação da temporada e a convocação para a seleção inglesa. Os jornais atribuíam essas conquistas do time a Gina, mas ela sempre lembrava que eram uma equipe e que não conseguiria nada sozinha.
Ela começou no time como reserva da apanhadora principal a um ano e meio, mas ganhou chance quando uma das artilheiras saiu do time para os Tornados de Tutshill e a reserva da posição acabou adoecendo, desde então Gina nunca mais foi reserva. Harry chegou a assistir três jogos da liga no estádio dela como titular, mas sempre ouvia as narrações. Mas, o que o deixou impactado não foi isso, ele sabia melhor que ninguém que ela seria uma jogadora incrível, afinal não conhecia ninguém mais determinado que a ruiva, nem mesmo sua melhor amiga Hermione Granger. Naquela noite em que Gina lhe contou o que faria, ele sabia que o destino dela já estava traçado em volta de muito sucesso.
O que o deixou desconcertado foi o anúncio de que Gina Weasley era a mais nova contratação do Harpias de Holyhead. Harry imaginava a euforia dela, afinal ela era fã desse time desde que a conhecera. Ele estava nervoso em como seria quando a visse.
Depois daquela noite em que ela foi embora da Toca, eles passaram a trocar correspondência quase todos os dias, depois Harry passou a pegar uma chave de portal todos os fins de semanas para vê-la, era como se todos aqueles dias fossem um dia ensolarado de verão. Eles começaram a namorar novamente, ele se lembra do gosto dos lábios dela tão nitidamente como se os estivesse beijando agora mesmo, se lembrava do cheiro dela, de como suas mãos pareciam certas em seus cabelos e de como as dela sempre sabiam aonde ir.
Ele chegou a imaginar que finalmente tudo daria certo para eles, assim Harry não se segurou e foi no primeiro jogo dela como titular e no seguinte, depois ele só conseguiu ir ao último, o que levou o time a primeira divisão, que foi onde tudo deu errado.
A França tinha um contingente muito grande de famílias puro sangue, muitos deles apoiaram Voldemort e o ministério não tinha influência suficiente para poder prender mais da metade da sua população adulta, então eles estavam livres em sua maioria. Harry foi reconhecido e encurralado enquanto descia para a entrada de acesso as jogadoras, os bruxos o pegaram desprevenido e eufórico para comemorar com Gina, enquanto caminhava ele já podia vislumbrar a noite de comemorações, de como suas mãos apertavam as coxas delineadas pelo treino e a forma como ela arranhava suas costas...
- CRUCIO - gritará um dos comensais, fazendo com que Harry sentisse uma dor excruciante, mas conseguiu engolindo o grito de dor - SOFRA POTTER, QUERO QUE GRITE DE DOR.
- O que ele estava fazendo aqui? - questionou o mais alto dos quatro - Parecia ir atrás de alguém.
Harry tentou parecer ainda mais perdido na sua dor, mas seu coração acelerou ainda mais, eles não podiam ligar para Gina.
- Aquela garota, a ruiva - disse outro bruxo de longa barba branca sentado em um caixote observando tudo - Ela também não é britânica?
- Sim - concordou o garoto parado ao lado do barbudo - Gina Wesley, o irmão dela é o melhor amigo desse aí, se não estiver enganado.
- Bem, acho que já sabemos o jeito de fazê-lo gritar - sorriu malicioso o homem que lançava a maldição em Harry - Uma pena, pois ela nos fez homens muito felizes esta noite, mais uma coisa que você vai estragar, Harry Potter.
Apavorado, ele não podia deixar aquilo acontecer. Se concentrando mais do que achava possível naquela ocasião pensou " Accio Varinha" por alguns minutos, enquanto os bruxos se reuniam para decidir o que fazer.
Quando sua varinha o encontrou, ele suspirou e conjurou sua capa de invisibilidade. Harry vinha treinando bastante seus feitiços silenciosos, com e sem varinha, com varinha natural, agora sem... ele nem acreditou que conseguiu naquela situação.
De maneira silenciosa ele usou um feitiço que aprendeu em seu treinamento, era o que os trouxas poderiam chamar de projeção ou algo assim, era como se ele ainda estivesse ali deitado. E aguardou.
Como ele imaginava, dois seguiram para fora do beco escuro e fedido, quando se afastaram suficiente para quem ficou lá não ouvisse, ele estuporou um, em seguida o outro, quando pensava em amparar o amigo. Lançando um feitiço abafador sobre eles, os levitou até a entrada do beco os largando de qualquer jeito. De volta ao beco, ele estuporou os outros dois que já tinham notado a ilusão e convocou Rony.
Ele apareceu meio minuto depois, parecendo raivoso.
- Harry Potter, eu espero realmente que seja al... - Rony parou olhando para os quatro homens caídos aos pés do amigo - Que porra é essa?
- Eles me atacaram.
- O que você faz na França? - perguntou Rony confuso.
- Vim para um evento - disse Harry rapidamente.
- Sei... - comentou Rony olhando desconfiado para o amigo - O que faremos?
- Não sei, o que sugere?
- Cara, a Hermione tem um contato aqui, podemos chamar os aurores franceses.
- Ótimo, vou cha...
- Deixe comigo, afinal somos namorados.
Revirando os olhos, Harry esperou. Minutos depois Hermione estava ali.
- Que tipo de encrenc... - disse Hermione parecendo chateada - Ah, bem, bruxos das trevas?
Harry e Rony assentiram.
- O que estamos fazendo na França? - perguntou Hermione confusa - Não era hoje o último jogo da Gina?
- Ah sim, papai e mamãe est... Espere, é por isso que está aqui? - perguntou Rony ficando vermelho.
- Claro que não, tinha uma missão para resolver - apressou-se Harry em dizer.
- Sei - disse Rony ainda muito desconfiado.
- Enfim, tenho um contato no ministério, vou mandar um patrono - cortou Hermione.
Minutos depois o chefe dos aurores franceses estava ali e foi onde Harry o conheceu, levou os presos e ele voltou para casa. Confuso e angustiado ele sequer se lembrou de avisar a Gina que não iria vê-la, no dia seguinte ele recebeu uma carta dela e nos próximos cinco também, a última bastante furiosa. Harry não respondeu nenhuma das cartas e não foi a nenhuma das reuniões na Toca em que soubesse que ela estaria.
Hermione veio vê-lo alguns dias depois, preocupada com o amigo e Harry a disse que estava fadado aquela sombra o perseguindo, nunca seria apenas um cara vivendo sua vida, seria sempre o menino que sobreviveu e em hipótese alguma pretendia colocar Gina em risco com isso, por mais que os últimos seis meses tivessem sido os melhores da sua vida, ele aceitou que seu destino era completamente solitário. Hermione discorda, é claro, mas não havia nada o que ela pudesse fazer para o fazer pensar diferente.
Estressado com as lembranças Harry adentrou o ministério com cara de poucos amigos, a maioria das pessoas não o parava nos corredores a algum tempo, todos sabiam que além de ser aquele que derrotou Voldemort ele também vinha se tornando um grande auror, onde raramente falhava em suas missões.
Seguiu para a cabine que divide com o amigo de infância Ronald Wesley, amigo este que estava muito esquisito nas últimas semanas, parecia sempre nervoso e parecia querer contar algo a Harry, mas não tinha criado coragem suficiente. Esperava que não fosse nada grave, ainda não tinha tido tempo de conversar com Hermione sobre isso.
- Senhor Potter - chamou timidamente a secretária de Harry alguns minutos depois dele chegar - O senhor Figman quer sua presença na sala dele imediatamente.
A senhora Snow era a secretária do nível dos aurores que Harry estava, ela devia ter por volta dos 40 anos, sempre muito gentil e temerosa quando falava com ele.
- Ok, já estou indo.
John Figman era o chefe dos aurores desde o fim da guerra, foi um dos poucos aurores fora Kisgaman a não cederem ou serem pegos pelos comensais. Normalmente era alguém razoável, mas tinha muitas ideias mirabolantes se lhe fosse dado espaço.
- Olá Figman, disseram que queria falar comigo.
- Sim - disse Figman levantando os olhos do documento que lia - Sente-se por favor!
Ele tinha em volta dos 50 anos, alguns cabelos brancos e uma barba cheia, era alto e esguio, excelente nas lutas, sua agilidade espantava Harry.
- O que aconteceu?
- Sempre tão direto, queria que todos fossem assim - comentou Figman tomando um gole do seu chá - Houve uma fuga na prisão da França, comensais.
- E o que tem...
- São os que você capturou - cortou Figman.
- Como? - perguntou Harry sentido um gosto amargo na boca - Como conseguiram isso?
- Não sei ao certo, mas houve uma fuga em Azkaban também, mesmo dia, horário semelhante. Rodolfo Lestreange. Ainda não sabemos se estão interligadas, mas...
- É preciso ir, preciso verificar se uma pessoa está bem - disse Harry nervoso já se levantando pensando em mil coisas, ele não conseguia ouvir mais nada do que Figman dizia.
- Não, você tem que ficar, o ministério francês mandou uma auror para trabalhar em conjunto, mas se você vai reagir assim a esse caso acho melh...
- Quem mandaram? - interrompeu Harry, pior que a angústia que o atingia seria não saber nada sobre a operação.
- Bem, acredito que você a deve conhecer melhor que eu já que el... - uma batida decidida o interrompeu - Deve ser ela.
Figman apressou-se em abrir a porta com um aceno da varinha e Harry virou-se para ver quem havia chegado e o seu coração pareceu parar por alguns segundos. Não poderia ser ela, ele conhecia bem aquele par de olhos castanhos e poderia jurar que sabia a quantidade exata de sardas que ela tinha no rosto, mesmo depois de tanto tempo sem se verem. Mas como em nome Merlin, ela poderia estar ali?
- O que... O que você está fazendo aqui?
A resposta de Gina Weasley foi sorrir ironicamente.
